«Suster», «sustar» e ignorância

Ora sus!

Na semana passada, vi na RTP Memória parte do documentário Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul Injustiçado, da autoria de Diana Andringa (e pelo qual ganhou em 1993 o Prémio de Jornalismo da FLAD, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento). A determinada altura, a voz off lê excertos de um relatório que o embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira (1902-1972), depois de ter falado com o cônsul em Bordéus, escreveu a Salazar. No documento lia-se claramente «sustei» (do verbo sustar), mas a voz «corrigiu» para «sustive» (do verbo suster). No contexto, têm um significado semelhante, mas para o caso não interessa. O erro decorre, creio, do facto de a maioria dos falantes não conhecer o verbo «sustar». Imperdoável num comunicador. Boa lição para toda a gente: se mostrar, não leia, e vice-versa. E vão consultando o dicionário da língua portuguesa. Não nos (e se) envergonhem.

«Rodeio» e «Estoi»

Nada de rodeios

      «O Tribunal de Faro proibiu ontem a realização de um “rodeio brasileiro”, espectáculo programado para a Feira do Cavalo de Estói, que decorre este [sic] hoje e amanhã na capital algarvia, informou a associação Animal. O “rodeio brasileiro” deveria acontecer hoje à noite, como parte do Campeonato Nacional de Rodeo, promovido pela associação portuguesa da modalidade e uma empresa que recentemente organizou um “rodeio” em Santiago do Cacém, que culminou no desabamento de uma bancada» («Tribunal proíbe realização de rodeio», Diário de Notícias, 6.09.2008, p. 39). Temos então, no mesmo texto, «rodeio» e «rodeo». No Brasil, há duas acepções do vocábulo: uma significa a reunião de gado, no campo, para o marcar; outra, a competição que consiste em montar cavalo ou boi não domesticados e permanecer montado o maior tempo possível. Ora, este conceito parece coincidir com o expresso pela palavra espanhola rodeo: «En algunos países de América, deporte que consiste en montar a pelo potros salvajes o reses vacunas bravas y hacer otros ejercicios, como arrojar el lazo, etc.» (in DRAE). Seja como for, não me parecem necessárias as aspas a envolver a palavra.
      Quanto ao nome da localidade: quase todas as obras ainda registam «Estói» — tenho o Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis, Editorial Notícias, 30.ª edição, aberto na página 168 e é isso que leio —, e eu próprio assim o grafei aqui uma vez, mas o certo é que pela Lei n.º 32/2005 (D. R. n.º 20/2005, I-A), de 28 de Janeiro, se alterou a denominação para Estoi.No Público, as aspas e a ortografia da palavra são as mesmas: «Tribunal de Faro proíbe “rodeio” em Estói dando razão aos defensores dos direitos dos animais» (Idálio Revez, Público, 6.09.2008, p. 22).

Actualização em 8.10.2009

      No debate da Antena 1, moderado por Maria Flor Pedroso, entre os candidatos de Faro às eleições autárquicas, José Apolinário, presidente da Câmara de Faro desde 2005 e recandidato pelo PS, pronunciou claramente /Estôi/. Infelizmente, também disse: «desde os 4/5 anos calcorrei cada um das estradas e caminhos do interior do concelho».

Recursos


De Itália

Como acontece com outros jornais, o sítio do Corriere della Sera tem, entre outros, um bom dicionário de língua italiana e uma enciclopédia, La Rizzoli Larousse. Para ver aqui.

Queiroz, Queirós


Lá isso é verdade


      Carlos Queiroz, o seleccionador nacional, nasceu em Nampula a 1 de Março de 1953. O leitor não sabia? Então, ao contrário do que julga, não é culto. Adiante. Por vezes lê-se que os indivíduos cujo nome foi registado antes do acordo ortográfico de 1945 podem usar este apelido com a forma então vigente: Queiroz. Ora, terá o pai de Carlos Queiroz registado o filho antes de 1945? Não me parece, não é possível registar nascituros. E oito ou nove anos antes…
      Quase tudo o que se refere à ortografia dos nomes próprios gera polémica, bem sei. Não me vou eximir a ela. Sei que há professores que corrigem os seus alunos quando estes escrevem «Eça de Queiroz». Que é «Queirós», de acordo com a ortografia actual, argumentam. Bem, então parece que a regra tem esta excepção implícita: os indivíduos cujo nome foi registado antes do acordo ortográfico de 1945 podem usar este apelido; se já morreram, podem escrever-se conforme à ortografia em vigor. É isso? Felizmente, a Fundação Eça de Queiroz não acatou estas pseudo-regras. E não tenho notícia de alguém pretender corrigir o nome do seleccionador…

Actualização em 13.09.2008


      «Queiroz no bilhete de identidade. O sobrenome do seleccionador nacional criou sempre muita confusão quanto à forma como se escreve. Nos jornais uns escrevem Queiroz [,] outros Queirós, na realidade no bilhete de identidade está escrito Carlos Queiroz» («África espalhada pela casa», Diário de Notícias/DN Sport, 12.09.2008, p. 24).

Ortografia: «ibero-americano»

Distracções

«O autor de Cem anos de solidão está em Monterrey, capital do estado de Nuevo León, Norte do México, para participar na 7.a edição dos prémios atribuídos pela Cementos de México (Cemex) e a Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI) nas categorias de texto, fotografia e carreira aos mais destacados jornalistas iberoamericanos» («Gabriel García Márquez critica imprensa escrita», Diário de Notícias, 3.09.2008, p. 62). «Jornalistas iberoamericanos»? Só se for um erro de simpatia. Em espanhol é que é iberoamericano, em português é ibero-americano. Regista o Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), de Rebelo Gonçalves, na página 541: «ibero-americano, adj. V. afro-brasileiro.» E na página 37: «afro-brasileiro, adj. Flexs.: afro-brasileira, afro-brasileiros e afro-brasileiras. Tal como neste caso, são invariáveis no primeiro elemento todos os compostos de estrutura análoga.»

Ortografia: «videoarbitragem». Bisesdrúxulas

Não recues tanto

      Um leitor, Rui Pires, pergunta-me se está correcta a palavra «vídeoarbitragem». Em termos de composição, está correcto, pois o elemento antepositivo video- não leva hífen quando se junta a outro elemento. O acento, contudo, está incorrecto. Nunca o acento gráfico (e a sílaba tónica) pode recuar para lá da pré-antepenúltima sílaba. E esta já é uma excepção à designada «janela de três sílabas». Quando a tónica recai na pré-antepenúltima, designamos o vocábulo por bisesdrúxulo, sobredáctilo ou sobresdrúxulo, o que ocorre em sequências fonéticas com verbo mais pronome clítico (e também, mas de forma irregular, em palavras plenas na escrita e na oralidade: espécimenes, júniores, séniores, etc.). Por exemplo, tomávamo-lo. Também em espanhol há esta designação, e como exemplos: cómpratelo, llévatelo, póngasela, etc.

Revisão II

Frasicida

Gostava de ter uma rubrica sobre as frases que poderiam existir se eu não estivesse lá para as matar à nascença. Mas não posso, claro. A antológica de ontem seria esta: «“Pelo menos um outro atleta merecia ter vindo mais cedo”, ainda acrescentou, sem se referir a quem.» «Sem se referir a quem»? Não foi referida, não vingou. Ah, este texto soa-me, já li isto em qualquer lado…

Selecção lexical

Muito bem

«Havia receios de que o furacão Gustav trouxesse danos catastróficos, mas depois de dois milhões de pessoas terem sido retirados da costa do golfo do México — a maior evacuação da história dos Estados Unidos —, o furacão perdeu intensidade e os estragos que já fez são considerados “mínimos”» («Gustav inunda cidades e faz nove mortos mas em Nova Orleães respira-se de alívio», Joana Azevedo Viana, Público, 3.09.2008, p. 11). Como vêem, nem todos os jornalistas caem nos erros já muito debatidos. Muito bem: as pessoas foram retiradas, não evacuadas.
Ter escrito «golfo do México» (que é o que está correcto) em vez de «Golfo do México», como todos os dias se lê, é de celebrar com fogo-de-artifício e fanfarra.

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