«Sedeado» e «sediado»

Paz universal

Na mesma edição, a de ontem, podia ler-se no Diário de Notícias «sedeado» e «sediado». É o convívio pacífico e acrítico de tudo ou o mero desleixo ou a falta de diálogo entre os revisores? O leitor que decida.
«Sabe-se que há grupos de sobrevivência a preparar-se para 2012 nos Estados Unidos [,] Canadá e Holanda mas, à excepção de gurus como o escritor Patrick Geryl (líder de um grupo estrategicamente sediado na África do Sul), poucos dão a cara, preferindo abraçar a causa de forma discreta, aparentemente com medo de serem ridicularizados» (Grupos preparam-se», Isilda Sanches, Diário de Notícias, 3.09.2008, p. 33).
«O actual director de produtos da Google, sedeada em Londres, salienta que não se trata de concorrer com a Microsoft e até nem tem “expectativas de quota de mercado” quando o Internet Explorer tem mais de 70% e o Firefox 20% de quota do mercado dos browsers» («Google lança navegador de Internet», Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 3.09.2008, p. 60).

Recursos

Biblioteca de Traducciones Españolas

Sítio em que se disponibilizam traduções marcantes para espanhol de obras de várias línguas. Por aqui, se faz favor.

Revisão I

Frasicida

Gostava de ter uma rubrica sobre as frases que poderiam existir se eu não estivesse lá para as matar à nascença. Mas não posso, claro. A antológica de ontem seria esta: «O que não foi capaz foi acertar tão cedo na baliza como fez Hélder Postiga.» «O que não foi foi»? Não foi, não vingou.

Ponto abreviativo. Uniformização

Sim e não

Lembram-se? «Talvez por isso, o mayor de St Paul, Chris Coleman, diga que Mineápolis é um Chablis — um vinho branco da região francesa da Borgonha — e St Paul é uma cerveja» («Que nome dar a esta convenção?», Susana Salvador, Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 33). Ontem, uma coisinha mudou: «O furacão Gustav fez-se sentir a mais de dois mil quilómetros de distância, na capital do Estado do Minnesota, St. Paul, onde os delegados do partido republicano deviam consagrar John McCain como candidato à presidência dos Estados Unidos» («Festa republicana ficou estragada», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 2.09.2008, p. 5). Talvez possa ser ambas as coisas: com e sem ponto abreviativo, mas a obrigação dos revisores é uniformizar o texto. Já abordei a questão do ponto abreviativo no texto «Os Clappertons».

Ortografia: «guarda-florestal»

Guardem-se

      E a propósito de hífenes, lia-se ontem no Diário de Notícias: «A reunião entre a estrutura sindical que representa os guardas florestais e o Governo foi “muito inconclusiva”, afirmou ontem Paulo Trindade, à saída da reunião com o secretário de Estado da Administração Interna» («Reunião “muito inconclusiva”», Diário de Notícias, 2.09.2008, p. 12). O Público, por seu lado, titulava recentemente: «Guardas-florestais protestam». É bem certo que vivemos numa época de fúria hifenizadora. Contudo, desta vez é o Público que tem razão: os guardas das matas nacionais são designados por guardas-florestais. É uma palavra composta, e assim surge nos dicionários.

Jargão médico I

Embirrações



      Embirro (mas, à cautela, nunca o confesso aos próprios) com o jargão médico. Até já aqui dei exemplos, embora só tenha recebido objecções de estudantes de Medicina. Ou seja, os aprendizes de feiticeiro é que assumem a defesa da honra. Embirro muito mais quando os jargões extravasam da classe. Lê-se no Record de hoje: «O médio Guerra fez uma rotura muscular na coxa esquerda e realiza hoje uma ecografia para avaliar a extensão da lesão, que o deverá afastar dos relvados por um período entre duas a três semanas. Por seu turno, o avançado Pires fez uma luxação num dedo da mão esquerda e terá de colocar gesso» («Quatro baixas para Garcia», Record, p. 35).
      Aposto que se o senhor Alfredo, ali o das hortas junto à Estrada da Circunvalação, tiver um problema semelhante, seja luxação seja rotura, não dirá nada disso (nem dirá que vai «realizar uma ecografia», de resto). Os jornalistas deviam seguir o exemplo do senhor Alfredo. Quando li o texto, lembrei-me logo de outro que Fernando Venâncio publicou já este ano no Aspirina B, intitulado «Jeito para tudo»: «— Não pude ir. Fiz uma nevralgia. — Ah… E ficou bem feita?»


Formações com prefixos: anti-

Vejam lá isso

      O Diário de Notícias, que nem sequer é o pior jornal neste aspecto, titulava (mas os títulos têm vindo ultimamente a ser escritos da forma mais desleixada que é possível) ontem: «Quercus ‘condena’ caravanistas anti-ambiente» (Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 24). Pergunto: não será a maioria destes erros proveniente da Lusa? E a Lusa não tem revisores?
      Anti- leva hífen antes de h, i, r, s: anti-herói, anti-infeccioso; anti-racista, anti-semita.

«Profeta» com minúscula

Maiores e menores

      Um nigeriano, Mohammed Bello Abubakar, professor e pregador, divorciou-se anteontem de 82 mulheres (ainda fica com quatro). Tem mais de 170 filhos. «A família de Abubakar não trabalha e ninguém sabe como se sustenta», lê-se na notícia publicada ontem no Diário de Notícias. Posso dar uma ajudinha: várias organizações «humanitárias» de países islâmicos (normalmente a Arábia Saudita, com os seus petrodólares) aproveitam-se da pobreza para converter: a quem usar o hijab, o véu islâmico, é dado dinheiro. Já se viu isso na Somália, na Bósnia, etc. Mas não era sobre isso que queria escrever, mas sobre isto: «Abubakar diz que fala pessoalmente com o profeta Maomé» («Nigeriano divorcia-se de 82 das 86 mulheres», Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 31). Nada de novo por aqui, só para reforçar: Maomé é profeta como profetas são os da tradição cristã, e estes nunca mereceram maiúscula inicial. Está, pois, muito bem: profeta Maomé. Só se for por antonomásia, argumentam? Porquê? De qualquer modo, não ficaria junto do nome Maomé.

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