Tradução. Nortenho e nortista

Perderam a tramontana


      Pode não ser somente um erro das traduções, mas é nestas que o encontrei já diversas vezes. Está-se a falar, por exemplo, da Guerra Civil Americana, ou Guerra da Secessão (1861-65). Esta opôs, como se sabe, o Norte, abolicionista, ao Sul, escravagista. Opôs, pois, os sulistas aos… os sulistas aos… aos nortenhos!? Em espanhol sim, o vocábulo norteño refere-se ao que pertence ou está situado no Norte de qualquer país. Em português, não é assim. Se dessem uma olhadela num qualquer dicionário da língua portuguesa, leriam: «Nortenho, adj. Relativo ao Norte de Portugal.│S. m. Natural ou habitante do Norte de Portugal.» Ainda temos os norteiros, os nortenses e os nortistas — mas cada um no seu sítio. Isto faz-me lembrar um outro caso de tradução que me foi relatado. Tratava-se de um romance inglês, ambientado na Inglaterra do século XIX. Pois o tradutor pôs a personagem principal a passar não por agruras mas «as passinhas do Algarve». Ainda se fosse do Allgarve…

Incongruências gráficas; o trema

Tremuras

      «“Está fora de questão retirar a minha candidatura”, garantiu ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros turco e candidato do partido islamita (AKP, no poder) às presidenciais, Adullah Gül, horas antes de um protesto que reuniu um milhão de pessoas em Istambul» («Gül mantém candidatura apesar de manifestação em Istambul», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 30.4.2007, p. 30). «O ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Abdullah Gul, retirou ontem a sua candidatura à presidência da República» («Ministro islamita retira candidatura presidencial», Armando Rafael, Diário de Notícias, 7.5.2007, p. 29). Este texto é sobre a incoerência. Do ministro, perguntam-me? Do jornal. Porque grafou, num intervalo de dias, de formas diferentes o nome do ministro? Em nomes turcos, só há uma forma correcta de os grafar: usar o que pode parecer um trema, mas não é. Nesta língua, não se trata de um diacrítico, mas de uma letra que tem aquele coroamento — para nós, um carácter especial. Por isso o nome Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) não o dispensa. Já em alemão, por exemplo, é diferente: se embirrarmos com o trema (Umlaut, em alemão), podemos substituí-lo por e, como no nome Schröder → Schroeder. E tudo fica bem. Ainda há dias me surgiu o nome (Arnold) Schoenberg, que emendei para Schönberg. Sim, defendo que se deve respeitar escrupulosamente a grafia dos antropónimos estrangeiros. Sim, mesmo que seja Martinů.
      Convenho: os jornais ditos de referência vão deixando de o ser, pelo menos no que diz respeito à língua portuguesa, e têm problemas mais graves para resolver. Só não percebo porque não os resolvem.

Léxico: biscainha

Imagem: http://www.elmundo.es/

Devolvam-me a biscainha


      Criança ainda, muito antes de conhecer a locução «boina basca», a txapela, a palavra que ouvia e usava para designar essa mesma peça de vestuário era «biscainha». Quando ontem usei, por acaso, a palavra, o meu interlocutor ficou boquiaberto. Como por vezes acontece, precipitei-me para o dicionário mais próximo. Em vão. Nenhum dicionário regista o vocábulo «biscainha». Na Internet, só no TemaNet (Wordnets Temáticas do Português) o encontrei.

Informação

Jogo da Língua Portuguesa

Desde 18 de Dezembro de 2006, a Rádio Renascença também tem um Jogo da Língua Portuguesa, e melhor do que outro de outra rádio. Pode consultar todos os textos aqui. Deixo também um exemplo, para os meus leitores aquilatarem do seu valor:

«Como escreve? Como diz?
“açorianos” ou “açoreanos”?
A resposta é AÇORIANOS. É esta a correcta grafia do nome gentílico dos naturais dos Açores e do adjectivo que qualifica tudo o que é dos Açores. Embora o topónimo Açores se escreva com e, açoriano escreve-se com i. Eis a explicação do Prof. Rebelo Gonçalves, no Tratado de Ortografia: “Escrevem-se com i, e não com e, antes de sílaba tónica, os adjectivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos por i pertencente ao tema”. Ou seja, açoriano, camoniano, cabo-verdiano, por analogia com horaciano, italiano, etc.»

Informação

Imagem: http://www.estgm.ipb.pt/

Sobretudo para quem tem filhos ou alunos pequenos, recomendo vivamente o site História do Dia. Como o nome sugere, publica todos os dias uma história (bilingue: português e inglês) ilustrada. A versão portuguesa pode ser também ouvida. Apesar de ser muito mais conhecido do que este blogue, há-de haver muitos leitores que me agradecerão.

O vocábulo «arguido»

Levante-se o réu!

      Escreve Joaquim Shearman de Macedo, na edição de ontem do Oje: «Assim, acaba por ser caricato verificar que a supressão do termo ‘réu’ do processo penal (motivado em boa medida pelo teor acintoso e o anátema social que o mesmo inadvertidamente foi colhendo ao longo dos tempos) e a sua substituição por ‘arguido’ não resistiu ao passar do tempo. Actualmente, a carga negativa passou toda para a expressão [sic] ‘arguido’... Com os efeitos que se conhecem» («Arguidos e acusados», p. 4). Realmente, grande parte da culpa desta situação pode atribuir-se à comunicação social, que delira com esta palavra plena de possibilidades de manchetes e escândalos — mesmo quando o jornalista não percebe notoriamente nada da matéria. Claro que o vocábulo «arguido» traz ainda outras dificuldades à comunicação: mesmo alguns professores catedráticos de Direito não a sabem pronunciar. Ignoram que se trata de uma excepção, com outras, à regra segundo a qual nas sequências qu- e gu- seguidas de e ou de i o u não se lê (são, nesses casos, dígrafos). Vê-se isto com frequência. Faz-nos falta o trema: argüido, freqüência, seqüência. E muita leitura nas escolas e em casa.

Léxico: «merinaque»

Mulheres crinoladas



      Caro Luísa Costa, a peça de vestuário que antigamente se usava para dar volume ao traje feminino designava-se merinaque, termo que vem do espanhol meriñaque ou miriñaque. Que o Diccionario de la Real Academia define assim: «Zagalejo interior de tela rígida o muy almidonada y a veces con aros, que usaron las mujeres.» O vocábulo teve uso corrente em Portugal. Veja-se este trecho do romance A Queda dum Anjo, publicado em 1866, de Camilo Castelo Branco: «Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem, D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n’isto havia encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se; apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio!» (pp. 261-62 da edição original)
      Há, na língua portuguesa, outro termo para designar o mesmo: crinolina: saia entufada revestida de tecido forte ou assente sobre círculos paralelos de aço ou de barbas de baleia para dar maior roda ao vestido. «Mulher crinolinada» era a que usava saia retesada por crinolina.


Ortografia: garnisé e granisé

Coisas de cacaracá

Cara M. L. T.: sim, também se escreve «granisé», mas pessoalmente prefiro a forma «garnisé». São ambos adjectivos: galinhas garnisés. Designam uma espécie de galinha pequena. E porque é que prefiro a segunda forma, pergunta? Pois porque foneticamente estará mais próxima do étimo: Guernesey, a ilha do canal da Mancha. É mais um caso de derivação imprópria: de substantivo próprio passou a substantivo comum. Este tipo de derivação obriga sempre ao uso de minúscula inicial. Felizmente os nossos intelectuais não se ocupam de galinhas, ainda que cosmopolitas como estas, pois corríamos o risco vê-las maiusculizadas. Um cálice de porto para isso.

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