Tradução: «black-letter law»

A imaginação fora do poder!

      «Whereas hard law (sometimes called black-letter law) is the law of the courts, soft law is informal law, setting forth ideals that constrain our behavior and may in time become hard law.» «Ao passo que a lei rígida (por vezes chamada lei gótica) é a lei dos tribunais, a lei fraca é informal, declarando ideais que limitam o nosso comportamento e que com o tempo poderão vir a tornar-se lei rígida.» Podia ser, até porque se supõe que «the term probably derives from the practice of publishers of encyclopedias and legal treatises to highlight principles of law by printing them in boldface type». Mas, calma!, para nós nada significa. A tradutologia há muito que assinalou que há vocábulos intraduzíveis, não funcionando as equivalências formais ou exactas porque não existem, mas somente uma explicação. Modestamente, proponho: «Ao passo que a lei rígida (por vezes chamada black-letter law [direito positivo]) é a lei dos tribunais, a lei fraca é informal, declarando ideais que limitam o nosso comportamento e que com o tempo poderão vir a tornar-se lei rígida.» Propus depois de saber (afinal só a compreensão conduz à traduzibilidade) que black-letter law é «a term used to describe basic principles of law that are accepted by a majority of judges in most states». Claro que é preciso saber também que o sistema jurídico norte-americano é completamente diferente do português, e isto já releva do contexto extralinguístico.

Género de «aluvião»

Opiniões & sensações

      Antigamente, qualquer apaga-lampiões sabia que a palavra «aluvião» era do género feminino. Depois, com o decurso do tempo, um número significativo de falantes — e alguns já não eram apaga-lampiões — passou a fazer o mesmo, o que obrigou os dicionaristas, que a sabiam historicamente do género feminino, como em latim, aluvio,onis, a admitir os dois géneros. Agora, já há quem jure que é «só» do género masculino. Assim evoluem as línguas. Mas claro, são meras opiniões de leigos. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, «os pareceres são como os raios laser: emitem-se. Cada português é um emissor privado. Privado de bom senso».



Léxico: corsa


Imagem: http://www.nesos.net/

Carros de cesto?

Sempre que se fala, na imprensa mas não só, nos carros de vime da Madeira, verdadeiros ex-líbris da ilha, nunca se vê referido o nome que têm. De facto, «carros de vime» ou «carros do Monte» são mais descrições do que outra coisa. Contudo, há muitos anos que conheço a palavra «corsa» para os designar. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, por exemplo, regista: «Corsa, f. Espécie de veículo, puxado por gente, e em que se transportam pessoas, na ilha da Madeira.» São feitos de vime e assentes em duas tiras de madeira ensebada e terão aparecido em 1849. Descem do Monte até ao Funchal por uma calçada estreita e muito íngreme, manobrados por dois carreiros, trajados de calças e camisa branca e chapéu de palha. Há, actualmente, 87 carros em serviço. Curiosamente, a imagem de cima, pertencente, tal como a de baixo, ao Museu Photographia Vicentes, tem como legenda «“Corsa” junto ao portão da “Villa Victória”, anexo do Reid’s Palace Hotel. Estrada Monumental, Sítio do Salto do Cavalo, Funchal. Posterior a 1894. Fotógrafo: Perestrellos Photographos», ao passo que a legenda da fotografia de cima é «“Carro de cesto”. Rua de Santa Luzia, Funchal (vendo-se à direita o muro do Convento da Encarnação). Primeiro quartel do século XX. Fotógrafo: Vicentes Photographos». Imagino que o autor das legendas desconheça que o vocábulo «corsa» também se aplica aos carros de cesto. Vamos dizer-lhe?

Tradução: «enforceable»

Língua desmandada


      Isto faz-me lembrar a questão da etimologia do vocábulo «mandarim» e da suposta influência do verbo português «mandar» na sua grafia. Dizia o original: «We need enforceable international law to help regulate our behavior.» «Precisamos de uma lei internacional mandatória para ajudar a regulamentar o nosso comportamento», verteu o tradutor. Nenhum dicionário, que eu conheça, regista o termo «mandatório»: quase todos saltam de «mandato» para «manda-tudo». Os melhores, pelo menos, porque os outros dão saltos maiores. O vocábulo «mandatório» que, de facto, vejo ser utilizado com alguma frequência, só pode ser o aportuguesamento desnecessário do inglês mandatory (com étimo no latino mandatorius). Em português dir-se-á, mais vernaculamente e neste âmbito jurídico-legal, «executória». Ou, se quisermos, «obrigatória».




Etimologias

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A imprensa mordaz e o dicionário mendaz

      Há na língua espanhola, e alguns tradutores já se terão deparado com ele, o vocábulo «ridículo» para designar uma bolsa exterior que no início do século XIX, com a moda dos vestidos de estilo império, e até mesmo um pouco antes, com o chamado estilo directório, se impôs. Na verdade, este nome foi-lhe posto, pela extravagância que lhe viam, pela mordaz imprensa francesa, pois o nome que adequadamente lhe tinham dado era «retícula» (réticule), do latim reticulum. Logo em 1812, o Dictionnaire Universel Boiste acrescentava esta acepção ao verbete «ridicule», como se pode ver aqui. Até aqui, nada de extraordinário, pois podia até pensar-se que estávamos perante mais um caso de deturpação popular. O que é estranho, isso sim, é que o conceituado Diccionario de la Real Academia registe que ridículo, na acepção da bolsa, tem como étimo o latim reticŭlus, «bolsa de red». Bem explicadas, as coisas não são assim, e ninguém pede tanta simplificação.

Tradução: «virtual»

Mundos paralelos

«Halliburton and other companies have security forces in Iraq now, virtual armies to help defend their people and property.» Parece simples — e é, de facto. O tradutor, contudo, complica: «A Halliburton e outras empresas têm hoje em dia forças de segurança no Iraque, exércitos virtuais para ajudar a defender as suas pessoas e as suas propriedades.» É essa mesmo a pergunta, caro leitor: o que é um «exército virtual»? Estamos a falar de videojogos ou a brincar? A acepção de «quase completo», «praticamente total» (na formulação do Dicionário Houaiss) é relativamente recente e semanticamente anglicizante. Não precisamos dela para nada. Sob pena de ninguém saber o que estamos a dizer. A não ser, evidentemente, que seja esse o nosso desiderato.

Léxico: jingoísmo


Por Júpiter!

Ignorance never settles a question.
Benjamin Disraeli (1804-1881)


      Cara Luísa Pinto, o vocábulo «jingoísmo» existe realmente e significa nacionalismo agressivo e belicoso. A origem do vocábulo está na Grã-Bretanha e no que parece ser um hipocorístico de Jesus entre os Ingleses do século XVIIIJingo — usado na interjeição By Jingo! Mais tarde, durante a Guerra Russo-Turca (1877–78), o compositor inglês George Hunt compôs uma canção cujo refrão, que se tornou popular, dizia: «We don’t want to fight/but by jingo if we do.../We’ve got the ships, we’ve got the men,/and got the money too!» A própria imprensa inglesa ajudou a difundir o vocábulo jingo (tal como jingoist e jingoism) para designar os nacionalistas exacerbados, sobretudo depois da intervenção inglesa na guerra, quando o primeiro-ministro Benjamin Disraeli enviou a armada em defesa de Constantinopla. A 3 de Março de 1878, a guerra acabou, tendo sido assinado o Tratado de Paz de San Stefano (actualmente, Yeşilköy) entre a Rússia e o Império Otomano, para formalizar o novo statu quo. O vocábulo «jingo» teve melhor futuro.
      Por curiosidade, transcrevo um trecho de uma das Crónicas de Londres, publicadas por Eça de Queirós numa «folha do norte», A Actualidade, em que o autor se refere ao tratado:

«Finalmente ontem, pelas três horas da tarde, em San Stefano, a paz entre a Turquia e a Rússia foi assinada. Ontem era na história imperial da Rússia um dia ilustre: era o aniversário da emancipação dos servos, do nascimento do imperador e da sua subida ao trono: e por um refinamento de vaidade czariana foi ontem o dia escolhido para completar, por uma assinatura num papel, o fim do Império Turco. Devia ter sido decerto para Alexandre II um momento de orgulho hiperbólico ouvindo debaixo da janela do Palácio de Inverno milhares de vassalos cantarem, com a cabeça descoberta, como no respeito de uma celebração religiosa, o hino do czar — o pensar que no dia em que fazia vinte e três anos que seu pai Nicolau vencido e humilhado morria de despeito, ele tomava a desforra das derrotas passadas, recuperava as províncias perdidas, rasgava o ofensivo Tratado de Paris, destruía o Império Otomano, humilhava grandes potências e ganhava um lugar entre os grandes conquistadores do século. Nesse momento verdadeiramente pôde crer na missão da Santa Rússia.
De resto em Sampetersburgo, ao que dizem os telegramas desta manhã, o entusiasmo tomou as proporções de um delirium tremens. O imperador levou três horas a ir do palácio ao teatro, no meio de uma multidão fanática uivando o hino imperial, ébria de orgulho nacional, aclamando Alexandre, o Libertador. Em San Stefano, o grão-duque Nicolau passou uma revista de cerimonial às tropas, e os arautos anunciaram, ao som das músicas triunfais, o fim da campanha. Depois te Deum, jantares, champanhe e hurras pela Santa Rússia! De resto, os Turcos, com a passividade e a resignação da raça fatalista, aceitam a derrota, que é uma determinação de Alá, e não parecem ter conservado rancor aos Russos. Os correspondentes citam como perfeita a confraternização dos soldados russos e turcos: vêem-se, junto às linhas de demarcação, conversando, jogando, cantando, dançando, fumando, numa patuscada de bons amigos: um correspondente telegrafa que anteontem, na estrada de Pera, encontrara dois fortes destacamentos de tropas russas e turcas, que, tendo-se encontrado no mesmo caminho, faziam a passeata em fileiras misturadas, os oficiais em grupo, formando adiante, as bandas unidas tocando com denodo A Filha de Madame Angot. Os Turcos não parecem protestar: de Istambul vêm todos os dias a San Stefano milhares de curiosos ver os Russos, apertar-lhes a mão, dar-lhes os parabéns de boa chegada: de resto, os negociantes de Constantinopla estão encantados com a presença daqueles milhares de consumidores, que duplicarão os preços dos géneros.
A única criatura viva que em San Stefano protestou foi um jumento. Este ilustre descendente do amigo de Sancho e do amigo de Maomet mostrou desde o começo das negociatas da paz uma inquietação que bem depressa se definiu num ódio asinino contra os Russos. E o burro de um cangalheiro — e apenas pressente um uniforme russo afila a orelha, firma-se nas patas dianteiras e escouceia com um patriotismo que deve fazer corar o sultão e os paxás. E, dizem os correspondentes, a grande curiosidade de San Stefano, e faz o divertimento dos oficiais de sua alteza o grão-duque Vitorino. Debalde se tem procurado convencê-lo da nova vantagem e do novo progresso que a Turquia, ou o bocadito da Turquia que resta, vai gozar sob o protectorado russo; o jumento, com a teima que faz a honra e a força da sua raça, responde com coices aos argumentos. Este jumento ficará na história. É, depois de Osman Paxá, a única alma viril do império. É o último patriota turco!» (excerto da Crónica XIII, datada de Londres, 5 de Março de 1878).


Léxico: «psi»

Mas existe
     


      Há, fora dos dicionários, palavras muito mais vivas e usadas do que milhares de outras que jazem nesses vastos cemitérios que são justamente os dicionários. A inclusão de determinado vocábulo nos dicionários e vocabulários, já o tenho aqui defendido, não pode ser o único nem sequer o principal critério para aferirmos da legitimidade do seu uso. Abra-se qualquer dicionário no verbete «psi». Que podemos ler aí? Pois que psi é um substantivo masculino e significa a vigésima terceira letra do alfabeto grego ψ Ψ. No quotidiano, o que podemos ver é que «psi» também se usa — é ouvir-se o Prof. Júlio Machado Vaz, por exemplo — no sentido de qualquer (psi) ou todos (psis) os terapeutas da psique: psicólogos, psicanalistas e psicoterapeutas. A imprensa também usa o vocábulo neste sentido, embora ainda com o escusado cordão sanitário das aspas: «Na cultura popular, o uso e abuso do sexo terá uma explicação científica. Ironicamente, o pai da psicanálise decidiu praticar a abstinência após o nascimento dos seus seis filhos, como medida de controlo de natalidade. Para os “psis” com tradição analítica, a sexualidade banalizou-se (ao ponto de se discutir quantas vezes se deve fazer) e é usada como arma de arremesso ou antídoto falível para afugentar o mal-estar» (Clara Soares, Visão, n.º 686, de 27 de Abril de 2006). O uso de psi nesta acepção teve origem na língua francesa, muito atreita a reduções, como já aqui referi. Começou, nesta língua, por se usar somente no registo familiar, e muitas vezes com um sentido irónico ou pejorativo. Mais tarde, no início da década de 1970, passou a significar «spécialiste de psychologie; en partic., spécialiste de psychothérapie, de psychiatrie» (in TLFI). Sem ironia.


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