Léxico: «estereotáxico»

Nunca explicam

      «É afixado o quadro estereotáxico na cabeça que permite localizar com extrema precisão a área a tratar» («Carreira vence tumor e é campeão», Cipriano Lucas, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 44).
      Não são todos os dicionários que registam o adjectivo «estereotáxico». Ao fundo da página, o Diário de Notícias mostra, com imagens, as fases da cirurgia, mas nunca o leitor fica a saber o que é um quadro estereotáxico. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa esclarece que é o que se faz graças à estereotaxia, e desta regista que é o «método de localização de uma estrutura nervosa cerebral a partir de lesões ósseas do crânio». O The Free Dictionary dá uma definição mais esclarecedora: «A method in neurosurgery and neurological research for locating points within the brain using an external, three-dimensional frame of reference usually based on the Cartesian coordinate system.»
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«Pôr em dúvida»

A olhos vistos

      «A reavaliação do caso poderá trazer de novo para a ribalta um dos aspectos menos claros dos anos de poder do ex-chefe do governo Tony Blair, acusado por Kelly de ter inventado provas para justificar a invasão do Iraque. O cientista, recorde-se, foi a fonte de um jornalista da BBC, que colocou em dúvida os argumentos de Blair para justificar a guerra no Iraque. Dois dias depois, Kelly apareceu morto e o jornalista foi despedido» («Tony Blair sob suspeita», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 30.12.2010, p. 32).
      «Colocou em dúvida»! E os revisores deixam que estas barbaridades cheguem aos leitores, que pagam e só reclamam por insignificâncias.
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Ortografia: «ultramediatizada»

Pensem lá

      «Ultra-mediatizada, a morte da ex-manequim e actriz de comédia francesa foi discreta, por vontade da própria e da família. A notícia foi confirmada na sua página de Facebook, a 21 de Dezembro, pelo cantor suíço Vicent Bigler, com quem iria gravar em breve o videoclip de uma canção sobre a anorexia» («Isabelle morre aos 28 anos com 31 kg», Ana Carvalho Vacas, Correio da Manhã, 30.12.2010, p. 19).
      No sítio suíço 20.Minute, donde provém a notícia, lia-se «ultra médiatisée», meio caminho para os jornais portugueses grafarem mal a palavra. No Jornal de Notícias («Ex-manequim e actriz Isabelle Caro morreu», p. 41), porém, vinha correctamente: ultramediatizada.
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Marca automóvel. Plural

Não ouve

      «Os dois Skoda “podem circular, mas vão ficar parados porque não é bom para a imagem da instituição andar com carros batidos”, adiantou o porta-voz da GNR na Guarda» («Jovem sem carta travado a tiro após abalroar 2 carros da GNR», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 21).
      Na verdade, é Škoda que se escreve. Mais importante: Amadeu Araújo, ouça bem se as pessoas não dizem «dois Škodas». E dizem bem.
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Selecção vocabular

Para nada

      «O Partido Comunista Cubano terá em Abril um novo congresso (os conclaves deviam ser de 5 em 5 anos, mas não se realiza um desde 1997) destinado a preparar Cuba para a próxima geração e uma nova fase política. A documentação de medidas de modernização económica mostra que o regime de Raúl Castro deve optar por um modelo de empresas públicas com dimensão e autonomia, em paralelo a um sector privado de microempresas» («Regime cubano perdoa última condenação à morte», Luís Naves, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 25).
      Se bem que alguns dicionários acolham a acepção, em sentido figurado, de reunião para se discutir algo, a acepção que logo nos acode à mente é a de reunião do colégio dos cardeais, com o fim de elegerem um novo papa. Acresce que, no artigo do Diário de Notícias, o vocábulo não é sequer necessário.
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«Mandado/mandato»

Não entra

      «— Convinha ter um mandato de busca — pensou Bastokovitch, em voz alta. — Consegue-me arranjar uma coisa dessas?» (Profundo como o Mar, Jacquelyn Mitchard. Tradução de Mário Caeiro e Andrea Noronha de Andrade. 6.ª ed. Barcarena: Editorial Presença, 2002, p. 297).
      Bastokovitch, seu imbecil, não devias ter falado em voz alta. Não arranjo porque isso não existe. Serve um mandado de busca? («Não sem alguma razão», já antevejo alguém objectar, «como aliás todas as confusões e erros, sempre defensáveis durante pelo menos os tais cinco minutos de que falava Cândido de Figueiredo.»)
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Léxico: «vô/vó»

Malcriado

      Um avô tenta explicar ao neto uma palavra que acabou de usar: «tenoots», calão irlandês para «tomates» — ou (tomem lá o tabuísmo para não virem depois com merdas que não percebem) «colhões». (Dois tabuísmos: é só para exemplificar, não se ofendam.) O velhote safou-se bem: «— Nada — disse o ‘Vô Angelo. — Têm coraggio, têm coragem. Tentam pôr as coisas em ordem» (Profundo como o Mar, Jacquelyn Mitchard. Tradução de Mário Caeiro e Andrea Noronha de Andrade. 6.ª ed. Barcarena: Editorial Presença, 2002, p. 202). Vamos ao que interessa: porquê ‘Vô e ‘Vó? «Vô» e «vó», regista o Dicionário Houaiss e eu concordo, são vocábulos informais, aferéticos, o apóstrofo é ali luxo desnecessário.

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«Boa noite», saudação

Dorme bem, Leo

      «— Boa-noite, Leo — disse a minha mãe» (O Primeiro Verão das Nossas Vidas, Pat Conroy. Tradução de Natália Fortunato. Lisboa: Porto Editora, 2010, p. 107).
      Pensava que esta monomania do hífen já tinha passado em relação às saudações. Estas nunca levam hífen. Como substantivo, sim. Eis um exemplo: «— Deixa-me dar-te as boas-noites, Leo — disse a minha mãe.»
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Sobre «liga»

Sejam bem-vindos

      Na edição de hoje do Diário de Notícias, podia ler-se que o candidato presidencial do PCP não gostou nada do apoio dos chineses que vivem em Portugal ao candidato Cavaco Silva («Lopes contra apoio chinês a actual PR», p. 12). Fiquei a saber que foi Y Ping Chow, da Liga dos Chineses em Portugal (LCP), quem anunciou o apoio. Achei curiosa esta designação de liga. Sim, está certo, liga é qualquer sociedade ou associação com qualquer objectivo. Ultimamente, só temos notícia da italiana Liga Norte, mas nós já tivemos a Liga Patriótica do Norte, também uma associação de cidadãos que nasceu como resposta ao Ultimato inglês de 1890. E também temos a Liga dos Combatentes.

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«Tratar-se de», novamente

Do editor

      A propósito de apóstrofo: hoje mostraram-me a «Nota do Editor» ao livro Uma Dor Silenciosa, de Francisco Guerra (Lisboa: Livros d’Hoje, 2010. Revisão de Lídia Freitas). Eis um excerto da página 7: «Tratam-se de nomes dos presumíveis abusadores e de algumas das pessoas envolvidas na falada rede pedófila.» Ainda um dia será norma... Mais um excertozinho, tenham paciência: «Este livro traz-nos uma versão dos acontecimentos que levaram à origem do processo “Casa Pia”. Uma versão relatada por Francisco Guerra, considerado pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público, uma das principais testemunhas do processo» (idem, ibidem).
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«Biofilme», de novo

Nada muda

      «Essas pinturas vivas acabam por ser uma enorme surpresa. Como escrevem os autores no seu artigo, os “biofilmes [estas camadas de microorganismos] são conhecidos por contribuir para a deterioração de outras pinturas em rochas, na Austrália, como acontece nos petroglifos da península de Burrup, na região ocidental”. Mas, sublinha ainda a equipa, o que se passa aqui “é exactamente o contrário”. Ou seja, são esses microorganismos que protegem e, nalguns casos, constituem a própria essência da cor» («Pinturas milenares estão ‘vivas’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 32).
      Já aqui vimos que seria melhor adoptar o vocábulo biopelícula. «Petroglifo» nunca antes tinha visto, mas sim petróglifo. Sim, é verdade que, em contrapartida, tanto se escreve hieróglifo como hieroglifo.

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Cacofonia

Ouçam-se

      Os revisores também têm de estar atentos às cacofonias. (Mesmo os revisores de publicações periódicas, apesar de hoje em dia isso ter menos importância, pois os jornais já não são lidos em voz alta, como há um século. «Por volta de 1900, por exemplo», escreve David S. Landes na obra A Riqueza e a Pobreza das Nações [Lisboa: Gradiva, 2001], «apenas três por cento da população da Grã-Bretanha era analfabeta, o número para a Itália era 48 por cento, para Espanha 56 por cento, e para Portugal 78 por cento.» Segundo o Censo de 2001, na viragem do século ainda havia 10 % de analfabetos em Portugal.) Têm de se ouvir a ler. Ninguém, neste aspecto, supera o revisor antibrasileiro, atentíssimo. Nenhum «que agora», acredito, alguma vez lhe escapou. «Uma biblioteca inteira de livros a arder caía violentamente ao longo do deserto de cem metros que agora separava o abrigo da escola.» Eu sou mais sensível aos ecos e à prolixidade. É só cortar!
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Tradução: «fuel bladder»

Imagem tirada daqui
Não nos poupem


      Veja-se este caso: há um avião que desde que descolou tem problemas com a bomba de um dos depósitos de reserva. Vão ali 600 galões como peso morto. Mais tarde, «despite the fact that he was finally able to coax the faulty pump into drawing small amounts of fuel from the dead bladder, only 300 gallons remained accessible to the engines». Traduzimos «dead bladder» por «contentor inanimado»? Mas bladder é bexiga; vesícula; empola. Também é, admito, câmara-de-ar, mas apenas por extensão de sentido, pois bladder é tudo o que se assemelhe à bexiga — como a bolsa de borracha no interior de uma bola de futebol. As aeronaves (e os navios) podem ter diversos tipos de depósitos (ou tanques, como alguns querem), e a um deles, que é o da imagem acima, chama-se bladder.

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Estrangeirismos

Glück muss man haben!

      «É preciso sorte, também, recorda ainda Anselmo Borges. Por isso mesmo, há palavras cujo étimo assume as duas ideias em conjunto, felicidade e sorte. O glück alemão remete para ambas, a raiz da hapiness inglesa é happ, que quer dizer acaso ou fortuna, tal como acontece com o grego eudaimonia ou o francês bonheur» («A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?», António Marujo, «P2»/Público, 24.12.2010, p. 14).
      O uso da metalinguagem é um mistério insondável para alguns jornalistas... Adiante. Então não é Glück que se escreve em alemão? Já aqui referi o mesmo erro em relação a outra palavra alemã, «Kaiser». Ultimamente, porém, já vai aparecendo bem grafada: «Na idílica Taunus, na Alemanha, o hotel-castelo Kronberg apresenta mobílias exclusivas e uma colecção de antiguidades e pinturas da propriedade privada da mãe do último Kaiser, que lhe conferem um ambiente de tempos imperiais antigos. Por 119 euros, é possível dormir num dos mais impressionantes castelos alemães» («Vida de nobre por uma noite dormindo num castelo», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 10.06.2010, p. 63).
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Tradução: «tamper»

Mais uma trapalhada

      «The latest uranium bomb casing and tamper fared no better», dizia o original. O tradutor verteu assim: «O mais recente revestimento da bomba e a calçadeira não tiveram melhor sorte.» Ora vamos lá tentar perceber o que terá acontecido. Como substantivo, alguns dicionários bilingues inglês-português só dão como correspondente «calcadeira». Deste para «calçadeira», foi só um passo, fácil de entender. Contudo, na Wikipédia lê-se que a «uma camada opcional feita de material denso e que rodeia o material físsil dá-se o nome de calçadeira (do inglês tamper)». E, numa nota, pode ler-se que a tradução para português foi fornecida pelo United States Army Combined Arms Center, através do English-Portuguese Dictionary of Military Terminology, que já aqui citei uma vez. Intrigados, consultamos então este dicionário e vemos que a tamper faz corresponder... calcadeira! Ao certo, sabe-se que se trata de um invólucro, de uma camada protectora das bombas nucleares. Calcadeira? Calçadeira?

[Post 4247]
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Uso do apóstrofo

Quase igual

      Não me lembro de alguma ter visto numa tradução a grafia queda-d’água. E, no entanto, é assim que está registado nos dicionários, como também estão os vocábulos borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, galinha-d’água, mãe-d’água, olho-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo e tromba-d’água, entre outros. É o que acontece, por exemplo, com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Alguns foram infamemente esquecidos pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No Acordo Ortográfico de 1990, pouco mudou em relação às anteriores normas, excepto (por esquecimento?) esta: «Sempre que, no interior de uma palavra composta, se dá invariavelmente, tanto em Portugal como no Brasil, a elisão do e da preposição de, emprega-se o apóstrofo: cobra-d’água, copo-d’água (planta, etc.), galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco. Dando-se, porém, o caso de essa elisão ser estranha à pronúncia brasileira e só se verificar na portuguesa, o apóstrofo é dispensado, escrevendo-se a preposição em forma íntegra: alfinete-de-ama, maçã-de-adão, mão-de-obra, pé-de-alferes
      Gosto, confesso, deste sinal gráfico designativo da elisão de uma ou mais letras numa palavra. Infelizmente, é muitas vezes mal grafado, pois é substituído por uma plica. Em termos de conceito, é confundido, como já aqui vimos várias vezes, com «apóstrofe».
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Tradução jurídica

Seria uma excepção

      «Um dos pontos da tese do autor [tenente-coronel Francisco Leandro, do Exército, defendida no dia 22 na Universidade Católica], que estava em Srebenica (Bósnia) como observador da ONU quando ali ocorreu o massacre de milhares de bósnios (1995), centrou-se precisamente nas traduções erradas de vários termos jurídicos constantes do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional» («Jorge Miranda defende curso para tradutores jurídicos», M. C. F., Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 10). Jorge Miranda, que fazia parte do júri que arguiu a tese, propôs ao reitor da Universidade Católica (UCP) a criação de um curso de pós-graduação ou mestrado sobre tradução jurídica. «Seria “um contributo inovador” criar-se algo com aquele objectivo, pois “tenho encontrado [textos] internacionais com traduções horrorosas”, declarou Jorge Miranda» (idem, ibidem). E será que o texto do estatuto teve revisão? Talvez não.
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Ortografia: «aeroterrestre»

É só pensar

      «Enquanto helicópteros e aviões largavam bombas num local a cerca de 30 quilómetros da fronteira entre as duas Coreias, a artilharia e os tanques disparavam continuamente para repelir o invasor naquelas que foram, este ano, as manobras aero-terrestres mais importantes das Forças Armadas da Coreia do Sul» («Seul exibe poder militar na fronteira com o Norte», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 24).
      Nem todos os dicionários registam o vocábulo (mas está no Dicionário Houaiss), e não era necessário para se saber que a grafia é aeroterrestre. Como aerotransportado.

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Léxico: «garibalde»

Trabalho de sapa

      «A verdade é que o resgate foi executado de uma forma rápida, segura e eficaz. Mesmo assim os Sapadores de Braga lamentam o facto de não terem o material adequado para este tipo de socorro. “Não há uma Garibalde (estrutura com capacidade para acolher uma pessoa de forma a ser içada) na corporação, por isso tivemos que improvisar com umas escadas de modo a fazer um ponto de segurança para descer uma corda e içar o senhor”, explicou fonte dos Bombeiros Sapadores de Braga» («Criança de dois anos salva avô caído e mina», Nuno Cerqueira, Jornal de Notícias, 24.12.2010, p. 7).
      Será uma marca, mas, entretanto, converteu-se em nome comum: garibalde. E alguma coisa me diz que a explicação parentética («estrutura com capacidade para acolher uma pessoa de forma a ser içada») é de Nuno Cerqueira e não da fonte, logo, graficamente esse facto tinha de ser claro para o leitor.

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Recursos

Mais uma oportunidade

      Foi o meu primeiro texto de hoje, sobre a inépcia jornalística e a insensibilidade de paginadores que não grafam correctamente CO2. Para acabar o dia ainda sob o mesmo signo, devo referir que 2011 será o Ano Internacional da Química. A partir de Junho, a Sociedade Portuguesa de Química (SPQ) vai disponibilizar no seu sítio todas as revistas científicas editadas desde 1905 através dos Periódicos de Química Portugueses, num total de 24 mil páginas. Com a cultura científica pelas ruas da amargura, decerto que não são apenas os jornalistas que devem conhecer mais em todas as áreas do saber científico, mas todos nós. Eles, contudo, deviam estar na vanguarda.
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Anglicismo

Será que os meus pais, etc.

      «O espírito natalício do Boxing Day parece ter servido de inspiração para as equipas de Manchester, que ontem averbaram preciosos triunfos, isolando-se nos dois lugares cimeiros da tabela da Liga inglesa. Na tradicional jornada disputada no dia a seguir ao Natal, os red devils receberam o Sunderland com uma vitória por 2-0» («Rivais de Manchester celebram Boxing Day com triunfos», P. P., Diário de Notícias, 27.12.2010, p. 36).
      P. P., como a Quercus, também nos julga Ingleses. Recomenda-se o exame Vieira: «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?»
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Léxico: «borne de carregamento»

Proponham

      «Um cartão pré-pago é tudo quanto vai ser necessário para carregar os veículos eléctricos na cidade de Viseu, que já começou a receber, para espanto dos mais distraídos, os postes de carregamento. No próximo trimestre, depois de decidido o valor das tarifas, o sistema estará pronto a carregar veículos eléctricos. O borne, colocado mesmo no Rossio, deixou estupefacto Manuel Leitão, que questionou a “utilidade de mais um semáforo”. Afinal, explicou depois de se ter inteirado da utilidade do novo equipamento urbano, “serve para carregar carros eléctricos”. A instalação dos bornes de carregamentos de carros eléctricos começou na semana de Natal e “no próximo trimestre entram em funcionamento”, explicou o vice-presidente da autarquia. “Estão prontos, mas falta definir o tarifário”, adiantou Américo Nunes» («Viseu já instalou pontos de carregamento para eléctricos», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 27.12.2010, p. 32).
      Tem de ter nome — mas será este o melhor? Está lançado o concurso de ideias.

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Ortografia: «beneficência»

Previsível


      Quando ontem ouvi a notícia na Antena 1 (e, nesta, ora diziam ter sido num prédio, ora numa moradia), palpitou-me logo que os jornais de hoje não escapariam ao erro. Ei-lo: «Um incêndio destruiu, ontem de manhã, o telhado de uma residência na rua da Beneficiência, na zona do Rego, em Lisboa, e provocou seis desalojados. “O fogo começou na chaminé do segundo andar. Ainda tentámos apagá-lo com extintores, mas já estava demasiado grande”, explicou ao CM o proprietário, Duarte Ferreira» («Fogo desaloja seis», Helder Almeida, Correio da Manhã, 27.12.2010, p. 11).
      Não é gralha, pois ocorre duas vezes. É barbarismo mais originado pela ignorância do que pela distracção. Amantes da ciência, acham que é só juntar benefi a ciência. Pois não é. É, isso sim, imperdoável que os revisores o deixem passar.

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Organização e género

A mesma conclusão


      O Wikileaks? A Wikileaks? Já tinha pensado nisto. Leiam o que Fernanda Câncio escreveu sobre a questão no Diário de Notícias: «A semana passada mencionei a palavra Wikileaks. Usei o feminino — pensava numa organização, numa fonte — mas quem reviu o texto alterou o género para masculino, presumo que para denominar o site. Ora o sucedido não só demonstra como se formata o discurso (e portanto a percepção) sem se admitir que, como é o caso, não sabemos bem do que estamos a falar, como está longe de ser um detalhe. Quando consideramos que Wikileaks é um site, assumimos que se trata de uma espécie de plataforma de recepção de conteúdos, um lugar sem, digamos, espessura; falar de Wikileaks como organização é designar uma estrutura, um conjunto de pessoas com história, hierarquia, perspectiva, propósitos e financiamento — que importa identificar e escrutinar. Do nosso entendimento do que é isso de Wikileaks depende pois, em português, o “sexo” que lhe conferimos» («O sexo dos wikileaks», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 7).

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Léxico: «empolgação»

Bem-vindo


      «Uma fã de Usher atingiu o cantor com um sapato, quando subiu ao palco, durante um concerto que este deu em Nova Iorque. A empolgação foi tanta que a rapariga quis passar a perna pela cabeça do cantor e acabou por lhe acertar na cara» («Fã dá pontapé na cara de Usher», Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 37).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo, acolhe apenas empolgamento e empolgadura. Outros, mais antigos, registam somente este último. É bom haver variedade. Empolgação não vê muitas vezes a luz do dia.

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«Despoletar/espoletar»

Evitar mal


      Sinal de inteligência é, creio, saber evitar questões polémicas e estéreis. Uma delas, que tem feito perder muito tempo, é sobre se se deve dizer despoletar ou espoletar. Ora vejam um excerto do editorial do Público da edição de sexta-feira: «A descida do rating da República foi a espoleta que desencadeou os três programas de estabilidade e crescimento e esteve na origem do orçamento mais austero e exigente das últimas décadas em Portugal» («Um círculo vicioso difícil de quebrar», 24.12.2010, p. 36). Salvo melhor opinião — aqui não me eximo a entrar na polémica —, esta é uma formulação com o seu quê de estulta. A «espoleta que desencadeou»!

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Símbolo químico

Só se mudou


      Aprendi que no símbolo químico do dióxido de carbono se usa o 2 subscrito, o que serve para representar que cada molécula contém dois átomos de oxigénio somados a um átomo de carbono — CO2. Ora, o dióxido de carbono é, sem qualquer dúvida, o gás de que mais se fala na imprensa. No Público, não me lembro de o ter visto alguma vez subscrito. «Por um lado evita-se o pesado consumo de CO2 resultante da queima das rolhas e, por outro, incrementa-se a sua produção, já que por cada mil rolhas recolhidas a Quercus planta mais uma árvore no âmbito do seu projecto Criar Bosques» («Guarde a rolha do que beber no Natal e Ano Novo», José Augusto Moreira, Público, 24.12.2010, p. 11). No Diário de Notícias, passa-se o oposto: «Acreditou-se que a crise económica baixaria os níveis de emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás com efeito de estufa, mas afinal não será assim» («Emissões de CO2 estão outra vez a subir», Diário de Notícias, 23.11.2010, p. 34).
      (Uma palavra de repúdio pela designação, Green Cork, que a Quercus deu a esta campanha de recolha de rolhas. Então querem as nossas rolhas e tratam-nos como se fôssemos Ingleses? Está mal.)

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«Aparte/à parte»

É pôr de parte


      «Ainda assim, não podendo falar de consensos absolutamente consensuais (aparte Kanye West), assinalamos concentrações estéticas» («Melhores do ano. Música», Mário Lopes, «Ípsilon»/Público, 24.12.2010, p. 3).
      Erros assim comezinhos são os mais comuns. Só é, ou devia ser, incomum ser um jornalista a dá-lo. À parte é uma locução adverbial e significa excepto, sem falar em, em particular, de lado, isoladamente. Aparte é um substantivo e significa o que um actor diz simulando falar consigo; frase isolada para interromper alguém; observação marginal em discurso.

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Atol de Bikini

E porque não?


      «O atol de Bikini, nas ilhas Marshal, e Papahânaumokuâkea, um conjunto de pequenas ilhas e atóis do Havai passaram a integrar a lista como património natural. Por último, o Planalto Central do Sri Lanka foi classificado como património misto» («Palestina, Jordânia e Israel unem-se por Jerusalém», Marina Marques, Diário de Notícias, 2.08.2010, p. 41).
      É raríssimo ver-se aportuguesado para atol de Biquíni, mas no Diário de Notícias não seria inesperado.

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«Giga», redução

Aos tropeções, mas avança


      «O autor [António Barreira] guarda a sua história premiada “numa pen de quatro gigas”, e o perfume que usou para a escrever, o Cool Water, de Davidoff, na prateleira. Irrecuperáveis são os chinelos — diz ter um par por cada novela que escreve: “Eram de Verão e usava-os quando escrevia em casa, depois de horário de trabalho. Foram muitos meses...”» («‘Meu Amor’ custou perto de cinco milhões de euros», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 25.11.2010, p. 55).
      Quer queiramos quer não, a língua avança. Se para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora giga é apenas uma cesta larga ou um cesto de vime, sem asas, para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já é também a redução de «gigabyte». É que não são já apenas os informáticos que falam assim, mas toda a gente.

[Post 4232]
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Sobre «conduta»

Muito mais simples


      A ideia que tenho é que o galicismo conduta (conduite) cedeu algum campo, nos últimos anos, aos vernáculos procedimento e comportamento. Por vezes, contudo, trata-se de uma falsa questão, pois não se tem de utilizar nenhum dos três vocábulos. Veja-se esta frase: «O homem [ex-militar] com quem me encontrei seguia um código de conduta cujo imperativo era servir os outros.» Nesta expressão em concreto, a locução é, julgam muitos, inescapável. Ora, da leitura do original conclui-se que não era necessário usar nem o galicismo, nem nenhum dos possíveis termos vernáculos correspondentes, nem sequer a expressão. Leiam: «The man I met at that time was living by a code of service to others.»

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Como se escreve nos jornais

Caturrice, dizem?


      «Subitamente, os militares [da GNR] aperceberam-se de um Ford Fiesta a efectuar uma violenta travagem, ligaram os rotativos da viatura e um dos militares saiu, dando ordem de paragem ao condutor do veículo» («Fugiu e quis atropelar a patrulha», Reis Pinto, Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 17).
      Se se tivessem dado conta ainda teria sido melhor, mas adiante. Eu pensava, e decerto a maioria dos falantes, que «rotativo» era somente adjectivo. Neologismo, então. E aquele «dando» não é o que Vasco Botelho de Amaral chamou gerúndio copulativo — espúrio na língua portuguesa? E, no entanto, bem arreigado já.

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«Face a»

Perante isto...


      Quatro homens armados, vestidos com fatos-de-macaco pretos e com máscaras carnavalescas, assaltaram há dias o hotel Tiara Park Atlantic. Queriam, mal informados, assaltar uma ourivesaria que ali existia, e por isso iam munidos de uma marreta. Contentaram-se então com a máquina registadora do restaurante do hotel e com o cofre da recepção. Trocos, decerto, para quem queria levar mãos-cheias de ouro. Escreve o jornalista: «Face à informação[,] um dos suspeitos saltou o balcão da recepção e já no interior do espaço apontou a arma de fogo [a] um dos dois funcionários que estavam na altura no local e exigiu que este lhe entregasse dinheiro» («Assalto armado a hotel de luxo», Susana Otão, Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 14). Sim, está mal escrito, mal pontuado, mas só queria realçar este aspecto: João de Araújo Correia, e outros cultores da língua, iria espumar com aquele «face à», mas quem é que hoje em dia sabe que é calinada em vez de «perante»?

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Estrangeirismos

O que se esqueceu


      Quando tratou do vocábulo «olho» na fraseologia portuguesa, Vasco Botelho de Amaral não se lembrou de referir, de passagem e para um fim meramente didáctico, o empréstimo do francês a olho nu (à l’oeil nu), ao contrário de Mário Barreto, que propôs como alternativas «a olhos desarmados» e «com a vista desarmada». Que se vê nos dicionários actuais? Registam, indiferentemente, «a olho nu», explicando que significa sem auxílio de qualquer utensílio óptico, e «à vista desarmada». Muito próxima, esta, portanto, da proposta do filólogo brasileiro. «À vista desarmada» usa-se até mais do que se possa julgar. Muitas outras propostas foram, infelizmente, desprezadas. Por fortuna, já ninguém usa revanche (nem revancha, um pouco, mas muito pouco, melhor), mas ainda se discute, de vez em quando, se avalancha é melhor do que avalanche (mas temos alude), e há quem se lembre sempre de equipe (como Mário Soares) e não de equipa, cabine mas não cabina, etc. Ainda estamos a tempo.

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Tradução: «Ground Zero»

Ou Zona Zero?


      Já aqui defendi mais de uma vez, e expliquei porquê, que não se devia grafar Ground Zero em itálico. A expressão passou a ser usada superabundantemente após os atentados às Torres Gémeas de Nova Iorque. Cá está: Torres Gémeas. Foi assim que, a determinada altura, se passou a dizer entre nós. (Em contrapartida, nós é que temos as verdadeiras Twin Towers ali para Sete Rios...) Se a temos de usar duas ou três vezes, não pensamos muito no caso. Se, pelo contrário, a temos de usar algumas dezenas de vezes no mesmo texto, já dedicamos ao assunto mais alguma reflexão. A expressão teve origem com o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e em Nagasáqui. Refere-se à área onde todos os edifícios foram quase arrasados e onde a mortalidade atingiu os 85 por cento ou mais das pessoas que se encontravam na rua sem protecção. Em Hiroxima, por exemplo, o raio do Ground Zero ficou acima de 1,6 km. Porque não traduzir sempre por Zona de Impacto, como se vê algumas vezes?

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Adaptação de estrangeirismos

Imagem tirada daqui

Paratonnerre


      A propósito da adaptação de estrangeirismos, e concretamente do galicismo abat-jour, de que o mesmíssimo Garrett também se ocupou, Vasco Botelho de Amaral mostrou, no seu Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, ter seguido a lição camiliana de aprender no «dicionário inédito do povo». Assim, certa vez, ouviu de um gaiato (palavra, infelizmente, pouco usada hoje em dia) «apara-raios». E eu também já a ouvi da boca de gente simples. «Ora», justifica Vasco Botelho de Amaral, «o gaiato que disse apara-raios desviou-se do falar geral e talvez incurável (que adoptou pára-raios), mas deu-me lição de aportuguesamento analógico admirável. Na verdade, se os pára-raios aparam os raios que atraem, que melhor aportuguesamento haveria do que este de apara-raios, com semelhança fonética e de esplêndida precisão descritiva do aparelho?» (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

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Topónimos

Dá mesmo


      Dá ver ler o Diário de Notícias e ver como grafam topónimos estrangeiros com uma feição portuguesa. Podem errar, e de facto erram, e muitos outros aspectos, mas neste são quase exemplares: «Natural de Mineápolis, antes de estudar representação na Universidade do Minesota, Peter Graves esteve no exército americano, em 1944 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial» («O rosto e a lama da série ‘Missão: Impossível’», L. S., Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 49). «O automóvel está exposto no Museu dos Transportes de Lausana, na Suíça, num evento ontem inaugurado e que decorre até amanhã» («Um dos ícones de James Bond está exposto na Suíça», Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 16). «O proprietário de um stand de automóveis de Nova Jérsia vai manter a sua palavra e oferecer ao pastor protestante Terry Jones, da Florida, um novo carro, depois deste não ter queimado o alcorão» («Pastor ganha carro por não queimar Alcorão», Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 41). «Em Marbelha, a 28 de Setembro, sete horas de cirurgia, eis o princípio do fim da fantasia e dos aspectos masculinos» («“O mundo do futebol está preparado para uma Ema?”», Paula Carmo, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 9).

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«Sediado/sedeado»

Vinda do Brasil?

      «Desde 1948 que ninguém avistava uma espécie de mosca peluda muito rara, a Mormotomya hirsuta. Mas os entomologistas Robert Copeland e Ashley Kirk-Spriggs do Centro Internacional de Fisiologia de Insectos, sediado no Quénia, anunciaram ontem tê-la reencontrado nas montanhas Uzaki, desse mesmo país, a cerca de 200 quilómetros da capital, Nairobi» («Mosca mais rara do mundo redescoberta», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 30).
      Depois de alguma estranheza inicial, no início da década, é agora seguramente variante maioritária (mas nem por isso mais correcta ou legítima), atestada nos dicionários.

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De «site» a «sítio»

Estamos quase lá


      Não vejo nenhuma necessidade de usar o anglicismo «site» em vez da tradução portuguesa, «sítio», ultimamente olhado com menos desprezo. Contudo, não deixo também de ver que é raro alguém usar, na escrita ou na oralidade, o vocábulo português sem lhe pospor «da Internet».
      «O brasileiro Leonardo é o novo treinador do Inter de Milão. Leonardo substitui Rafael Benítez um dia depois de este ter rescindido contrato. O campeão europeu e de Itália anunciou hoje o nome no sítio da Internet do clube» (Luís Soares no noticiário das 7 da tarde na Antena 1).

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Dequeísmo

Só o título


      «PJ suspeitou de que Evaristo fosse traficante» (Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 23.11.2010, p. 23).
      Vê-se este erro também nos livros, mas na imprensa, pela ignorância catalisada pela pressa, é muito mais encontradiço. É até erro com nome: dequeísmo. O verbo suspeitar, à semelhança de outros, só se constrói com complemento oblíquo ou preposicionado quando encerra um grupo nominal («suspeito dos seus conhecimentos gramaticais»), mas já não é assim quando ocorre com uma completiva, como no caso acima: PJ suspeitou que Evaristo fosse traficante.

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«Meia-vida»

Está na hora


      Guardou uma fotografia do marido (†) «along with a vial of constantly half-lifing Urakami dust». «Um frasquinho com pó de Urakami em constante semidesintegração»? Não, não. Já ouviu falar da meia-vida do urânio, por exemplo? E na meia-vida do carbono-14, algo de que a ficção e o cinema se têm servido ultimamente? Meia-vida é o tempo necessário, numa reacção física ou química, para que se reduza à metade da inicial a quantidade de átomos radioactivos idênticos. Vá, agora procure o blogue de um físico nuclear.

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«Extras», de novo

Refeições extras

      Miguel Soares, no noticiário das 9 da noite na Antena 1, acabou de dizer que a TAP vai deixar de servir refeições nos «voos domésticos»... Bem, mas não era isso que eu pretendia dizer, mas isto: «Voos extras podem salvar consoada de portugueses» (Nuno Miguel Raposo, Jornal de Notícias, 23.12.2010, p. 51).
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Sujeito indeterminado

Fica a saber


      «Assistiram-se, então, a lágrimas em muitos rostos, em gente simples que até os cachecóis levou para a missa. Os Superdragões depositaram uma coroa, numa homenagem singela a quem, pela palavra era, também, um “superdragão”» («Um adeus emocionado a Pôncio Monteiro», Manuel Luís Mendes, Jornal de Notícias, 23.12.2010, p. 60).
      Desta vez o problema não é a regência do verbo assistir, nisso está bem: é um verbo transitivo indirecto e rege a preposição a. O jornalista já deve ter ouvido falar de sujeito indeterminado, mas vagamente. Neste caso, o verbo fica na 3.ª pessoa do singular, acompanhado do pronome se. Agora o jornalista tenha cuidado e não generalize e confunda. João de Araújo Correia, na obra A Língua Portuguesa, já advertiu: «Quando o pobre se ainda se atreve a apassivar, tomam-no as bocas ineptas como sujeito da proposição. Comparam-no com o on francês. Andam por aí aos baldões fraseados tristes como os seguintes: representou-se comédias, comeu-se batatas e abraçou-se condiscípulos. Se o se é sujeito, coloque-se, como quem o honra, antes do predicado. Tente-se a experiência para se obterem os seguintes luxos: se representou comédias, se comeu batatas e se abraçou condiscípulos. O senhor se ficará parvo de todo com esta honraria. Correram-se as cortinas da tribuna real. Com esta frase começa Rebelo da Silva a descrição de uma tourada. Se fosse repórter do século XX, escreveria: foram corridas as cortinas da tribuna real. Ou então, querendo ser mais chique, tomaria o se como sujeito e escreveria: correu-se as cortinas da tribuna real. Como quem diz: o senhor se correu as cortinas.»

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Verbo «colocar»

Compulsivamente


      «“Chegou a casa, seco, sem o computador e com muita fome.” Foi assim que Igor, o jovem de 14 anos de Rio de Mouro, Sintra, que se encontrava desaparecido há uma semana, colocou um ponto final no desespero dos seus pais, que até e-mails enviaram para o gabinete do primeiro-ministro, José Sócrates, solicitando ajuda» («PJ esteve em contacto com jovem desaparecido que regressou ontem», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 23.12.2010, p. 23).
      Caro Carlos Rodrigues Lima, então agora já não se diz nem se escreve «pôr um ponto final»? E aí na redacção ninguém sabia?

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Como se escreve nos jornais

Mutações


      É ilustrativo da inanidade da crítica ver como para uns a música de Lady Gaga é puro lixo acústico, enquanto para outros é pura harmonia celestial imperdível. Bem, mas não é isso que interessa agora, mas o nome da criatura. Da «loura explosiva», como li há dias, mas esta é uma opinião ainda menos consensual. O nome, pois. Há escassos meses, era Lady GaGa (e podia até ser, a acreditar na fonte de inspiração, Lady Ga Ga); agora, já é Lady Gaga. Descuido ou mera imitação do que se vai escrevendo na imprensa internacional? «O vídeo que promove o novo álbum da cantora Lady GaGa levou 15 milhões de pessoas ao YouTube» («Lady GaGa colocou a irmã no vídeo visto por 15 milhões», Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 56). «Os números antecipados não deixaram ninguém enganado. Os números, entenda-se, das vezes que Lady Gaga mudou de roupa, dos novos temas a ser revelados ao longo do concerto, da quantidade de camiões que transportam na estrada todo o aparato cénico que transporta a Monster Ball Tour» («O baile de orgulho de Lady Gaga e os seus ‘monstrinhos’», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 12.12.2010, p. 58).

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Risco de vida/risco de morte

Na fronteira


      Risco de vida/risco de morte. São ambas elípticas, isso é claro: risco de perder a vida e risco de encontrar a morte. Mas qual é a mais comum na língua portuguesa? Sem qualquer espécie de dúvida, a primeira, mas com a segunda a impor-se graças (parece) aos que antepõem a lógica à linguística. Entre eles, num dado passo mal dado, Camilo Castelo Branco. Noutras línguas, porém, também existem (mas com isso podemos nós bem) as duas formas: risk of life e risk of death, em inglês, riesgo de vida e riesgo de muerte em espanhol, risque de vie e risque de mort em francês. Posto isto, será razoável perder tempo a tentar descortinar a legitimidade de uma em detrimento da outra?

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Redacção

Onde fica o não


      Imaginem que alguém escrevia esta frase: «Agora temos de analisar cuidadosamente as razões a favor de x.» Reflectia e acrescentava: «O problema é que não parece haver muitas.» Aparecia o cônjuge e alterava: «O problema é que parece não haver muitas.» Quem tem razão? Há aqui matizes a considerar? Está aberta a antena.

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Recursos

Queremos saber


      Renasceu o Clube de Matemática da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), projecto que devemos acompanhar de perto. Até porque, afinal, como revela Nuno Crato, da SPM, «o primeiro clube deste género em Portugal foi fundado em 1942. E o mais curioso é que não foi lançado numa faculdade de ciências, nem numa escola de engenharia. Apareceu na Faculdade de Letras de Lisboa, porque os estudantes de Línguas e Literatura achavam interessante completar a sua formação — por isso não se queriam esquecer da Matemática e desejavam estar a par dos grandes temas de ciência».

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Ortografia espanhola

Reformas aqui ao lado


      Depois de oito anos de trabalho aturado, a Real Academia Española (RAE) publicou a nova edição da Ortografía, coordenada por Salvador Gutiérrez Ordóñez. Doravante, em espanhol, os substantivos que designam títulos nobiliárquicos, dignidades e cargos ou empregos de qualquer categoria (civis, militares, religiosos, públicos ou privados) devem escrever-se com minúscula inicial por serem nomes comuns. A nova edição tem, como seria de esperar, muitas outras alterações nas suas 746 páginas. Outra é a opção da grafia Catar em vez de Qatar. E mais: monossílabos como guion e truhan deverão escrever-se sem acento; o o entre números tão-pouco levará acento («será 5 o 6» e não, como até agora, «5 ó 6»); exmarido escrever-se-á junto, mas ex capitán general, separado.

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«Teraelectrão-volt». Plural

Se não for, está mal


      Filomena Naves entrevistou o director do CERN, Rolf Heuer, para o Diário de Notícias. Eis a primeira pergunta: «O LHC está a operar desde Março a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina: 7 teraelectrão-volt (TeV). Está para breve a descoberta do bosão de Higgs (a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares)?» («‘Dentro de dois anos podemos ter grandes novidades’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 30).
      Não faltam fontes em que se lê precisamente o mesmo. Contudo, o plural de electrão-volt não é electrões-volt? Então o plural de teraelectrão-volt terá de ser teraelectrões-volt.
      No recentíssimo Decreto-Lei n.º 128/2010, de 3 de Dezembro (cuja referência agradeço ao leitor Fernando Ferreira), diploma que actualiza o sistema de unidades de medida legais, transpondo a Directiva n.º 2009/3/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de Março, alterando pela segunda vez o Decreto-Lei n.º 238/94, de 19 de Setembro, no uso da autorização legislativa concedida pela Lei n.º 18/2010, de 16 de Agosto, não se lê, naturalmente, nada sobre o plural de «electrão-volt». Nem fala de «teraelectrão-volt», nem seria necessário, pois publica uma tabela com os múltiplos e os submúltiplos e uma alínea estatui: «Os nomes dos múltiplos e submúltiplos são formados pela simples junção do prefixo ao nome da unidade.» Nem uma palavra sobre o plural das unidades, que, salvo melhor opinião, devem seguir as regras gerais da língua. Sobre plurais, somente isto, questão para a qual já aqui chamei a atenção bastas vezes: «Os símbolos das unidades ficam invariáveis no plural.» Os símbolos, não as unidades.

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Como se escreve nos jornais

Tirem um curso


      «Os investigadores do GPIAA [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves] detectaram que os flaps “estavam na posição UP”. “Aguarda-se o depoimento do piloto [Diogo Cantinho, de 19 anos] para saber se foi intencional este acto ou se foi consequência da acção dos populares aquando do resgate da aeronave”» («Piloto vai ter de explicar o que aconteceu ao avião que caiu», Luís Fontes, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 20).
      Talvez Luís Fontes saiba o que são flaps na posição UP, mas decerto que não o leitor médio, arredado da aeronáutica. Quanto a «flap», os Brasileiros dizem «freio aerodinâmico», ou dão-lhe feição portuguesa: flape. E o Dicionário Houaiss regista que flape é a «parte da asa de um avião que pode ser deslocada por rotação em torno de um eixo paralelo à envergadura, a fim de alterar a forma geral e as características aerodinâmicas».

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Tradução

Eh lá


      Não podemos é desatar a aportuguesar tudo quanto nos aparece pela frente. Um exemplo. Durante a II Guerra Mundial, o Governo japonês distribuía pelas famílias um cereal castanho-avermelhado anteriormente dado apenas como ração aos cavalos. A este grão era dado o nome de koren ou korian (na transliteração inglesa). Não vamos agora aportuguesar o vocábulo, como acabei de ver, para «coreano». A única solução passava por saber qual o nome científico e então procurar conhecer se há designação comum em português. Até porque aportuguesar daquela maneira, se fosse legítimo e correcto, acarretaria igualmente o problema de se gerar confusão com o gentílico «coreano» (Korean), e naquela época ainda o Japão era uma potência em expansão e eram levados coreanos para o Japão e reduzidos à escravatura. Tudo junto, o cereal coreano e os cidadãos coreanos, na mesma obra seria demasiado.

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Topónimo: «Cardife»

É pena


      «A polícia britânica prendeu ontem 12 homens suspeitos de estarem a preparar um ataque terrorista, numa série de operações policiais ao amanhecer em Inglaterra e no País de Gales. A polícia de West Midlands informou que cinco dos suspeitos foram detidos na cidade galesa de Cardiff, quatro em Stoke-on-Trent e três em Londres» («Polícia prende 12 suspeitos de planear ataque terrorista», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 21.12.2010, p. 13).
      Durante décadas e décadas, na imprensa o que se lia era Cardife. Até Eça de Queirós usava com esta grafia. É ver também as portarias do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo. Agora consultamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vemos? Isto: «cardife nome masculino designação da hulha proveniente de Cardiff, capital do País de Gales».

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Acordo Ortográfico

Imagem tirada daqui
Ainda picam


      A revista Visão lá continua com os seus «espetadores»: «Em três semanas de exibição em Portugal o documentário Saramago e Pilar [sic], de Miguel Gonçalves Mendes (na foto) já teve 11 300 espetadores» («SMS», Visão, 16.12.2010, p. 152). Ainda se lembram do que escreveu Vasco Graça Moura? «Quer dizer que tal como “espetadores”, termo alvoroçadamente cunhado pelo Expresso quando anunciou a sua entrada triunfal na mais silly das áreas, a do Acordo Ortográfico, até uma publicação com a responsabilidade cultural do J/L não se coíbe de lançar mão de uma portentosa compendiação de asneiras» («‘Silly season’ e ‘silly country’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 50).

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«Provisão», uma acepção

Já que fala nisso

      O serviço postal britânico, o Royal Mail, pode vir a ser adquirido pelo serviço público de correios da Alemanha. Por isso mesmo, a efígie da rainha Isabel II poderá vir a desaparecer — oh! — dos selos britânicos. Lê-se hoje no Diário de Notícias: «Uma fonte do Governo britânico, citada pelo jornal The Mail on Sunday, admitiu existir uma omissão na lei: “Faltou uma provisão na legislação que obrigasse o futuro proprietário da empresa a usar a imagem da Rainha”» («Rainha Isabel II pode desaparecer dos selos britânicos até 2012», Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 23).
      É acepção relativamente rara, esta do vocábulo provisão. Habitualmente, quando surge, é num contexto em que também surgem os vocábulos «cheque» ou «cargo». E porque aparece ele aqui? Simples: foi usado o vocábulo «provision» na notícia do The Mail on Sunday.
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Verbo «morar»

Uso e desuso

      «O Google Earth permite-me ir espreitar a mangueira que ainda dá sombra àquela rua luandense que deixei de morar há 40 anos, e o Street View mostra-me, como só por mim não imaginaria, o que são os 40 centímetros de neve que a minha filha me disse cobrirem a sua cidade — uma e outra, essas invenções do Google têm gente dentro» («O Google Body e o meu voto», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 52).
      Não quereria Ferreira Fernandes escrever «rua luandense em que deixei de morar»? Claro que não. Apesar de invulgar, esta construção do verbo morar como transitivo pode ler-se, por exemplo, em Herculano: «Doou D. João I, também, as casas que o mestre morava.» Todavia, é uma regência desusada actualmente.
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Guantánamo e Guantânamo

Uma variante

      Em toda a imprensa portuguesa lemos o topónimo Guantánamo. Até há dias, era assim sem excepção. «A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos recusou na madrugada de ontem o encerramento da prisão de Guantánamo» («Guantánamo. A prisão que Obama prometeu fechar vai continuar aberta», Mariana de Araújo Barbosa, i, 10.12.2010, p. 313). Mas eis que leio na Sábado: «Por fim, é preciso saber ler o “diplomatês”, ou até mesmo o inglês, e ser fiel ao que lá está, para evitar a manipulação descuidada que tem vindo a ser feita dos telegramas já conhecidos sobre os voos de repatriação de Guantânamo, uma política pública e conhecida ao ponto de até haver presos recolocados em Portugal, confundidos com os voos para a prisão em Cuba, de que até agora não há traços nos telegramas» («Mediações», José Pacheco Pereira, Sábado, 16.12.2010, p. 13).
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Sujeito indeterminado

Emende-se

      Já sei quem é o jornalista: António Torrado. Continua a dizer: «Neste momento, procedem-se a trabalhos de limpeza na via.» Correcto é, e que alguém lhe transmita a informação: «Neste momento, procede-se [ou procedem] a trabalhos de limpeza na via.» O sujeito é indeterminado e só há duas maneiras de o indeterminar: a) com o verbo na 3.ª pessoa do singular mais o pronome se; b) com o verbo na 3.ª pessoa do plural, sem o se.
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Recursos

Algo se aprende


      De vez em quando, é bom ver o que anda a fazer a Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia. Melhor, a Dirección General de Traducción de la Comisión, pois falo dos espanhóis. Publicados ambos em Agosto, temos o Guía del Departamento de Lengua Española I (Redacción y presentación) e o Guía del Departamento de Lengua Española II (Problemas y dudas de traducción).

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Plural de «refrão»

Pode continuar igual


      «Se lhe falássemos em Stefani Germanotta, a associação com a loira explosiva de 24 anos que pôs o mundo a cantarolar os seus refrães não seria imediata» («Lady Gaga. De carne e osso para os pequenos monstros», Nelma Viana, i, 10.12.2010, p. 34).
     Refrães. Perfeito. Dantes, era este o único plural de refrão. É o que regista, por exemplo, o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Ultimamente, como que a pedido, pela possível estranheza causada, alguns dicionários passaram a acolher também o plural refrãos.

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Ph.D. Dissertation

Ou não é?


      Na semana passada, um professor universitário falava do número de teses de mestrado feitas em Portugal. Hoje, isto: «defendi com êxito a minha dissertação de doutoramento», escreveu alguém. Traduziu daqui: «I successfully defended and passed my Ph.D. Dissertation.» Não interessa, no caso vertente, como é no mundo académico anglo-saxónico, ou talvez importe dizer somente isto: há diferenças de país para país e mesmo de universidade para universidade. Interessa é como é entre nós. Ora, já vimos aqui que a diferença, em Portugal, dimana da própria lei. Assim, é dissertação de mestrado e tese de doutoramento.

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Selecção vocabular

Uma faceta mais...


      «Nas cartas que serão licitadas em França revela-se uma faceta mais interior do implacável imperador, que dizia gostar de “mulheres com passado e homens com futuro”. “O meu marido não me ama, adora-me, creio que um dia ficará louco”, escreveu Josephine numa carta datada de 1796 e remetida a uma amiga próxima, Madame Tallien, poucos meses após o casamento com Napoleão» («Íntimo de Napoleão a nu nas cartas de Josephine», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 56).
      Há uma íntima relação entre interior e íntimo, mas não se confundem, pelo menos nos usos que se lhes dão. E até se podiam carrear para aqui mais alguns: interno, imo e, no limite, esotérico (que é um comparativo em grego e, etimologicamente, significa «mais íntimo»). Interior é relativo à parte de dentro; interno. É verdade que também o usamos referido à alma, ao espírito, mas não é o caso em apreço. Seria então íntimo, que tem origem ou que existe no âmago de uma pessoa; de que participam somente aqueles com que se tem estreita relação de amizade ou familiaridade.

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Selecção vocabular

Em última instância


      «À porta da instância jurídica de Milão, Fabrizzio Corona, que viu o colectivo de juízes reduzir-lhe a pena inicial, de três anos e oito meses, reclamou inocência. E assegurou lutar “até ao fim” em defesa do seu nome. “Quando se acredita em algo, é o que se deve fazer... Pensava que existia justiça, mas não. Não estou orgulhoso de ser italiano”, atirou o fotógrafo» («‘Rei dos paparazzi’ vai cumprir um ano de prisão», Irina Fernandes, Diário de Notícias, 8.12.2010, 51).
      «À porta da instância jurídica de Milão». Há-de parecer a alguns algo supinamente inteligente — mas é apenas um disparate. Os tribunais estão divididos em tribunais de 1.ª instância e em tribunais de 2.ª instância. Aqueles são os tribunais que julgam o caso, habitualmente tribunais de comarca, estes são os tribunais da Relação, que julgam os recursos. As instâncias superiores são os tribunais de jurisdição superior desde os da Relação até ao Supremo. E faço notar que a organização judiciária civil italiana é semelhante à nossa.
      O artigo começava assim: «O Tribunal de Milão, Itália, condenou o paparazzo italiano Fabrizio Corona a uma pena de prisão de um ano e cinco meses por chantagem.» O Tribunal de Milão (Tribunale di Milano) é um tribunal de recurso, a Corte d’Appello di Milano. A jornalista deveria ter explicado com estas minudências? Evidentemente que não. Devia apenas ter evitado usar, e usar erradamente (porque se trata de um conceito relacional), conceitos complexos. «À porta do tribunal, etc.»

[Post 4199]
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Tradução: «web stall»

Imagem tirada daqui

Por uma vez


      Estão a ver aquelas tiras de tecido à frente do cavalo? Em inglês dá-se-lhes o nome de webbing ou web stall, nome sugestivo. E em português? Podemos encontrá-las à venda com o nome de «cortina de boxe». Se eu as fabricasse e comercializasse, dar-lhes-ia o nome de teia de baia. Sim, colado ao inglês — e, neste caso, bem.

[Post 4198]
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«Demais/de mais»

Agora é que é


      «Afinal não é ainda tarde demais para os ursos-polares. Esta é a boa notícia de hoje na Nature, que faz capa do tema a partir de um artigo de cientistas dos Estados Unidos e do Canadá. O seu estudo indica que, se as emissões de gases com efeito de estufa forem reduzidas nas próximas duas décadas, as grandes extensões de gelo do Pólo Norte, que são o habitat destes animais, têm grandes hipóteses de não desaparecer do mapa» («Ainda há tempo para salvar os ursos-polares», Filomena Naves, Diário de Notícias, 16.12.2010, p. 30).
      E como escreveriam, na frase acima, os meus leitores: demais ou de mais? Por demais explorada e mastigada, é ainda assim uma questão gramatical que importa rememorar.

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Ortografia

Não é blasfémia


      «Porém, nem só de mar se escreve a história do Bairro Alto. Na Travessa da Água-da-Flor, onde terá vivido um afamado fabricante ou vendedor daquele perfume, teve lugar o episódio que deu origem à palavra “conto-do-vigário”. Terá sido entre os números 24 e 26 que, no século XIX, foi encontrado o padre Manuel Vicente, depois de ter sido embebedado e de ter sido convencido a vender a sua casa por 7500 réis. A história correu os jornais da época, que utilizaram como manchete “o conto-do-vigário”, disse Elisabete Rocha» («Ruas revelam Bairro de marinheiros», Inês Banha, Diário de Notícias, 16.12.2010, p. 21).
      Palavra, sim, segundo os dicionários, mas, já o vimos aqui recentemente em relação a outra, devia ser uma locução: conto do vigário. O pulcro Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista, mas existe o vocábulo vígaro, de génese popular, e com duas acepções: vigarista e vigário. Assim, na história do padre Manuel Vicente, havia um vígaro e um vigário, ou, com equívoco mas propriedade, dois vígaros. Nestas comedelas há sempre um vigarista e um crédulo e ambicioso.

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Ortografia: «lengalenga»

Não conheço, não


      «Devem recordar-se de uma antiga lenga-lenga a que as crianças ainda acham graça e apreciam cantar e que reza assim: “Há fogo, há fogo, nas cuecas do Diogo” («A tia louca da família», João Bonifácio, Público, 12.12.2010, p. 14).
      Podia ser, sim senhor, mas não é assim, antes lengalenga. É habitual este erro, e já aqui o abordámos mais profundamente.

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Títulos jornalísticos

Os adolescentes sabem


      «“Fazer um título é complicado na medida em que é difícil encontrar uma fórmula que intrigue o leitor, que seja chamativa, não seja especulativo e que informe”, disse Bárbara Almeida, de 14 anos, aluna da Escola Básica Paulo da Gama, na Amora» («Alunos aprendem a fazer títulos e a vencer dificuldades», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 67). Estão a ver como uma adolescente, em visita ao Media Lab do Diário de Notícias, sabe como fazer um título jornalístico? Na última crónica do provedor do Público, esta questão foi abordada. Em causa estava um título abstruso: «Só ameaça de demissão de Assis travou revolta na Bounty socialista». Recomenda no fim o provedor, José Queirós: «“Revolta”, embora aparentemente pífia, ainda vá. Agora “na Bounty”, a que propósito? Se a isto juntarmos que em nenhuma parte do destaque se explica o que foi essa “revolta na Bounty”, podemos concluir que a escolha de um título algo críptico, e por isso menos eficaz, deveria ter sido evitada» («Títulos para descodificar», Público, 12.12.2010, p. 39).

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Sobre «descontinuar»

Nem eles sabem

      «Em causa, ao que apurou o DN, estará o escoamento dos stocks de computadores que as operadoras das redes móveis ainda tinham disponíveis para estes escalões e a relutância das mesmas em avançar com novos portáteis antes de verem garantido o financiamento dos mesmos. A Vodafone confirmou mesmo ter descontinuado o e.escolas, mas para todos os alunos» («Operadoras deixam de dar portáteis para o e.escolas», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 19).
      São sobretudo burocratas e certos empresários que usam o verbo descontinuar, claramente português, e de boa cepa. Contudo, vindo de quem vem, parece que deve mais à influência do inglês to discontinue, com as mesmas acepções. O que interessa é o resultado?

Actualização no mesmo dia

Vejam no portal do programa e.escolas o vídeo de apresentação. «Eu também acho», afirma José Sócrates, num tom grandiloquente, «que a sorte vem sempre quer da audácia, quer do esforço, mas quero desejar a todos aqueles que estão envolvidos e profundamente envolvidos neste programa a maior sorte do mundo. Porque os resultados deste programa são também convidativos a que hajam novos programas.» Para não haver dúvidas, está também transcrito.

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Bordões da fala

E picareta

      O Prof. João Sentieiro, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), foi o convidado da emissão de 11 do corrente do programa Os Dias do Futuro, na Antena 1. O motivo eram os dez anos da participação portuguesa na Agência Espacial Europeia (ESA). Arrimou-se sempre a um bordão um pouco antiquado: pá. A meio ou no fim de várias frases, lá vinha um «pá». Contei, mas pode ter-me escapado algum, 46. É obra. Deselegante, pelo menos.
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Redundância

Tenho ouvido

      «Nós tínhamos conseguido», disse o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, à Antena 1, «dentro do âmbito do orçamento do próprio ministério, uma quantia de 5 milhões de euros, que foi disponibilizada por um despacho das Finanças, de finais de Setembro, para adquirir material.» Sim, é verdade, é na oralidade, é um improviso, mas, mesmo assim, serve para mostrar como actualmente se abusa do advérbio dentro. Neste caso, avulta a redundância, mas nem sempre é esse o problema. Não é raro ouvir-se, na mesmíssima Antena 1, jornalistas dizerem algo como «dentro da União Europeia». Já não chegam as preposições.
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Acordo Ortográfico

Assim não vale

      O jornal Público tem uma estranha forma de tratar os textos dos cronistas a quem permite que escrevam segundo as normas do novo acordo ortográfico. Pendente como uma bula, no fim da crónica («Privilégios regionais», Vital Moreira, Público, 7.12.2010, p. 37) de Vital Moreira pode ler-se: «a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico». Afirmação, decerto, com reserva mental, pois não dizem de que acordo ortográfico se trata. Ficamos logo esclarecidos quando lemos estes vocábulos no texto daquele eurodeputado: actual, efectuada, objecção, excepção, objectivamente, objectiva...
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Toponímia oliventina

Imagem tirada daqui
Bom exemplo

      Tanto me surpreendem as ausências, de que já aqui dei dezenas de exemplos, de vocábulos dos dicionários como a sobrevivência de outros. É o caso. Os dicionários mais vulgares da língua portuguesa continuam a acolher o vocábulo esnoga. Já conheciam? Talvez soe familiar a quem leu uma notícia no Verão que dava conta de as autoridades espanholas terem permitido que 73 ruas de Olivença voltassem a ostentar os nomes originais. (Mas coincidiu com o Mundial da África no Sul, e andava tudo aluado...) Ora bem, um desses arruamentos é a Rua da Esnoga, justamente porque nela se situava a sinagoga, a judiaria quinhentista de Olivença. Esnoga é, a par de outras, uma variante de «sinagoga». Lia-se no Diário de Notícias: «A toponímia original das ruas, que nalguns casos remonta à Idade Média, é inspirada nos antigos grémios de artesãos (como as ruas dos Oleiros e dos Saboeiros), em pessoas notáveis da vila (becos de Rui Lobo e João da Gama, faceira de Afonso Mouro, rua de Maria da Cruz) ou em santos de devoção popular (entre os quais São Bartolomeu, São Bento e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal) («Ruas de Olivença voltam a ter nomes portugueses», Luís Maneta, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 16). Atentem em faceira de Afonso Mouro. Poucos dicionários registam o termo «faceira». Faceira designa a terra de lavoura, fértil, perto de povoação.
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«Exames extras»

Na senda

      E o Diário de Notícias continua a fazer o que mais de uma vez já aqui elogiei: «Os peritos do Instituto de Medicina Legal (IML) de Lisboa precisam de mais elementos para perceber se o chamado “violador de Telheiras” deve ser declarado imputável. Henrique Sotero terminou na quarta-feira o quarto exame em psiquiatria forense que lhe tinha sido marcado no IML, mas, ao contrário do que foi noticiado ontem por um jornal diário, este não será o seu último teste. “Foram agendados mais exames extras para este mês. Só não sei ao certo as datas porque não tenho de acompanhar o meu cliente nestas diligências”, afirmou ao DN o advogado de Henrique Sotero, Pereira da Silva» («Sotero vai fazer perícias extras», Rute Coelho, Diário de Notícias, 11.12.2010, p. 29).
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