Uso do apóstrofo

Quase igual

      Não me lembro de alguma ter visto numa tradução a grafia queda-d’água. E, no entanto, é assim que está registado nos dicionários, como também estão os vocábulos borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, galinha-d’água, mãe-d’água, olho-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo e tromba-d’água, entre outros. É o que acontece, por exemplo, com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Alguns foram infamemente esquecidos pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No Acordo Ortográfico de 1990, pouco mudou em relação às anteriores normas, excepto (por esquecimento?) esta: «Sempre que, no interior de uma palavra composta, se dá invariavelmente, tanto em Portugal como no Brasil, a elisão do e da preposição de, emprega-se o apóstrofo: cobra-d’água, copo-d’água (planta, etc.), galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco. Dando-se, porém, o caso de essa elisão ser estranha à pronúncia brasileira e só se verificar na portuguesa, o apóstrofo é dispensado, escrevendo-se a preposição em forma íntegra: alfinete-de-ama, maçã-de-adão, mão-de-obra, pé-de-alferes
      Gosto, confesso, deste sinal gráfico designativo da elisão de uma ou mais letras numa palavra. Infelizmente, é muitas vezes mal grafado, pois é substituído por uma plica. Em termos de conceito, é confundido, como já aqui vimos várias vezes, com «apóstrofe».
[Post 4246]

Uso do apóstrofo


Última mania

      «O esforçado atleta, quatro vezes campeão mundial dos 1500 metros, consegue, finalmente, em Atenas’2004 completar o seu laureado palmarés com o título olímpico que lhe faltava.» Nos jornais desportivos é agora vulgar ler isto. Mas esta frase não vai figurar num jornal desportivo. Se é correcto usar o apóstrofo Atenas’04, porque se está a elidir uma parte da data, já não tem razão de ser usá-lo quando a data é completa. O melhor é escrever Atenas 2004.

O uso do apóstrofo


A propósito…



      Numa edição da semana passada do Diário do Minho, que já aqui passou pelo Assim Mesmo, li que se realizou na Universidade do Minho, nos dias 9 e 10 do corrente, a 6.ª edição do Congresso Internacional de Optometria e Ciências da Visão (CIOCV). O artigo, que não está assinado, assegura que «todo o programa do CIOCV’09 está pensado para proporcionar ao optometrista clínico mais e melhores competências para dar resposta aos desafios que se lhe colocam», convicção que não nos interessa. Mas quanto a «CIOCV’09»? Esta moda de usar o apóstrofo para suprimir metade da data ter-se-á tornado notória, entre nós, com a Exposição Mundial de Lisboa de 1998. Questionou-se então a adequação do uso deste sinal diacrítico para este fim e onde deveria ficar e se deveria haver espaçamento (Expo’ 98, Expo ‘98, Expo ‘ 98 ou Expo’98). Como se pode ver na imagem, oficialmente, grafou-se Expo’98. Há, é verdade, abreviação numérica como há abreviação vocabular. Até há uns anos, era relativamente vulgar ler-se e sobretudo ouvir-se referir datas omitindo a casa dos milhares. Alguém nascido em 1939, por exemplo, dizia que nascera em «939» (e pronunciava «nove, trinta e nove»). Na indicação das décadas, «década de 80», também há, de alguma maneira, abreviação. E, em qualquer dos casos, nunca se usa apóstrofo. Pela mesma ordem de ideias, creio que também se não deve usar nestes casos. Logo, eu escreveria CIOCV 09.


Actualização em 30.05.2009

      Afinal encontrei um exemplo em contrário: numa nota de António Sérgio às Odes Modernas de Antero de Quental: «Por via de regra, os liberais de todos os países da Europa interessaram-se pela causa da independência da Polónia, por ocasião das revoltas de 1830 e ’63» (Odes Modernas, Antero de Quental. Edição fac-símile da edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio [1943], Sá da Costa Editora, 2009, p. 173). «Os radicais prepararam durante alguns anos um novo movimento insurreccional, que veio a rebentar em ’63» (p. 174).



Apóstrofo

Apóstrofo inútil


      E, a propósito de apóstrofo, um poema da Mensagem, de Fernando Pessoa, tem por título «Nunálvares Pereira». Pelo menos numa edição que aqui tenho, da Assírio & Alvim (Lisboa, 3.ª ed., 2002), da responsabilidade de Fernando Cabral Martins, que, em nota final, esclarece: «O título do único poema aqui incluído é transcrito sem modificação pela edição crítica [Mensagem. Poemas Esotéricos, edição coordenada por José Augusto Seabra. Madrid, Colecção Archivos, CSIC, 1993], mas sofre na edição de David Mourão-Ferreira uma alteração de “Nunalvares» para “Nun’Álvares”[,] o que parece consistir apenas numa actualização ortográfica. No entanto, a grafia do nome tem uma dupla tradição, que remonta às primeiras edições impressas da Crónica do Condestável, no século XVI: ou com os dois nomes separados (por exemplo, “Nuno Alvarez”) ou juntos (por exemplo, “Nunalvrez”). Em Herculano, o nome é escrito também dos dois modos, “Nunalvares” e “Nuno Alvares”, nas primeiras edições de Lendas e Narrativas e de O Monge de Cister, por exemplo. Talvez tenha sido em Herculano que Pessoa leu esta possibilidade de grafia do nome — que torna a utilização do apóstrofo inútil» (pp. 99-100).

Uso do apóstrofo

A métrica do erro


      Freire d’Andrade? Mera adesão à obra de Sttau Monteiro. No entanto, é tão legítimo usar neste caso o apóstrofo como em Victorino D’Almeida. A verdade, porém, é que só o uso do apóstrofo nas ligações de duas formas nominais quando é necessário indicar que na primeira se elimina um o final está previsto no texto dos acordos ortográficos: Nun’Álvares, Pedr’Eanes. Em certos compostos, também se usa este sinal diacrítico para assinalar a eliminação do e da preposição de, em combinação com substantivos como borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, estrela-d’alva, galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo. Recentemente, tudo o que se refere a Barack Obama é notícia, como a escolha da raça do cão para as filhas do presidente dos Estados Unidos da América: «O “melhor amigo” de Sasha e Malia, filhas de Barack Obama, já está escolhido: vai mesmo ser um cão-d’água português» («Cão da Casa Branca descende do canil de Conchita Cintrón», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 27.02.2009, p. 32). Os Brasileiros usam (e abusam) muito mais o apóstrofo do que nós, que, todavia, usamos incorrectamente «p’lo» em correspondência de carácter formal, como se tal elisão se justificasse.

Apóstrofo e apóstrofe


Tradução a Mattelo


      A Mattel Portugal pediu a alguém que traduzisse as instruções do jogo Scrabble. Faltou, desgraçadamente, dinheiro para contratar os serviços de um revisor e o resultado está à vista: confunde-se apóstrofo, o sinal gráfico (’) designativo da elisão de uma ou mais letras numa palavra, com apóstrofe, a figura de estilo que consiste numa interpelação a alguém realizada através da utilização do vocativo e do discurso directo. Já vimos aqui outros jogos com o mesmo tipo de defeito.

Apóstrofo



The idiot box

      Num documentário, emitido ontem, sobre os vários filmes King Kong, na 2:, numa legenda podia ler-se «nas décadas de ’60 e ’70». O apóstrofo está ali para quê? Escreva-se: «décadas de 60 e 70» ou «décadas de 1960 e 1970».


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