Definição: «pasteurização»

Não tão simples


      «Secondo la normativa vigente (Reg. CE 853/2004), per “latte crudo” si intende un latte che non è stato riscaldato a più di 40 °C. E noto, tuttavia, che per inattivare i microrganismi patogeni vegetativi devono essere raggiunte temperature ben superiori, come quelle di pastorizzazione: 72 °C per 15 secondi oppure 63 °C per 30 minuti oppure una combinazione con effetto equivalente» («Che cos’è il latte crudo?», Valentina Santarpi, Corriere della Sera, 3.08.2026, p. 22). 
      Ora aí está: ou uma combinação de efeito equivalente. É o que falta na definição de «pasteurização» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «processo de conservação dos alimentos em que estes são aquecidos a uma temperatura não superior a 100 °C e arrefecidos depois rapidamente, de forma a eliminar os germes patogénicos». Se alguém aquecesse um alimento a 99 °C durante um segundo, pela definição da Porto Editora isso continuaria, absurdamente, a caber no conceito de pasteurização. Na realidade, o critério dos 100 °C é inadequado como elemento definidor; «eliminar os germes patogénicos» é excessivamente absoluto; e falta o carácter tecnológico do processo. 
      Assim, proponho ➠ pasteurização processo de conservação de alimentos que consiste em submetê-los a um tratamento térmico controlado, normalmente inferior a 100 °C e definido por uma combinação específica de temperatura e tempo, seguido de arrefecimento rápido, a fim de destruir ou reduzir a níveis seguros os microrganismos patogénicos e retardar a deterioração do produto.

[Texto 23 387]

Léxico: «cacifro»

Mais uma resgatada do olvido


      «— Não vamos tão longe, sr. Maurício — emendou o minorista — O que se diz é que ele passava o Tâmega nas poldras, com a cana de pesca e o cacifro; depois, metia­-se na Ínsua, e a Josefa ia lá ter» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 21). 
      De «cacifro», a Porto Editora remete para «cacifo», e aqui só uma acepção atinente, não à pesca, mas à caça: «cesto de vime onde os caçadores levam o furão». Na obra de Camilo, contudo, é um aparelho de pesca, que encontramos também noutros autores do século XX. Vai sendo trabalho de pura arqueologia. Assim, proponho ➠ cacifro PESCA cesto de verga, geralmente de forma circular e levado a tiracolo, em que o pescador guarda o peixe capturado, podendo mantê-lo dentro de água para conservar as capturas vivas ou frescas.

[Texto 23 386]

Definição: «orgasmo»

Resposta neurofisiológica


      Na passada sexta-feira, foi Dia Mundial do Orgasmo. Podia ter sido também dia para melhorar a definição de «orgasmo», mas estamos sempre a tempo, até porque as definições que por aí vejo me deixam, não sei, desentusiasmado, desentesado, desiludido... Assim, consultados Masters e Johnson e o que a literatura médica actual diz, proponho ➠ orgasmo FISIOLOGIA resposta neurofisiológica correspondente à fase culminante da excitação sexual, caracterizada por intensa sensação de prazer e, geralmente, por contracções musculares involuntárias dos órgãos genitais e da região pélvica. 
     Quanto à etimologia, pode dizer-se muito mais, assim ➠ do grego orgasmós, «excitação; impulso; efervescência», derivado de orgáō, «inchar; estar excitado; arder de desejo», pelo francês orgasme, «orgasmo».

[Texto 23 385]

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P. S.: Não deixaria de dicionarizar este, tão encontradiço, orgasmo intelectual figurado sensação intensa de prazer, deleite ou êxtase, especialmente provocada por uma experiência estética ou intelectual.


Etimologia: «convescote»

Não caiu do céu


      «Bem me lembro, estão aqui anotadas no caderno vermelho: as palavras “alpendre” e “vitrola”, citadas entre as cinquenta de que nos fomos perdendo, reunidas num estudo do Observatório da Língua Portuguesa. Eu tinha ficado preso a uma outra, a palavra “convescote”, criada pelo latinista carioca António de Castro Lopes de quem acabo de encontrar, em Braga, um admirador e estudioso entusiasta, o actor e dramaturgo Manoel Candeias, doutorado em artes de cena pela universidade de Campinas» («A vitrola no alpendre», Fernando Alves, TSF,  24.06.2026, 8h53). 
      Não se dizer isto, que é absolutamente certo, está documentado, nos dicionários é que me deixa perplexo.

[Texto 23 384]

Léxico: «engasgalhado»

Outra desaparecida dos dicionários


      «— Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro, berço e tudo. Olha que desgraça, ó Isabel!» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 44).

[Texto 23 383]

Léxico: «não pôr mais na carta»

Até na Alemanha sabem


      «— Não ponhas mais na carta. Tosquei tudo! Que bailões! E a Ruiva também era...» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 14). 
      Já aparece em muito poucos dicionários, isto quando se trata de uma expressão frequente na literatura do século XIX e até do século XX. Encontro-a, por exemplo, no Die falschen Freunde: Portugiesisch-Deutsch, Deutsch-Portugiesisch, em que é traduzida por «du brauchst nicht deutlicher zu werden», isto é, «não precisas de ser mais explícito». 

[Texto 23 382]

A propósito de «Celtic»

Sabido, mas esquecido


      No sentido de «celta» ou «céltico», a pronúncia actualmente corrente é /ˈkeltɪk/. A pronúncia /ˈseltɪk/, historicamente anterior em inglês e hoje pouco usada nestas acepções, conserva-se sobretudo em nomes próprios, como Celtic Football Club. A pronúncia com /k/, difundida a partir do século XVIII e consolidada no século XIX por historiadores e linguistas, foi resultado da aproximação às formas antigas (grego Keltoí e latim Celtae), em que a consoante inicial se pronunciava /k/. isto mesmo, ou abreviado, se devia dizer no verbete Celtic do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. A apresentação actual, ao enumerar /ˈkeltɪk/ e /ˈseltɪk/ sem nenhuma indicação de uso, leva a supor que ambas são hoje igualmente correntes nas acepções «celta, céltico» e «ramo de línguas celta», o que não corresponde ao uso predominante. Seria conveniente manter ambas, mas distinguir a pronúncia moderna geral da variante histórica, actualmente conservada sobretudo em nomes próprios.

[Texto 23 381]

Léxico: «diamantário»

Ora, também a temos


      «Les diamantaires anversois ont offert “Freedom 250” au président américain, qui a décidé d’exempter les diamants taillés importés de Belgique de taxes. Un rabbin dénonce un “acte flagrant de corruption”. Et porte plainte contre Trump, sur fond d’enquêtes sur des pratiques de circoncision» («Donald Trump et la bague de la discorde», Valérie de Graffenried, Le Temps, 29.07.2026, p. 5). 
      Ah, mas nós também temos a palavra diamantário, sinónima de «diamantista», o que negoceia com diamantes, só falta que no-la devolvam para os dicionários.

[Texto 23 380]

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