Ortografia: «metainformação»

Depende do dia

      «Mais uma vez, e à semelhança do que acontece na Alemanha, de acordo com a notícia publicada na semana passada pela revista Der Spiegel, não se trata de ouvir as conversas telefónicas ou de ler as mensagens trocadas nas redes sociais, mas sim de registar a metainformação das comunicações de todas as pessoas — os dados que indicam o número de telefone, a localização dos intervenientes numa conversa ou a data e a hora dessas comunicações, por exemplo» («Cidadãos brasileiros espiados “em grande escala” pelos serviços secretos dos EUA», Alexandre Martins, Público, 8.07.2013, p. 23).
      Isto foi hoje, porque na sexta-feira o jornalista achou, mal, que devia ter hífen: «À semelhança dos programas de espionagem norte-americano e britânico — expostos pelo antigo analista informático Edward Snowden —, também as autoridades francesas estarão a interceptar e a guardar a meta-informação das comunicações, segundo o Le Monde» («Secreta francesa também sabe “quem fala com quem”», Alexandre Martins, Público, 5.07.2013, p. 25).
[Texto 3063]

«Haveria de»

Soa a «avaria»

      «Parece que Ferreira de Castro na selva “se fez homem” e à “selva”, como húmus, haveria de voltar. [...] Levou tempo a escrever sobre a selva. Sabia que ela estava dentro de si e que haveria de contar a exploração dos homens, o horror da solidão da Amazónia, verdejante de excesso de calor, os urros como entidade viva, o pesadelo do coração das trevas, que Joseph Conrad também descreveu» («Casas-museu. Dois lugares para a memória de Ferreira de Castro», Raquel Ribeiro, Público, 7.07.2013, pp. 16-17).

[Texto 3062]

«Auto não sei quê»

Modo automático

      Agora: «Com a estabilidade governativa escaqueirada, Portugal ficou à mercê da perplexidade dos mercados. Precisamente, [sic] o que se queria evitar, e que levou às condecorações que o Governo se autoconcedeu» («Insólitos portugueses», Nuno Ribeiro, Público, 6.07.2013, p. 14).
      Dantes: «Júlio olhou a manhã translúcida, por debaixo da qual a neblina, agachada sobre as faldas da montanha, ia sendo varrida. E, antes de fazer perguntas, concedeu a si próprio um pouco de tempo para reter esse poderoso instante de calma» (Fogo na Noite Escura, Fernando Namora. Lisboa: Publicações Europa-América, 1988, p. 445).
[Texto 3061]

«Indecoris causa»

Tem graça, mas o título?

      «Há algumas dúvidas sobre a origem deste pensamento. Provou-se que não é nem de Miguel Relvas (doutorado “indecoris causa” por várias academias) nem de Milton Friedman, o papa dos mercados, nem sequer dos dois alunos de Excel e estatísticas falsas Rogoff e Reinhart (não confundir com o inventor das pílulas de alho que te ajudam a respirar melhor, só não respires para cima de mim)» («Irrevogável principiante velho», Rui Cardoso Martins, «2»/Público, 7.07.2013, p. 33).
[Texto 3060]

De vela e à vela

Porque este é diferente

      Lá fora, 40 ºC, e aqui em casa acabei de ler a «Ode Marítima», de Fernando Pessoa, disfarçado de Álvaro de Campos. Ando farto de engenheiros, mas como este é só a fingir, cá vai: «Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!/Vão rareando — ai de mim! — os navios de vela nos mares!» Um dia destes, ainda vão transformar aqueles navios de vela em navios à vela. Para não confundir as cabecinhas.
[Texto 3059]

Quando calha, latim

Metades

     «Se esta tragédia fosse ficção — e parece que é — eu escrevia-lhe um final trágico como é norma das tragédias. Um suicídio, político ou literal (tanto faz), mas heróico e cheio de dignidade. Como o de Brutus, quando se retirou para a montanha depois de ser derrotado pelas legiões de Octávio e Marco António. Ou como o de Cato, que preferiu morrer a ser perdoado por César» («Um fim trágico como nas tragédias», Pedro Bidarra, «Dinheiro Vivo»/Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 17).
      Dois nomes em latim, dois em português. Nada mal, equidade absoluta. Só um génio como Camilo é que podia escrever inteiramente em português: «Os vocábulos liberdade, virtude, ciência e progresso das luzes, felicidade do género humano, saem-lhe continuamente da boca, mas um tal Bruto é um abjecto adulador; paixões, vergonhas devoram um tal Catão; tal apóstolo da tolerância é o mais intolerante dos mortais, e tal adorador da humanidade é um sanguinário perseguidor» (Os Mártires, Chateaubriand. Tradução de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1979, p. 113).
[Texto 3058]

Como escrevem os catedráticos

Alguns, pelo menos

      Escreve Maria José Azevedo Santos, catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e especialista em Paleografia Medieval e Moderna, bem como História da Escrita, no suplemento «Q», do Diário de Notícias: «Não tenho qualquer pudor em dizer que sou leitora diária e consultora de dicionários. Para além da língua sou uma apaixonada pelo interior da palavra e sou mesmo dependente para a minha escrita de trabalho de investigação. O dicionário, ou melhor, os dicionários são um conjunto de ferramentas para dar uso ao rigor da palavra. Uma pessoa como eu, no magistério há mais de três décadas, tem por obrigação dar boa palavra oral e escrita. Falar melhor e escrever melhor só ‘lendo’ os dicionários tal como este [Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora]. Poderá parecer estranho para algumas pessoas mas eu leio dicionários. Não os consulto, apenas. Aprecio, de sobremaneira, a forma como a palavra se cruza com os seus significados. As milhares de entradas lexicais que os dicionários vão recebendo são um desafio para quem tem a escrita como ferramenta» (Maria José Azevedo Santos, «Q»/Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 5).
      Ah, sim há ali muito para despiorar, mas o que mais me surpreendeu, vindo de quem vem, é aquela afirmação inicial: pudor em dizer que se consultam dicionários!
[Texto 3057]

Português de cão

Duraram pouco, felizmente

      «A história do secretário de Estado que decide marcar encontros diários (briefings diz ele em português de cão...) com os jornalistas é significativa. E quando o dito secretário começa a ditar as suas regras (de instrumentalização, entre ons e offs, sempre em português de cão), alguém mandatado pela “classe” deveria levantar-se e dizer-lhe: “Não estamos aqui para lhe servir a sopa, mas sim para informar os cidadãos. E somos nós que decidimos o que é importante ser dito ou não.”» («A postura indispensável», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 6.07.2013, p. 43).
[Texto 3056]

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