Cheque endossável

Não me incumbe

      Ontem perguntaram-me — «já que se ocupa destas coisas da língua» — o que se deve fazer com o cheque não endossável. Assina-se, não se assina? O meu interlocutor confunde um pouco as coisas, mas vamos lá ver. Ainda que talvez baste saber ler para fazer o que é preciso, seria conveniente que entidades como o Banco de Portugal o explicassem. Endossar um cheque é transmiti-lo a pessoa diferente da que figura no título como beneficiário, não é assim? E como é que isso se faz? Apondo a assinatura nas costas (dos, em francês), no verso do cheque (e indicando a entidade a favor da qual é transmitido, mas esta não é uma indicação obrigatória). Assim, o cheque não endossável, que existe há pouco tempo, não pode ser assinado. O beneficiário só pode fazer uma de duas coisas: ou deposita-o na sua conta ou levanta-o ao balcão de uma agência do banco sacado. (Agora vejam lá, não me perguntem como se faz cerveja caseira.)

[Texto 1782]

Sobre «rocket»

Nem pensar

      «Homens encapuzados a disparar rockets de fabrico artesanal. Barricadas com pneus, contentores ou troncos de árvores a arder, agentes da Polícia Nacional e da Guardia Civil armados até aos dentes e a tentarem proteger-se dos projéteis» («‘Rockets’ artesanais e cargas policiais no conflito das Astúrias», P. V., Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 7).
      Ia lá sair do bestunto de algum português palavra que traduzisse, melhor ou pior, o conceito expresso por «rocket». Não há nem nunca houve nada de remotamente aparentado. Com quanta mais razão os jornalistas — e não Vieira — diriam «conheci que não sei falar português». «As autoridades», continua o jornalista, «estão atentas, para que o cenário de confronto asturiano não se translade para Madrid.» É claro que o livro de estilo que aconselha a preferir-se «trasladar» e «trasladação» a «transladar» e «transladação» não é o do Diário de Notícias. Fúnebre.
[Texto 1781]

Sobre «marchante»

E o marchand

      Em Espanha, continua a marcha dos mineiros das Astúrias, Leão e Castela sobre Madrid. «Bolhas nos pés: o principal problema dos marchantes», lê-se na edição de hoje do Diário de Notícias. E também há os marchantes das festas populares em Lisboa. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, marchante continua a ser somente «aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos». O mercator pecuarius, como no tempo de Bluteau.

[Texto 1780]

«Palavra compósita»

Acho bem

      «Não tenho a certeza de já ter lido a expressão “palavra compósita”. No caso, para traduzir o inglês “portmanteau word”. Vou pensar nisto.» Escrevi isto hoje de manhã nos 140 caracteres com que o Twitter nos espartilha. Já pensei: parece-me bem. Alguns, a mostrarem-se espertos, já disseram que se pode dar a volta: «palavra-valise».

[Texto 1779]

«Devido a»

Toda a verdade

      «— Devida a — Perguntou-se-me se é portuguêsa a forma devido a. Pelos jornais, revistas e livros modernos são de cotio frases assim redigidas: — não fui devido à chuva, — fiquei devidos aos negócios, — etc.
      Segundo o filólogo Mário Barreto o uso de devido a “é coisa recente”, mas “pode defender-se, considerando esta forma como preposicional.”
       Em português de lei temos as formas — em virtude de,em atenção a,em conseqüência de, por causa de, por obra de, por amor de,graças a, resultante de, — por e outras que tais.
      Mário Barreto, que muito a preceito sabia as coisas da língua, fez uso de devido a, como locução preposicional, nêste passo: — “Posteriormente, devido à relação com cerrar, disse-se e prevaleceu em castelhano cerrojo”. (Através, 127.)
      Sandoval de Figueiredo nos seus Vícios de Linguagem, pág. 155 e 156, diz que é galicismo a expressão devido a. Mas deixa de o ser “quando devido se emprega como particípio passivo: Isto foi devido a, estas coisas são devidas a, etc. — “O gênero masculino... é devido à influência do vinho”. (Mário Barreto: Novíssimos, 37) — “Estas imperfeições eram devidas à criação quase monástica que recebera”. (Rebêlo: H. de Port., I, 5)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 30)
[Texto 1778]

O verbo «lapsar» não existe

Só com soluços

      «Importa ainda perceber a razão por que mentiu – uma vez que o verbo lapsar não existe – o então deputado Miguel Relvas ao Parlamento ao comunicar ter o segundo ano de Direito quando, na verdade, apenas tinha concluído — com 10 valores — uma cadeira do primeiro ano» («Doutores há muitos», Nuno Saraiva, Diário de Notícias, 7.07.2012, p. 11).
      Pois não existe, apenas co lapsar (sem reticências, a lembrar a «Oral History (With Hiccups)»), por que a maioria dos tradutores do inglês se pela: «O colapso do Império Romano».

[Texto 1777]

Tradução: «luncheonette»

Isso é no Brasil das telenovelas

      Querem rir-se? Então ouçam: o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora não regista o vocábulo «luncheonette», mas o Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora regista «lanchonete». Já têm fôlego de novo? Pois bem, o Dicionário de Português-Inglês da Porto Editora para «lanchonete» dá como equivalente o português — «snack bar». E não podemos traduzir por «cafetaria»? O Dicionário Michaelis diz que é o restaurante que serve refeições rápidas. Nada de «lanchonete».

[Texto 1776]

Léxico: «tupido»

É uma hipótese

      «Tanto a cozinha como os quartos eram antigas celas dos frades e abriam para o claustro, o qual tinha uma única entrada e estava tupido de laranjeiras e nespereiras de proporções colossais» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 209).
      Já tinha visto, já — mas noutra obra de Teixeira-Gomes, talvez em Agosto Azul. A propósito, não virá do castelhano? Fernando Venâncio, que acha? (Ouvi-o hoje na TSF a falar do escritor holandês Gerrit Komrij, que vivia numa aldeia do concelho de Oliveira do Hospital e morreu ontem.)
[Texto 1775]

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