Formas de tratamento

El-rei, meu senhor e pai

      De verdade histórica, mais do que de verosimilhança, se trata. Dirigir-se-ia, em público, o infante D. Henrique a seu pai por «meu pai»? Não seria antes «meu Senhor», pois que a soberania do monarca a tudo e todos se estende?

[Texto 586]

Léxico: «quatrínqua»

Alguém o tem visto?

      «E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos uma quatrínqua de vezes, cuja vida e reverendíssima pessoa nosso Senhor, etc.», despede-se Camões numa das cartas. Onde pára (ou «onde para», na nova ortografia) o vocábulo «quatrínqua»? Desapareceu na voragem do tempo. Será castelhanismo? Digo-o, embora, naturalmente, pareça mais directamente provir do latim, porque os dicionários actuais ainda registam quatrinca, do castelhano cuatrinca, quatro cartas do mesmo valor, no jogo.
[Texto 585]

Tradução: «filo de las hojas»

Dúvida cortante

      Os livros eram já muito manuseados, tanto «que el filo de las hojas se había granulado». Como traduzir aquele filo de las hojas? Será «rebordo das folhas»? «Extremidade»?

[Texto 584]

«Primavera Árabe»

Não é só a mesma estação

      «Tem seguido as Primaveras Árabes. Que impressão tem sobre esse processo?», perguntam, no Público de hoje, Isabel Coutinho e Miguel Gaspar a Ricardo Pereira, director da TV Globo Portugal.
      Já mais de uma vez pensei — perante a diversidade do que leio, mas não só — qual a melhor forma de grafar a expressão. Ocorre-me outra semelhante, a que dá nome à época de descompressão no final do Estado Novo. Assim, vê-se: «primavera marcelista»; primavera marcelista (usada por Cunhal, que acrescentou: «expressão deliciosa»); Primavera marcelista; «Primavera marcelista»; «Primavera Marcelista»; primavera Marcelista... Tanto num caso como no outro, a que me parece que se deve adoptar é com maiúsculas iniciais, sem aspas: Primavera Árabe, Primavera Marcelista.

[Texto 583]

Como se escreve nos jornais

É que são sempre os mesmos

      «Depois de uma eleição ou de uma remodelação, muitas vezes até ganha. Serve para tapar um “buraco”, para afastar um apoiante incómodo, para resolver com mansidão e “neutralidade” uma querela entre dois “caciques”. A televisão e os jornais declaram o “independente” uma “cara fresca” e ele entra esfusiante pelo Estado dentro na completa ignorância do que sejam a administração e a sociedade portuguesa. Para naturalmente fugir dali a uns meses como um sendeiro triste, à procura de um novo dono» («O “independente”», Vasco Pulido Valente, Público, 16.10.2011, p. 56).
      O Público trata todos os textos — seja uma local ou uma crónica — da mesma maneira. Mal. Nem são apenas questões de ortografia (é «esfuziante», com z), mas repetições inadmissíveis num texto pequeno: «O “independente” costuma esvoaçar à volta à volta dos grandes grupos de interesses, dos lobbies universitários, do PSD e do PS.»
[Texto 582]

Como se fala na rádio

Muito me contas

      No Hotel Babilónia, João Gobern, que, ao que confessou, acordara com sangue quente e resposta pronta, inventou hoje uma nova forma de nos referirmos aos que estão informados: «documentados». Já estávamos familiarizados com os imigrantes indocumentados, agora temos as «pessoas documentadas», não como antónimo, mas antes como nova categoria.

[Texto 581]

Linguagem

Chegou à casa de banho

      «Ir à casa de banho pode tornar-se uma experiência de outro mundo para os ricos deste mundo. O Numi, nova sanita lançada pela empresa norte-americana Kohl, vem equipado com um telecomando de ecrã táctil, “parecido com um iPod”, escreve Sam Grobart no New York Times. “Também lava e seca o utilizador [com água e jacto de ar quentes, configuráveis conforme o sexo]”, acrescenta. O autor teve o privilégio de ter um em casa durante um mês para “tentar perceber por que é que alguém gastaria 6400 dólares (cerca de 4600 euros) numa sanita high tech, ou seja, “81 vezes mais cara do que um trono de base”» («Sanita para rabos de luxo», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 15.10.2011, p. 3).
      Talvez só o Aulete registe o vocábulo «trono» como sinónimo jocoso e popular de vaso sanitário — mais do que propriamente de sanita. A empresa norte-americana não se chama Kohl, como o antigo chanceler alemão, mas Kohler. Ah, e porque há-de ser «o Numi» e não «a Numi»?

[Texto 580]

Uso das aspas

Não valia a pena

      «Desavenças relacionadas com um divórcio levaram dois homens a envolver-se numa luta corpo a corpo. Um deles, que está separado da mulher que agora vive com o outro, serviu-se de um chicote de couro e “alma de alumínio” de 60 centímetros. Mas foi ele quem apanhou mais. O segundo conseguiu tirar-lhe o objecto e acabou por lhe dar uma sova» («Um chicote de couro é uma arma cuja posse é proibida ou é um objecto decorativo?», José António Cerejo, Público, 14.10.2011, p. 14).
      É mais uma catacrese — e as aspas mostram o receio do jornalista (e dos juízes?) de que se confunda o interior do chicote com a parte imaterial do ser humano.
      Quanto à substância da questão jurídica: podeis chicotear quem vos aprouver (há sempre quem mereça), porque, segundo os desembargadores, se trata de um «objecto cujo “uso foi desviado” da sua finalidade originária de “fustigar cavalos”». Pelo menos do crime de detenção de arma proibida ficam absolvidos. Quanto ao resto, logo se verá.
[Texto 579]

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