Léxico: «retroiluminação»

Nada de novo

      «A retroiluminação permite adaptar o ambiente consoante a cor e intensidade da luz» («‘Sushi’ cosmopolita com exclusividade», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 60).
      Vem do inglês retroillumination, e, se ainda não se encontra registado nos dicionários gerais de língua inglesa, por cá já o temos no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Não, não é preso por ter cão, preso por não ter cão. Parece algo muito moderno, mas a verdade é que há muito tempo que se usa no campo da medicina, pois é a designação dada à técnica de examinar tecidos transparentes e semitransparentes (como a córnea) fazendo incidir uma luz pela parte de trás desses tecidos. Infelizmente, vê-se muitas vezes incorrectamente escrita, com hífen. Contudo, é retroiluminação, como retroactividade e retroalimentação, por exemplo.
[Post 4744]

Como se escreve nos jornais

Ficamos sem saber

      «No discurso de abertura desta reunião ‘magna’ dos bispos portugueses, D. Jorge Ortiga exortou os políticos a debater “o estado da sociedade portuguesa com ideias claras e propostas autênticas”» («Bispos pedem campanha eleitoral com “transparência e honestidade”», P. C., Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 24).
      Mas a reunião foi magna ou não? Rápido, que eu tenho de ir tomar o pequeno-almoço. Magna: que, pela importância, se sobrepõe a tudo o que lhe é congénere; de grande relevância, como o define o Dicionário Houaiss.
      «Realisou-se essa reunião magna na sala principal do palacete situado na rua da Atalaia, onde annos depois vieram a estabelecer-se as officinas do jornal O Economista, do conselheiro Antonio Maria Pereira Carrilho» (Factos e Homens do Meu Tempo, Pedro Wenceslau de Brito Aranha. Lisboa: A. M. Pereira, 1908, p. 225).
[Post 4743]

Léxico: «geopolitólogo»

Do mesmo jaez

      «Apesar dos 25 milhões de dólares oferecidos pela sua captura, Ben Laden insistia em escapar à superpotência ferida, refugiando-se naquilo que os geopolitólogos chamam Af-Pak, tanto a ameaça islamita no Afeganistão e no Paquistão se confundem hoje em dia» («Ben Laden está morto, a ameaça terrorista não», Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 16).
      O que se disse sobre «politólogo» pode dizer-se de «geopolitólogo». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não perde a oportunidade: «Sugerir a inclusão no dicionário da palavra pesquisada.» Tomem, agarrem-na.

[Post 4742]

Plural dos etnónimos

Perdeu, perdemos

      «Estudo na cama, estudo na lama», costumava dizer o Prof. Ruy de Albuquerque (com i grego, sim senhor). Mas Proust, enfermiço em busca da melhor posição, trabalhava sempre na cama, num quarto à prova de som. Ontem à noite, pus-me a estudar algumas questões na Moderna Gramática Portuguesa, de Bechara (37.ª ed. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2002), que já aqui citei hoje numa caixa de comentários. Ora vejam isto: «Por convenção internacional de etnólogos, está há anos acertado que, em trabalhos científicos, os etnônimos que não sejam de origem vernácula ou nos quais não haja elementos vernáculos não são alterados na forma plural, sendo a flexão indicada pelo artigo plural: os tupi, os nambiquara, os caiuá, os tapirapé, os bântu, os somali, etc.» (p. 129). Reparem: «Em trabalhos científicos», não no Público ou no Correio da Manhã. Na conferência em que se deliberou nesse sentido, o representante do Brasil ainda ponderou «que todos os escritores luso-brasileiros, inclusive um clássico da excelsitude de Vieira, sempre adoptaram a forma do plural nos nomes de tribos ou grupos indígenas, ad instar das demais coletividades humanas», mas ficou assim.

[Post 4741]

Sobre «savana»

Em maus lençóis

      E José Rodrigues dos Santos disse, no mesmo Telejornal, que o corpo de Bin Laden foi «despejado ao mar». É um grande escritor, conhecedor, como se vê, dos clássicos, que usaram a expressão despejar o inimigo para significar ir dando cabo deles. E também podia ter dito simplesmente que os Americanos se despejaram, o que significa desembaraçar-se de alguma coisa que estorva, incomoda. Mas isto agora não interessa.
      Para lá de Badajoz, os mais prudentes dão como incerta a etimologia do vocábulo «savana». Nós recebemo-lo do espanhol, sim, mas onde o foi buscar esta língua? Talvez, aventam alguns, a uma língua das Caraíbas. Há algo mais a dizer sobre «savana». Até falantes do espanhol confundem sabana, a nossa «savana», com sábana, o nosso «lençol» (proveniente do latim, e que no português antigo também se usava), pelo que não é muito surpreendente que Cândido de Figueiredo, no seu dicionário, tenha caído neste erro: «Assim se escreve e se lê geralmente, mas a pronúncia exacta é sávana.» E, em coerência com o aviso, dá-o como proveniente do espanhol sábana, «lençol». Mas isto foi no século XIX. Não afirmou Sá Nogueira que o Novo Dicionário, o melhor até então, era fraco nas etimologias?

 [Post 4740]

Como se fala na televisão

É da emoção

      Bin Laden lá pagou o tributo à Natureza, e a jornalista Márcia Rodrigues, em directo da zona de embate nas Torres Gémeas para o Telejornal, viu pessoas que «foram pagar um tributo às vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001». Imagino que só os sobreviventes dos atentados tenham recebido o tributo... Cara Márcia Rodrigues, não confunda as coisas: pagar um tributo é pagar uma taxa ou imposto; prestar tributo é prestar homenagem.
[Post 4739]

«Livre-pensador»: plural

O autor de Os Burros ensina

      «Mais tarde, em França, passaram a ser designados por libertinos os chamados livre-pensadores, e sobretudo aqueles que defendiam o fim do regime monárquico e que ditaram o fim da monarquia com a Revolução Francesa» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 2.05.2011).
      Vê-se e ouve-se muito por aí. Nome composto de adjectivo + substantivo: pluralizam ambos. Livres-pensadores. Oh, diabo!, ainda alguém virá dizer-me que «livre» é advérbio, e por isso não pluraliza. Livre-pensador é quem pensa livremente, logo será «livre-pensadores». Solto, sem hífen, ainda era mais fácil tirar esta conclusão: livre seria, sintacticamente, complemento circunstancial de modo. Há aqui, porém, pseudocircunstância, como afirma José R. Macambira (A Estrutura Morfo-Sintática do Português: Aplicação do Estruturalismo Lingüistico. Fortaleza: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1974, p. 304). Mas não, é adjectivo. Livre porque, em matéria religiosa, tem o poder de decidir por si próprio, porque pensa apenas segundo a razão, sem subordinação dogmática. Porque é que os dicionários, mormente os disponíveis em linha, não registam o plural dos vocábulos? Sr.ª Eng.ª Helena Figueira, é o próximo passo?
      «O homem sisudo não pode olhar sem indignação para essa interminável coorte dos que neste século se dizem livres pensadores, quando contempla o soberbo, e ultrajante gesto, ou amargo sorriso com que eles olham para o homem de bem, que fiel a seus princípios, e consequente em sua crença, e conduta, respeita sua Religião, e a reconhece divina em sua fonte, e sua origem» (Sermão contra o Filosofismo do Século XIX, José Agostinho de Macedo, Lisboa: Impressão Régia, 1811, pp. 7-8 [actualização ortográfica minha]).
[Post 4738]

O feminino de «todo-poderoso»

Quem fez isto?

      Talvez F. V. Peixoto da Fonseca tivesse razão: o feminino (e o plural) oficial de «todo-poderoso» é um disparate. «Todo» é advérbio? Recuamos e o que se lê sempre é (esqueçamos agora o hífen) todo poderoso, todo poderosos, toda poderosa, todas poderosas. Temos de esperar que se legisle noutro sentido.

[Post 4737]

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