«Compactidade»

Qualidade do que é compacto

      A língua é o que é e não aquilo que queremos que seja. Ontem perguntaram-me que nome se dá àquele que revela bonomia. Pois é. Agora, trata-se de algo semelhante, mas já resolvido (veremos se bem ou mal). Que nome se dá à qualidade ou estado daquilo que é compacto? Ocorre-nos logo, se tivermos a cabeça no lugar, compactidade. Foi o termo a que chegou — sem mérito especial, pois é a forma encontrada por Rebelo Gonçalves no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa — Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca numa consulta no Ciberdúvidas. Mas estará dicionarizado? Não me parece. O termo que por aí corre — e tenho as provas de uma obra sobre urbanismo à minha frente em que se usa — é compacticidade. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o Dicionário Houaiss registam compacidade, mera colagem ao francês compacité, derivado irregular. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora deixa tudo nas mãos do leitor: regista compacidade, compactidade e compacticidade. A escolha está feita.


[Post 4671]


Como se fala na rádio

Precipitar-se no abismo

      Numa composição, uma aluna escreveu que as colegas «aficçaram um cartaz com os trabalhos do Carnaval». Uma colega declarou todos os rapazes «maliducados». Jornalistas em embrião. Mas vamos ao que interessa.
      «[…] e reza a lenda que terá sido erguida sobre as ruínas de uma outra, de uma pequena ermida dedicada a uma imagem de Nossa Senhora que terá misteriosamente aparecido no promontório do cabo Espichel, isto, claro está, há muitos, muitos anos atrás. […] Pouco depois, um clarão de enormes proporções, uma luz intensíssima iluminou toda a costa, vinha do alto de um promontório, e graças a ela o navio viu com clareza a costa, conseguiu evitar despenhar-se nas rochas e chegar a bom porto» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 8.04.2011).
      Sobre «uma outra» e «há anos atrás» já adverti várias vezes. Um navio pode despenhar-se nas rochas? Despenhar-se não é precipitar-se, cair de grande altura? Só se fosse uma lancha voadora! Junto à costa há bons despenhadeiros, sim, mas para quem está em terra.



[Post 4670]


(A propósito: actualizei a hiperligação aqui ao lado para os dicionários de Bluteau e de Morais, verdadeiros monumentos da língua portuguesa.)  

Ternura/tenrura

Ei-las

      «A lavagem dos cérebros existe. Há um trio de iguarias com fama de serem melhores quando são congeladas: os polvos, as framboesas e as ervilhas. Como em todos os exercícios de propaganda, há um elemento de verdade. O polvo, de facto, ganha acrescida ternura se for congelado» («Eis as ervilhas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 8.04.2011, p. 41).
      Em espanhol, um bife é tierno, «tenro», como uma pessoa é tierna, «terna». Azar o deles. Nós, inventivos e inteligentes, do mesmo étimo latino formámos duas palavras divergentes: «terno» e «tenro». E assim temos ternura e tenrura. As ervilhas que ontem cozeram no Café das Patrícias, nas Azenhas do Mar, por grandes afectos que tenham provocado nos comensais, só se podiam distinguir de outras, congeladas ou não, pela tenrura.

[Post 4668]

Como se fala na rádio

Caramba!

      Ser um faz mesuras: «Na prática, fazer mesuras corresponde a medir-se, no sentido figurado, claro está, com a pessoa a quem se presta a cortesia, a vénia ou a homenagem, sendo que dessa medição resulta o evidenciar da posição hierárquica de quem recebe as mesuras faça quem as faz» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 7.04.2011).
      «Faça quem as faz»?! A jornalista/locutora havia de querer dizer «faça-as quem as fizer», mas saiu esta redacção assaz estranha e sem sentido. A propósito, a locução quem quer que exige verbo no conjuntivo? Mas o povo diz (ou dizia, quando havia povo): Quem quer que é, a seu pai parece. Não é apenas no rifoneiro que encontramos o conjuntivo, mas também na obra de Camilo, por exemplo. («Rifoneiro», mais um termo na fila para entrar no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.)

[Post 4667]

Acometer/cometer

Livra!

      Uma das perguntas da entrevista era esta: «Que competências lhe estão acometidas na empresa x? Como chegou aí?» Cometer e acometer, devemos começar por dizer, são parcialmente sinónimos. Parcialmente, atenção. Entre os sentidos vários do verbo cometer (fazer, praticar, perpetrar; acometer, atacar; afrontar; tentar, empreender, intentar), encontramos o de confiar, entregar, encarregar, aqui empregado. Acometer é assaltar, atacar, investir; empreender; invadir moralmente. Um exemplo na obra de Rui Barbosa: «Nunca até então se cometera a um professor de línguas, profano em coisas jurídicas, a redacção de um código civil» (Réplica, n.º 2).


[Post 4666]


Tradução: «chaps»

Safa!

      No original lê-se que a miúda tinha ido à festa «her hair in braids, chaps hugging her legs, a huge cowboy hat». Na tradução, ficou — homessa! — «chaps». Então não são os nossos safões, as meias calças largas, de pele, usadas sobretudo pelos pastores? E mais à frente a protagonista comprou bolbos de tulipas e de jacintos e agora vai abrir «trenches» para os plantar. Na tradução: «trincheiras»! É bem como escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Os analfabetos continuam a fazer a língua, e os semianalfabetos continuam a desfazê-la» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 45).


[Post 4665]

Graus Celsius

O calor à noite

      «Anteontem e ontem, por volta da meia-noite em Lisboa, ainda a derrota do Benfica na Luz arrefecia e escurecia mais do que até os mais calorosos e iluminados tinham previsto, estavam duas dezenas de graus centígrados» («O calor de noite», Miguel Esteves Cardoso, Público, 7.04.2010, p. 39).
      Miguel Esteves Cardoso nasceu alguns anos depois da Conferência Geral de Pesos e Medidas de 1948, que aboliu a designação «graus centígrados», pelo que não tem nenhuma desculpa para escrever «graus centígrados» (excepto, naturalmente, não ter tido professores que lho tivessem ensinado). Como não há, nem nunca terá havido, ninguém que tenha escrito tanto e tão bem sobre o tempo (na dupla acepção, distinguida — e nós com inveja (ou não, porque nos damos bem com a ambiguidade) — pelos bifes com os vocábulos time e weather), seria muito bom que contribuísse para a abolição de facto da designação «centígrado».

[Post 4664]

Verbo «aspirar»: regência

Snif, snif

      A propósito da expressão ouro sobre azul: «Dada a importância e a conhecida grandiosidade e fausto da corte francesa, não é de admirar que a bandeira da casa real de França tenha inspirado uma expressão conotada com o que de mais magnífico e sublime se pode aspirar ou ambicionar» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 6.04.2011).
      No sentido de desejar, pretender, almejar, aspirar é transitivo indirecto, e preposicionado. Só no sentido de respirar, sorver é que não leva preposição. Vamos ao velho Morais. Vejamos... Pode ser o verbete «aspirante». Na mística, aspirante, lê-se, é «o que aspira a unir-se a Deus». (Não resisto a transcrever o que se lê neste dicionário acerca dos ortógrafos aspirantes: os que querem se escrevão com h, sinal de aspiração, as vogáes que entre nós não são aspiradas, e só por conservar a etimologia, como homem, humor, honra, &c.») «Toda a gente aspira a cargos importantes (dentro ou fora do país), a “montes” alentejanos, a casas na Lapa ou em Cascais, com vontade de ir a ministro» (Dicionário de Paixões, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994, p. 209).
      Há quem — todos os que não aspiram a fazer-se entender cabalmente nem prezam a língua — se exprima dessa forma descuidada. Não devia ser esse o desiderato de uma jornalista.


[Post 4663]

Arquivo do blogue