Ortografia: «supraterreno»

Está nos dicionários


      «Quanto ao domínio exercido pelos czares sobre a igreja [sic], associava-se intimamente à utilização pelo regime dos símbolos dessa mesma igreja [sic], servindo-se os czares da sua legitimidade supra-terrena em seu benefício próprio» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 50).
      Errado. Este elemento de formação de palavras apenas se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, supraterrena. Como supraterrâneo, supratorácico, supratranscrito...

[Post 3038]

Acento diferencial

Um acordo à nossa medida


      «— Uma baixela é o conjunto de pratos, chávenas, copos... — responde. — E pára de pensar sobre essas coisas. Só de pensar em pratos, dá-me uma fome» (Um Ajudante de Muita Ajuda, Antonio Iturbe. Colecção «Casos do Inspetor Zito e Chin Me Do». Cascais: Vogais & Companhia, 2009).
      O excerto desta obra estaria absolutamente correcto — se não estivesse o seguinte aviso no início: «Texto segundo o Acordo Ortográfico de 1990.» «Prescinde-se», lê-se no art. 9 da Base IX (Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas), «quer do acento agudo, quer do circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respetivamente vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras proclíticas.» Preposição e forma verbal deixam de se poder distinguir pelo acento.
      O erro pode dever-se a uma de duas razões: ou na editora desconhecem as regras do Acordo Ortográfico de 1990 ou, como decerto irá acontecer com outros, não «gostam» da regra. Não concordam. Não acatam.

[Post 3037]

Sobre «Occitânia»

Bons dicionários


      «Nele se narram (em três discos acompanhados de preciosos textos, numa edição de luxo) o aparecimento do catarismo em várias zonas da Europa Central, a cruzada e a invasão da Ocitânia (o actual Sul de França, grosso modo), a perseguição do catarismo e o seu estertor final.»
      Este é um excerto de um texto que acabei de rever. É a segunda vez em menos de quinze dias que vejo o topónimo incorrectamente escrito. Só para prevenir: nem no âmbito do Acordo Ortográfico de 1990 se escreve daquela forma. Continuará a ser Occitânia. A propósito: o «consagrado Dicionário da Academia de Ciências» não regista occitânico nem occitano. Tão-pouco occitanofalante, occitanofonia, occitanófono ou occitanoparlante — como o Dicionário Houaiss faz.

[Post 3036]

Numeração romana

Nem pensar


      «O XII.º Congresso, que teve lugar em Março de 1923, pode ser considerado como o último em que o Partido pôde usar ainda com legitimidade o seu nome revolucionário — do mesmo modo que podemos datar do ano de 1924 a morte do “bolchevismo”» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 339).
      Nesta obra repete-se este erro, que já tenho visto noutras obras. Os algarismos romanos tanto podem ser usados e lidos como ordinais como cardinais — e, no primeiro caso, nunca precisam de uma letra, a ou o, sobrescrita ou em índice.

[Post 3035]

Revisão

Até ao fim


      «Uma das primeiras foi a intervenção (algo aventurosa dada a proibição da sua entrada em França) no Congresso de Tours do Partido Socialista Francês (SFIO), em Dezembro de 1920, que por grande maioria decidiu a aceitação das “21 condições de admissão” na IC e a sua consequente transformação no Partido Comunista Francês» (Vozes Insubmissas. A História das Mulheres e dos Homens Que Lutaram pela Igualdade dos Sexos Quando Era Crime Fazê-lo, Isabel do Carmo e Lígia Amâncio. Revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2.ª ed., 2004, p. 179). «Adquire nestes anos um conhecimento aprofundado da teoria económica do marxismo e inicia uma colaboração regular na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit» (idem, ibidem, p. 185). «A intervenção no debate do ministerialismo foi ocasião de uma controvérsia com Jean Jaurès, que virá a ser o líder do Partido Socialista francês a partir da unificação deste, em 1905» (idem, ibidem, p. 188). «A primeira questão nasce em relação à greve geral desenvolvida em 1902 pelos trabalhadores belgas para a conquista do sufrágio universal, durante a qual o Partido Operário Belga estabelece um acordo parcial com o partido liberal, acordo que exclui as mulheres do direito de voto» (idem, ibidem, p. 189).
      Dúvidas, escusado seria dizê-lo, todos temos. Um revisor, porém, tem de tomar decisões e ser coerente até ao fim.

[Post 3034]

Sobre «arruada»

Erros no De Rerum Natura


      Escreve Rui Baptista no blogue De Rerum Natura: «No [sic] última edição do semanário Expresso (16/01/2010) foi noticiado, em escassas linhas, que o PCP, “ao fim de anos de luta, colocou a palavra ‘arruada’ no Dicionário da Academia”. E porque o povo também faz a língua, na essência, refere-se este suelto a Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, por ele, em hora de inspiração, logo aproveitada pelos meios de comunicação social, ter sido o padrinho do neologismo arruada na pia baptismal do consagrado Dicionário da Academia de Ciências para significar os passeios de rua dos partidos políticos levados a efeito, por exemplo, na última campanha eleitoral pelas ruas do vetusto Chiado, qual Fénix renascida das cinzas.»
      Se não soubesse que os verbetes estão ordenados alfabeticamente nos dicionários, teria andado perdido durante muito tempo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. A verdade é que neste dicionário passamos do verbete «arruaceiro» para o verbete «arruamento». O que está é registado o verbo arruar, mas em dicionários de há duzentos anos também estava. É o caso do Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. E quem consagrou o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea? Como se pode escrever sobre o que seja e não consultar as fontes citadas? Sendo o autor professor, mais obrigação tem de vir corrigir a afirmação.

[Post 3033]

Actualização em 21.1.2010

      Em relação à edição do Expresso do dia 16 de Janeiro não sei, mas na edição anterior encontrei um texto, de que transcrevo o seguinte trecho, que interessa ao debate: «E há ainda uma curiosidade política: a reentrada em cena de arruada, uma palavra que chegou a existir em dicionários antigos para designar digressões festivas pelas ruas e que, depois de anos a ser usada apenas pelos partidos mais à esquerda (PCP e Bloco de Esquerda) caiu no goto da gíria mediática nas três campanhas eleitorais de 2009, qualquer que fosse a cor das bandeiras ao longo das praças e avenidas» («As 13 novas palavras da língua portuguesa», Micael Pereira, Expresso, 9.1.2010, p. 26).
      Que dicionários antigos, caro Micael Pereira? Pode citar pelo menos um?



Adjectivos truncados

Duplas nacionalidades


      Uma consulente do Ciberdúvidas, Ana Oliveira, perguntou: «Gostaria de saber qual a forma correcta de referir duplas nacionalidades em português. Atendendo a casos como luso-brasileiro, franco-canadiano, ítalo-americano, afro-americano, parece-me existir um padrão, mas será sempre essa a regra?» A consultora Edite Prada respondeu: «Sim, a regra é sempre recorrer à forma truncada, ou seja, obtida retirando a parte final do adjectivo que se pretender colocar em primeiro lugar. No caso de haver dúvidas quanto à forma que a palavra assume, existe nos dicionários mais recentes, como entrada, a grande maioria desses elementos.»
      Está mal explicado, para não dizer errado. Desde quando é que a forma truncada se obtém «retirando a parte final do adjectivo que se pretender colocar em primeiro lugar»? São formas adjectivas mais curtas, truncadas, ou seja, incompletas. E são formas fixas, eruditas, não se obtêm desta ou daquela maneira.

[Post 3032]

Caraté, caratê, carate, karaté

Diversidade


      «O caraté é uma arte marcial e requer que o corpo produza o máximo poder de ataque com o mínimo de lesões» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 106).
      É relativamente raro encontrar o vocábulo com esta grafia, o que talvez não seja de surpreender, pois o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, no verbete caraté remete para karaté. No Brasil, contudo, a grafia é caratê. O Dicionário Houaiss também regista o termo caraté, mas para designar uma afecção cutânea de carácter crónico. E ainda temos o termo carate, aportuguesamento de carat, que, a avaliar pela sua ausência do Dicionário Eletrônico Houaiss, não é usado no Brasil.
      No âmbito do Acordo Ortográfico de 1990, continua a ser preferível, as regras sobre o seu uso ainda são restritivas, grafar o vocábulo com c, pois o grafema tem o mesmo valor fónico de k.

[Post 3031]

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