Antropónimos estrangeiros

Onde leram?


      Apesar de as fontes serem as mesmas e de se copiarem, os principais jornais não se copiam tanto que não escrevam o nome do presidente eleito da Guiné-Bissau de forma diferente: o Diário de Notícias grafa sempre Malan, o Público, Malam. «Após dez anos de conflito intermitente, a vitória de Malan Bacai Sanha nas presidenciais guineenses favorece a estabilização da Guiné-Bissau» («Vitória de Malan Bacai abre novo ciclo na Guiné», Luís Naves, Diário de Notícias, 1.08.2009, p. 29). «Malam Bacai Sanha é desde ontem o Presidente eleito da Guiné-Bissau. Com 63,5 por cento dos votos expressos à segunda volta; e o seu adversário, Kumba Ialá, aceitou formalmente a decisão popular» («Kumba Ialá aceitou sem problemas a derrota nas eleições presidenciais», Jorge Heitor, Público, 30.07.2009, p. 12) Em conversa, ontem, com um guineense, ex-revisor do Diário de Notícias, soube que o nome se escreve com m, Malam, que é também a grafia que se vê na imprensa guineense e na página na Internet da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, aqui.

Léxico: «sinecismo» e «sinoicismo»

Oikos, lar


      Tem razão, caro Luís M.: a variante sinoicismo nem sequer está registada em todos os dicionários. Do grego συνοικισμóς, porém, tanto se forma sinoicismo como sinecismo (designação que se dá à união de várias aldeias numa pólis na antiga Grécia). E se esta última é mais usada, a primeira também se vê, e com a vantagem de mais claramente se distinguir nela oikos: «Se e quando se terá dado o sinoicismo dos vários lugares, ou se podemos tornar a falar da fundação da cidade de Roma por Rómulo, se na verdade se sucederam sete reis ou mais, são questões ainda em aberto» (Estudos de História da Cultura Clássica, II, Maria Helena da Rocha Pereira. 4.ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009, p. 21). O Dicionário Houaiss, para minha grande surpresa, não regista nem «sinecismo» nem «sinoicismo». A 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, contudo, regista «sinecismo», tal como o Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves.

Capitular e render-se (II)


De qualquer maneira


      Para a elaboração desta banda desenhada, o autor, Nuno Costa, teve de recorrer, naturalmente, à consulta de fontes. No caso, embora mal indicada, por incompleta, As Grandes Batalhas. Ainda assim, o título diz «A capitulação do Japão» e no texto lê-se: «A 15 de Agosto, o Japão finalmente rendeu-se.» Capitulou, rendeu-se, o falante médio julga que é indiferente.


Léxico: «nanobote»

O futuro chegou


      Nem nanobô nem nanorrobô: vai-se preferindo nanobote: «No futuro, [André Roque, que, com 7 anos, já deu 15 palestras sobre o Universo] quer ser cientista e neurocirurgião para criar nanobotes (pequenos robôs) e levá-los até Marte para explorar a atmosfera do planeta vermelho [sic]» («Criança de 7 anos dá ‘aulas’ de Ciências», Urânia Cardoso, Correio da Manhã, 2.08.2009, p. 21). Prefiro a forma «nanorrobô», por ser mais sugestiva.

Grau dos adjectivos

Imagem: http://photos4.hi5.com/


Erradíssimo


      «Ainda a gravar o filme Uma Aventura na Casa Assombrada, de Carlos Coelho da Silva, as loiríssimas Margarida e Mariana Martinho já pensam nas férias de Verão» («Depois do filme, chega a hora dos mergulhos!», Vânia Custódio, 24 Horas, 31.07.2009, p. 24). Mas o sufixo -íssimo não se usa para formar (juntamente com outros sufixos, como -bilíssimo, -císsimo ou -níssimo, por exemplo) o superlativo absoluto sintético dos adjectivos? Acontece que, pelo menos aos meus olhos, as gémeas Margarida e Mariana Martinho não são tão loiras que se possam dizer loiríssimas. Ainda se fosse uma qualidade subjectiva (como em «Alberto João Jardim é espertíssimo»), não tinha, sem as conhecer, como contradizer. Que diria a jornalista de uma sueca com o cabelo de um louro quase branco? Albina? De cor indefinida? Mais precisão, se faz favor.

Léxico: «suta»

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Para medir


      Que nome tem o instrumento que se vê na imagem? Está graduado em centímetros e serve para medir o diâmetro das árvores, troncos e madeira torada. É isso mesmo — suta. O pior é que a generalidade dos dicionários apenas apresenta duas acepções do termo, e em nenhuma se encaixa o instrumento acima: esquadro, de peças móveis, para traçar e medir ângulos, e instrumento que serve para marcar ângulos no terreno. O mesmo se passa, já que falámos de árvores, com o hipsómetro, que serve para medir a altura de objectos (torres, edifícios, árvores, etc.). Se estivesse assim definido nos dicionários (nem no Houaiss está tão claramente), qualquer pessoa compreenderia. Mas vejam a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «hipsómetro METEOROLOGIA instrumento destinado a medir a altitude de um lugar pela temperatura a que nele pode começar a ebulição da água.» Qualquer telefonista do Ministério da Agricultura conhece aquela aplicação da suta, pelo que o Departamento de Dicionários da Porto Editora tem de estar mais atento.
      Já que falam nisso: não, no nome do novel (como diria um plumitivo dos anos 60) grupo Virgem Suta, «suta» significa outra coisa. Em Beja (é um localismo, não um regionalismo alentejano), significa «excesso».

Léxico: «blogconf»

Esvaecido

      «Está explicado o “apagão” da conferência blogger (blogconf) com José Sócrates, segunda-feira. Da parte do PS, ficou a dever-se a uma falha na “recolha de imagem” para a emissão, disse ao PÚBLICO Jorge Seguro, um dos organizadores da blogconf, em que o líder socialista respondeu a 20 bloggers e twitterers» («PS explica “apagão” na blogconf com falha técnica», N. S., Público, 29.07.2009, p. 6). Blogconf ou blogoconferência — conferência de bloggers —, como também se lê por aí, são ambos amálgamas. Como termo associado a uma tecnologia e a uma terminada plataforma, terá tanta vida como a própria tecnologia, ou seja, extinguir-se-á muito mais depressa que os daguerreótipos.


Fita de sinalização de segurança


Para assinalar


      «Segundo as informações prestadas pela Interamianto, empresa que executou o trabalho, à Inspecção, o amianto só foi retirado três dias após a operação de remoção, alegando que os resíduos estavam numa zona delimitada por fita de sinalização de segurança e por grades de protecção, no interior do estaleiro» («Inspecção do Ambiente investiga resíduos de amianto na via pública junto às obras da CRIL», Ana Rita Faria, Público, 29.07.2009, p. 22). É bom saber o nome de tudo. Esta fita, com 7 centímetros de largura, é de polietileno, o que me traz à memória que em certo jornal os jornalistas raramente atinam com a ortografia de poliuretano. Sai quase invariável e dislexicamente *poliuterano. E como está na ordem do dia a intenção de a Federação Internacional de Natação proibir os fatos de banho totalmente de poliuretano, não faltam oportunidades de errarem. A primeira é formada por poli + etileno; a segunda, por poli + uretano. O elemento de composição poli- vem do grego e significa «vários, numerosos» e caracteriza o que designa o segundo elemento. No caso de poliuretano, o segundo elemento, uretano, designa um composto químico e é formado por ureia+éter+ano.

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