Acordo Ortográfico


Entre a recessão e a trovoada

Escrevi aqui recentemente que o Record apenas recuou numa opção quanto às novas regras ortográficas. Esqueci-me foi de dizer que, desde o início, o jornal não aplicou todas as regras do novo acordo ortográfico, o que obrigou ao aviso acima, entalado entre a informação bolsista e a meteorologia. Quanto a livros, ainda revi somente três já segundo as novas regras ortográficas, e apenas um tinha o aviso de que «por vontade dos autores, o texto respeita já as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990».

Tradução: «greening»

Aceitem mais este

Em princípio, só os estrangeirismos bem formados e necessários deviam entrar na língua. Na prática, porém, entra tudo, e os jornalistas, que são os «grandes obreiros» da língua, deviam ser mais criteriosos. Para isso, também precisavam de ter melhor formação na língua portuguesa. O estrangeirismo de hoje, greening, encontrou felizmente umas roupagens portuguesas que lhe assentam bem e o neologismo já é usado com alguma frequência: ambientalização ou ecologização. Tanto um como outro até já têm acolhimento em documentos oficiais.

Verbo «abster-se»

X, o Abscrevente

Um clube de futebol, o Paços de Ferreira, suponhamos, apresentou em assembleia geral o balanço e viu-se que o exercício resultou num prejuízo de 275 140 euros. E quanto a votações? O jornalista asseverou que «apenas 3 dos cerca de 30 associados se absteram na votação». Isto é grave. Não a votação, mas o atentado à gramática. Um jornalista… Devia era voltar ao ensino básico.
O verbo abster-se conjuga-se como o verbo ter, pelo que correcto é abstiveram-se. O verbo abster traz-nos o sentido de «manter-se longe». Um abstencionista mantém-se longe da urna de voto; um abstinente, longe de carnes na Quarta-Feira de Cinzas e nas sextas-feiras do ano que não coincidam com solenidades litúrgicas. Um abscrevente, que acabo de inventar, devia manter-se longe da escrita. Claro que a abstinência é também abstenção. Já agora, devo lembrar que os verbos derivados de ter, como abster (e conter, deter, entreter, manter, obter, reter, suster, entre outros), quando conjugados na terceira pessoa do singular e na terceira do plural do presente do indicativo, apresentam formas que são diferenciadas por um acento gráfico. Na terceira do singular, emprega-se o acento agudo: ele abstém, advém, contém, convém, detém, entretém, mantém, obtém, provém, retém, sustém. Na terceira do plural, emprega-se o acento circunflexo: eles abstêm, advêm, contêm, convêm, detêm, entretêm, intervêm, mantêm, obtêm, provêm, retêm, sustêm. Nestes vocábulos, o acento agudo no singular é por formarem uma palavra oxítona terminada em -em (todos os vocábulos terminados em -em cuja última sílaba seja mais forte que as demais recebem acento agudo no -em: amém, armazém, ninguém, porém, Santarém, também…). O acento circunflexo no plural serve para diferençá-lo do singular. O Acordo Ortográfico de 1990 mantém inalterada esta regra. Acreditem: há mais gente a errar nisto do que possam pensar. A propósito, o Instituto Camões não tinha um Curso de Português para Jornalistas?

Léxico: «altermundialista»


Alternativas

«Um filme de culto da personalidade entremeado de comício altermundialista» («Diego Maradona, Emir Kusturica», Eurico de Barros, Notícias Sábado, 12.02.2009, p. 72). «Enrola um lenço palestiniano ao pescoço, vai levantar o bilhete à organização altermundialista, salta para a rua londrina, abre o peito — o que lembra Goya e as barricadas da Comuna de Paris (sem os riscos) — e, sobretudo, fica de olho nos fotógrafos que interessam (são os das agências, Reuters, AP...)» («Regras para vir nas capas», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 3.04.2009, p. 64).
O vocábulo «altermundialista», que vem directamente do francês altermondialiste, não é muito usado em português. Prefere-se-lhe, o que é mais um reflexo da preponderância da língua inglesa, «antiglobalista», «manifestante antiglobalização», etc., tal como também se prefere «globalização», do inglês globalization, a «mundialização», do francês mondialisation. Já não nos chega, hélas!, muita coisa pelo paquete do Havre.

«Tarrafalista»?

Também queria saber

      Não posso dizer que fico surpreendido de dois em dois anos, de cada vez que a comunicação social usa o vocábulo «tarrafalista» Há dois anos foi a propósito da morte de Sérgio Vilarigues. Agora, a propósito da morte de Joaquim de Sousa Teixeira. «O sargento-ajudante e antigo preso do Tarrafal Joaquim de Sousa Teixeira, de 93 anos, morreu ontem no hospital militar da Estrela, em Lisboa» («Morreu um dos últimos tarrafalistas», Diário de Notícias, 3.04.2009, p. 13). Não compreendo o uso do sufixo -ista para um caso destes. Só pode ser capricho dos jornalistas ou mero psitacismo: leram ou ouviram alguém algures usar a palavra e vai de usá-la. Bem, mas o caso levou-me a reflectir no uso de «alegrista» para designar os apoiantes de Manuel Alegre. Neste caso, o sufixo está correctíssimo, pois é habitualmente usado para formar nomes que designam partidários de doutrinas artísticas, filosóficas, políticas e religiosas. Contudo, boa parte da imprensa põe aspas na palavra. Incongruências. Mas avante!

Sobre a necessidade de revisão

Por um triz

O jornalista talvez até tenha frequentado Fonética e Fonologia, mas não foi por aí que as coisas falharam. Jesualdo Ferreira, a propósito da suspensão aplicada ao jogador Lisandro López, disse que tinha sido «o jogador imolado para dar corpo a uma lei», mas o jornalista escreveu que o jogador tinha sido «emulado para dar corpo a uma lei». O revisor estava lá e impediu o disparate. Como não o terá impedido (porque o jornal não tem revisores?) num artigo de opinião do Prof. Freitas do Amaral, que, a propósito da edição do mais recente livro de Almeida Santos, Que Nova Ordem Mundial?, escreveu: «Se não vivêssemos num país cada vez mais inculto e embiocado, já teria havido inúmeras reclusões, elogios e críticas, ou até debates» («A ordem mundial de Almeida Santos», Diogo Freitas do Amaral, Diário de Notícias, 19.03.2009, p. 10). Sim senhor, já tem havido reclusões a propósito da publicação de livros, mas não terá sido em países cultos e desembiocados.

«Imediatamente antes»

Passado imediato

Quantas vezes não acontecerá: pergunta-se alhos e responde-se bugalhos? Um consulente do Ciberdúvidas perguntou: «Faz sentido dizer “imediatamente antes”? Ou aquele advérbio tem apenas uma indicação de sequência para diante?» Respondeu F. V. P da Fonseca: «Antes é diferente de imediatamente antes. Se eu disser, p. ex., ele chegou imediatamente antes de mim, quer dizer que mais ninguém veio no meio, entre nós. Se, porém, me limitar a dizer antes, pode haver uma ou mais pessoas que chegaram de permeio.» Ontem um colega discutiu comigo esta questão. Imaginem que a frase em apreço era: «O jogador já tinha sido advertido imediatamente antes do treino.» A avaliar pelo significado — em seguida; logo; logo a seguir; sem a mínima demora —, o advérbio «imediatamente» apenas se reporta ao futuro e não ao passado. Escrever-se-ia então: «O jogador já tinha sido advertido antes do treino.» Ou: «O jogador já tinha sido advertido mesmo antes do treino.» Ou: «O jogador já tinha sido advertido uns momentos antes do treino.»

Sobre «virar»

Um brasileirismo naturalizado


      Da imprensa, má, assim-assim e boa, às traduções, passando por obras de autores portugueses, o brasileirismo «virar» («tornar-se») veio para ficar. Veio, é verdade, há muito tempo, mas agora está aí em força. Quase todos os dias o vejo. A língua não pára, e não serei eu a pôr-me à sua frente e virar purista morto. Num estudo, datado de 1976, sobre os brasileirismos lexicais em Angola, o autor, o russo Aleksandr Jarushkin, já assinalava o uso de virar nesta acepção. Isto prova duas coisas, pelo menos: primeiro, que os Russos não mandaram apenas aviões Antonov, metralhadoras AK-47 (que, no caso de Moçambique, até está representada na bandeira) e soldados para Angola e, segundo, que a televisão não é a única porta de entrada das influências linguísticas. «Há um antigo centro comercial que virou concorrido templo religioso» (Diário de Notícias, 3.01.2009, p. 5). «História dos Kennedy vai virar minissérie» (Diário de Notícias, 2.04.2009, p. 52). «Cláudia Borges vira assessora» (Destak, 26.2.2008, p. 10). «Soro de leite vira alimento» (Meia Hora, 20.5.2008, p. 2). «Semanário ‘O Eco’ vira mensário gratuito» (Diário de Notícias, 3.04.2009, p. 60). «Professores dizem estar a virar técnicos informáticos» (Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 12).

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