Como se escreve por aí

Nada que se recomende


      «Seguro está a formar a sua equipa, Ventura voltou ao parlamento, Marques Mendes percorre o deserto, o almirante faz contas de cabeça e Cotrim provou não ser adepto de travessias ou de médios ou longos silêncios. Depois das presidenciais cada um foi à sua vida, uns com mais estardalhaço, outros com mais discrição, mas todos se fizeram ao caminho» («Ele acredita mesmo que o país precisa de si», Luís Osório, Diário de Notícias, 20.02.2026, p. 4). 

      Como é que escrevem o nome de uma instituição com minúscula? Nas traduções, estou sempre a ver isto. Mas são os mesmos que depois escrevem «Castanheiro-da-Índia». Decorre do défice de reflexão sobre a língua, simplesmente.

[Texto 22 498]

Ou o revisor por ele

Torga sabia

      «Até ao princípio do século XVIII, São Tomé viveu o ciclo do açúcar, acompanhado e potenciado pelo crescimento do tráfico negreiro, então a principal fonte de riqueza da coroa portuguesa. E são as explorações de açúcar que constituem o precedente para a instalação das roças de cacau, a partir da segunda década de oitocentos. As diferentes tipologias destas vão acompanhando as mudanças sociais» («10 anos para salvar as roças de São Tomé», Vanessa Rato, Público, 25.11.2013, p. 27).
      Torga sabia: «Um Gama que descobrisse o caminho para a Índia em Quinhentos, desembarcasse no Mindelo em Oitocentos e jogasse o futebol agora» (Diário, Vols. I a IV, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 327).
[Texto 3580]

Dois pesos, duas medidas

Ou não fosse ele indígena

      «No Ocidente, o abandono do cristianismo em qualquer das suas variedades tem sido progressivo desde o princípio do século XIX e reforçado, a partir de 1850-1870, pela crítica bíblica e pelo evolucionismo de Darwin. [...] Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao Anglicanismo» («O inquérito do Papa Francisco», Vasco Pulido Valente, Público, 9.11.2013, p. 52).
[Texto 3484]

«Tanto a Oriente como a Ocidente»

Ou não

      «Figura grada e prestigiosa do terceiro mundo, Hailé Selassié I tem influência junto dos chefes que contam na paisagem política africana e, do mesmo passo, é acolhido e cultivado pelas grandes potências, tanto a Oriente como a Ocidente; e por estes títulos tem interesse para Portugal e sua política a visita do imperador» (Salazar: A Resistência (1958-1964), Franco Nogueira. Coimbra: Atlântida Editora, 1984, p. 87).
       Não devia ser antes «tanto a oriente como a ocidente», tal como «de norte a sul»?
[Texto 3246]

Uso das maiúsculas

Só para coisas grandes

      «Este estado baniu, pela primeira vez desde o Grande Nevão de 1978, a circulação de todos os veículos, para não atrasar as operações de limpeza» («Neve deixa 650 mil sem luz e mais de cinco mil voos em terra», Susana Salvador, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 30).
      Merecerá as maiúsculas? E o nosso grande nevão de 1954, pode ser com minúsculas?
[Texto 2577]

Dia da Espiga

Pois então

      Na obra Festividades Cíclicas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984, p. 113), é Dia da Espiga, com maiúsculas iniciais, que se pode ler. Por analogia com outras datas, também sou de opinião que se deve grafar desta forma.
[Texto 2381]

Sobre «aspirina»

Uma dor de cabeça

      «Os doentes de cancro colorretal que são portadores de uma mutação específica num gene chamado PIK3CA podem sobreviver mais tempo quando tomam também uma simples Aspirina. Essa é, pelo menos, a conclusão de um estudo de médicos e investigadores norte-americanos, que foi publicada ontem na revista New England Journal of Medicine» («‘Aspirina’ prolonga a vida em certos cancros colorretais», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 27).
      Será necessário o itálico e a maiúscula inicial? É marca? Mas também é a designação comercial do ácido acetilsalicílico.
[Texto 2275]

Uso da maiúscula

Porque a nossa é mais pequena...

      «Christopher O’Neill [noivo da princesa Madalena da Suécia] exerce funções na Bolsa de Nova Iorque e descende de uma família abastada dos EUA» («Madalena está noiva e casa-se no verão de 2013», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 53).
      «A bolsa de Lisboa encerrou a primeira sessão da semana em terreno negativo, a acompanhar as perdas registadas pelas pares europeias, pressionada pelos títulos do sector financeiro e pelo pesos-pesados» («Grécia e ‘Sandy’ assustam bolsas», Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 35).
[Texto 2268]

Com maiúsculas, pois claro

Para os teimosos

      «Desde Tucídides, pelo menos, que a grande História é também grande literatura. Mas não precisamos de recuar até aos Gregos e Romanos da Antiguidade Clássica. Temos excelentes exemplos intramuros, de Fernão Lopes, João de Barros e D. Francisco Manuel de Melo, a Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Jaime Cortesão e Magalhães Godinho, isto para não falar dos vivos. Eu gostaria de aproximar a clareza da exposição e a limpidez do estilo conseguidas nesta obra desse exigente nível literário que gera no espírito do leitor o encantamento pela qualidade da prosa e uma equivalente avidez da leitura para saber, não como é que a história “acaba”, mas sim como é que ela continua...» («Uma ‘História de Portugal’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 54).
[Texto 2088]

Ortografia: «leão-marinho-da-califórnia»

Não recomendo

      «Penso que o correcto», escreve Maria Sousa, uma editora, no Ciberdúvidas, «é escrever leão-marinho-da-califórnia, ou seja, com as iniciais minúsculas. No entanto, se se pretender, para salientar o nome do animal, começar por maiúscula, devo utilizar a maiúscula para as restantes palavras que compõem o nome? Ou seja, devo escrever Leão-marinho-da-califórnia, ou Leão-Marinho-da-Califórnia?» Não percebo para quê tal realce, mas está bem. O consultor respondeu: «A palavra corresponde a substantivo comum, pelo que deve ser escrita com iniciais minúsculas: leão-marinho-da-califórnia. Sobre a possibilidade colocada, tendo em conta que preposições e contrações não têm maiúscula inicial em nome de países (p. ex., Estados Unidos da América, Costa do Marfim), recomendo a forma proposta pela consulente, só em situações excecionais: Leão-Marinho-da-Califórnia.» A possibilidade colocada... Bem, eu não recomendo.
[Texto 1133]

Dama de Ferro

Sabe-se lá

      «A propósito do lançamento do filme em que Meryl Streep vive a vida da primeira-ministra, um pequeno debate sobre a Dama de Ferro (nome que, ficamos a saber, foi dado por um general russo num artigo do “Pravda”)», lê-se na rubrica «Janela Indiscreta», da autoria de José Couto Nogueira, na edição de hoje do i (p. 43).
      Até que enfim que vejo isto bem escrito. É verdade que por alguém a quem ouvi, há mais de cinco anos, que não há variante brasileira da língua portuguesa, mas língua brasileira. Eu deixei-me rir, mas há-de ser porque nunca fui ao Brasil.
[Texto 1092]

«Linha de Cascais»

Por mim

      Caro L. M., eu, pouco proclive a empregar letra grelada, como dizia Feliciano de Castilho, escrevo com maiúsculas: Linha de Cascais. A outra linha, a do caminho-de-ferro, é que escrevo com minúscula: linha de Cascais.
      «Posso abrandar a marcha, conduzir mais devagar, sem pressa de ir e ainda não ter em mente para onde, talvez espreitar os passos dos que moram na Linha de Cascais e que vão ao Cais do Sodré apanhar o comboio vazio dos domingos, ou ir deslizando ao longo de toda a 24 de Julho e da Avenida da Índia, a ver como é a noite, a noite lisboeta e dominical e como sopram os ventos do estuário, e como se me apresenta triste esta beleza escurecida e pálida dos poucos navios atracados às docas, e como tudo isto tem de súbito a cor, o movimento, o drama da minha depressão» (O Homem Suspenso, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1996, p. 25).
[Texto 741]

«Primavera Árabe»

Não é só a mesma estação

      «Tem seguido as Primaveras Árabes. Que impressão tem sobre esse processo?», perguntam, no Público de hoje, Isabel Coutinho e Miguel Gaspar a Ricardo Pereira, director da TV Globo Portugal.
      Já mais de uma vez pensei — perante a diversidade do que leio, mas não só — qual a melhor forma de grafar a expressão. Ocorre-me outra semelhante, a que dá nome à época de descompressão no final do Estado Novo. Assim, vê-se: «primavera marcelista»; primavera marcelista (usada por Cunhal, que acrescentou: «expressão deliciosa»); Primavera marcelista; «Primavera marcelista»; «Primavera Marcelista»; primavera Marcelista... Tanto num caso como no outro, a que me parece que se deve adoptar é com maiúsculas iniciais, sem aspas: Primavera Árabe, Primavera Marcelista.

[Texto 583]

«Zona Euro»

Do incriterioso uso da maiúscula

      O Público tem um conceito mínimo de Zona Euro: «Uma nova ajuda financeira à Grécia está prestes a ser acordada entre os países da zona euro em troca de um reforço das medidas de austeridade por parte do Governo e desde que os investidores privados aceitem participar no esforço» («Alemanha defende um reescalonamento de sete anos para a dívida pública grega», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 9.06.2011, p. 18).
      No Diário de Notícias, em contrapartida, lê-se sempre assim: «Os ministros das Finanças europeus não se entendem quanto à forma de ajudar a Grécia a sair da difícil situação em que se encontra e que está a pôr em risco outras economias fragilizadas da Zona Euro, entre as quais Portugal» («Ajuda a Atenas está a minar relações europeias», Eduarda Frommhold, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 31).

[Texto 168]

Uso da maiúscula

Letra grelada

      «Um dos primeiros museus do país surgiu na capital baixo-alentejana, pouco depois da refundação da diocese, em 1770, por iniciativa de Frei Manuel do Cenáculo, revela José António Falcão» («Diocese de Beja inaugura mais um núcleo da sua rede museológica», Carlos Dias, Público, 10.10.2006, p. 53).
      «Para a presidência da Real Mesa Censória [o marquês de Pombal] escolheu o bispo de Beja, frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), pois conciliava as qualidades exigidas de “varão dos mais sábios e autorizados” e “erudito nas letras sagradas e humanas; prudente, zeloso do argumento da Religião e do Estado e bem instruído nos direitos do sacerdócio e do Império”» («Cenáculo e a censura intelectual», António Valdemar, Actual/Expresso, 7.10.2006, p. 62).
      Apesar de viver num século caótico no que respeita à grafia do português, foi o poeta António Feliciano de Castilho que em certa ocasião se referiu ao uso injustificado das maiúsculas como «letra grelada». Este malfadado vezo continua ainda hoje. A ideia de que a maiúscula serve para salientar determinadas palavras a que se dá especial valor perdeu-se em grande parte. Para não me cingir ao presente, cito um opúsculo que tenho à minha frente intitulado Regras para Aprender a Língua Portuguesa segundo o Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro, da autoria de J. Estêvão Pinto. Na parte final desta obra, na secção «Frases de aplicação de algumas regras», pode ler-se: «O marquês de Pombal foi ministro de D. José I»; «O rei da Inglaterra chama-se Jorge».
      Há, sei perfeitamente, casos muito mais injustificados de uso da maiúscula, sobretudo quando inclui a palavra «presidente». Vejamos alguns:

«O chefe da diplomacia da Bielorrússia, Sergei Lavrov, veio ontem dizer que a polícia mostrou “mostrou contenção e paciência” durante as manifestações que, ao longo de toda a semana, encheram as ruas de Minsk em contestação à reeleição do Presidente do país, Alexander Lukachenko» («Ministro bielorrusso diz que polícia foi “contida”», Público, 27.3.2006).
«Antes de sobrevoar a Base Naval de Lisboa num helicóptero Lync, o Presidente esteve embarcado na fragata Corte Real. Aqui assistiu a dois briefings, um do CEMA sobre os meios e objectivos da Armada, outro em pleno centro de comando do navio sobre a operação virtual em que “participou”» («Presidente elogia esforço do Governo com militares», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 1.06.2006, p. 5).
«A intervenção do Presidente afegão surge num momento em que as forças da NATO desencadearam uma importante ofensiva no Sul do país — considerado um dos bastiões dos talibãs — para o subtrair ao controlo de facto dos islamitas, entrando em zonas onde o Governo de Cabul não tem meios para fazer sentir a sua presença» («Karzai adverte Ocidente para fracasso afegão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 23.06.2006, p. 11).
«Candidato da esquerda a Presidente paralisa Cidade do México» (Dulce Furtado, Público, 1.08.2006, p. 19).

Arquivo do blogue