Definição: «colisionador | colisor»

Mais uma partícula


      Notícias do Grande Colisionador de Hadrões: descoberta uma nova partícula. «The new particle has been named “Xi-cc-plus”. Scientists have expressed hope that the particle – which is similar to a proton but four times heavier – will reveal more about the strange behaviour of quantum mechanics» («Large Hadron Collider discovers a new particle», The Hindu, 19.03.2026, p. II). 

      Como tu defines colisionador/colisor, Porto Editora («FÍSICA acelerador em que dois feixes de partículas, movendo-se em direcções opostas, se interceptam em vários pontos, provocando colisões a cada passagem»), mais parece uma brincadeira inconsequente dos cientistas. Então a natureza do dispositivo, a finalidade científica, o contexto técnico, a precisão terminológica? Mantendo ainda a brevidade, proponho ➜ colisionador/colisor FÍSICA tipo de acelerador de partículas em que dois feixes são acelerados em sentidos opostos e feitos colidir em pontos de interacção definidos, permitindo, por meio da análise dos produtos dessas colisões, detectar e estudar partículas elementares, incluindo partículas até então não observadas, e testar modelos fundamentais da física.

[Texto 22 662]


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Léxico: «go | circunflexo»

Falta sempre qualquer coisa


      «Vinte anos depois, veio o algoritmo AlphaGo Zero, da Google DeepMind. Ele aprendeu o jogo oriental go sozinho, jogando contra si mesmo sem intervenção humana, e em poucos dias se tornou o jogador mais forte do mundo. O go é extremamente complexo, profundamente estratégico e com um número (10.170) quase inimaginável de posições possíveis. Mas ainda pudemos dizer que não passava de um jogo, muito longe do grau de sofisticação e profundidade de um grande teorema matemático» («IA chega à pesquisa matemática», Marcelo Viana [director-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, Prémio Louis D., do Institut de France], Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44).

      Não acredito, obviamente, que tenha sido lapso do autor. Apostava que foi, por descuido ou ignorância, na paginação ou na edição do jornal. Se o número de posições fosse apenas de 10 170, estaria muito longe de inimaginável. Não é impossível que o autor tenha optado pela notação 10^170, e com isso lixou-se. Só que isso proporciona-nos outra acepção de «circunflexo» que falta nos dicionários. Não o vejo no dicionário da Porto Editora, e por isso proponho ➜ circunflexo 3. MATEMÁTICA símbolo (^) usado para representar a operação de potenciação em notação linear, como em «10^170» («10 elevado a 170», isto é, 10 multiplicado por si próprio 170 vezes). 

      Mas voltando ao jogo: na realidade, esta informação deve servir — com tal objectivo a trouxe aqui — para densificar a definição de ➜ go jogo de tabuleiro de estratégia abstracto, de origem chinesa e particularmente popular no Japão, em que dois jogadores colocam alternadamente pedras pretas e brancas nas intersecções de uma grelha de 19×19 linhas, procurando conquistar território e capturar grupos de pedras do adversário; caracteriza-se por uma enorme complexidade estratégica, com um número extremamente elevado de posições possíveis (estimado na ordem de 10^170). 

      Portanto, sim, o go é muito mais complexo do que o xadrez, por várias ordens de grandeza. O número de Shannon mostra-o bem, mas claro que o revisor (e o editor) da Folha de S. Paulo não saberão nada disso. Talvez hoje o fiquem a saber.

[Texto 22 661]

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Definição: «estradivário»

Mais uma afinação 


      «Nos séculos 17 e 18, Stradivari produziu mais de 800 instrumentos. A maioria deles são violinos, mas também há violoncelos, violões e uma harpa. [...] Curiosamente, esses violinos tendiam a ter sido produzidos durante a chamada Era de Ouro de Stradivari, aproximadamente de 1700 a 1725, período conhecido por instrumentos Stradivarius de qualidade particularmente alta» («Anéis de árvores revelam as origens dos célebres violinos Stradivarius dos séculos 17 e 18», Katherine Kornei, Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44). 

      Todo o artigo, e não somente o excerto, traz excelentes dados que permitem, e até convidam, a enriquecer a definição de ➜ estradivário MÚSICA instrumento de cordas (sobretudo violino, mas também viola, violoncelo ou harpa) construído por Antonio Stradivari (1644-1737) ou na sua oficina; caracteriza-se pela excepcional qualidade sonora e elevado valor histórico e comercial, sendo especialmente valorizados os exemplares da chamada «Era de Ouro» (c. 1700-1725), associados ao uso de madeiras seleccionadas, nomeadamente abeto de regiões alpinas do Norte de Itália.

[Texto 22 660]

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Léxico: «varano-malaio»

Falta-te este varanídeo


      «Se por instantes parece que os dinossauros estão de regresso à Terra não é por acaso. Afinal, é isso mesmo que a palavra dinossauro quer dizer: lagarto terrível (do grego ‘deinos’ + ‘sauros’. Este varano-malaio [Varanus salvator] – uma espécie que pode atingir os dois metros de comprimento e pesar 20 quilos – estava com fome e decidiu atacar um caixote do lixo em regime de self-service» («Indonésia. Dinossauro dos tempos modernos», «Versa»/Nascer do Sol, 6.02.2026, p. 10).

[Texto 22 659]


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Léxico: «sadu | vixnuíta»

Verdades de Sacatrapo


      Este aqui não sabe que se escreve «sadu» em português. No blá-blá-blá é que eles são bons. «Falar é fácil porque não há palavra que não se deixe dizer», já sentenciava Sacatrapo. O pior é escrever. Paciência. O dicionário da Porto Editora afiança-nos que é a «designação de um asceta mendicante na Índia». Estranha definição, diga-se, a começar por «designação». Assim, proponho ➜ sadu RELIGIÃO asceta hindu que renuncia à vida material e aos vínculos sociais para se dedicar à prática espiritual, à meditação e à libertação (moksha), vivendo frequentemente de esmolas; pode pertencer a diferentes tradições devocionais (como as vixnuítas ou as xivaítas) e caracteriza-se por um modo de vida itinerante e austero.

[Texto 22 658]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Parece-me ocioso argumentar por que razão se deve preferir «vixnuíta» a «vixnuísta», mas o caso nem sequer é esse, Porto Editora: é que, como outros dicionários, acolhes «xivaíta» e «xivaísta». Logo...


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Definição: «rede social»

Pois, não me parece


      Redes sociais. Ora bem, nos dicionários de outras línguas há, em geral, duas tendências claras: separação explícita entre o conceito sociológico e o uso digital e maior precisão terminológica. A Porto Editora, neste caso (e em muitos outros, como já aqui vimos), opta por uma via que traz muitos inconvenientes, que é a de autonomizar o verbete. Contudo, encontramos no verbete «rede», por exemplo, «rede de dados». Era nesta boa companhia, e onde 99 % dos falantes a vão procurar, que eu poria a expressão. 

      Quanto ao conceito em si: vejamos, há redes sociais há séculos e séculos, não nasceram com a informática ou a internet. Tendo em vista tudo isso, proponho ➜ rede social 1. SOCIOLOGIA conjunto estruturado de relações entre indivíduos, grupos ou organizações, estabelecidas com base em interacções, interesses ou vínculos comuns; 2. INFORMÁTICA plataforma digital que permite criar, manter e tornar visíveis redes sociais, mediante a partilha de conteúdos e a interacção entre utilizadores.

[Texto 22 657]

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Miguel Ângelo, pois claro

Aleluia!


      «Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo» («“Juízo Final” volta a ganhar brilho», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 32). 

      Vá lá. São o reduto, os jornais, porque já há editoras a «aconselharem» a escrevê-lo sempre em italiano. Que estupidez... Até em Itália estarão a comentar: «Ma che cazzo, pare che alla fine i portoghesi sappiano scrivere in portoghese.»

[Texto 22 656]

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Léxico: «sessão-relâmpago»

Mais relâmpagos


      Foi a tempo para o dicionário como segundo elemento invariável. «A votação na CCJ não estava prevista na pauta e foi realizada em poucos minutos, em um momento de reunião já esvaziada. O método motivou protestos da oposição» («CCJ do Senado aprova fim da escala 6x1 em sessão-relâmpago sem combinar com o governo», Caio Spechoto e Mariana Brasil, Folha de S. Paulo, 11.12.2025, p. A22).

[Texto 22 655]

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Tradução: «pediment»

Despublica!


      «– É pequena para a idade. – Não era verdade, mas ninguém o contradisse. – Terá de crescer. Aproxima-te – disse Roberval, e parei diante dele, tão perto que podia tocar no armário. Como queria fazê-lo! As pequenas gavetas eram perfeitas para as minhas mãos. Quem me dera que o meu guardião me desse aquele brinquedo! Ele, que era o guardião de todas as coisas. O armário imitava um palácio em miniatura. Na fachada, estavam gravados pedimentos e pilares, ladeando as gavetas com embutidos de marfim. O que teria o meu guardião lá dentro? Joias? Papéis? Relíquias sagradas?» (excerto do romance histórico Isola, de Allegra Goodman, pré-publicado no Público, «Dois capítulos do romance histórico Isola, da norte-americana Allegra Goodman», 18.03.2026, 12h01).

      Um termo estranho — temo-lo, sim senhor, mas que até eu desconhecia — devia logo fazer disparar alarmes, quando não na tradutora, no revisor. Pois, mas não. No original, lê-se isto: «Its façade was carved with pediments and pillars framing drawers inlaid with ivory.» Ou seja: «A fachada estava esculpida com frontões e pilares que enquadravam gavetas incrustadas de marfim.» Em português, «pedimento» é sinónimo (completamente obscuro, esquecido, arcaico) de «pedir; petição» e, segundo a Porto Editora, também termo geológico. O vocábulo inglês pediment (séc. XVII) «frontão, remate triangular de fachada» ← alteração de formas anteriores periment, peremint (séc. XVI), é de origem incerta; provavelmente deformação dialectal de pyramid («pirâmide»), por associação à forma triangular; posteriormente reinterpretado por influência erudita de ped-, «pé» (latim pes, pedis), o que levou a aproximações secundárias ao latim pedamentum, «apoio, escora», e ao italiano pedamento, «base, fundamento», embora estas ligações não sejam etimologicamente seguras. Seguro é que é um erro monumental de tradução.

[Texto 22 654]

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Etimologia: «filatelia»

Já fui coleccionador


      «Filatelia» vem do francês, Porto Editora? Está certo! Mas incompleto. Essa pecha de não reconhecer autorias é muito portuguesa. Então a ideia não foi, aí por 1864, do francês Georges Herpin, que pretendia substituir o menos feliz «timbre-mania»? Monsieur Herpin, je peux vous recommander un excellent cabinet d’avocats pour engager votre action en indemnisation.  Assim, proponho ➜ do francês philatélie, termo criado em 1864 por Georges Herpin (1842-1895), a partir do grego phílos, «amigo, amante», e atéleia, «isenção de taxa, franquia postal paga», significando literalmente «amor pela isenção (de porte)», isto é, pelo porte previamente pago nos selos. 

      (O grego atéleia significa propriamente «isenção de taxa ou imposto»; no contexto postal, remete para a dispensa de pagamento de porte no destino, uma vez que este já foi pago antecipadamente pelo remetente e assinalado pelo selo. E só passou a ser assim desde a reforma postal britânica de Penny Post, em 1840.)

[Texto 22 653]

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Erros de sempre e para sempre

Tu quoque, Ioannes Lupe!


      «O extraordinário filme de Andres Veiel sobre a alemã Leni Riefenstahl (1902-2003), a partir de amanhã nas salas de cinema, tem um título austero: Riefenstahl. Dir-se-ia que o seu nome próprio deixou de lhe pertencer por inteiro, até porque “Leni” é uma abreviatura de Helene – sendo Helene Bertha Amalie o seu nome completo» («O cinema revisita a herança trágica de Leni Riefenstahl», João Lopes, Diário de Notícias, 18.03.2026, p. 26).

      João Lopes, reveja-me isto com urgência. Calha eu ter cá em casa uma Lena, por vezes ou para alguns, Leninha, mas valha-me Deus, a isso chama-se diminutivo, ou hipocorístico. E já viu que, no caso de Leninha, não reduz nem abrevia nada, uma vez que tem mais um carácter (e não, c’um caraças, «caractere», como escreve o pessoal da bonecada) do que o nome pleno?

[Texto 22 652]

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Léxico: «bandeira branca»

Falta a mais antiga


       Tens tantas bandeiras, Porto Editora, mas falta-te logo a que, no conjunto das «bandeiras cromáticas» (bandeira branca, vermelha, amarela, negra, etc.), é, muito provavelmente, a mais antiga enquanto sinal convencional com valor relativamente estável, já que está atestada na Antiguidade (Tácito) como sinal de rendição, o seu valor simbólico se manteve com grande continuidade ao longo dos séculos e acabou mesmo por ser formalizada juridicamente (Convenções da Haia), o que não aconteceu, pelo menos com a mesma força, com muitas das outras cores. Estou a referir-me à ➜ bandeira branca MILITAR/DIREITO INTERNACIONAL bandeira de cor branca usada como sinal convencional de trégua, rendição ou intenção de parlamentar entre forças em conflito, indicando suspensão das hostilidades e pedido de comunicação com o adversário; o seu uso, regulado pelo direito internacional, confere protecção aos portadores quando empregada de boa-fé e sem fins de engano.

[Texto 22 651]

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Léxico: «névoa cognitiva»

Conhecemo-la no pós-pandemia


      Cada vez se vê mais, e agora encontro-a mesmo num romance. Refiro-me à ➜ névoa cognitiva MEDICINA, PSICOLOGIA estado de diminuição da clareza mental caracterizado por dificuldades de concentração, lapsos de memória, lentidão de raciocínio e sensação subjectiva de turvação do pensamento, associado a estados de fadiga, stress, privação de sono ou a condições clínicas como a covid e tratamentos oncológicos, nomeadamente a quimioterapia.

[Texto 22 650]

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Como se escreve por aí

Nos jornais, para mais


      «“O time [grupo] Rapids trabalha desenvolvendo soluções de data science e machine learning acelerados por GPU”, explica-nos, dizendo que há bibliotecas dedicadas à ciência de dados em código aberto (open source) que usam Unidades Centrais de Processamento (CPU). “O Rapids cria uma versão acelerada dessas bibliotecas usando o poder de processamento paralelo das GPU, para agilizar todo o processo”, explica Gilberto Titericz Júnior, que se mostra satisfeito pela aplicação da sua solução a “terabytes de imagens esperando para serem classificadas”. “A vantagem de usar as GPU é a velocidade de classificação, que aumenta significativamente comparado com as CPU”» («O primeiro serviço mundial de ondas internas do oceano é português», Teresa Firmino, Público, 23.12.2024, p. 25). 

      Se a jornalista tivesse perdido dez segundos a pensar no caso, concluiria que não devia grafar a palavra time, usada no Brasil, em itálico. O jornal Público, no entanto, não ficará conhecido por ser criterioso nestas questões. Umas páginas atrás, lia-se isto: «As imagens de videovigilância na posse da Polícia de Segurança Pública (PSP) vão ser essenciais na identificação dos membros dos No Name Boys responsáveis pelos graves desacatos na noite de sábado durante um convívio do grupo num restaurante em Sintra» («No Name Boys: PSP tem imagens de videovigilância», Miguel Dantas, Público, 23.12.2024, p. 14). Desde quando, Miguel Dantas, é que o nome de um qualquer grupo, seja qual a sua natureza, se grafa em itálico? Dez segundos também bastariam.

[Texto 22 649]

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Léxico: «subopção»

Comum em menus informáticos


      «Esta funcionalidade será lançada de forma gradual, começando com o modelo 2.5 Pro em países seleccionados e, nas semanas vindouras, expandir-se-á para o modelo 2.5 Flash e mais regiões. Embora activa de origem, o utilizador poderá desactivá-la a qualquer momento nas definições da aplicação, na secção “Contexto pessoal”, subopção “Os seus chats passados com o Gemini”. A gestão e eliminação das conversas permanecem disponíveis em “Actividade das Apps Gemini”» («Gemini ganha memória de conversas anteriores e mais personalização», Sérgio Magno, Público, 13.08.2025, 18h20).

[Texto 22 648]

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Léxico: «cantautorismo»

Talvez pare por aqui


      «A visão que Seal tem da música revela um pensamento profundo sobre a arte, sobre o poder da música provocar emoções. No mesmo disco de 1994 em que surgem ‘Dreaming in Metaphors’ e ‘Kiss From a Rose’ há ainda uma discreta balada de título ‘If I Could’ em que a sua voz se cruza com a de Joni Mitchell, artista superlativa que também soube navegar entre uma visão personalizada do cantautorismo de tonalidades folk e um jazz mais exploratório» («Seal fora da caixa», Rui Miguel Abreu, «Revista E»/Expresso, 11.07.2025, p. 49). Se queres saber, Porto Editora, anda por aí há mais tempo do que a outra, «cantautoria».

[Texto 22 647]

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O que se escreve por aí

Exactamente o mesmo


      «Depois dos rumores espalhados pelos meios de comunicação do Irão de que o primeiro-ministro israelita estaria morto, Benjamin Netanyahu publicou um vídeo a ridicularizar a situação, comentando que estava “mortinho por um café”. Enquanto pedia a bebida nos arredores de Jerusalém, o assessor do chefe de Governo israelita pergunta-lhe sobre os rumores e Netanyahu respondeu com um trocadilho, já que “morto”, no calão hebraico, também é uma palavra usada para descrever alguém que está “louco por” alguém ou alguma coisa» («“Sou louco por café, sou louco pelo meu povo”: Netanyahu publica vídeo a ironizar rumores de que estaria morto», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 15.03.2026, 18h01).

      Calão... E como se em português não se dissesse exactamente o mesmo, Catarina Magalhães. O assessor, ouve-se no vídeo no X, menciona os rumores («Dizem que estás morto»), ao que Netanyahu responde assim: «Ani met... al kafe» (אני מת... על קפה). «Mortinho... por um café!» É coloquial.

[Texto 22 646]

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Definição: «pedopornografia»

É ver o que a lei diz


      Algumas notícias atabalhoadas vieram dizer que no dia 3 de Abril termina uma derrogação do direito europeu que permite às plataformas digitais analisar automaticamente comunicações privadas, como mensagens e correio electrónico, com o objectivo de detectar conteúdos de pornografia de menores, pedopornografia. Trata-se de uma excepção às regras gerais de confidencialidade das comunicações, criada para possibilitar a identificação e sinalização desses materiais às autoridades competentes. Para meu grande espanto, a Porto Editora define assim «pedopornografia»: «1. actividade criminosa que consiste na produção de filmes, imagens ou outros elementos de cariz sexual explícito envolvendo crianças; 2. filme, imagem ou outro elemento de cariz sexual explícito envolvendo crianças». Consiste na produção? E então o resto? Assim, proponho ➜ pedopornografia 1. DIREITO actividade criminosa que consiste na produção, distribuição, difusão, disponibilização, aquisição ou detenção de materiais de carácter sexual explícito envolvendo menores, incluindo a sua representação real ou simulada; 2. material de carácter sexual explícito envolvendo menores, nomeadamente imagens, vídeos ou outros suportes visuais ou audiovisuais, enquanto objecto de tais práticas.

[Texto 22 645]

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Léxico: «salamalé | salame»

Nem doce nem salgado


      Eça usa mais de uma vez «salamalé», variante de «salamaleque», que não registas, Porto Editora. Como não registas ainda outra variante — e esta não escapou a Rebelo Gonçalves, que a acolhe no seu Vocabulário da Língua Portuguesa —, «salame». Em português é tudo assim, no mínimo duplo.

[Texto 22 644]

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Definição: «alho-de-urso»

Característica crucial


      «Et puis l’ail des ours, Allium ursinum, qui pousse en vertes colonies dans les sous-bois humides. Comme son nom l’indique, cette feuille-là appartient à la famille des aulx, tout en présentant une saveur plus délicate et spirituelle que la vieille gousse de culture. Mais gare! L’ail des ours ressemble comme deux gouttes de cyanure au muguet. Et le muguet, c’est poison. Le truc pour éviter l’agonie, la souffrance et autres menus tracas, c’est la reniflette. On froisse la feuille avec sa menotte. L’ail des ours sent l’ail (pas l’ours). Le muguet, non. Na!» («L’ail des ours, le copain du printemps», Jérôme Estèbe, Le Matin Dimanche, 15.03.2026, p. 43). 

      Ora, Porto Editora, na definição (que, aliás, tem uma gralha) tu nem sequer mencionas o odor, única característica que, à vista desarmada, o distingue do lírio-do-vale. Assim proponho ➜ alho-de-urso BOTÂNICA (Allium ursinum) planta herbácea perene da família das Amarilidáceas (tradicionalmente incluída nas Aliáceas), com bolbo alongado, caule que pode atingir cerca de 40 cm de altura, inflorescência em umbela hemisférica com flores brancas estreladas e folhas largas, ovadas a elípticas, de odor intenso a alho quando esmagadas; cresce espontaneamente em bosques húmidos e sombrios, sendo utilizada em culinária e na medicina tradicional; é frequentemente confundida com o lírio-do-vale (Convallaria majalis), planta tóxica, de que se distingue pelo cheiro a alho das folhas esmagadas.

[Texto 22 643]

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Léxico: «bindi | tilak»

Ainda na Índia


      Eis que alguém se enganou (eu sei: acontece aos piores) no género de bindi, oportunidade também para o definirmos melhor, já que no dicionário da Porto Editora se afirma que é de uso «sobretudo» entre as mulheres. O uso contemporâneo não é esse. Assim, proponho ➜ bindi RELIGIÃO, CULTURA ornamento, geralmente de cor vermelha, colocado no centro da testa por mulheres e meninas em diversas culturas da Ásia Meridional, tradicionalmente associado ao estatuto matrimonial no caso das mulheres hindus, mas hoje também usado como elemento decorativo; pode ser feito com pó colorido ou consistir num pequeno adesivo; distingue-se do tilak, marca ritual de natureza religiosa usada por homens e mulheres. 

      E, assim, ➜ tilak (ou tika) RELIGIÃO marca ritual aplicada na testa com substâncias como pasta de sândalo, cinza sagrada ou pó vermelho (kumkum), usada por homens e mulheres em contextos devocionais; pode assumir diversas formas (ponto, traço ou linhas) e indicar pertença religiosa.

[Texto 22 642]

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Etimologia: «evoé»

Vamos dizer mais


      «Finda todavia o ano de 57 soltando um evoé quase dionisíaco à vida, parêntesis optimista raro quando se refere à sua pessoa: Que lindos dias! Como é donoso o sol, meu Barbosa! O sol e as mulheres não é o mais lindo que o mundo tem?» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Está nos dicionários, mas a etimologia deixa muito a desejar. Do lat. evŏe, interjeição usada nas festas em honra de Baco, do gr. εὐοῖ (euôi), variante εὐοῖε (euôie), grito ritual pronunciado nas bacanais e outros cultos dionisíacos; composto de εὖ (eu, «bem, de modo favorável») e elemento exclamativo -οἶ/-οἶε, típico de invocações religiosas. Entrou no português por via erudita, conservando o valor de aclamação jubilosa, sobretudo em contextos festivos ou artísticos.

[Texto 22 641]

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Como se escreve por aí

Pormenores, mas relevantes


      «Não há uma segunda oportunidade para causar a primeira impressão e o Presidente António José Seguro aproveitou bem a sua tomada de posse. No discurso, ao falar da desordem no mundo, citou o filósofo inglês Thomas Hobbes, que chamou ao homem “lobo do homem”» («Os lobos dos homens», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 17.03.2026, p. 3). Por pouco acertava. Aqui, a indeterminação é a chave: «Não há segunda oportunidade para causar uma primeira impressão.» Quanto à frase sobre o homem ser o lobo do homem, foi popularizada por Thomas Hobbes (1588-1679), mas é, como se sabe, de Plauto (254-184 a. C.): «Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit.» («Um homem é um lobo para outro homem, e não um homem, quando não sabe com quem está a lidar.») Mas depois veio Rousseau e pôs as coisas nos termos que, a meu ver, são os correctos.

[Texto 22 640]

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Definição: «nivação»

Nivation, nivación, nivazione, Nivation


      «Nivation is defined as the erosion of the ground beneath and around a snow bank, primarily as a result of alternate freezing and thawing. This can form a nivation hollow, which gradually becomes deeper when snow repeatedly accumulates in the same place» («Ice patches on melting glaciers greater threat than thought: ISRO scientists», Meena Menon, The Hindu, 16.03.2026, p. II). 

       A Porto Editora faz muito mal ao ter em «nivação» um verbete vazio, pois remete simplesmente para «nevação» e só neste, na segunda acepção, se lê este que é um conceito existente em várias línguas: «erosão provocada pela neve; nivação». Desperdiça assim um verbete, que devia reservar para ➜ nivação GEORMORFOLOGIA processo de erosão e meteorização do solo que ocorre sob ou nas margens de manchas de neve persistente, provocado sobretudo por ciclos alternados de congelação e degelo, pela água de fusão e pela acumulação repetida de neve, originando frequentemente depressões características denominadas cavidades ou nichos de nivação.

[Texto 22 639]

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Léxico: «xátria | varna»

Entretanto, na Índia


      E quando encontramos xátrias numa obra e, logo por azar, está mal definido no dicionário? O que dizemos? Talvez @#%!&*! A Porto Editora garante-nos que é o «membro da segunda casta dos guerreiros em que se dividem os sectários do bramanismo». Para começar, parece-me muito discutível que se possa falar em sectários do bramanismo. Mas isso é o menos. Tudo visto, proponho (e que Vixnu nos valha) ➜ xátria RELIGIÃO, HISTÓRIA membro da segunda das quatro varnas da sociedade tradicional hindu, associada ao exercício do poder político e militar; inclui reis, governantes e guerreiros, situando-se hierarquicamente abaixo dos brâmanes e acima dos vaixás e sudras.

      Aliás, duplo azar: se vejo «varna» no VOLP da Academia Brasileira de Letras, nem rasto dele nos nossos dicionários. Não sei o que andámos a fazer lá pelas Índias quase cinco séculos, se não foi para conhecer mais mundo e apreendê-lo pela língua. Assim, proponho ➜ varna RELIGIÃO, SOCIOLOGIA cada uma das quatro grandes categorias hereditárias da estratificação social tradicional do hinduísmo — brâmanes, xátrias, vaixás e sudras — associadas a funções rituais e sociais específicas e organizadas numa hierarquia religiosa e social.

[Texto 22 638]

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Léxico: «nassa | alcatruz | andiche | endiche»

Não seria o primeiro caso


      «El año pasado se decomisaron en Galicia más de 15.000 chismes de los que se emplean para la captura clandestina de pulpo. Se trata de los conocidos como cacharros, nasas portuguesas y alcatruces, que en otros lugares reciben el nombre de cadufos. La Xunta prohíbe su uso, pero están permitidos en varias comunidades y en Portugal. De hecho, se fabrican en España y pueden adquirirse por menos de cinco euros. Tienen forma de vasijas de boca ancha y son de plástico o de barro. Los pulpos, inocentes, los utilizan para desovar y como refugio donde protegerse de sus depredadores» («Una trampa para pulpos», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 14.03.2026, p. 16). 

      Por um pouco e em Espanha sabem mais das nossas coisas do que nós. Para começar, definimos mal «nassa», pois nem sequer dizemos o nome da parte afunilada. Termo, aliás, que nem sequer levámos para os dicionários, e está, por exemplo, na Portaria 1102-D/2000. Assim, proponho ➔ nassa PESCA armadilha de pesca, geralmente em forma de cesto ou gaiola, feita de verga, rede, arame ou material semelhante, dotada de uma ou mais entradas afuniladas (endiches ou andiches) que permitem a entrada do animal mas dificultam ou impedem a sua saída. 

       O que nos obriga a dicionarizar também ➔ andiche ou endiche PESCA estrutura de entrada situada na boca de certas armadilhas de pesca, como as nassas, destinada a dirigir a entrada do peixe ou de outros animais aquáticos e a dificultar-lhes a saída. 

      E assim também o regionalismo «alcatruz» merece ser reformulado e enriquecido, o que faremos desta maneira ➔ alcatruz PESCA recipiente de barro, plástico ou material semelhante, geralmente em forma de vaso de boca larga, usado na pesca do polvo como abrigo artificial colocado no fundo do mar, onde o animal se refugia e é posteriormente recolhido pelo pescador.

[Texto 22 637]

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Definição: «lontra-europeia»

Só por isso já é útil


      Também se pode dizer mais, evidentemente, da simpática ➜ lontra-europeia ZOOLOGIA (Lutra lutra) espécie de mustelídeo de porte médio e distribuição paleárctica, presente em Portugal, onde habita sobretudo cursos de água doce; atinge cerca de 70 cm de corpo e 40 cm de cauda, tem membranas interdigitais, garras fortes e pelagem impermeável, sendo exímia nadadora e caçadora de peixes, crustáceos e outras pequenas presas aquáticas; adapta-se a águas interiores e costeiras e alimenta-se hoje também do invasor lagostim-vermelho-da-luisiana (Procambarus clarkii), que constitui uma importante fonte alimentar.

[Texto 22 636]

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Léxico: «anúncio-relâmpago»

Mais relâmpagos


      «Há quase oito meses, Fernando Alexandre, ministro da Educação, Ciência e Inovação, fazia o anúncio-relâmpago: a organização do ministério ia ser reformada e, com isso, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) seria extinta – unindo-se à Agência Nacional de Inovação num novo organismo» («Oito meses após a morte da FCT, Governo pede análise ao sistema de ciência e inovação», Tiago Ramalho, Público, 24.02.2026, 9h30).

[Texto 22 635]

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Definição: «camilianista | amação»

O mesmo tratamento


      Como é que queirosiano é «1. que ou aquele que é admirador da obra de Eça de Queirós; 2. que ou aquele que é estudioso da obra de Eça de Queirós» e camilianista é tão-só a «pessoa admiradora de Camilo e que se dedica ao estudo das suas obras»? Como, Porto Editora? Sim, o caminho certo é separar o amor (ou — aponta aí — a amação) do estudo.

[Texto 22 634]

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Definição: «pi»

Venham mais dias


      Como talvez saibam, no sábado assinalou-se o Dia Internacional do Pi, ocasião para corrigirmos e melhorarmos a definição de pi no dicionário da Porto Editora, que apresenta pelo menos três erros graves: identificação errada da letra grega; formulação enganadora «equivalente a 3,1416»; uso da expressão «perímetro da circunferência». Sendo assim, e omitindo a explicação de outras alterações a que procedi, proponho ➔ pi MATEMÁTICA décima sexta letra do alfabeto grego (π, Π), usada em matemática para designar a constante matemática definida pela razão entre o comprimento de qualquer circunferência e o seu diâmetro; número irracional cujo valor aproximado é 3,1416 e cuja representação decimal é infinita e não periódica.

[Texto 22 633]

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Definição: «biblismo»

Pontas soltas


      «O bloco português neste conclave integra ainda Tolentino Mendonça, chamado por Francisco a chefiar a biblioteca do Vaticano, de onde transitou para o Dicastério da Cultura e da Educação, mas com quem o PÚBLICO não conseguiu falar em tempo útil. Biblista de formação, Tolentino é actualmente o cardeal português mais bem colocado em Roma» («Quatro portugueses na escolha do novo Papa. “Não podemos voltar para trás”», Natália Faria, Público, 23.04.2025, p. 3). 

      Em pouquíssimos dicionários (bastava metade dos dedos de uma mão, parece-me) a biblista se faz corresponder biblismo, os dicionários (tirando aqueles) não acolhem uma acepção que diga que é o estudo da Bíblia. Contudo, biblista tem como sinónimo biblicista (como «linguista» e «linguagista», estão a ver?), e a este já corresponde biblicismo, o estudo da Bíblia. Dir-se-ia que o biblismo, embora lexicalmente possível e registado, como afirmei mais acima, em alguns dicionários, vive na sombra do biblicismo — e com menos préstimo na hora de definir o ofício do biblista.

[Texto 22 632]

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Léxico: «olisipologia | olisipólogo»

Alguém anda distraído


      «Sobre o projecto para o Museu do Aljube — Resistência e Liberdade, esta olisipóloga com especialidade em museologia (fez a parte curricular de um doutoramento na área na Universidade Lusófona) diz que lhe interessam, em particular, as histórias que os objectos podem contar» («Miguel Loureiro assume Teatro do Bairro Alto, Anabela Valente dirige Museu do Aljube», Isabel Salema, Gonçalo Frota e Mário Lopes, Público, 14.03.2026, p. 44). 

      O que pressupõe, claro, o termo «olisopologia». De alguma maneira, até faz mais sentido — ora pensem — usar-se «olisipólogo», que aparece na imprensa de quando em quando, do que «olisipógrafo», e, contudo, nenhum dicionário os acolhe. Neste artigo aparece duas vezes, e já na edição digital de anteontem aparecia. Em notícias com mais de vinte anos vejo o jornalista Appio Sottomayor apresentado como olisipólogo, o que demonstra que isto não surgiu hoje.

[Texto 22 631]

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Léxico: «literatês»

Ora, ora... e se fosse físico?


      Do X: «O MNE @PauloRangel_pt lamenta profundamente a morte de António Lobo Antunes, vulto maior da literatura portuguesa. Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa.» Como falam de um escritor, acham que têm de se exprimir em literatês. E já que uso o termo: «Proponho que me expliquem, com muito cuidado e jeitinho e com um grande respeito pelo significado das palavras, o que quer dizer toda aquela algaraviada, vestida de pompas e significando nada. Prometo não dar quartel e aviso que sou um leitor bem treinado. Mas gosto de falar português limpo e asseado e não literatês» (Vamos Ler: um cânone para o leitor relutante, Eugénio Lisboa. Lisboa: Guerra e Paz, 2021, p. 64).

[Texto 22 630]

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Léxico: «crono | promo»

Mas encontramo-las, usamo-las


      «Volta a Portugal. Nich arrasa no crono e assina maior vitória da carreira» (Jornal de Notícias, 5.08.2024, p. 1). Então vamos lá ver: há décadas que ouço a redução vocabular crono neste sentido, e nos dicionários, silêncio. Não apenas temos poucas, comparando com outras línguas, como essas poucas não as dicionarizam. Outra: nos últimos tempos, ouço muito a Rádio Observador (um exercício que nem sempre me faz bem à saúde), e já mais de uma vez ouvi por lá a redução vocabular promo. E está nos dicionários? Não está.

[Texto 22 629]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Já não tropeçava há muito com esta prova cabal de ignorância, pelo que tenho de dar aqui nota dela, não vão os meus ingénuos leitores pensar que isto desapareceu. Numa tradução, apareceu-me uma mulher que «foi apedrejada pelo simples fato de ter usado minissaia». Também fui tomado por uma fúria épica, tanto mais que é dessas tradutoras com décadas de actividade. Em vão.


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Léxico: «pavidez | papel-holanda»

Outra que nos surripiaram


      «Há uma antipatia visceral do nosso povo pelos homens dos pretórios, misto de apreensão e pavidez» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 29).

[Texto 22 628]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Porto Editora, ainda estou a processar que não tenhas dicionarizado «papel-tojal». (Entretanto, contudo, vai aparecer por aí.) Por essa ordem de ideias, também não se tinha levado para os dicionários «papel-japão», por exemplo, ou «papel-holanda». Espera... Este, na verdade, não o tens, pelo que ➔ papel-holanda tipo de papel vergé de grande qualidade, fabricado tradicionalmente na cuba, de superfície firme e com vergaturas visíveis; foi amplamente utilizado na impressão de obras de luxo e em tiragens especiais.

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Léxico: «neurocerebral»

Mais uma em falta


      «Sim, neurocerebrais e cognitivas, porque há uma ligeira alteração de frequência cardíaca e da respiração. O vermelho também é a cor da sensualidade. Há estudos que dizem que os homens abordam mais mulheres quando estas estão de vermelho, seja na roupa ou num batom – ainda que o visual totalmente vermelho possa ser intimidante. As cores têm a sua luz e a sua sombra. Por exemplo, o preto é um tom elegante. Se olharmos para história do preto, foi sempre usado como símbolo do luto até a [Coco] Chanel o trazer para a moda. E depois vem a princesa Diana e usa o “vestido da vingança” no dia que descobre que é traída e reforça a tonalidade como símbolo de poder. Mas, se estou toda de preto e a minha postura está fechada, a comunicação que vou passar não é de sensualidade, mas de que estou inacessível» [afirma a psicóloga e neurocientista Maria Klien, em entrevista]» («“Psicologia da moda é a comunicação de quem somos, mas também de quem queremos parecer ser”», Inês Duarte de Freitas, Público, 13.03.2026, 17h39).

[Texto 22 627]

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Léxico: «trinocular»

Só queremos o adjectivo


      Olha aqui no Aliexpress, um bom microscópio trinocular. Pois, não preciso, apenas de ➔ trinocular ÓPTICA que possui três tubos de observação ou vias ópticas; diz-se especialmente de microscópio ou de cabeça de microscópio com dois oculares para observação binocular e um terceiro tubo destinado à ligação de câmara fotográfica ou digital ou a outros dispositivos de registo de imagem.

[Texto 22 626]

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Léxico: «subfundo»

Escavando, encontra-se sempre


      Um leitor perguntou-me, e citava uma frase de um artigo de jornal («Tudo sob um pano de fundo feito de lideranças que ensimesmam os interesses dos países e moldam a política externa em conformidade, hostilizando quem aparecer pelo caminho», «Quantas caras tem a Europa?», Paulo Vila Maior, Público, 12.03.2026, 5h45), se a preposição certa não era «sobre». Respondi-lhe que a usada era a preposição correcta, embora eu prescindisse dela ali, porque optaria por outra redacção. Replicou-me então: «Mas o que fica debaixo do fundo?» Só que, respondi e repito agora, não é «fundo», é «pano de fundo», e num sentido figurado. Fosse ele fundo, como fundo da gaveta, e ainda poderíamos ter subfundo, que de facto existe, mas noutro sentido. Ora, no verbete de «submundo», a Porto Editora mostra as palavras parecidas com «submundo» — e lá está subfundo. Agora só falta dicionarizá-la. Voltando à dúvida do leitor, é como digo — sob um pano de fundo: «Os romances Crónica do Tempo (1990), O Chão Salgado (1992) e O Senhor das Ilhas (1994) — este último filiando-se no romance histórico —, dão-nos com maior limpidez, e também com alguns embaraços metaficcionais, as coordenadas dos romances anteriores da autora, esse erguer de um mundo que se tenta manter equidistante do telúrico e do adensar psicanalítico, para conseguir entrecruzar, sob um pano de fundo sociologicamente reconhecível, histórias singulares que persistem na demanda da liberdade possível e na interrogação acerca dos consentimentos necessários e inevitáveis» (História da Literatura Portuguesa: As Correntes Contemporâneas, Vol. 7, Óscar Lopes. Lisboa: Publicações Alfa, 2002, p. 521).

[Texto 22 624]

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Léxico: «herança indivisa»

Temos a jacente


      «O Governo aprova hoje, em Conselho de Ministros, novas regras para as heranças indivisas com o objectivo de agilizar a resolução de diferendos, canalizar habitações para o mercado (tanto para venda como arrendamento) e melhorar a gestão florestal e, com isso, reforçar a prevenção de incêndios rurais» («Governo quer desbloquear heranças indivisas: um só herdeiro pode iniciar processo», David Santiago e Filipe Santa-Bárbara, Público, 12.03.2026, p. 12). 

      São alterações muito bem-vindas. É que as heranças indivisas fazem lembrar o Conselho de Segurança da ONU: quando um não quer, nada feito. Aproveitemos nós aqui para dicionarizar ➔ herança indivisa DIREITO património hereditário constituído pelo conjunto de bens, direitos e obrigações deixados por uma pessoa falecida que, até à partilha, forma uma massa patrimonial autónoma em estado de indivisão entre os herdeiros, cabendo a cada um apenas uma quota ideal sobre a universalidade da herança e não a titularidade de bens determinados.

[Texto 22 623]

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Definição: «vara»

Haja ambição


      Há alterações que vão demorar anos, mas tenho aqui uma que pode ser feita já hoje: a definição de «vara» no sentido jurídico. Está desactualizada, Porto Editora, e nem sequer muito bem definida: «DIREITO cada uma das circunscrições judiciais, de competência específica e presididas por um juiz de direito, em que se dividem certas comarcas». Assim, proponho ➔ vara DIREITO cada uma das subdivisões jurisdicionais de certas comarcas (principalmente Lisboa e Porto), com competência específica (cível, criminal, etc.) e presidida por um juiz de direito, existente antes da reforma da organização judiciária de 2013-2014 e substituída, desde então, por juízos nos tribunais judiciais de comarca.

     A não ser que venha agora um juiz ou um advogado a propor melhorias, mas já está melhor do que num glossário da Ordem dos Advogados disponível em linha. Ah, pois.

[Texto 22 622]

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Sentir borboletas no estômago e borrar-se de medo

É este o panorama


      «Sentir mariposas en el estómago, hacer de tripas corazón, cagarse de miedo. Son expresiones corrientes que ilustran a la perfección un campo emergente de la ciencia y la medicina: la conexión intestino-cerebro» («Un microbioma intestinal envejecido empeora la capacidad de recordar», Nuño Domínguez, El País, 12.03.2026, p. 35). 

      Temos todas estas expressões, mas nos dicionários... bem, aí não. A Porto Editora não tem a primeira, «sentir borboletas no estômago»; a segunda, «fazer das tripas coração», regista-a; a terceira, «borrar-se de medo» (somos mais bem-educados), só em bilingues. Pois, não é famoso o panorama.

[Texto 22 621]

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Léxico: «lapidação»

Ainda ontem


      Isso mesmo! Parece que lhe estão a apanhar o jeito: lapidação também não é apenas a operação de lapidar pedras preciosas. Assim, proponho ➔ lapidação técnica de decoração do cristal que consiste em abrir sulcos e facetas na superfície da peça com rodas abrasivas (frequentemente de diamante), podendo ser seguida de ataque químico com ácido para produzir efeitos foscos ou acetinados e intensificar o brilho e a refracção da luz.

[Texto 22 620]

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Léxico: «lapidário»

Nos Países Baixos e aqui


      Como puderam ver, lapidário não é apenas o artífice que lapida pedras preciosas. Resolvamos o problema propondo ➔ lapidário artesão especializado na lapidação de peças de cristal, abrindo sulcos e facetas decorativas com discos abrasivos (frequentemente de diamante), de modo a aumentar o brilho e a refracção da luz do material.

[Texto 22 619]

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Definição: «cristal»

Uma definição paradoxal


      Na quarta-feira, e em boa hora, vi na RTP2 o documentário Sopro: a transformação do vidro. Ai se aqueles profissionais, designers, lapidários, engenheiros, soubessem como os dicionários definem cristal... Com efeito, quem redigiu a definição que o dá como o «vidro de muito boa qualidade» não se deve dar conta de que, não apenas é uma definição quase vazia, como paradoxal. Se assim fosse, não havia vidro de muito boa qualidade, já que automaticamente teria de ser considerado cristal. Bem, vamos fingir que nunca vimos isto. Assim, proponho ➔ cristal denominação comercial de um tipo de vidro obtido pela adição de óxido de chumbo ou de outros óxidos à massa vítrea, o que lhe confere maior densidade, elevado índice de refracção e forte dispersão da luz, produzindo brilho intenso e sonoridade característica quando percutido; é particularmente apto à lapidação e usado em peças decorativas e objectos de mesa.

[Texto 22 617]

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Léxico: «dessacralizar»

Marcelo não é Deus


      «“Marcelo dessacralizou de tal modo a Presidência da República que ela deixou quase de ter valor. Ninguém ‘punha o som mais alto’ nos canais de televisão, porque ele aparecia de hora a hora, a falar em cada sítio”, exemplifica Duarte Pacheco no programa “Casa Comum”» («Duarte Pacheco chumba Presidência de Marcelo: “Dou-lhe 8 ou 9 valores”», José Pedro Frazão, Rádio Renascença, 12.03.2026, 10h57). O recado do título é para ti, Porto Editora. Assim, proponho ➔ dessacralizar 1. privar do carácter sagrado; profanar; 2. [por extensão] retirar o carácter solene, reverencial ou simbólico a (instituição, função, prática, etc.); banalizar; tornar menos respeitado ou menos distante.

[Texto 22 616]

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Etimologia: «evasão»

Avancemos


      «Un détenu s’est évadé grâce à des complices ayant présenté de faux documents aux autorités pénitentiaires. Le mot vient du verbe latin vadere, qui signifie “aller, s’avancer”. Le détenu s’en est allé. On aimerait qu'il revienne et qu’on n’en entende plus parler : vade retro, pour ainsi dire» («Évasion», Étienne de Montety, Le Figaro, 12.03.2026, p. 34).

      É o sinal para passarmos a dizer alguma coisa de útil na etimologia de «evasão», e não meramente que vem do latim evasiōne. Assim, proponho: do latim evasio, -onis, «fuga, saída», derivado de evadere, «sair, escapar», formado por e- (de ex-, «para fora») + vadere, «ir, avançar».

[Texto 22 615]

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Como se pensa e escreve por aí

Preguiça, a líder suprema


      «Portugal sem defesa anti-míssil de médio e longo alcance» (Helena Pereira, Público, 9.03.2026, p. 10). Título com avaria que já vem da primeira página. É até espantoso que no mesmo artigo escrevam bem uma palavra com o mesmo sufixo, tanto mais que o segundo elemento começa com vogal: «Portugal tem identificado há vários anos uma das suas fragilidades em termos de defesa e é na defesa antiaérea, ou seja, na protecção contra ameaças vindas do ar.» Quando seria muito mais normal, porque habitual, que a dúvida estivesse na ortografia da segunda, eis que a jornalista nos surpreende ao errar na primeira. Não tem, contudo, desculpa, porque, em qualquer caso, bastava consultar um dicionário, o que nos dias que correm se pode fazer sem nos levantarmos da cadeira nem tirar os olhos do ecrã à nossa frente.

[Texto 22 614]

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O que se escreve por aí

Mas não existem, claro


      João Caupers, jurista, antigo presidente do Tribunal Constitucional e ex-conselheiro de Estado, que mantém no Diário de Notícias uma crónica semanal, veio expender uma tese estrambótica (extravagante, esquisita, ridícula, estrambólica...) até mais não: não existem sinónimos. Mais: se existissem, o que nega, seriam desnecessários. Embora, já mais perto do fim do que do princípio, afirme que não é linguista (ah!), sempre vai avançando para o desenlace, que não é outro que não aquele que já adiantei, mas não quero que fique aqui apenas a minha interpretação: «Numa breve investigação que fiz recentemente, encontrei, em decisões judiciais, as palavras esquivamento, ajuizamento e lesionamento (entre outras). Se existirem, serão sinónimos, respectivamente, de esquiva, juízo e lesão. Não terão outra utilidade a não ser dificultar a compreensão do texto» («Palavrões», João Caupers, Diário de Notícias, 12.03.2026, p. 4).

[Texto 22 613]

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Léxico: «fazer nené»

Estamos tramados


      «Foi talvez uma ilusão; mas pareceu-me que um sino, de boca tão vasta como o mesmo céu, badalava na escuridão, através do Universo, num tom temeroso que decerto foi acordar sóis que faziam nené e planetas pançudos ressonando sobre os seus eixos...», escreveu Eça na obra O Mandarim. Mas o que é isto? Dicionários brasileiros tentam (e quase acertam) explicar o que significa fazer nené e os nossos não acertam porque nem tentam?

[Texto 22 612]

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Léxico: «e viva o velho»

Ajudemos os aprendentes da língua


      «Liam o folhetim do Comércio do Porto, nas horas vagas, e viva o velho» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 151).

[Texto 22 611]

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Léxico: «electroestado»

Lá chegaremos


      «Uma nova forma de bipolaridade energética dos países está a gerar tensão. De um lado da corrente, os petroestados (Estados Unidos, Rússia e Arábia Saudita) crescem na exploração, refinação e exportação de combustíveis fósseis. No campo eléctrico, os países em transição para electroestados (China, União Europeia, Brasil) estão a construir domínio por meio da electrificação, energias renováveis em larga escala e controlo sobre as cadeias de fornecimento de tecnologia verde» («A era da electricidade verde», Carlos Reis, Além-Mar, Março de 2026, p. 19). 

      Também achávamos estranho, lembro-me bem, «petroestado», e até «narcoestado», e ei-los aí por todo o lado, e desde logo nos dicionários. Mas é como se diz: primeiro estranha-se, e depois fechamos a matraca.

[Texto 22 609]

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Como se pensa por aí

Cada cabeça, etc.


      «Foi na juventude que se iniciou no boxe de competição, actividade que acabaria por lhe dar a alcunha, dentro do partido, de boxeur — embora usada pejorativamente para descrever o seu carácter impetuoso e emotivo» («O grande estratega que teve “uma espécie de segunda vida”», Ana Sá Lopes, Público, 8.03.2026, p. 13). Pejorativo, hein? Converse aqui com o seu colega: «Nuno Morais Sarmento, advogado e dirigente histórico do PSD, morreu ontem aos 65 anos, vítima de cancro no pâncreas, deixando uma marca de combatividade política que lhe valeu dentro do partido o nome carinhoso de “boxeur”» («Morais Sarmento não resistiu ao último combate», António José Gouveia, Jornal de Notícias, 8.03.2026, p. 30).

[Texto 22 608]

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Desempoeirar o léxico: «hígido»

Faz bem


      De quando em quando, Hélio Schwartsman usa termos que mais ninguém, nem no Brasil nem em Portugal, usa, e faz bem, é uma forma de os dar a conhecer: «Desde que o falante se faça compreender, ninguém perde nada. Idiomas são a prova de que a autogestão pode funcionar. Milênios antes de nascer o primeiro gramático prescricionista, grupos humanos já se organizavam para manter línguas, todas elas munidas de gramáticas completas, que lhes permitiam comunicar qualquer ideia concebível e algumas inconcebíveis. As regras inventadas por acadêmicos servem para marcar distinções sociais, mas não tornam o idioma melhor nem mais hígido» («O anarquismo que funciona», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A3). No caso, por sorte, está nos nossos dicionários.

[Texto 22 607]

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Léxico: «marialvice»

Fora dos dicionários!?


      «No filho dilecto espessava-se cada vez mais a loucura, no filho segundo a marialvice» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 147-48).
[Texto 22 606]
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Léxico: «curva cega»

O mesmo direito, a mesma necessidade


       «De acordo com a GNR, a ‘Operação Roca e Guincho em Segurança’ teve “como principal objetivo prevenir comportamentos de risco associados à condução agressiva e ao excesso de velocidade”. A GNR alerta que o elevado volume de tráfego e as características destas vias (com retas e curvas cegas) “exigem especial atenção à segurança rodoviária e ao cumprimento das regras de circulação”» («Motards aceleram no cabo da Roca», Correio da Manhã, 11.03.2026, p. 16). 

      Curva cega. Devia estar nos dicionários, como lá está (no caso do dicionário da Porto Editora, até talvez tenha sido eu a sugeri-lo, mas isso é o que menos importa — o que importa é que se faça, não quem faz, como digo sempre) janela cega, por exemplo.

[Texto 22 605]

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Léxico: «papel-tojal»

Vamos lá ajudar os leitores


      Lendo, relendo, revendo obras (entre as quais de Eça, onde se encontra) do século XIX, encontro várias ocorrências de «papel Tojal». Reparem na ausência de preposição. Dado que nas edições modernas dessas obras nunca vejo uma nota de rodapé a explicar o que é, podíamos presumir que todos os leitores sabem do que se trata — menos eu, justamente. Só saberão, palpita-me, enquanto não se lhes perguntar. Pois bem, esta inércia muito portuguesa e muito estúpida vai levar agora um abanão: não apenas vou passar a grafar «papel-tojal», sendo consequente com o início de lexicalização que a ausência de preposição pressupõe, como proporei a dicionarização do termo. Assim, já o leitor moderno passará a dispor de uma forma fácil e fiável de saber o que é ➔ papel-tojal papel de escrita fabricado na antiga Fábrica de Papel do Tojal (São Julião do Tojal, Loures), tradicionalmente produzido com trapos de linho ou algodão, usado em Portugal sobretudo no século XIX em correspondência e expediente administrativo do Estado.

[Texto 22 604]

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Léxico: «subestabelecer | subestabelecimento»

Ah, as variantes


      Pois é, Porto Editora, acolhes «substabelecer» e «substabelecimento», mas também existem as variantes subestabelecer e subestabelecimento e não as registas. «Mas era razoável solicitar-lhe o subestabelecimento, tratando-se dum sacerdote zeloso na prática das suas obrigações e admirador do romancista?» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 248).

[Texto 22 603]

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Extras! Extras! Extras!

Hoje são serviços


      «Perante três ofertas, onde deve o consumidor português investir o dinheiro? A resposta depende menos da música disponível — que é virtualmente a mesma em todos — e mais da qualidade do som, do preço mensal, dos serviços extras e do tipo de dispositivo que o utilizador traz no bolso» («Spotify, Tidal ou Apple Music? Qual a melhor escolha», Sérgio Magno, Público, 9.01.2026, p. 39).

[Texto 22 602]

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Léxico: «corriola-do-espichel | arrabidense»

Mais dois tijolos


      «Há espécies vegetais que só existem na zona da Arrábida. É o caso da corriola-do-espichel (Convolvulus fernandesii), um arbusto com flores brancas que ocorre em afloramentos calcários que, segundo o Instituto para a Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF), é um caso “notável” de endemismo arrabidense» («UNESCO considerou a Arrábida uma “jóia costeira», Andréia Azevedo Soares, Público, 28.09.2025, p. 17).

[Texto 22 601]

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O nome dos principais mares

Estava aqui a pensar


      Já pensaram porque temos o mar Vermelho, o mar Amarelo, o mar Negro e o mar Branco? E é assim há muitos séculos e em várias línguas: Red Sea, mer Rouge, Mar Rosso, Schwarzes Meer, White Sea. A ideia de identificar certos mares por cores está dispersa por grande parte da tradição geográfica do mundo. Só há explicação segura, unívoca, para dois deles: o mar Amarelo e o mar Branco. O primeiro deve a cor aos enormes sedimentos, vemo-lo em reportagens na televisão, que o rio Huang He (o rio Amarelo) arrasta das planícies da China e que ficam em suspensão na água, dando-lhe um tom amarelo-acastanhado. O segundo fica no Noroeste da Rússia, ligado ao oceano Árctico, e passa longos meses do ano rodeado ou coberto de gelo e neve. Já os outros dois entram no território das hipóteses. O nome mar Vermelho tem sido explicado de várias maneiras. Uma delas aponta para florações de uma cianobactéria (Trichodesmium erythraeum) que por vezes tingem a água de tons avermelhados. Outra hipótese é simbólica: em certas tradições asiáticas antigas, as cores estavam associadas aos pontos cardeais, e o vermelho correspondia ao sul, direcção onde esse mar se encontra relativamente ao mundo mediterrânico. O mar Negro também tem explicações concorrentes. Pode dever o nome ao aspecto muito escuro das águas durante tempestades frequentes e violentas. Mas há quem pense que o nome segue o mesmo sistema simbólico: em várias culturas da Ásia Central e turcas antigas, o preto correspondia ao norte. No fim de contas, aquilo que parece uma explicação evidente, mares com nomes de cores, revela-se bastante menos claro quando se procura a origem dos nomes. Em dois casos a explicação é simples; nos outros, ficamos apenas com conjecturas. O que nos conduz a uma conclusão: muitos dos nomes mais familiares da geografia mundial são muito mais antigos do que as explicações que hoje tentamos dar-lhes. Os nomes ficaram, as razões perderam-se quase por completo.

[Texto 22 600]

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Léxico: «dessoldagem»

O verbo já nós o temos


      «O problema dos resíduos electrónicos resulta da reciclagem no sector informal ou do depósito em aterros sanitários. A reciclagem informal recorre a técnicas grosseiras para recuperar metais com valor comercial, oferecendo enormes riscos para a saúde, tanto a dos recicladores como a das pessoas que vivem nas imediações. A reciclagem informal envolve processos como não só a dessoldagem de placas de circuitos, que liberta chumbo, cádmio e outros metais, mas também a queima do revestimento plástico de fios e cabos para a obtenção do cobre [afirma o investigador Peter Sly, em entrevista]» («“O lixo electrónico depositado em aterros pode lixiviar metais para o solo e a água”», Andréia Azevedo Soares, Público, 16.04.2025, p. 29).

[Texto 22 599]

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Definição: «Casa Militar»

Assim é que é


      António José Seguro escolheu o tenente-general Maia Pereira para chefe da Casa Militar. Uma vez que anda mal definida nos nossos dicionários, proponho ➔ Casa Militar POLÍTICA estrutura da Presidência da República composta por oficiais das Forças Armadas, designadamente o chefe da Casa Militar e os ajudantes-de-campo do Presidente da República, que assistem o chefe de Estado no exercício das suas funções de comandante supremo das Forças Armadas, asseguram a ligação institucional com as autoridades militares e desempenham funções de representação e acompanhamento em actos oficiais.

[Texto 22 598]

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Como se escreve por aí

Pois, mas saiu mal


      «A Casa Branca bem pode desejar a deposição do feroz regime teocrático iraniano, substituindo-o por um governo submisso aos seus ditames, mas os especialistas no Médio Oriente sustentam que esse cenário é pouco provável e que os dois cenários mais viáveis são bem diferentes: um será o reforço da teocracia, bem musculada com a sua Guarda Revolucionária, e o outro a eclosão da República Islâmica do Irão, mergulhando o país num caos» («Cenários de guerra», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 10.03.2026, p. 2).

      Tenho a certeza, como não, de que o Prof. Carlos Fiolhais sabia muito bem o que queria escrever — mas errou na palavra que escolheu, que se devia reservar, por precaução mínima, para quando nos referimos aos pintainhos. Como seria de esperar, o temor reverencial do revisor impediu-o de corrigir a frase, que, assim, diz exactamente o contrário do que o autor pretendia. Já um pouco atrás o revisor, ou por ignorância ou por temor, deixara passar outro erro: «Os EUA iniciaram a ofensiva invocando a capacidade – não provada! – dos iranianos construírem ogivas nucleares.» Aqui foi a interposição dos parênteses que os obnubilou. Em suma, a língua está a revelar-se mais difícil do que a Física.

[Texto 22 597]

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Como se escreve por aí

Observa bem


      «“Não há primeiras damas no nosso país”, disse Margarida Maldonado Freitas aos jornalistas, na noite em que o marido, António José Seguro, venceu as eleições Presidenciais, em fevereiro. “Portanto… eu acompanharei o meu marido, mas não há primeiras damas”, completou a mulher do Presidente agora empossado — e esta segunda-feira, 9 de março, dia da posse, assim o fez» («Os corações de Viana e o azul de Melania e Brigitte. As escolhas de Margarida Maldonado Freitas para a tomada de posse de Seguro», Sâmia Fiates, Observador, 9.03.2026, 18h41). 

      Muito bem, não há, não há. Não se fala mais nisso. Mas, ó Observador, hífen há ali naquela palavrinha: primeira-dama. Ainda queria que fosse no meu tempo termos um primeiro-cavalheiro. A Porto Editora tem tudo preparado, anda mais próvida, e assim primeira-dama é a «mulher ou companheira de chefe de Estado» e primeiro-cavalheiro o «marido ou companheiro de chefe de Estado».

[Texto 22 596]

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Definição: «código QR»

Falta um elemento caracterizador


      Ao contrário dos códigos de barras tradicionais, que apenas permitem detectar erros de leitura através de um dígito de controlo e deixam de ser legíveis quando parte do código está danificada, os códigos QR incorporam mecanismos de correcção de erros que possibilitam a reconstrução dos dados mesmo quando o símbolo se encontra parcialmente deteriorado ou oculto. Além disso, por se tratar de um código bidimensional, organizado numa matriz de módulos, o código QR pode armazenar uma quantidade de informação significativamente maior do que os códigos de barras lineares. A actual definição do dicionário da Porto Editora não menciona estes aspectos técnicos, que constituem características distintivas deste tipo de código, e por isso proponho ➔ código QR código bidimensional de resposta rápida (do inglês Quick Response), constituído por uma matriz quadrada de módulos (quadrados) pretos e brancos que codificam dados legíveis por dispositivos de leitura óptica, como câmaras de smartphones; incorpora mecanismos de correcção de erros que permitem a leitura mesmo quando o código está parcialmente danificado.

[Texto 22 595]

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Léxico: «agama-cabeça-de-sapo»

Toma este lagarto


      «No estudo, os investigadores salientam que “explorar a evolução das redes genéticas associadas à homeostase metabólica/energética pode fornecer informações importantes sobre os cenários adaptativos que regem a fisiologia das linhagens existentes” e dizem ter examinado genomas de 112 espécies que compreendem membros das ordens Squamata, Testudines, Crocodilia e Rhynchocephalia, fornecendo provas de que a grelina “foi perdida independentemente em serpentes (32 espécies), camaleões (quatro espécies) e agamas-cabeça-de-sapo (duas espécies)”» («Serpentes perderam “hormona da fome” e tornaram-se especialistas em jejum», Filipa Almeida Mendes, Público, 9.03.2026, p. 26).

[Texto 22 594]

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Etimologia: «cepticismo»

Não se omita o que importa


      «La palabra escepticismo en nuestra lengua señala una actitud de crítica y cuestionamiento necesario para la contemplación y la comprensión del mundo: tanto a la hora de examinar la realidad o la veracidad de las cosas en la duda necesaria y razonable de los que filosofan. ¡Qué necesario es esto en tiempos de posverdad! Con tanta desinformación que nos atosiga desde todos los medios, digitales o analógicos, no está de más volver a la sana duda del escepticismo y su idea de serenidad e indiferencia. La palabra viene de una raíz griega (con verbos como “skopeo” y “skeptomai”) que hace referencia a la mirada y la observación, y de la que viene el adjetivo “skeptikós” como aquel que examina, mira o vigía. Hay que recordar que el nombre griego de Denia, por ejemplo, según quiere la tradición, fuera Hemeroskopion, una suerte de atalaya del día...» («El necesario escepticismo», David Hernández de la Fuente, La Razón, 9.03.2026, p. 50). 

      Como é que os nossos dicionários podem limitar-se a indicar que a etimologia é «de céptico+-ismo», e pronto, já está? Não pode ser, isso é desprezar muita informação relevante. Assim, proponho ➔ de céptico + -ismo, provavelmente por influência do fr. scepticisme (1715) ou do ingl. scepticism (1646); céptico vem do lat. scepticus, e este do gr. skeptikós, «que examina, que observa», derivado de sképtesthai, «examinar, considerar»; atestado em port. como scepticismo desde o séc. XVIII.

[Texto 22 593]

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Léxico: «papel-toalha»

É outro tipo


      «Além dos salgados, há petiscos como um dos carros-chefe da casa, o frango a passarinho servido com mandioca frita — tudo bem crocante. Aliás, todas as frituras são cuidadosamente colocadas sobre papel-toalha para absorver a gordura residual, um cuidado que torna os quitutes ainda mais saborosos. “São segredinhos de quem cozinha há muito tempo”, revela a empreendedora» («No boteco na Bica que é a cara do Brasil, quem “manda ver” são as mulheres», Gisele Rech, Público, 6.03.2026, 7h45).

[Texto 22 592]

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Léxico: «ordinariedade»

Se é para breve


      «Gila Sher diz que a queda da verdade não é nova, já vem de Nietzsche, “o que distingue a corrente crise da verdade é a sua ordinariedade e universalidade. Surgiu a partir de circunstâncias comuns. Não está ligada a um qualquer regime corrupto ou acontecimento catastrófico. Nem está limitada a uma sociedade ou ideologia particular. A vida comum, sem extremismo, está a perder a sua ligação à verdade”» («Desumanidade», António Rodrigues, Público, 6.03.2026, 7h00).

[Texto 22 591]

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Uma ida ao teatro

Tudo na mesma


      Fui ver a peça O Quarto, de Harold Pinter, no Teatro Experimental de Cascais. Uns minutos antes de a peça começar, e até parecia que andavam ainda a carpintejar no palco, porque se atrasaram, um espertalhão ao meu lado, acompanhado de duas mulheres, dizia esperar que nenhuma delas sofresse de estroboscopia. E eu só espero que a criatura não seja professor e não ande por aí a ensinar parvoíces. Quanto à peça, os erros do costume. Na ficha técnica, do tradutor ao frente-de-casa (termo que em boa hora levámos para o dicionário da Porto Editora em Abril de 2024), aparece o nome de toda a gente — menos do revisor, porque os responsáveis acham que as peças de teatro não precisam de revisão. Como estão enganados... 

[Texto 22 590]

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Definição e etimologia: «plateresco»

Falta a terceira influência


      «Com os filhos pequenos, foi-se instalando em várias cidades, de acordo com as necessidades da governação e, às vezes, com a preocupação de evitar epidemias. Uma das cidades em que mais tempo se deteve foi Valladolid onde, em Maio de 1527, nasceu o seu primogénito. Ainda se conserva o Palácio Real, onde se deu o real nascimento, que hoje serve de sede da Deputação Provincial de Valladolid, o governo da província, e onde ainda se encontra uma bela janela plateresca, um estilo de transição do princípio do século XVI, entre o mudéjar e o gótico flamejante. Não muito longe está a Igreja de São Paulo onde o príncipe recém-nascido foi baptizado, no mesmo dia em que o pai recebeu a terrível notícia de que os seus exércitos tinham saqueado Roma de forma brutal» («Da corte portuguesa a terras de Espanha: no encalço da rainha Isabel», Maria João Martins, Público, 8.03.2026, 10h22).

      Ora bem, é essa influência mudéjar que está ausente de quase todos os dicionários. No caso da Porto Editora, o pior é a nota etimológica ser mera excrescência. Assim, proponho ➔ plateresco ARQUITECTURA estilo arquitectónico espanhol do final do século XV e da primeira metade do século XVI, caracterizado por ornamentação extremamente rica e minuciosa que lembra o trabalho da ourivesaria, combinando elementos do gótico tardio, da tradição mudéjar e do Renascimento italiano.

      Quanto à etimologia, vem do castelhano plateresco, derivado de platero, «ourives», de plata, «prata», com o sufixo -esco, que exprime relação ou semelhança («à maneira de ourives»).

      Até pode ficar fora da definição, mas deve acrescentar-se que a ornamentação plateresca aplicava-se sobretudo às fachadas, portais e janelas dos edifícios e, muitas vezes, era acrescentada a construções já existentes, frequentemente de estrutura gótica, funcionando como revestimento decorativo muito elaborado.

[Texto 22 589]


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Definição: «quirguiz»

Logo por azar


      «Em Bishkek, a herança soviética vê-se por toda a parte. E, no que nos diz respeito, também muito de perto. Alexander, o nosso motorista, não só nasceu na Rússia (em Volgogrado), como fala exclusivamente russo. Chegou aqui em criança, casou-se e teve três filhos sem nunca ter aprendido quirguiz» («Manas é melhor do que Lenine», Paolo Moiola, Além-Mar, Abril de 2026, p. 44). 

      A Porto Editora não se quis cansar muito e no verbete de «quirguiz», depois de mencionar que é o natural do Quirguistão, na acepção de língua limita-se a indicar que é a «língua falada neste país». Ora obrigadinho. Logo por azar, a definição do tão decantado Houaiss também não saiu grande coisa. Sendo assim, proponho ➔ quirguiz LINGUÍSTICA língua túrquica do ramo kipchak, falada sobretudo no Quirguistão e também por comunidades no Oeste da China (Xinjiang), Afeganistão, Tajiquistão e Usbequistão; apresenta forte proximidade estrutural com o cazaque e, desde o período soviético, escreve-se predominantemente com alfabeto cirílico, embora existam também sistemas baseados no alfabeto árabe (na China) e tentativas de latinização; é língua oficial do Quirguistão.

[Texto 22 588]

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Definição e etimologia: «viburno»

Alimento no Paleolítico


      «Ese fruto es el de la Viburnum opulus, que tiene varios nombres comunes: rosa de Guelder, bola de nieve, mundillo... “La rosa de Guelder, su fruto, es astringente, antioxidante y tiene un montón de propiedades medicinales que debían hacerla interesante para estas comunidades, pero es tóxica; cuando te las comes crudas, te pones bastante malo, sabe fatal, yo las he probado, y el olor también es horrible”, recuerda la investigadora [da Universidade de York, Reino Unido]. González las cocinó de muchas maneras, durante distintos tiempos y a varias temperaturas. “Luego las mezclé con dos tipos de pescado, barbos y carpas, y ahí cambia todo. Su sabor se vuelve dulce. El pescado le da otro registro al sabor”, comenta. En muchas zonas de Polonia, Ucrania o Rusia aún se consume esta especie de gelatina fermentada» («No solo de carne vivía el hombre paleolítico», Miguel Ángel Criado, El País, 8.03.2026, p. 44).

      Dada a importância que teve, e visto que a etimologia é largamente melhorável, proponho ➔ viburno BOTÂNICA (Viburnum opulus) arbusto caducifólio da família das Adoxáceas, originário da Europa e da Ásia temperada e cultivado como ornamental; atinge geralmente 2-4 m de altura, tem folhas opostas palmatilobadas e inflorescências em corimbo com pequenas flores férteis centrais rodeadas por flores exteriores maiores e vistosas; produz pequenas drupas globosas, vermelhas e translúcidas, que amadurecem no fim do Verão e persistem frequentemente no arbusto durante o Outono; conhecido também por bola-de-neve, viburno-bola-de-neve, noveleiro e rosa-de-gueldres.

      Quanto à etimologia, vem do latim viburnum, nome de um arbusto flexível usado para vimes, aplicado pelos autores clássicos sobretudo ao lantaneiro (Viburnum lantana) e adoptado na botânica moderna como nome do género Viburnum.

[Texto 22 587]

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Léxico: «chumbador»

Levem isto na bagagem


      «O túnel é construído pela técnica NATM (novo método austríaco de tunelamento, na tradução), em que a escavação é feita de forma sequencial —o maciço rochoso é o suporte principal da obra, com reforço de concreto projetado, cambotas metálicas e chumbadores» («Túnel do metrô sob a Paulista entra em fase crítica com corte de fundações», Fábio Pescarini, Folha de S. Paulo, 8.03.2026, p. A32). 

      Convém que, quando chegarem ao Brasil, os nossos engenheiros saibam o que é ➔ chumbador ENGENHARIA CIVIL barra ou haste metálica introduzida em perfuração feita no maciço rochoso ou no betão e fixada por chumbagem com argamassa, cimento ou resina, utilizada para reforçar e estabilizar o terreno ou a rocha envolvente, funcionando como elemento de ancoragem que consolida o maciço ou prende elementos estruturais, usado sobretudo em obras subterrâneas, escavações e taludes, frequentemente em conjunto com betão projectado, cambotas metálicas ou outros sistemas de sustentação.

[Texto 22 586]

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Léxico: «cinessérie»

Isto não pára


      «Num departamento que remete à cinessérie Star Wars, os EUA colocaram em ação armas a laser» («Guerra expõe situações e armamentos inéditos», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 8.03.2026, p. A12).

[Texto 22 585]

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Definição: «tromba»

Ainda mais relevante


      Já aqui falámos nas vibrissas na tromba dos elefantes, que antes nem sequer eram mencionadas. Sabe-se agora que desempenham um papel ainda mais relevante: «La trompe d’un éléphant peut à la fois soulever un arbre et saisir une chips sans la casser, un alliage de force et de délicatesse possible grâce à ses moustaches, a dévoilé en février dernier une étude parue dans la revue américaine “Science”. Celle-ci détaille comment les propriétés uniques des poils qui couvrent les trompes des éléphants leur permettent une dextérité hors du commun. Ils naissent avec environ 1000 vibrisses, ces organes sensoriels que l’on appelle plus communément moustaches, détaille à l’AFP le principal auteur de l’étude, Andrew Schulz. La plupart de ces poils sont ancrés dans les rides de la trompe et agissent comme des antennes, aidant ces animaux à appréhender leur environnement» («Le secret de la dextérité des éléphants réside dans leurs moustaches», Le Matin Dimanche, 8.03.2026, p. 21). 

      É alguns destes aspectos que temos de mencionar na definição de ➔ tromba ZOOLOGIA órgão muscular alongado, tubular, flexível e preênsil que resulta do prolongamento e fusão do nariz com o lábio superior dos elefantes; constituído por feixes musculares muito numerosos e dotado de vibrissas sensoriais distribuídas ao longo da superfície que reforçam a sensibilidade táctil; desempenha funções de respiração, olfacto, tacto, sucção, manipulação de objectos e expressão comportamental; probóscide.

[Texto 22 584]

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Tradução: «to gain traction»

Ouvida na rádio no sábado


      «Uma teoria relacionada a questões climáticas também ganhou tração ao longo do dia. Em um primeiro momento, a REN (Redes Energéticas Nacionais), responsável pela distribuição de energia em Portugal, chegou a dizer que um fenômeno atmosférico raro na Espanha, produzido por variações extremas de temperatura no interior do país, tinha causado o apagão» («Apagão paralisa serviços e leva caos a Portugal e Espanha», Folha de S. Paulo, 29.04.2025, p. A35). 

      Mais um decalque semântico bastante directo do inglês to gain traction, que é comum nos meios de comunicação e no discurso político e empresarial anglófono. Em inglês, gain traction tem origem no sentido físico de traction (aderência ou força de fricção que permite o movimento, por exemplo, de pneus ou rodas), mas passou a ser usada metaforicamente com o sentido de «começar a ter aceitação, apoio ou eficácia». Em português de sempre, dir-se-ia antes que uma ideia ganhou força, ganhou adesão, começou a vingar ou tornou-se mais plausível/aceite.

[Texto 22 583]

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Léxico: «cheque-bebé»

Ficou a ideia


      «Esta proposta existiu no programa eleitoral do PS de 2009. Chamava-se “Conta Poupança-Futuro”. A medida ficou conhecida como o “cheque-bebé” e foi uma das promessas do Governo de José Sócrates. A ideia era criar para “cada criança por ocasião do seu nascimento” uma conta poupança a prazo “com um depósito inicial a cargo do Estado” de 200 euros, indicava, à data, o Diário de Notícias» («Urgências, salário mínimo, cheque-bebé e Ventura a citar mal uma frase. Os factos dos debates eleitorais desta semana», Marta Leite Ferreira, Bárbara Baltarejo e Pedro Sales Dias, Público, 20.04.2025, p. 11). 

      Sócrates não a cumpriu em 2009, nem nunca, mas o cheque-bebé existe actualmente, atribuído por algumas autarquias.

[Texto 22 582]

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Definição: «feno-das-areias»

Já que lhe vão mexer


      Num texto que aqui publiquei sobre os palheiros da Costa Nova, usei a designação «palha das dunas», que é usada para nomear várias espécies, não apenas o estorno, como naquele caso, mas também o feno-das-areias, cuja definição aparece com uma gralha gigantesca no dicionário da Porto Editora: «BOTÂNICA (Elymus farctus) planta herbácea, vivaz e rizomatosa, da família das Gramíneas, frequente em Portugal em arreias marítimas e arribas litorais, pode atingir cerca de 60 centímetros de altura e tem colmos finos, folhas rígidas e inflorescências em espigas». Mas também podemos melhorar a definição, ninguém se queixará (se bem que não faltam brutamontes que cospem na sopa). Assim, proponho ➔ feno-das-areias BOTÂNICA (Elymus farctus) planta herbácea, perene e rizomatosa, da família das Poáceas, frequente em Portugal nas areias marítimas e nas dunas litorais; pode atingir cerca de 60 centímetros de altura, com colmos finos, folhas rígidas e inflorescências em espiga; desempenha um papel importante na fixação das areias móveis.

[Texto 22 581]

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