Léxico: «interorgânico»

Precisava dele


      «“Embarcámos numa missão para compreender esta comunicação interorgânica entre o rim e o coração”, disse Uta Erdbrügger, professora associada de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, co-autora do estudo. “Descobrimos que há moléculas que comunicam entre o rim e o coração”» («Os cientistas poderão finalmente saber porque é que os doentes renais morrem de doença cardíaca», Allyson Chiu, Público, 3.02.2026, 7h05).

[Texto 22 361]

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Léxico: «tempestade de ferrão»

Este ano, ficamos diplomados


      «A depressão Kristin, com especificidades, com precipitação e vento muito intenso, tem a ver com a geração de uma tempestade de ferrão ou sting jet. Segundo Pedro Matos Soares [especialista em clima], estes sting jet são relativamente raros em Portugal, mas já aconteceram em 2009 e depois em 2018, associado ao furacão Leslie» («Mau tempo. Sequências de tempestades são raras e a culpa é do anticiclone dos Açores», Rádio Renascença, 3.02.2026, 8h57, itálicos meus). Se apareceu, temos de acolher ➜ tempestade de ferrão METEOROLOGIA corrente de vento muito intensa e localizada, associada a alguns ciclones extratropicais em rápida intensificação, que desce de camadas médias da troposfera e atinge a superfície com rajadas extremas; o nome provém da forma em ferrão visível nas imagens de satélite, e o fenómeno, raro mas potencialmente destrutivo, é conhecido internacionalmente por sting jet.

[Texto 22 360]

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Definição: «tragédia»

Falta a origem de tudo


      Pelo que vejo, falta uma acepção de «tragédia» no dicionário da Porto Editora. Onde está a tragédia como peça teatral na Antiguidade? Pois, não está, e devia ser a primeira acepção. Assim, proponho ➜ tragédia 1. LITERATURA peça teatral, geralmente em verso, cuja acção se caracteriza por um tom elevado e culmina num desfecho funesto, despertando sentimentos de piedade e terror; surgiu na Grécia Antiga como forma dramática ligada a personagens nobres ou heróicas, com estrutura frequentemente dividida em cinco actos. 

      Pois, cinco actos, a que correspondem fases como a exposição, o desenvolvimento, o clímax, a peripécia e o desenlace. Estrutura que é retomada muito depois, e já não somente no teatro: estou a pensar, por exemplo, na obra A Morte em Veneza, de Thomas Mann.

[Texto 22 359]

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Definição: «onça»

Façamos a nossa parte


      «O preço do ouro atingiu esta segunda-feira um novo recorde acima dos 5.100 dólares por onça, o equivalente a 28,3 gramas» («Ouro, prata e platina batem novos recordes», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 27.01.2026, 00h01). 

      A minha avó tinha razão ao dizer que o que se faz de noite de dia aparece, querendo significar com isso que há certas tarefas que não se devem fazer à noite, em que se devia estar a dormir, não a trabalhar. Caro Ricardo Vieira, a equivalência apresentada — uma onça = 28,3 gramas — refere‑se à onça avoirdupois, não à onça troy, que é a unidade usada no comércio de metais preciosos e que equivale a 31,103 476 8 g. Também é caso para dizer que os dicionários têm alguma culpa disto, já que não distinguem claramente nem ordenam as acepções pela sua relevância e actualidade. Daí a minha proposta ➜ onça 1. medida de peso de metais preciosos, usada em cotação de ouro, prata e platina, equivalente a 31,103 g (onça troy / onça fina); 2. medida inglesa de peso, usada principalmente nos Estados Unidos e, de forma cada vez mais limitada, no Reino Unido, para produtos comuns; equivale a 28,349 g (onça avoirdupois); 3. peso antigo português, usado até ao século XIX, equivalente à décima sexta parte do arrátel, ou seja, 28,6875 g; 4. antiga moeda espanhola de ouro, cunhada entre os reinados de Filipe III e Fernando VII, com peso próximo de uma onça e valor de 329 reales; 5. antiquado pequeno pacote de tabaco em fio, de peso variável; 6. Cabo Verde medida agrária tradicional, equivalente a cerca de 1.089 m²; 7. figurado coisa de pouco valor, pequena, insignificante.

[Texto 22 358]

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Léxico: «sindicalidade»

Vinda de São Tomé


      «No entanto, [os juízes do Tribunal Constitucional são-tomense] referem que a lei “não consagra uma imunidade absoluta dos actos parlamentares”, mas estabelece “critério material de sindicalidade constitucional”» («TC de São Tomé declara inconstitucional destituição da presidente do Parlamento», Público, 3.02.2026, 16h50).

[Texto 22 357]

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Léxico: «pododermatite»

Então está na hora


      «“Os juízes desembargadores confirmaram que o direito de informar os portugueses sobre as condições nos aviários é um pilar da liberdade de expressão que não deve ser cedido a estratégias de marketing. O acórdão refere factos graves validados pela prova produzida, descrevendo aves criadas com excesso de densidade, utilização de antibióticos e animais com queimaduras e pododermatites por estarem muito tempo em cima das suas fezes”, lê-se no comunicado [da Frente Animal]» («Relação do Porto rejeita recurso do Pingo Doce contra denúncia da Frente Animal», Público, 24.01.2026, 12h45).

      Pobres animais... E pobres falantes, que não encontram nos nossos dicionários ➜ pododermatite VETERINÁRIA inflamação ou lesão infecciosa na pele das patas de animais, em especial aves e roedores, causada por contacto prolongado com substratos húmidos ou sujos, pressão excessiva, fricção ou deficiências nutricionais; manifesta-se por vermelhidão, inchaço, ulceração ou necrose nas zonas plantares.

[Texto 22 356]

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Léxico: «telha lusa» e outras

Temos de falar


      «A Câmara de Famalicão vai enviar, na terça-feira, para os distritos de Leiria e Santarém, mais de oito mil telhas para a reconstrução das habitações afetadas na última semana pela tempestade Kristin, foi hoje divulgado. [...] Posto isto, a Câmara avançou para a aquisição do material – 26 paletes de telha lusa F3 – para a doação» («Famalicão oferece 8.000 telhas aos distritos de Leiria e Santarém», Pedro Gonçalo Costa, O Minho, 2.02.2026, 18h13). 

      Os nossos dicionários estão claramente falhos quanto a tipos de telhas. Há mais, mas vamos concentrar-nos em três: telha lusa, telha de canudo e telha marselhesa (neste caso, a sugestão é apenas de melhoria, dado que a Porto Editora já a acolhe). Assim, proponho ➜ telha lusa s. f. constr. telha cerâmica de origem portuguesa, de perfil recto e pouco ondulado, dotada de sistema de encaixe lateral e longitudinal que assegura o encaixe entre peças, garantindo estanquidade e eficaz escoamento da água; peça robusta, com relevos de vedação nas zonas de engate, destina-se a coberturas com inclinação moderada a acentuada, sendo emblemática da construção tradicional portuguesa. | ➜ telha de canudo, telha mourisca ou telha árabe s. f. constr. telha cerâmica tradicional de forma semicilíndrica, composta por peças curvas justapostas em pares alternados, uma com a concavidade voltada para cima (canal) e outra sobreposta com a concavidade para baixo (cobertura), formando linhas de escoamento; usada em coberturas inclinadas de edifícios históricos ou de arquitectura vernacular, sobretudo no Sul de Portugal, requer fixação com argamassa ou sistema equivalente para garantir estanquidade e resistência ao vento. | ➜ telha marselhesa s. f. constr. telha cerâmica plana e rectangular, dotada de sistema de encaixe lateral e superior que permite o travamento sequencial das peças e a sua fixação directa ao ripado; apresenta perfil com reentrâncias e saliências para condução da água e reforço da estanquidade, sendo leve, de aplicação rápida e produzida industrialmente em vários acabamentos; amplamente usada em coberturas modernas ou reabilitadas, adapta-se bem a telhados de inclinação média a acentuada.

[Texto 22 355]

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Extras! Extras! Extras!

Isto está a melhorar


      «Diretiva de 2016 torna horas extras em trabalho escravo na PSP» (João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 3.02.2026, p. 18).

[Texto 22 354]

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Léxico: «ficar mal na fotografia»

Para os estrangeiros e para nós


      Estou para ver quando levam isto para os dicionários: «Nos casos relatados ontem na imprensa britânica, de mortes que ocorreram no final do ano passado, são os hotéis do grupo Riu na ilha do Sal que ficam mal na fotografia» («Famílias de turistas britânicos mortos por infecção em Cabo Verde recorrem à justiça», Ana Brito, Público, 2.02.2026, p. 39). Agora imaginem um estrangeiro só com umas luzes da nossa língua — daqueles que confundem cozinha com cuzinho — a traduzir a expressão. Mas, quem sabe, talvez nos perguntasse. Teríamos de explicar. You may not have done the crime, but you showed up in the frame, and now you’re the face of the scandal.

[Texto 22 353]

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Definição: «prussianismo»

Mais rigor


      Ainda bem que esta prefaciadora usou, e definiu, a palavra «prussianismo». Aproveitemos nós a lição propondo ➜ prussianismo 1. condição ou característica do que é prussiano; 2. doutrina, atitude ou sistema de valores associados à cultura ou mentalidade prussiana, especialmente no que respeita à disciplina rígida, ao autoritarismo, ao militarismo e à valorização do dever, da ordem, da coragem, do zelo e do trabalho árduo; 3. [por extensão] qualquer forma de organização ou ideologia marcada por autoritarismo, militarismo e culto da autoridade.

[Texto 22 352]

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Fases intermédias (ou de transição) da Lua

Depois das crianças, nós  🌖


      Ontem à tarde, ao ver no meu relógio Huawei que estávamos na fase de minguante convexa (não é a nossa nomenclatura), fui ver como estavam as fases intermédias ou de transição no dicionário da Porto Editora. Não estavam. E não terá sido o vento que as levou, nunca lá estiveram. E, contudo, até em programas infantis da RTP e da SIC se fala nestas fases. Assim, proponho ➜ lua crescente côncava ASTRONOMIA fase entre a lua nova e o quarto crescente, com menos de metade do disco lunar visível iluminado; lua crescente gibosa ASTRONOMIA fase entre o quarto crescente e a lua cheia, com mais de metade do disco lunar visível iluminado. | lua minguante gibosa ASTRONOMIA fase entre a lua cheia e o quarto minguante, com mais de metade do disco lunar visível iluminado; lua minguante côncava ASTRONOMIA fase entre o quarto minguante e a lua nova, com menos de metade do disco lunar visível iluminado.

[Texto 22 351]

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Definição: «bug»

Ai sim? Então toma um contra-exemplo


      Acabei de reportar à Apple um erro muito estúpido — um bug — do iOS. Veremos se o corrigem. Nem precisam de me agradecer. De caminho, tratemos de outro caso: a definição de bug no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Como é meu timbre, não vou limitar-me a dizer que está errada, mas propor a correcção. Está assim: «INFORMÁTICA erro ou falha na execução de um programa, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento». Vamos lá ver, um bug não é apenas na execução. Um bug pode estar no código mesmo que nunca seja executado, ou pode manifestar-se apenas em condições específicas (como era o caso daquele que reportei). Assim, proponho ➜ bug INFORMÁTICA defeito ou erro no código de um programa que resulta em comportamento não intencional, incorrecto ou inesperado, independentemente da sua gravidade ou impacto no funcionamento geral do sistema.

[Texto 22 350]

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Definição: «gorila-das-montanhas»

Só que pode estar melhor


      «The mountain gorillas were already restricted to a handful of forest fragments. Hunting alone caused the Virunga gorilla population to drop from 400-500 individuals in 1960 to 260-290 during Amin's regime» («Gorillas are what we want to be, says Gladys Kalema-Zikusoka», M. Nobinraja, The Hindu, 3.02.2026, p. II). 

      Só esta informação, entre outros dados do artigo, já contribuirá para melhorar a definição de ➜ gorila-das-montanhas ZOOLOGIA (Gorilla beringei beringei) subespécie do gorila-do-oriente que habita florestas montanhosas entre 2200 e 3900 metros de altitude, nas regiões de Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo; distingue-se pela pelagem espessa, negra e comprida, e por viver em grupos familiares coesos; é a mais rara das subespécies de gorila, com uma população inferior a mil indivíduos.

[Texto 22 349]

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AOLP90 ainda por assimilar

Oh, Luís, que desilusão


      «Foi no gabinete de José Guerreiro que alguém abriu a boca e propôs o nome que agora é maldito. Parecia inofensivo, era internacional e ninguém se chatearia. Ao presidente do IPMA pareceu-lhe bem. Ligou aos colegas europeus e todos aprovaram que seria menina a tempestade que os meteorologistas do sul da Europa previram que chegaria mais pujante a Portugal do que a qualquer outro lugar. O “K” não é letra do alfabeto que conheçamos, mas é rabisco obrigatório em quase todo o lado e funcionou como álibi, assim ninguém se chatearia por ter o seu nome associado a uma vingança... mesmo que da natureza» («O pai de Kristin é português», Luís Osório, Diário de Notícias, 3.02.2026, p. 4).

      E é logo um adepto desta ortografia avariada que vem dizer isto, que o k (porquê a maiúscula?) não faz parte do nosso alfabeto. Estude lá bem isto. Não por causa da mudança da grafia, mas da imigração, é ver agora a lista de nomes permitidos do Instituto dos Registos e do Notariado começados por k

[Texto 22 348]

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Léxico: «exame de Montreal»

Está a precisar de MoCA 


      «Trump, de 79 anos, insiste ter obtido resultados “perfeitos” num teste cognitivo “exigente”, a última vez em 2025. O republicano nunca refere o teste pelo nome, mas a descrição dos exercícios de identificação e de ordenação de imagens indicia que será o exame de Montreal, uma ferramenta de diagnóstico de Alzheimer» («De Washington a Bruxelas pergunta-se se Donald Trump está bem», Pedro Guerreiro, Público, 2.02.2026, p. 20). 

      É melhor guardá-lo no sítio certo ➜ exame de Montreal MEDICINA nome comum do Montreal Cognitive Assessment (MoCA), instrumento breve de avaliação criado em 1996 para detectar défices cognitivos ligeiros, especialmente em casos de suspeita de Alzheimer; inclui provas de linguagem, memória, orientação, atenção e funções executivas, como a identificação de imagens, cópia de figuras, repetição de palavras e ordenação de elementos.

[Texto 22 347]

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Léxico: «heterogerido»

Este é da economia


      «“Tratando-se de um organismo de investimento colectivo heterogerido, não dispõe de órgãos sociais, cabendo a sua gestão à entidade gestora (a FundBox)”, indica a CMVM. Ou seja, os gestores da Oeno não são gestores do fundo, não é avaliada a sua idoneidade. A supervisão é feita por via da gestora, a FundBox» («Sociedade autorizada pela CMVM para vender fundo de vinho não suspeitou da Oeno», Diogo Cavaleiro, Público, 1.02.2026, 6h00).

[Texto 22 346]

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Léxico: «comboio [de tempestades, problemas, parvoíces...]»

Fico no próximo apeadeiro


      Anda na boca de muitos, sobretudo de meteorologistas, pelo menos na rádio e na televisão: vem aí, avisavam, um comboio de tempestades: Ingrid, Josef, Kristin, Leonardo... E não é que veio mesmo? Estou tão fartinho desta merda de tempo... mas para onde vou eu? Ainda aqui não tinha trazido esta tão peculiar forma de dizer porque eu próprio tenho tido um comboio de problemas. Ainda estou embarcado.

[Texto 22 345]

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Léxico: «motosserrista»

Já aqui os temos de dentes afiados


      «O Exército, conforme fez questão de revelar em comunicado, tem ainda em prontidão três destacamentos de engenharia, oito módulos de energia, capacidade de mil alojamentos distribuída por 10 unidades militares, 17 equipas de limpeza e desobstrução, dois módulos de alojamento (100 pessoas cada), um módulo de alimentação (para 100 pessoas) e nove equipas de motosserristas» («Protecção Civil só pediu ao Exército ajuda de quatro militares no dia a seguir à tempestade», Helena Pereira, Público, 1.02.2026, 7h01).

[Texto 22 344]

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Irritações: véspera e dia anterior

Esta deixa-me doente


      Não sei se já disse isto nos vinte anos de blogue, mas, como todos os dias nascem tradutores, não fará mal, pelo contrário: por favor, não escrevam tantas vezes «no dia anterior». De certeza que conhecem, já ouviram da boca de pais, avós (mas devia ser «avôs), vizinhos, a palavra «véspera». Usem-na.

[Texto 22 343]

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Léxico: «matemático»

Imitemo-los


      «“É um estilo de Papa completamente diferente do Papa Francisco”, afirma, explicando que Bergoglio era um Papa “discursivo”, “emotivo” e “efusivo” – enquanto Prevost, “um Papa americano”, é “muito racional”, com “ideias muito organizadas” e “mais matemático”. Leão XIV é para o Presidente da República “uma pessoa superiormente inteligente”, mas “fala curto” e, por isso mesmo, Marcelo preparou uma intervenção que se compatibilizasse com tal estilo. Foram 25 minutos a sós, na Biblioteca privada papal, situada no segundo piso do Palácio Apostólico» («O Papa americano, “mais matemático”, recebeu convite para Fátima em 2027», João Maldonado, Rádio Renascença, 2.02.2026, 15h08). Curto foi, desta vez, o nosso quase, quase ex-presidente, que não explicou o que pretendia dizer com aquele «matemático». A não ser que a curteza se deva toda, não ao PR, mas ao enviado especial da RR. Seja como for, certo é que há dicionários que atribuem — e bem! — mais acepções a «matemático».

[Texto 22 342]

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Léxico: «vale depressionário»

Temos de aprender


      João Santos, climatologista e investigador da UTAD, foi à televisão falar destas tempestades que têm arrasado o País. Entre outras coisas, falou em ➜ vale depressionário METEOROLOGIA configuração alongada de baixa pressão atmosférica, delimitada por isóbaras que se estendem a partir de uma depressão principal e apresentam um eixo de mínimos relativos de pressão; corresponde tecnicamente ao cavado, sendo a designação comum em contextos de divulgação ou previsão meteorológica.

[Texto 22 341]

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Léxico: «acenar»

Helen nodded


      «A mulher acenou a cabeça, acenou a cabeça, decerto a dizer-me “está bem”» (Estrela Polar, Vergílio Ferreira. Lisboa: Portugália Editora, 1967, p. 172). É simplesmente inacreditável o número de acepções do verbo acenar — sim, como esta do excerto que cito — que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe.

[Texto 22 340]

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Léxico: «treponematose»

Então, aqui to envio


      «Les bactéries de l’espèce Treponema pallidum sont responsables de maladies appelées “tréponématoses”, qui diffèrent selon la sous-espèce à laquelle elles appartiennent. Ainsi, T. pallidum pallidum est responsable de la syphilis, alors qu’endemicum est la cause du bejel et pertenue du pian. La pinta, une maladie tropicale chronique de la peau, rare et négligée, est intégrée dans la catégorie clinique des tréponématoses. Son agent pathogène, T. carateum, ressemble à T. pallidum mais son génome n’a pas encore été déterminé» («La syphilis aux Amériques, une vieille histoire», Aurélie Coulon, Le Temps, 24.01.2026, p. 22). Porque ouvi dizer, Porto Editora, que a procuras ➜ treponematose MEDICINA qualquer de várias infecções crónicas provocadas por bactérias do género Treponema, geralmente transmitidas por contacto directo (sexual ou não), caracterizadas por lesões cutâneas e ósseas, evolução lenta e distribuição geográfica diferenciada; incluem a sífilis, o bejel, a pinta e a framboesia.

[Texto 22 339]

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Pronúncia: «chanceler»

Mas que raio...


      Então, lá vou ter de dizer isto mais uma vez: o que se passa para que muitos dos nossos jornalistas não saibam pronunciar correctamente a palavra «chanceler»? A última vez que sofreu uma sonora silabada foi pela boca da jornalista Sandra Sousa, no Jornal 2, da RTP2, na segunda-feira da semana passada. Mas qual é a dificuldade? E não ouvem os outros falantes?

[Texto 22 338]

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Irritações: o arenito das traduções

Pois, muita areia


      Eu só queria notas de 500 euros (pois, também não posso contentar-me com notas de 10 ou 20) como as vezes que já li, em traduções do inglês americano, referências a casas, degraus ou qualquer outro elemento arquitectónico de arenito. O brownstone transforma-se invariavelmente em «arenito castanho», quando não «arenito amarelo», como se a cor da pedra fosse mais importante do que o edifício inteiro. E, no entanto, nem é castanho nem amarelo: o brownstone original tem uma tonalidade indefinida, entre o avermelhado e o terroso (reddish-brown, como dizem os dicionários) e o que importa, verdadeiramente, não é a cor, mas o tipo de edifício que esse termo designa. Brownstone não é a pedra nem a cor: é o nome dado a um tipo de prédio urbano nova-iorquino, típico do século XIX, com fachadas revestidas de arenito (sempre aparece!) e uma escadaria frontal, o stoop, que conduz ao andar principal, elevado em relação à rua. Traduzir isso por «degraus de arenito castanho» é não perceber nem a arquitectura, nem a língua, nem o efeito pretendido na narrativa. Mas retomo o início e reformulo-o: não era notas que eu queria, mas anos com saúde. Enquanto fui imortal, não pensava assim, mas agora a história é outra.

[Texto 22 337]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Lá te esqueceste, Porto Editora, de dicionarizar «grafémico» e «grafofonémico», que aqui propus no passado dia 29. Só neste blogue andam vai para quinze anos. Já merecem ascender ao Olimpo.


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Definição: «camião-grua»

É claro que não é isso


      «Ao que o JN apurou, o homem estaria a mudar um pneu de um camião-grua quando este rebentou, atingindo-o e projetando-o. A GNR tomou conta da ocorrência» («Homem morre após rebentamento de pneu», M. F., Jornal de Notícias, 30.01.2026, p. 44).

      A Porto Editora está convencida, e di-lo no Dicionário da Língua Portuguesa, de que tal veículo é um «camião que transporta uma grua». Está enganada: eu, e decerto a maioria dos leitores, já vi gruas em cima de camiões, e o conjunto não é um camião-grua. Evidentemente. É isto um ➜ camião-grua camião dotado de uma grua hidráulica incorporada, geralmente articulada, destinado ao içamento e movimentação de cargas pesadas, sendo utilizado em operações de carga e descarga, montagem ou apoio a trabalhos de construção, manutenção e instalação.

[Texto 22 336]

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Confusões: «undercut/uppercut»

Só ao murro


      Claro que os desconchavos se encontram em jornais de outros países e línguas: «Con el cadáver aún caliente de la ciudadana Renee Nicole Good, acribillada a tiros por uno de sus agentes, Bovino irrumpió en las calles de Mineápolis con su corte de pelo uppercut a la moda de los años 30 y esa prenda, de verde oliva, charreteras y doble fila de botones dorados, retrotrae a las fotografías de los militares nazis de las SS llevando su offiziersmantel, de un corte similar pero en cuero negro» («Bovino: el abrigo como símbolo de autoritarismo», Alberto Rojas, El Mundo, 27.01.2026, p. 27).

      A confusão aqui é com undercut, que é um estilo de corte de cabelo associado ao período entreguerras e bastante popular nos anos 1930, até entre os militares (tanto nazis como soviéticos), caracterizado pelos lados rapados e no cimo da cabeça mais comprido. Esta acepção não estar nos dicionários bilingues só contribui para haver mais gente a dizer disparates como este, que já encontrei mais de uma vez. Bastava dizer ➜ undercut corte em que o cabelo é deixado comprido no topo da cabeça, enquanto os lados e a nuca são rapados ou cortados rentes.

[Texto 22 335]

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Etimologia: «classe»

Aprofunde-se mais


      «La SNCF a récemment lancé une classe de TGV où les enfants ne sont pas admis. Le mot vient de classis, qui signifie “appel” (d’une génération pour servir dans l’armée). Il a ensuite désigné une catégorie» («Classe», Étienne de Montety, Le Figaro, 28.01.2026, p. 37). Só isto já é mais do que dizem os nossos dicionários sobre a etimologia do vocábulo «classe», mas podemos aprofundar ainda mais assim ➜ do latim classis, -is, originalmente «chamada (para o serviço militar)», passando a designar cada uma das categorias censitárias em que se dividiam os cidadãos romanos, e por extensão «divisão; categoria; grupo», incluindo também o sentido de «esquadra naval».

[Texto 22 334]

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Léxico: «língua balística»

Tratemos do caso


      «Uma nova espécie de anfíbio do Jurássico foi identificada em Portugal, na Lourinhã, em fósseis com 150 milhões de anos, numa investigação do paleontólogo Alexandre Guillaume. Como o material usado para descrever a nova espécie foi encontrado com a ajuda de um projeto de Ciência Cidadã, no Parque dos Dinossauros de Lourinhã e no museu, os investigadores escolheram o nome de ‘Nabia civiscientrix’. Tinha menos cinco centímetros e um sistema de alimentação com língua balística semelhante ao dos camaleões modernos» («Nova espécie de anfíbio do Jurássico na Lourinhã», Correio da Manhã, 27.01.2026, p. 23).

      Pelos dicionários, o falante não chega à compreensão de ➜ língua balística ZOOLOGIA tipo de língua protráctil que, graças a uma rápida acumulação e libertação de energia elástica, pode ser projectada com grande velocidade e precisão para capturar presas, como ocorre em camaleões e certas espécies de anfíbios.

[Texto 22 333]


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Definição: «vórtice polar»

E eles têm razão

      

      Não posso esconder que estou estupefacto que a Porto Editora continue a definir «vórtice polar» como «ciclone (centro de baixa pressão atmosférica) persistente localizado junto a um dos pólos de um planeta» quando no Meteored, por exemplo, o definem como «uma vasta zona de baixa pressão, cheia de ar frio, que gira no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio em torno do pólo norte, tanto na troposfera (a atmosfera inferior) como na estratosfera (a altitudes mais elevadas, entre 10 e 50 km). Em condições normais, durante o inverno boreal, este vórtice mantém-se compacto e confina o ar frio do Ártico às latitudes polares, favorecendo um clima mais temperado nas latitudes médias, como a Europa». Ainda assim, proponho esta definição ➜ vórtice polar METEOROLOGIA zona ciclónica de grande escala e baixa pressão atmosférica, centrada sobre o Árctico ou a Antárctida, caracterizada por ventos intensos em circulação retrógrada que confinam o ar frio às regiões polares; quando enfraquece, permite a deslocação de massas de ar muito frio para latitudes mais baixas.

[Texto 22 332]

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Léxico: «suavizar-se»

Também pronominal


      «Fácil coisa é dominar a imaginação de uma noviça. Bastam a comovê-la vivamente a poesia e majestade do culto católico; depois a religião suaviza-se-lhe, rodeando-a de poderosos atractivos; uma cândida vaidade, certas porfias piedosas, prefiguram-lhe nas perspectivas do Céu um trono a conquistar» (A Freira no Subterrâneo, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Marujo Editora, 1986, p. 58). O verbo suavizar, Porto Editora, não é apenas transitivo, sabes isso. Sabes? Tens de o dizer.

[Texto 22 331]

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Irritações: «soar»

Porque não é tradutor

      «“You are?” Bob’s voice sounded surprised.» Se não é tradutor, caro leitor, de certeza que não verteu aquele «sounded» por «soou». Parabéns, é menos uma criatura, que me parecem, e são, demasiadas, que me enfurece com essa maneira tolinha de traduzir. Sim, tem razão, há alternativas, e entre elas estão, no contexto, «mostrar-se» ou «parecer».
[Texto 22 330]
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Léxico: «tribunais: singular, colectivo, de júri»

Alguma sistematização


      «Os factos imputados aos polícias poderiam determinar a competência de um tribunal coletivo (três juízes). Contudo, atendendo à ausência de antecedentes criminais dos arguidos e à pena previsível não superior a cinco anos, o Ministério Público requereu que o julgamento seja feito por tribunal singular» («Arguidos julgados por um só juiz», César Castro, Jornal de Notícias, 31.01.2026, p. 20). 

      Não está tudo nos dicionários, nem nos sítios certos. O dicionário da Porto Editora, por exemplo, em «tribunal» só tem «tribunal colectivo»; o singular nunca lá esteve e o de júri mudou-se para o verbete «júri». Ora, todos ganhávamos que houvesse sistematização: se se trata de três tipos de tribunal, parece-me que será o primeiro verbete que ocorre ao falante. Assim, proponho ➜ tribunal singular DIREITO órgão jurisdicional de primeira instância composto por um único juiz, competente para julgar, em regra, processos de menor gravidade penal que não estejam legalmente atribuídos a tribunal colectivo ou tribunal do júri. E depois ➜ tribunal colectivo DIREITO órgão jurisdicional de primeira instância composto por três juízes (um presidente e dois vogais), competente para julgar, em regra, processos penais de maior gravidade legalmente excluídos da competência do tribunal singular. E, por fim, ➜ tribunal de júri DIREITO órgão jurisdicional de primeira instância composto por três juízes de carreira e um júri de cidadãos seleccionados por sorteio, competente para julgar certos crimes graves a pedido do Ministério Público, do assistente ou do arguido, cabendo aos jurados decidir sobre a matéria de facto e aos juízes sobre a qualificação jurídica e a medida da pena.

[Texto 22 329]

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Léxico: «custos de contexto»

Falta o menos óbvio


      Ainda agora, na TSF, no compacto de Contas Que Contam, de Nuno Correia da Silva, estavam a falar em ➜ custos de contexto ECONOMIA encargos suportados por empresas ou agentes económicos devido a factores externos ao seu controlo directo, como burocracia, carga fiscal complexa, ineficiência dos serviços públicos ou instabilidade jurídica, que dificultam a actividade económica e afectam a competitividade e o investimento. 

      Parece-me que carece muito mais de ter lugar nos dicionários do que o auto-explicativo «custo de vida», que está lá há muito.

[Texto 22 328]


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Léxico: «marcador»

Vamos outra vez ao médico


      «What do you mean, markers?» Pois, mas a médica, ou não estava para aí virada, ou achava que não era paga para explicar. Ou teria de cobrar por horas extras. Ora, a Porto Editora também não explica isto. Sendo assim, proponho ➜ marcador MEDICINA cada um dos antigénios de histocompatibilidade (HLA) presentes à superfície das células de um indivíduo, usados para avaliar a compatibilidade imunológica entre dador e receptor em transplantes.

[Texto 22 327]


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Como se escreve por aí

Só para confirmar


      Tudo estranho, neste título, da gralha à escolha de vocabulário: «Porto sediará evento supremacisto branco com figuras da extrema-direita» (Amanda Lima, Diário de Notícias, 30.01.2026, p. 16). Portanto, continua tudo na mesma, mas, como andam muito folgados, vamos passar a andar de novo mais em cima deles.

[Texto 22 326]


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Definição: «credencial»

Vamos ao médico


      Passei metade de vida a ouvir falar em credenciais passadas por este ou aquele médico. Para meu espanto, não é acepção que se encontre nos dicionários. Sendo assim, proponho ➜ credencial documento emitido por médico do Serviço Nacional de Saúde que autoriza um utente a realizar consultas, exames ou tratamentos em prestadores convencionados, servindo de requisição formal no âmbito dos acordos com o SNS.

[Texto 22 325]


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Definição: «hélio»

Actualizemos os usos


      «Helium is famous for making balloons float, voices squeak, and as a critical resource for MRI machines and aerospace engineering. Helium is expensive and scarce, finding leaks quickly is essential, but that’s easier said than done because helium is also chemically inert and sensors, which usually rely on chemical reactors, have a tough time detecting it» («Study detects elusive helium gas leaks with sound waves», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 29.01.2026, p. II). 

      Bem podemos, perante estes exemplos, actualizar e ampliar os usos do hélio. Assim, proponho ➜ hélio QUÍMICA elemento químico gasoso, incolor, inodoro e quimicamente inerte, com o número atómico 2 e o símbolo He, pertencente à família dos gases nobres; usado em criogenia (nomeadamente na refrigeração de ímanes supercondutores), no enchimento de balões e dirigíveis, em aparelhos de respiração para mergulho ou uso médico (como diluente do oxigénio), na detecção de fugas por espectrometria de massa, em processos industriais como a soldadura, na cromatografia de gases, em aplicações aeroespaciais e na investigação científica de fenómenos quânticos a baixíssimas temperaturas.

[Texto 22 324]


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Léxico: «café comprido»

Curto ou comprido


      «Cheio e escuro» para long black é claramente invencionice, disparate, da tradutora. Black aqui significa tão-somente que não leva leite. Bem, uma das formas de o traduzir é por «café cheio» ou «café comprido», como também se ouve habitualmente, mas que a Porto Editora só regista num bilingue.

[Texto 22 323]


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Definição: «capturar | capturável»

Grandes lacunas


      António José Seguro insiste: «Não sou capturável.» E que diz a Porto Editora na definição deste adjectivo? Pois «que se pode captar». Ora bolas! Já era dizer pouco se dissesse «que se pode capturar», porque depois neste verbete falta o sentido figurado correspondente, mas assim é infinitamente pior. Perante isto, proponho ➜ capturar verbo transitivo 1. apoderar-se de (alguém ou algo), geralmente por força ou astúcia; prender, apreender (ex.: capturar o inimigo; capturar um animal em fuga); 2. figurado exercer domínio ou influência sobre (alguém ou alguma instituição), geralmente com vista a interesses próprios ou particulares (ex.: grupos económicos que procuram capturar o Estado; políticos capturados pelo sistema). Quanto a ➜ capturável adjectivo de dois géneros 1. que pode ser capturado; susceptível de ser preso ou apreendido; 2. figurado susceptível de ser dominado ou instrumentalizado por interesses alheios, nomeadamente em contextos políticos ou institucionais (ex.: juiz capturável; sistema regulador capturável).

[Texto 22 322]

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Léxico: «semiurgia»

Pois se o usamos


      «O livro tornou-se uma espécie de refém, algo que não tem já qualquer ação em si mesmo, que foi ocupado e soçobrou ao destino da mercadoria, incapaz de mover os ânimos e lhe opor qualquer resistência. Nesse movimento de estetização do mundo, o texto desagrega-se facilitando a sua transformação em imagens, a sua organização semiológica. Como nos avisava Baudrillard, “o que estamos a testemunhar, para além do materialismo mercantil, é uma semiurgia de todas as coisas através da publicidade, dos meios de comunicação social, das imagens. Até o mais marginal e o mais banal, inclusive o mais obsceno, é estetizado, culturalizado, museificado”» («Rentrée. O mutismo dos livros frente à orgia publicitária editorial», Diogo Vaz Pinto, «Versa»/Nascer do Sol, 26.09.2025, p. 16). 

      Podemos encontrá-lo em várias obras e por isso acho que está na hora de o dicionarizarmos. Assim, proponho ➜ semiurgia LINGUÍSTICA, SEMIÓTICA, TEORIA DA COMUNICAÇÃO actividade de produção de sentido mediante signos; operação discursiva, mediática ou simbólica que cria ou organiza um universo de significação próprio, por vezes autonomizado em relação à realidade empírica; processo através do qual discursos, imagens ou códigos constroem regimes de sentido e modelam a percepção do mundo.

[Texto 22 321]

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Léxico: «falerística | farologia»

Outro perdido nas mudanças


      «Atualmente, além das reuniões dos associados nas secções de cada tema (Geografia, Cartografia, Migrações, História, Genealogia, Heráldica e Falerística, Ciências Militares, Estudos de Património, entre outras), das conferências, debates e almoços no restaurante que funciona nas instalações da SGL, pouco mais se sabe da atividade da Sociedade» («A casa que o tempo esqueceu», Christiana Martins, «Revista E»/Expresso, 31.10.2025, p. 29). 

      Mais uma lacuna nos nossos dicionários, pelo que, sem arrazoados ou delongas, proponho ➜ falerística HISTÓRIA, HERÁLDICA estudo sistemático das ordens honoríficas, condecorações, medalhas e demais distinções honoríficas, civis ou militares, quanto à sua origem, evolução histórica, simbolismo, critérios de atribuição e valor iconográfico. 

      Sem relação alguma com a anterior, mas importada do francês e bem implantada é ➜ farologia estudo técnico, histórico e patrimonial dos faróis, da sua arquitectura, funcionamento, evolução tecnológica e papel na navegação marítima.

[Texto 22 320]

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Léxico: «bóia-torpedo»

Tão característica


      No Portugal em Rede, na RTP1, de segunda-feira, um nadador-salvador falou nos vários tipos de bóias que usa para realizar salvamentos, e entre elas estava a tão característica ➜ bóia-torpedo NÁUTICA, SOCORRISMO dispositivo de salvamento individual, geralmente de forma alongada e hidrodinâmica, fabricado em material plástico flutuante (como polietileno de alta densidade), com correias ou cordas para fixação ao corpo do nadador-salvador; é utilizado sobretudo em intervenções rápidas no mar ou em piscinas para alcançar e rebocar vítimas conscientes, permitindo ao socorrista manter as mãos livres para nadar e proporcionando estabilidade e flutuabilidade à vítima durante o resgate.

[Texto 22 319]

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Definição: «urso-pardo | urso-negro-asiático»

Voltamos aqui


      Porto Editora, ainda manténs as definições de «urso-pardo» e de «urso-negro-asiático»? Então, repara nas incoerências: o urso-pardo é descrito como podendo «atingir cerca de 2,8 metros de comprimento e 1,5 metros de altura». Já o urso-negro-asiático, bem mais pequeno, «pode atingir cerca de 1,8 metros de altura». A questão impõe-se: estão ambas as alturas a referir-se à mesma posição corporal? E por que razão indicam comprimento e altura no primeiro caso, mas apenas altura no segundo? Se o urso-negro tem 1,8 metros de altura, o urso-pardo não pode ter apenas 1,5, a não ser que as medidas não estejam a ser usadas de forma coerente, o que parece ser o caso. Fica ainda por esclarecer se os 2,8 metros de comprimento atribuídos ao urso-pardo não reflectem apenas os maiores espécimes de subespécies como a Kodiak, pouco representativos da espécie no seu conjunto. A maioria das fontes aponta para um comprimento médio entre 1,8 e 2,1 metros. Assim, tanto os valores indicados como os critérios de medição carecem de revisão.

[Texto 22 318]


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Léxico: «às boas ou às más»

Metade ficou no tinteiro


      «Trump dice que logrará Groenlandia “por las buenas o por las malas”» (María-Paz-López, La Vanguardia, 11.01.2026, p. 4). Às boas ou às más. Infelizmente, o dicionário da Porto Editora apenas acolhe, no verbete «bom», a locução às boas («amigavelmente»), esquecendo de registar o antónimo, às más, no verbete «mau». Não sei se não se devia registar também «às boas ou às más», porque é assim que normalmente se usa.

[Texto 22 317]

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Como se pontua por aí

Um mal ibérico


      «En una tertulia televisiva se burlan de Kiko Rivera porque le ha escrito a una mujer con la que mantiene una relación sentimental una carta sin faltas de ortografía, “incluso con tildes”, lo que atribuyen a que se ayudó de la inteligencia artificial. Mientras los ortógrafos del corazón charlan, en la parte inferior de la imagen aparece este rótulo: “Kiko Rivera, enamora con la IA”. La coma entre el sujeto y el verbo confirma la validez del dicho “No escupas hacia arriba, que te puede caer en la cara”. Y que tire la primera piedra el que nunca haya sido reo de cacografía» («La ortografía у el amor», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 18). 

      Como hoje mesmo já vi (e corrigi) este erro, tão frequente, num texto, nunca é em vão que aqui, e em português ou em castelhano, se fala nestes erros crassos. Eles são bons é em matérias complexas; em coisas assim comezinhas espalham-se com vergonhosa frequência.

[Texto 22 316]

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Léxico: «mineraleiro»

Pesquisada e não encontrada


      «No apogeu da exploração da Mina de São Domingos, iniciada em 1859, subiam o Guadiana navios com 95 metros de comprimento e cinco metros de calado, e chegaram a estacionar no Pomarão, ao mesmo tempo, 20 embarcações de 200 a 1500 toneladas. No dia 4 de Janeiro de 1965, desceu o Guadiana o último navio mineraleiro. Terminara a exploração de pirites na Mina de São Domingos. E nos percursos para passageiros, a última viagem foi efectuada pelo navio Mértola, em Setembro de 1960» («Era o Vendaval que ligava Mértola a Vila Real de Santo António. Acabou num destroço», Carlos Dias, Público, 19.09.2025, p. 22).

[Texto 22 315]


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Léxico: «subinspecção»

Na prateleira


      Outra palavra que nos subtraíram foi... ora deixa cá ver a lista com centenas... foi subinspecção. Isto quando não se esqueceram de «subinspector». Assim, os subinspectores ficam sem trabalho.

[Texto 22 314]

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Léxico: «síndrome de Truman»

Mas depois passa logo


      Sim, por vezes também me sinto um pouco afectado pela ➔ síndrome de Truman PSICOLOGIA perturbação delirante caracterizada pela convicção de que a própria vida está a ser filmada e transmitida como num reality show, levando o indivíduo a interpretar familiares, amigos ou desconhecidos como actores envolvidos num enredo oculto; denominação criada em 2008 pelos irmãos Joel e Ian Gold para descrever pacientes que acreditavam participar, à sua revelia, num programa que difundia o seu quotidiano, à semelhança do enredo do filme The Truman Show (1998), donde o inglês Truman syndrome. Mas depois passa logo.

[Texto 22 313]


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Definição e etimologia: «noosfera»

Ora essa, importa sim


      Se querem saber, também não me parece nada bem que muitos dicionários não indiquem a etimologia correcta de «noosfera» e que definam menos bem o termo. Assim, proponho ➜ noosfera FILOSOFIA, HISTÓRIA DA CIÊNCIA conjunto das manifestações do pensamento humano sobre a Terra, considerado como uma camada ou esfera distinta da biosfera; corresponde à fase evolutiva em que a actividade intelectual consciente se torna força transformadora do planeta, articulando-se com a técnica, a ciência e as dinâmicas sociais e espirituais da humanidade. Quanto à etimologia, vem do francês noosphère (1927), termo cunhado por Édouard Le Roy, do grego noûs, noós, «mente, espírito», + sphaira, «esfera»; desenvolvido por Teilhard de Chardin e Vladimir Vernadsky no contexto da evolução da Terra como sistema.

[Texto 22 312]

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Léxico: «grafémico | grafofonémico»

Precisamos destas


      «Não havendo correspondência grafofonémica entre o p de recepção e qualquer pronunciação de /p/ em português europeu (uma inaceitável arbitrariedade introduzida pelo AO90), a recepção passa a receção em português europeu e mantém-se recepção em português do Brasil. Este desprezo dos autores e defensores do AO90 pela realidade ortográfica do português europeu, com, por exemplo, o p de recepção a indicar uma excepção, com funções grafémicas, entre elas, uma função diacrítica, impedindo o fechamento (ou elevação) da vogal (átona) anterior (ou, nas palavras de Rebelo Gonçalves, exercendo “influência no timbre” da vogal anterior), fez com que entretanto se multiplicassem os casos de confusão, quer na leitura, quer na escrita, tanto do ponto de vista económico (“quatro países da Zona Euro entraram em *receção técnica”, CNN Portugal, 11 de Junho de 2023), como científico (“uma rotação para *otimizar a *recessão de luz sobre os painéis solares”, Lusa, 15/11/2014)» («O conhecimento ortográfico», Francisco Miguel Valada, Público, 24.01.2026, 20h00).

[Texto 22 311]

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Léxico: «cartório»

Culpas


      «Outro momento central do nosso dia é o atendimento no cartório paroquial. As pessoas vêm para se confessar ou simplesmente em busca de conselho ou de uma palavra de esperança» («Acompanhar com proximidade e ternura», Alessio Geraci [missionário comboniano italiano], Além-Mar, Fevereiro de 2026, p. 45).

      Também não tens este «cartório», Porto Editora?! Não pode ser. Não pode continuar a ser assim, pelo que proponho ➜ cartório RELIGIÃO dependência da casa paroquial onde se realizam os atendimentos administrativos e pastorais da paróquia, como emissão de certidões, acolhimento de fiéis, escuta espiritual e aconselhamento; funciona também como arquivo de registos paroquiais.

[Texto 22 310]

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Definição: «vórtice polar»

Com os pés assente na terra


      «La primera pieza del dominó que ahora mismo empuja a todas las demás se encuentra en la alta atmósfera del Ártico, donde se sitúa el vórtice polar. “Se trata de una zona de aire muy frío que queda confinada tanto en la troposfera como en la estratosfera debido a los fuertes vientos que circulan alrededor de las regiones polares”, explica Juan Taboada, de MeteoGalicia» («La rotura del vórtice polar alimenta las borrascas profundas que llegan a Galicia», Xavier Fonseca, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 10). 

      A Porto Editora define assim este fenómeno: «ciclone (centro de baixa pressão atmosférica) persistente localizado junto a um dos pólos de um planeta». Então, em que se distingue de um mero ciclone polar? Embora haja registo de vórtices polares noutros corpos do Sistema Solar, como Marte, Saturno, Vénus ou mesmo o satélite Titã, é no caso terrestre que a designação «vórtice polar» adquiriu relevo linguístico, jornalístico e científico próprio, dada a sua relação directa com os fenómenos meteorológicos extremos que afectam latitudes médias. Assim, proponho que a definição privilegie a realidade terrestre, é aqui que vivemos, remetendo para usos planetários numa acepção secundária.

      Assim, cá vai ➔ vórtice polar 1. METEOROLOGIA circulação ciclónica persistente e de larga escala que se forma sobre o Árctico ou a Antárctida durante o inverno, nas camadas superiores da troposfera e na estratosfera, devido ao forte gradiente térmico entre o ar polar e o ar das latitudes médias; mantém o ar frio confinado às regiões polares, mas o seu enfraquecimento ou fragmentação pode provocar descidas abruptas de ar gelado para latitudes mais baixas, originando vagas de frio ou outras perturbações meteorológicas extremas; 2. ASTRONOMIA fenómeno atmosférico observado noutros planetas do Sistema Solar, como Marte, Saturno ou Vénus, caracterizado pela formação de uma circulação ciclónica persistente junto a um dos pólos, envolvendo massas de ar muito frio.

[Texto 22 309]

⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: A ruptura do vórtice polar, a que o título do diário galego se refere, geralmente associada a um aquecimento súbito da estratosfera, pode desencadear a libertação de ar polar para latitudes médias, provocando vagas de frio e instabilidade atmosférica significativa. É o que está a acontecer por estes dias.


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Definição: «poupa-eurasiática»

Morte súbita


      Alguma coisa de grave terá acontecido quando a Porto Editora definiu assim «poupa-eurasiática»: «ORNITOLOGIA (Upupa epops) ave da família dos Upupídeos». Vamos lá acabar o trabalho propondo ➜ poupa-eurasiática ORNITOLOGIA (Upupa epops) ave da família dos Upupídeos, de plumagem alaranjada com asas listadas de preto e branco, crista eréctil e bico longo e curvo; distribui-se pela Europa, Norte de África e Ásia Ocidental; é maioritariamente insectívora, com especial apetite pelas pupas da processionária-dos-pinhos (Thaumetopoea pityocampa), mas pode também ingerir pequenos vertebrados ou sementes; nidifica em cavidades e distingue-se pelo chamamento repetitivo que inspirou o nome comum.

[Texto 22 308]


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Definição: «removedor»

A prova do algodão


      «Acontece que o pragmatismo de Otis e da respectiva familia também é muito norte-americano, pelo que as sucessivas tentativas do fantasma de Lord Canterville em assustá-los esbarram numa parede: os filhos gémeos atacam o fantasma com almofadas, o senhor Otis oferece lubrificante ao fantasma para aplicar nas suas correntes e, assim, não fazer barulho quando se desloca pelos corredores do castelo, as manchas de sangue que reaparecem todos os dias junto à lareira são limpas com um removedor trazido dos Estados Unidos» («O conflito cultural EUA-Europa de Oscar Wilde nos Primeiros Sintomas», Gonçalo Frota, Público, 15.01.2026, p. 28). 

      Removedor trazido dos Estados Unidos. Para a Porto Editora, o removedor é todo trazido do Brasil, vá-se lá saber porquê. Sabotagem?

[Texto 22 307]


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Definição: «gringo»

Também adjectivo


      Estou para dizer isto há anos, de que só me voltei a lembrar agora que o leio aqui num texto que não posso citar: «gringo» também é adjectivo, o que os nossos dicionários ignoram, além de que nem sempre é pejorativo. Assim, proponho ➔ gringo nome masculino, adjectivo Brasil informal, depreciativo indivíduo estrangeiro, sobretudo de aparência nórdica ou origem anglófona, geralmente percebido como culturalmente alheio ou economicamente privilegiado; pode também designar, em certas regiões do Brasil, mercador ambulante de outra nacionalidade; usa-se ainda adjectivalmente para caracterizar elementos percebidos como estrangeiros ou importados (comida gringa, música gringa, turista gringo). Quanto à etimologia, vem do castelhano gringo (séc. XVIII), segundo Joan Corominas, deformação de griego no sentido de «grego» (> grigo > gringo, por nasalização), associado a língua incompreensível (originalmente em relação ao latim); na Península Ibérica, aplicava-se apenas à linguagem, mas na América passou a designar estrangeiros cujo falar não se entendia.

[Texto 22 306]

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Definição: «crisopa»

No país do vinho


      Pela sua importância na viticultura, importa também definir melhor ➔ crisopa ZOOLOGIA insecto neuróptero do género Chrysopa e géneros próximos, de corpo verde e asas translúcidas com nervuras reticuladas, cujas larvas são predadoras vorazes de afídeos, cochonilhas, ácaros e outros pequenos invertebrados, sendo amplamente usadas no controlo biológico de pragas agrícolas; o grupo inclui espécies morfologicamente idênticas, apenas distinguíveis por genética ou vocalizações vibratórias, e com importância crescente em culturas economicamente relevantes como a vinha.

[Texto 22 305]


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Léxico: «osmol | miliosmol | osmolalidade»

Porque os especialistas já sabem


      Tenho aqui à minha frente a bula do Atyflor Hydra. No verso, indica: «Osmularidade: 234 mOsm/L». A Porto Editora define assim o termo: «FÍSICA, QUÍMICA concentração osmótica de uma solução expressa em osmoles, da substância dissolvida no soluto, por litro de solução». É em «osmole», porém, que tudo se torna mais obscuro para o simples leigo que consulta o dicionário: «FÍSICA, QUÍMICA peso molecular de um soluto, em gramas, dividido pelo número de iões ou partículas dissociadas na solução». Certo de que se pode simplificar, proponho ➔ osmole/osmol MEDICINA, BIOQUÍMICA unidade que mede a quantidade de partículas dissolvidas com efeito osmótico numa solução; é usada no cálculo da osmolaridade ou da osmolalidade, permitindo avaliar a compatibilidade da solução com os fluidos corporais. 

      Por exemplo, valores próximos ou ligeiramente inferiores à osmolaridade do plasma sanguíneo (c. 285-295 mOsm/L) indicam segurança e eficácia na reidratação oral.

[Texto 22 304]


⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: Aproveito, naturalmente, para propor a dicionarização de ➔ miliosmol MEDICINA, BIOQUÍMICA submúltiplo do osmol, equivalente a um milésimo desta unidade (1 mOsm = 0,001 osmol); usado para exprimir a osmolaridade ou a osmolalidade de soluções, designando a quantidade de partículas dissolvidas com efeito osmótico por litro de solução ou por quilo de solvente. Todos os dicionários contêm erros, e, neste ponto, o Houaiss está errado. Vá, embrulhem.


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Léxico: «interfonia»

Senhores passageiros


      No terceiro episódio («Linhas proletárias») da série documental Passagem de Nível, na RTP2, uma revisora, Carla Lima, entrevistada a bordo de um comboio da linha de Cascais, disse que a marcou especialmente a última passagem de ano, em que estava de serviço na linha de Sintra e o colega maquinista, quando passavam pelo túnel do Rossio, ao dar as doze badaladas, «desejar aos passageiros, através da interfonia, um feliz ano novo».

[Texto 22 303]

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Léxico: «fibrado»

Pouco a pouco, chegamos lá


      Numa reportagem que vi na televisão sobre o combate ao narcotráfico nas costas portuguesas, um major-general da GNR dizia que actualmente muitas das narcolanchas são fibradas e mesmo cabinadas. Ora, «cabinado» já nós levámos para o dicionário em Abril do ano passado. Agora só falta ➔ fibrado adjectivo 1. que é feito ou revestido com fibra de vidro ou outro material compósito de fibras, geralmente por motivos de leveza, resistência ou aerodinâmica; 2. que apresenta aspecto ou estrutura de fibras, especialmente em contextos técnicos ou industriais.

[Texto 22 302]

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Definição: «capuchinha»

Porque é mesmo


      «João Farminhão alerta também para a necessidade urgente de controlar a proliferação de espécies invasoras nas arribas do Gargalo do Tejo, como as capuchinhas (Tropaeolum majus) e as canas (Arundo donax)» («Chama-se Linaria almadensis: nova planta endémica descoberta nas arribas do Tejo, em Almada», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 23.01.2026, 11h04, itálicos meus). É isto que se tem de acrescentar na definição de «capuchinha», que é uma espécie considerada invasora.

[Texto 22 301]

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Definição: «inspector»

Observa com atenção


      «Mais de três mil pessoas candidataram-se ao último concurso de inspetores da Polícia Judiciária que abriu no final de dezembro do ano passado e terminou nesta quarta-feira, 21 de janeiro, revelou a PJ ao Observador. São 3.258 candidatos para um total de 150 vagas» («Concurso para inspetor da Polícia Judiciária abriu 150 vagas. Concorreram mais de 3 mil pessoas», Adriana Alves, Observador, 23.01.2026, 16h46).

      Não se pode sustentar que tal acepção de «inspector» está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Aliás, o verbete está tão desfalcado, que proponho ➔ inspector 1. indivíduo encarregado de realizar inspecções, fiscalizações ou acções de controlo em nome de uma entidade pública ou privada, com o objectivo de verificar o cumprimento de normas, regulamentos ou directrizes (ex.: inspector sanitário; inspector do trabalho; inspector tributário); 2. funcionário do Estado que integra a carreira de investigação criminal da Polícia Judiciária, com formação superior e específica, a quem compete coadjuvar as autoridades judiciárias na investigação e instrução de processos-crime, podendo realizar actos de polícia criminal, coordenar equipas, conduzir inquéritos, proceder a buscas, detenções e recolha de prova; 3. [por extensão] membro de outras entidades públicas com competências de inspecção ou auditoria sectorial (ex.: inspector da ASAE; inspector da IGEC). 

      A etimologia mais completa dirá que vem do latim inspectōre-, forma de inspicĕre, «observar com atenção, examinar».

[Texto 22 300]

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Definição: «cranioplastia»

Pouco menos que nada


      «Há quem nunca mais consiga voltar a trabalhar. Suzi já estaria a trabalhar, “se já tivesse feito a cirurgia” final. Precisa de uma cranioplastia. Há que reparar a falha óssea no crânio resultante da operação de salvamento do hematoma subducal a que foi sujeita no Santo António» («Ana e Suzi tiveram de reaprender a falar e querem ajudar outros», Ana Cristina Pereira, Público, 24.01.2026, p. 27).

      A definição de «cranioplastia» da Porto Editora é simplesmente caricata: «MEDICINA operação plástica praticada sobre o crânio». Porquê «sobre»? E cuidado com aquele «plástica», as cabecinhas fracas podem não entender. Assim, proponho ➔ cranioplastia MEDICINA operação cirúrgica reconstrutiva do crânio, destinada a corrigir falhas ósseas provocadas por traumatismo, malformação congénita ou intervenção neurocirúrgica anterior, com recurso a enxertos ósseos ou a materiais sintéticos biocompatíveis; visa restaurar a forma e a integridade estrutural do crânio, podendo também ter finalidade estética.

[Texto 22 299]

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Léxico: «linária»

Só na Outra Margem


      «Uma nova espécie de planta, que em todo o mundo só existe nas arribas do Gargalo do Tejo, em Almada, frente a Lisboa, foi identificada pelo investigador João Farminhão, do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. [...] A Linaria almadensis passa agora a integrar o conjunto de cerca de 90 espécies de plantas que, em todo o mundo, só existem em Portugal continental, sublinhando a responsabilidade coletiva na sua conservação» («Chama-se Linaria almadensis: nova planta endémica descoberta nas arribas do Tejo, em Almada», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 23.01.2026, 11h04, itálicos meus).

      Apesar de não ter, tanto quanto sei, nome comum conhecido, a própria estrutura do verbete de «linária» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nos obriga a levar para lá a acepção. Assim, proponho ➔ linária BOTÂNICA (Linaria almadensis) planta herbácea endémica de Portugal, restrita a paredões e terraços arenosos das arribas do estuário do Tejo, entre o Cristo-Rei e o Mosteiro dos Jerónimos, em zonas próximas de rochas calcárias; distingue-se por folhas estreitas e flores dispostas em espigas compactas, com pétalas superiores branco-amareladas, palato amarelo-alaranjado e esporão frequentemente tingido de violeta.

[Texto 22 298]


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Léxico: «electrolisável»

Ainda morremos e nada


      Oh Porto Editora, e quando teremos a satisfação de ver «electrolisável» no dicionário, quando? Sim, ➔ electrolisável QUÍMICA que pode sofrer electrólise, ou que é susceptível de se decompor por acção de uma corrente eléctrica.

[Texto 22 297]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Estás a deixar várias pelo caminho, Porto Editora. «Distributário», «delta» também como adjectivo (ou não compreenderemos coisas como «variante delta»), etc.


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Léxico: «governante»

Fora da política


      No último episódio do documentário Hotéis XXI, na RTP2, falaram dos vários ofícios num hotel actualmente. Entrevistaram pessoas que ocupam esses cargos. Um, que os nossos dicionários omitem, é o de governante, que se encontra nos hotéis mais luxuosos, algo entre as governantas das casas senhoriais de outrora e os mordomos que até recentemente se encontravam nesses hotéis. Assim, proponho ➔ governante HOTELARIA profissional responsável pela supervisão dos andares de um hotel, coordenando o trabalho das equipas de limpeza e arrumação; assegura que os quartos e áreas comuns se encontram perfeitamente limpos antes da chegada dos hóspedes, cuidando dos últimos pormenores de apresentação e garantindo o cumprimento dos padrões estéticos e de hospitalidade da unidade hoteleira.

[Texto 22 296]


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Léxico: «géstica»

O gesto é tudo


      «A géstica do maestro não cria som, mas influencia decisivamente o som. O estilo de cada um dos maestros pode alterar-se. E há uns que são mais espalhafatosos, outros menos [afirma Rui Massena, em entrevista]» («Rui Massena. “Estou mais elitista do que alguma vez estive. É preciso defender os bons valores”», José Cabrita Saraiva, «Versa»/Nascer do Sol, 2.01.2026, p. 28). 

      Pode intuir-se do que se trata, mas temos de a levar para os dicionários, pelo que proponho ➔ géstica MÚSICA conjunto de gestos usados pelo maestro para dirigir uma orquestra ou coro, correspondendo a uma linguagem corporal codificada e expressiva que transmite indicações de tempo, dinâmica, carácter e entradas, sem produzir som mas influenciando decisivamente a interpretação musical por parte dos executantes.

[Texto 22 295]


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Definição: «bogie»

Ou fica-se com uma ideia muito errada


      O acidente com um comboio de alta velocidade em Adamuz, Espanha, no dia 18, veio chamar a atenção para esta peça essencial da engenharia ferroviária. Um dos bogies, com um peso estimado de 10 toneladas, saltou da via e foi parar a um ribeiro a cerca de 300 metros do local. A definição da Porto Editora, que o descreve apenas como «elemento de um vagão ou carruagem», como se fosse um puxador de uma porta ou um botão, é manifestamente insuficiente e induz em erro. Por isso mesmo, proponho ➔ bogie FERROVIA subchassi metálico giratório sob cada carruagem, vagão ou locomotiva, geralmente com dois eixos e quatro rodas, integrando sistemas de suspensão, travagem e, por vezes, tracção; articula-se com a caixa do veículo por meio de rótula, permitindo a inscrição em curva, a absorção de vibrações e a estabilidade; cada comboio integra vários bogies, normalmente dois por carruagem, pesando cada um até cerca de 10 toneladas, consoante o modelo.

[Texto 22 294]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Era justamente para estes casos que interessava que a Porto Editora ilustrasse o verbete com uma imagem, como faz com alguns vocábulos — pouquíssimos, tão poucos, imagino, que raros serão os leitores que sabem que o faz —, como é o caso de «algodão». Temos então aqui a imagem de um bogie de um comboio moderno.

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Léxico: «prontidão»

Pronto, era isto


      «Escolas e creches podem vir a ser fechadas a partir desta tarde, anunciou a Protecção Civil. Chuva, vento e neve colocam Portugal em “estado de prontidão especial”. GNR adopta medidas de prevenção» («Neve: Portugal entra em “estado de prontidão especial”. Escolas e creches podem vir a ser fechadas», Miguel Pinheiro Correia, Observador, 22.01.2026). 

      Onde está esta «prontidão» nos dicionários? Não está. Assim, proponho ➔ prontidão 1. qualidade daquilo que está pronto ou é feito sem demora; brevidade na resposta ou na acção; 2. presteza ou desembaraço; capacidade de reagir com rapidez e eficácia; 3. facilidade de percepção ou de execução; 4. disponibilidade para agir ou cooperar; atitude receptiva e diligente; 5. PROTECÇÃO CIVIL, FORÇAS DE SEGURANÇA, FORÇAS ARMADAS estado de alerta e preparação operacional decretado por autoridades competentes, que implica a mobilização total ou parcial de meios humanos e materiais, a intensificação da vigilância e a adopção de medidas preventivas, com vista a garantir resposta rápida e coordenada perante uma ameaça ou emergência; pode assumir diferentes níveis, conforme os procedimentos internos de cada entidade ou país.

[Texto 22 293]

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Léxico: «etiquetadora»

Os falantes é que sabem


      «Nas estantes que ocupam uma parede inteira alinham-se pastas, dossiês, capilhas e caixas arquivadoras com diferentes cores – são cerca de 400 unidades de instalação em 20 metros lineares, segundo o léxico de arquivistas e bibliotecários. Todas as lombadas estão zelosamente catalogadas a caneta ou com letras feitas por uma antiga etiquetadora manual» («Inspetor Varatojo e o caso do acervo doado», Maria José Oliveira, «Revista E»/Expresso, 2.01.2026, p. 30). 

      É como eu já tenho aqui dito: se é uma «máquina de colocar etiquetas», o falante dirá, naturalmente, «etiquetadora», não «etiquetador». Como «motorroçadora», de que também já aqui falámos, e tantas outras. O povo é sábio. Já foi mais sereno, mas continua a ser sábio, desconsiderando milhares de casos individuais, bem entendido.

[Texto 22 292]

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Léxico: «esquilo-vermelho-americano»

De certeza que não


      «Durante a operação foram resgatados 16 cães e quatro gatos e 104 animais exóticos, nomeadamente 45 ratos, 11 dragões-barbudos, oito gecos-leopardos, oito chinchilas, seis iguanas, quatro píton-reais, quatro tartarugas terrestres, quatro ouriços, quatro esquilos-vermelhos-americanos, três camaleões, duas tarântulas, dois escorpiões e uma cobra-coral-falsa» («GNR resgata 104 animais exóticos, 16 cães e quatro gatos numa loja em Penafiel», Público, 22.01.2026, 10h04). 

      O que quer dizer que os agentes da GNR não foram consultar o dicionário da Porto Editora, e fizeram bem, que pára em «esquilo-vermelho» (Sciurus vulgaris). Este é americano, como o Agente Laranja, Donald. É o Tamiasciurus hudsonicus.

[Texto 22 291]

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Léxico: «disléctico»

Não vamos perdoar


      Estão sempre a surripiar-nos palavras. Ah, sim, a par de disléxico temos, e encontra-se em vários vocabulários e dicionários, disléctico.

[Texto 22 290]


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Léxico: «câmara corporal»

Antes que seja tarde


      «Forças de segurança vão ser equipadas com oito mil câmaras corporais» (Jornal de Notícias, 22.01.2026, p. 1). Foi assim que as designaram logo no noticiário das 7 da manhã de ontem, 22, na TSF, e das 10 na Antena 1. Temos de ser nós — não que sejamos gurus (ou até somos?), mas porque lidamos com a língua no nosso dia-a-dia e temos responsabilidades — a ajudar a consolidar uma forma de dizer. No caso do jornal, só a chamada de primeira página usa a designação «câmara corporal», porque na notícia, e logo no título!, a opção foi para bodycam. Assim, proponho ➔ câmara corporal SEGURANÇA dispositivo audiovisual portátil, fixado ao uniforme policial, usado para registar intervenções e garantir transparência, prova e responsabilização.

[Texto 22 289]

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Léxico: «termoformação»

Ajudemos a indústria


      «Na escolha dos primeiros moldes, o proprietário do restaurante A Tal da Pizza seguiu as recomendações do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal – que apoiou o projecto testando e validando protótipos com recurso a técnicas como impressão 3D e termoformação» («Coma este chapéu: S. João da Madeira serve sobremesas inspiradas na sua indústria», Alexandra Couto, Público, 22.01.2026, 16h05).

[Texto 22 288]

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Léxico: «delta»

Agora como adjectivo



      Uma dessas acepções em falta no verbete de «delta» é adjectiva e indica meramente uma posição de ordem, e usámo-la recentemente até à exaustão: a variante delta do coronavírus. E torna-se logo evidente — menos para boa parte dos nossos jornalistas — que está aqui a razão para se grafar em minúscula, já que identifica a quarta (porque o delta é a quarta letra do alfabeto grego) variante de preocupação identificada oficialmente pela OMS, com origem inicial detectada na Índia (linhagem B.1.617.2). Mas não é apenas, oh não, em relação a isto que se usa, nem pouco mais ou menos. Assim, proponho ➔ delta adjectivo invariável diz-se do quarto elemento de uma sequência designada pelas letras do alfabeto grego, como em classificações científicas, técnicas ou militares.

[Texto 22 287]
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Definição: «endolinfa»

Mais informativa


      «“Tentar determinar a temperatura de um dinossauro apenas com fósseis é como tentar adivinhar a velocidade máxima de um carro antigo apenas olhando para a sua carcaça ferrugenta. O projecto ‘DAEDALUS’ propõe-se a reconstruir o motor (anatomia interna), analisar o combustível (viscosidade da endolinfa, o fluido contido no labirinto membranoso do ouvido interno) e ver como o carro se comportava na estrada (movimento da cabeça) para saber quão ‘quente’ o motor realmente corria”, frisa o investigador [Ricardo Araújo, paleontólogo do Instituto Superior Técnico (IST) e do Centro de Recursos Naturais e Ambiente (Cerena)], acrescentando que o projecto “não estará apenas a tentar ler um mapa antigo (os fósseis)”, mas também “a construir uma ‘lente’ inteiramente nova que permitirá à comunidade científica ver detalhes fisiológicos que, até agora, eram invisíveis a olho nu”» («Mais de 12 milhões de euros em bolsas europeias para a ciência portuguesa (ou em Portugal)», Filipa Almeida Mendes, Público, 9.12.2025, 15h20). 

     Já que é mais do que a Porto Editora diz, proponho ➔ endolinfa ANATOMIA líquido presente no labirinto membranoso do ouvido interno, com alta concentração de iões potássio (K⁺) e baixa concentração de iões sódio (Na⁺), essencial à transdução dos estímulos auditivos e vestibulares.

[Texto 22 286]

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Definição: «delta» | Léxico: «distributário»

Não tão simples


      «An international research team has found a systemic drop in land elevation across India’s river deltas driven mostly by human activities. The researchers were motivated by the lack of high-resolution data of river deltas’ subsidence worldwide even though they support more than 340 million people» («Study shows India’s deltas sinking due to human activity», The Hindu, 22.01.2026, p. 11).

      O que ficou claríssimo da leitura do artigo é que o conceito de delta é muito mais complexo do que o dicionário da Porto Editora deixa ver: «GEOGRAFIA planície aluvial, geralmente de forma triangular (forma de delta), situada na parte terminal de um rio e resultante da acumulação de sedimentos». Até seria algo tautológico, se o falante conhecesse a letra delta. Geralmente, dizes bem, mas muito variável. E não é meramente uma planície. Assim, proponho ➔ delta GEOGRAFIA formação sedimentar situada na foz de certos rios, geralmente com configuração triangular, lobulada ou em leque, resultante da acumulação de materiais aluviais num corpo de água de menor energia (mar, lago ou estuário), onde o caudal do rio se subdivide em diversos canais (distributários) e se prolonga por uma área plana ou ligeiramente inclinada, frequentemente sujeita a subsidência, variações no nível do mar e ocupação humana intensa.

      Diga-se também, é a oportunidade, que te faltam não menos de cinco acepções de «delta».

[Texto 22 285]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Ah, sim, também não tens, excepto em bilingues, ➔ distributário GEOGRAFIA cada um dos canais em que se subdivide o leito de um rio, especialmente num delta, divergindo do curso principal e conduzindo o caudal para o mar, um lago ou outro corpo de água.




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Definição: «urso-pardo | urso-negro-asiático»

Nada de exageros


      «La población de plantígrados de Japón se ha cuadruplicado desde el 2012 y se eleva a unos 55.000, siendo la mayoría osos negros asiáticos que pesan hasta 130 kilos, y unos 12.000 pardos, más voluminosos (pueden alcanzar los 400 kilos). A su incremento ha contribuido el hecho de que hay cada vez menos cazadores con licencia para matarlos, debido al envejecimiento de la población y a que los jóvenes se van del campo a las ciudades» («Los osos japoneses no son cariñosos», Rafael Ramos, La Vanguardia, 9.01.2026, p. 11). 

      Estão ambos os verbetes a precisar de uns reajustes no dicionário da Porto Editora, como poderão comprovar, sobretudo para eliminar os manifestos exageros quanto ao urso-pardo. Assim, proponho ➔ urso-pardo ZOOLOGIA (Ursus arctos) espécie de urso de grande porte, com várias subespécies distribuídas pela Europa, Ásia e América do Norte, de pelagem castanha em tons variados (do bege ao castanho-escuro); apresenta hábitos solitários e alimentação omnívora, podendo atingir entre 1,8 e 2,1 metros de comprimento e pesar em média cerca de 200 quilos, embora os maiores espécimes ultrapassem os 600. Quanto ao ➔ urso-negro-asiático ZOOLOGIA (Ursus thibetanus) espécie de urso de médio porte, com distribuição alargada pela Ásia temperada e tropical, do Irão ao Japão e Sudeste Asiático, de pelagem negra com mancha branca em forma de V no peito; apresenta hábitos solitários e alimentação omnívora, podendo atingir até 1,8 metros de comprimento e pesar entre 100 e 150 quilos.

[Texto 22 284]


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Definição: «extrema-direita»

Vamos lá abrir os olhos


      «A escassos dias de ser detido, a 14 de Janeiro de 2025, o então deputado do partido populista de direita radical enviou a Ana Arruda fotos de umas sapatilhas Adidas, de um par de sapatos de vela e de umas botas de salto baixo que tinha encontrado numa mala verde, cujo conteúdo haveria mais tarde de ser avaliado em perto de 5500 euros» («Miguel Arruda acusado de 21 crimes. Mulher bem o avisou: “Sabes que há câmaras nos aeroportos?”», Ana Henriques, Público, 9.01.2026, p. 15).

      Este debate já decorreu noutras sociedades: como definir extrema-direita? A definição da Porto Editora — «corrente política de valores conservadores radicais» — é insatisfatória porque reduz a extrema-direita a uma intensificação do conservadorismo, sem referir aspectos fundamentais como o autoritarismo, o nacionalismo étnico ou a exclusão de minorias. Assim formulada, torna-se quase indistinguível de outras correntes ideológicas que também podem ser radicais mas não partilham o mesmo pendor antiliberal ou reaccionário, como o ultraconservadorismo religioso, o libertarismo económico extremo ou o tradicionalismo moral. Ao evitar qualquer referência ao autoritarismo, à rejeição do pluralismo ou à hostilidade identitária, a definição esvazia o conceito e impede o seu reconhecimento enquanto fenómeno político concreto e historicamente documentado. Antes que eles tomem conta disto tudo, proponho ➔ extrema-direita POLÍTICA corrente ideológica ou movimento político caracterizado pela rejeição da democracia liberal, pela exaltação da autoridade, pela hostilidade em relação às minorias e aos estrangeiros, pela glorificação da nação ou da raça, e pelo recurso sistemático a discursos de exclusão ou de medo.

[Texto 22 283]


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Léxico: «lampreia | à bordalesa»

O chefe manda


      Disseram-me, que eu não vi, que um chefe (também conhecido como chef por certos portugueses) foi à Praça da Alegria, na RTP1, ensinar a fazer lampreia à bordalesa e que definiu este simpático ciclóstomo como nem os lexicógrafos, assim ➔ lampreia/lampreia-de-rio ZOOLOGIA (Lampetra fluviatilis) espécie de peixe ciclóstomo anádromo da família Petromyzontidae, com corpo alongado, cilíndrico e sem escamas, pele viscosa de coloração acastanhada com tons esverdeados, boca em ventosa circular com dentes córneos e sem barbatanas pares; durante a fase larvar (amocete), vive enterrada nos sedimentos dos rios como filtrador; após a metamorfose, desloca-se para o mar ou zonas estuarinas, onde parasita outros peixes, fixando-se à sua pele para se alimentar de sangue e tecidos; atinge entre 25 e 40 cm de comprimento, podendo excepcionalmente ultrapassar esse valor, e regressa aos rios para desovar, após o que geralmente morre.

      O chefe não explicou (nem os dicionários o fazem) o que significa «à bordalesa», mas explicamos nós assim ➔ à bordalesa GASTRONOMIA diz-se do modo de confeccionar a lampreia com vinho tinto, cebola e sangue, inspirado na tradição culinária de Bordéus.

[Texto 22 282]


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