Léxico: «guarda-vermelho»

A culpa é de Rasputine


      Já tínhamos visto guardas-civis, guardas-florestais, guardas-marinhas, guardas-mores, guardas-municipais, guardas-nocturnos, guardas-prisionais e guardas-republicanos, faltavam os guardas-vermelhos: «É verdade, os guardas-vermelhos tinham representado o homem que eles imaginavam que maculara a dinastia e feito desmoronar o império, Grigori Rasputine, a copular com a traidora à pátria, a cabra alemã, a imperatriz Alexandra Fiodorovna» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 132).
      Guarda tanto pode ser uma forma do verbo guardar, 3.ª pessoa do presente, guarda-lama, como um substantivo, guarda-fiscal. No primeiro caso, só o último elemento vai para o plural. Mas o plural de guarda-freio é guarda-freios... Pois é, mas Leite de Vasconcelos cita um anúncio de um jornal de 1907: «Associação de classe dos condutores e guardas-freios da viação lisbonense». Escreveu este filólogo: «É preciso fazer a distinção, se se puder. Em guarda-marinha há referência a pessoa, e guarda é nome; em porta-bandeira também se refere a pessoa, e contudo porta é verbo (imperativo)» («Ementas gramaticais para a história da língua portuguesa», in Revista Lusitana, vol. XXXVII, p. 7). E acrescenta: «Quanto a guarda-marinha segue-se a analogia, e poderá dizer-se guarda-marinhas, pois é como se se tivesse perdido a consciência da composição.» E pergunta: «Em guarda-freio é guarda nome ou verbo? Em guarda-portão é guarda nome ou verbo?» E responde: «Era preciso, para se mostrar que era nome, que se tivesse dito outrora guarda-do-portão. Decerto não se disse.» E mais: «Ora guarda-freio é do nosso tempo, nunca houve guarda-do-freio; foi palavra formada por analogia com outra composta de guarda. Entendo que o plural é respectivamente: guarda-freios e guarda-portões.» E no nosso caso? Guarda é nome ou verbo?

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3 comentários:

Helder Guégués disse...

Meu caro Francisco,
Não tenho resposta para tudo, como deve imaginar. O meu trabalho ao longo destes anos tem sido muitas vezes o de reflectir, lançar pistas — e, modéstia à parte, já não me parece pouco. Não vejo ninguém fazer, gratuitamente, isso. E quando vir, deixarei de fazer, porque mantenho este blogue porque gostava de ler algo semelhante. Contudo, no caso, parece-me que decorre de tudo quanto já escrevi que a forma que deveríamos preferir é guarda-vermelho/guardas-vermelhos.

Francisco disse...

Continuarei, sem dúvida

Franco e Silva disse...

Também concordamos com GUARDAS-VERMELHOS e acrescentamos GUARDAS-COSTEIROS, na semelhança com F. Rebelo Gonçalves, em Vocabulário Ortográfico da L. P., da Coimbra Editora, de 1966: GUARDAS-MARINHAS, GUARDAS-FISCAIS, GUARDAS-REPUBLICANOS,GUARDAS-NOCTURNOS, GUARDAS-MUNICIPAIS, GUARDAS-MORES, GUARDAS-MENORES, mas GUARDA-LAMAS, GUARDA-LINHAS, GUARDA-FREIOS, GUARDA-ARNESES, GUARDA-BARREIRAS, GUARDA-CANCELAS, GUARDA-INFANTES, GUARDA-MATOS, GUARDA-PATRÕES, GUARDA-PÉS, GUARDA-PORTAS.

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