Léxico: «diamantário»

Ora, também a temos


      «Les diamantaires anversois ont offert “Freedom 250” au président américain, qui a décidé d’exempter les diamants taillés importés de Belgique de taxes. Un rabbin dénonce un “acte flagrant de corruption”. Et porte plainte contre Trump, sur fond d’enquêtes sur des pratiques de circoncision» («Donald Trump et la bague de la discorde», Valérie de Graffenried, Le Temps, 29.07.2026, p. 5). 
      Ah, mas nós também temos a palavra diamantário, sinónima de «diamantista», o que negoceia com diamantes, só falta que no-la devolvam para os dicionários.

[Texto 23 380]

Como se escreve (e pensa!) por aí

Andam aos papéis


      «O gabinete do Chega na Assembleia da República foi encontrado vandalizado ontem de manhã. A porta do gabinete, sabe o Correio da Manhã, não foi rebentada nem sequer forçada e terá sido uma empregada de limpeza a verificar o vandalismo e a alertar a GNR» («Ventura denuncia invasão ao gabinete do Chega», Miguel Bravo Morais e Diogo Carreira, Correio da Manhã, 29.07.2026, p. 6). 
      Isto é que é rigor jornalístico: vandalizado. Vi imagens na CNN Portugal, e apareciam papéis, livros, gavetas, até um exemplar do Correio da Manhã (deve ter sido este a testemunha do jornal, a fonte) que pareciam ter sido cuidadosamente postos no chão. Documentos sensíveis... Quem é que guarda documentos sensíveis numa sala que não fecha à chave?

[Texto 23 379]

Definição: «samacaca»

Mais o padrão que o tecido


      «A estilista Hilmane Simão afirmou, ontem, no Lubango, que o pano “Samakaka” carece de mais valorização quer pelos estilistas, em particular, quer pela sociedade, em geral. [...] Na sua óptica, é uma mais-valia a proposta do Governo da Huíla apresentada ao Ministério da Cultura para que a Samakaka seja classificada como Património Nacional Imaterial. [...] O pano reflecte a identidade das comunidades do Sul do país, concretamente das províncias da Huíla, do Namibe, Cunene, Cuando, Cubango e de Benguela, uma vez que alguns municípios utilizam a Samakaka como referência para várias actividades culturais. Embora o tecido não seja produzido no país, os seus símbolos, cores e formas de utilização são referenciados e utilizados nas cinco províncias, razão pela qual não vai ser classificado o pano em si, mas o seu valor cultural e imaterial» («Hilmane Simão apela para mais valorização do pano Samakaka», Jornal de Angola, 23.06.2026, p. 28). 
     Assim, proponho ➠ samacaca ETNOGRAFIA padrão decorativo tradicional associado às comunidades do Sul de Angola, caracterizado por motivos geométricos repetitivos e cores contrastantes, aplicado sobretudo a panos e vestuário e constituindo um importante símbolo de identidade cultural.

[Texto 23 378]

Léxico: «attómetro»

É mais uma batata


      A Terra, sempre ouvimos dizer e lemos, é redonda. Nenhum dado da NASA ou de outra qualquer entidade veio pôr isto em causa. Não é esférica, é redonda. Infelizmente, nenhuma acepção do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem a clareza e objectividade da correspondente à segunda acepção do Dicionário da Real Academia, que define «redondo» como «de forma esférica o semejante a ella». (Tal como a primeira é «de forma circular o semejante a ella».) É essa a palavra-chave: semelhante. Porque as esferas são objectos geométricos absolutamente perfeitos, em que cada parte da sua superfície está à mesma distância do centro com uma exactidão absoluta, não de metros, mas de milímetros, nanómetros, attómetros. E tudo porque não há esferas na Natureza. Sim, estou a ver. Assim, proponho ➠ attómetro METROLOGIA submúltiplo do metro, de símbolo am, equivalente a 10⁻¹⁸ metros.

[Texto 23 377]

Como se traduz por aí

Pobres espectadores


      Último episódio da série inglesa Ludwig, na RTP2. Sala de interrogatórios. «I need to remind you», diz o inspector Carter, «you are still under caution, Mrs. Betts-Taylor.» Já ouvimos isto centenas e centenas de vezes. Under caution significa que está a ser interrogada como suspeita, depois de informada de que não é obrigada a responder e de que as suas declarações poderão ser usadas como prova. A fórmula inglesa não tem equivalente nominal directo e transparente em português. O tradutor e legendador da série, Luís M. A. Freitas, achou que resolvia tudo assim: «Relembro-lhe que ainda está sob aviso.» Puro disparate. Teria de se ir além das palavras, da fórmula, para transmitir ao espectador, imerso noutra cultura, o que está em causa. Podia ser assim: «Recordo-lhe que continua a ser interrogada na qualidade de suspeita [e de que tudo o que disser poderá ser usado como prova], senhora Betts-Taylor.»

[Texto 23 376]

Léxico: «saioto»

Até Camilo precisa da nossa ajuda


      «— Do sr. capitão-mor? Não me pareceu; que ela ia de saia escura, e levava um saioto pela cabeça» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 10).

[Texto 23 375]

Um caso curioso: «bocca di rosa»

Mudem primeiro a realidade


      Mesmo quem nunca ouviu falar de Fabrizio De André talvez ache este caso curioso. Em 1967, o cantautor italiano publicou a canção Bocca di Rosa, cuja protagonista é uma mulher que vive livremente a sua sexualidade. Na letra, De André distingue-a expressamente de quem «faz amor por profissão»: «C’è chi l’amore lo fa per noia,/ chi se lo sceglie per professione;/ Bocca di Rosa né l’uno né l’altro,/ lei lo faceva per passione.» («Há quem faça amor por tédio, há quem o escolha por profissão; Bocca di Rosa nem uma coisa nem outra: fazia-o por paixão.») Era, portanto, assim que o autor via a sua personagem. Sucede que os falantes italianos cedo começaram a interpretá-la de outra forma. A expressão bocca di rosa entrou na língua comum e acabou por ser usada como sinónimo de «prostituta», acepção que o próprio Treccani ainda hoje regista. Agora, quase sessenta anos depois, a próxima edição do dicionário poderá abandonar essa definição e passar a definir bocca di rosa como «mulher livre», aproximando-se da interpretação que o autor sempre fez da sua criação. A notícia levanta, porém, uma questão interessante. Um dicionário deve corrigir uma interpretação que considera errada ou deve limitar-se a registar o significado que uma palavra adquiriu no uso? Ao que tudo indica, os Italianos começaram muito cedo a entender bocca di rosa como sinónimo de «prostituta», e foi esse o significado que a expressão acabou por adquirir na língua. É por isso que me interrogo se faz sentido um dicionário tentar alterá-lo, quase sessenta anos depois. A língua tem o seu curso próprio e dificilmente muda por decisão dos lexicógrafos. Um dicionário pode influenciar o uso; dificilmente o substitui.

[Texto 23 374]

Léxico: «fossorial»

Também tem esta segunda


      «“Em cobras, em geral, você tem uma marcação na parte interna da caixa craniana correspondente ao teto óptico. Mas ela não aparece na Tametara”, explicou ela [Gabriela Sobral, investigadora ligada à UnB (Universidade de Brasília) e ao Museu Estadual de História Natural de Estugarda, na Alemanha] à Folha. É um indício forte de que o bicho tinha hábitos fossoriais (de vida embaixo da terra). “Não seria algo eventual, superficial — ela realmente estava habitando um ambiente subterrâneo”» («Serpente ancestral do Brasil provavelmente passava boa parte da vida debaixo da terra», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 26.07.2026, p. A37). 
      Se afirmas que é o termo da Zoologia que significa «relativo ao acto de fossar, de escavar ou remexer (terra, lama, etc.) com o focinho», isso quer dizer, Porto Editora, que te falta uma segunda acepção em ➠ fossorial 2. ZOOLOGIA relativo aos animais adaptados à escavação e à vida subterrânea; que vive ou se desenvolve debaixo da terra.

[Texto 23 373]

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P. S.: Hoje ouvi alguém dizer que Fulano ia «expelir uma encomenda». Mais uma cagada. Bem, mas pelo menos esta não estava numa tradução. (A cagada, Porto Editora, é qualquer coisa muito malfeita. Podia ser só malfeita; mas não, é muito malfeita.)


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