Léxico: «caipirosca»

Semiburlesco

      Um artigo do Diário de Notícias revela-nos onde beber as melhores caipirinhas em Lisboa. Pelo meio, também fala das variantes: caipirosca, em que em vez de cachaça se adiciona vodca, e caipirão, quando em vez de cachaça se acrescenta Licor Beirão. E não é que o seriíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «caipirosca»?! E «caipirão» também regista, mas somente como diminutivo de «caipira».
[Texto 1895]

Léxico: «malhassol»

Fora, mas usada todos os dias

      O engenheiro queimado por mil sóis africanos não quer rede galinheira no terraço, mas malhassol. E o vocábulo não devia estar nos dicionários? Malhassol = malha + soldada. Welded steel mesh, se preferem em inglês...
[Texto 1894]

Sobre «condimento»

Não faltam condimentos

      «Para evitar os assaltos no parque de campismo, a segurança foi reforçada. Além de mais iluminação, há também, segundo Luís Montez, mais arruamentos e um segurança em cada cruzamento. Os campistas contam ainda com um supermercado, inovação introduzida no ano passado, para fazerem as suas compras. No entanto, admite o responsável, nota-se que quem já chegou ao recinto vai carregado de condimentos para evitar gastos maiores. Um reflexo da crise, tal como a tendência verificada na venda de ingressos» («Eddie Vedder obriga a criar pista de helicóptero», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 31.07.2012, p. 45).
      Parece ser uma citação indirecta, e nesse caso é erro de Luís Montez, mas a jornalista devia ter corrigido. Condimentos, meus caros, são substâncias que realçam o sabor dos alimentos: ervas aromáticas, especiarias, etc.
[Texto 1893]

«Idêntico/semelhante»

Repetimo-nos

      «Os materiais da caverna Border são, por outro lado, muito idênticos aos que posteriormente – há 24 mil anos – foram produzidos e utilizados pelas populações pré-históricas na região, conhecidas por povo San» («‘Flinstones’ africanos já eram modernos há 44 mil anos», Filomena Naves, Diário de Notícias, 31.07.2012, p. 33).
      Já o perguntei várias vezes: a identidade tem graus? Ora, se temos o vocábulo «semelhante», porque havemos de usar sem propriedade o vocábulo «idêntico»?
[Texto 1892]

Quantos continentes

Sabe-se lá

      Ontem, às 14h30, um Boeing 777 da Emirates aterrou em Portugal, «com direito a baptismo de voo», ouvi no Telejornal. Tiago Simões, antigo piloto da TAP e agora naquela companhia aérea, declarou à chegada (no português possível, digamos): «É um desafio bastante grande e bastante interessante de poder voar para seis continentes e para uma quantidade de destinos e com uma diversidade de nacionalidades no cockpit e na cabine.»
      Não sei se foi a minha professora da escola primária que nos poupou a esta controvérsia frustrante sobre o número de continentes ou se, como é mais provável, ela a desconhecia. É impressionante como até sobre esta questão há opiniões desencontradas. São cinco, propugnam uns; são seis, afirmam outros; nada disso, são sete, defendem outros. Da mesma forma, temos de estar atentos à despromoção de planetas.
      E quanto ao «baptismo de voo», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece o que seja. Regista, isso sim, «baptismo do ar»: primeira viagem aérea de uma pessoa. De uma pessoa, não do próprio avião.
[Texto 1799]

«Ser necessário»

É preciso saber

      Nuno Crato, ministro da Educação, ontem no Telejornal: «Nós estamos a trabalhar para o estabelecimento de metas que ajudem os professores, os alunos, os pais, os autores de manuais, os autores de exames a ter muito mais claro quais são os objectivos que em cada ano são necessários atingir.»
      Nas locuções ser necessário e ser preciso, o predicativo, como se sabe, pode não concordar com o sujeito, e é mesmo, hoje em dia, o mais habitual. A concordância do verbo e do predicativo com o sujeito encontra-se com frequência em autores clássicos. É conhecida a frase do padre António Vieira para o ilustrar: «Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho» (Sermão da Sexagésima). A frase do ministro está, pois, errada, já que o sujeito é um verbo no infinito, «atingir».

[Texto 1798]

«Victrola/vitrola»

É preciso distinguir

      Traduzir «Victrola» por «vitrola» pode não ser a melhor solução. Alguns dicionários da língua portuguesa registam o substantivo «vitrola», mas acrescentam que é brasileirismo. Conhecemos muitos outros casos em que um nome comercial é apropriado como nome comum. Neste caso específico, isso não se passou assim em Portugal. Pela proximidade geográfica do Brasil, terá chegado lá em quantidades que justificam e explicam a derivação. Em alguns casos, «Victrola» pode referir-se precisamente a um gira-discos daquela marca, produto da norte-americana Victor Talking Machine Company.

[Texto 1797]

Tradução: «formulaic»

Fórmulas

      «Aside from the frequent formulaic complex sentences beginning with…» Lembram-se, decerto, que uma vez, a propósito do uso do vocábulo «formulaico» por Vasco Pulido Valente numa crónica, tratei desta questão (aqui), de como traduzir o termo. Agora vejo aqui «formulaic complex sentences» vertido por «frases feitas».
[Texto 1796]

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