«Desgranar»?

Mas é bonito

      «Muitos [peregrinos a caminho de Fátima] vão a pé, desgranando as contas do rosário, apoiados num bordão, de mochila às costas e bolhas nos pés» («Oásis», Gonçalo Portocarrero de Almada, i, 11.05.2013, p. 13).
      À puridade lhe digo, Sr. Padre: acho que só para lá de Badajoz é que se diz dessa forma. Aliás, é pronominal, desgranarse, pois é o que se diz das contas de um colar, de um rosário, etc., quando se soltam. Claro que, em sentido figurado, até das horas se pode dizer o mesmo. Mas para lá de Badajoz.

[Texto 2828]

Léxico: «narsa»

Com que então falam assim

      «“A lei muda hoje? ‘Tamos feitos, temos de apanhar uma ganda narsa.” A reacção é imediata. Concha, Mar e Sebastião têm 16 anos e costumam sair entre uma vez por mês e sempre que não há aulas no dia seguinte, a regra de quase todos» («Nova lei do álcool. “Muda hoje? ‘Tamos feitos. Vamos apanhar uma ganda narsa”», Marta F. Reis, i, 2.05.2013, p. 26).
      Narsa ou nassa — ou moca. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «entorpecimento ou euforia induzido por drogas ou álcool; pedrada, ganza».
[Texto 2799]

Já há chefes

Até que enfim

      «No novo artigo, o cerco aperta: dado que a maioria dos chefes não cumpre, deverá haver maior colaboração com nutricionistas: “Uma vez que o público os valoriza como fonte de conhecimento, é essencial e uma responsabilidade profissional melhorarem as receitas”» («Chefes famosos. E se os pratos deles fizerem mal à saúde?», Marta F. Reis, i, 30.04.2013, p. 29).
      Vá lá, já vai havendo jornalistas que compreendem que não têm de usar o termo francês chef para se referirem aos cozinheiros profissionais. Nem tenho bem a certeza, mas creio que foi por sugestão minha que «chefe» (sim, o mesmo termo, mas aportuguesado), nesta acepção, passou a figurar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2798]

Léxico: «bicho-de-prata»

Insecto tisanuro!

      O pintor diz que guarda tudo em caixinhas, e que embrulha todos os trabalhos em plástico para não lhes dar o bicho-da-prata. Não conhecia a palavra. Agora já sei que são os bichinhos que vejo aqui por casa de vez em quando. Nojentos, como quase toda a bicharada. Também conhecidos por lepisma ou peixinho-de-prata, únicos que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista. E não será antes «bicho-de-prata»?
[Texto 2797]

«Dissecação/dissecção»

Isto é que é fascismo

      O poeta-cantor, muito conhecido, escreveu «mesa de dissecção». Pré-acordo. O revisor, destes novos, alterou para «dissecação». Normalizou o texto. Isto é que é fascismo.
[Texto 2796]

Pronúncia de «intoxicação»

Pronúncia intoxicada

      «O restaurante espanhol El Celler de Can Roca, de Girona, foi eleito o melhor do mundo. O restaurante catalão é gerido na sala e na cozinha por três irmãos e tem três estrelas no Guia Michelin. Foi premiado numa selecção dos 50 melhores restaurantes a nível internacional realizada pela conceituada revista britânica Restaurant. Nos últimos dois anos, ocupou a segunda posição. O restaurante Noma, da Dinamarca, que liderou a classificação nos últimos três anos, perdeu o lugar em Fevereiro quando 63 clientes sofreram uma intoxicação alimentar» (Carla Trafaria, Bom Dia Portugal, 30.04.2013).
      Já todos ouvimos a palavra «intoxicação» ser erradamente pronunciada, como se o x valesse ch e não ks (como em anexo, crucifixo, maxilar, prolixo...). Ora, desta vez, a jornalista optou por uma terceira forma: /intossicação/. Se a conhecerem pessoalmente, digam-lhe.
[Texto 2795]

Bons títulos

Onde se fala de certa parafilia

      «Três dias antes de começarem a ser distribuídos, a CGD percebeu que entre os lotes para oferecer [aos clientes] havia livros eróticos — o que levou ao cancelamento da acção. Entre as obras que iam ser oferecidas estavam títulos como “Sr. Bentley, o Enraba Passarinhos” ou “Carne Crua”. Algumas das obras continham passagens com palavrões e imagens de nus nas capas» («Trabalhadores da Caixa exigem explicações sobre livros eróticos», Rosa Ramos, i, 30.04.2013, p. 26).
      Percebeu... apenas quando viu as imagens de nus das capas. Pelas «passagens», que melhor se diriam passos ou trechos, com palavrões não se distingue uma obra erótica de qualquer outra, a não ser talvez pela frequência. O título Carne Crua podia ser, está na moda, um livro de Jamie Oliver — mas o outro? E o título não devia ser «Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos»? Pela capa (aqui) não se pode concluir nada, porque a mariquice dos arranjos gráficos está-se quase sempre a foder para a língua.
[Texto 2794]

«Eminente/iminente»

Mais por demérito alheio

      «Confiar nele é um perigo eminente: dá rapidamente a volta ao texto e exulta com melodrama» («Marcelo», Mário Dias Ramos, i, 29.04.2013, p. 14).
     Marcelo é tão importante, mas tão importante, que mesmo como perigo não ameaça cair sobre alguém ou sobre alguma coisa — simplesmente sobreleva os outros. Nunca medíocre. Medíocres, só os jornalistas.
[Texto 2793]

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