«Eminente/iminente»

Mais por demérito alheio

      «Confiar nele é um perigo eminente: dá rapidamente a volta ao texto e exulta com melodrama» («Marcelo», Mário Dias Ramos, i, 29.04.2013, p. 14).
     Marcelo é tão importante, mas tão importante, que mesmo como perigo não ameaça cair sobre alguém ou sobre alguma coisa — simplesmente sobreleva os outros. Nunca medíocre. Medíocres, só os jornalistas.
[Texto 2793]

Tradução de termos médicos

O doente respondão

      «O que me leva a dirigir-lhe esta mensagem é, contudo, uma dúvida. Estando actualmente embrenhado num denso livro de Medicina Interna, tenho lido com frequência, a respeito de um determinado tratamento antivírico [ou antiviral], virologic response, responsive patient, responders e nonresponders. Qual é a melhor forma de traduzir estes termos? Tenho, naturalmente, tomado response por “resposta”, mas, consultando os Dicionários Houaiss, Priberam, e o da Porto Editora, verifico que, entre os vários sentidos prescritos, não se encontra a reacção positiva de um doente a um tratamento médico. Trata-se de uma falha, ou “resposta” não é realmente a melhor tradução de response neste contexto? Bem, o certo é que a situação se me afigura complicada quanto ao responsive e ao responder. Apesar de termos “responsivo” e “respondedor”, estes não me soam bem aqui.»
      Comecemos por onde devemos começar: a definição. Porque escreve «reacção positiva de um doente a um tratamento médico»? Leio no Merriam-Webster que response é «the activity or inhibition of previous activity of an organism or any of its parts resulting from stimulation». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ler que «resposta» significa, como termo específico da medicina, «reacção do organismo a qualquer estímulo». No entanto, no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, vemos que response se traduz por «reacção» e a locução «response to treatment» se traduz por «reacção ao tratamento». Toda a vida li e ouvi o termo «reacção» neste sentido. «Resposta» há-de ser anglicismo semântico. Responsive verter-se-á facilmente, acho eu, por «receptivo» ou por perífrase adequada. Já, por fim, quanto a «respondedor» para traduzir responder não me soa mal e já tenho lido em trabalhos científicos. E também aqui o recurso a perífrases pode ser, em certas circunstâncias, a melhor solução.
[Texto 2792]

«Decodificar», de novo

Ele disse isso?

      O autor que usou «decodificar» (sim, porque isto não é inventado) acabou de me responder: «Segundo o falecido Prof. Lindley Cintra, deve dizer-se decodificação (que é utilizado no Brasil, eles nunca dizem nem escrevem “descodificação”) porque com des- aquilo a que se refere o substantivo desaparece, tal como em “destruir”. Neste caso não há desaparecimento, mas retorno a uma situação anterior: o que tinha sido codificado retorna ao que era antes antes (é decodificado). Seguindo esta linha de pensamento, nas Metas Curriculares de Português aprovadas pelo MEC em Agosto de 2012 foi utilizado “decodificação”.» Há mais, mas só isto interessa. Sim, está nas Metas Curriculares de Português, mas não me parece que tal seja um argumento. Um arremedo, talvez.
[Texto 2791]

Como se escreve nos jornais

Sem excepção

      «Quase todas as pontes, com obras de Miguel Ângelo e Vasari, foram dizimadas, excepção feita à Ponte Vecchio» («Oltrarno/A Margem Sul de Florença», Luís de Freitas Branco, «Liv»/i, 27.04.2013, p. 10).
      «Pontes dizimadas...» Não me parece que seja a melhor escolha de palavras. «Excepção feita» é francês sem pôr nem tirar: exception faite.
[Texto 2790]

Como se escreve nos jornais

Demasiado explícito

      «As ilustrações do livro “De onde vens?” (“Wo kommst du her?”) — um manual de educação sexual para crianças que mostra os vários níveis de excitação de um casal — estão a criar polémica na sociedade alemã, conhecida por ter uma atitude liberal perante o sexo. O bestseller, publicado pela primeira vez em 1991 pela editora Loewe Verlag, foi recentemente descontinuado, após várias queixas de pais, criticando-o por ser demasiado explícito» («Manual de educação sexual “demasiado explícito” é descontinuado», i, 27.04.2013, p. 10).
[Texto 2789]

«Antistresse»?

O inimigo dentro do jornal

      L. C. Lavado responde à pergunta sobre o que não lhe falta na mesa de trabalho: «Cubo de rubik [sic], como antistresse. Nunca consegui voltar a alinhar aquelas cores todas. Copo de água. A hidratação é importante em todas as ocasiões. Bloco de notas. Porque lá estão sempre boas ideias» (Vanda Marques, «Liv»/i, 27.04.2013, p. 13).
      De «estresse» é que teríamos «antiestresse»; de «stresse» só podíamos ter «anti-stresse». Curioso é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só registe «anti-stress», quando acolhe «stress», «stresse» e «estresse». Enfim, falta uma visão de conjunto.
[Texto 2788]

AO na AR

Vamos ver o que respondem

      «Uma petição com cerca de 4400 assinaturas foi ontem entregue em Assembleia da República (AR) para desvincular Portugal do novo Acordo Ortográfico e exigir “de uma vez por todas”, que os deputados “tomem uma posição perante o eleitorado”. Ivo Barroso, um dos peticionários, defendeu que o governo “não pode, por decreto, mandar a AR aplicar o acordo”» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 6).
[Texto 2787]

«Despensa/dispensa»

Dispensamos

      «A advertência sempre me assustou um pouco. Sempre me fez lembrar uma espécie de anúncio de uma catástrofe que se advinha: “Ui, nem sabes o que aí vem... Depois não digas que eu não avisei.” Como se tivéssemos de encher a dispensa de enlatados e preparar-nos para o pior» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 12).
      Para Tristão da Cunha Portugal, na sua Orthographia da Lingoa Portugueza, é que «adivinhar» ou «advinhar» era igual. Mas isso foi em 1856. Já quanto à confusão entre «despensa» e «dispensa», nem ao século XIX se pode ir buscar desculpa.
[Texto 2786]

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