Linguagem

«Declaro-vos marido e... marido e...»

      O manequim Luís Borges venceu um Globo de Ouro. No discurso, lê-se no Diário de Notícias, dedicou «o prémio ao marido, o hairstylist Eduardo Beauté» («‘Glamour’ e polémica marcam gala», Carla Bernardino e Raquel Costa, Diário de Notícias, 31.05.2011, p. 57). E Eduardo Beauté terá gostado da dedicatória da «mulher»? Ou será também «marido»? Isto foi congeminado pelos jornalistas ou os casais do mesmo sexo referem-se aos cônjuges desta forma? (Senhores revisores da D. Quixote: «cônjuge» é do género masculino!)
[Texto 83]
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Léxico: «tribeira»

De fachada

      «Para ser considerado rico e digno de respeito na São Luís dos séculos 18 e 19, você precisava morar em uma casa com seis janelas na fachada. Tal característica arquitetônica era mais importante até que o dinheiro. Tanto que quem perdia tudo, se conseguisse manter o casarão (chamado de morada e meia), preservava seu status de nobre.
      Curiosidades como essa tornam saborosa uma visita ao centro histórico da capital maranhense. Entre os mais de 5 mil imóveis coloniais, nem todos preservados, há ainda exemplares com quatro janelas na fachada (moradia inteira), três janelas (terço de morada), duas (meia morada) e as mais simplesinhas, chamadas de porta e janela.
      Até ditados populares surgiram dessa classificação. “Viver de fachada”, por exemplo. Ou dizer que alguém está “sem eira nem beira”: as melhores casas da São Luís colonial tinham três linhas de telhas de barro sobrepostas, chamadas eira, beira e tribeira. Quanto mais pobre a casa, menor o número de telhas» («Status social estampado na fachada», Leandro Costa, Estadão, 31.05.2011, p. V10).
      O Dicionário Houaiss não regista o termo «tribeira», que nunca ouvi, e há-de ser brasileirismo. Em relação à expressão «sem eira nem beira», lê-se na obra A Sabedoria dos Ditados Populares, de J. J. Costa (São Paulo: Butterfly Editora, 2009, p. 9): «Essa frase faz referência a pessoas sem bens, sem posses. Dizem que antigamente as casas das pessoas ricas tinham um telhado triplo: a eira, a beira e a tribeira (como era chamada a parte mais alta). As pessoas mais pobres não tinham condições de fazer o telhado triplo e construíam somente a tribeira, ficando, assim, “sem eira nem beira”.»
[Texto 82]
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«Piripiri/piripíri»

Já repararam?

      «Salpique com parmesão e misture bem. Tempere com sal e pimenta e um pouco mais de piripíri, se gostar de coisas picantes como eu» («Salsichas e massa com couve-repolho», Jamie Oliver, tradução de Aida Macedo. «Única»/Expresso, 19.03.2011, p. 112).
      Não foi com o Dicionário Houaiss, esse tesouro, que se começou, em Portugal, a grafar «piripíri», que já se via registado em alguns dicionários, mas ajudou a difundir esta grafia. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista «piripiri», mas com três entradas: para a malagueta, para a erva vivaz brasileira (Cyperus giganteus) e para uma planta aquática. O Dicionário Houaiss distingue, grafando o condimento com acento agudo, «piripíri».
      Tenho quase a certeza que, quando li a palavra pela primeira vez, estava escrito «piri-piri» — como ainda se lê vezes sem conta.
      «Com tomate, sal (munho) e piri-piri fazem um molho excessivamente picante, onde temperam a massa depois de comprimida. A farinha de milho tem igual aproveitamento» (África Oriental, Joaquim Renato Baptista. Lisboa: Imprensa Nacional, 1892, p. 22).
[Texto 81]
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Sobre «espectro»

Ainda é cedo

      Vital Moreira lá continua, quando não desiste ou se esquece, a escrever segundo as novas normas ortográficas: «Ao ultrapassar o CDS pela direita, o qual adotou posições menos aventureiras e mais prudentes em qualquer dos referidos domínios, o PSD não questiona somente a dimensão social e o liberalismo moderado da sua herança política e doutrinária, por mais indefinida que esta fosse. Reposiciona-se também no nosso espectro político-partidário, baralhando as tradicionais fidelidades ideológicas e sociológicas. Decididamente, o nosso sistema político não precisava de mais este fator de imprevisibilidade e de instabilidade…» («Troca de posições», Vital Moreira, Público, 31.05.2011, p. 37).
      O Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional, refere apenas que «espectro» e «espetro» são variantes, mas, tanto quanto me lembro, nunca ouvi um português articular o c. Já vi foi uma professora de Português corrigir um aluno que o fez. Contudo, como não é vocábulo muito comum, não anda na boca de toda a gente, haverá provavelmente sempre hesitações. Aguardemos para ver.

[Texto 80]
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Sobre «presidenta»

Nem os Brasileiros acatam

      «Depois de assistir aos vídeos, a Presidenta decidiu travar a divulgação do kit preparado por uma ONG, por o considerar “inadequado” e “impróprio para [o] seu objectivo”» («‘Kit’ anti-homofobia vetado no Brasil», Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 34).
      Dona Dilma Rousseff quer — e os jornalistas portugueses fazem-lhe a vontade. «Presidenta». São estes jornalistas que fazem andar a língua para a frente e a gramática para trás.
[Texto 79]
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Sobre «sinalizar»

Não nos aborreçam

      «Dos 1808 alunos sinalizados (quase 10% do total) no ano passado — por faltas às aulas, mau aproveitamento escolar, violência física e verbal ou comportamentos agressivos —, 782 casos foram raparigas adolescentes e pré-adolescentes» («Escolas de risco com 43% de raparigas problemáticas», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 18).
      É vocábulo da gíria dos técnicos de serviço social, que caiu no goto dos jornalistas, que há meia dúzia de anos gostavam mais do verbo «referenciar». Só um conselho: diversifiquem (conselho que, no âmbito dos investimentos, também lhes dariam George Soros e Warren Buffett), usem outras palavras, outras construções.
[Texto 78]
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Sobre «gorjeta»

É para beber

      «Na primeira noite, esses repórteres ficaram a saber que a família jantou bifes e saladas do restaurante Landmarc. A conta foi de cerca de 170 euros, tendo a filha dado uma gorjeta de 17,6 euros ao homem das entregas» («Uma ‘prisão’ de luxo para Strauss-Kahn», Susana Salvador, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 33).
      Foi do francês gorge que fizemos gorja (garganta, goela, ainda em uso, como pude comprovar recentemente na Beira Alta) e todos os derivados, entre eles «gorjeta» ou «mata-bicho» para molhar a garganta, que era a gratificação por qualquer trabalho que se fizesse. «Tome, é para beber qualquer coisa», ouve-se ainda. Em francês, é mais claro: pourboire, «gorjeta», é «para beber». De caminho, deve dizer-se que «gorjeta» é com j e não com g, como por vezes se lê, e é assim porque deriva de um vocábulo com j.
      Curioso também aquele «homem das entregas», que mal esconde o inglês deliveryman da fonte da notícia.
[Texto 77]
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Sobre «stresse»

Não é para mim

      «A defesa tentou explorar um desmaio sofrido por Diego em Fevereiro de 2005 em plena escola, justificando os pais que o rapaz estaria em stresse por ter falsificado a assinatura num teste a que teve nota negativa» («Pais de escuteiro dizem que ele entrou em delírio antes de morrer», Roberto Dores, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 23).
      Ninguém me apanhará a usar este aportuguesamento manhoso. Antes a forma como os Brasileiros aportuguesaram, estresse, por ser mais conforme à nossa língua. De qualquer modo, não se esqueçam os tradutores e os revisores que, e já o disse uma vez, a palavra «tensão» diz o mesmo.
[Texto 76]

 

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Sobre «golpear»

Ainda bem que é usada

      «E se poderão “fazer harakiri”, ritual dos samurais no Japão, que consistia em golpear o ventre para, por exemplo, recuperar a honra ou evitar ser sequestrado» («Comunistas apelam contra o voto suicida dos jovens», Carla Soares, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 6). «Segundo fontes policiais, esta suspeita ainda não foi confirmada. Apenas que terá sido o animal a golpear, no mesmo dia, uma sobrinha da vítima mortal, perto do local onde o corpo foi encontrado» («Autoridades já têm carneiro suspeito», Paulo Julião, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 23).
     Reparem como o verbo «golpear» foi usado acima em dois sentidos diferentes. Actualmente, a segunda acepção — dar pancadas, como se lê no dicionário de Bluteau — anda arredada da linguagem do dia-a-dia e dos dicionários, pelo menos de forma tão explícita.
[Texto 75]
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Ortografia: «anti-social»

Demasiado previsível

      «“Não estava doente. Era reclusa”, disse o jornalista Bill Deedman, da MSNBC, que fez uma reportagem de investigação sobre a vida da filha daquele que foi, no seu tempo, um dos homens mais ricos dos EUA, e a quem o The New York Times chamou “a socialite antissocial”» («A multimilionária que viveu e morreu longe do mundo», Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 43).
      Será assim de acordo com as novas regras ortográficas, mas, como o Diário de Notícias ainda segue a ortografia do AOLP45, está incorrecto. O jornalista deveria ter escrito «anti-social». Quando o jornal adoptar a nova ortografia, alguns jornalistas estarão anos seguidos a escrever em conformidade com as regras do AOLP45. Tudo demasiado previsível.
[Texto 74]

 

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Léxico: «enteremorrágico»

Bastava pensar

      Ora vejam este caso: «A causa da propagação da bactéria Escherichia coli enterohemorrágica está ligada ao consumo de legumes crus, como pepino, tomate e salada, refere o Ministério da Agricultura alemão» («Bactéria em alimentos crus leva à morte», Ana Maia, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 20).
      Está-se mesmo a ver, senhora jornalista, um h interior sem ser num dígrafo. Estabelece o Acordo Ortográfico de 1945: «Se um h inicial passa a interior, por via de composição, e o elemento em que figura se aglutina ao precedente, suprime-se: anarmónico, biebdomadário, desarmonia, desumano, exaurir, inábil, lobisomem, reabilitar, reaver, transumar.» Assim, escrever-se-á enteremorrágico. Não foi apenas a informação que veio da Alemanha, mas também, e dispensávamos, o termo: enterohämorrhagische.
[Texto 73]
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Prefixo «sub-»

O domínio do mundo

      «Um homem de 47 anos apontou, ontem de manhã, uma arma à cabeça do comandante da Esquadra da PSP de Benfica e clicou no gatilho. A arma encravou e o sub-comissário da PSP ainda levou uma coronhada na cabeça e vários murros antes de conseguir deter o agressor» («Arma apontada à cabeça encravou», Luís Fontes, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 26).
      «Clicou no gatilho»! A informática domina agora completamente o mundo. Já quase a escrevermos segundo as novas normas ortográficas, e alguns jornalistas ainda não dominam as regras do Acordo Ortográfico de 1945. O prefixo sub- só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r. Logo, subcomissário.
      «Turvado agora pelo medo, o Jerónimo mediu o adversário bem de frente e premiu o gatilho» (Os Homens e as Sombras, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1981, p. 53).
[Texto 72] 
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Cultura clássica

Ler não faz mal

      Quando se trata de cultura clássica, a tendência de muitos tradutores é deixarem nomes como os encontraram no original. Já vimos casos lamentáveis. No caso que hoje aqui trago, o tradutor escreveu que determinada personagem «representava o papel de Orestilla, a mulher de Catilina». Bem, também Barreto Feio grafou dessa maneira, mas era um tempo em que se escrevia «aquillo», «elle», «opposto»... Mas acrescenta o tradutor: «de quem Salusto disse que nunca um marido a tinha louvado». É o Salústio dos Espanhóis...
      «Catilina, perdido de amores por Aurélia Orestila, quis desposá-la e, como o filho desta se opusesse, corria que Catilina o envenenara, “acendendo na pira do filho o facho do himeneu com a mãe”, assim o conta Valério Máximo que também diz como em 651 Valério Valentino fora acusado por um poema pornográfico em que eram cantados o estupro de uma virgem e o desfloramento de um rapaz, com uma lubricidade genuinamente realista» (História da República Romana, Vol. III, Oliveira Martins. Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1952, p. 90).
[Texto 71]
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«Prédio de gaveto»

Mal explicado

      No texto fala-se de prédios, quartos e lojas de esquina, o que me levou a pensar que actualmente a expressão «de gaveto» também se ouve menos. Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado, prédio de gaveto é «a casa de esquina que forma um ângulo arredondado». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a expressão «de gaveto»: «diz-se do prédio com frente redonda, no ângulo de duas ruas». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é mais parco: «prédio de gaveto: prédio de esquina». Ora, todos os prédios de esquina serão prédios de gaveto? Por outro lado, afirmar que é o prédio com frente redonda é subestimar a fertilíssima imaginação dos arquitectos: há prédios de gaveto sem formas arredondadas.
      Creio que o conceito é desconhecido no Brasil.
[Texto 70]

 

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Léxico: «boletineiro»

RIP

      «“Dois telegramas para David Coates”, informou o distribuidor de telegramas.» Pronto, menos uma palavra a circular por aí. Apesar de tanta tecnologia ao nosso dispor, ainda se enviam telegramas — mas os tradutores, como os falantes comuns, já não conhecem o vocábulo «boletineiro». Veja-se o perfil de funções num documento do IEFP: «Entrega telegramas aos destinatários, deslocando-se, normalmente, em motorizada: recebe os telegramas e verifica as moradas indicadas a fim de determinar o percurso a efectuar; desloca-se ao local e entrega o telegrama, registando a respectiva data e hora e solicitando a assinatura do destinatário no documento comprovativo.» De motorizada actualmente, pois dantes, mesmo em grandes cidades, como Lisboa e Porto, era de bicicleta que os boletineiros, que trabalhavam muitas vezes até à meia-noite, se deslocavam. Só se podia ser boletineiro até aos 21 anos. Servia, muitas vezes, de tirocínio para carteiro.
[Texto 69]

 

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Particípio + substantivo

É como quiserem

      «Depois», escreveram aqui, «passados um ou dois dias habituei-me a estar com ele, mesmo nestas condições, embora uma tremenda melancolia começasse a pairar sobre a nossa relação.» Vou pôr João Gaspar Simões — coitado, tão esquecido agora, quase incitável — a responder: «Passado um ou dois meses, avisava o jornal de que, sentindo-se doente, regressava a Lisboa» (As Mãos e as Luvas: Retrato em Corpo Inteiro, João Gaspar Simões. Lisboa: Brasília Editora, 1975, p. 146).
      Anteposto ou posposto, o particípio concorda com o substantivo a que se refere. Neste caso, como o sujeito é composto, com os núcleos unidos pela conjunção ou a indicar alternativa, a concordância é feita com o núcleo mais próximo (o numeral «um»). Contudo, como há uma inversão — «Um ou dois dias passados» —, devemos admitir as duas concordâncias.
      «Magnífica como pano de fundo, para acompanhar; mas, se fica no primeiro plano, — passadas uma ou duas horas o nosso espírito, asfixiado, reclama ideias e pede acção» (Ensaios, Tomo II, António Sérgio. Lisboa: Seara Nova, 2.ª ed., 1929, p. 116).
[Texto 68]
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«Sofrer melhoramentos»

Cuidado com as analogias

      «O canil interior, de onde ecoam os latidos estridentes dos animais em boxes exíguas — onde dormem, comem e fazem as necessidades, acorrentados — vai sofrer obras que permitirão ampliar o espaço disponível» («Obras no canil e gatil de Monsanto prontas até Fevereiro de 2012», Marisa Soares, Público, 26.05.2011, p. 26).
      Boxe, seja para cavalos seja para cães, parece-me anglicismo desnecessário. Melhor: desnecessário no primeiro caso, pois temos o termo «baia», e inadequado no segundo. Sofrer obras ou reparações é correcto, mas repare-se como muitas vezes, decerto por analogia, se diz também «sofrer benefícios», «sofrer melhoramentos», que são impropriedades de expressão que se devem evitar.

[Texto 67]
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«Ter» e «possuir»

E «haver» e «existir»

      «O autor do vídeo, com 18 anos, por já possuir antecedentes criminais, poderá ser confrontado com uma pena de prisão efectiva» («Jovem agredida com violência já foi submetida a exames», Ana Rita Duarte, Público, 27.05.2011, p. 11).
      Só as poucas leituras e o escasso conhecimento da língua poderão explicar que os jornalistas não sintam diferenças de sentido entre possuir e ter, haver e existir.
[Texto 66]
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«Terno» e «fato»

Até em Cuba!

      «— Consegui dar-lhe uma medalhinha de S. Bento e disse-lhe para a usar de cada vez que mudar de terno e ele disse ‘Não me vou esquecer’, e deu-me dois beijinhos» («José Sócrates foi a Cuba e mesmo sem cantar ganhou uma medalhinha de S. Bento», Maria José Oliveira e Rita Siza, Público, 27.05.2011, p. 6).
      É o influxo das telenovelas brasileiras a fazer-se sentir. O falar alentejano já não é o do tempo de Manuel da Fonseca.
[Texto 65]
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Ortografia

Ne varietur, Deo gratias

      A propósito do lançamento da 2.ª edição da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, lembra Eduardo Pitta na última Ípsilon: «Em mais do que uma entrevista, Sophia reiterou esse seu modo de escrever: “A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança, que se deve escrever com ‘s’, como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada, uma letra pesada. Escrevo com ‘s’, mas há sempre o desastre de os tipógrafos ou as pessoas que me passam os textos à máquina acharem que é um erro e emendarem para ‘ç’...” (“Diário de Notícias”, 24-11-94.) Isso mesmo é verificável na exposição “Uma Vida de Poeta”, recentemente organizada por Teresa Amado e Paula Morão na Biblioteca Nacional. Sousa discorda: “Não tendo a autora determinado que tal singularidade passasse a ser regra na sua obra, seria abusivo considerar que Sophia pretendeu instaurar um preceito de uso ortográfico próprio” (p. 8) Assim desapareceu essa marca textual.»
      Eduardo Pitta parece ter pena que esta idiossincrasia ortográfica tenha desaparecido da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. A verdade, porém, é que tais idiossincrasias só trazem uma inútil e indecifrável carga de subjectividade. Se alguém ganha, não será o leitor.
[Texto 64]
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Artigo definido

Muito lá de casa

      No programa Hoje, na RTP 2, que acabou agora mesmo (ou acabou de acabar, se quiserem), a jornalista Sandra Felgueiras mostrou uma familiaridade que não pode passar em claro: ele é «o Sócrates» para aqui, «o Paulo Portas» para ali. Sandra Felgueiras é suficientemente nova para ter tido professores que falavam «do Camões», «do Vasco da Gama» e de outras personagens históricas. Aprendeu bem a lição... Que leia, pelo menos, a Estilística da Língua Portuguesa, de Rodrigues Lapa.

[Texto 63]

 

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«Apelar»: regência

Mais uma oportunidade

      «O vereador José Sá Fernandes diz que a câmara está a cumprir um “serviço público” e apela às pessoas para não abandonarem os animais» («Obras no canil e gatil de Monsanto prontas até Fevereiro de 2012», Marisa Soares, Público, 26.05.2011, p. 26).
      Senhora jornalista, não é essa a regência do verbo «apelar». Se não quiser aprender connosco, aprenda com Eça de Queirós: «E então o marquês, de pé e bracejando, apelou para Carlos, e quis saber o que é que Craft em princípio entendia por senso moral» (Os Maias, Eça de Queirós).
[Texto 62] 
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«Invocar/evocar»

E os revisores, senhores?

      «Quem defende a extinção do MC [Ministério da Cultura] evoca muitas vezes o argumento da transversalidade» («Um ministério ou uma secretaria de Estado é só uma questão de palavras?», Lucinda Canelas, Público, 26.05.2011, p. 7).
      Se os jornalistas consultassem mais os dicionários, as gramáticas e fossem estudando a língua, sua ferramenta de trabalho, não erravam tanto, ou pelo menos em aspectos tão básicos. Sim, alguns sabem e acertam: «O argumento da falta de um “relatório social” e de uma “perícia sobre a personalidade” do arguido já tinha sido invocado na Relação e no Supremo Tribunal de Justiça (STJ)» («Isaltino alega nulidade por falta de perícia sobre a personalidade», José António Cerejo, Público, 26.05.2011, p. 13).

[Texto 61]
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«Extra», «recorde», «ultravioleta»

A (quase) anómala invariância

      Primeiro: toda a língua portuguesa tende para a concordância. Segundo: excepções são casos anómalos que não deverão servir de paradigma. Terceiro: os adjectivos «extra», «recorde» e «ultravioleta» não são usados da mesma forma pelos falantes. Quarto: quando verifico que há hesitações, propendo sempre para a defesa dos princípios gerais da língua. Quinto: assim, defendo inequivocamente que «extra» e «ultravioleta» pluralizam em «extras» e «ultravioletas». «Recorde» é visto pela quase generalidade dos falantes como sendo invariável. «Dívidas recorde? Mas a que classe gramatical pertence “recorde”? Hum... talvez à dos advérbios...», tripudiava o leitor Montexto no Assim Mesmo. Bem, por muito que nos repugne, há adjectivos invariáveis quanto ao género e quanto ao número. Só não estranhamos se o próprio singular termina em s, como «pires» (que revela mau gosto; ridículo; vulgar; pretensioso). O que revela incompreensão da língua é grafá-lo como se fosse um determinante específico, o que de vez em quando no Público têm a infeliz ideia de fazer: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12).
[Texto 60]
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«Porta do Sol»

Em português

      «Os manifestantes da Porta do Sol, em Madrid, estão agora divididos: há quem queira manter o protesto, mas há também quem diga que chegou a hora de arrumar o acampamento» (Noticiário das 8 da manhã, Alexandre David, Antena 1).
      Talvez o jornalista Alexandre David viesse aqui deixar um comentário em que nos diria se foi pela leitura do Linguagista que ficou desperto para esta questão, mas não terá ficado contente com as únicas duas referências (aqui e aqui) que lhe fiz no Assim Mesmo. Paciência. Parabéns.

[Texto 59]
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Sobre «consigo»

A propósito de pronomes

      Em 1999, o leitor Faustino António Di, de Maputo, Moçambique, fazia esta pergunta ao Ciberdúvidas (aqui): «É correcto dizer “Depois falo consigo?” O meu professor de Português recomendou-me um trabalho de investigação no qual tenho de procurar saber porque é que a seguinte frase “Depois falo consigo” é incorrecta.» Resposta do consultor, um tal L. W.: «Num uso mais culto da língua seria preferível usar o verbo no futuro do presente: “Depois falarei consigo”. No entanto, está correcto utilizar o presente do indicativo para indicar um facto futuro, mas próximo. (Veja Celso Cunha e Lindley Cintra, “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1987: “Emprego dos Tempos do Indicativo”, página 448.).» Ter sido no século passado não é desculpa. Quase dez anos depois, a dupla Sandra Duarte Tavares/Carlos Rocha (aqui) perorava: «Em Portugal, o pronome consigo pode ter como referência o pronome você, pelo que é gramatical a frase “Eu caminhava e falava consigo sobre o que ocorreu ontem”, desde que a interpretemos do seguinte modo: “Eu caminhava e falava com você sobre o que ocorreu ontem.”» É idiotismo nosso, sem dúvida, mas umas décadas antes os professores de Português tachavam esse uso sem valor reflexo de idiotia, de solecismo imperdoável. A língua evolui mesmo, não há dúvida.
[Texto 58]
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Preposição comitativa

Sem tigo

      Claro que interessa saber que o pronome eu muda para mim depois das preposições a, de, em, para, por, contra, etc. Já tenho é dúvidas que interesse muito saber de cor — como homens da geração e formação do revisor antibrasileiro tanto valorizam — as formas pronominais -migo, nosco-, -tigo, -vosco, sigo-, pois usam-se sempre contraídas com a preposição com. Dantes, já aqui o escrevi, a preposição aparecia sempre assim: commigo, comtigo, comsigo, comnosco, comvosco. No português quinhentista, era assim, pois ainda estava viva a consciência da sua formação. Na língua arcaica, porém, dizia-se simplesmente migo ou mego, tigo ou tego, sigo, nosco e vosco, sem a preposição comitativa, e só depois se deu a reduplicação da preposição.
      Ouçam Francisco Louçã, ontem à noite no comício em Évora, a brincar com a língua: «Percorrem o País, estes homens que se apresentam: “Eu sou candidato a primeiro-ministro, eu vou governar talvez contigo, talvez sem tigo.”»
[Texto 57]
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«Tentadero/tentadeiro»

Ao tentame

      «Em Santarém, terra de touros e toureiros, matou-se um porco e assou-se, havia vinho e cerveja para um fim de tarde taurino. No tentadero (arena), uma vaca foi toureada e pegada» (Público, 24.05.2011, p. 4).
      É um espanholismo do âmbito da tauromaquia muito usado entre nós. E tentadero é mesmo «arena», como o jornalista amavelmente quis explicar? Para a última edição do Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, coordenado por Álvaro Iriarte Sanróman, que veio fazer esquecer os muitos disparates e as incompreensíveis omissões da edição anterior, de Julio Martinez Almoyna, tentadero traduz-se por tenta: «curral fechado para experimentar a bravura dos bezerros». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «tenta» é a «lide especial para observação da bravura de novilhos ou novilhas, pouco tempo depois da ferra». Nenhum dicionário confirma que «tenta» é também o local onde se realiza essa lide.
      Ora, não seria esperar demasiado que os dicionários registassem o espanholismo — ou seria? O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado não o regista, mas acolhe o aportuguesamento tentadeiro: «Lugar cercado, geralmente em forma circular, onde se procede às tentas do gado e onde o mesmo se ferra.»
      «É tão importante isto que em dias de vento ruidoso ou mesmo quando a brisa traga ao tentadeiro o perfume característico da campina, se devem evitar as tentas» (O Fado e as Touradas em Portugal, A. Martins Rodrigues. Lisboa: Publitur, 1969, p. 103).
[Texto 56]
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«Bramir/brandir»

Ao vêr-te brandir o alphange

      A secção «O Público errou», nos actuais moldes, e com meia dúzia de linhas, é ridícula. Hoje ficámos a saber que, afinal Lobo Xavier não participou na arruada com Paulo Portas no Porto, como ontem o jornal divulgara. Disparates de alto coturno como confundir «brandir» com «bramir» nunca lá os veremos: «Agora já não é a modernidade das renováveis e do carro eléctrico, ou a plasticina da imagem e das estatísticas, agora Sócrates resolveu aparecer como um político socialista tradicional, defensor dos mais pobres e desvalidos, bramindo o estandarte da luta de classes» («Luta de classes», Pedro Lomba, Público, 26.05.2011, p. 40).
      «É o mesmo povo que durante séculos brandiu o estandarte da União Árabe» (Dois Caminhos da Revolução Africana, Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, 1962, p. 26).
[Texto 55]
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Aspas

Seu esquizóforo

      «Uma referência para identificar o presumível criminoso era uma “mosca” no queixo» («Duas pessoas mortas a tiro de caçadeira em casa de alterne de Vila Nova de Cacela», Idálio Revez, Público, 25.05.2011, p. 25).
      Somente as aspas e dizer que é no queixo é que põem o leitor — ignorante e desatento — na pista certa: olha, não é o insecto díptero esquizóforo da subordem dos ciclórrafos, com cerca de 80 mil spp. descritas, que se dividem em caliptrados e acaliptrados e numerosas famílias. Porra!

[Texto 54]
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Linguagem

Comunicação e hematomas

      Ontem, o cirurgião José Fragata, autor do livro Erro em Medicina, afirmava que «“70 por cento dos erros de saúde são de comunicação”, onde se incluem a troca dos doentes ou as trocas de medicação» («Doentes admitidos nos hospitais públicos devem usar pulseira com identificação», Catarina Gomes, Público, 24.05.2011, p. 10). Hoje, o caso do dia, a adolescente agredida, também revela (só um psicólogo nos poderia abrir os olhos para isto) «uma incompetência das adolescentes na comunicação e na forma de regular emoções e lidar com conflitos», disse ao Público a psicóloga Margarida Gaspar de Matos («Metade dos jovens assiste a provocações e nada faz», Catarina Gouveia, p. 12). Num e noutro caso, os problemas de comunicação são deletérios ou, pelo menos, deixam nódoas negras.
[Texto 53]
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Informação



Caros leitores, mudei-me para aqui.


      Depois da última paragem do Blogger e da perda de centenas de posts, não havia outra solução. Este blogue será mantido, continuarei a aceitar comentários, mas não será actualizado. Com sorte (e alguma cunha no SAPO), todos os posts e comentários serão transferidos para o Linguagista.




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Léxico: «milagrar»

Da taumaturgia

      «Sylvie Testud interpreta uma rapariga tolhida pela esclerose múltipla que vai em excursão a Lourdes para fugir ao isolamento, mais do que por uma questão de fé ou esperando ser curada. Mas é ela que acaba por ser milagrada» («O curioso caso do milagre inesperado», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 12.05.2011, p. 47).
      Milagrar é fazer, operar milagres, mas tenho dúvidas. «Milagrar, v. i. Pop. Fazer milagres: “Quanto pode Santo António se lhe dá p’ra milagrar!” Cf. Romanc. Ger. Port., II, 535. — “Que por todo o mundo andavas, noite e dia, a milagrar.” Ib. 532» (Brotéria, 12, 1931).
[Post 4775]

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Linguagem

Menos descontracção

      «Portanto, sempre que temos um verbo no modo infinitivo, temos sempre de descontrair, ou não contrair, melhor dizendo, as preposições com artigo» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares, Antena 1, 3.05.2011). (É o que faço, mas Vasco Botelho de Amaral tinha, já aqui o escrevi, outra opinião.) Para descontrair, senhora linguagista, recomendo-lhe um miorrelaxante de acção central.
[Post 4774]
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Verbo «comparar»

Um estranho caso

      Ora vejamos outra frase que sai facilmente, diariamente, da pena dos jornalistas económicos: «Este valor do HSBC compara com as despesas operacionais totais de 37,7 mil milhões de dólares (26,2 mil milhões de euros) no ano passado.» Não haverá confusão com outro verbo intransitivo, como, sei lá, «contrastar»? E não seria melhor escrever que «este valor do HSBC assemelha-se ao das despesas operacionais, etc.»? Ora andai; dizei de vossa justiça.

[Post 4773]
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«Pentelho/pintelho»

Só para poetas

      «[…] e os jornalistas, em vez de discutirem como é que, quais são as medidas no sistema de justiça, como é que vão reforçar o poder dos directores da escola, como é que vão reforçar o ensino técnico-profissional, que é, vai ser uma revolução no programa, etc., em vez de andarem a discutir as grandes questões que podem mudar Portugal, andam a discutir — passo a expressão — pintelhos» (Eduardo Catroga, Negócios da Semana, Sic Notícias, 11.05.2011).
      Anda mal citado por aí — foi mesmo «pintelhos» que o coordenador do programa eleitoral do PSD disse. Grande admiração, reticências. Deviam pensar que só poetas e romancistas podiam usar a palavra: Jorge de Sena, Casimiro de Brito, Augusto Abelaira. «Desço a mão, cuidadosamente, quase um a um, afasto-lhe com os dedos os pintelhos até encontrar a abertura do sexo» (Sem Tecto entre Ruínas, Augusto Abelaira. Lisboa: Livraria Bertrand, 1979, p. 65).
      É verdade que a variante mais comum é «pentelho», e mesmo a única registada nos dicionários, mas não é por isso que se deve citar mal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista «cona» e «caralho», por exemplo, esqueceu-se de pentelho/pintelho.

 [Post 4772]
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Ortografia: «Simiídeos»

Só isto

      Estou aqui a ler que certos animais «estão muito afastados dos simídeos e dos humanos». Não, não. Ao i do primeiro elemento junta-se o i do controverso (ver aqui) sufixo –ídeo. Logo, Simiídeos. Não temos menos de cem vocábulos, de uso científico, com estes dois ii. Acridiídeo... zifiídeo. Contem-nos e depois digam qualquer coisa.

[Post 4771]
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«Miocénico»? «Mioceno»?

Sem nostalgias, mas...

      E a propósito de evolução. Tudo evolui. Dantes, ao que me parece, as eras, as épocas e os períodos geológicos eram sempre referidas pelos nomes Paleoceno, Eoceno, Oligoceno, Mioceno, Plioceno, etc. Agora parece que já não é assim. «Os primatas mais antigos, de pequeno porte, lémures e tarseiros, começaram a aparecer no Paleocénico, etc.» Acompanharão os dicionários esta mudança? Vejamos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o tal que está em todas as casas. «Paleocénico» não regista, por exemplo. E depois: «Eocénico  ⇒ Eoceno». «Cretácico ⇒ cretáceo». «Miocénico ⇒ Mioceno». Por enquanto, ainda com remissão.
      E esta «evolução» trouxe-me outra à mente: «mamaliano». Para distinguir adjectivo e substantivo, dizem os defensores.

[Post 4770]
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«Idêntico/semelhante»

Passo

      «“Sabíamos que o Tarbossaurus adulto era muito idêntico ao T. rex”, explicou por seu turno o coordenador do estudo Takanobu Tsuihiji, do Museu Nacional da Natureza, em Tóquio» («Tiranossauros adultos não competiam com jovens», Filomena Naves, Diário de Notícias, 10.05.2011, p. 32). Takanobu Tsuihiji disse: «We knew that adult Tarbosaurus were a lot like T. rex
      Já aqui o perguntei uma vez: a identidade tem graus? Se temos o vocábulo «semelhante», porque havemos de usar sem propriedade o vocábulo «idêntico»? Alguém imagina Camilo a escrever assim? (Risos) Talvez José Régio (aventa um): «Não se teria mostrado simplesmente incompreensivo, orgulhoso, estreito, agindo por força dum preconceito muito idêntico a tantos que lhe repugnavam?» (As Raízes do Futuro, José Régio. Porto:  Brasília Editora, 1982, p. 151).

[Post 4769]
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Etimologia de «fóssil»

Talvez fodere

      «O vocábulo fóssil deriva do termo latino fodere, “desenterrar”, via fossile, que significa “desenterrado”» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 22). Julgava lembrar-me que effodere (ou refodere) é que é, em latim, desenterrar; fodere é apenas escavar; infodere é, pelo contrário, enterrar. Seja como for, não queria deixar de partilhar o conhecimento desta etimologia.

[Post 4768]
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Sobre «corruptela»

A besta do ortógrafo

      «— Também a bésta, no II Concílio de Latrão» (O Homem do Turbante Verde, Mário de Carvalho. Lisboa: Editorial Caminho, 2011, p. 44). E lá vem, fatal, a nota a «bésta», assinada por MdC (o autor gostou da novíssima abreviatura do Banco de Portugal). Até eu sou favorável a acentos diferenciais, mas não exageremos, ou podemos ir demasiado longe. «O leitor reparou que o autor escreveu “bésta”, com aposição dum acento agudo. Quando era mais jovem, por timidez, em Os Alferes, deixou que lhe corrigissem o acento (dessa vez grave) que tinha colocado em “pègada” (assim) e que era imprescindível para que o vocábulo não se confundisse à primeira leitura com “pegada”, do verbo “pegar”. Desta vez, o autor quis mesmo desfazer a homofonia e a homografia, demarcando as heranças de “balista” e de “bestia”. Se a ortografia se ressentiu, pior para ela, e para os ortógrafos.
      Os autores costumam ter algumas prerrogativas de invenção vocabular, desvio semântico e liberdade sintáctica. Não lhes está vedado, até, inventar sinais de pontuação, como fez Sterne e aqueloutro escritor, de que não me recordo agora o nome, que criou o ponto de indignação.
      Fica aqui proclamado, no pequeno território deste conto, o direito de o escritor escolher a sua própria acentuação, como aquelas bandeiras que as nações colocam nas ilhotas, antes que se afundem.
      À semelhança do que aconteceu logo a seguir a 1911, alguns autores fazem questão de manter a ortografia prévia ao acordo destes dias. Eu não exijo tanto, até mais ver. Quero é o acento em “bésta”.»

[Post 4767]
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Sobre «corruptela»

De Torres Vedras a pulmonia

      «“Catrefada” vem de “catrefa”, que por sua vez é uma corruptela, ou seja, uma derivação da palavra “caterva”» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 10.05.2011).
      Corruptela, corruptela... Sim, «catrefa» é corruptela de «caterva», como «pulmonia», que se ouve um pouco por todo o País, é corruptela de «pneumonia». (E quando terá corruptela passado a designar a palavra que por abuso se escreve ou se pronuncia erradamente? Terá sido no século XIX?) Contudo, derivação aqui não designa o processo de formação de palavras, pelo que seria de evitar neste contexto linguístico. De resto, as corruptelas são assunto fascinante, e estão para a norma linguística como o organismo teratológico está para a conformação biológica normal. Mas há corruptelas e corruptelas, pois algumas nada têm que contrarie a norma num sentido sincrónico. Torres Vedras, por exemplo, é corruptela de Turres Veteres, expressão da baixa latinidade para Torres Velhas. E a Pontevedra dos Galegos (não é assim, Fernando?) era uma simples Ponte Velha. «Vedro», arcaísmo, foi adjectivo usado durante muito tempo na língua portuguesa.

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Regência de «ajudar»

Qual coroinha

      «O LIP, Laboratório de Instrumentação e Física de Partículas, criado para ajudar à participação portuguesa no CERN, organização europeia de investigação nuclear, assinalou ontem, em Coimbra, os seus 25 anos» («LIP criado há 25 para relançar ciência», Diário de Notícias, 10.05.2011, p. 32).
      Ajuda-se à participação como se ajuda à missa? Duvido. O verbo «ajudar» tem dupla regência: ajudar a («ajudar alguém a» + infinitivo) e ajudar em («ajudar em alguma coisa»: «ajudar em» + substantivo).
      «Pouco e pouco, obtive que ella viesse á igreja de quatro em quatro semanas, e n’essas occasiões já ella sabia que o seu filho era o menino que me ajudava á missa» (Novelas do Minho, Vol. 1, Camilo Castelo Branco. Lisboa: A. M. Pereira, 1922, p. 112).

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Léxico: «palangreiro»

No mar

      Como decerto saberão (ou pelo menos Miguel Esteves Cardoso e Rui Tavares saberão), a Comissão Europeia remeteu para aprovação no Parlamento Europeu o novo protocolo assinado ao abrigo do Acordo de Parceria de Pesca (FPA) entre a União Europeia (UE) e Cabo Verde, que deverá ser votado esta semana. Este acordo autoriza a pesca de navios europeus, entre eles portugueses, em águas territoriais cabo-verdianas: 28 atuneiros cercadores, 35 palangreiros de superfície e 11 atuneiros com cana. Quanto aos primeiros e aos últimos, creio que não há dúvidas — mas o que é um «palangreiro» e de onde veio o termo? Os dicionários gerais da língua portuguesa não o registam. A suspeita de que era vocábulo espanhol levou-me a consultar o DRAE: cá está: palangrero é o barco de pesca com palangre, que é o cordel comprido e grosso de que pendem de espaço a espaço uns cordéis mais finos com anzóis nas extremidades. O étimo do espanhol é o vocábulo catalão palangre: «Ormeig que consisteix essencialment en una corda llarga, anomenada mare, de la qual pengen unes altres cordes més primes, anomenades braçols, cadascuna de les quals va proveïda d'un ham al seu extrem lliure

[Post 4764]
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«Fora-da-lei»

A desacautelada

      «Ora, perante o grande número de foras-da-lei que aterrorizavam a zona [Carolina do Sul] em determinada altura, a população deu ao juiz Lynch carta branca para passar aquela que ficou conhecida como a lei de Lynch e que consistia na execução imediata do réu, dado como culpado, sem possibilidade de apelo e como parte integrante da sentença, execução essa que era feita nas instalações do tribunal e à vista de todos. Como se imagina, a injustiça, pela sua crueldade, passar desapercebida e o juiz que a praticou, John Lynch, deu origem ao verbo “linchar” e à expressão “ser linchado”» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 9.05.2011).
      Fora-da-lei é invariável, como se pode ver em qualquer dicionário: um fora-da-lei, mil fora-da-lei. Quanto a «desapercebida», é erro muito comum e já aqui tratado mais de uma vez. «Homem desapercebido, meio combatido», diz o adágio.

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Regência de «induzir»

Como os partos

      A frase é inventada, mas talvez todos os dias seja escrito algo semelhante pelos jornalistas económicos: «Analistas consultados pelo nosso jornal afirmam que a necessidade de consolidação fiscal nas grandes economias ocidentais, incluindo EUA, Reino Unido e França, vai induzir a um crescimento reduzido da economia.» Ora, na frase o verbo induzir não é bitransitivo, como é nestoutra: «Os remorsos, e a vergonha do vil officio que exercitava o induziram a tentar uma empresa gloriosa, cujo feliz resultado lhe servisse de rehabilitação moral» (História de Portugal, Livro II, Alexandre Herculano. Lisboa: em casa da Viúva Bertrand e Filhos, 1853, p. 399). Na frase do nosso jornalista, induzir é causar, provocar, originar.
      Outra vez: «Analistas consultados pelo nosso jornal afirmam que a necessidade de consolidação fiscal nas grandes economias ocidentais, incluindo EUA, Reino Unido e França, vai induzir um crescimento reduzido da economia.»

[Post 4762]
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Sobre «calaça»

Vem do porco

      «“Calaceiro” vem de “calaça” e a palavra, de origem grega, designava muito especificamente as partes da carne do porco que não eram aproveitadas para o consumo. Como se imagina, deviam ser muito poucas, pois que do porco, como bem se sabe, tudo se aproveita, até os pezinhos. De qualquer forma, calaça eram pois estes restos do porco e terá assumido o significado de “preguiça”, “mandriice”, porque os mendigos, ao baterem à porta das casas, pediam por calaça, ou seja, pediam as sobras, os restos quer de carne quer de outros alimentos. E da parte pelo todo, surgiu o termo “calaceiro” como aquele que pede calaça, sinónimo de mandrião, preguiçoso, que não trabalha e vive da mendicidade, à custa dos outros» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 6.05.2011).
      Lá terá as suas fontes. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribui para a elucidação da questão. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista a acepção antiga «foro que consistia numa porção de carne», mas trata-se de óbvia má interpretação do que diz Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu Elucidário. Para o honesto Morais, calaça era a «costela de porco, ou banda». Quanto a «calaceiro», dá-o como derivado, provavelmente, do espanhol calabacero. «Parece ser a costa, ou banda de um porco» registou Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo.

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Como se escreve nos jornais

A desorbitada

      «O arraso que os vários discursos presidenciais fizeram aos “políticos” e aos “partidos” pareceu-me também muito desadequado: todos eles foram e são políticos (sim, Eanes e Cavaco também).
      Além disso, não conheço democracias sem partidos. E, acima de tudo, penso que estas figuras de referência têm a obrigação de incentivar as novas gerações para a generosidade da política» («25 de Abril», Inês Pedrosa, Sol, 29.04.2011, p. 12).
      «Arraso» só pode ser linguagem de telenovela brasileira. A escritora não encontrou nada mais português. Sobre «desadequado», já aqui disse alguma coisa. E a regência do verbo incentivar é outra: incentivar a.

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Como se escreve nos jornais

O orbícola

      «A filha de D. João VI, nascida em 1638, casou com Carlos II de Inglaterra em 1662. O matrimónio consolidou a aliança anglo-portuguesa, especialmente importante nas décadas subsequentes à Restauração. […] A estátua foi encomendada à escultora Audrey Flack, que concebeu uma enorme Catarina em bronze, com jóias, uma orbe nas mãos e uma tiara na cabeça» («Catarina e a estátua», Pedro Mexia, «Atual»/Expresso, 30.04.2011, p. 3).
      Todos erramos, eu sei — mas nem todos temos um revisor a corrigir-nos. D. Catarina de Bragança era filha de D. João IV, o Restaurador (1604-1656). D. João VI, o Clemente, nasceu mais de século e meio depois (1767-1826). São ambos reis muito marcantes para serem confundidos, de qualquer modo. Consultei doze dicionários da língua portuguesa, e em todos «orbe» é registado como pertencendo ao género masculino.
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Catacrese

São só favas

      «Para quem ficou com água na boca, Hélio Loureiro revela os melhores truques para realçar o sabor das favas, como retirar-lhes a ‘camisa’, para ficarem mais macias. “A gordura e um toque de açúcar são também importantes”, lembra» («Malditas favas», Joana Ludovice de Andrade, Sol, 29.04.2011, p. 40).
      Quanto à gordura e ao açúcar, confirmo, a minha mãe ensinou-me o truque. Em relação à «camisa», parece-me catacrese escusada, pois sempre ouvi que as favas têm casca e pele. Porque, se a pele é a camisa, a casca é o casaco.
      A fava, sabiam?, é rica em iodo, e quem fala em iodo lembra-se de Marinho e Pinto e da recomendação que fez ao cronista Manuel António Pina (que aqui nos asseguram «que por acaso é um dos maiores portugueses vivos» — como é por acaso, custa menos a acreditar): «Senhor Manuel António Pina, não se atormente mais. O seu mal cura-se com uma dose apropriada de iodo. Trate-se! Vá para uma boa praia e... Ioda-se!»
[Post 4758]
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Léxico: «filo»

Uma pela outra

      Gostei muito do esventolada — era impossível ser mais expressiva. Para a troca, deixo-lhe outra (nestes tempos mais ou menos pacíficos — mas os Americanos lá assassinaram Bin Laden — menos útil, mais ainda assim) também expressiva: suspêndio, outro nome para a forca.
      E agora, como no circo, algo completamente diferente. «O artifício fraudulento, salvo diferenças de pormenor, obedecia ao seguinte esquema: açudado e de aflição estampada no rosto, o burlão aproximava-se da vítima a lamentar ter em seu poder um vigésimo premiado com cem contos, que infelizmente já não podia rebater por terem acabado de encerrar os estancos da lotaria» («O vigésimo premiado e o aeroporto de Beja», José Marques Vidal, Sol, 29.04.2011, pp. 30-31).
      Senhor magistrado jubilado, está errado: açudar e açodar são parónimos. Com u são todas as que dizem respeito à represa de água, açude. Com o, que era o que deveria ter escrito, é apressado em demasia. Não vou ser severo, pois o ex-magistrado até me revelou uma palavra que eu desconhecia: «Se o patarata engolia o logro, logo ali ficava sem os vinte contos que acabara de retirar do banco. Se mostrasse desconfiança, intervinha o filo, o auxiliar do burlão, que se aproximava a evidenciar interesse pelo negócio, munido de uma lista dos prémios da lotaria onde, escarrapachado, ao número do vigésimo exibido correspondia a batelada de cem contos sem sombra de dúvida» (idem, ibidem). Agora acode-nos Afonso Praça: «Filo (cri.) — Aquele que tem por missão preparar o otário no conto do vigário» (Novo Dicionário de Calão. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p. 109).

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Gentílicos e maiúscula

Rigor germânico

      «Os Gregos abordaram de forma inútil o movimento dos corpos e confundiram o mundo durante 2 mil anos: o seu estilo de formular questões sentados em poltronas era mais apropriado à matemática e à ética do que à física» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 112).
      Só serve para exemplificar, porque está correcto. A última moda, ao que vejo, é grafar com maiúscula inicial apenas os gentílicos antigos! Celtas, Maias, Astecas... Acreditem. Tudo sancionado por revisores, imagino. Só gente como eu e Harri Meier († 1990), um simples romanista conceituadíssimo, propugnam o contrário (e as gramáticas, claro): «Nos etnónimos, exige-se a maiúscula quando se trata das populações em conjunto, seja que a coletividade se exprima no plural ou no singular (os Portugueses, “o Português gosta de bacalhau” = “os Portugueses”), ao passo que precisamente as individualizações requerem a minúscula (muitos americanos, quaisquer americanos, o brasileiro)» (Ensaios de Filologia Românica, Vol. 1, Harri Meier. Rio de Janeiro: Grifo, 1974, p. 199). Só não faço assim quando o «livro de estilo» das editoras manda fazer o contrário.
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Prefixo «co-» e hífen

Caos

      «A co-evolução do parasita e do hospedeiro, cada um dos quais fornece um ambiente em rápida mudança para a evolução do outro, requer um tipo de resposta especial e rápida, que o sexo pode proporcionar» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 51).
      Coevolução ou co-evolução? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não quer comprometer-se, e por isso, se regista «coeducação», não regista «coevolução». Depois do novo acordo ortográfico será mais simples. Antes, ou seja, agora e até 2016 (Maio ou Setembro, Fernando?), se o prefixo significa «a par», «juntamente», exige hífen — co-eleitor, co-esposa, co-eterno —, como se lê no sítio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde se previne: «A regra, no entanto, não se aplica facilmente e de forma coerente, razão por que, em caso de dúvida, é sempre melhor consultar um dicionário.» Consultemos então a edição portuguesa do Dicionário Houaiss, porque regista ambos os vocábulos. Lá está: «co-educação» mas «coevolução». Pergunto: não significa o prefixo, em ambos, «a par», «juntamente»?

(Já aqui tínhamos visto cogeração/co-geração.)
[Post 4755]
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Concordância verbal

Oiçam esta

      Depois de ter dito que «malabarismo» veio de Malabar, a região na costa ocidental da Índia e dos seus habitantes, Mafalda Lopes da Costa entrou na substância do conceito: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se podem ver fazer nos circos» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 3.05.2011).
      Numa locução verbal formada por um verbo modal (poder, neste caso), a concordância verbal é feita obrigatoriamente entre o verbo modal, o único que deve concordar em número e pessoa, e o sujeito. E qual é, na frase, o sujeito? Querem ver que é o sujeito da oração anterior, da subordinante?
      E quem escreveu no sítio do programa «Fazer Malabarismos e os Conturcionistas»? Em contorções, nas vascas da agonia, fica a língua com estes desmazelos. Todos os problemas ortográficos, comparados com este erro, são nada.

[Post 4754]


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Uso do itálico

Latins

      O uso do itálico também intriga. Alguém tem alguma teoria? Há latim e latim... «Assim, os seres humanos são classificados (ironicamente, segundo alguns) como a espécie Homo sapiens, do género Homo, pertencente à família Hominidae, superfamília Hominoidea, da infra-ordem Catarrhini, subordem Anthropoidea, ordem dos Primatas, subclasse Eutheria, classe dos mamíferos, superclasse dos tetrápodes, que é membro do subfilo dos vertebrados, filo dos cordados, no reino animal, domínio dos eucariontes no império dos organismos» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 16).

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Tradução

Meia tradução

      Para um trabalho, tive de pesquisar informação relacionada com a evolução do Homem. Abundam, é claro, as traduções. E vê-se logo que são traduções. O original fala de «Olduvai Gorge»? Na tradução fica «Olduvai Gorge»! «Em 1962, Louis Leakey, o decano dos caçadores de fósseis de hominídeos, encontrou os restos de um hominídeo que usava instrumentos quando escavava em Olduvai Gorge, na planície Serengeti, na Tanzânia, que identificou como a nova espécie Homo habilis («homem hábil»), com cerca de 1,8 milhões de anos» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 56).
      Não é garganta, ou desfiladeiro, ou abertura, ou aberteira, ou portela — é Gorge! (E não é planície do Serengeti?) O original fala em «Gorham’s Cave»? Na tradução fica (mas não li ainda na tradução citada) «Gorham Cave»!

[Post 4752]
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