Sobre «golpear»

Ainda bem que é usada

      «E se poderão “fazer harakiri”, ritual dos samurais no Japão, que consistia em golpear o ventre para, por exemplo, recuperar a honra ou evitar ser sequestrado» («Comunistas apelam contra o voto suicida dos jovens», Carla Soares, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 6). «Segundo fontes policiais, esta suspeita ainda não foi confirmada. Apenas que terá sido o animal a golpear, no mesmo dia, uma sobrinha da vítima mortal, perto do local onde o corpo foi encontrado» («Autoridades já têm carneiro suspeito», Paulo Julião, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 23).
     Reparem como o verbo «golpear» foi usado acima em dois sentidos diferentes. Actualmente, a segunda acepção — dar pancadas, como se lê no dicionário de Bluteau — anda arredada da linguagem do dia-a-dia e dos dicionários, pelo menos de forma tão explícita.
[Texto 75]

«Maca», uma acepção

Fala ainda o marinheiro


      Quando ouvimos a palavra «maca», quase sempre nos vem à memória a imagem de uma espécie de cama, assente numa armação móvel e articulada, com ou sem rodas, para transportar doentes, feridos ou mortos. No entanto, vejam: «Na manhã seguinte toca o clarim a alvorada às 7h00. Chegou a altura de forrar as macas... para leigos no assunto, como nós, era um trabalho impossível de fazer; pendurar a maca pelas aranhas, dobrar os cobertores[,] os quais[,] juntamente com o travesseiro[,] tem o seu lugar apropriado dentro da maca. Um cabo com cerca de 3 metros (o cabo de tomadouro) tinha que dar 5 voltas à maca, esta ficava com a configuração de um chouriço gigante e depois de ferrada era pendurada na tarimba[,] que[,] por sua vez[,] era alçada na vertical. Depois de várias tentativas éramos quase mestres na arte. A Maca de Marinheiro era usada em quase todas as Marinhas do Mundo e a sua origem remonta aos tempos dos navios de vela» («A minha instrução de recruta», Ramiro Bandeira Martins, Combatente, Dezembro de 2009, pp. 49-50).
      No início, pensei — até porque a incompetente revisão (mais um curioso a fingir que é revisor) de António Costa autorizava-me tal pensamento — que o autor teria escrito ou queria escrever hamaca. A verdade, porém, é que uma das acepções, dicionarizada, de maca é cama de lona, suspensa, em que dormem os marinheiros a bordo, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E maca vem de... hamaca. E mais: nenhum dicionário, ao contrário do que eu supunha, regista hamaca.

[Post 3312]

«Compasso», uma acepção

Sr. engenheiro


      Por estes dias, ouve-se falar muito do compasso pascal, que é o regionalismo com que se designa a visita do pároco às casas da freguesia, quando vai receber o folar. Ainda hoje de manhã se falava disto na Praça da Alegria. Contudo, ainda ontem me falaram de outro compasso, e este não está nos dicionários. Dizia-me ontem um tio por afinidade que ia mandar plantar um pomar com as fruteiras (ele fala assim, como os engenheiros agrícolas) num compasso de 5 por 6. Hã?
      Como dizia Pedro Castro numa das emissões do concurso Falaescreveacertaganha, «há uma coisa que se chama tirar pelo sentido». Eu só conhecia, de mais semelhante, a locução a compasso, que significa «com intervalos iguais». Isto tinha de ter que ver com distância, pensei. E tem: compasso é o nome que, neste contexto, se dá à distância entre árvores.

[Post 3300]

«Imprensa escrita»

E é mesmo


      Quando um leitor me exprobrou por eu ter usado num comentário a locução imprensa escrita, esqueceu-se de dar uma olhadela aos dicionários (ou a alguns) e de reflectir. Vejamos. Se a acepção mais corrente de imprensa é conjunto dos jornais e publicações afins, não nos podemos esquecemos de outra acepção, registada em alguns dicionários: os meios de comunicação social. «2009 foi um mau ano para a imprensa escrita» (Alexandre Elias, Diário de Notícias, 19.3.2010, p. 58).

[Post 3292]

«Alma», uma acepção

Está bem


      A alma não é apenas o princípio da vida e do pensamento. Este vocábulo tem mais de uma dúzia de acepções. Entre elas, a de superfície interior do cano de uma arma de fogo que pode ser lisa ou estriada. É uma extensão do sentido desta acepção que foi usada no seguinte texto: «Instalada num parque industrial com 23 hectares, a Prebesan é a única empresa em Portugal a fabricar tubagens para redes de água sob pressão, emissários submarinos ou estruturas de regadio com ‘alma’ de aço, o que a diferencia da concorrência» («Duplicou negócios apesar do ano de crise», João Nuno Pepino, Revista do Aniversário CM/Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 24). Nestes casos, sim, justificam-se as aspas.

[Post 3266]

«Congelar», uma acepção

Petrificado

      «Na conta bancária, que foi congelada, tinha 355 mil euros» («Idosa emprestava com 30% de juro», A. S. C., Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 51).
      A melhor definição é a do Dicionário Houaiss: «tornar momentânea ou definitivamente indisponível (dinheiro, bens, etc.); bloquear, imobilizar». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem sequer regista o vocábulo (vejam lá isso, meus senhores). É, como regista aquele dicionário, uma derivação por metáfora. E se é mais vulgar referir-se a dinheiro, também se vê aplicado (e a definição reflecte-o) a bens: «As casas, os carros e as contas bancárias da família (excluindo o património do filho, José Augusto de Oliveira e Costa) estão congelados com o objectivo de compensar o buraco de quatro mil milhões de euros que Oliveira e Costa deixou no BPN» («Retiram bens a clã Oliveira e Costa», Miguel Alexandre Ganhão, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 10).

[Post 3262]

Outra acepção ignorada

Casa grande, sim, mas...


      «O vento forte provocou ainda o desmoronamento de um casão agrícola, destelhou dois anexos e destruiu cercas nas herdades da Granja e Azinhal, que se estendem pelos concelhos de Nisa e Crato, no distrito de Portalegre» («Vento derruba azinheiras centenárias», Global Notícias, 24.2.2010, p. 4).
      Julgo que nenhum dicionário regista a acepção usada na frase. É sinónimo de barracão, mais ou menos o galpão brasileiro.

[Post 3181]

«Senador», uma acepção esquecida

Melhores dicionários


      «Eu tenho a certeza de que António Vitorino, que é um senador, um pai da pátria no Partido Socialista e no país, com a minha modesta ajuda de senador no Partido Social Democrata, nós, em conjunto, consigamos convencer as lideranças dos dois partidos, e sobretudo explicar à opinião pública portuguesa a importância da convergência num momento em que, em Portugal, como em Espanha, a clivagem é a tentação mais sedutora», disse ontem Marcelo Rebelo de Sousa, durante um «almoço-colóquio», na Câmara Hispano-Portuguesa (CHP), em Madrid.
      Senadores... Com a Constituição de 1838, que instituiu um sistema bicameralista, é que havia uma Câmara de Senadores, que era electiva e temporária. Senador era cada um dos membros desta câmara, que foi extinta em 1842. Os senadores tinham herdado as competências da Câmara dos Pares. Era obrigatório o seu parecer para aprovação de iniciativas legislativas e constituiu-se também como Tribunal de Justiça. A relevância da função é notória, e é o prestígio associado ao cargo que se pretende exprimir quando se usa, em sentido figurado — que nenhum dicionário atesta —, o termo senador. Não raramente, os meios de comunicação social usam o termo para referir, por exemplo, o ex-presidente da República Mário Soares.
      Vamos redigir, em conjunto, uma definição e oferecê-la às editoras de dicionários?

[Post 3161]


Actualização em 11.3.2010

      Com aspas ou sem aspas e sem estar dicionarizado, o vocábulo continua a ser usado: «O PSD avançou ontem com alguém que designou como “senador da República” para presidente da comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao caso “Sócrates/PT/TVI”» («‘Senador’ Mota Amaral preside à CPI sobre caso ‘PT/TVI’», JPH, Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 3).

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