Nomenclatura científica

Afinal, pouco mudou

      «Aparentemente inofensiva, a espécie Achatina Fulica transporta ocasionalmente um parasita que causa meningite nos humanos» («Miami luta contra praga de caracóis africanos gigantes», C. R. F., Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 26).
      Voltamos aos erros de sempre. E ainda eu escrevia no Assim Mesmo, em Março deste ano, que a «nomenclatura científica lá está a entrar na compreensão de todos, depois de tantas cincadas e tantas críticas». É Achatina fulica que se escreve, caro C. R. F. A razão, se quiser sabê-la, encontra-a naquele blogue ou noutro sítio.
[Texto 500]
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Erros

Nem vamos ver nem obrigado

      «O degelo e consequente perda da cobertura gelada da Groenlândia não são afinal tão drásticos como se pensava e, por isso, o mais recente Atlas do Mundo, publicado pela Times Book e considerado uma referência a nível mundial, dá uma visão incorrecta daquela região» («Erro no ‘Atlas do Mundo’ da Times Book», Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 30).
      Isto é pasmoso: quanto mais tecnologia, mais erros. E o atlas só custa cerca de 200 euros. Julian Dowdeswell e um grupo de cientistas do Scott Polar Research Institute, da Grã-Bretanha, enviaram uma carta à editora em que afirmaram, pois é o que se pode ver em imagens de satélite recentes, que a diminuição da cobertura gelada não foi tão acentuada, mas a editora desculpou-se: os dados a que recorreu são os do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) norte-americano.
      (É uma curiosidade que sinto há muito: será que quem opta por escrever Groenlândia também diz Groenlândia? Algo me diz que não.)

[Texto 499]
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Como se escreve nos jornais

Meteorologia popular e dicionário

      «O relâmpago, afinal, caiu duas vezes no mesmo sítio» («Pearl Jam e o ‘grunge’ em filme vinte anos depois», Rui Pedro Tendinha, Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 47).
      Depois do relâmpago de Filomena Naves, o relâmpago de Rui Pedro Tendinha. Como é que se pode confundir raio com relâmpago? Este é apenas o clarão vivo e rápido que acompanha a descarga eléctrica — o raio propriamente dito. Difícil? A deturpação de Rui Pedro Tendinha alude à crendice popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
[Texto 498]
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Como se escreve nos jornais

Como um raio

      Foi descoberto um fóssil de um dinossauro trodonte terápode, o Talos sampsoni, nos Estados Unidos. «O líder da equipa de paleontólogos que o encontrou e estudou, Lindsay Zanno, da Universidade de Wisconsin-Parkside, não tem dúvidas de que esta descoberta “é como uma espécie de relâmpago, um acaso de proporções fantásticas”, como afirmou» («Primo mais novo do Velociraptor descoberto», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 30).
      Tudo muito bem (pese embora o «líder»), mas o «relâmpago» não me soa nem me ilumina. Parece que Lindsay Zanno (afinal uma bela líder) disse «is like a lighting strike». Ou terá sido «lightning strike»? As fontes divergem...

[Texto 497]
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«Cortar relações»

Se lessem mais — ou melhor...

      «O jornal Sunday Telegraph encontrou entretanto em Trípoli documentos mencionando duas visitas do antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair à Líbia, em Junho de 2008 e Abril de 2009, quando Trípoli ameaçava cortar as relações comerciais com o Reino Unido, se o bombista de Lockerbie, Abdelaset al-Megrahi, não fosse libertado de uma prisão escocesa onde cumpria pena pela morte de 270 pessoas» («Líbia falha governo para um país que tenta regressar à normalidade», Maria João Guimarães, Público, 19.09.2011, p. 14).
      Cá está o Sr. Gerúndio numa festa para a qual não foi convidado e — motivo deste post — Trípoli a cortar as relações como quem corta, a comparação é de Camilo, as unhas.

[Texto 496]
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«Apanhar/levar um bigode»

O diabo está nos pormenores

      «Mas todas as tapeçarias da série são um desafio à concentração do visitante do século XXI. O diabo está nos pormenores: cada tapeçaria [de Pastrana] é um amontoado de figuras humanas, lanças, armas, armaduras, embarcações, sem um centro aparente. Um bigode a quem pensa que vive numa era de excesso de informação» («O esplendor de Portugal para tempos de crise», Kathleen Gomes, «P2»/Público, 19.09.2011, p. 5).
      «O diabo está nos pormenores», admito, é um achado. Já quanto ao «bigode», muita coisa ficou no tinteiro: então não é apanhar ou levar um bigode, isto é, ficar derrotado, humilhado, que se diz?

[Texto 495]
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«Iludir/eludir as responsabilidades»

Ilusões ou talvez não

      «Mas os organismos competentes também não podem iludir as suas responsabilidades» (do editorial da edição de ontem do Público, p. 30). Podemos iludir as responsabilidades como se ilude a polícia? Talvez se elidam, iludam, eludam, aludam e, no caso da Madeira, se faça trinta por uma linha e ninguém o impeça jamais. Iludir é também, em sentido figurado, recorrer a métodos habilidosos para não cumprir ou realizar qualquer coisa. Fugir a qualquer coisa — e diz-se correntemente fugir à responsabilidade. Eludir, por sua vez, verbo quase desconhecido dos falantes, é sinónimo de evitar com destreza.

[Texto 494]
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Acordo Ortográfico

Erro manifesto

      «Tudo à roda, como já perceberam, das temíveis contradições entre o que se diz e o que se escreve. Daí que os génios do AO tenham descoberto aquela que ficará como uma das afirmações mais idiotas deste jovem século: “Não se pronuncia, não se escreve.” É isso que dita, no AO, a morte das consoantes mudas. Mas serão assim tão mudas? Um exemplo curioso e brasileiro: no infinitivo impessoal dos verbos terminados em –er ou –ar, nunca o “r” é pronunciado. Comer, correr, bater, dever, diz-se naturalmente “comê”, “corrê”, “batê”, “devê”; tal como nadar, comprar, voar, andar, se diz “nadá”, “comprá”, “voá”, “andá”. Para lá da etimologia, não é difícil perceber que a vogal final é aberta por causa do “r” que fecha a palavra. Sem “r”, teríamos de ler “come”, “corre”, “bate”, “nada”, “compra”, “voa” e por aí fora. Por isso, a consoante aparentemente muda de tais palavras, afinal, “fala”. E acentua as vogais. Mas, como “não se pronuncia, não se escreve”, ainda um dia esse “r” final será abatido» («São mudam mas “falam”», Nuno Pacheco, Público, 19.09.2011, p. 3).
      «Nunca» é mentira ou exagero ou loucura. Por outro lado — no caso, o único lado que merece um minuto de reflexão —, não estamos a falar de registos do português padrão, logo, longe das cogitações dos «cientistas» que negociaram o acordo. Quando, em 1819, frei Francisco dos Prazeres (1790-1852) comentou o português falado por indivíduos rústicos do Maranhão, deu como exemplo precisamente, entre outros, a queda do r final (má, pescá, abraçá, feitô, amô). Erre final de qualquer vocábulo — não apenas de verbos e muito menos, valha-me Deus, do infinitivo impessoal. E o infinitivo pessoal fica de fora porquê?

[Texto 493]
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«Estar ao facto»

Outras digressões

      «I explained that I knew nothing about it», responde Copperfield ao Dr. Spenlow. Cabral do Nascimento traduziu: «Repliquei-lhe que não estava ao facto.»
      Estar ao facto ou pôr-se ao facto — outro galicismo. Nos últimos dias, é só galicismos. Em francês é que se diz être ao fait, se mettre ao fait. No caso, estar ciente, por exemplo, ou simplesmente estar a par seria mais adequado. Felizmente, este deixou poucos seguidores.
[Texto 492]
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«De resto»

De reliquo

      Agora já encontrei autores que afirmam que «de resto» é um galicismo fraseológico, que está em vez de «quanto ao mais». Mas Vittorio Bergo (Erros e Dúvidas de Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1986, p. 121) escreve: «DE RESTO – Locução acoimada de galicismo mas defendida e abonada por bons autores, já que traduz o latim de reliquo. “De resto, tratavam-se com aparente cordialidade.” (AH, Lendas, II, 252).» Se Alexandre Herculano usou...
      Por acaso estou a ler uma tradução do francês, com o original à frente, e comprovei que as seis ocorrências de du reste que apresenta foram todas pobremente vertidas por «de resto». Ora, não se podia traduzir uma ou outra por «finalmente», «aliás», «além de que»?... Nem temos necessidade de lançar mão de formas mais coriáceas como «ademais» e mesmo «quanto ao mais».
[Texto 491]
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Sobre «dióspiro»

Já vem dos Gregos

      «Só os diospiros, este ano, cumpriram a ordem contemplada. Tão doce como maldita e mal amada. Espero a mesma ortodoxia por parte das romãs. Têm a virtude de ficarem bem em casa, sem perigo de serem comidas» («Dá Deus nozes», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.09.2011, p. 39).
      É assim que muita gente diz ­e escreve — mas mal, pois é vocábulo proparoxítono, embora na página 1264 o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa ache que é indiferente. E como a primeira forma que registada neste dicionário é «diospiro», estará por aí explicada a prevalência. Mais avisado andou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, que só regista a forma esdrúxula.
      («O Atlas Linguístico de Portugal deveria começar precisamente por estas investigações in loco, que têm a virtude de ser mais completas e até por vezes exaustivas» (Miscelânea de Língua e Literatura Portuguesa Medieval, Manuel Rodrigues Lapa. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1982, p. 406)).

[Texto 490]
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Acordo Ortográfico

Tu és Pedro, e sobre esta pedra

      Há minutos, Pedro Rolo Duarte, no programa Hotel Babilónia, da Antena 1, usou a palavra «estupefacção». E pronunciou — coisa que eu nunca tinha ouvido em dias da minha vida — sonoramente o primeiro c: estupefaCção. Estupefacto fiquei eu. Bem, sendo assim, não está capaz de aplicar as regras do Acordo Ortográfico. Agora leia-se esta afirmação do consultor D’Silvas Filho no Ciberdúvidas: «Os cientistas que estudaram o novo AO resolveram uniformizar foneticamente as sequências consonânticas. Assim, consegue-se mais facilmente saber se a consoante se escreve ou não: cai se for muda na pronúncia. Por exemplo, em Portugal, deve escrever-se estupefacto porque o c se pronuncia, mas estupefação porque nesta palavra já não se pronuncia o c.» (A primeira frase é um tudo-nada esotérica, acho eu, e não é tanto pelos «cientistas».)
[Texto 489]
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Prefixo «contra»

Está na hora

      «Alega José Rocha Quintal que “não seria de bom senso avançar para o julgamento sem esses elementos”. Mas há outras questões a ter em conta, até porque o advogado de defesa do jovem admite pedir “contra-perícias”. E se se esgotar o prazo de prisão preventiva? “Haverá essa possibilidade. O Luís teria de ser colocado em liberdade para enfrentar o julgamento”» («Atraso de exame pára julgamento», Paula Carmo, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 16).
      A lógica deve ser esta: como é demasiado simples, deixam isso para os leitores. Não me parece bem, pois eu paguei o jornal — façam favor de escrever bem. Nos compostos formados com o prefixo «contra», só se emprega o hífen quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s.

[Texto 488]
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«Há séculos atrás»

Lamento

      «Por muito que se goste de chorar o passado ou preferir o presente, a História demonstra, em traços largos, que o futuro é sempre melhor para a maioria das pessoas. A sensação do dia-a-dia de estar tudo cada vez pior perde sempre quando é comparada com as condições há apenas um século atrás. Nem é preciso recuar no tempo — basta ver a facilidade com que se morre nos países muito mais pobres do que o nosso, que são muito mais do que metade dos que existem. Nos mais pobres, a expectativa média de vida é igual à nossa há dois séculos atrás» («A hora e o ano», Miguel Esteves Cardoso, Público, 16.09.2011, p. 41).
      Uma vez já seria grave — mas duas e logo no mesmo parágrafo? Pouca gente actualmente resiste ao modismo — e erro, pois que, ao empregar-se o verbo haver com expressões de tempo, não deverá incluir-se nunca o advérbio atrás.

[Texto 487]
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«Nom de voisinage»

Das Antilhas

      Ora aqui está algo curioso. Nas Antilhas (apenas?), os indivíduos têm um nom de voisinage, um nome dado pela comunidade mais próxima onde vivem, duplo essencial de todo o nome oficial. Numa tradução, porém, deveremos traduzir à letra — «nome de vizinhança» — ou procurar uma melhor correspondência? E alcunha, serviria?

[Texto 486]
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«Flamenco/flamengo»

Depende, não é?

      «A mestiçagem cultural pode ser criativa. Tomemos um exemplo que me apraz particularmente: o flamengo. Eis uma música que expressa a alma do povo cigano, uma música simbiótica, enriquecida pelas suas influências indiana, árabe, judia, celta... fundidas num som original.»
      O leitor Rui Almeida acabou de ler este excerto na página 17 da obra Como Viver em Tempo de Crise?, «um conjunto de dois textos», escreve-me, «um de Edgar Morin e outro de Patrick Viveret, traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Junho de 2011). A julgar por uma referência que encontrei online, o termo usado por Morin no original é “flamenco”. Consultados os dicionários cá de casa, não tenho dúvidas de que o tradutor confunde uma dança com uma língua (ou será com um queijo?...).»
      Creio já ter escrito sobre esta confusão. Mas será mesmo confusão? A julgar pela maioria dos dicionários, assim é. Consulto, porém, um dicionário publicado no Brasil — onde, como decerto saberão, se fala português —, o Dicionário de Termos e Expressões da Música, de Henrique Autran Dourado (São Paulo: Editora 34, 2008, 2.ª ed., p. 132), e vejo que o autor considera que a música e a dança da Andaluzia se chamam, indiferentemente, flamenco, flamengo ou flamingo.

[Texto 485]
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«Eu saibo»

Porque eu saibo-te a pouco

      O empregado de uma empresa têxtil (hum...) errou: «A 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter o sabor ou gosto de é “sei”, ou “saibo”, ou não existe essa forma verbal?» «A resposta correcta é “eu saibo”. Ora, o verbo saber, como os nossos caríssimos ouvintes sabem, pode significar duas coisas. É um verbo que tem dois significados. Ou ter conhecimento ou ter sabor. É curioso que no paradigma de conjugação deste verbo, só nesta 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é que nós temos diferença nas formas. Se se trata de ter sabor, se se trata de ter conhecimento. Se for ter conhecimento, como nós sabemos, a forma que corresponde à 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é “eu sei”. Se for o saber de ter sabor, é efectivamente “eu saibo”. “Eu saibo” é a forma do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter sabor» (Sandra Duarte Tavares, Jogo da Língua. Antena 1, 16.09.2011).
      Perante a estranheza, a absoluta anomalia desta forma verbal, faltou dizer o principal: que se formou por analogia com caibo, do verbo «caber».

[Texto 484]
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Como se fala por aí

Sonhos inarticulados

      Catarina Furtado foi fazer uma reportagem à Ilha de Moçambique. Ouçam-na: «“Desta vez vamos para um sítio que eu sempre sonhei ir e tenho como imagem a grande reportagem que o meu pai fez para a RTP, há muitos anos, era eu uma miúda. Lembro-me de que me fascinou imenso. É daquelas curiosidades que ficam”, contou» («Em Nampula a cumprir um sonho de criança», A. F. S., Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 51).
      Só não sabemos se Catarina Furtado se exprimiu assim ou se é tudo da lavra do jornalista. Claro que isso é o menos importante — por muito que alguns, habitualmente os visados ou anónimos sem procuração, pretendam ver o contrário —, pois não uso de argumentos ad hominem (nem ad feminam). Temos é de meter na cabeça que é errado e que fica mal na boca de uma comunicadora ou na pena de um jornalista.
[Texto 483]
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Como se escreve nos jornais

Uma tentativa

      «Alvejado em órgãos vitais, Hilário Soares acabaria por morrer no local. Depois de consumar o homicídio, Adelino Almeida regressou à sua vivenda. Terá esboçado o suicídio, mas entretanto chegaram os bombeiros» («Discussão de honra acaba com morte a tiro», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 18).
      Um dos sentidos figurados de esboçar é iniciar uma acção ou gesto sem o completar, mas não deixa de ser estranho escrever «terá esboçado o suicídio».

[Texto 482]
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Léxico: «alíquota»

Só se explicarem

      «Os relatores consideram mesmo que não é possível “determinar se a causa das lesões dos ofendidos resultou da troca do fármacos [sic], se existiu troca e em que momento é que a mesma ocorreu”. O relator, o presidente do Conselho Jurisdicional Regional de Lisboa, Joaquim Marques, apoiado pela consultora jurídica Ana Varejão, detectou “fragilidades” naquele serviço hospitalar, como o facto de não existirem regras escritas para a utilização de sobras de medicamentos (tecnicamente designados de alíquotas)» («Ordem arquiva caso dos cegos de Santa Maria», Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 14).
      O primeiro obstáculo para a compreensão é logo a falta de concordância — pois não é aos medicamentos, mas às sobras destes, que se dá a designação de alíquota. É acepção, da gíria médica, que os dicionários não registam. Alíquota — é a única acepção dicionarizada — é a parte que está contida num todo um número exacto de vezes. Não deveria figurar entre as falhas nas «Expressões médicas: falhas e acertos»?
      Mas, entretanto, registe-se. Alíquota: sobra de fármaco extraído da embalagem original.

[Texto 481]
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«Pôr em causa»

Mudança de paradigma

      Jornalista Nuno Rodrigues, no noticiário das 8 da manhã na Antena 1: «Tudo isto numa altura em que a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, fala da necessidade de combater a dívida, mas sem colocar em causa o crescimento económico, Teresa Correia.»
      «Não obstante as liberdades concedidas pelo Decreto, era exigido ao matador deixar o chão bem limpo e sem sinais de violência, tanto quanto o necessário para não pôr em causa a moral ou a aparência de alguns costumes» (Entre Pássaro e Anjo, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1993, p. 18).
[Texto 400]
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Sul do Sudão/Sudão do Sul

Do Sul

      A propósito de tio Google: este senhor, com uma memória prodigiosa mas um pouco desatinado, diz-me que Sul do Sudão é quase tão usado como Sudão do Sul. Ora, tendo em conta que boa parte das ocorrências (somente páginas de Portugal) dirá respeito à independência deste território do Sudão, pergunto a mim mesmo se esta polarização não é enganadora. Explico-me. Na minha ideia, devia usar-se Sul do Sudão apenas quando nos referimos ao território como parte integrante do Estado sudanês. Quando nos referimos ao novo Estado, usaremos Sudão do Sul – à semelhança de Coreia do Sul, Dacota do Sul, Carolina do Sul, Ossétia do Sul...
[Texto 399]
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Entre 20 e 40 mil

Duas grandes verdades

      Jornalista Nuno Felício, no noticiário das 2 da tarde de hoje na Antena 1: «Numa visita a Gouveia, esta manhã, o ministro [Nuno Crato] reconheceu que entre 20 a 40 mil professores não vão ser avaliados, e adiantou ainda que, mais do que computadores ou quadros interactivos, o que faz falta nas escolas é empenho.»
      «É a base; é a basezinha!», disse o abade sobre o latim, o latinzinho, mas saber português ainda faz mais falta.
[Texto 398]
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Colocação do pronome

Saberão os taxistas

      «Entre as coisas que desaparecem e fazem falta, muitas não têm importância nenhuma. Mas o efeito cumulativo de todas elas – que é sísmico – faz com que valha a pena mencionar cada uma. Desde os meus 25 anos que ando à caça de copos de vidro fininhos. Na Rua de São Bento, em Lisboa, no encalço dos restos das fábricas condenadas da Marinha Grande – imaginando-me o anjo vingador dos irmãos Stephens –, dei por duas vezes com a Amália Rodrigues, incandescente e espirituosa, que morava e continua a morar naquela rua, como todos os taxistas de Lisboa sabem e orgulham-se de saber. Disse-me coisas que nunca mais esqueci. Era incapaz de dizer uma coisa que se pudesse esquecer» («Escrito no vidro», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.08.2011, p. 31).
      Pode ter que ver com o ouvido, mas eu anteporia o pronome ao verbo, pela atracção exercida ainda, pese embora o afastamento, pelo pronome indefinido: «como todos os taxistas de Lisboa sabem e se orgulham de saber».
[Texto 397]
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Palavras para o tempo

É um avanço

      Sabemos bem como a noção do tempo, que não é inata, nas crianças é confusa e imprecisa. Agora, porém, a minha filha (que resolveu, depois de saber fazê-lo em inglês, aprender a contar até dez em português e em italiano), inesperadamente, sentiu necessidade de ser mais precisa e passou a usar a palavra «trasantontem», que jamais me ouviu. Vá lá, podia dizer, como se ouve em algumas zonas do País, «ontesdonte(m)».
[Texto 396]
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Sobre «nortenho»

Não para mim

      «Respondo por todos: sim, trabalhamos pouco. Também ganhamos pouco. E o nosso clima é muito bom — não apenas muito melhor do que o vosso, que é pobre. Daí que haja dias bonitos — ou apenas sem frio, chuva ou falta de céu azul — em que apeteça menos trabalhar para ocupar o tempo. Também vocês, nortenhos e trabalhadores, com climas sem tentações, quando cá vêm, pouco trabalham e muito desfrutam. Ponham-se no nosso lugar. Sempre que puderem. Ou tenham essa sorte. Que não é a vossa, senão quando cá vêm. Que é sempre que podem. Sempre bem-vindos» («Então está bem», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.08.2011, p. 53).
      Talvez apenas em dicionários brasileiros e nos mais antigos portugueses se encontre actualmente a definição de que «nortenho» é o relativo (ou natural ou habitante) ao Norte de Portugal. A maioria dos dicionários da língua portuguesa editados neste lado do Atlântico regista somente que diz respeito ao Norte; alguns, poucos, registam que diz respeito em especial ao Norte de Portugal.
[Texto 395]
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Linguagem

Nada de gralhas, mais uma vez

      «Não consigo é parar de ler quando estou enlevado. Nem sou capaz de abandonar um livro para fazê-lo durar mais tempo. É a única regra. Mas é raro o romance que não tenha longueurs. Por outro lado, há livros menos bons que são viciantes e que nos obrigam a lê-los até ao fim, sejam mais curtos (The Small Hand, de Susan Hill) ou mais compridos (The Stranger’s Child, de Alan Hollinghurst)» («O vira dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.08.2011, p. 39).
      Prefiro, e não sou o único, colocar o pronome antes do verbo («fazer», no caso), visto este estar no infinitivo precedido de «para». (E, desta vez, não será um anglicismo a empecer a leitura do texto, mas um galicismo.)
[Texto 394]
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Acordo Ortográfico

Logomaquias

      «No PÚBLICO de 9 de Agosto, Fernando dos Santos Neves apresenta “onze teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico”. Vendo bem, não são onze teses. Fernando dos Santos Neves limita-se a contabilizar os parágrafos do seu texto e nem todos são teses. Alguns parágrafos repetem, por outras palavras, o que é dito em parágrafos anteriores; outros limitam-se a insultar quem está contra o Acordo Ortográfico.
      Na verdade, o texto de Fernando dos Santos Neves assenta em dois ou três pressupostos que já foram por diversas vezes rebatidos, inclusivamente neste jornal, mas que, aparentemente, teremos de continuar a rebater.
      Diz Fernando dos Santos Neves que o Acordo Ortográfico é apenas um Acordo sobre a ortografia “e não um Acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto”. Não é um Acordo sobre o vocabulário?! Não prevê o AO “um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível” — o qual, diga-se de passagem, ainda não existe?» («Acordo Ortográfico: o que importa, agora, é rejeitá-lo de vez», Rui Valente, Público, 13.08.2011, p. 36).
      Estarão Fernando dos Santos Neves e Rui Valente, que se apresenta como subscritor da Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do AO90, a falar do mesmo?

[Texto 393]
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Caracteres especiais

É diferente

      Na obra pergunta-se se será significativo, patético ou irrisório «que, numa casa romena, os retratos detestados de Ceausescu tenham sido substituídos por fotografias, recortadas de revistas, das personagens da série televisiva Dallas». No original lê-se Ceauşescu, com o carácter especial ş, que equivale a um dígrafo. Ninguém, contudo, mudará a grafia — porque não é costume entre nós grafar esse nome com os caracteres originais. Mas também aparecia o nome Raphael Confiant e alguém emendou para Raphaël.

[Texto 392]
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Concordância

Aprender com os melhores

      «Esta gafanhotice literária só é possível com e-livros, seja qual for o e-leitor. Com uma pilha de livros, mesmo sendo-se afoito, dá um certo trabalho mudar de comboio. Então numa esplanada. Não: as voltas do Kindle sou eu quem as dou» («O vira dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.08.2011, p. 39).
      Fosse a frase analisada por Mimi Costa, que provavelmente não liga a gralhas, no Algodres Online e a sentença seria breve: «[...] o pronome relativo “quem” (que é um pronome da 3. ª pessoa do singular e significa “a pessoa que”), obriga a utilizar sempre essa 3.ª pessoa do verbo (fez). Assim, evite dizer: “sou eu quem escrevo” ou “são eles quem resolvem”». Quase desapareceu da escrita literária, mas a verdade é que é absolutamente correcta esta concordância com o pronome relativo quem. Nestes casos, citam-se exemplos de Fernando Pessoa («Sou eu quem descrevo»), Jorge Amado («Eram os filhos, estudantes nas Faculdades da Baía, quem os obrigavam a abandonar os hábitos frugais») e, para os mais exigentes, Rui Barbosa («Sou eu quem perco») ou Gonçalves Dias («Sou eu quem prendo aos céus a terra»).
[Texto 391]
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Ensino

Sabe ele o seu português?

      Se bem que afirme que os professores são «sobretudo vítimas e não tanto responsáveis», Carlos Reis não deixa de fazer a pergunta retórica: «Quando isso acontecer, talvez se atente na relevância de componentes tão decisivos como os professores e a sua formação — uma outra formação, aliviada do peso atrofiante das ciências da educação, que disso temos que sobre. Com o devido respeito, formulo uma pergunta que talvez pareça provocatória: os professores de Português sabem português com a profundidade que se exige a quem ensina? Estudaram devidamente o idioma, a sua história, os seus cambiantes socioletais e as suas variações geolinguísticas? Dominam a gramática da língua e a sua terminologia? Conhecem os escritores que têm feito do português um grande idioma de cultura? Leram Sá de Miranda, Herculano, Camilo, Cesário Verde, Machado de Assis, Carlos de Oliveira, Agustina ou Luandino Vieira? Distinguem-nos dos pífios escritores da moda “consagrados” em livros escolares pouco criteriosos? Dispõem de instrumentos e de disposição para indagações linguísticas e literárias que vão além das banais ferramentas da Internet? As perguntas são embaraçosas, mas têm que ser feitas, mesmo sabendo-se que há exceções ao que temo seja a regra» («Sabe ele o seu português?», Carlos Reis, Público, 12.08.2011, p. 30).
[Texto 390]
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Acordo Ortográfico

Genocídio cultural, estético, racional e político

      Miguel Esteves Cardoso escreveu mais uma vez (e, com sorte, não será a última) sobre o Acordo Ortográfico na sua crónica no Público: «Muitas coisas pedimos ao Verão e a Agosto, que o Acordo Ortográfico (AO) já despromoveu para verão e agosto. Para tomarmos banho, exigimos calor, sol e mar manso. É uma coincidência muito rara e uma desculpa muito boa para ficar na esplanada, a beber Água das Pedras ou, se calhar, na volta, água das pedras.
      Foto-reportagem passa a ser fotorreportagem (com um érre a mais, que não pertence nem a “fotor” nem a “rreportagem”) e mini-saia exige, pela perda do hífen, um ésse a mais: minissaia. Que artigo de vestuário é que é mini? É a “ssaia”, pois claro. Embora defenda o hífen, não sou totalmente sectário. Escrevemos “hás-de” e o AO manda, com razão, esquecer o hífen. “Hás de” é mais bem grafado do que “hás-de” e, na volta, é capaz de remover o incentivo analfabeto para dizer “há-des”.
      Mesmo assim, apesar de menos de uma mão-cheia de mudanças que fazem sentido, o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político. O AO é como querermos unir, à força, os verões e os climas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos, procurando semelhanças superficiais e despromovendo diferenças profundas, só para chegarmos à conclusão que todos sentimos frio e calor e que todos somos molhados pela chuva.
      Por muito que aceditemos [sic] no contrário, os nossos tempos, como as nossas línguas — e as maneiras como as escrevemos graficamente — são parecidos de mais para fingirmos que somos diferentes. Mergulhamos no conhecido e aprendemos como deve ser» («Calor e mar bravo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.08.2011, p. 33).
      É impressão minha ou o último parágrafo também poderia rematar qualquer texto de um paladino (ou fanático, segundo outros) do Acordo Ortográfico como Fernando dos Santos Neves? Que acha, Fernando Venâncio?
[Texto 389]
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Regência: «precisar»

Apesar de Camilo e de Bocage

      A autora quis que a frase ficasse sem a preposição, porque, alegava, com preposição era, tinha aprendido, errado se se lhe seguia um verbo no infinitivo, mas já não quando seguido de substantivo ou pronome. «E então, *** despediu-se com o pretexto de que precisava urgentemente beber água.» O Dicionário Houaiss resume bem, creio, a questão: «Na actual norma portuguesa da língua, este verbo, quando na acep. de ‘ter necessidade de’, pede objecto indirecto; há, porém, bom número de abonações de autores portugueses clássicos, como Camilo e Bocage, que o empregaram com transitividade directa; na verdade, na língua, a regência deste verbo oscila entre uma coisa e outra, com peso maior para o objecto indirecto, tanto no Brasil como em Portugal, excepto quando a ele se segue outro verbo no infinitivo, caso em que, em Portugal, se usa sempre seguido de preposição (preciso de fazer, precisava de sair, precisou de se explicar), enquanto, no Brasil, tal emprego tem vindo a rarear (preciso fazer, precisava sair, precisou explicar-se).»
[Texto 388]
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Sobre «motim»

Talvez tenha razão, Sr.ª Abbott

      «A palavra motins não é correcta para descrever os saques na Inglaterra. Anteontem a BBC ralhou com Diane Abbott, a deputada por Hackney North e Stoke Newington, por ter falado em “pilhagens recreativas”. Abbott, uma mulher desde sempre de esquerda, defendeu-se bem, dizendo que a pilhagem era roubo e tanto a pilhagem como o roubo eram crimes. A pilhagem era recreativa — não só porque dava lucro e prazer, mas, sobretudo, porque nada tinha de sério ou de político, no sentido altruísta e, por conseguinte, ideológico» («Uma questão de tempo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.08.2011, p. 31).
Por coincidência, ao ouvir hoje, mais uma vez, a palavra num noticiário da Antena 1, também me pus a reflectir se está a ser usada com propriedade neste caso. Mas talvez, pois motim é, como se lê, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rebelião, geralmente organizada, contra a autoridade estabelecida, tumulto popular, sublevação, revolta, arruaça».
[Texto 387]
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Léxico: «claustrim»

Novidades e coisas velhas

      Lê-se na página na internet da RTP que «o Museu Nacional do Azulejo [o MNAz, lê-se por aí] dedica um programa à “multiculturalidade”, que vai desde uma visita orientada ao azulejo como “reflexo multicultural”, às 18h30, passando por um “recital dos oceanos” no claustrim, às 19:45, seguindo-se uma “missa criolla” composta pelo argentino Ariel Ramirez (1921-2010) na Igreja da Madre Deus, às 21:00, e finalmente uma noite de fado de Lisboa e de Coimbra no Jardim de Inverno, às 22:15». (Misa Criolla, na verdade, composta na década de 1960, quando o Concílio Vaticano II passou a permitir a celebração da missa em vernáculo. E Ramírez é assim que se escreve.)
      Não está registada em nenhum dicionário — mais uma —, mas está correcto: é um claustro pequeno. Com recurso ao sufixo -im, formámos outros, poucos, vocábulos, como cornetim, espadim, farolim, flautim, fortim...

[Texto 386]
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Tradução: «marronage»

Serve

      «E assim a marronagem histórica...» É cópia do francês marronage, que designa o acto de os escravos se evadirem (a que, actualmente, se acrescentou a acepção de resistência à cultura dominante). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora dá como tradução de marronage «exercício ilegal de uma profissão», «fuga, evasão de escravos». Marron é, em francês, castanho, como sabem, mas pelo mesmo vocábulo também se designava o fugitivo, o gentio, o ilegal e o clandestino. Ora, não é raro ver, em especial em autores brasileiros, para referir a mesma realidade, a palavra, que a maioria dos dicionários não regista, «quilombolismo».
[Texto 385]
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Como se fala na televisão

É da pura emoção

      Nos tumultos na Grã-Bretanha, disse a jornalista Margarida Neves de Sousa, que estava ontem em Croydon, a sul de Londres, morreu um homem de 26 anos. «Mas há uma segunda pessoa, que está neste momento em perigo de vida no hospital, eu falo do homem na casa dos seus 60 anos, com graves lesões na cabeça por ter sido, digamos assim, batido com um bastão de metal quando tentava proteger também a sua loja.»
      Agora todos sofrem: as crianças abusadas e os homens batidos. E sofre a gramática, como escreveu Monteiro Lobato nas Cidades Mortas, umas tantas marradas.
       Vejam se vislumbram alguma semelhança com este «batido»: «Era ministro do Interior um militar, homem façanhudo, que, por hábito profissional e ainda por ter sido batido na guerra de Marrocos, só na fôrça acreditava» (A Curva da Estrada, Ferreira de Castro. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960, 1960, p. 90).
[Texto 384]
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Linguagem

Essa é boa

      Disse-lhe que Úrano (ou Urano, como alguns querem) tem 27 luas, todas com nomes retirados da obra de Shakespeare, como Cordélia, Ofélia, Bianca, Puck, Rosalinda, Desdémona, etc. Surpresa e pergunta: «E Shakespeare foi buscar esses nomes às luas?» E aqui alguém, traduzindo, escreveu: «Charon era o barqueiro que transportava as almas através do rio Styx

[Texto 383]
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Acordo Ortográfico

Pois parece

      Fernando dos Santos Neves, criador da primeira licenciatura portuguesa de Ciência Política, tem na edição de hoje do Público as «Onze Teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico». Eis a segunda «tese»: «O “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” quer ser isso mesmo e nada mais: um acordo sobre a ortografia e não um acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto (que é, indubitavelmente, o mais importante) que constitui uma língua viva e, ainda por cima, uma língua potencialmente universal como a língua portuguesa e até uma das pouquíssimas línguas potencialmente universais do século XXI, como já Fernando Pessoa anteviu nos princípios do século XX.»
      Parece mentira, mas há quem — mesmo professores, a um mês de terem de ensinar a nova ortografia — não saiba isto. Claro que, ao contrário do que parece decorrer do texto, não é isso, ser «meramente» um acordo ortográfico, que o torna inócuo. E por mentiras: afirmar-se que vai contribuir para a unificação da língua portuguesa é uma grande mentira, que só o tempo, e não será decerto o nosso, vai desmascarar.

[Texto 382]
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Ortografia: «binariedade»

Também falta

      «La binarité n’est pas...» «A binaridade não é...» Pois não, a «binaridade» não é, ou seja, não existe. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, decerto que o mais usado entre nós, não regista o termo, o que explica, pelo menos em parte, que mesmo profissionais da palavra, como um tradutor, vão atrás do francês.
      Já tinha proposto a mnemónica no Assim Mesmo: se o adjectivo do qual deriva o substantivo abstracto (isto é, os que designam acções, noções, estados e qualidades) termina em -io (tais como -ário, -ório ou -úrio), o substantivo terá um e entre o i e o d, regra que já vem do latim. Assim, será binariedade.

[Texto 381]

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Ensino

O sujeito foi-se

      «O grupo cicatrizava-se depressa, mas o garoto, com a alma pesada, andava quilómetros para tornar a ver os seus amigos, os lugares felizes, e de cada vez era mais difícil reconstituir a antiga comunhão, até que vinham a indiferença e a hostilidade e o rapaz desaparecia definitivamente, talvez ajudado por amizades novas e novas terras.»
      É um excerto da obra A Bagagem do Viajante, de José Saramago (Lisboa: Editorial Caminho, 2.ª ed., 1986). Constava na prova escrita de Português do 12.º ano realizada em Junho. À pergunta em que se pedia que se identificasse a função sintáctica desempenhada pela expressão «a indiferença e a hostilidade», só 20 % dos alunos responderam bem. Para João Costa, um dos autores da revisão da TLEBS, este descalabro veio precisamente mostrar que não é a mudança da terminologia que está em causa pois o termo «sujeito» «está inalterado desde Aristóteles e devia ser conhecido dos alunos desde o 3.º ou 4.º ano de escolaridade». Eu vejo as coisas de forma diferente: se os alunos não dominam matéria tão elementar agora, muito pior será com a alteração da terminologia. Só numa frase como «O sujeito foi-se» é que a situação se invertia. Invertia, reparem: ainda assim, 20 % dos alunos não saberiam que «sujeito» era sujeito.
[Texto 380]
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Revisão

Há sempre uma primeira

      Com os anos que já levo de revisor, nunca tinha sido referido, num contrato (das raríssimas vezes em que há contrato) por «criador intelectual». E também nunca me tinha acontecido que, numa tradução, uma personagem secundária aparecesse no início como radiologista e mais para o fim como psiquiatra. Autor, revisor e tradutor não viram o erro. Tenho outras histórias bem interessantes (algumas só posso contar nas minhas memórias), mas esta talvez as supere na cegueira que revela.
[Texto 379]
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Linguagem

Ainda bem que fala nisso

      «Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário — ou de outra coisa facilmente aprendida pela educação. A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo» («A devida educação», Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.08.2011, p. 33).
      «Uma das que mais custa»? E o vocabulário aprende-se através da educação ou da instrução?

[Texto 378]
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«Mau como as cobras»

É sempre bom ver

      Mais uma daquelas expressões que se repetem em diversas línguas: «He was brilliant in battle and mean as a snake to everyone around him.» «Era um guerreiro brilhante, e mau como as cobras para todos os que o rodeavam.»
      «Fartavam-se, por exemplo, de esperar aqueles monarcas antigos, maus como as cobras, mas que deixaram tantas rasas de dobrões à Igreja que fechar-lhes a porta equivaleria a deitar abaixo todos os estatutos do penitológio romano» (Humildade Gloriosa, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1954, p. 307). (Ah, sim, e «penitológio», que os dicionários também não registam, é termo muito da predilecção de mestre Aquilino, ou não fosse ele ex-seminarista.)

[Texto 377]
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Tradução: «mantelpiece»

[Mantelpiece.jpg]

Outra solução

      «On the mantelpiece is a photograph in Lucite of two old people I don’t know.» «Por cima da lareira...», verteu o tradutor. É outra solução, em vez de cornija ou lintel da lareira. Bem melhor, na verdade, que «prateleira da lareira» ou, abrenúncio!, «escarpa da lareira».
[Texto 376]
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Tradução: «tilt-a-whirl»

Maluca é, de certeza

      «The big round cars for the Tilt-a-Whirl…» «As cabines enormes e redondas do Tilt-a-Whirl…» Hã? Este divertimento de feira não tem nome em português? Estou mesmo a ouvir um miudito alentejano a dizer à mãe que quer andar no tilt-a-whirl... No ProZ, sugerem «xícara maluca» (já ouviu, caro Paulo Araujo?) ou, para Portugal, «cadeira maluca».

[Texto 375]

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Léxico: «rami»

Afinal, não é chinês

      A minha mulher veio agora mostrar-me uma camisola muito bonita. Pôs-se a ler a etiqueta, o que nela é quase um ritual. Deixo-me sempre rir. «Tem ramie, diz aqui. O que é?» Pois, também não sei. Cá está: é uma fibra natural. «A mais longa, resistente e sedosa das fibras vegetais», lê-se no Dicionário Houaiss. Claro, a etiqueta não está em português. Em português escreve-se «rami» (Boehmeria nivea), o arbusto, a fibra e, por metonímia, o tecido fabricado com essa fibra. A etimologia, segundo aquele dicionário, é malgaxe. Corre mundo, como seria de prever, a forma anglicizada ramie.
[Texto 374]
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Dicionários

Dicionários...

      Há dias perguntaram-me se o vocábulo «porcalhice» era regionalismo. Não compreendo porque não está dicionarizado. Vejam, por exemplo, os vocábulos relacionados com «pátria» e «patriota». Num breve périplo pela obra de Eça de Queirós, Rui Barbosa ou Fialho de Almeida, podemos encontrar os derivados «patriotaça», «patriotada», «patriotador», «patriotagem», «patriotarreca», «patriotasno», «patrioteiramente», «patrioteiro», «patriotice», «patriotinheiro», «patriotista»... Quantos destes podemos ver acolhidos nos principais dicionários? E os que não estão deviam estar?
[Texto 373]
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«Empregue/empregado»

O horror! O horror!

      «O meu amigo Pedro Ayres vinha a Colares e sugeriu que nos encontrássemos no Café da Várzea, para nos cumprimentarmos. Há décadas que não ouvia este verbo — cumprimentar — bem empregue. Mas foi o que fizemos. Bebemos e comemos cafés e queijadas; falámos disto e daquilo — enfim, cumprimentámo-nos bem cumprimentados» («A chuva dos patos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 3.08.2011, p. 31).
      É, no mínimo, estranho, parece-me, dizer-se «bebemos e comemos cafés e queijadas». E no máximo, pergunta o leitor? Errado. Quanto ao «empregue», já estou a ouvir Montexto exclamar, escamado: «O horror! O horror!» E podia ou não fazer o favor de nos dizer que citava Kurtz. Remataria: «Grassam grossas e grosseiras as formas “foi empregue, foi encarregue”.»
[Texto 372]
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Léxico: «reptação»

Coisa de cobras

      «La Traite passe par la porte étroite du bateau négrier, dont le sillage imite la reptation de la caravane dans le désert», lia-se no original. E a tradução: «O Tráfico passa pela porta estreita do barco negreiro, cuja esteira imita a reptação da caravana no deserto.» No caso, o que nos interessa é somente o vocábulo «reptação», que não se lê muito por aí. No contexto, é o acto ou efeito de reptar, de rastejar, como uma cobra faz. Reptação, porém, é polissémico. Também significa, como se lê na Infopédia, «num sentido amplo, é a migração lenta de materiais móveis, em geral detritos de pequena dimensão, numa vertente de fraco declive, em que ocorre um deslize e agrupamento de partículas umas em relação às outras. É também o deslizamento lateral de grãos de areia, cuja causa é o choque repetido de outros grãos de areia arrastados pelo vento. Segundo alguns autores, pode considerar-se reptação o deslizamento linear e individual de detritos de pequeno tamanho no fundo dum talvegue de um rio».

[Texto 371]
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Tradução: «usher»

Muito medieval

      «She was being a bridesmaid and he an usher at a wedding there...» «Ela fora dama de honor e ele escudeiro num casamento que se realizara lá...» «Escudeiro» não me soa. «The role of the usher», leio aqui, «was traditionally given to a family member of the groom but in these modern times ushers have also been members of the brides family or close friends. To every 50 guests there should be an usher.» Não será mais adequado traduzir por «mestre-de-cerimónias»? Por outro lado, se dama de honor nos remete de imediato para casamento, também é verdade que começou por ser a dama que assistia, junto da rainha ou princesa, a certas solenidades e recepções da corte.
[Texto 370]
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Pensilvânia Holandesa

Não sabem o que perdem

      Isto fez-me lembrar o que escrevi aqui sobre a Batalha de Waterloo (quanto à polémica de Camilo, ainda não reencontrei, e será difícil por enquanto, nada). A região de Lancaster, a 120 quilómetros de Filadélfia, é conhecida como Pensilvânia Holandesa pela grande concentração de residentes de ascendência alemã. Muitos pertencem à seita religiosa Amish, que evita usar a tecnologia moderna e todas as facilidades actuais. Logo, não deveria ser Pensilvânia Alemã? Mas não, não é.
[Texto 369]
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Léxico: «vomição»

Eriça-se, brava

      Lia-se no original: «There were innumerable vomitings, more or less disastrous.» E agora, como traduzir «vomitings»? Como verteu o tradutor? Simples: «Houvera um número incalculável de vomições, mais ou menos desastrosas.» Mas é vocábulo quase remetido ao silêncio dos dicionários. «A terminologia científica eriça-se brava: “ex-abrupta vomição do seu hidropírico Antisana”, “campos em clorido diaphonorama”...» (Crônicas inéditas: 1930-1944, Manuel Bandeira. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 97).
[Texto 368]
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Acordo Ortográfico

O vocalismo átono

      No Público, prossegue o debate em torno do Acordo Ortográfico de 1990. Do texto de Francisco Miguel Valada de hoje, extracto o que me parece mais relevante.
      «Lendo o texto de Jorge Miranda (escrito segundo o AO90), reparo que, relativamente às constituições americana e brasileira e para indicar os artigos correspondentes, utiliza o advérbio de modo “respetivamente”, sem C. Partindo do princípio de que o Diário da República a partir de 1.1.2012 utilizará esta grafia, convido Jorge Miranda a ler atentamente o Diário Oficial da União (o homólogo brasileiro do DR) e a verificar que “respectivamente”, com C, é a forma usada. A partir de 1.12.2012, teremos “respetivamente” no DR e “respectivamente” no DOU. Actualmente, temos “respectivamente” em ambos. A divergência entre grafias é criada pelo instrumento que Jorge Miranda imagina como a concretização de “ortografia com um mínimo de diferenças”.
      Espero que Jorge Miranda se tenha dado conta da simultaneidade da discrepância criada pelo AO90. Seria desnecessário repetir, mas por vezes é necessário: esta discrepância não existia antes do AO90. Além de “respectivamente” e “respetivamente”, temos também “receção” em Portugal e “recepção” no Brasil, “aspeto” em Portugal e “aspecto” no Brasil, “conceção” em Portugal e “concepção” no Brasil. Reparará que, actualmente e em ambas as costas atlânticas, se escreve “recepção”, “concepção”, “respectivamente” e “aspecto”. Estas divergências gráficas (fiquemo-nos por este aspecto e nem entremos no carácter irrestrito do conceito “facultatividade”) são criadas pelo AO90.
      Seguindo o raciocínio de Jorge Miranda, verifica-se que a aplicação do AO90 nos dois jornais oficiais conduzirá à situação contrária da por si defendida. Algo de errado se passa no raciocínio? Não. Algo de errado se passa no AO90. Entre a realidade das duplas grafias criadas pelo AO90 e o desiderato de Jorge Miranda “uma ortografia com um mínimo de diferenças revela-se indispensável” o fosso é enorme. Este fosso leva-me a partir do princípio de que a função de papel para forrar gavetas dos pareceres científicos solicitados pelo poder político foi devidamente cumprida: não foram lidos.
      Pergunta Jorge Miranda: “Por que razão havia de ser o português europeu a determinar a língua escrita em confronto com o português do Brasil, usado por quase 200 milhões de pessoas?”. O português europeu não deve determinar a forma escrita de qualquer outra das normas, nem qualquer dessas normas deve determinar a norma escrita do português europeu. Isto, em termos programáticos. Agora, quanto ao resto, no que diz respeito ao português europeu, já aqui se referiu o processo do vocalismo átono, factor importante e diferenciador de realidades da língua portuguesa.
      Para que Jorge Miranda perceba o que é o processo do vocalismo átono, convido-o a fazer como na Idade Média: em vez de ler silenciosamente este texto, leia-o em voz alta e verifique que as sílabas na sua maioria são átonas e que, dessas átonas, praticamente todas são reduzidas. Praticamente. Porque há excepções que podem ser marcadas por, imagine-se só, uma consoante não pronunciada. Como esta palavra que acabo de escrever: “excepções”. A palavra “excepções” constitui uma excepção à regra, tal como a palavra excepção. Parece complicado, mas não é. Agora, se Jorge Miranda convidar um falante de português do Brasil a ler este texto em voz alta, descobrirá um admirável mundo novo. E descobrirá o porquê de “exceção” no Brasil e de “excepção” em Portugal.
      Após nove anos de itinerância pela Europa institucional, confesso não ter percebido como é que através do AO90 se poderá “afirmar o português, o português internacional, na União Europeia”, como refere Jorge Miranda. Através da introdução de “aspetos” e “conceções” que eram “aspectos” e “concepções” em Portugal e no Brasil e que agora só são “aspectos” e “concepções” no Brasil? Confesso que não percebo e admito que gostaria imenso de perceber» («Aspectos & aspetos: a simultaneidade da discrepância», Francisco Miguel Valada, Público, 2.08.2011, p. 28).

[Texto 367]
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Tradução: «test drive»

Fica a demonstração

      Sobre low cost já estamos conversados. Agora em relação a test drive, o que podemos fazer? Vejam esta frase: «It was a demonstrator, and would be driven by ***, the Cadillac distributor.» O tradutor verteu assim: «Era um carro que se usava para fazer demonstrações, e devia ser conduzido por ***, o agente da Cadillac.» Isto, porém, foi há cinco décadas, agora não resistiram a traduzir com recurso a... test drive! Fica a proposta: traduzir test drive por «demonstração». O contexto quase sempre guia o leitor para o sentido.
[Texto 366]
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«Bem», adjectivo invariável

O desgosto do vilegiaturista

      Agora que Montexto está em vilegiatura, aproveitemos para falar desta questão. Lê-se no original: «Pretty soon there would be a whole colony of Jews in the neighborhood, and the *** children and all the other nice children in the neighborhood would grow up with Jewish accents.» A tradução, que data de 1963, diz o seguinte: «Muito em breve haveria, na vizinhança, uma autêntica colónia de judeus, e os filhos dos *** e as demais crianças bem adquiririam o acento semita.»
      Esta acepção do adjectivo invariável «bem» («criança bem»/crianças bem») ainda não estaria, certamente, registada no início da década de 1960, mas ei-la a ser usada numa tradução literária. «Bem»: conveniente; socialmente irrepreensível. Espero que a famigerada 8.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe a acepção.
[Texto 365]
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Pronome de tratamento

Oh, Senhor!

      O Frente-a-Frente de terça-feira passada, entre o senhor Alfredo Barroso e a senhora Teresa Caeiro, na SIC Notícias, aqueceu, tudo porque estes senhores se ofendem se alguém os trata por senhor. Oh, Senhor! «Eu não fui indelicado. A senhora já foi indelicada comigo. Já me começou a tratar por senhor Alfredo» (Jornal das 9, SIC Notícias, 28.07.2011). Estas altas personagens ficam ofendidas com um pronome de tratamento que indica delicadeza!
[Texto 364]

 

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Linguagem

Assim fala Passos Coelho

      «Por momentos, ontem, o Parlamento entrou num pronto-a-vestir, pela voz do cantor de fado, como em tempos lhe chamou a revista brasileira Veja. “Fiquei satisfeito de saber que a Europa se estava a vestir de mecanismos mais eficientes contra o risco sistémico.” Os deputados entreolharam-se a pensar que estranha marca de vestuário seria aquela, mas logo tiveram uma possível resposta. É roupa preparada para o Outono/Inverno: “Hoje, a Europa está em condições de se resguardar melhor”, explicou Passos Coelho. As metáforas com roupa atraem o primeiro-ministro. Antes de o ser, em Março, já dizia que “se fosse primeiro-ministro, não estávamos hoje com as calças na mão, a impor mais um plano de austeridade porque o Estado não cortou onde era necessário”. O imposto extraordinário é outro retalho, está visto» («O pronto-a-vestir da Europa para não ficar de calças na mão», Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 13).

[Texto 363]
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Linguagem

Cresceu

      Há largos meses que eu o tinha recomendado, agora aconteceu: «Valter Hugo Mãe está sempre “à procura” de formas de reinventar a prosa. Com lançamento previsto para Setembro, o novo romance, O Filho de Mil Homens (Objectiva/Alfaguara), é, segundo o escritor, “um livro diferente dos outros” que já publicou. Para começar: um adeus às minúsculas. “Acredito que as pessoas vão reconhecer o meu estilo, mesmo com as maiúsculas e com dois pontos; antes só usava ponto e vírgula”. Estética à parte, até porque, diz, não é o mais importante, aqui é campo de experimentação, este é o seu livro “mais cândido”» («Agora com maiúsculas», Vanessa Rodrigues, Notícias Sábado, 30.07.2011, p. 42).
      Os aspectos formais da escrita, de uma obra literária, são mera estética, Vanessa Rodrigues?

[Texto 362]
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Ensino e literatura

Uma barbaridade

      «Um dos primeiros comentários foi o que a presidente da Associação de Professores de Português entendeu fazer, salvo erro no dia seguinte a serem conhecidos os resultados. Comentário a todos os títulos lamentável, porque uma classe (a de professores de Português – a nossa língua!) não pode rever-se nas observações quase indigentes que foram feitas sobre o facto de os professores continuarem a “perder” muito tempo a dar textos literários (que, subentende-se, não serviriam para nada – quando servem para aprender a pensar, senhora presidente da associação, e aprender a sentir, e a saber o que tem sido e é a cultura portuguesa!) como, entre outros, O Auto da Alma, de Gil Vicente, ou Padre António Vieira» («Há que deixar de manipular os resultado e os factos», Helena Carvalhão Buescu, Público, 31.07.2011, p. 54).
       O excerto é suficiente para mostrar, mais uma infausta vez, a que estado chegou o ensino. Como se pode prescindir da literatura no ensino e aprendizagem da língua? Já vêem a gravidade da afirmação, mormente vinda de quem vem, nada mais que a presidente da Associação de Professores de Português.

[Texto 361]
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«Pôr a leitura em dia»

Agora é assim, Filomena Araújo?

      Lá ficámos a saber, mesmo sem nos interessar minimamente, que Luís Marques, director-geral da SIC, voltou a escolher o Algarve para uns dias de férias em Agosto. As páginas dos jornais têm de aparecer escritas, seja lá com o que for. Isto, todavia, já nos interessa: «Nas férias, Luís Marques aproveita sempre “para colocar a leitura em dia”, o que não consegue fazer durante o resto do ano» («Luís Marques dedica-se à lavoura», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 51). Ainda virá alguém lembrar-nos que o giro tem consagração legal.

[Texto 360]
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Aspas

A importância das aspas

      «De acordo com Ferreira de Oliveira, que falava durante a apresentação de resultados semestrais da companhia, as estações que encerraram eram de pequena dimensão e não conseguiram atingir a rentabilidade necessária para continuar a operar. Uma realidade que está a preocupar o presidente da Galp. “Há estações de serviço a morrer em Portugal”, conclui» («Galp já encerrou 17 ‘bombas’ este ano por causa da crise», Ana Baptista, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 33).
      A jornalista teve receio de que o pobre e ignorante leitor supusesse, pela leitura do título, que se tratava de engenhos explosivos, pelo que, ad cautelam, usou as aspas. Com as aspas, a acepção mudou logo, não é?

[Texto 359]
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Tradução: «bruschetta»

De Itália para o Ribatejo

      Mais ou menos ao mesmo tempo que eu estava a ver no Ipad que a sardinha começa a ser usada na «alta cozinha» (o prato de Henrique Sá-Pessoa, com a sardinha salpicada com pão alentejano tostado no forno, parecia apetitoso) e me ria por ver que um repórter da RTP tinha ido entrevistar o «sushiman Aguinaldo Ferreira» (como se lia no rodapé e se ouviu a repórter, mas na verdade o nome é Agnaldo), um leitor de Queijas acabava de ver um episódio do programa MasterChef e escrevia-me: «A certa altura, num “desafio” em que o ingrediente principal era o pão, um dos concorrentes falou em bruschetta, sendo advertido por um elemento do júri para o facto de em português haver uma palavra para esse prato: torricado.»
      José Pedro Machado, por exemplo, apenas regista o vocábulo torricado (ou torriscado) como adjectivo: «que se torriscou; excessivamente torrado (falando-se de fatias de pão); crestado, queimado pelo calor». Na Wikipédia, porém, lê-se que «o torricado é um prato típico da região do Ribatejo, tradicionalmente associado ao trabalho do campo, especialmente dos trabalhadores vitícolas e aos pescadores dos valados do Tejo da área da Azambuja. Consiste numa forma prática de cozinhar o pão, torrando-o e untando-o de azeite e alho, de forma a acompanhar bacalhau ou sardinhas assadas, embora também seja usual como acompanhamento de carne». Ora, bruschetta (já muito empregado na sua forma aportuguesada, brusqueta) é a «fetta di pane abbrustolito condita con olio, sale, aglio». Parece-me, pois, bem que se use «torricado» em vez da palavra italiana. E o facto de a proposta vir de alguém ligado à gastronomia deixa-nos algumas esperanças.
[Texto 358]
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Infinitivo pretérito

Quando, exactamente?

      «Relendo o número 13 [de A Bem a Língua Portuguesa], de Janeiro-Fevereiro de 1972, lembrei-me de lê-lo e comentá-lo com o meu pai. Como jovem arquitecto naval, ele tinha desenhado vários cacilheiros e fascinava-o a dificuldade de arranjar palavras portuguesas para ferry-boat. Cacilheiro era uma solução engraçada mas desgraçadamente local. Como chamar as ferribotas com outros destinos que não Cacilhas?» («O canal da Manga», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.07.2011, p. 31).
      Quando é que Miguel Esteves Cardoso leu o boletim da SLP ao pai? Em 2011, tempo da escrita, ou antes? A dúvida levou-me a pesquisar na internet. Cá está: Joaquim Carlos Esteves Cardoso † 1994. A crónica começa assim: «A Bem da Língua Portuguesa: assim se chama, com justiça, o Boletim [sic] da Sociedade de Língua Portuguesa. Esta semana um amigo nosso deu-nos uma dúzia deles.» (Se escreveu a crónica no domingo, 24, quer dizer que lhos tinham oferecido nesse mesmo dia, porque a semana começa no domingo. Logo, em princípio, se não é ficção, terá sido na semana anterior. Mas a questão não é esta.) Como está escrito, o leitor é levado a pensar que, relendo agora, em Julho de 2011, o boletim n.º 13, se lembrou de o ler ao pai — o que sabemos ser impossível porque este já faleceu. Ora, só podemos concluir que o tempo verbal não é o correcto. Correcto seria ter usado o infinitivo pretérito impessoal: «lembrei-me [então] de o ter lido e comentado [antes] com o meu pai».
      «Lembrei-me de ter lido nos jornais locais que o grande ator e sua companhia davam espetáculos em Lima» (Solo de Clarineta, Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984, p. 334).

[Texto 357]
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O valor dos nomes

Perto ou longe

      Os nomes valem o que valem. Ao comando do exército prussiano (ou «prusso», como leio aqui e também é correcto mas pouco empregado) estava o marechal Blücher, que queria que a que ficou conhecida como Batalha de Waterloo ficasse conhecida como Batalha de La Belle Alliance. Wellington, à frente do exército anglo-holandês, insistiu em manter o seu hábito de nomear as batalhas em função do lugar onde tinha pernoitado na véspera.
      Há uma polémica, virulenta e escarninha, de Camilo, de que me recordo apenas vagamente, sobre determinada livraria (de Viterbo?) não estar localizada onde o nome fazia supor que devia estar. Alguém se lembra em que obra se encontra? E alguma vez teremos toda a obra de Camilo digitalizada e disponível na internet?
[Texto 356]
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«O Público errou»

E voltou a errar

      Página 32 da edição de hoje do Público: «No texto “Pouca obra para um projecto ambicioso”, publicado ontem no Local Lisboa, saiu incompleta a frase “Os custos mensais de funcionamento da estrutura da Frente Tejo rondam os 60.000 euros por mês”.» Está a revelar-se uma vocação, isto de não perderem uma oportunidade de errar.
[Texto 355]
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Uma frase

Economiza, pá

      Como me apareceu aqui uma semelhante, escrita por um filósofo, retomo a frase já analisada no Assim Mesmo: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se podem ver fazer nos circos» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 3.05.2011).
      Correcto é, como vimos então, com o verbo na 3.ª pessoa do singular. Observem, contudo, que não é necessário, nesse tipo de estrutura, incluir o verbo “fazer”, pois ele está subentendido pelo contexto. Outra vez e melhor: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se pode ver nos circos.» Aliás, até o plural é escusado: «como se pode ver no circo».
[Texto 354]


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Léxico: «abatis(es)»



Mais para trás

      «Uma das técnicas utilizadas pelos guerrilheiros para dificultar o avanço das tropas portuguesas era derrubar árvores sobre picadas, os abatises» (Guerra Colonial: um repórter em Angola, Carlos de Matos Gomes e Fernando Farina. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 55).
      Palavra quimbunda? Ná. Portuguesa, importada de França: de abatis (ou abbatis), «obstacle artificiel formé d’arbres abattus». É, com mais rigor, o obstáculo defensivo feito de troncos e galhos aguçados de árvores abatidas, destinado a dificultar o avanço do inimigo. Para o Dicionário Houaiss, o primeiro registo na língua é de meados do século XIX, erro óbvio que atribuo à variante antiga do vocábulo ser «abatiz(es)». Assim, talvez «abatis» tenha sido usado pela primeira vez no século XIX, mas encontraremos «abatiz» uns bons séculos atrás. Não raro, a intuição anda muito longe da academia...

[Texto 353]
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Etimologia: «britânico»

Nem eles saberão

      Li algures, não sei onde: «The Britons (meaning ‘painted ones’, as they painted themselves blue) fought in the sea to prevent the landing, accompanied by huge dogs.» Sabia, caro Francisco Agarez? Bem, mas isto não nos interessa muito: somos «lusos», como os jornais gratuitos não se cansam de nos lembrar. Recebemos o vocábulo «britânico» do latim, britannĭcus.
[Texto 352]
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Concordância

Ora toma: verbo identificacional

      Filomena Crespo não se conteve: «Isto hoje não é difícil. Pode baralhá-la um bocadinho, mas não é difícil.» «Qual destas frases é que está gramaticalmente correcta? «a) O que o turista pretende é apenas informações. b) O que o turista pretende são apenas informações.»
      «Dra. Sandra, ajude-nos lá nesta resposta. Será que está correcta, não está correcta...» «A frase correcta é a frase b: “O que o turista pretende são apenas informações.” No nosso Jogo da Língua de hoje, mais uma questão sintáctica. Regra geral, o predicado concorda com o sujeito. Portanto, o sujeito desencadeia a concordância verbal. Mas quando nós estamos perante o verbo “ser” identificacional, que é o caso, há uma regra sintáctica da língua que diz: o sujeito concorda com o elemento... o verbo, aliás, o verbo “ser” vai para o plural se houver um elemento no plural, mesmo que seja o predicativo do sujeito, que é o caso. “Informações” não é o sujeito da frase. “Informações” é o predicativo do sujeito. Mas como estamos perante o verbo “ser” identificacional, o verbo ser vai concordar, neste caso é uma excepção na língua, concorda com o predicativo do sujeito. Querem mais exemplos? “A vida não são rosas” e não “a vida não é rosas”. “A vida”, que é o sujeito, perde aí o... o... autoridade sobre a concordância. “A vida não são rosas.” “O casamento não são rosas”. “O que o turista pretende são informações.” Alínea b).»
      Não há unanimidade em relação a esta questão, apesar do que possa parecer. Queiram ver as páginas 22 e 23 da Sintaxe Histórica, aqui ao lado, e as páginas 558 e seguintes da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002).

[Texto 351]
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«Deduzir acusação»

Induzir o parto

      «Resta ao Ministério Público “valorizar esses mesmos indícios e induzir a acusação ou, então, optar por arquivar o processo”. A actriz, que “não deverá ser ouvida pela PJ mais nenhuma vez”, vai agora ter de esperar “poucas semanas até que o processo esteja totalmente concluído”» («Sónia Brazão foi constituída arguida por crime de explosão», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48).
      Então não é deduzir acusação, isto é, propor em juízo, que se diz? Quem sabe se a «fonte da PJ» não foi um porteiro. A locução de uso jurídico fez-me lembrar o comentário do leitor C. Ferreira a propósito do espúrio «colocar em perigo»: «Esta última locução tem, aliás, consagração normativa, v.g. no Código Penal, pelo que o seu uso pelo advogado referido não será despropositado.» Talvez tenha razão neste ponto, mas não apenas a lei «consagra» outras formas espúrias, como «implementação» e quejandos, como quem diz «colocar em perigo» também dirá «colocar o dedo no nariz», «colocar em fuga» e mais algumas dezenas de idiomatismos assim barbaramente desfigurados.
[Texto 350]

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Acordo Ortográfico

Caos das chamadas facultatividades

      A propósito do Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura interpela hoje Jorge Miranda no seu próprio campo, o do direito. Contudo, deixo um excerto mais atinente à ortografia: «O Acordo Ortográfico significa a perversão intolerável da língua portuguesa. Sempre admirei o saber jurídico, a obra académica e a postura cívica do meu amigo Jorge Miranda. Mas não posso concordar com as considerações que ele faz sobre tão sinistro instrumento, no Público de 13.7.2011.
      Uma pessoa pode deixar-se embalar por uma concepção tão poética quanto irrealista da pretensa unidade ortográfica (ontológica, mítica, sublimada…) da nossa língua; pode mesmo prestar tributo a um certo darwinismo, em que o facto de o Brasil ter 200 milhões de pessoas seria razão bastante para sacrificar a norma seguida por mais de 50 milhões de outros seres humanos…
      Mas o que ninguém pode é passar em claro que o AO leva ao agravamento da divergência e à desmultiplicação das confusões entre as grafias e faz tábua rasa da própria noção de ortografia, ao admitir o caos das chamadas facultatividades. Sobre tudo isso existe, de há muito, abundante material crítico, com destaque para os estudos essenciais, demolidores e, note-se, não contrariados, de António Emiliano» («Deveras decepcionado», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 54).

[Texto 349]
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Aplique na cabeça?

Isso é muito estranho

      «O cabelo beehive (nome dado por se assemelhar a uma colmeia) foi outra das marcas fortes da imagem da cantora, resultado entre o seu cabelo natural e um aplique falso colocado no alto da cabeça, dando mais volume e estrutura» («O estilo que a cantora Amy Winehouse criou», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 52).
      Já tinha perguntado a mim mesmo como é que ela tinha aquele penteado. Nunca me passou pela cabeça que fosse um aplique, um «objecto que se aplica ou coloca numa parede como ornamento ou iluminação», leio no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu diria que era uma armação.

[Texto 348]
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«Colocar/pôr»

Outro

      O advogado Rogério Alves também diz, a fazer fé no que está transcrito na edição de hoje do Diário de Notícias, «colocar em perigo». «Por isso, Rogério Alves conclui que Sónia Brazão só será condenada a dez anos de prisão “se se provar que tanto o crime como o perigo são de natureza dolosa, colocando em perigo vidas ou bens com significado”, remetendo o caso para o artigo 272 do Código de Processo Penal» («Actriz arrisca uma pena até dez anos de prisão», Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48). Mais um mau exemplo com presença garantida na nossa comunicação social.

[Texto 347]
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Contracções

Descontraia, Vítor

      «As causas da morte da cantora Amy Winehouse, anteontem encontrada sem vida no seu apartamento londrino do bairro de Camden, continuam por apurar, apesar dos tablóides britânicos referirem que o motivo poderá ser overdose de álcool e drogas» («Reacções emocionadas a uma morte “mais do que triste” que continua por apurar», Vítor Belanciano, Público, 25.07.2011, p. 12).
      Não seguem os conselhos da «nossa especialista em língua portuguesa», e dá nisto, não descontraem. É claro que não leu ou não se lembra do Livro de Estilo do jornal: «apesar de + verbo no infinito — Nestes casos não se pode fazer a contracção da preposição de com o artigo ou pronome que se lhe segue».

[Texto 346]
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