«Engsoc»

Se não for crimideia

      «Tudo isto é perigoso para a democracia porque esconde uma realidade básica: o economês-tecnocratês é um politiquês, uma linguagem abastardada da má política. Mistura eufemismos, duplicidades, dolo, “engsoc” no sentido orwelliano e faz circular a pior das ilusões: a de que as soluções para os problemas nacionais e europeus dependem da actuação de técnicos e sábios, desempecilhados da “tralha” da política» («Palavras de 2011», José Pacheco Pereira, Público, 31.12.2011, p. 32).
      Há um engsoc que não seja no sentido orwelliano? Que o diga o Ministério da Verdade.
[Texto 896]
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«Por forma a»

Não nos lêem

      «A Confraria do Príapo quer certificar o principal símbolo da loiça erótica caldense – o falo em cerâmica ou “garrafa das Caldas” – por forma a valorizar um produto que tem um grande potencial comercial. Edgar Ximenes, presidente da confraria, diz que vai precisar do apoio da autarquia, porque a certificação é um processo caro» («Caldas da Rainha pretende certificar a garrafa-falo», Carlos Cipriano, Público, 31.12.2011, p. 24).
      Confraria do Príapo! Garrafa-falo! E lá está a forma espúria por forma a, em vez de de modo que.

[Texto 895]
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«Anestesista/anestesiologista»

Mais fácil

      «Desalentado com a experiência em Portugal, João Marques Vinagre, que completou o curso na Hungria e voltou para Viana do Castelo (onde está a fazer a especialidade de medicina geral e familiar), já pensa abalar de novo porque o que quer mesmo ser é anestesiologista» («Já há muitos estudantes de Medicina no estrangeiro que pensam não regressar», Alexandra Campos, Público, 29.12.2011, p. 10).
      Anestesista é mais fácil de pronunciar e significa o mesmo. Ou não? Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, anestesista é o médico que aplica anestesia, o especialista em anestesia, e anestesiologista é a pessoa especializada em anestesiologia.
[Texto 894]
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«Reunir-se»

Conjugado reflexamente

      «Na próxima segunda-feira, a comissão de trabalhadores da FCV vai reunir, pelas 18h, com o vice-presidente da Câmara de Gaia, Firmino Pereira, que, em conjunto com o presidente da autarquia, Luís Filipe Menezes, já recebeu o conselho de administração da empresa, há cerca de quinze dias» («Cerâmica Valadares precisa de um milhão de euros mas não encontra crédito», Aníbal Rodrigues, Público, 31.12.2011, p. 16).
      De vez em quando, é conveniente voltarmos a tratar destes erros, não aconteça pensar-se que estão ultrapassados. Reunir é verbo transitivo, pelo que pede complemento directo. Onde está ele na frase acima?
[Texto 893]
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Ortografia: «painho»

Câmara de maravilhas

      «Era um senhor alentejano que vinha trazer pão ao cozinheiro do restaurante onde eu ia almoçar. Este incitou-me a segui-lo até à carrinha, por “estar cheia de coisas boas”. Assim fiz e lá descobri um único balde cheio de azeitonas novas, pão, paios, paínhos e queijinhos de ovelha. Era um wunderkammer de entradinhas» («Olá e adeus», Miguel Esteves Cardoso, Público, 29.12.2011, p. 29).
      A palavra não é acentuada — como não são acentuadas as palavras «buinho», «cainho», «moinho», «rainho», por exemplo. Nestas e noutras, a semivogal i vem seguida do dígrafo nh da sílaba seguinte, que a anasala, levando-a a formar por si só uma sílaba: pa-i-nho.
[Texto 892]
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Sobre «colmatar»

Outros riscos

      «O risco de escrever sobre este assunto, com um título destes, é sempre o risco de moralizar em excesso, de opinar em causa própria e de ficcionar um diálogo grandíloquo com um ausente. Vou procurar colmatá-los evitando um tom plástico e circunscrevendo a minha defesa» («Carta a um ex-leitor de jornais», Pedro Lomba, Público, 29.12.2011, p. 32).
      «Colmatar riscos». Chegará a extensão semântica a tanto? Não me parece.
[Texto 891]
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Sobre «convocar»

Chamado a depor

      «Além de Iñaki Urdangarin, o juiz José Castro, titular do processo, imputou a prática dos crimes ao seu sócio Diego Torres e outros dirigentes do Instituto Nóos, chamados a testemunhar já no dia 5 de Janeiro. O ex-director-geral de Desportos do Governo das Ilhas Baleares, o ex-director da Fundação Illesport e o responsável pelo Instituto Balear de Turismo também foram convocados («Iñaki Urdangarin chamado a depor em tribunal», Rita Siza, Público, 30.12.2011, p. 30).
      Convocar é também solicitar a presença de alguém, geralmente de forma imperativa, mas não é o verbo habitualmente usado para exprimir a ordem com intimativa emitida por um tribunal. O monarca, antigamente, convocava as cortes. Convocava a palácio (como se dizia então) governadores e outros representantes da Coroa, etc.
[Texto 890]
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O «Público» errou

Erro num caso, gralha no outro

      «Por uma necessidade de simplificação de linguagem na manchete da edição de ontem dizia-se que “Quem pedir isenção das taxas da Saúde vai ter de revelar dados fiscais”. De facto, trata-se não de “revelar”, mas de autorizar o acesso a esses dados. Face à eventual confusão que o título possa ter gerado nos leitores, aqui fica a explicação» («O Público errou», Público, 30.12.2011, p. 40). 
      Sim, é um pouco diferente... Imagino as reclamações que receberam dos leitores. E hoje, no «Sobe e desce», sobre a ministra da Justiça: «Ao enterrar os famosos Campus de Justiça, o Estado irá gastar menos 15 milhões de euros por ano em rendas».
[Texto 889]
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Como falam os médicos

Eusébio fez levante!

      O Dr. José Roquette, director clínico do Hospital da Luz, veio, mais uma vez, falar do estado de saúde de Eusébio: «Passou muito bem a noite. Ahn... Fez... As análises estão muito... estão melhores. Do ponto de vista radiológico e clínico também. Ahn... Fez levante, sentou... está sentado num cadeirão.»

[Texto 888]
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«Handcycle»

Vamos arranjar-lhe nome português?

      «O ex-piloto italiano compete em handcycle (bicicleta adaptada para a propulsão manual). Em 2011 conseguiu vários resultados assinaláveis, com destaque para a vitória na Maratona de Nova Iorque e o segundo lugar no contra-relógio nos Campeonatos do Mundo de estrada. “Foi uma temporada muito boa. Consegui ganhar várias maratonas, em Roma, em Milão, em Veneza. Mas a Maratona de Nova Iorque foi a que me deu mais satisfação”, apontou» («Dez anos depois de perder as duas pernas num acidente Alessandro Zanardi quer uma medalha em Londres», Tiago Pimentel, Público, 26.12.2011, p. 27).

[Texto 887]
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Léxico: «canhangulo»

Espécie de trabuco

      «Traziam amuletos para que as balas dos brancos não lhes fizessem mal, atacavam com canhangulos e catanas, trepavam pelos muros e caíam ao pé do portão» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 29).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que é o nome que, em Angola e Moçambique, tinha a espigarda antiga de carregar pela boca. Seria? «Os canhangulos eram armas feitas com canos rudimentares, onde os guerrilheiros colocam pólvora e pregos, bocados de ferro, etc. Através de uma cabeça de fósforo colocada num orifício, perto da pólvora, o gatilho, feito de madeira, agarrado ao fuste, fazia disparar a arma, a mais perigosa que “eles” tinham» (A Vida É Um Ensaio, Adriano Correia de Pinho. São Paulo: Biblioteca 24 Horas, 2010, p. 67).
[Texto 886]
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Sempre o inglês

Em Luanda

      «Naquele gabinete já se lhe sente o cheiro, está no corredor por onde o Capitão os acompanha, por detrás das portas fechadas, no pátio da entrada e nas janelas iluminadas onde teóricos e burocratas redigem sitreps e perintreps» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 23).
      Em Álvaro Guerra ao menos aparecia grafado em itálico: «– Li-lhe as perintreps, os louvores ao batalhão, ouvi-lhe uma arenga no QG de Luanda. Duro de roer. Não vai tratar como iguais os que lá tratava como bandidos» (Café 25 de Abril: as Ruínas: Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha, Álvaro Guerra. Lisboa: Jornal, 1987, p. 92).
      Do inglês, pois claro: sitrep (situation report) e perintrep (periodic intelligence report).
[Texto 885]
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Como se fala na televisão

Tradição portuguesa

      As labaredas do madeiro de Natal de Penamacor cresceram mais alto do que a igreja. Os bombeiros, de prevenção, intervieram. «Agora é suposto o madeiro ficar a arder até aos Reis, dia 6 de Janeiro», rematou o repórter da RTP. É modismo que se está a empregar menos nos últimos tempos, parece-me.
[Texto 884]
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Como falam os médicos

Pontos de vista

      Anteontem, o Dr. José Roquette, director clínico do Hospital da Luz, veio novamente falar do estado de saúde de Eusébio: «Eusébio passou muito bem a noite, está muito calmo. Do ponto de vista clínico, laboratorial, imagiológico e radiológico, está melhor.»
[Texto 883]
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Ouçam-se

Exercício

      «Devíamos tê-la invejado por ter encontrado alguém sem quem sentia não poder sobreviver para além da porta de embarque, para já não falar da distância, num austero quarto de estudante num subúrbio do Rio» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 46).
      Neste caso, não se trata da tradução em si, mas da absoluta falta de ouvido. Ora leiam em voz alta: «alguém sem quem sentia». Agradável? Harmonioso? Eufónico?
[Texto 882]
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Tradução: «wear»

Se tudo correr mal

      «Ambos envergando óculos de sol enormes, tinham chegado à idade adulta no período entre a pneumonia asiática e a gripe dos porcos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 45).
      Como em inglês é wear, muitos (o erro não é novo para mim) julgam que a melhor tradução é «envergar». Essa acepção, porém, só nos dicionários do futuro, porventura, se poderá encontrar. Se tudo correr mal. Enfim, não é só de melhores dicionários que precisamos.
[Texto 881]

 

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Como se escreve nos jornais

Às três pancadas

      «Não pode andar devido a uma recente fractura do fémur e angustia-se constantemente com as muitas dívidas contraídas ao longo dos anos, que nem consegue administrar, porque um tribunal da cidade italiana de Velltri lhe adjudicou um tutor ao vê-la só, sem filhos e nenhum familiar que pudesse tratar dos seus muitos encargos» («Anita Ekberg. Sozinha e com dívidas», «P2»/Público, 24.12.2011, p. 13).
      É assim que foi publicado, por exemplo, no El País, e o jornalista (se foi jornalista) português limitou-se a copiar: «ya que un tribunal de la ciudad italiana de Velltri le adjudicó un tutor al verla sola, sin hijos ni ningún familiar que pueda hacerse cargo de sus necesidades». Se se desse ao trabalho, concluiria que não existe nenhuma cidade com aquele nome, mas sim Velletri, que dista 40 km de Roma. Se tivesse lido a imprensa italiana, veria que o tutor («amministratore di sostegno») foi «nominato dal Tribunale di Velletri», e não adjudicado. (Sim, e o resto da tradução também tem muito que se lhe diga.)

[Texto 880]
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«Estacar/estancar»

Aqui não há erro. (Uf!)

      «Um rato selvagem saltou da relva para a pista, onde estancou por um breve momento, encandeado pelos faróis do jipe» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 110).
      Nesta acepção, estacar e estancar são sinónimos, ao contrário do que se possa pensar. No entanto, não é habitual ver-se, e eu, para evitar equívocos (mas os leitores têm de aprender, sim), não o usaria. Já encadear e encandear não são sinónimos, e é erro que vejo com alguma frequência. Não se confundam cadeias com candeias.
[Texto 879]
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«Nigga bitch»

N—A B—H

      «A cantora Rihanna anda zangada. Há dias, escreveu no Twitter que, em Portugal, tinha sido alvo de racismo e agora indignou-se porque a publicação de moda Jackie qualificou o seu estilo de vestir como nigga bitch. Rihanna acusou a redactora-chefe de ser responsável por uma publicação que não defende os direitos humanos, comportando-se de forma desrespeitosa. Esta demitiu-se, dizendo que bitch, na Holanda, se utiliza sem problemas para descrever uma pessoa irritante» («Rihanna em nova polémica», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19).
      E depois? Se lhe chamou nigga bitch, para que é para aqui chamado o particular matiz que bitch tem na Holanda? Irritante, esta Eva Hoeke. Bitch.
[Texto 878]
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O «Público» errou

Dados mais finos

      «Na edição do PÚBLICO de dia 8 escrevia-se em título que “Um quinto da população portuguesa não tem qualquer nível de ensino”. Embora o número fornecido pelo INE esteja correcto, devia ter-se referido que neste valor o INE incluiu as crianças sem idade para poderem ter qualquer nível de escolaridade, o que significa que, retirada esta população, o indicador será bastante mais baixo. No entanto, não há neste momento no Censos 2011 dados mais finos que permitam conhecer esta realidade com rigor, algo que só acontecerá com a divulgação dos dados definitivos, em 2012. Pela omissão daquela informação, as nossas desculpas» («O Público errou», Público, 23.12.2011, p. 32).
      Oito dias depois de o provedor do jornal ter referido, citando a carta de um leitor, o caso é que vêm fazer a correcção. Quando se erra e se sabe que se errou, a correcção só perde na demora. No sobe e desce, fica bem lá em baixo.
[Texto 876]
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Falsos amigos

Ao lado

      «A 1 de Janeiro, o castelo de Windsor estará convertido num palácio ecológico, sendo capaz de gerar a sua própria electricidade. Ou seja, a rainha Isabel II continua determinada em ter uma monarquia verde. Antes já havia mandado instalar uma planta hidroeléctrica em Balmoral, Escócia» («Isabel II é uma rainha verde», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19). 
      Sim, a rainha «has installed a small hydro-electric plant at Balmoral which is selling electricity to the national grid». Senhor jornalista: em espanhol é que planta também é a «fábrica central de energía, instalación industrial». Mas nós estamos em Portugal, não é?
[Texto 877]
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Acordo Ortográfico

Isso é dAO

      «Todos os anos, a revista Science escolhe o avanço do ano. Em 2011, a escolha tem um carácter quase mais político do que científico: os ensaios clínicos que demonstraram claramente que os medicamentos antirretrovirais previnem a transmissão do HIV entre casais heterossexuais, quando um dos elementos não tem sida» («Prova de que medicamentos para HIV previnem transmissão da sida é avanço do ano», Clara Barata, Público, 23.12.2011, p. 21).
      Assim, em doses homeopáticas, os leitores do Público não vão rejeitar as novas regras ortográficas. Então não é anti-retroviral que devia ter escrito, cara Clara Barata? Quais são as ordens?
[Texto 875]
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Como se escreve nos jornais

É o que vem à cabeça

      «Este tipo de condição acontece uma vez em cada 100.000 gravidezes, mas a sobrevivência é de 50%. Este é o segundo caso de siameses ligados pelo corpo num ano no Brasil, os primeiros morreram no nascimento. Nos EUA, um dos casos mais célebres é o das gémeas Abigail e Brittany Hensel, nascidas em 1990. Segundo a BBC News, ambas têm tido uma vida normal dentro do possível e até tiraram a carta de carro quando fizeram 16 anos» («Gémeos partilham maioria do corpo», Público, 23.12.2011, p. 21).

[Texto 874]
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Léxico: «amarelo-choque»

Para nada

      «A associação ambientalista Quercus alertou ontem que a EDP está a pintar partes do paredão da barragem de Bemposta (Mogadouro) de “amarelo-choque”, sem autorização do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB)» («EDP pinta barragem à revelia do ICNB», Público, 22.12.2011, p. 21).
      Ainda não foi acolhido, como o rosa-choque, nos dicionários, mas essa não é razão para ter o preservativo das aspas.
[Texto 873]
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«Azulejo/mosaico»

Até para não haver confusões

      «Aqui, em contraste flagrante, encontramos um chão de azulejo cinzento, corredores bem iluminados ladeados de painéis de vidro num calmante verde-pálido e retretes com louças bonitas e portas de madeira maciça a toda a altura dos cubículos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, pp. 119-120).
      Não serão muitos os dicionários que registam que o azulejo serve para revestir paredes. Alguns registam que é a placa de cerâmica geralmente utilizada no revestimento de paredes. Outros registam apenas que serve para revestir superfícies. Sabemos, contudo, do dia-a-dia, que, se formos a uma loja de materiais de construção e pedirmos azulejos, não nos darão nada de semelhante às placas cinzentas que revestem o chão dos terminais mais recentes do Aeroporto de Heathrow. Dar-nos-ão antes a escolher, e sem surpresa para mim, de entre uma série de placas de cerâmica parecidas com as que Ricardo Taveira desenhou para o Estádio do Sporting.
[Texto 872]
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Anglicismos

Já não chegam as palavras portuguesas

      «Sempre que mergulhavam os olhos um no outro, como se realizassem de novo a catástrofe que lhes ia cair em cima, entregavam-se a um novo acesso de choro» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 45). «A nossa sociedade é afluente em grande medida porque os seus cidadãos mais ricos não se comportam como popularmente se imagina» (idem, ibidem, pp. 86-87).
      Decerto que o tempo de que se dispõe para se traduzir e rever tem toda a importância, mas, em relação a certos aspectos da língua, tanto demora e custa fazer bem como fazer mal. E quem quer, deliberadamente, fazer mal? Ninguém, certamente, mas adquirir conhecimentos é árduo, é trabalho, e trabalho que cedo se revela infinito.
[Texto 871]
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Tradução: «room»

E ainda dizem que eles não

      «A intervalos de minutos, uma voz (geralmente de Margaret, ou então da sua colega Juliet, falando a partir de um pequeno quarto no andar de baixo) fazia um anúncio tentando reunir, por exemplo, uma Sr.ª Barker, recentemente chegada de Frankfurt, com a sua bagagem extraviada, ou de recordar ao Sr. Bashir o embarque imediato no voo para Nairobi» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 55).
      Ora vejam como se cai nos erros mais elementares. Uma funcionária do Aeroporto de Heathrow a trabalhar num pequeno quarto. Entre nós, o quarto é a divisão da casa onde geralmente se dorme. Quando se traduz a palavra room, é prudente pensar nestas coisas básicas. No caso, nem tradutor nem revisor repararam. É muita gente...
[Texto 870]
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Adjectivos compostos

Se não ofender

      Então qual foi o critério seguido? «[...] Algumas das viagens iniciadas aqui foram decididas apenas alguns dias antes, reservadas em resposta a uma situação a desenvolver-se rapidamente nos escritórios de Munique ou de Milão; outras são o fruto de três anos de ansiosa antecipação de regresso a uma aldeia no Norte de Caxemira com seis malas verdes-escuras cheias de prendas para jovens parentes ainda desconhecidos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 35). «Não poderemos gozar palmeiras e piscinas azul-celestes, se a relação em que estamos envolvidos subitamente se revelar cheia de incompreensão e ressentimento» (idem, ibidem, p. 54).
[Texto 869]
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«Eminente/iminente»

Dos piores

      «Do lado do terminal sobressaía a cauda solitária de um A321 da British Airways, antecipando outra odisseia eminente no frio implacável da baixa estratosfera» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 30).
      É o mais amaldiçoado par de parónimas que existe. Ainda ontem vi num autor, que me dissera ter sido professor de Português durante mais de quarenta anos, «a eminência de um novo cerco». Na maioria dos casos, há-de ser resultado apenas de falta de atenção. Feito o diagnóstico, já se sabe o remédio.
[Texto 868]
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Gíria médica

Aqui ao lado

      No noticiário das 7 da tarde, na Antena 1, o director clínico do Hospital da Luz, Dr. José Roquette, veio falar do estado de saúde de Eusébio. «Está estável, vígil e bem-disposto e acabou de jantar.» Quanto tempo vai ficar hospitalizado o Pantera Negra? «Nesta fase, é muito difícil fazer qualquer informação sobre o tempo que ele vai cá ficar.»
      Fazer medicação, fazer uma entorse, fazer informação... É a gíria médica na sua ausência de esplendor e de imaginação.
[Texto 867]
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Léxico: «cisalhamento do vento»

Isso sim

      «Por detrás de cada voo bem sucedido estão os esforços coordenados de centenas de almas, desde os fabricantes dos kits de cortesia das companhias aéreas até aos engenheiros da Honeywell, responsáveis pela instalação de radares de detecção de cisalhamento do vento e de sistemas de prevenção de colisão» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 25).
      Eu não conhecia a expressão, de cariz técnico. Só me espanta uma coisa: que se não tenha copiado a expressão inglesa: wind shear. Kit está entre as palavras difíceis impossíveis de traduzir...

[Texto 866]
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Uma frase

Interessa saber

      «Quando observamos objectos caríssimos de beleza tecnológica, podemos sentir-nos tentados a resistir ao assombro, não vá ficarmos estúpidos de admiração» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 17).
      Trata-se, acaso, de uma expressão fixa, para que possa ficar assim? Ou há ali uma elisão: «não vá [acontecer] ficarmos estúpidos de admiração»?
[Texto 865]
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Sobre «corporação»

E continua assim

      «No Verão de 2009, recebi um telefonema de um homem que trabalhava para uma corporação proprietária e operadora dos aeroportos de Southampton, Aberdeen, Heathrow e Nápoles, para além de supervisionar as áreas comerciais dos aeroportos de Boston Logan e de Pittsburg International» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 14).
      Já vimos, e mais de uma vez, no Assim Mesmo como este anglicismo semântico é completamente desnecessário.
[Texto 864]
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«Tese/dissertação»

Nem em Trás di Munti

      «O Jon Schubert, um suíço que estuda na Escócia e passou a infância em Angola, usou a bolsa para fazer um ano de trabalho de campo sobre memória e política na Angola pós-guerra civil. Vai redigir a sua tese de doutoramento no próximo ano e meio. [...] O Marcos Santos terminou a investigação e a escrita da sua tese de mestrado sobre theileriose bovina (não perguntem) que concluiu e defendeu com excelente nota. [...] A Tânia Madureira é antropóloga e foi a primeira a partir, para um trabalho de campo em Trás di Munti, na ilha cabo-verdiana de Santiago. Veio de lá carregada de imagens e gravações que entretanto transcreveu, e encontra-se a redigir a sua tese de mestrado» («Bolsas 2.0», Rui Tavares, Público, 19.12.2011, p. 32).
      Já o vimos várias vezes no Assim Mesmo: dissertação de mestrado e tese de doutoramento. Confundir tudo ou trocar as designações nunca pode redundar em nada de bom.

[Texto 863]
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«Desgravação»

E voltou a errar

      «Na entrevista com a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ontem editada como destaque do PÚBLICO, por lapso de desgravação vem erradamente referido o nome de Marcelo Curto como tendo sido um dos dois políticos condenados em Portugal por corrupção» («O Público errou», Público, 20.12.2011, p. 30).
      Já o escrevi há mais de um ano: é termo (juntamente com o verbo desgravar) da gíria jornalística que os jornalistas deviam reservar para falar entre si.
[Texto 862]
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Como se escreve nos jornais

Pode parecer despropositado

      «A pergunta pode parecer despropositada, mas vem-me em boa hora. Permite-me, por exemplo, escrever uma crónica em que tenho matutado com certa frequência; uma crónica que recorde José Rodrigues Miguéis, o escritor português falecido em Nova Iorque, em 1980, com o qual a eternidade não tem sido benévola» («José Rodrigues Miguéis», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 20.12.2011, p. 3).
      A eternidade é muito tempo, caro Jorge Marmelo. Não chegava, mais modestamente, a posteridade?

[Texto 861]
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Como se escreve nos jornais

Excessos natalícios

      «Sem dúvida que a magia do Natal invadiu a realeza do Mónaco. Para além do magnífico banho, há dias, Alberto II e a mulher Charlene haviam convidado várias crianças para festejarem com eles as festividades natalícias» («Mónaco. Príncipe Alberto II e o banho tradicional de Natal», «P2»/Público, 20.12.2011, p. 15).
[Texto 860]
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«Porque», advérbio interrogativo

Sempre teremos a arteirice

      «Em Janeiro, as iranianas foram proibidas de assistir a jogos de futebol ao vivo. Mas não se preocupem, minhas senhoras: o prof. Freitas arranjará uma solução. Porque não desfiles de moda, com véu e tudo? Também por aí passou a diplomacia sino-americana. Na verdade, foi num desfile de moda jugoslava, em Varsóvia, que em 1969, com instruções de Nixon, o embaixador dos EUA abordou o encarregado de negócios chinês. Teríamos, então, o futebol para homens e, para senhoras, desfiles de moda. E por que não, professor, desfiles de moda euro-árabes? Em Paris. Poderia o professor rever amizades pretéritas. We will always have Paris, José» («Teremos sempre Paris, José», Pedro Lomba, Público, 20.12.2011, p. 32).
      Pedro Lomba ainda não se decidiu pela grafia definitiva do advérbio interrogativo. Anda a ensaiar nas crónicas.
[Texto 859]
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Sobre «assunção»

É comum

      «A 17 de Dezembro, Lisboa avisa todas as suas missões diplomáticas que está iminente um ataque. “O Governo confia que todos saberão cumprir o seu dever.” Salazar enganava-se na assunção de que a luta seria até à última gota de sangue» («O dia em que a paciência da Índia chegou ao fim», Francisca Gorjão Henriques, Público, 18.12.2011, p. 6).
      Assunção é, nas palavras de Agenor Soares dos Santos, no Guia Prático de Tradução Inglesa (São Paulo: Editora Cultrix, 1983), «candidato a anglicismo nas acepções supor, pressupor, presumir; admitir, aceitar como hipótese, ter por certo ou por assentado». Assunção, para mim, tirando a das dívidas e a de Nossa Senhora, só a Cristas e a Esteves. (E pensar que o AOLP90 repristinou a grafia «assumpção» ainda nos deixa mais intranquilos.)
[Texto 858]
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Léxico: «bólido»

É raro

      «A NASA está a desenvolver um arpão para recolher amostras nos cometas. Uma vez que aterrar na superfície destes bólidos é bastante arriscado – chegam a deslocar-se a 240 mil km por hora, cuspindo bocados de gelo, rocha e poeiras –, os cientistas estão a ponderar enviar uma nave espacial ao encontro dos cometas para os alvejar com um arpão» («Arpão apanha-cometas», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 19.12.2011, p. 3).
      Conhecemo-lo melhor na grafia bólide e com a acepção, por extensão de sentido, de «carro de corrida; automóvel veloz».
[Texto 857]
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Ortografia: «além-fronteiras»

Uma solução

      «E o deputado bloquista José Gusmão diz que a mensagem do primeiro-ministro é “o último a sair que apague a luz” e lembra que este conselho de Passos tem “precedentes”: o secretário de Estado da Juventude aconselhou os jovens desempregados a procurarem oportunidades “além fronteiras”» («Passos criticado por aconselhar professores a ensinar nos PALOP», Público, 19.12.2011, p. 11).
      Esperava, esperávamos todos, mais cuidado num jornal que luta — mas acordou demasiado tarde — contra o Acordo Ortográfico de 1990. É além-fronteiras que se escreve, e até está exemplificado no texto do AO45.
[Texto 856]
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Como se escreve nos jornais

Ao menos aqui

      «Já sabíamos que o Governo quer castigar os pais pelo mau comportamento ou absentismo dos filhos. Agora, sabemos que tem o apoio dos directores escolares e que está pronto para avançar com a mudança, de modo a que entre em vigor no próximo ano lectivo» («Os 1,8% de alunos mal comportados», Público, 19.12.2011, p. 30).
      Nem por ser o editorial têm mais cuidado. «De modo a que» é expressão completamente espúria. «Mal comportados» é grafia incorrecta. É malcomportados que se escreve. (E porque é que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista este adjectivo?)
[Texto 855]
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Como se escreve nos jornais

Pois, pois

      «Manuel Carvalho da Silva, Octávio Teixeira, Ana Benavente e Boaventura Sousa Santos são alguns dos 44 membros eleitos pela Convenção da Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública para constituírem uma comissão encarregue de colocar em prática esta análise às contas públicas» («Auditoria à dívida elege comissão de 44 membros», Público, 19.12.2011, p. 13).
      «Convenção da Iniciativa», «comissão encarregue», «colocar em prática» — mas quem é que escreve estas coisas?
[Texto 854]
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«Tratar-se de»

No futuro

      «Existem cerca de 55 mil cidadãos britânicos em Portugal e perto de um milhão em Espanha, segundo o Daily Telegraph, que diz tratarem-se sobretudo de reformados que vivem de pequenos rendimentos, a quem poderia ser enviada também ajuda em dinheiro» («Reino Unido prepara-se para crise do euro», Paulo Miguel Madeira, Público, 19.12.2011, p. 13).
      Nesta acepção, o verbo tratar-se é impessoal, pelo que é invariável na 3.ª pessoa do singular, em qualquer tempo e modo. Um dia, todos os jornalistas o saberão.
[Texto 853]
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«Execução com um tiro»

Já não tem emenda

      «A execução com um tiro na cabeça do ourives Vítor Costa, na Azinhaga das Galinheiras, em Lisboa, na noite de sexta-feira, é um exemplo de como os bandos de assaltantes de ourivesarias estão cada vez mais violentos» («Gangue das ourivesarias são violentos e polivalentes», Rute Coelho, Diário de Notícias, 18.12.2011, p. 20).
      Até parece que o desgraçado foi sentenciado, em tribunal marcial, por traidor e executado.

[Texto 852]
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Como se escreve nos jornais

Hum...

      «O facto de ter sido o herói da Segunda Guerra – o primeiro-ministro que avançou para o confronto com Hitler quando, na Grã-Bretanha, havia um sentimento pró-germânico bastante instalado – é tão poderoso que atira para plano secundário um facto interessante» («Winston Churchill. As memórias extraordinárias do homem das nossas vidas», Ana Sá Lopes, i, 17.12.2011, p. 8).
      O facto... o facto. Não é um pouco circular? Não são factos a mais? O que mais me espantou, porém, foi uma citação que Ana Sá Lopes faz da obra Memórias da II Guerra Mundial, de Winston S. Churchill (Texto Editora, 2011): «A ascensão de Hitler é explicada em parte pela violenta crise económica e pelo desemprego generalizado: “No auge da inflação, uma libra esterlina valia 4,3 biliões de marcos. As consequências sociais e económicas dessa inflação foram fatais e de grande alcance.”» Uma libra esterlina valia mesmo 4,3 biliões de marcos?
[Texto 851]
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«Adstrito»

Obrigado a

      «A governante [Assunção Cristas] desvalorizou os casos em que houve diminuição de quota, sublinhando que “são casos com pouca expressão em Portugal e em que, normalmente, não cumprimos sequer a quota que nos está adstrita e que, portanto, não nos preocupam”» («Armadores colocam reservas às quotas de pesca para Portugal», Virgínia Alves, Diário de Notícias, 18.12.2011, p. 33).
      É a quota que nos está adstrita ou nós que estamos adstritos à quota? Adstrito significa «obrigado a; constrangido, sujeito». Foi um termo mal aprendido nos livros de Direito, em que se usa tanto.
      «De modo geral, o camponês está adstrito a um passadio frugal, esgotadas as reservas da salgadeira nos meses ingratos do Inverno, e carne, se a vê, é nos açougues da vila, quando vai à feira comprar os alhos» (Aldeia: Terra, Gente e Bichos, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1964, p. 108).

[Texto 850]
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Como se escreve nos jornais

Cum caneco, já não há verbos

      «Resta introduzir que Ricardo foi apanhado a conduzir um Opel à meia-noite com 1,90 gramas de álcool no sangue – não sabemos se tinha álcool no sangue ou sangue no álcool – mas, como veremos, só o fez porque é um homem bom» («Ricardo. A matéria-prima que prova que homem bom é um bicho raro, mas não nos tribunais», Sílvia Caneco, i, 17.12.2011, p. 27).
[Texto 849]
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Como se escreve nos jornais

No circo

      «A mulher bala volta a aparecer, desta vez com um capacete na mão e um mâio.[...] “O meu recorde pessoal é de 44 metros”, conta Jeniffer. “É três vezes mais do que estou a fazer aqui, porque não há espaço. Não posso ir mais longe se não bato no tecto e não posso puxar o airbag mais para cima porque ficava em cima das pessoas.”» («Mulher bala. É um pássaro? É um avião? É a atracção principal do Circo Cardinali», Clara Silva, i, 17.12.2011, pp. 44-45).
[Texto 848]
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Como se escreve nos jornais

Em japonês

      «É também o caso de Neymar, que anda de táxi de um lado para o outro sem que alguém lhe importune por uma fotografia ou um autógrafo» («Tóquio. Uma versão divertida do Lost in Translation», Rui Miguel Tovar, i, 17.12.2011, p. 61).
[Texto 847]
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Como vai o ensino

A escola moderna

      Acabou há minutos o programa Em Nome do Ouvinte, na Antena 1, que teve como convidada a linguista Regina Rocha. A propósito de dúvidas, a linguista disse que ainda há pouco um colega, professor de Direito no ensino secundário, lhe tinha perguntado se se dizia /prolicho/ ou /prolicso/.
[Texto 846]
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«Auditório/audiência/público»

Conjunto de ouvintes

      «Já não estamos na ilha de Santo Domingo de la Hispaniola, já não haverá colonos no auditório, mas frei Antón de Montesinos voltará a subir ao púlpito e a criticar os espanhóis pelas crueldades que infligem aos índios. No próximo dia 21, às 21h30, Luís Miguel Cintra será frei Montesinos. E repetirá, na Igreja do Convento de S. Domingos, em Lisboa, o sermão que aquele frade dominicano pregou, faz nesse dia precisamente 500 anos, condenando com veemência a forma como os espanhóis tratavam os índios na ilha de La Hispaniola» («Frei Montesinos vai voltar a pregar contra a exploração dos índios», António Marujo, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 10).
      Muito bem, auditório, conjunto de ouvintes. Nos últimos anos, na imprensa e mesmo nos livros, tem-se vindo a impor o anglicismo semântico «audiência». Que, já li, há quem defenda ter não sei que matiz que o torna insubstituível com o significado de «conjunto de pessoas que, num dado momento, assistem a um programa de televisão ou ouvem uma emissão radiofónica». Em Espanha, por exemplo, só entrou na 20.ª edição do DRAE em 1984. Claro que, mesmo sem influxo estrangeiro, os vocábulos passam a significar algo diferente. Parlamento, por exemplo, que antes só significava «discurso» numa assembleia, hoje também significa a própria assembleia.
[Texto 845]
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«E o de marechal tem de ser pequeno»

Com sessões e cartazes

      «Vejamos então o que se passa no 1.º ciclo. O Francisco tem nove anos e está no 4.º ano de uma escola pública de Lisboa. Já estão a escrever segundo o acordo ortográfico? Diz que sim, e descreve uma sessão em que lhes foi apresentado um powerpoint com várias imagens mostrando as alterações que o acordo introduz. Se ele sabe algum exemplo? Sabe um dos que lê todos os dias nos cartazes que a professora colou nas paredes da sala: “Em Avenida Marechal Gomes da Costa, o ‘a’ de Avenida pode ser grande ou pequeno, e o de marechal tem de ser pequeno”, explica» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 8).
      Dito assim, até parece que o miúdo estava a troçar da jornalista: «Em Avenida Marechal Gomes da Costa, o ‘a’ de Avenida pode ser grande ou pequeno, e o ‘a’ de marechal tem de ser pequeno.» Claro que a jornalista não tinha obrigação de elucidar o rapazinho, tanto mais que trabalha num jornal que (ainda) não aplica as novas regras. Ainda, sim, porque a prazo essa posição, já o escrevi uma vez e repito, é insustentável. «A professora decidiu entretanto tirar os cartazes da sala por achar que era demasiada informação para ser dada de uma vez só». Muita e, a fazer fé na memória do aluno, alguma errada. Não é como ele diz. Está a amalgamar duas regras, por acaso afins.
[Texto 844]
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«Mas não em cor-de-laranja»

Ai, ai

      Ou melhor, quando leio ou ouço falar do Acordo Ortográfico, puxo logo da pistola. «Também Ana Soares [coordenadora do departamento de Português do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa] diz que as dificuldades que têm surgido resultam de regras cuja lógica nem sempre é perceptível — por exemplo, o hífen, que deixa de existir em cor-de-rosa, mas não em cor-de-laranja. Curiosamente, é o mesmo exemplo que Fátima Gomes utiliza para lamentar que a questão da hifenização “tenha muitas excepções, e depois excepções dentro das excepções.”» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 9).
      Santo Deus, mas onde é que esta gente leu semelhante coisa? Há-de ser onde se ouve dizer que «se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’». Pessoas com responsabilidade — no caso, coordenadora do departamento de Português —, em circunstâncias formais, e fazem estas afirmações.
[Texto 843]
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«Se disser Egipto escreve com ‘p’»

Estamos bem, estamos

      Quando se fala sobre o Acordo Ortográfico na imprensa, podemos esperar trapalhada. Vai um exemplo: «“Algumas bases são extremamente subjectivas”, diz [Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP)]. “Sobretudo no que diz respeito ao uso do ‘p’ e do ‘c’, em que, em muitos casos, a pessoa pode escrever conforme lhe apetecer. Se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’» («Este ano ainda será lectivo ou já será letivo?», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 17.12.2011, p. 8).
      A sério? «O topónimo ‘Egipto’ não se encontra registado na MorDebe.» É isto que Edviges Ferreira, «que tem feito várias acções de formação sobre o AO», ensina?
[Texto 842]
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«Levar a cabo»

Somos todos espanhóis

      Um castelhanismo já bem enraizado na nossa língua, com todo o ar castiço (com os castelhanismos, esse também é o problema: têm quase sempre, antigos ou recentes, ar de castiços — até «castiço» vem do castelhano castizo...), é a locução levar a cabo. Interessante é ver que, em Espanha, só no final do século XIX se passou a aceitar llevar a cabo, considerada forma espúria, a par de llevar al cabo, castiça (ou castiza, se quiserem...) dos quatro costados (ou por los cuatro costados, se lhes aprouver...).

[Texto 800]
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«Colapso», de novo

Outros desmoronamentos

      «No centro, é o resultado recente do colapso do império soviético. Só no Norte e em franjas do Noroeste, ela faz parte de uma velha cultura nacional. Não admira que a prepotência de Sarkozy e Merkel não perturbe por aí além os 27. Estão habituados» («Democracia», Vasco Pulido Valente, Público, 11.12.2011, p. 56).
      Colapso é a queda, por exemplo, de um edifício ou de uma nação. Nesta acepção, é um anglicismo, como já vimos mais de uma vez. À semelhança de muitos outros estrangeirismos, e mormente anglicismos, o problema é o seu ar castiço ocultar, mascarar a origem. Veja-se, por exemplo, o vocábulo «recessão». A acepção descida do nível da actividade económica ou diminuição do seu crescimento é anglicismo semântico relativamente recente. Não há muito tempo, recessão era somente o afastamento progressivo das nebulosas extragalácticas.
[Texto 799]
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«Pôr ao serviço»

Outro século

      «[Luiz Francisco Rebello] Foi “um autor de referência para o teatro português”, frisou o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, “um dramaturgo de excelência, que contribuiu para a dignificação desta arte e que colocou o teatro ao serviço da luta pela liberdade”» («“Ele era uma enciclopédia viva do teatro”», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 10).
      «Faço votos por que o Sr. Presidente do Conselho se apresse em pôr ao serviço da Nação um novo dente» (Farpas, vol. 4, Ramalho Ortigão. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1953, p. 62).
[Texto 798]
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Como se escreve nos jornais

Excrescências

      O professor universitário galego que dedicou quase quinze anos a investigar a história chama-se Narciso de Gabriel. Vai daí: «“Fiz várias indagações para tentar confirmá-lo, mas ainda não consegui. Em todo o caso, a notícia é seguramente verídica e ilustra bem as dificuldades que sofriam, e ainda sofrem, as pessoas que têm uma orientação ou uma preferência sexual que não corresponde ao cânone social”, diz de Gabriel» («Marcela e Elisa, um amor de contrabando», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 5).

[Texto 797]
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«Levar o nome»

Uma forma de contrabando

      «Existe ainda, em Espanha, um prémio que leva o nome de Elisa e Marcela, destinado a distinguir iniciativas que defendam os direitos dos homossexuais. E a Universidade da Corunha tem actualmente em exposição uma mostra dedicada ao tormentoso caso das duas mulheres» («Marcela e Elisa, um amor de contrabando», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 4).
      Mas esta não é forma de dizer inteiramente castelhana? «Muy semejante al libro que lleva el nombre de Juan Díaz Rengifo es el rarísimo Cisne de Apolo» (Historia de las ideas estéticas en España: Siglos XVI y XVII, Menéndez y Pelayo. Madrid: Imprenta de A. Pérez Dubrull, 1896, p. 321).
[Texto 796]
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Ortografia: «regurgitar»

Já foi como escrevem

      «Quem viu a procissão de automóveis numa ordem impecável regorgitar à porta da Cimeira a enorme legião dos poderosos da “Europa” ficou provavelmente a pensar que lá dentro as coisas se passariam com a mesma eficiência e regularidade» («Uma cimeira», Vasco Pulido Valente, Público, 10.12.2011, p. 44).
      Já se escreveu assim, já, mas agora escreve-se «regurgitar». Quando se lêem muitas obras do século XIX, dá nisto. Igual desculpa não terá, decerto, Mário Zambujal, e no entanto: «Recomendei a Cacilda que desse uma boa volta, o Casino regorgitava de homens, alguns americanos fardados de branco» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 64).

[Texto 795]
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«Você», de novo

Você, Judite

      Judite de Sousa, na TVI, entrevistou ontem Mira Amaral, o presidente do Banco BIC. Senhor engenheiro para aqui, senhor engenheiro para ali e ele — «Como é normal, quando você compra uma casa e faz o contrato-promessa de compra e venda, tem de pagar um sinal.» Só alguns professores universitários é que acham isto desrespeitoso, ou anormal, ou desnecessário.
[Texto 794]
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«Pôr a hipótese»

Vem de todos os lados

      «A carta, manuscrita e em italiano, referia “três explosões contra bancos, banqueiros, carraças e sanguessugas”, o que leva a polícia a colocar a hipótese de duas outras cartas armadilhadas terem sido enviadas» («Carta armadilhada no Deutsche Bank», Diário de Notícias, 9.12.2011, p. 35).
      «Mas a professora, quando pus a hipótese de me aportuguesar, informou-me que havia vários professores que desejavam conhecer-me e eu teria portanto de me aperrear outra vez no colete» (Conta-Corrente, Nova Série, III, Virgílio Ferreira. Lisboa: Bertrand Editora, 1994, p. 213).
[Texto 793]
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«De encontro a/ao encontro de»

A confusão continua

      «A escolha de Hugh Laurie, 52 anos, estrela da série televisiva Dr. House, para dar a cara pela nova campanha da marca de cosméticos L’Oréal não é inocente e vai de encontro ao novo homem com quem os homens se querem identificar (e que as mulheres querem ter)» («Retro, maduro, macho», Raquel Costa, Diário de Notícias, 9.12.2011, p. 28).
      A confusão continua. Cara Raquel Costa, se a escolha de Hugh Laurie fosse contra o «novo homem com quem os homens se querem identificar», o omnipotente marketing teria escolhido outra estrela. Neste caso, o sentido pedia a locução prepositiva ao encontro de, que se emprega para referir uma situação favorável.
[Texto 792]


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«Desconcertar»

Língua desconcertada

      De muito e diverso se fala aqui no blogue, mas se parece que perdemos tempo quando tratamos de estrangeirismos e matéria afim, não é assim. Pretende-se tão-somente ter consciência da língua que se fala. Por exemplo, desconcertar, no sentido de causar perplexidade, que não é hoje em dia muito frequente, não é galicismo em estado puro?
      «Isto de certa maneira desconcerta. Desde o princípio do século XIX que Portugal, em mais de um sentido, foi um protectorado inglês. A Inglaterra provocou na prática a independência do Brasil. A Inglaterra armou e pagou o movimento liberal para invadir o iníquo reino do senhor D. Miguel» («A nova sessão de patriotismo», Vasco Pulido Valente, Público, 9.12.2011, p. 44).
      Vem do francês déconcerter: «Surprendre quelqu’un, lui faire perdre l’assurance de son jugement ou de la conduite à tenir.» No tempo de Bluteau, apenas se desconcertava um relógio, um pé, um acordo. Agora, o desconcerto é universal. E a língua evolui — pois claro. Espera: «evoluir» não foi acoimado de galicismo?! Evoluciona, então. Evolve, seja. Evolute, e não se fala mais nisso. Esta, outra variante, Camilo usou-a, e agora os dicionários não a registam.
[Texto 791]
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Revisão

Para a próxima

      Ainda o livro de Mário Zambujal (Já não Se Escrevem Cartas de Amor. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed.), desta vez a propósito do uso destrambelhado do itálico e de alguma pontuação.
  1. (Ocorre-me: castanho e verde eram as cores daminha farda de lusito da Mocidade Portuguesa.)» (p. 10);
  2. «Resultado: onde ele estava era o ai-jesus. Inclusive as patroas, abundavam de salamaleques para tão gentil visitante» (p. 29);
  3. «O móbil do crime não foi o roubo. Nem carteira, nem anel com safira incrustada e fio grosso em ouro, tinham despertado a cobiça do criminoso» (pp. 29-30);
  4. «O próprio jornal se abalançava a afastar a hipótese de acidente, salientando que o local onde o corpo foi encontrado não tinha por perto, nem escadas nem relevo de pedra ou metal sobre os quais o infeliz pudesse ter tombado» (p. 47);
  5. «— Porra César, ao menos explica-te!» (p. 66);
  6. «Eu vi, uma mulher dos seus cinquenta, com o guarda-chuva feito lança, tentando subir ao ringue para trespassar o patife que saltou a pés juntos na barriguinha do preferido dela» (p. 69);
  7. «Tinham copos na mão e beberricavam o que me pareceu capilé» (p. 107);
  8. «Passo pela estante, retiro um policial de bolso, Maigret e o Caso Picpus, de Georgs Simenon» (p. 117);
  9. «Trouxe para esta casa um bom stock de livros que se amontoavam na residência de Lisboa e os policiais das colecções Xis e Vampiro, além de outros, vieram todos» (p. 117).
[Texto 790]
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Verbo «colocar»

Uma batalha perdida

      «Foi com o livro seguinte, “Os Emigrantes”, quatro histórias de exílios, traduzido para inglês em 1996, que [W. G. Sebald] conquistou a crítica inglesa e americana. Quando “Austerlitz” – a história de um homem que vai lentamente recordando quem é e como chegou a Inglaterra, num dos comboios do Kindertransport que trazia crianças judias da Europa Central para as colocar a salvo do extermínio – saiu, pouco antes de Sebald morrer, o sucesso, com pedidos de entrevistas, convites para sessões literárias e festivais, e contratos para os próximos livros, já tinha invadido o seu mundo protegido em East Anglia» («Sob o signo de W. G. Sebald», Susana Moreira Marques, Ípsilon, 9.12.2011, p. 9) «A estação de Lowestoft está quase igual à imagem que Sebald colocou no seu livro, mas onde naquela imagem havia janelas agora há tábuas pretas. De um lado da estação, um restaurante de “fish and chips”, fechado há muito. Do outro lado, o McDonald’s e a High Street com mais e mais cadeias» (idem, p. 10).
[Texto 789]
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Plural dos apelidos

Os Sousas na Baixa

      «Todos os anos pelo feriado, Ana e Loures vêm à Baixa para as compras de Natal. Mãe e filha cumprem a tradição, mas desta vez levam menos presentes para casa. A crise assustou os Sousas, que este ano decidiram trocar presentes apenas entre os membros mais chegados da família» (Jornal da Tarde, repórter Pedro Oliveira Pinto, RTP1, 8.12.2011).
[Texto 788]

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«Alheta/façoila/ventrecha»

Obrigado

      «Graças ao Duarte [Guedes Vaz], aprendi hoje – ... está-se sempre a aprender – que o focinho do porco, a parte mais saborosa segundo ele, se chama “façoila” e a cabeça do peixe, o lado mais gostoso num bom pescado, se designa por “alheta”. Palavras que virão no dicionário?» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 333).
      Duarte Guedes Vaz, o primo de Otelo? Agradeça também em meu nome ao Sr. Dr. Eu pensava que só se lhe chamava «faceira». «Alheta» também desconhecia nessa acepção. Para a troca: à posta do peixe que se segue à cabeça dá-se o nome de ventrecha.
[Texto 787]
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«Dor de cabeça»

Uma dor de cabeça

      O noticiarista, com ar de quem queria uma receita, perguntou ao Dr. António Vaz Carneiro, especialista em medicina interna, qual a diferença entre dor de cabeça e enxaqueca. «Bom, da última vez que vi, havia qualquer coisa como perto de trinta definições diferentes do que são dores de cabeça, ok?» Em língua inglesa, há-de ser mais fácil encontrar. Nos dicionários gerais da língua portuguesa, nem sequer consta como entrada autónoma. Temos cefaleias, enxaquecas, cefalalgia, hemicranias... Nada, salvo «enxaqueca», que se diga no dia-a-dia. Aos Espanhóis, ouço-os falar em dolor de cabeza, em jaqueca e em migraña, que o DRAE, para os académicos dormirem bem, jura que vem do latim hemicranĭa. E o francês migraine?
[Texto 786]
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«Ciceronar»?

Servir de guia

      «O Narciso Pestanudo, amansado, partira com os inimigos para os ciceronar por bares e cabarés da cidade» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 57).
      Não é que faltem gralhas, e gralhas improváveis, e erros na obra («galinha pedrez», «impropabilidades», «isensão», «cabelo frizado», «regorgitar» e outras), mas estranhei esta grafia. Há algumas abonações para esta variante, se o é, mas não me convence.
[Texto 785]
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«Na medida em que»

Nunca usei

      «Gosto da chuva, na medida em que as secas prolongadas me deprimem» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 75).
      Não sei, parece-me expressão antiliterária. E já foi bordão, lembra-o Edite Estrela, que serviu a muita gente. Creio que é o livro de estilo do Estadão que recomenda que se lhe substitua, sempre que se puder, por se, uma vez que, porque ou desde que. Até, como outros, confesso que não sei lá muito bem o que significa esta locução conjuntiva. E você?
[Texto 784]
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Ortografia: «satiagrahis»

Assim não

      «Salazar nem deu troco e os jornais começavam a falar em surtidas de satriagrais» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 108).
      Até no Boletim Geral do Ultramar ora se lê «satiagrahis» ora «satyagrahis», mas, que diacho!, sempre se percebe do que se trata. Esta grafia desfigura quase completamente a palavra.
[Texto 783]
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«Onde/aonde/donde»

Vou para casa

      «A este propósito, a Isabel Amaral contou que o Manoel de Oliveira, intrigado perante tão inusitado êxito [do filme Vou para Casa], perguntou ao Paulo Branco: “Aonde é que a gente errou?!”» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 111).
      Manoel (obriguem-no lá a escrever o nome com u, vá lá) de Oliveira fala assim tão mal? Não acredito. Acho que, se leu o livro, ficou outra vez intrigado.
[Texto 782]
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Revisão

Iconic British Luxury Brand Est. 1856

      «Velhos e velhas encasacados nos seus loddens, cor verde-escura, envoltos nos cachecóis axadrezados da Burberrys. Friorentos, estão com mais frio do que o frio que está. Burguesia de cabelos brancos, neta e bisneta de burgueses, anestesiada por décadas de bem-estar» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 24).
      É loden que se escreve, como já aqui vimos a propósito daquele que Freitas do Amaral usava. E, como o título mostra, é Burberry que se escreve. Um entre muitos erros e gralhas nesta quase de certeza falsa 2.ª edição. Fica para a próxima tiragem, ou, se com todos ou quase todos os erros e gralhas corrigidos, quem sabe se 3.ª edição.
[Texto 781]
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Sobre formas de tratamento

Você é que sabe

      «Paralelamente, sobre o complicado que são as relações humanas em Portugal, em especial o tratamento entre pessoas, [Antonio Tabucchi] diz-me que somos considerados nesta matéria, depois do Japão, o país cujas regras são as mais difíceis de apreender. Recomenda-me a este propósito o pequeno estudo do Lindley Cintra: Sobre “Formas de Tratamento” na Língua Portuguesa.
      De facto, como explicar a um estrangeiro que se deve tratar o interlocutor que se tem pela frente na terceira pessoa do singular e pelo nome próprio, como se estivéssemos a evocar um ausente! (A solução seria talvez generalizar o emprego do “você” brasileiro, embora suscite anticorpos em muita gente.)» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 260).
      Tão difíceis de apreender, na verdade, que até alguns professores universitários têm dificuldade.

[Texto 780]
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Como se fala na televisão

Compara tu


      Diminuíram os levantamentos por multibanco, disse o jornalista António Esteves ontem na 1.ª edição do Telejornal: «O período em análise é a semana de 28 de Novembro a 4 de Dezembro de 2011 e compara com o mesmo período do ano passado.» Já tínhamos visto este modismo, ou má tradução, ou lá o que é, aqui.
[Texto 779]
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Ortografia: «brócolos»

Não tenho preferências

      «Anteontem a Maria João e eu fomos almoçar à praia. Comemos cantaris e bróculos. O dia e o mar estavam feios mas não poderiam ser mais bonitos. A minha paisagem favorita foi olhar para ela» («Voltou», Miguel Esteves Cardoso, Público, 7.12.2011, p. 33).
      Também a professora Teresa Álvares, do Ciberdúvidas, preferia que fosse «bróculos», com uma argumentação que não colhe: «Ora, pensando bem, o meu erro que era também o de J. C. B., apontado oportunamente por uma consulente do Ciberdúvidas, nem é assim tão disparatado: se em Italiano «broccolo» deriva de «brocco», a que se acrescentou o sufixo diminutivo -olo(a), e em Português o sufixo correspondente é -ulo(a) (montículo, espátula), porque é que um «pequeno dente saliente» dum certo tipo de couve não se há-de poder chamar bróculo?» A seguir-se este raciocínio, muito estaria errado na língua.

[Texto 778]
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Aportuguesamento

Rocha e o tablete

      «Ontem, José Rocha (PTP), fazendo “concorrência” à RTP-M, que transmitiu em directo o discurso de Jardim, tentou gravar as intervenções com um tablete, mas Mendonça ameaçou expulsá-lo do hemiciclo. A sessão foi temporariamente suspensa, depois prosseguiu com José Manuel Coelho a gravar» («Sem transmissão. Parlamento offline há três anos», Público, 7.12.2011, p. 11).
      O texto não está assinado, mas há-de ser da autoria de Tolentino de Nóbrega, que assina o texto principal. Este não passou no famoso crivo que têm lá no Público para os estrangeirismos. Já tínhamos a tablete, que veio do francês, agora passámos a ter o tablete, que vem do inglês.
[Texto 777]
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Sobre «no entanto»

Essencial e etimologicamente advérbios

      «Por isso, i.e., por serem essencial e etimologicamente advérbios, é que no entanto, entretanto, contudo e todavia vêm freqüentemente precedidos pela conjunção e: “Vive hoje na maior miséria e (,) no entanto (,) já possuiu uma das maiores fortunas do país.” A ser no entanto simples conjunção, simples utensílio gramatical (conectivo), torna-se difícil a classificação da oração: coordenada aditiva, em função do e, ou adversativa, em função do no entanto? É evidente que não poderá ser uma coisa e outra. A ortodoxia gramatical aconselharia a supressão do e, em virtude de, modernamente, se atribuir a no entanto valor de conjunção. Mas, se se aceita o agrupamento, a oração será aditiva, e no entanto, advérbio, caso em que costuma (ou deve) vir entre vírgulas. O que se diz para no entanto serve para entretanto, todavia, não obstante» (Comunicação em Prosa Moderna, Othon Moacyr Garcia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, 26.ª ed., p. 44).
      A função de conjunção daquelas partículas é relativamente recente na língua portuguesa, posterior ao século XVIII. Na 6.ª edição do dicionário de Morais, de 1856, ainda «porém» e «todavia» aparecem como advérbios.
[Texto 776]
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«Quando muito»

Bons nas pequenas coisas

      «Tonto como sou, ando há várias semanas a perder tempo com o infeliz assunto da irresponsabilidade contumaz dos dirigentes que temos. Hoje, porém, voltou a ocorrer-me que esta teimosia é reveladora de uma enorme insensatez; que, apesar do esforço de reflexão, análise e crítica realizado por várias gerações de pessoas muito melhores do que eu, não consta que o país alguma vez tenha despendido algum esforço para tentar ser melhor do que é. Quanto muito, carrega na maquilhagem, faz uma plástica às mamas e vai abanar o traseiro para os salões, na esperança de engatar algum velho rico que o sustente» («O Sócrates bom», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 6.12.2011, p. 3).
      No máximo, se tanto, que é o que o jornalista Jorge Marmelo queria dizer, escreve-se quando muito, e já o vimos no outro blogue mais de uma vez.
[Texto 775]

 

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Conjunção «nem»

Mas repare

      «A disciplina do governo económico significará, para nós, uma dieta compulsiva e continuada. Queiramos ou não, acabará por vir à força. É por isso risível escutar aqueles, como António José Seguro, ou como outros socialistas do presente e do passado, que para exibirem o seu imaculado federalismo afirmam que sempre defenderam um governo económico como solução redentora. Como eles se convenceram de que este novo federalismo fiscal será indolor nem implicará austeridade, ninguém percebe» («A austeridade política», Pedro Lomba, Público, 6.12.2011, p. 40).
      Nem é, na frase, conjunção coordenativa aditiva? Então onde está, perguntar-se-á o leitor benévolo, a outra oração negativa? Tem, antes, o sentido de e não, mas, por não ser de uso comum e estar a ligar orações de natureza diferente, não será compreendido por todos os leitores.
[Texto 774]
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Merkozy é/Merkozy são

Ser híbrido

      «Mesmo aceitando que é indispensável “reforçar e harmonizar” a integração fiscal e orçamental da zona euro, as exigências do par Merkozy fazem lembrar uma reparação de guerra», lê-se no editorial do Público de hoje. Ora, é incongruente falar-se em «par Merkozy». A graça de tudo isto é supor que é um ser híbrido, como afirmou há dias Freitas do Amaral, que condenou as «intervenções de Bruxelas» e de «um ser híbrido a que chamam “Merkozy”» nos orçamentos e na condução das políticas nacionais, afirmando que isso «não é federalismo, nem democrático». Mesmo as aspas e o itálico são dispensáveis.
[Texto 773]
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Como se escreve nos jornais

Dantes eram só os prédios

      «Recorde-se que no último fim-de-semana de Outubro, Horta Osório colapsou e foi internado em Londres numa clínica de recuperação do sono. A 2 de Novembro, o banco anunciou que o seu CEO estaria fora durante oito semanas para recuperar de um esgotamento» («Lloyds negoceia regresso de Horta Osório com estatuto e remuneração diferente», Cristina Ferreira, Público, 6.12.2011, p. 17).
      Mal vai isto quando um jornalista não encontra melhor verbo do que «colapsar». Quanto a «CEO», apesar de tudo, parece estar menos na moda.
[Texto 772]
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Léxico: «assilvestrado»

Por mim, abro-lhe os braços

      Já aqui tinha estranhado o adjectivo «assilvestrado», que li na revista Notícias Magazine. Hoje, uma bióloga, R. P., diz-me que viu usarem a palavra numa reportagem no programa Portugal em Directo. Entre aspas, acrescenta. «Cães “assilvestrados” da Arrábida atacam rebanhos», lia-se em rodapé. Diz-me ainda que, como bióloga, já teve necessidade de usar uma palavra portuguesa equivalente à inglesa feral, mas até agora desconhecia-a. «Será um neologismo ou os dicionários em que procurei simplesmente não o registam?» Ocasionalmente embora, é usada em português há algum tempo. Está bem formada, é necessária, é expressiva e substitui vantajosamente um termo inglês — verificam-se todos os requisitos, creio, para incentivar o seu uso. Tanto mais que, como agora é moda, se se usar o termo inglês e não se grafar em itálico ou entre aspas, alguém ainda pode pensar, legitimamente, que é o português «feral» — funéreo, fúnebre, lúgubre. E, para terminar, a origem do termo? Bem, provavelmente o catalão assilvestrat, da: «ZOOL Dit de l’animal domèstic que ha fugit i s’ha tornat salvatge».
[Texto 771]
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Outra vez «sanduíche»

Sandes e francesinhas

      «Portugal também está lá, claro. Heloísa fala do Porto, da sua “cor de ouro” e do “cheiro das especiarias”, mas também de um episódio embaraçante: quando Bianca, filha de Ruy [Castro], que vive em Lisboa, o encontrou no Porto e lhe perguntou: “Papai, você já comeu uma francesinha?” Um susto: ele ainda não sabia que se tratava de uma sanduíche» («Sexo e estripadores», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 5.12.2011, p. 3).
      Uma questão de gosto. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a francesinha é um «prato composto por uma sande feita com duas fatias de pão de forma, bife, fiambre, linguiça e mortadela ou salsicha, coberta por fatias de queijo e por um molho picante». Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a «sandes feita de carnes variadas (fiambre, linguiça, salsicha fresca, etc.) entre fatias de pão de forma, queijo no topo e molho especial, gratinada no forno».
[Texto 770]
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Como se escreve nos jornais

Pouco abonatório

      «Um documentário exibido na televisão pública belga veio revelar aspectos pouco abonatórios da personalidade do príncipe Lourenço da Bélgica, filho mais novo do actual monarca Alberto II. A reportagem, transmitida no programa Questions à la Une, mostra um Lourenço mulherengo, violento e ávaro» («Bélgica. Documentário revela lado negro do príncipe», «P2»/Público, 5.12.2011, p. 15).
      Afinal, o príncipe Lourenço (cá está mais um exemplo de um nome da realeza europeia — Laurent Benoît Baudouin Marie — traduzido) é belga ou ávaro?
[Texto 769]
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Capela Sistina

Aqui perto

      E o autor escreveu, a propósito da reportagem da revista Sábado sobre a ignorância dos nossos universitários, «Capela Sixtina». Até está no texto do Acordo Ortográfico de 1990 (e já estava no de 1945): «Em final de sílaba que não seja final de palavra, o x = s muda para s sempre que está precedido de i ou u: justapor, justalinear, misto, sistino (cf. Capela Sistina), Sisto, em vez de juxtapor, juxtalinear, mixto, sixtina, Sixto.» É inegável que, se tivesse escrito Sextina, seria muito pior: «O extremado lorpa escreveria Sixtina, Sistina ou Xistina se soubesse que foi Sixto ou Xisto IV o fundador da capela», escreveu Camilo na Boémia do Espírito sobre Alexandre da Conceição, o «snr. Conceição», o «furúnculo anónimo».
[Texto 768]
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Linguagem

Lá longe, nas Sorlingas

      Pareço aquelas autoras norte-americanas (quem sabe se condiscípulas desse grande ignorante, que finalmente se enxergou e desistiu da candidatura à presidência dos EUA, Herman Cain: «Quando me perguntarem quem é o presidente do Ubequi-bequi-bequi-bequi-stão-stão, a minha resposta vai ser: “Não sei. Você sabe?”») que recebem cartas de leitores de países tão pequenos, dizem, que têm de ir ver no mapa. No meu caso, nunca antes tinha ouvido falar das ilhas Scilly, ou Sorlingas, um arquipélago ao sul da península da Cornualha, na Inglaterra. Doravante, só tenho desculpa de não me lembrar do nome em córnico.
[Texto 767]
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Como se fala na televisão

É deveras preocupante

      José Manuel Levy, no Telejornal de ontem: «Segundo Paulo Esteves Veríssimo, aparentemente estes ataques trataram-se de uma provocação, um teste de stress aos sistemas informáticos do Estado, e o que revelaram é deveras preocupante.»
      Parece o improviso de alguém que não domina minimamente — e devia — a língua em que se exprime.
[Texto 766]
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