Pontuação

Vírgulas a mais

     Estou cada vez mais convicto de que existem usos arbitrários deste sinal de pontuação, ainda que não o aparentem. Tome-se este excerto da obra Algumas Distracções, de Francisco José Viegas, já aqui citada: «Aliás, uma das coisas que mais me preocupa hoje, em Portugal, é a tendência para que a opinião individual desapareça diante das chamadas “opiniões maioritárias” — é cada vez mais rara a figura do colunista, do cronista ou do cidadão comum que arrisca a sua opinião sem cuidar das consequências e do desprestígio que uma “má opinião” lhe pode trazer. Alguns, perdem o emprego. Outros, perdem a consideração das maiorias» (p. 7). Por mais voltas que se dê, a pontuação das últimas duas frases está errada. E está errada porque não se separa o sujeito do verbo por vírgula, a não ser que haja entre ambos um termo intercalado, que não é o caso destas frases. Por exemplo: Alguns, menos precavidos, perdem o emprego. Outros, desprestigiados por algum motivo, perdem a consideração das maiorias.
      O erro, neste caso concreto, decorre da malfadada crença de que onde há uma pausa há uma vírgula. Nada mais errado. Até pode acontecer que onde haja vírgula não haja pausa.


edit

5 comentários:

Nuno Dempster disse...

Nem mais. Já tive uma questão destas com não me lembro de quem. Pausa há, não há é lugar para vírgula.

Anónimo disse...

A ideia será a de ênfase e, concordo, a segunda forma verbal está a mais. Mas separa-se muito o sujeito do predicado com vírgula, sobretudo quando o sujeito é mais complexo. (Mau) exemplo:

Comer muito toucinho, faz mal à saúde.

Mas, lá está, a vírgula anterior é admissível quando se repete a estrutura da frase e se quer marcar um ritmo na mente do leitor:

Comer muito toucinho, faz mal à saúde. Devorar bolos, faz engordar. Abusar dos doces, estraga os dentes.

É necessária a vírgula? Não. A função que cumpre é própria da vírgula? Também não. Podia ser substituída por dois pontos, como disse a amélia.

pedro

Anónimo disse...

Então a Amélia e o Pedro pensam que, por uma questão de entoação, se pode escrever "O João, comeu o bolo"?
Para isso mais valia começarmos a escrever em cima de uma pauta de música. A ênfase, na escrita, dá-se com itálico, negrito, sublinhado, versaletes, etc., e não por sinais de pontuação.

Helder Guégués disse...

Ricardo
Essa tem muita graça. Obrigado.

N. disse...

Ricardo, a metáfora da pauta de música é extraordinária. Vou tentar lembrar-me dessa nas próximas discussões que tiver acerca do uso da vírgula!

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