«Ser necessário»

É preciso saber

      Nuno Crato, ministro da Educação, ontem no Telejornal: «Nós estamos a trabalhar para o estabelecimento de metas que ajudem os professores, os alunos, os pais, os autores de manuais, os autores de exames a ter muito mais claro quais são os objectivos que em cada ano são necessários atingir.»
      Nas locuções ser necessário e ser preciso, o predicativo, como se sabe, pode não concordar com o sujeito, e é mesmo, hoje em dia, o mais habitual. A concordância do verbo e do predicativo com o sujeito encontra-se com frequência em autores clássicos. É conhecida a frase do padre António Vieira para o ilustrar: «Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho» (Sermão da Sexagésima). A frase do ministro está, pois, errada, já que o sujeito é um verbo no infinito, «atingir».

[Texto 1798]

«Victrola/vitrola»

É preciso distinguir

      Traduzir «Victrola» por «vitrola» pode não ser a melhor solução. Alguns dicionários da língua portuguesa registam o substantivo «vitrola», mas acrescentam que é brasileirismo. Conhecemos muitos outros casos em que um nome comercial é apropriado como nome comum. Neste caso específico, isso não se passou assim em Portugal. Pela proximidade geográfica do Brasil, terá chegado lá em quantidades que justificam e explicam a derivação. Em alguns casos, «Victrola» pode referir-se precisamente a um gira-discos daquela marca, produto da norte-americana Victor Talking Machine Company.

[Texto 1797]

Tradução: «formulaic»

Fórmulas

      «Aside from the frequent formulaic complex sentences beginning with…» Lembram-se, decerto, que uma vez, a propósito do uso do vocábulo «formulaico» por Vasco Pulido Valente numa crónica, tratei desta questão (aqui), de como traduzir o termo. Agora vejo aqui «formulaic complex sentences» vertido por «frases feitas».
[Texto 1796]

Léxico: «hipotáctico»

Está explicado

      Paratáctico está para parataxe como _______ está para hipotaxe. O espaço em branco — e os erros, das poucas vezes que se escreve sobre assuntos que requeiram o vocábulo — é culpa dos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «paratáctico», mas omite «hipotáctico», que encontramos, por exemplo, na página 534 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. (Claro que constar do Aulete sem c contribui muito para o panorama. Neste caso, mais valia terem consultado o dicionário da Real Academia Galega.)
[Texto 1795]

Outro grande modismo

Quem quiser, use

      «Com espanto, o alemão percebeu que os oficiais inimigos, apesar de graduados em coronéis, comandando regimentos em batalha, não se sentiam confortáveis com mapas» («Os coronéis de Tannenberg», Viriato Soromenho-Marques, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 11).
      «Não se sentiam confortáveis com mapas»... Como quem diz, um sem-abrigo confortável com os jornais com que se protege do relento. Também digo: não uso. Nunca me fez falta.

[Texto 1794]

O absoluto desmazelo II

Ou se se importam, não parece

      «Foi a 16 de março de 2009 que José Gregório dos Santos foi submetio a uma intervenção cirúrgica ao joelho, mais conccretamente, seguno o despacho de acusaão da secção do DIAP de Lisboa, uma “meniscectomia parcial artroscópia, realizada sob anestesia epidural”. A administração da anestesia provocou em José Gregório dos Santos uma “lesão iatrogénica”» («Morte de doente em operação ao joelho vai a tribunal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 18).

[Texto 1793]

Tradução: «publisher»

Já souberam

      «“Somos um país pequenito”, concorda Fernanda Dias, prosseguindo: “Temos menos famosos, com menos histórias” Para a publisher e diretora da revista Caras, para lá da quantidade de personalidades em Espanha, existe a monarquia que, por si só, “dá pano para mangas”» («‘Jet Set’ a sério e tom agressivo ditam êxito em Espanha», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 50).
      Eles sabem que há uma palavra em português para designar o mesmo, mas esqueceram-se dela (como se pode ver aqui). E jet set com maiúsculas iniciais é o respeito absoluto.

[Texto 1792]

O absoluto desmazelo

Ninguém se importa, ao que parece


      «Um labitinto feito de pereiras, ameixeiras, maceeiras e oliveiras. [...] O projeto funciona como uma espécie de aldeia praticamente autosuficiente, com serviços necessários para a subsistência dos seus quase 400 habitantes. [...] Uma queijaria e um fumeiro são alguns dos projetos a curto prazo, que vão contar com o apoio da EDP. O parque tem ainda planos para a construção de um hospital, assim como a preparação da candidatura do Hotel Quinta da Paiva, uma maneira de tornar o projeto economicamente autosuficiente» («Prémio para ‘aldeia’ que integra deficientes», Mariana Barbosa, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 17).
      Palavras para quê, não é? É o moderno Diário de Notícias. De escola de revisores para isto que agora vemos todos os dias. Todos.
[Texto 1791]

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