Bons títulos

Onde se fala de certa parafilia

      «Três dias antes de começarem a ser distribuídos, a CGD percebeu que entre os lotes para oferecer [aos clientes] havia livros eróticos — o que levou ao cancelamento da acção. Entre as obras que iam ser oferecidas estavam títulos como “Sr. Bentley, o Enraba Passarinhos” ou “Carne Crua”. Algumas das obras continham passagens com palavrões e imagens de nus nas capas» («Trabalhadores da Caixa exigem explicações sobre livros eróticos», Rosa Ramos, i, 30.04.2013, p. 26).
      Percebeu... apenas quando viu as imagens de nus das capas. Pelas «passagens», que melhor se diriam passos ou trechos, com palavrões não se distingue uma obra erótica de qualquer outra, a não ser talvez pela frequência. O título Carne Crua podia ser, está na moda, um livro de Jamie Oliver — mas o outro? E o título não devia ser «Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos»? Pela capa (aqui) não se pode concluir nada, porque a mariquice dos arranjos gráficos está-se quase sempre a foder para a língua.
[Texto 2794]
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«Eminente/iminente»

Mais por demérito alheio

      «Confiar nele é um perigo eminente: dá rapidamente a volta ao texto e exulta com melodrama» («Marcelo», Mário Dias Ramos, i, 29.04.2013, p. 14).
     Marcelo é tão importante, mas tão importante, que mesmo como perigo não ameaça cair sobre alguém ou sobre alguma coisa — simplesmente sobreleva os outros. Nunca medíocre. Medíocres, só os jornalistas.
[Texto 2793]
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Tradução de termos médicos

O doente respondão

      «O que me leva a dirigir-lhe esta mensagem é, contudo, uma dúvida. Estando actualmente embrenhado num denso livro de Medicina Interna, tenho lido com frequência, a respeito de um determinado tratamento antivírico [ou antiviral], virologic response, responsive patient, responders e nonresponders. Qual é a melhor forma de traduzir estes termos? Tenho, naturalmente, tomado response por “resposta”, mas, consultando os Dicionários Houaiss, Priberam, e o da Porto Editora, verifico que, entre os vários sentidos prescritos, não se encontra a reacção positiva de um doente a um tratamento médico. Trata-se de uma falha, ou “resposta” não é realmente a melhor tradução de response neste contexto? Bem, o certo é que a situação se me afigura complicada quanto ao responsive e ao responder. Apesar de termos “responsivo” e “respondedor”, estes não me soam bem aqui.»
      Comecemos por onde devemos começar: a definição. Porque escreve «reacção positiva de um doente a um tratamento médico»? Leio no Merriam-Webster que response é «the activity or inhibition of previous activity of an organism or any of its parts resulting from stimulation». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, podemos ler que «resposta» significa, como termo específico da medicina, «reacção do organismo a qualquer estímulo». No entanto, no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, vemos que response se traduz por «reacção» e a locução «response to treatment» se traduz por «reacção ao tratamento». Toda a vida li e ouvi o termo «reacção» neste sentido. «Resposta» há-de ser anglicismo semântico. Responsive verter-se-á facilmente, acho eu, por «receptivo» ou por perífrase adequada. Já, por fim, quanto a «respondedor» para traduzir responder não me soa mal e já tenho lido em trabalhos científicos. E também aqui o recurso a perífrases pode ser, em certas circunstâncias, a melhor solução.
[Texto 2792]
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«Decodificar», de novo

Ele disse isso?

      O autor que usou «decodificar» (sim, porque isto não é inventado) acabou de me responder: «Segundo o falecido Prof. Lindley Cintra, deve dizer-se decodificação (que é utilizado no Brasil, eles nunca dizem nem escrevem “descodificação”) porque com des- aquilo a que se refere o substantivo desaparece, tal como em “destruir”. Neste caso não há desaparecimento, mas retorno a uma situação anterior: o que tinha sido codificado retorna ao que era antes antes (é decodificado). Seguindo esta linha de pensamento, nas Metas Curriculares de Português aprovadas pelo MEC em Agosto de 2012 foi utilizado “decodificação”.» Há mais, mas só isto interessa. Sim, está nas Metas Curriculares de Português, mas não me parece que tal seja um argumento. Um arremedo, talvez.
[Texto 2791]
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Como se escreve nos jornais

Sem excepção

      «Quase todas as pontes, com obras de Miguel Ângelo e Vasari, foram dizimadas, excepção feita à Ponte Vecchio» («Oltrarno/A Margem Sul de Florença», Luís de Freitas Branco, «Liv»/i, 27.04.2013, p. 10).
      «Pontes dizimadas...» Não me parece que seja a melhor escolha de palavras. «Excepção feita» é francês sem pôr nem tirar: exception faite.
[Texto 2790]
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Como se escreve nos jornais

Demasiado explícito

      «As ilustrações do livro “De onde vens?” (“Wo kommst du her?”) — um manual de educação sexual para crianças que mostra os vários níveis de excitação de um casal — estão a criar polémica na sociedade alemã, conhecida por ter uma atitude liberal perante o sexo. O bestseller, publicado pela primeira vez em 1991 pela editora Loewe Verlag, foi recentemente descontinuado, após várias queixas de pais, criticando-o por ser demasiado explícito» («Manual de educação sexual “demasiado explícito” é descontinuado», i, 27.04.2013, p. 10).
[Texto 2789]
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«Antistresse»?

O inimigo dentro do jornal

      L. C. Lavado responde à pergunta sobre o que não lhe falta na mesa de trabalho: «Cubo de rubik [sic], como antistresse. Nunca consegui voltar a alinhar aquelas cores todas. Copo de água. A hidratação é importante em todas as ocasiões. Bloco de notas. Porque lá estão sempre boas ideias» (Vanda Marques, «Liv»/i, 27.04.2013, p. 13).
      De «estresse» é que teríamos «antiestresse»; de «stresse» só podíamos ter «anti-stresse». Curioso é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só registe «anti-stress», quando acolhe «stress», «stresse» e «estresse». Enfim, falta uma visão de conjunto.
[Texto 2788]
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AO na AR

Vamos ver o que respondem

      «Uma petição com cerca de 4400 assinaturas foi ontem entregue em Assembleia da República (AR) para desvincular Portugal do novo Acordo Ortográfico e exigir “de uma vez por todas”, que os deputados “tomem uma posição perante o eleitorado”. Ivo Barroso, um dos peticionários, defendeu que o governo “não pode, por decreto, mandar a AR aplicar o acordo”» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 6).
[Texto 2787]
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«Despensa/dispensa»

Dispensamos

      «A advertência sempre me assustou um pouco. Sempre me fez lembrar uma espécie de anúncio de uma catástrofe que se advinha: “Ui, nem sabes o que aí vem... Depois não digas que eu não avisei.” Como se tivéssemos de encher a dispensa de enlatados e preparar-nos para o pior» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 12).
      Para Tristão da Cunha Portugal, na sua Orthographia da Lingoa Portugueza, é que «adivinhar» ou «advinhar» era igual. Mas isso foi em 1856. Já quanto à confusão entre «despensa» e «dispensa», nem ao século XIX se pode ir buscar desculpa.
[Texto 2786]
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Para lembrar

Perguntado pelo Imperador Adriano

      «Para procedermos nesta matéria com a clareza que desejo, vamos consultar ao Sábio Filósofo Secundo. Este grande homem sendo perguntado pelo Imperador Adriano, que cousa era a mulher, respondeu assim: A mulher é naufrágio do homem, tempestade da casa, cativeiro da vida, leoa abraçando, animal malicioso, e mal necessário» (Frei Amador do Desengano).
[Texto 2785]
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Como se escreve nos jornais

Falta o resto

      Acabam de me mandar este título da página 4 da edição de hoje do Público: «Seguro acusa Cavaco de não acreditar na capacidade do povo criar soluções». Toda a sanha contra o Acordo Ortográfico (o acto mais antiliberal destes anos pós-25 de Abril), e depois isto. Qual é o leitor são de espírito que não estabelece nenhuma relação? Trata-se em ambos os casos da língua.
[Texto 2784]
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«Toque hepático»

É só um toque

      Na última semana e meia, fui a cinco médicos. Três trataram-me, e respectivas assistentes, por Dr. e dois por Eng. E porquê tanta deferência hipócrita? Ora, porque não era no Sistema Nacional de Saúde, mas em clínica privada. Foram unânimes: tenho um toque hepático. Não explicaram nada, mas gostaram de dizer «toque hepático». Os dicionários — ao contrário do que fazem, mal, com «caução carcerária» — não registam a locução.
[Texto 2783]
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«Com certeza»

Mais atenção, caramba

      «“O que acho dramático é que diabolizemos quem tomou decisões sobre matérias que vistas hoje se reconhece que foram erros. À época, quem as tomou concerteza que tinha objetivos em vista. A generalização desse tipo de investimentos, na altura, era comum”, considerou [Guilherme Pinto, presidente da Câmara de Matosinhos], em declarações aos JN, à margem de uma cerimónia comemorativa da Revolução de Abril» (Jornal de Notícias, 26.04.2013, p. 32).
      Ando eu aqui há dez anos a ensinar qualquer coisinha, e os jornalistas saem-se com estes disparates de criança de escola primária. É triste. É uma locução adverbial, é com certeza. A juntar ao Acordo Ortográfico, apetece mesmo ler...
[Texto 2782]
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«Possuir/ter»

Se fosse só isso

      Passa pela cabeça de alguém que saiba ler há mais de quatro anos substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Disse à polícia que pertencia à Al-Qaeda, mas certo apenas é possuir problemas psicológicos» («Tiroteio em Marselha faz três mortos e um ferido», Paulo Dentinho, Jornal da Tarde, 26.04.2013).
[Texto 2781]
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«Caução carcerária»

Demasiado simples?

      «Terá sido essa a perceção do juiz de instrução de Mirandela que optou por uma caução que não deixa de ser carcerária, até pelo elevado montante estabelecido» («Liberdade provisória aplicável a todos os crimes», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 26.04.2013, p. 18).
      É interessante como subsistem estes termos. Caução carcerária é a que visa assegurar com eficácia a comparência do arguido a todos os termos do processo em que seja necessário e o cumprimento das obrigações impostas pelo juiz. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a definição é muito (demasiado?) mais simples: «caução que permite ao arguido cumprir a sentença em liberdade».

[Texto 2780]
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«Decodificar» não existe

Não devia lá estar

      Decodificar para aqui, decodificar para ali... Mas já há sete anos, no Ciberdúvidas, José Neves Henriques lembrou aos mais esquecidos que «em português não há “decodificar”, mas sim descodificar, formada do prefixo des-, acção contrária codificar». Infelizmente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «decodificar», e nem por remeter para «descodificar» chega para evitar más opções. Donde se conclui que há tantas palavras que podiam entrar neste dicionário como as que deviam sair.

[Texto 2779]
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«Sintáctico/sintáxico»

Pouco se vê

      «A automatização da identificação das palavras escritas é muito importante porque liberta recursos linguísticos e cognitivos para as operações de análise sintáxica e de integração semântica que fazem parte do processo de compreensão dos textos.» Ainda está em edição, e talvez «sintáxico» seja alterado para «sintáctico» — mas é difícil quando o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista «sintáxico», embora remeta para «sintáctico». Só pode ser, ou influência do francês syntaxique, ou por analogia com outros termos portugueses.
[Texto 2778]
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