Verbo «colocar»

A maldição


      «Tony Carreira», lê-se no Diário de Notícias de hoje, «voltou à escola onde fez o ensino primário em Armadouro, uma aldeia do concelho da Pampilhosa da Serra, para “um desfiar de recordações” durante a conversa com Manuel Luís Goucha, no programa De Homem para Homem, que hoje vai para o ar às 21.00, no TVI 24» («Tony Carreira partilha recordações com Goucha», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 31.10.2010, p. 67). «O cantor recorda», escreve a jornalista, «“a sua professora que o colocava frequentemente de castigo por causa das traquinices que fazia, que o mandava muitas vezes ao quadro e que foi a primeira pessoa da aldeia a ter uma televisão e, por isso, convidou a turma inteira para ir a sua casa assistir às celebrações do 13 de Maio”, revela Manuel Luís Goucha.» O mais certo, se teve sorte, foi a professora pô-lo de castigo; passado todo este tempo, a realidade surge desfocada, e onde havia pores agora há colocares.

[Post 4029]
Etiquetas
edit

Sobre «low cost»

O futuro é hoje

      «Apesar de ter gostos refinados e vestir roupa de estilistas conhecidos, a mulher do político do momento ousou aparecer numa convenção histórica com um vestido low cost» («Samantha Cameron dá vestido icónico para leilão», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 31.10.2010, p. 69).
      Este sim, é um modismo completamente tolo. Porque não o guardam, ao menos, para o campo da aviação? Neste artigo, porém, havia bem pior. Leiam: «Primeira dama [sic] inglesa doou famosa peça da Marks & Spencer de 75 euros.» A teoria deve ser a de que nas repúblicas a primeira-dama é a mulher do presidente; nas monarquias, é a mulher do primeiro-ministro. (Em 2003, um brasileiro quis saber: «Tendo Lula a Presidência do Brasil, teremos novamente uma Primeira Dama. A dúvida é a seguinte: e se a Roseana Sarney tivesse concorrido e ganhasse, teríamos um Primeiro Cavaleiro?» O consultor do Ciberdúvidas Francisco Costa foi cauteloso — ou não disse nada de relevante, segundo outras opiniões: «Não há nenhuma designação para o equivalente masculino de “primeira-dama” mas, quando a necessidade surgir, possivelmente aparecerá alguma. Só o futuro pode responder a esta pergunta.»)

[Post 4028]
Etiquetas
edit

Como se escreve nos jornais

Ai, que susto

     «Chris Meade, do if:Book London, uma organização britânica que explora as potencialidades criativas dos novos média e está ligada ao Institute for The Future of the Book de Nova Iorque, esteve em Lisboa na semana passada e não o vê assim. “Estamos a ser muito duros. O que significa realmente ser dono de um livro impresso, o que é esse sentimento de pertença? Ele não dura para sempre; perdêmo-lo, oferecêmo-lo, deixamos que caia no banho e não o podemos ler mais. Num dos nossos projectos, colocámos uma piada: o Google desliga uma ficha e toda a nossa cultura desaparece. Talvez o grande perigo seja esse: o da perda do digital”, disse» («Ser ou não ser dono de um e-book», Isabel Coutinho, «Ípsilon»/Público, 29.10.2010, p. 42).
      Pois é, Chris Meade tê-lo-á dito, mas não o escreveu com aqueles erros. É, acaso, algum acento diferencial?

[Post 4027]

Etiquetas
edit

Ortografia: «paleossismologia»

Difícil?


      «A paleosismologia é um ramo da geologia que estuda os terramotos antes do primeiros registos históricos, abordando directamente a falha que originou um determinado terramoto, podendo calcular as magnitudes de fenómenos que se produziram há milhares de anos e que se voltarão a reproduzir no futuro» («Noroeste de Portugal entre os mais sísmicos», Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 33).
      Não uma mas duas vezes no mesmo breve artigo. Será difícil perceber que o vocábulo se escreve correctamente com dois sspaleossismologia?

[Post 4026]
Etiquetas
edit

Sobre «jornada»

Porque será?


      «Hoje haverá novas manifestações contra o diploma um pouco por toda a França — é a sétima jornada nacional de contestação em dois meses no país» («Parlamento dá luz verde à polémica lei de Sarkozy», Pedro Correia, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 36).
      É impressão minha ou o vocábulo «jornada» apenas se usa neste âmbito e no futebolístico? Parece ter vindo do provençal. Em espanhol, é sinónimo perfeito de dia — e em português também, só que é raríssimo vê-lo usado nesta acepção. No caso, é, como o define o Dicionário Houaiss, o «dia assinalado por algum acontecimento ou circunstância notável».

[Post 4025]
Etiquetas
edit

Ortografia: «ascensão»

Dormição


   «Em 1954, quase uma década após o final da guerra, Fujita, já na altura um nome em ascenção no design norte-americano, foi contratado pela Columbia, como substituto precisamente de Alex Steinweiss» («O criador do logotipo para a saga ‘O Padrinho’», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 53).
      Ascensão, caro Alexandre Elias. O s, neste vocábulo, é etimológico. Há um certo número de factos que precisamos de saber de cor. Este erro já passou por aqui. (Em Maio, celebra-se a Ascensão do Senhor. Em Agosto, as Igrejas orientais celebram a Dormição de Maria, a que corresponde, nas Igrejas latinas, a Solenidade da Assunção de Maria.)

[Post 4024]
Etiquetas
edit

Selecção vocabular

Imagem tirada daqui

Coisa das arábias?


      O Diário de Notícias («Elegância oriental na corte inglesa em visita de Estado», Márcia Gurgel, p. 65) diz que Sheikha Mozah Bint Nasser Al-Missned, a terceira mulher do emir do Qatar, foi «condecorada Dama do Império Britânico». Não devia, pergunto, dizer-se «nomeada Dama do Império Britânico»? Ou mesmo «agraciada com o título, etc.»?

[Post 4023]

Etiquetas
edit

Ortografia: «franciú»

Não sei se será


      Vi citado em vários sítios o texto de Manuel Maria Carrilho publicado ontem no Diário de Notícias, em que refere que o peso da língua no PIB é de 17 % no caso português. É desse artigo este excerto: «Exemplo que devia ser seguido por todos os responsáveis políticos da CPLP nas suas acções internacionais públicas, cortando com o gesto de submissão política que é andar pelo mundo a falar “portunhol”, “françiú” ou “bad english”, assim acabando por estropiar anos de esforçado trabalho pela afirmação internacional da língua portuguesa» («A missa lusófona», Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 67). Talvez seja gralha, sim, mas nesse caso ninguém deu conta dela. Para um português, saber que antes de i e e não se pode usar cê-cedilha está tão interiorizado como, por exemplo, num espanhol saber que nenhuma palavra da língua de Cervantes tem dois ss.

[Post 4022]
Etiquetas
edit

Tradução: «principal»

Nobres e principais


      «Holgó de hacerlo así el asistente, y, de allí a ocho días, acompañado de los más principales de la ciudad, se halló en ellas» — Cervantes. «E todos os principais dos lugares o saíam a receber com grandes festas e honras, concorrendo todos os povos a ver a nova vitória» — Fr. Gaspar da Cruz. Os principais são as pessoas importantes ou influentes de determinada localidade ou país. Principales é quase sempre traduzido por «nobres», mas, como se vê, escusadamente. Faço notar que Cervantes e Fr. Gaspar da Cruz são autores coevos. (O Flip 7 sugere que escreva «é autor coevo», isto porque o segmento depois do ponto de abreviatura em Fr. é lido como uma frase completa...)

[Post 4021]
Etiquetas
edit

Léxico: «tribunício»

Nova


      «Este especialista [Carlos Jalali] em sistemas políticos e professor da Universidade de Aveiro explica que “o Presidente da República tem poderes constitucionais vários, entre eles poderes tribunícios”. Ora, segundo o mesmo investigador, “os poderes não podem mudar, mas ele é livre de usar os poderes tribunícios, de fazer intervenções, colocar temas na agenda, influenciar os agentes políticos”» («Politólogos não sabem o que é “magistratura activa”», São José Almeida, Público, 28.10.2010, p. 16).
      Tribunício: referente a tribunado ou a tribuna. É termo que desconhecia.

[Post 4020]
Etiquetas
edit

«Sair do armário»

Becas abichana-se


      «Os rumores já vinham de há vários anos e as pistas eram mais do que muitas, mas só agora se começou a falar sem rodeios na provável homossexualidade do Becas, da série televisiva Rua Sésamo. Tudo porque ele fez um comentário no Twitter dizendo que o seu cabelo era semelhante ao da estrela de um outro programa mas mais mo, um termo que em calão quer dizer homossexual. O porta-voz da Rua Sésamo não fez comentários, mas o que se diz por aí — a começar pelo jornal Independent — é que o Becas saiu do armário depois de 31 anos» («Becas saiu do armário ao fim de 31 anos?», «P2»/Público, 27.10.2010, p. 15).
      Só gostaria de saber quantas pessoas percebem, em Portugal, o significado desta expressão de origem norte-americana.

[Post 4019]
Etiquetas
edit

«Trabalhar que nem um negro»

Caladinho


      A imprensa francesa pergunta: «Dérapage verbale ou préjugé raciste?» O eco da polémica chegou ao Público: «Foram no mínimo pouco felizes as palavras do empresário Jean-Paul Guerlain que, numa entrevista ao canal público France 2, se queixou de ter “trabalhado como um negro” para desenvolver o último perfume da marca. As declarações levaram à realização de manifestações nas ruas de Paris no fim-de-semana e estão na origem de um abaixo-assinado defendendo o boicote aos produtos de Guerlain. Até a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, veio a público dizer que as palavras do empresário eram “patéticas”. Para serenar os ânimos, Guerlain retractou-se, dizendo que aquilo que tinha dito não reflectia a sua forma de pensar. Uma explicação em que nem todos acreditam, até porque esta não é a primeira vez que aquele que é um dos homens mais ricos de França diz algo polémico. Em 2002, quando confrontado com uma denúncia de trabalho clandestino nas suas plantações na colónia francesa de Mayotte, a sua resposta também gerou grande polémica: “Toda a gente sabe que aqui a mão-de-obra clandestina é um mal endémico.” Não admira portanto que as suas mais recentes declarações tenham sido recebidas com vivas acusações de racismo. Também o grupo LVMH, ao qual Guerlain permanece vinculado como conselheiro de tendências olfactivas, fez questão de se demarcar das afirmações no centro de toda esta polémica, dizendo que sempre condenou energicamente “todas as formas de racismo”» («Boicote. Acusações de racismo abalam Guerlain», «P2»/Público, 27.10.2010, p. 15). Depois dos ciganos, os negros. Claro que é ridículo falar-se de racismo neste caso.

[Post 4018]
Etiquetas
edit

Aprendizagem

De pequenino


      «Mas há um outro desafio, o da passagem da perspectiva do utilizador para a do criador, do produtor de nova informação. Só assim poderá haver utilidade social e valor acrescentado. A informação, por si só, não passa de uma matéria-prima. Acrescentar-lhe valor implica processá-la e torná-la socialmente reconhecida. Como lá chegar através da educação? Começando, desde os primeiros anos de escolaridade, com as coisas mais simples: a leitura, análise e interpretação de textos, por exemplo, ou da prática de análise de fontes históricas, das operações mais simples de raciocínio lógico associados aos primeiros exercícios de estatística ou ao hábito de medida, registo, leitura e interpretação de observações de fenómenos quotidianos (temperatura do ar, humidade, tensão arterial, entre tantos outros exemplos possíveis)» (Difícil É Educá-los, David Justino. Revisão de Helder Guégués. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010, pp. 96–97). O ensaio deste ex-ministro da Educação (2002–2004) pode comprar-se por 3,15 euros em qualquer loja Pingo Doce, por exemplo. E vale a pena lê-lo.


[Post 4017]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

EspeCtador


      A crónica de Rui Tavares na edição de hoje do Público anda quase toda à volta das novas regras ortográficas: «Escrever é agora para mim um exercício de ouvido. O cérebro procura lembrar-se de como a língua pronuncia aquela palavra, tenta ouvi-la dentro da cabeça, para depois a poder escrever. Eu digo aquele “c” em espectador e aquele “p” em conceptual? Se sim, escrevo-o [o autor escreveu antes ambas as palavras com a consoante muda]. Se não, omito-o. “Nocturno” tornou-se “noturno” por um “c” que na pronúncia se extinguiu há muito tempo atrás. Se tenho saudades de “nocturno”? Sim. Mas gosto já de “noturno”. Nocturno é soturno; noturno é sensual; e gosto mais ainda de “noiturno”, uma palavra que talvez nunca tenha existido, nem sei se existirá um dia» («Noturno», Rui Tavares, Público, 27.10.2010, p. 39). O cronista, acossado por um jornal antiacordo, lamenta-se: «O PÚBLICO decidiu acrescentar mais uma linha ao final destas crónicas. Já viram o tamanho daquele penduricalho? Tem lá a minha vocação, a profissão, o cargo, como lá cheguei, em que condições, a ortografia que uso e porquê. Uff. Cada vez mais coisas, como os contratos de letra miudinha. Um dia crescerá, crescerá, e eu próprio desaparecerei.» Eis o penduricalho: «Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu pelo BE (http://twitter.com/ruitavares); a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico.» A ortografia que usa está lá, já o porquê não o descortino.

[Post 4016]
Etiquetas
edit

«Tempo recorde»

Pecha hodierna


      «Foi um apoio “inequívoco” declarado em tempo-recorde. Mal terminou a cerimónia de anúncio da recandidatura de Cavaco Silva a Belém, a Comissão Permanente do PSD declarou o seu apoio ao ex-primeiro-ministro para um segundo mandato» («PSD deu apoio em tempo-recorde», Nuno Simas com agência Lusa, Público, 27.10.2010, p. 3). Claro que já aqui abordei esta questão, mas ainda não chegou ao conhecimento dos jornalistas e dos copidesques do Público. «Recorde» também é adjectivo, esqueçam o maldito hífen.

[Post 4015]
Etiquetas
edit

Infinitivo substantivado

Conventos e mosteiros


      A substantivação dos infinitivos é uma marca da nossa língua que alguns ignorantes evitam e corrigem(!). «Verdade é que comummente o comer da Índia, que é arroz, se come em pilões pilado, ainda depois que não tem casca, mas as bocas têm-nas todos como a demais gente do mundo» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 104). E este, especificamente, não será mais usado no Alentejo? Bem, Fr. Gaspar da Cruz «terá nascido em Évora, em ano que não se consegue apurar, e também em data incerta foi admitido no convento de Azeitão da Ordem dos Pregadores» (idem, ibidem, p. 12). Mas as fontes que consultei afirmam que se trata de mosteiro: Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade de Azeitão.

[Post 4014]
Etiquetas
edit

Sobre «Foão»

Impõe-se a pergunta


      Até onde foi a «modernização do texto»? Não chegou aqui: «Quando alguma pessoa se quer mudar de uma casa e rua para outra, ou quer ir para outra terra a viver, tangem uma bacia pela rua com um pregão que diz que ‘Foão se vai daquela rua, se há alguma pessoa a que[m] deva alguma coisa que venha a ele antes que se vá, para que não perca o seu.’» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 202). Na época em que Fr. Gaspar da Cruz escrevia, era assim que se dizia o que hoje em dia dizemos «Fulano». Autores coevos também grafavam «Fuão» e «Fulão». O étimo é, segundo Miguel Nimer (Influências Orientais na Língua Portuguesa. São Paulo: Edusp, 2.ª ed., 2005, p. 73) o árabe clássico fulān. (Como saberão, o Acordo Ortográfico de 1990 também veio meter aqui o bedelho, mandando grafar com minúscula inicial «fulano», «sicrano» e «beltrano», deixando, assim, de se distinguir entre substantivo comum e substituto de antropónimo, como na citação de Fr. Gaspar da Cruz.)

[Post 4013]
Etiquetas
edit

Ortografia: «bainha»

Tais como


      Por exemplo, neste caso: Fr. Gaspar da Cruz escreve que «há alguns chinas que criam unhas muito compridas, de meio palmo até palmo, as quais trazem muito limpas, e estas unhas lhe[s] servem em lugar dos paus para comer». Rui Manuel Loureiro anota: «Muitos chineses cultos e abastados deixavam crescer as unhas, que eram protegidas por baínhas de prata, como sinal evidente de que não necessitavam de exercer ofício manual. Contudo, a interpretação de Fr. Gaspar parece algo fantasista, tanto mais que não encontra abonação documental na época» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 166). A obra não teve revisor (a propósito, hoje comemora-se em Espanha o Día del Corrector), e por isso ninguém sabia que as palavras graves cujo i tónico não forma ditongo com a vogal anterior e seguido de nh não levam acento.

[Post 4012]
Etiquetas
edit

«Competitividade/competição»

Acham?


      Rute Moreira, licenciada em Matemáticas Aplicadas, concebeu um novo projecto pedagógico, «Tabuada». Em entrevista à Antena 1, ontem, falou num «espírito de competitividade saudável». É uma confusão comum. Competitividade é a qualidade de competitivo; competição é a disputa entre adversários pelo mesmo lugar, resultado, prémio ou vantagem. Ainda acham que é «espírito de competitividade»?

[Post 4011]
Etiquetas
edit

Sobre «campa»

Era assim


      «Quase todas as cidades estão fundadas ao longo de rios. Nos rios que não são muito altos e impetuosos têm estas cidades para serviço pelo rio pontes de pedra mui nobres e mui bem lavradas, e não vão os pegões feitos em arcos se não depois de bem fundos e postos em boa altura. São cingidos uns com outros por cima de mui grandes e mui grossas campas» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 124). Embora, actualmente, os dicionários apenas registem que campa é a laje sepulcral e, por extensão de sentido, a própria sepultura, a verdade é que no tempo do nosso dominicano Fr. Gaspar da Cruz, no século XVI, campas eram simplesmente lajes, e, em nota, Rui Manuel Loureiro dá conta do significado.


[Post 4010]
Etiquetas
edit

Léxico: «acatassolado»

Cambiantes


      Quando Cervantes escreve que certa personagem, renunciando ao traje de estudante, se vestiu de «papagaio», o que é uma alusão à roupa garrida, vistosa, dos soldados na época de Cervantes, que não estavam obrigados a um modelo uniforme, estava a usar uma metáfora, que, na tradução, também podemos usar.
      No Tratado das Coisas da China, de Fr. Gaspar da Cruz, vejo uma nota de rodapé ao vocábulo acatassolado que induz em erro: «Acatassolado: de cor variada.» «E assim como a dignidade esteja nos cintos e sombreiros, os da mão direita trazem cintos de ouro e sombreiros amarelos, e os da mão esquerda trazem cintos de prata e sombreiros azuis ou acatassolados» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 180). Na verdade, diz-se acatassolado do tecido semelhante ao acatassol, que era um tecido fino e lustroso usado antigamente em Portugal, que apresentava cor variada, sim, mas conforme a luz projectada. Ou seja, furta-cor.

[Post 4009]
Etiquetas
edit

Selecção vocabular

Contestatários


      «Na deslocação, o Presidente da Venezuela ainda cumprimentou os protestantes, que tentavam perguntar a Sócrates se “viajou pela EN13 ou se pagou portagem na A28”. O líder português não viu a pergunta, mas Chávez viu, riu, saudou e seguiu, sem perceber muito bem o que se passava» («Como Chávez conduziu negócios em Portugal», Paulo Julião, Diário de Notícias, 25.10.2010, p. 9).
      Bem sabemos que «protestantes» são tão simplesmente os que protestam, mas a conotação imediata é com o «cristão pertencente a um dos grupos ou Igrejas que se constituíram como resultado da Reforma» (como se lê na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em contexto diferente, evitaria a palavra.

[Post 4008]
Etiquetas
edit

Estado da arte

Em estado de choque


      Saber é saber, mas, comparando com o conhecimento que um doutorando deve ter do que seja estado da arte, saber-se que Goethe tinha aversão a cães, ao tabaco e a pessoas que usassem óculos é completamente irrelevante. O cronograma mostrava as sete fases por que se desenvolve, ao longo de sete trimestres, a feitura da tese de doutoramento: 1. identificação da literatura relevante e estado da arte; 2. recolha de informação; 3. elaboração e execução do estudo empírico; 4. redacção do trabalho; 5. revisão do orientador; 6. correcção do trabalho realizado; 7. redacção da tese. A doutoranda pergunta-me no 5.º trimestre: «O que é isso do estado da arte?» Como é que um doutorando não sabe (não quis saber) que ao estado do conhecimento em determinada área se dá o nome de «estado da arte» ou «estado do conhecimento»? A pesquisa, o levantamento bibliográfico desse conhecimento é mesmo a parte mais importante de todo o trabalho científico, pois como se poderá ser original se não se sabe o que outros têm feito na mesma área?

[Post 4007]
Etiquetas
edit

Anagrama


Biblioteca do Trinity College de Dublim

No Céu


      Vejam esta transposição anagramática a partir da palavra italiana bibliotecario: Beati coi libri. Feliz com livros. Pronto, é só isto.

[Post 4006]
Etiquetas
edit

Sobre «legística»

Olhe que não


      Ricardo Garcia, na Pública de hoje («Legística para todos», p. 71), debruça-se, de uma forma chocarreira, sobre o Regimento do Conselho de Ministros do XVIII Governo Constitucional, recentemente aprovado (Resolução do Conselho de Ministros n.º 77/2010) e referido na imprensa. «As normas para a redacção das leis são minuciosas. Um artigo explica, em 12 alíneas, como devem ser utilizadas as letras maiúsculas, em curiosa coincidência com o que aprendemos na escola.» Sim, mas em descoincidência com a forma como até os jornalistas escrevem. Ricardo Garcia também acha que o regimento, ao dizer que «o nível de língua a utilizar deve corresponder ao português não marcado produzido pelos falantes escolarizados, designado português padrão», se afunda «nos sombrios corredores do ininteligível». Acha mesmo? «Ao menos», escreve o jornalista, «o português ganhou uma nova palavra — legística — que não encontro em nenhum dicionário. Obrigado, srs. ministros.» Só é metade verdade: os dicionários não registam, mas a palavra não é nova.

[Post 4005]
Etiquetas
edit

Títulos, pós-títulos e entradas

Mais cuidado


      Merece reflexão — aos jornalistas, que os leitores sempre a fizeram — a falta de autonomia na redacção de títulos, pós-títulos e entradas das notícias. Complementares, sim, como lembra o provedor do Público, mas suficientemente autónomos para não serem disparates ridículos: «A redacção de títulos, pós-títulos e entradas das notícias obedece a regras técnicas inspiradas por valores como a relevância, a inteligibilidade, a eficácia informativa e a capacidade sugestiva. São normas que existem para garantir a qualidade das peças noticiosas. Uma que é por vezes esquecida é a que recomenda que esses elementos — que são lidos antes do próprio texto da notícia, e para alguns dispensam mesmo essa leitura — sejam complementares entre si, mas possam ser entendidos de forma autónoma. A compreensão do que se escreve numa entrada não deve depender do que se diz num título. Vêm estas considerações técnicas a propósito do comentário feito por um leitor à estranha entrada de uma notícia intitulada “Comissão Europeia quer proibir clonagem de animais” (página 13 da edição da passada quarta-feira). Essa entrada, que, na cabeça de quem a redigiu, estaria articulada com o título citado através, por exemplo, de uma subentendida conjunção adversativa, rezava assim: “A proposta de John Dalli, comissário responsável pela saúde e consumidores, prevê a autorização do consumo humano dos seus descendentes”. “Interessante”, comenta o leitor Ricardo Charters d’Azevedo, para quem “a mania de reduzir títulos, na pressão da saída do jornal, dá isto...”. Pretendia-se naturalmente explicar, como aliás decorre da notícia, que Dalli não vê inconvenientes no consumo humano da carne ou do leite dos bichos descendentes de animais clonados. Mas o que a entrada da notícia diz de facto, tal como foi publicada, é que há um comissário europeu que faz questão de ver canibalizada a sua própria e putativa prole. Uma revisão especialmente atenta às frases mais destacadas de cada página evitaria que um momento de desatenção se transformasse num contributo involuntário para uma antologia do disparate na escrita jornalística» («Humor negro involuntário», José Queirós, Público, 24.10.2010, p. 35).

[Post 4004]
Etiquetas
edit

Erros na BD

Desenho de Fernando Bento

Constrangedor, na verdade


      Ontem fui à 21.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), que se realiza no Fórum Luís de Camões, na Brandoa. Na parte do concurso, havia, no máximo, seis trabalhos mesmo bons. O mais vergonhoso — e poucos trabalhos escaparam — eram os erros ortográficos e de pontuação. Pelo menos em relação a dois trabalhos no escalão A (dos 17 aos 30 anos), o júri decidiu destacar dois trabalhos, «que, apesar da sua qualidade, não foram premiados como penalização pelos erros ortográficos», mas eu mostraria ao júri as escassíssimas excepções em todos os escalões. «Estar preparado é metade da vitória», dizia Cervantes. Ora, preparado, neste caso, é ler, e saber ler, ou, se forem inteligentes, dar a rever os textos.
      Digno de realce nesta edição é o núcleo dedicado ao ilustrador e autor de banda desenhada Fernando Bento (1910―1996), cujo traço limpo, original, ainda hoje é moderno. Por fim, é também de salientar a reportagem fotográfica, a cargo, não de um mero fotógrafo, mas de um verdadeiro artista, Hugo Lima.

[Post 4003]
Etiquetas
edit

Como se fala na televisão

Disparate, está a ser filmado


      No Jornal Nacional da TVI 24 de ontem, José Carlos Castro falava com o comentador Manuel Maria Carrilho. O pivô disse ter lido a entrevista do presidente da República ao Expresso, e anunciou: «Reti algumas ideias.» No mesmo jornal, soube-se que os árbitros vão fazer greve nos dias 6 e 7 de Novembro, o que irá afectar a «realização do clássico FC Porto-Benfica». Seja lá isso o que for. Luís Guilherme, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), deixou o recado: «Os jogos vão ter de ser arbitrados por outras pessoas quaisqueres.» Vai ser o caos, o País vai parar...
[Post 4002]
Etiquetas
edit

Sobre «estanco»

Franco sabia


      Não terei ouvido, em toda a vida, mais de meia dúzia de vezes alguém usar a palavra «estanco». E mesmo assim, analiso agora, à distância, em tom desinformadamente depreciativo. Embora me pareça que o étimo está na língua espanhola, não é disso que vou curar. Assentemos num facto: o conceito é o mesmo em ambas as línguas: loja onde se vendem artigos estancados. O problema, para o falante português, começa logo aqui, pois não sabe o que são produtos estancados. São produtos cuja venda não é livre. Passemos agora para Espanha. Aqui, os estancos fazem parte do dia-a-dia. Nele podia-se adquirir sellos, cerillas, sobres y tabaco, isto é, selos, fósforos, sobrescritos e tabaco. Depois da guerra civil, o general Franco começou a compensar as viúvas dos militares caídos (apenas do lado nacionalista, claro) com estancos e casas de jogos (loterías, em espanhol). Dependendo embora da localização, os estancos eram actividade não para sobreviver mas para enriquecer, sobretudo nos últimos trinta anos. Como são uma concessão do Estado, não se podem trespassar, pelo que é negócio hereditário. E não podem estar fechados durante muito tempo. Ainda ontem me contaram, alguém que o conhece, que o actual proprietário do estanco do Aeroporto Madrid-Barajas é um cientista de renome. Embora não precisasse do estanco, não renunciou a ele, pois não sabe se não vai precisar dele para os filhos, ainda pequenos. Assim, pôs à frente do negócio uma pessoa da família, assalariado. Ser proprietário de um estanco é uma garantia, dada a actual crise. Actual é uma maneira de dizer, é uma crise que vem dos anos 90 e todos querem que acabe em 2011, mas com muita sorte acabará lá para 2020. Em Espanha, nos anos 90 já se falava numa geração perdida, a geração JASP: jóvenes aunque sobradamente preparados. Sobradamente porque eram licenciados, tinham pós-graduações, só não tinham emprego. Agora fala-se na geração ni-ni: ni estudia ni trabaja.

[Post 4001]
Etiquetas
edit

Recursos

Sob o signo pessoano


      Embora tivéssemos mais que ler com a biblioteca de Pacheco Pereira, é a biblioteca de Fernando Pessoa que a partir de agora vamos ter à nossa disposição. São cerca de 1140 obras, disponíveis em PDF e JPG e na íntegra. Numa consulta rápida, comprovei que não há nenhum dicionário da língua portuguesa, o mais valioso instrumento de trabalho aqui no Assim Mesmo, que, com este texto, chega aos 4000, a dois meses de fazer cinco anos.

[Post 4000]

Etiquetas
edit

Selecção vocabular

Telhado e tecto


      «É por isso que a Biblioteca de Delft tem um enorme tecto arrelvado e essa relva desce em declive até ao piso térreo, antes de voltar a erguer-se dramaticamente até ao edifício vizinho» («Reinventar a biblioteca», Robert Butler, Intelligent Life, Verão 2010, p. 29). Apesar de tecto também ser a cobertura de uma casa, o telhado, evitaria usá-lo nesta acepção, pois é esmagador o seu uso na acepção de parte superior e interna de qualquer casa. Quanto ao «dramaticamente», já aqui falámos.

[Post 3999]
Etiquetas
edit

Selecção vocabular

E malfeitoria


      «O que estava em causa era uma proposta de lei do Governo preparada no âmbito do programa Simplegis, um programa do Simplex para simplificação legislativa. Proposta que, no essencial, revoga de uma vez por todas o Código Administrativo de Salazar (tem ainda meia dúzia de normas em vigor) mas na qual o Executivo aproveitou, de caminho, para revogar 433 leis antigas, a maior parte dos quais de 1975. […] Um deputado do PS, Neto Brandão, acabou mesmo por reconhecer que “não há nenhuma benfeitoria” porque “não há nenhuma alteração substancial quando se revoga expressamente o que já está tacitamente revogado”» («Simplegis ‘recupera’ Américo Tomás», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 21.10.2010, p. 57).
      O uso do vocábulo «benfeitoria», ao contrário do que poderia pensar, não me levou a crer que o autor da declaração tinha formação jurídica, muito longe disso. Eu também aprendi que benfeitoria é a obra realizada numa coisa no intuito de valorizá-la e/ou dar-lhe melhor serventia. Simplificando, é o melhoramento (e a própria despesa) feito em propriedade. Benfeitoria é também sinónimo de benefício, mas nem esse facto me leva a crer que o termo foi usado com propriedade por este deputado socialista e advogado.

[Post 3998]
Etiquetas
edit

Léxico: «gestuário»

Conjunto de


      «“Foi uma indignidade absoluta”, acusa o antigo apresentador de televisão José Nuno Martins. “Ele descreveu de uma maneira leve e a seu bel-prazer o conceito. Considerou dever interrogar-se se relações públicas não constituirá uma expressão referida às ‘mulheres de vida pública’ e às ‘relações’ usuais em casas de passe”, disse ao DN o ex-provedor do Ouvinte da RDP. José Nuno Martins acusa o académico [Adriano Duarte Rodrigues] de “falta de dignidade, pelo tipo de linguagem, pelo gestuário, até corporal”» («Honra dos relações públicas causa braço-de-ferro na Internet», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 21.10.2010, p. 55).
      Argumentário, gestuário, poemário... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o Dicionário Houaiss não registam um só destes vocábulos. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista somente o último.

[Post 3997]
Etiquetas
edit

Tradução: «climate proxies»

Ficamos a saber


      «Sem termómetros, tudo o que os cientistas têm à mão são indicadores climáticos indirectos (proxies, no jargão académico). Documentos históricos são um deles. Registos escritos, muitos feitos nos mosteiros, de colheitas, de observação do tempo, de catástrofes meteorológicas, de épocas de floração, ajudam a reconstituir o clima. O mesmo vale para imagens. É na própria natureza, porém, que estão as maiores fontes. Amostras de gelo das regiões polares guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura gelada, sobre a composição da atmosfera. De corais do Pacífico também se extraem dados climáticos» («Calor, secas, cheias. Bem-vindos à Idade Média», Ricardo Garcia, «P2»/Público, 21.10.2010, p. 4).

[Post 3996]
Etiquetas
edit

Como se fala na rádio

Ora essa


      Alexandre David no noticiário das 10 horas da Antena 1, no fecho de uma notícia: «Algo que os auditores de contas não concordam em absoluto.» E outra: «Hoje começa mais um peditório nacional da AMI. Perante a crise, seria de esperar que a resposta das pessoas fosse pouco dispendiosa, mas Ilda Costa, da Assistência Médica Internacional, já disse esta manhã à Antena 1 que nos últimos dois anos tem acontecido precisamente o contrário.»

[Post 3995]
Etiquetas
edit

«Dama» e «sir»?

Excelência


      Damas e... Damas e... A comunicação social está a noticiar que a pintora Paula Rego se dirigiu ontem ao Palácio de Buckingham para receber o título de dama oficial da Ordem do Império Britânico. Se se tratasse de um homem, nunca diriam que lhe tinha sido atribuído o título de «cavalheiro», pois não?

[Post 3994]
Etiquetas
edit

Sobre «freguês»

Diga, não tenha receio


      «Diamantino Amaral dos Santos (PSD), presidente daquela junta [freguesia de Coração de Jesus, concelho de Viseu], diz que o equipamento se enquadra na “modernização administrativa” que tem sido promovida “pelo actual Governo”. Porém, o PS de Viseu criticou este investimento, classificando-o de “absurdo, desnecessário e desrespeitoso pelos fregueses”» («Freguesia gasta 5000 euros para controlar dois funcionários», Nuno P. Chorão, Público, 17.10.2010, p. 27).
      Muito bem: freguês. Apesar de o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registar que freguês é o «habitante de uma freguesia (em relação ao pároco)». Não é, ou não apenas: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acerta: «habitante de uma freguesia; paroquiano».

[Post 3993]
Etiquetas
edit

Selecção vocabular

Inapto


      «CIA admite falhas na recruta de um informante», é um título da página 17 da edição de hoje do Público. A primeira frase, porém, desmente logo a propriedade no uso do vocábulo «recruta»: «A CIA reconheceu ter dado passos em falso e simplificado a entrada de um informante que em Dezembro se fez explodir numa base no Afeganistão, matando sete agentes.» Recruta é a instrução militar básica dada a quem foi convocado para serviço militar ou para instituições semelhantes. O jornalista deveria ter escrito recrutamento, que é a escolha, a selecção de candidatos.

[Post 3992]
Etiquetas
edit

Léxico: «editoria»

Cresce e aparece


      «Em segundo lugar, a coordenação interna entre o trabalho para o sítio na Internet e para a edição em papel. Não faz sentido, neste caso, que a editoria do Público Online não soubesse que iria contar com uma peça própria da redacção sobre a reunião no Funchal. Ou que o jornalista no terreno não fosse confrontado com a escolha de um título que se adivinharia controverso» («Que esteve a dizer-nos Passos Coelho?», José Queirós, Público, 17.10.2010, p. 43).
      Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registam o vocábulo. Só recorrendo ao Dicionário Houaiss é que o leitor que o desconheça ficará a saber que editoria é o «conjunto das secções de uma publicação que estão a cargo de um editor». O Flip 7 acha que quero escrever «editorai», e corrige-me. Cresce.

[Post 3991]
Etiquetas
edit

Revisão

Conhecer os conhecimentos


      «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão conhecer melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Mostrei a frase ao revisor antibrasileiro, dada a propensão quase patológica que revela para não deixar passar repetições. Saiu, com muitas desculpas e que podia ser pior a emenda, etc., isto: «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão adquirir melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Hã?! Nem sempre é possível fazer a poda que ele imagina. E agora?

[Post 3990]
Etiquetas
edit

Léxico: «hemangioma»

Desta vez não resvalaram


      «Apesar de nunca ter sido consultado por José Mestre, segundo explica, este tipo de problema  um angioma vascular  é detectado à nascença e raramente se desenvolve até este grau» («Cirurgiões nos EUA removeram tumor de mais de cinco quilos a “homem sem rosto”», Andrea Cunha Freitas, Público, 20.10.2010, p. 8).
      Em certa altura, há cerca de doze anos, quando passava diariamente pelo Rossio, evitava sempre olhar para onde ele estava, e uma vez tive mesmo um pesadelo em que o Homem sem Rosto me apareceu. Já então me perguntava se a ciência médica não podia fazer nada. O facto de ser testemunha de Jeová, soube-o agora, será uma explicação. No sítio da TVI 24 li agora que se trata de um «hemangioma cavernoso», o que parece ser o mesmo, embora, à partida, tivesse ficado de pé atrás, pois ainda ontem ouvi neste canal uma voz off, a propósito de tráfico humano, falar em «escravataria». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o termo «hemangioma». Resolvam lá isso.

[Post 3989]
Etiquetas
edit

Léxico: «lofoscopista»

Imagem tirada daqui

Todos iguais


      «Sempre que saía em serviço, levava um lofoscopista e um fotógrafo» («Dos homicídios para o voluntariado», Sónia Simões, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 4).
       Têm sindicato que os defenda, o ASFIC, mas não estão nos dicionários. Nem a actividade que exercem, a lofoscopia, é conhecida dos dicionários. Agora vejamos outro exemplo na mesma edição deste jornal. Cá está: «A nossa tão lendária Passarola Voadora não deve ser conhecida em Albuquerque, a cidade americana que é uma espécie de paraíso para os balonistas, nem em Debrecen, a localidade húngara onde se disputou a 19.ª edição do Campeonato do Mundo de Balões de Ar Quente» («Balões do mundo permitem evocar a Passarola», Fernando Madaíl, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 19). Estes já estão em todos os dicionários, mesmo sem sindicato.

[Post 3988]
Etiquetas
edit

«Mestra» e «superiora»

Ignorância atrevida


      «Alexandra Paula Monteiro Pessanha, assistente e Mestra em Direito Público, foi o elemento do CJ [Conselho de Justiça] que não renunciou ao cargo» («Relatora do Sporting-Benfica não se demitiu», Sílvia Freches, Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 47). Mais uma delatora da «violência de género», decerto. Mestra não é menos que risível, como, fora dos conventos, superiora: «O cenário de rota de colisão entre os investigadores do caso Freeport e a sua superiora, Cândida Almeida, está afastado mas os dois magistrados ponderam pedir a cessação imediata da comissão de serviço no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP)» («Procuradores de saída do DCIAP», Eduardo Dâmaso/Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 12.08.2010, p. 28). Não me surpreendia nada que em ambos os casos tivesse havido mão de revisor — ou revisora. Uma desta espécie me aspou há dias o c de «héctico». Antes tivesse levado também o h, e teríamos ficado sãos. Saint-Esprit, sain d’esprit.

[Post 3987]
Etiquetas
edit

Latim

Pedra angular


      O pai do protagonista de uma obra que não posso, por ora, identificar (sem deixar de dizer, contudo, que é o melhor romance que li nos últimos anos, brevemente em tradução portuguesa), «insisted that without Latin nobody could write clear English». O que diria se, em vez de escocês emigrado no Canadá, fosse português. De importância fundamental, sem dúvida, o deveria reputar. Já uma personagem de Cervantes (e um cão, nada mais) dizia que «no tempo dos Romanos, todos falavam latim como sua língua materna, algum parvo deveria haver entre eles a quem o facto de falar latim não desculparia o de deixar de ser néscio».

[Post 3986]
Etiquetas
edit

Léxico: «bipolarismo»

Lacuna incompreensível


      «“Os distúrbios psicóticos como a esquizofrenia e o bipolarismo (que afecta aproximadamente 6% da população) surgem no final da adolescência, início da idade adulta. E, como na maior parte das vezes as pessoas ainda não iniciaram a sua vida profissional, é-lhes muito difícil habituarem-se a uma rotina, ao horário e às regras”, explica Manuel Abreu, presidente da ReCriar Caminhos, associação que fundou em 2008, por causa da esquizofrenia da filha» («Há 100 mil portugueses com esquizofrenia», Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 25).
      Não estou menos que espantado por comprovar que nenhum dicionário que eu conheça regista o termo. E mais: mesmo bipolar só na versão digital do Dicionário Houaiss: «caracterizado pela alternância de estados maníacos e depressivos».

[Post 3985]
Etiquetas
edit

Nome de instituições

Então expliquem-me


      São nomes próprios, sim senhor, mas é tradição, e respeitável, traduzir a designação de estabelecimentos de ensino estrangeiros — se for possível. Assim, para mim e para milhões de falantes de português, José Sócrates discursou na Universidade de Columbia (ou mesmo Colúmbia), e não na Columbia University. É por isso com estranheza que vejo que J.-M. Nobre-Correia, que tem uma crónica sobre os meios de comunicação social no Diário de Notícias (que, de resto, gosto muito de ler), se diga professor na «Université Libre de Bruxelles». Então escrever que era na Universidade Livre de Bruxelas redundava em menos precisão ou desprestígio? Não percebo.

[Post 3984]
Etiquetas
edit

Topónimos

Aprovado


      «À hora de fecho desta edição, a gigantesca grua onde foi pendurada a Fénix, uma cápsula metálica de 54 centímetros de diâmetro, quatro metros de altura e 460 quilos de peso, já tinha começado a trabalhar para içar de volta à superfície os 33 homens que ficaram presos no interior da mina de ouro e cobre de San José. Eles trabalhavam nas galerias mais profundas quando o colapso de um muro de sustentação, uns 300 metros mais acima, cortou a ligação ao mundo exterior» («“Não sei se me vai dar para as lágrimas”», Rita Siza, Público, 13.10.2010, p. 2).
      Em quase toda a imprensa portuguesa, era assim que se podia ler. No Diário de Notícias, porém, foi sempre assim: «Os mineiros mais hábeis, capazes de fazer face a qualquer problema, serão os primeiros a sair da mina de São José, na quarta-feira, anunciaram as autoridades chilenas» («Mineiros mais hábeis serão os primeiros a sair na quarta-feira», Susana Salvador, Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 22). E, no sábado, algo inesperadamente, isto: «Em Marbelha, a 28 de Setembro, sete horas de cirurgia, eis o princípio do fim da fantasia e dos aspectos masculinos» («“O mundo do futebol está preparado para uma Ema?”», Paula Carmo, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 9).

[Post 3983]
Etiquetas
edit

Nomes próprios

Língua impolítica


      Casos políticos. «Esta semana, o protagonista foi o deputado Vítor Baptista, recandidato derrotado ao PS-Coimbra. Escreveu uma carta aos seus camaradas acusando um dirigente do partido — André Figueiredo, chefe de gabinete de Sócrates no PS e secretário nacional adjunto — de tráfico de influências (dizendo que este lhe ofereceu um cargo de gestor público em troca de assistência). Figueiredo já disse que está de consciência tranquila e admite recorrer à justiça. A acusação é grave, embora desvalorizada por muitos (a começar por alguns deputados do PS, que só quiseram reparar nos erros de português da carta)» («Um olho no burro, outro no cigano», Teresa Dias Mendes, Diário de Notícias, 16.10.2010, p. 21).
      A carta está aqui, podem lê-la. Pena é que os deputados do PS só se lembrem de erros de português nestas alturas. Reparem também no facto de o signatário se assinar Victor e não Vítor. A consultora do Ciberdúvidas Teresa Álvares, certa vez, à pergunta de uma consulente sobre se podia dar o nome Victor, o mesmo do marido, ao filho, começou por dizer: «Não sei se a Conservatória de Registo Civil aceitará tal grafia, mas mesmo que aceite não é a correcta.» Aceita — e bastava ter perguntado ou pesquisado. Depois de outras considerações, a meu ver improcedentes, remata: «Não sei que idade tem o seu marido, mas “Victor”, “Tereza”, “Mello”, “Thomaz” não são ortograficamente aceitáveis desde a revisão de 1911.» Pois é, mas vá lá tentar persuadir quem tem tais nomes a mudá-los.

[Post 3982]
Etiquetas
edit

Disparates

Língua violentada


      Em toda a parte há ignorantes, e por vezes são ministros. Em Espanha, a ministra da Igualdade, Bibiana Aído, falou certa vez, e defendeu depois a calinada, em «miembros y miembras de la comisión» (de que aqui demos conta), e insiste em usar o feminino de «jóven», que não existe e é uma aberração, «jóvena». Temos cá algo semelhante, e até trazido por espanhóis. Para agravar, nos últimos tempos, aqui como em Espanha, a imprensa tem dado eco de algo a que chamam «violência de género». Agora só falta falarem do sexo das palavras.

[Post 3981]
Etiquetas
edit

Falsos amigos. italiano

Lavata di testa


      É mesmo: Monaco di Baviera é o nome italiano para... Munique! Mais um falso amigo, este raro, no âmbito dos topónimos. Nos substantivos e verbos, são mais que muitos: abbonato não é «abonado», mas «assinante»; accattare não é «acatar», mas «mendigar»; accordare não é «acordar», mas «afinar; conceder»; additare não é «juntar», mas «apontar; indigitar»; agguantare não é «aguentar», mas «agarrar»; appostare não é «fazer uma aposta», mas «armar uma cilada»; attirare não é «lançar algo», mas «atrair, aliciar»; a battuta não é o «bastão delgado com que os regentes dirigem as orquestras», mas «compasso musical»; burro não é o simpático animal, mas «manteiga»; carpire é «surripiar»; carta é «papel»; cattivo é «mau»; sigaro é «charuto»; consulente é «consultor»; enfiare é «inchar»; subire é «sofrer»; tasca é «algibeira», testa é «cabeça»; trincare é «beber muito»... Basta. E quantas obras italianas se traduzirão para português anualmente?

[Post 3980]
Etiquetas
edit

De «sodomita» a «homossexual»

Seu solomico


      Na obra de Cervantes, há uma personagem, um ladrãozeco ainda no início do seu exigente tirocínio, que, em conversa com outro de tal ofício e semelhante inclinação, afirma que pior é ser herege ou renegado, ou matar o pai e a mãe, ou ser «solomico». «Sodomita», corrige o outro, mais conhecedor. Até ao século XIX, sodomita («perfeito», o que tinha relações sexuais anais com homens, e «imperfeito», o que tinha relações anais com mulheres) era o único termo usado, e apenas em referência a um acto concreto, não como marca identitária ou reflexo de determinada orientação sexual, como passou a ser com o termo «homossexual», cunhado em 1868 pelo jornalista e escritor austro-húngaro Karl-Maria Kertbeny (1824―1882).

[Post 3979]
Etiquetas
edit

Tradução: «trenca»

Imagem tirada daqui

Também não temos esta


      Não ficam por aqui as diferenças entre as línguas espanhola e portuguesa no que toca ao nome das peças de vestuário. Como se chama a peça que vemos na imagem? Pois é: um sobretudo de ¾, talvez. Mas com capuz... Bem, os Espanhóis chamam-lhe trenca: «Abrigo corto, con capucha y con piezas alargadas a modo de botones, que se abrocha pasando cada una de ellas por sus respectivas presillas.» Há quem diga que vem do inglês trench, mas nessa língua dá-se-lhe a designação de duffel coat. (Esta designação provém do nome da cidade de Duffel, na província de Antuérpia, na Bélgica.) O que se sabe ao certo é que a peça só começou a ver-se na Península Ibérica depois da II Guerra Mundial. Daí a possível etimologia. De qualquer modo, também se lhe dá o nome de montgomery, do nome do general Montgomery, de quem não faltam fotografias vestido com tal peça de vestuário.

[Post 3978]
Etiquetas
edit

Ensino

Lá como cá


      Há trinta anos, em Espanha, todos os alunos com menos de 10 anos sabiam o nome das letras no plural: a/aes; e/ees;/i/íes; o/oes; u/úes. Agora, disse-me ontem um professor de Espanhol, só três em cada dez vezes é que se ouve tal. Agora, é as, es, ís, os e us. A ponto de as gramáticas terem tido de admitir a mudança. Talvez seja escusado dizer que, comparando alunos do ensino básico espanhóis e portugueses, estes ficam sempre para trás, conforme o provam estudos internacionais. Em tudo: na identificação de letras e grafemas, na latência da resposta de leitura em voz alta e sobretudo no domínio da descodificação na leitura de pseudopalavras (palavras fictícias, digamos, formadas por uma combinação de fonemas ou grafemas que não existem no léxico de uma língua).

[Post 3977]
Etiquetas
edit

Tradução: «rebeca»

Só temos rabecas


      Digam-me uma coisa: que nome se dá em português ao casaco de malha unissexo como o que vemos na imagem? Pois é: casaco de malha. Frustrante. Vamos a Badajoz e logo toda a gente sabe: rebeca. E onde foram os Espanhóis buscar o chamadoiro, como diria Vasco Botelho de Amaral? Ao filme homónimo de Alfred Hitchcock. Nele, a protagonista feminina, papel desempenhado pela actriz Joan Fontaine, vestia uma peça de roupa com essas características. Quando o filme foi visto em Espanha, logo as boas donas de casa espanholas começaram a tricotar casacos iguais, a que deram o nome de rebeca. E, claro, o DRAE regista o vocábulo: «Chaqueta femenina de punto, sin cuello, abrochada por delante, y cuyo primer botón está, por lo general, a la altura de la garganta.» Os dicionários bilingues espanhol-português dão como equivalente, e não podiam dar outro, «casaco de malha».

[Post 3976]
Etiquetas
edit

Léxico: «pantalonas»

Uma comédia


       Em espanhol, há não muito tempo, alguns nomes apenas se usavam no plural, careciam de singular: tijeras, gafas, pinzas, alicates, víveres, enseres, andas, etc. Ultimamente, porém, os substantivos que designam objectos constituídos por peças simétricas começaram a ser usados também no singular pinza, tijera, alicate, etc. Pantalón também está neste grupo. Se perguntarem a um espanhol medianamente culto qual o étimo de pantalón, logo dirá: o francês pantalon. E não erra, mas este vem, e assim a linhagem fica completa, do nome de uma personagem da Commedia dell’arte (o teatro popular improvisado de origem italiana): Pantalone, que vemos na imagem. Este tipo de calças era coisa nova na Europa de então. Pantalone em italiano, pantalon em francês, pants em inglês... Em português, os vocábulos pantalão, pantalonas, pantalonada têm o mesmo étimo.

[Post 3975]
Etiquetas
edit

Léxico: «sabrina»


Nem dicionários nem lojistas


      Fui inscrever a minha filha em aulas de Dança. Perguntei à professora que calçado devia levar. «Sabrinas.» Dirigi-me a uma loja de artigos desportivos. Os donos da loja, um casal já idoso, não sabiam de que se tratava. «Mas para a dança costumamos vender isto.» Isto era um par de sapatos brancos, leves e flexíveis, de pele e salto raso — como se lê na definição que se encontra no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O Dicionário Houaiss e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ignoram (como também desconhecem outro vocábulo ali nas imediações da ordem alfabética — sabrista, mas venham cá perguntar-me, que pratiquei esgrima, e levam uma estocada num flanco). Os Espanhóis também lhes dão o nome de sabrinas, ou manoletinas, ou toreras. Comecemos pelo fim: toreras porque há séculos que os toureiros usam sapatos semelhantes. Manoletinas como homenagem ao toureiro cordovês Manuel Rodríguez Sánchez (1917―1947), conhecido como Manolete. E sabrinas, finalmente, de onde vem? Do filme homónimo de Billy Wilder, realizado em 1954, e com o papel da protagonista desempenhado por Audrey Hepburn. Vejam a imagem em cima: calças e calçado à toureiro. (E Sabrina venceu, lembro, o Óscar na categoria de melhor guarda-roupa em 1955.)

[Post 3974]
Etiquetas
edit

Toponímia

Lapsos


      Numa proposta que me parece acertada, as 53 freguesias de Lisboa vão ser reduzidas quase a metade: 27 ou 29. E os nomes de algumas vão mudar. Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica de hoje no Público, congratula-se: «O mérito principal da nova proposta é usar nomes que os lisboetas usam (Mouraria), em vez de nomes religiosos que ninguém conhece (S. Cristóvão, S. Lourenço e Socorro). Campo de Ourique em vez de Santo Condestável e Santa Isabel está bem. Avenidas Novas em vez de São Sebastião da Pedreira e Coração de Jesus também. E Areeiro em vez de São João de Deus é um alívio. Mesmo assim, as Amoreiras continuam em Santa Isabel. Os Prazeres e Alcântara são diferentes. O Lumiar nada tem a ver com os Olivais. E, já que se perdem tantos santos, porque não só Benfica em vez de São Domingos de Benfica?» («Santos a mais», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.10.2010, p. 49). Alto aí, Miguel! Não está a propor que haja duas freguesias denominadas Benfica, não? É que há São Domingos de Benfica e Benfica.
      (O vocábulo «toponímia» fez-me lembrar de outro, «homonímia», e do facto, estarrecedor, de recentemente ter visto umas provas de uma obra e de uma das emendas ser esta: homonímia → homonimia. Se existem ambas as grafias, qual a legitimidade de se fazer semelhante emenda? Convenhamos que não é exactamente o mesmo que substituir detalhe por pormenor ou sucesso por êxito, isto para não fugir ao que ainda é polémico.)

[Post 3973]
Etiquetas
edit

Sobre «carpideira»

Imagem tirada daqui
Não escreva assim

      «Não vale a pena reforçar o coro dos lamentos. Os carpideiras (não é gralha, não) disso se encarregam», escreve Ana Benavente na edição de hoje do Público («Três ou quatro coisas sobre o país actual», Público, 14.10.2010, p. 39). Não é gralha, não — é erro. Julgo vislumbrar ali uma intenção jocosa, mas não deixa de ser erro. «Carpideira» é do género feminino. Bem, parece que também há agora homens que pranteiam, a troco de dinheiro, os mortos durante os funerais. Antes eram só mulheres. (A propósito: se não temos, tirante corpoferário, vocábulo correspondente a pallbearer, a língua inglesa não tem equivalente para «carpideira». Dizem o quê? Hired mourner?) (Obrigado a R. A. pela indicação do texto do Público.)
[Post 3972]
Etiquetas
edit

Pronúncia: «fungi»

Não diga assim


      Rita Matos, no programa Este Tempo, da Antena 1, falou hoje sobre cogumelos. E usou a palavra «fungi» (plural do latino fungus), o reino (como se chegou à conclusão de que são tão diferentes das plantas como dos animais, criou-se um reino próprio — reino Fungi) a que pertencem os cogumelos. Primeiro, disse-a com pronúncia restaurada, com o g a soar como gutural. Depois, a desmentir o conhecimento que parecia ter revelado, tentou corrigir, pronunciando quase como se fosse uma palavra inglesa. Antes, tinha começado por lançar o que parecia um remoque ao bad english de Sócrates no discurso na Universidade de Columbia. Só que, como Rui Tavares disse em relação a Pacheco Pereira, em mau português. (Obrigado a Montexto pela referência.)

[Post 3971]
Etiquetas
edit

Pronúncia: «fénix»

Imagem tirada daqui

O ianque


      Nos últimos dias, ouvi na rádio, a propósito do resgate dos mineiros chilenos, a palavra «fénix» pronunciada das duas formas que já conhecemos — a normativa e a deturpada pela ignorância. Ontem, na Sic Notícias, no programa especial para acompanhamento em directo do salvamento, Mário Crespo, acompanhado de três convidados, José Manuel Moura, perito da Autoridade Nacional de Protecção Civil, Telmo Mourinho Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, e Fernando Barriga, professor catedrático de Geologia na Universidade de Lisboa, pronunciou o vocábulo como se fosse o inglês «phoenix». My word!

[Post 3970]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

Efectivamente


      Nunca sabemos muito bem (e quem lá trabalha também não) se os cronistas do Público estão a seguir as novas regras ortográficas se não. Quer dizer, os que o fazem. A crónica de Rui Tavares deu um sinal: «Durante o Verão, Pedro Passos Coelho começou a parecer-se com o tipo que ganhou o Euromilhões mas não teve tempo para levantar o prémio» («Outonal», Rui Tavares, Público, 13.10.2010, p. 36). «Pronto», pensei, «já desistiu.» Não, não: mais lá para o meio saiu um «diretas», um «diretamente», «efetivamente». Não seria mais sensato apreender bem as novas regras e só depois aplicá-las?

[Post 3969]
Etiquetas
edit

Ignorância

E está esgotado


      A Editorial do Ministério da Educação (sim, existe) publicou um livrinho, A Bandeira e o Hino — Símbolos de Portugal, da autoria de Ana Maria Marques e Isabel Alçada, e a publicidade assegura que «é um instrumento de trabalho educativo que permite ficar a conhecer os símbolos de Portugal». Conhecer, sim, mas mal: o músico e editor José Sacramento viu que essa partitura está errada, pelo que se deu ao trabalho de a copiar e fazer um ficheiro áudio do que lá está escrito. É o novo hino. Uma coisa é certa: é muito menos belicoso. Até nos remete para as paisagens oxigenadas do Nepal.

[Post 3968]
Etiquetas
edit

«Vice», palavra plena

Tarefa terminada


      Não insisto mais, parece que já aprenderam: «A procuradora-geral adjunta Isabel São Marcos aceitou substituir Pinto Monteiro durante a sua ausência por motivos de doença, atendendo à inexistência de um vice-procurador para dirigir a procuradoria. Mas não deverá ser o nome daquela magistrada que Pinto Monteiro vai apresentar ao Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) para ocupar definitivamente o lugar de vice» («Substituta de Pinto Monteiro não deverá ser nova vice», Paula Torres de Carvalho, Público, 13.10.2010, p. 12).

[Post 3967]
Etiquetas
edit

Recursos

Para que saibam


      Não queria pompear os meus vastíssimos conhecimentos do que se faz em relação ao estudo e divulgação da língua portuguesa — mas tem de ser, para vosso bem. Ainda aqui não falei do Consultório Linguístico da Antena 1, com a participação de Aníbal Pedra, da Sociedade da Língua Portuguesa, que vale a pena ouvir.

[Post 3966]
Etiquetas
edit

Lacunas

O que faz cachimbos


      Na última página do Jornal de Notícias de ontem podia ler-se uma reportagem sobre o único (mas não acredito que seja o único) artesão português, João Reis, a fazer cachimbos. Teve de ir para a Dinamarca aprender com o mestre Kai Nielsen e depois estabelecer-se lá, pois em Portugal não havia equipamento. Chega a produzir 120 cachimbos por ano, que vende a um preço entre 550 e 3000 euros. Tem encomendas para seis meses. Ora bem, como se chama uma pessoa que faz cachimbos? Ahn... Não tem nome. É um artesão. Ao passo que os fumadores são cachimbadores, cachimbistas ou cachimbeiros (mesmo que os dicionários, deficientes, registem tão-somente a primeira). O mundo é injusto.

[Post 3965]
Etiquetas
edit

«Cota/quota»

Isto também não é normal


      Quota e cota. Não são vocábulos completamente intermutáveis. Se há quem (nanja eu) prefira pagar as «cotas» do condomínio, seria bom que ninguém quisesse usar «quota» para se referir à diferença de nível entre qualquer ponto e aquele que se toma para referência. Seria, mas com os jornalistas, que até põem o presidente da República a «dissolver» o Governo, tudo é possível: «As pontes foram construídas a uma quota inferior à que se encontra na “Ponte Praça” e os moliceiros e mercantéis que são utilizadores [sic] por privados nos passeios turísticos da ria circulam com as proas serradas como forma de poderem navegar naquele canal urbano» («Pontes de canal vão ser mais altas», Jesus Zing, Jornal de Notícias, 12.10.2010, p. 27). O Dicionário Houaiss, porém, fá-los sinónimos nestas acepções. A tradição, senhores, a tradição manda o contrário. E digo-te mais, Houaiss: não sabes o que é um mercantel.

[Post 3964]
Etiquetas
edit

Arquivo do blogue