Como se escreve nos jornais

O do triunvirato

      «O anúncio do grupo francês surgiu a poucas horas do início da cimeira bilateral entre a Itália e a França, em Roma, que promete ficar ensombrada por esta jogada gaulesa nada desejada pelo Governo romano» («Lactalis lança OPA à Parmalat para reagir a lei de Berlusconi», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 27.04.2011, p. 34).
      «Governo romano»: pensamos logo em Marco António, em Lépido e em Octávio, por exemplo. É uma figura de estilo, bem sei, mas vai a par do uso imoderado do termo «luso» na imprensa gratuita. «Jogada gaulesa» é outro produto do excesso de imaginação.
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Léxico: «paparote»

Língua de sogra

      Está aí alguém que saiba — sem consultar nenhum dicionário — o que significa «paparote»? A minha sogra diz que dantes fazia muitos. Os dicionários mais antigos dão «piparote» e «paparote» como sinónimos. Contudo, actualmente, nem todos registam «paparote», como acontece com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Eu digo, eu digo: paparote é um caldo de castanhas piladas. Nenhum dicionário actual diz que «paparote» é a pancada com a cabeça do dedo médio ou indicador.
      (Quer rir-se, Fernando? O Flip 7 emendou repetidamente para «paparrote»; quando eliminei o sublinhado vermelho, apareceu a sublinha verde: «Regionalismo (sem sugestões).»)

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«Seco/secado»

Não valia a pena

      Falava-se de uma semente, e depois dizia-se isto: «É salgada e secada ao sol.» Quatro cabeças, duas sentenças, com a maioria a afirmar que a frase citada está correcta. Que deva ser «salgada» não há dúvida, pois é verbo com um só particípio. Já o verbo «secar» tem dois particípios, secado e seco. Ora, como com os auxiliares ter e haver se utiliza a forma regular (em –ado ou –ido), e com os verbos ser e estar se usa, regra geral, a forma irregular, mais curta, correcto seria «seca», por se subentender ali a forma verbal «é»: «É salgada e [é] seca ao sol.» No dicionário de Morais lê-se, em abono desta interpretação: «Carvão, s. m. Matéria disposta para se acender, e conservar o fogo, ou sejam pedaços de madeira queimada, e apagada; ou a que se tira de minas sulfúreas, dita carvão de pedra; ou de uma espécie de terra pingue feita em talhadinhas, ou tijolinhos, e seca ao sol, a que os estrangeiros chamam turba, os Castelhanos; tourbe os Franceses.»
      A forma «secada» há-de estar ali por atracção: como o outro particípio tem a forma (única, como já vimos) regular, «salgada», este assume-a.

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Ainda sobre «botar»

Botar discurso

      A propósito da obra de Antenor Nascentes Tesouro da Fraseologia Brasileira, já aqui referida, escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Devo confessar que não gosto de tal chamadoiro. Tratando-se de frases e expressões da língua portuguesa, embora registadas algumas peculiares ao Brasil, o título exacto seria Tesouro da Fraseologia Luso-brasileira. A maior parte das dições desta fraseologia partiram um dia nas caravelas portuguesas para Vera Cruz» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, pp. 212-13). Embora afirme que é obra meritória, também adverte que «elogios incondicionais não serei eu quem lhos dê». E escreve mais à frente: «No artigo de alma, ensina que — Botar a alma no inferno é “praticar pecado mortal”. Ora, há uma acepção muito importante que se devia mencionar, e de certo ocorre no Brasil.
      Qualquer pessoa arreliada com outra diz que essa outra lhe põe a alma no inferno, se ela a exaspera muito, fazendo-a irar-se a pontos de se perder, indo parar ao inferno» (idem, ibidem, p. 214). Sempre ouvi minha mãe usar a expressão «meter a alma no inferno». Pôr, meter... Botelho de Amaral prossegue: «Ainda outro dia, certa mãe, atarantada e zangada com o barulho dos filhos, lhes gritou que estivessem quietos, que lhe “metiam a alma no inferno”. O sentido não é o vago significado de “praticar pecado mortal”.» Aqui, Antenor não dormitou, asneou.

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Sobre «usucapião»

Uso campeão

      Em Portugal e no Brasil, o bom povo — ou, para sermos mais precisos, um ou outro beira-corgo — diz «uso campeão» querendo dizer «usucapião» (aquisição pelo uso), esse termo da linguagem do Direito. Até se lê em certos requerimentos: «Fulano vem requerer uso campeão…» É a lei do mais forte. Ah, e não existe o verbo *usucapiar, mas usucapir. E «usucapião», como a maioria das nossas palavras em –ão, é feminino, ao contrário do que se escreve até em manuais de Direito e do que defendem alguns, como Edite Estrela e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. No Brasil, creio que é maioritário o uso do género masculino, seguindo, aliás, o que ali era oficial, consignado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguêsa de 1943, por sua vez mera adesão à correcção que Rui Barbosa, esse génio (aqui a dormitar), fez no parecer sobre a redacção do Código Civil.
[Post 4732]
Actualização no dia 30 de Abril de 2011

      Como sou sempre o primeiro a afirmar, não é nada de decisivo, mas reparem que usucapião é do género feminino em italiano (usucapione), francês (usucapion), espanhol (usucapión) e inglês (usucapion). Em latim, ūsūcapĭō, -ōnis, donde nos chegou por via erudita, é palavra composta (usu+capio) e do género feminino. Talvez se possa atribuir a vacilação de género em português ao facto de usu, «uso», ser masculino.

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«Beira-»

Por corgos e alcantis

      Beira-mar, beira-campo, beira-rio. Não conheciam a segunda, «beira-campo»? Ficam a conhecer. E «beira-corgo»? Corgo ou córrego, o caminho apertado entre montes. Não, não: beira-corgo é o homem rural, rude, sem instrução. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que ainda não esgotou os lusismos, já chegou a este brasileirismo: «indivíduo atrasado, inculto; caipira». «Homem atrasado»… é forte.
      Eu nem queria estas divagações. Beira-mar, beira-campo, beira-rio… mas beira Tejo? O Acordo Ortográfico de 1990 não sistematizou o uso do hífen.
      Não temos «beira-corgo», mas temos beira Corgo, o afluente do Douro que nasce na serra da Padrela: «Não há dúvida: — a prosa de Camilo, opulenta e vigorosa, simples e fraterna, tu cá tu lá com o trágico e o idílico, é a expressão natural da voz do seu sangue — pelo sangue paterno, voz da montanha, ora arrogante como se rompesse do seio dos alcantis, ora terna, como se viesse das belgas da beira Corgo; pelo sangue materno, voz do mar — bramido de vaga, no tumulto do desafio ou da peleja; ciciar de espuma, brando roçagar de cetim aos pés de Ângela ou de Raquel…» (Camilo no Drama da Sua Vida, Alberto de Sousa Costa. Lisboa: Livraria Civilização, 1959, p. 60).
[Post 4731]

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Léxico: «melodismo»

A mesma cantiga

      «Este ano, a cantora [Poly Styrene] chegou a editar um álbum de originais, intitulado Generation Indigo, disco que, apesar de revelar heranças da música punk que a caracterizou no final dos anos 70, também evoca algum melodismo pop e uma aproximação à estética de bandas como os Gossip ou New Young Pony Club, que em muito foram beber ao trabalho de Poly Styrene» («Uma das vozes da primeira geração ‘punk’ britânica», Diário de Notícias, 27.04.2011, p. 47).
      Mais uma vez, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam um termo que o Dicionário Houaiss acolhe: melodismo. Designa a preponderância do carácter melódico na composição musical.

[Post 4730]
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Sobre «botar» e arcaísmos

Muito me conta

      No Portugal em Directo de ontem, na Antena 1, foi entrevistado o presidente de uma câmara municipal. Discurso normal, linguagem corrente, mas, de súbito, inesperado, sai um «botar». Regionalismo, claro, e não, como alguns crêem, arcaísmo. Isto mesmo afirmou F. V. Peixoto da Fonseca, mas acrescentou isto: «Só seria arcaísmo se se tivesse deixado por completo de usar a partir de 1500, mais ou menos.» Alguém sabe alguma coisa destas contas? Para mim, e decerto que para a maioria dos leitores, arcaísmos são palavras, formas ou expressões antigas, que deixaram entretanto de ser usadas. Podemos depois acrescentar que uns são arcaísmos lexicais e outros são sintácticos.
 [Post 4729]
Actualização no mesmo dia

      «Dizem que o português é o único idioma em que se botam as calças e se calçam as botas» (Os Pecados da Língua: Pequeno Repertório de Grandes Erros de Linguagem. 2.º Vol., Paulo Flávio e Paulo Sampaio. Porto Alegre: AGE, 6.ª ed., 2002, p. 40). No Brasil, é assim.

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«Viste-la/viste-a»

A todos os reinícolas

      Na última emissão do programa Hotel Babilónia, a propósito de uma canção de Chico Buarque que foi censurada nos idos de 1975, disse João Gobern: «A parte instrumental passou; a parte da letra, viste-a.» Corte abrupto e de entono pedagógico de Pedro Rolo Duarte: «Viste-la
      Já sabemos que a conjugação dos verbos transitivos, seguidos do pronome o, a, os, as, obriga a substituir esta forma do pronome pela forma lo, la, los, las sempre que a flexão verbal termine em r, s, ou z. Ora, só pressupondo que João Gobern se estava a dirigir a várias pessoas é que seria essa a forma do pronome. Mas o programa é quase sempre um diálogo, um tu cá, tu lá que deixa os ouvintes de fora, não raro com piadas que só os próprios entendem.
      Leio em Sousa da Silveira (Obras de Casimiro de Abreu: revisão do texto, escorço biográfico, notas e índices. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1955, p. 3): «Bocage, em vez de vós viste-los, que corresponde a vós vistes-los, usou vós viste-os, suprimindo a vistes o -s final.»
      Vejam este texto de Vasco Graça Moura sobre o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: «Fui também aos autores que constam das fontes. O Garrett escreveu “cordura ousada” (Camões, I, VI). A “cordura” evaporou-se. Do Camilo, ocorreram-me “reinícola”, “tabardão”, “gasofilácio”, “às canhas”, “regambolear”. Nicles. Do Aquilino, foi a vez de “coitanaxa”. Salvo erro, é o Malhadinhas quem diz, às tantas, que da coitanaxa fez dona. Pois a coitanaxa tinha-se posto ao fresco, a ingrata. Procurei “mátria”, termo tão prezado por Natália Correia.  Viste-la. Mário de Carvalho emprega “ergástulo”. Ó Mário, a palavra evadiu-se...»
      «Gasofilácio» não está em nenhum dicionário recente — nem devia estar. A etimologia obriga-nos a escrever «gazofilácio» (lugar onde se recolhiam as esmolas para o culto, no Templo de Jerusalém), e é esta a grafia que se vê em todos os dicionários.

[Post 4728]
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Amálgama: «prosumer»

Isto também passa

      Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me lêem, alguém que tenha lido a expressão «vórtice crísico», forjada pelo ex-presidente Ramalho Eanes? Com todo o respeito — é de estarrecer!
      Nem tudo, porém, é mau. Os jornais continuam de olhos extasiados nos luminosos estrangeirismos, mas, pelo menos, honra lhes seja, já vão explicando de que se trata: «O “jornalismo participativo” dos prosumers, pessoas que são simultaneamente produtoras e consumidoras de informação (caso dos blogues), tem uma importância crescente só ultrapassada pelo imparável movimento das fugas» («Guerrilha mediática», Cristina Peres, Expresso, 16.04.2011, p. 41). Já é um avanço, e avanço conspícuo. O próximo é deixarem de usar estrangeirismos escusados.
[Post 4727]

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«Dívidas recorde»

Isso passa

      Ontem, num comentário ao texto «É brasileirismo?» de um anónimo que começava por me increpar por dizer mal dos revisores da imprensa diária e acabava com calúnias dirigidas à honra de minha mãe, pelo meio, e tudo numa escassa linha, ainda se me aconselhava a ir trabalhar. Em compensação, por assim dizer, no Público, onde anteontem se podia ler «número-recorde» e «taxa-recorde», o que condenei aqui asperamente, ontem já se escrevia assim: «Cortes cegos, dívidas recorde e reformas que ficaram a meio» (João D’Espiney e Alexandra Campos, Público, 25.04.2011, p. 10).

[Post 4726]
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Tradução do inglês

Escrever é cortar palavras

      Na última Puntycoma, Juan Luis Conde, a propósito da perda da sensibilidade no uso dos pronomes por influência da exposição à língua inglesa, aduz um exemplo interessante. Nos mapas urbanos com que os transeuntes topam nas ruas de Madrid (e de Lisboa, para o nosso caso), encontrarão uma localização marcada com um ponto vermelho (ou um círculo) e a legenda «Você está aqui». Conclui Juan Luis Conde: «De nuevo ese texto delata una erosión en la capacidad para percibir diferencias en la posición de las palabras, causada por seguidismo perruno de mapas urbanos originales en inglés, donde el pronombre precede inexcusablemente al verbo en las oraciones enunciativas. Pero, no, en castellano no es lo mismo “Usted está aquí” que “Está usted aquí”». Para o que nos interessa, a simples omissão do pronome resolvia a questão. Pior é a superabundância, nada consentânea com o génio da língua portuguesa, de pronomes possessivos nas traduções, numa cópia servil e impensada do inglês. Disso também se ocupa Juan Luis Conde e já foquei aqui no Assim Mesmo. Não é raro ter de eliminar centenas — leu bem, centenas — de pronomes possessivos nas traduções que revejo.

[Post 4725]


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Léxico: «hebetude»

Pouco vista

      «Provocadora, parou dias desses numa banca de revistas na Oscar Freire e deixou o pobre do vendedor em estado de hebetude ao indagar se não tinha adesivo também para a vovó cadeirante» («Desculpe tocar no assunto», Humberto Werneck. O Estado de S. Paulo, 24.04.2011, C8).
      É palavra mais que rara. Significa entorpecimento, letargia, torpor, e actualmente só no âmbito da medicina é usada. Só esporadicamente surge na literatura. 
      «E o Joanico, voltado para a janela, encadeado da luz, pasmado, perplexo, a bôca aberta numa expressão de hebetude, repetia sempre, respondia sempre, como um eco:
      — Não sei... Não sei...» (Pátria Portuguesa, Júlio Dantas. Lisboa: A. M. Pereira, 1914, p. 181).

[Post 4724]
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«Call center/call-center»

Perguntemos a quem sabe

      «Mande fazer uma son­dagem aí a umas 200 pessoas com o nosso call‑center a ver o que dá.» Sigo o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Call centre noun, two words; hyphen as adjective, eg, call-centre manager». O mesmo se recomenda, já aqui o vimos, em relação a fast food/fast-food.

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Léxico: «antibioterapia»

Ficamos a saber

      Que nome se dá ao uso de antibiótico(s) no tratamento de infecções causadas por bactérias? Antibioterapia ou antibioticoterapia. «O diploma define desde já, no entanto, que a dispensa “abrange os medicamentos prescritos no momento da alta” e “a quantidade deve ser suficiente para os primeiros três dias após a alta, incluindo o dia da alta, exceptuando os antibióticos, que devem ser dispensados em quantidade suficiente à duração da antibioterapia”» («Medicamentos gratuitos após internamento até Abril de 2012», João D’Espiney, Público, 22.04.2011, p. 10).

[Post 4722]
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«Recorde» como adjectivo

Valha-vos Deus!

      O Público continua, absurdamente, a ligar com hífen o adjectivo «recorde» à palavra que qualifica: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12). Os copidesques, que por sua própria boca proclamam não estar lá para rever, não se enxergam. Ide em paz e continuai a viagem.

 [Post 4721]
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Itálico

Mais, mas no sítio certo

      O Público anda a usar mais itálico — mas será no sítio certo? É o que vamos ver. O Banco de Portugal (agora referido pela absurda abreviatura BdP) publica todos os meses um boletim estatístico. Será então o Boletim Estatístico do Banco de Portugal. E como referimos o mês? Bem, parece-me simples: Boletim Estatístico do Banco de Portugal referente ao mês de Abril. Por exemplo. Ou edição de Abril do Boletim Estatístico do Banco de Portugal.
      «De acordo com o Boletim Estatístico de Abril, só nos últimos três meses, o total confiado aos bancos atingiu 875 milhões de euros, ou seja, mais do que o valor canalizado para os CT [certificados de aforro], apesar das elevadas taxas que este último produto, associado à evolução da dívida pública, está a oferecer» («Poupança dos portugueses está a fugir do Estado para os bancos», Rosa Soares, Público, 22.04.2011, p. 18).
[Post 4720]


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Léxico

O tamanho conta?

      Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. Saibam que designa aquele que padece de uma doença causada pela aspiração de cinzas vulcânicas. É a maior palavra portuguesa, com 46 letras. A pseudopalavra anticonstitucionalissimamente tem 29 letras. Está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
      Não venho, contudo, aqui por isso, mas por isto: «Mostra como se pode ser humilde e audaz ao mesmo tempo. Eleger ou quase-eleger um deputado do PAN bastará para ajudar um bocadinho os animais tão maltratados e tão cruelmente assassinados deste país» («O meu voto», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.04.2011, p. 37).
      Com verbo nunca tínhamos visto, apenas com adjectivos e substantivos.

[Post 4719]
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«Sem-abrigo»: plural

Entre graça e desgraça

      «Um ou outro quadro foi um verdadeiro achado, como o da entrevista de Márcia Rodrigues (Rueff), de véu islâmico, a Khadafi (Monchique) e a Sopa dos Pobres, com sem-abrigos deliciados com pratos de comida molecular preparados por um chef que dá nomes imaginativos às suas performances gastronómicas» («Entre a graça e a desgraça», Eduardo Cintra Torres, «P2»/Público, 22.04.2011, p. 7).
      Já aqui nos ocupou mais de uma vez esta palavra. Não é raro ouvi-la pluralizada. Veremos como será daqui a cem anos.

[Post 4718]


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Pronúncia

Ainda ganha um prémio

      É quase inacreditável, eu sei, mas basta ouvir: na emissão de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (Antena 1, 8.04.2011), dedicado à lenda das maias de Portalegre, Mafalda Lopes da Costa, das seis vezes que disse a palavra «Portalegre», quatro soaram «Porto Alegre». (Ainda se se tratasse de Estremoz...) A determinada altura, disse também que o rei Lísias foi ver da filha, Amaia, «e só encontrou o corpo».

[Post 4717]
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«Houve»/«ouve»

O fim do mundo

      «O papagaio bate as asas e empertiga o seu peito, o Ruca ri quando o houve falar.» Confundir houve com ouve? Se tivermos 7 anos, não me parece grave. Já me parece é o cúmulo da desvergonha e da torpeza que uma empresa como os CTT continue a vender aos seus balcões uns livrinhos do Ruca com seis selos e erros deste jaez. É o contributo da empresa para a defesa da língua portuguesa. E os jornais, que anunciaram a colecção, calam-se.
[Post 4716]
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Verbo «encher»

Seis cestos cheios de enchidos

      «No século XVII, em Inglaterra, os termómetros eram cheios com brandy em vez de mercúrio.» (Sabia, caro Fernando Ferreira?) Bem, a dúvida está em saber se é «cheios» ou «enchidos». O verbo encher, como muito bem lembrou F. V. Peixoto da Fonseca, só tem um particípio passado — «enchido». «Cheio» é adjectivo. Não sei se é fácil encontrar uma gramática actual que corrobore a afirmação.
      «— Há quem diga que ele não está na cova absolutamente. Que o caixão foi enchido de pedras. Que algum dia ele voltar [sic] de novo» (Ulisses, James Joyce. Tradução de António Houaiss. Lisboa: Difel — Difusão Editorial, 2.ª ed., 1983, p. 114).
[Post 4715]
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«Embaixadora/embaixatriz»

É a crise

      «O Ministério dos Negócios Estrangeiros suspendeu desde janeiro o pagamento de complementos de reforma a viúvas de ex-embaixadores e antigos funcionários. Em resultado, cerca de vinte ex-embaixatrizes — a quem era reconhecido um trabalho de utilidade pública — ficaram reduzidas a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros» («MNE suspende pensão a viúvas de embaixadores», Expresso, 16.04.2011, p. 48).
      Já é pacífico que houve especialização de sentido, e que embaixatriz é apenas a esposa de embaixador? E já viram a definição de «embaixador» no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa? Ei-la: «Representante do chefe de um Estado numa corte estrangeira.» E na Sexta-Feira Santa não trabalham, claro.
      «Só quem ha tratado com exemplares da especie pode avaliar a dose de impafia que incha o peito constellado da farda de um embaixador de carreira. Não ha na creação animal mais vaidoso... a não ser uma embaixatriz» (Cousas Diplomaticas, Oliveira Lima. Lisboa: A Editora, 1908, p. 259).
[Post 4714]

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Sobre «rabo-de-saia»

É brasileirismo?

      «Mais grave foi a cena de ciúmes no Boujis em finais de Março de 2007. Kate detestava ver o príncipe no papel de ‘rabo de saia’ e, nessa noite, a reacção foi sair porta fora depois de se fartar de olhar para um ‘Crackbaby’, o seu cocktail preferido. As fotografias da humilhação motivaram queixa dela à Press Complaints Comission. Durante três meses não se terão encontrado, mas o amor acabou por vencer» («Ciúmes: Príncipe abandonado duas vezes», João Vaz, Correio da Manhã, 20.04.2011, p. 26).
      A acreditar no que registam os dicionários que consultei, que dão rabo-de-saia como sinónimo de mulher, habitualmente jovem, o senhor redactor principal teria errado. O príncipe William no papel de mulher... Posso estar enganado, mas é a única acepção usada em Portugal. Se consultarmos a Enciclopédia Brasileira Mérito (São Paulo: Editora Mérito, 1967, p. 464), vemos que «rabo-de-saia» tem essa acepção e a que foi usada no texto acima: «indivíduo que vive perto de mulheres». As aspas são tontice que só na cobardia do revisor encontram explicação.
      «Tinha, porém, umas bugigangas curiosas, esporões de galo, pés de galinha secos, medalhas, pólvora e até um chicote feito de rabo-de-raia, que eu li rabo-de-saia, coisa que me espantou, porque estava, estou e morrerei na crença de que rabo-de-saia é simples metáfora. Vi depois que era rabo-de-raia» (Diálogos e Reflexões de Um Relojoeiro, Machado de Assis. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1966, p. 298).

[Post 4713]

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«Low tea»/«high tea»

E um pouco de Everclear

      Astronauta, cosmonauta, taiconauta... A próxima designação para o mesmo virá da Índia? O quê?! O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o termo «taiconauta»?! Mas não venho aqui apenas por isto.
      Embora muitos ingleses não saibam distinguir low tea de high tea, nós sabemos. E como se vê traduzido? «It wasn’t an ordinary afternoon tea, it was a high tea.» «Não se tratava de uma merenda vulgar, era quase uma merenda-jantar» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 37). Sim, merenda-jantar: «Um paio apetitoso e rosado. Um empadão de carne. Manteiga em pratos de cristal. Uma leiteira azul cheia de leite. Mel. Uma compota caseira de morangos. Pastelinhos. Torta de frutas. Ovos. Chá, cacau e chocolate» (idem, ibidem). Hoje em dia, contudo, já poucos usam o termo «merenda».
[Post 4712]

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«White as a sheet»

Há de tudo

      «She’s white as a sheet...» «Ela está branca como a cal…» Mas já uma vez vi a expressão traduzida por «branca como uma folha»... Ah, pois. E a expressão, variante daquela, «branco como a cal da parede» será mais encontrável no Alentejo, como se sugere pela sua inclusão na obra A Linguagem Popular do Baixo Alentejo e o Dialecto Barranquenhode Manuel Joaquim Delgado (Beja: Assembleia Distrital de Beja, 1983, p. 132)?
      «O Carvalho sabia pior do que isso: um amigo dele, o Pinheiro, não o magro, o outro, o picado das bexigas, que tinha estado escondido num curral de porcos seis horas. Ia morrendo. E quando via um porco punha-se branco como a cal» (Alves & Ca., Eça de Queirós. Lisboa: INCM, 1994, p. 114).
[Post 4711]
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Emprego do artigo definido

Com ou sem artiguinho?

      Original: «Everyone gets in position...» Tradução: «Todos tomaram as posições...» Lembrei-me logo de um comentário verrinoso de Camilo a uma obra em que lera que alguém «cortara as relações» com certo indivíduo. Como quem «corta as unhas», zombou Camilo. Ora leiam o que mestre Aquilino escreveu precisamente na obra O Romance de Camilo: «Quando hospedada em casa do negociante Agostinho Francisco Velho, Rua de D. Maria II, Ana Plácido era visitada por uma criatura, que se dizia prima dela e chamar-se Cândida. Viria ela convencer a pecadora a cortar as relações com o romancista, a título de que ainda era tempo de arrepiar caminho, perdoando Pinheiro à transviada» (O Romance de Camilo, 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Gleba, 1957, p. 322).
      Tomar posição: «Desceram de rondão as escadas, e no atrio para onde davam as portas ameaçadas, tomaram posição e ordenança de guerra» (O Arco de Sant’Ana, II, Almeida Garrett. Lisboa: Imprensa Nacional, 1859, p. 232).

[Post 4710]
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«Wrap sb (up) in cotton wool»

Mal sabido

      «Got to be wrapped in cotton wool and all that, sir», lia-se no original. Parecia mesmo um dos tais holismos de que já aqui falámos, e por isso o tradutor verteu assim: «Tem de ser tratado com paninhos quentes e tudo isso, senhor.» Mas não: wrap sb (up) in cotton wool é trazer ou andar com alguém nas palminhas, ou seja, apaparicar, tratar com meiguice, com muito carinho (como se lê na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira). Eça de Queirós usou muito a expressão. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista «trazer (alguém) nas palmas». Vai um exemplo de um coetâneo, D. João de Castro: «— Não sei lá de isso! — exclamou. — O caso é que o trazem nas palminhas, lá por Lisboa. Até querem (mas isto é segredo...) até querem fazel-o barão!» (Morte de Homem. Lisboa: Empreza da História de Portugal — Sociedade Editora, 1900, p. 7).
     Os paninhos quentes fazem parte de outra expressão: não estar com paninhos quentes, ou seja, não ter contemplações, não transigir. A lã enganou o tradutor.
[Post 4709]


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Tradução: «by heart»

De cor

      Assim, humildemente, cumprem-se logo de uma assentada três das sete obras espirituais de misericórdia: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram. «Gael», lia-se no original, «knows these hypocrites off by heart.» Como era previsível, o tradutor verteu desta maneira: «Gael conhece estes hipócritas de cor.» Pergunto: alguém alguma vez ouviu ou leu a expressão referida a pessoas? Sim, by heart é habitualmente traduzido por de cor, mas decerto que é preciso pensar. De qualquer modo, de maneira geral, os falantes confundem de cor com de cor e salteado. Na tradução, não seria melhor usar a expressão de ginjeira? Coloquial também, significa conhecer muito bem e já há muito tempo. De cor conhecer-se-ão poemas, uma oração, uma carta recebida da nossa namorada (quando ainda se escreviam cartas), a primeira crítica num jornal, etc. De ginjeira conhecemos alguns dos nossos amigos, parte da nossa família, o fideputa do vizinho de cima, etc.
[Post 4708]

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«Um dos que/uma das que»

Uma das causas… que estão

      A emissão de ontem do Jogo da Língua não merece ser vilipendiada. Mas… «A frase correcta é a B: “Essa é uma das causas que estão na origem da doença.” E porquê? Portanto, hoje no nosso Jogo da Língua temos uma questão sintáctica. O verbo estar deve ser conjugado no plural, portanto, estão, uma vez que esta frase contém dois verbos, o verbo ser e o verbo estar, que têm sujeitos diferentes. O sujeito do verbo ser é o demonstrativo “essa”, e o sujeito do verbo estar é o relativo “que”, referente ao nome “causas”. Ora, uma vez que este substantivo “causas” se encontra no plural e esse relativo “que” se refere a “causas”, então o verbo tem de ser conjugado também no plural. Se nós invertermos a ordem dos elementos da frase, perceberemos melhor. “Das causas que estão na origem da doença, essa é uma delas.” Portanto, sempre que temos a expressão um dos que/uma das que, temos sempre de ter o segundo verbo no plural» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 18.04.2011).
      Já aqui tínhamos visto esta questão, também tratada por Napoleão Mendes de Almeida, que escreveu: «Um dos que — O verbo vai para o plural ou fica no singular conforme a ação verbal se refere a todos os indivíduos ou a um só» (Napoleão Mendes de Almeida, Gramática Metódica da Língua. São Paulo: Saraiva, 3.ª ed., 1965, p. 404).
[Post 4707]

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«Tulipa/túlipa»

«Tulipa» ou «túlipa»?

      Se o sábio Gonçalves Viana escreveu nas Apostilas aos Dicionários Portugueses (II, 511) que o acento não deve recair no i porque é vogal epentética, temos de nos calar. Ou talvez não. Vejamos. Não é nada de decisivo, mas, se vejo muitas vezes escrito com acento, não me lembro de alguma vez a ter ouvido ser pronunciada como esdrúxula. (Primeira ilação: dou-me com as pessoas erradas.) Cheguei a esta reflexão porque estava aqui a ver que o tradutor verteu Flat Place por País das Túlipas. E cá está, esdrúxula, dactílica ou proparoxítona no venerando Morais. Que achais?
[Post 4706]
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«Ódio de estimação»

Controversos, pois

      «Controversos dá nome à novidade que irá girar em torno de “figuras que são mais polémicas, não tão lineares como as anteriores”. “São figuras de que eu gosto, mas são figuras polémicas que suscitam paixões e alguns ódios nem que sejam de estimação”, reconhece Goucha, admitindo que desconfia sempre “daquelas pessoas de que toda a agente gosta”» («“Quero entrevistar o Pinto da Costa”», Sara Oliveira, «Notícias TV»/Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 80).
      Saberá o “grande comunicador” o que são ódios de estimação? Pergunta retórica, claro. É muito interessante o sentido que o vocábulo «estimação» tem numa frase como esta: «Não posso, a minha hérnia de estimação não me deixa.» Como é que se passou de algo positivo, agradável, para algo negativo, desagradável? Mistérios da língua.

[Post 4705]


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Maiúscula

Senhor engenheiro

      «Por outro, a força e magnetismo da sua música eram tais que muitos reagiram por antinomia, indo buscar elementos a universos exteriores à tradição erudita e, inclusivé, europeia, ou então recuperando elementos caídos em desuso, inaugurando as várias tendências que lançaram um olhar retrospectivo e selectivo sobre a música de épocas prévias ao Romantismo» («As seis décadas que mudaram a face e a geografia da música», Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51).
      Sem acento, senhores jornalistas: inclusive. E o romantismo não precisa de aparecer assim grelado, já que os nomes de movimentos artísticos, literários, políticos, etc., terminados em –ismo se escrevem com minúscula inicial: romantismo. Uma empresa de engenharia (posso dizer o nome?) anda aqui no prédio e, numa das reuniões (gostam muito de reuniões, estes tipos), o chefe disse que faltavam /aitens/ no caderno de encargos. Ri-me, mas disfarcei bem.

[Post 4704]
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Sobre «workshop»

Uârkchopes

      Outra coisa irritante: escrever-se, a torto e a direito, workshop. Não há edição de jornal que não traga pelo menos um workshop. E como o País tem muito que ensinar e que aprender, é todos os dias. Agora, porém, vai-se insinuando, ainda a medo, claro, um termo português: oficina. «Prática de primeira hora é a programação de oficinas dirigidas aos mais novos (desde bebés até aos 11 anos), que decorrerão na Fábrica das Artes, frente ao Jardim das Oliveiras [no Centro Cultural de Belém]» («Oficinas, concertos narrados e mais», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51). Diz rigorosamente o mesmo, reparem, e é nosso, não precisa nem de aspas nem de itálico. E toda a gente percebe. Entretanto, deixemos que discutam e queiram saber o género do anglicismo.

[Post 4703]

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Miscelânea

Três coisinhas

      1. Lusitania, Ok! teleseguros, Açoreana… São nomes próprios, sim, mas forjados, inventados. Logo, porque não Lusitânia, Telesseguros, Açoriana? Seria menos rendoso.
      2. O chefe, muito reputado, mandou dizer que era mesmo «abóbora Hokkaido bebé» que queria escrever, e não «abóbora-menina». (Nem potimarron, supomos.) Seria menos saborosa.
      3. Num espaço aberto (open space, como agora se acha inevitável dizer e escrever), até o paginador se intromete na conversa do director. Este falava em CDS (credit default swaps, uma espécie de seguro que os credores contratam para se protegerem de perdas no caso de os Estados não cumprirem as suas obrigações de reembolso dos títulos) e do valor que dantes tinham. «O Partido do Táxi», comenta o paginador. Espaço compartimentado seria menos democrático.

 [Post 4702]



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Verbo «sobressair»

Sem o filtro...

      Até os jornalistas já mordem nos heróis dos tempos modernos: «No filme que promove as novas chuteiras Mercurial Vapor Superfly, o jogador do Real Madrid [Cristiano Ronaldo] ao auto-elogiar-se comete um erro gramatical quando diz: “Este jogador sobressai-se muito”. E também na velha tradição de o bom jogador falar na 3.ª pessoa do singular...» («O protagonista», Paula Brito, «Notícias TV»/Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 75).
      Mas é verdade: o verbo sobressair é erroneamente empregado como pronominal. A culpa também é do Dicionário Houaiss, que o regista como pronominal. É como diz Sacconi: o verbo «sobressair» não é pronominal desde o século XII...


Actualização no mesmo dia


      A pronominalização deste verbo pode ser resultado de cruzamento com outros com o mesmo significado, como salientar-se ou destacar-se.


[Post 4701]
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«Sede de poder»

Corta!

      «Em geral», escreveu aqui uma vez Montexto, «na fala só a repetição torna a irregularidade ou o deslize realmente censurável.» Estamos de acordo. Nada disso, porém, se aplica ao programa Lugares Comuns (Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 18.04.2011), cujo guião é escrito antecipadamente e pode ser revisto e, ao que julgo, não sendo em directo, pode ser regravado. A emissão de hoje era sobre a expressão «jovem turco». Mafalda Lopes da Costa explicava então que é aquele que tem «sède de poder». Assim mesmo, /sède/local onde funciona um tribunal, uma administração ou um governo, local onde uma instituição tem a sua direcção ou administração... Não, não, não, cara Mafalda Lopes da Costa: /sêde/, desejo vivo, ardente, imoderado — de poder, de cultura, de vingança...

[Post 4700]
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Como se escreve nos jornais

Estamos bem, estamos

      «“Há ali muitas mulheres solteiras e sozinhas, rodeadas de homens atraentes. Eles exercitam, são giros e criminais, o que é também apelativo”, disse Yolanda [Dickinson], que publicou agora um livro sobre estas histórias, intitulado Taboo» («Ex-guarda relata noites de sexo na prisão», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 58).
      E porque não completamente em inglês? «They’re working out. They’re attractive...They’re criminals, so they have a cunning way of approaching you.»

[Post 4699]
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Linguagem

A proverbial insensatez

      Era de esperar: «A linguagem utilizada era, em alguns pontos, “demasiado complexa”: expressões como ‘propriedade resolúvel’ e ‘fluxómetro’ não são compreendidas pela maioria dos utilizadores, alertou [Filipe Plácido, responsável da Tangível — Usabilidade e Design de Interacção]» Linguagem prejudicou Censos na Internet», P. S. T., Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 19). «Fluxómetro»! Nem tudo, porém, está perdido: «Ao DN, Paulo Feytor Pinto, ex-presidente da Associação de Professores de Português (APP), disse “não ter sentido dificuldades” a preencher o formulário, mas admitiu que muitos poderão não ter compreendido bem todas as questões» (idem, ibidem).

[Post 4698]

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Léxico: «recência»

Coisa de académicos

      Só recentemente a Antena 1 passou a disponibilizar os ficheiros áudio do programa Jogo da Língua. Por sorte, corta a primeira e penosa parte do diálogo entre a locutora e o concorrente. Ou seja, a parte lúdica é aspada. De maneira geral, o concorrente é tão experimentado nestas questões da língua, que nem se atreve a repetir a hipótese que considera certa, optando por dizer que é a primeira ou a última — o que serviria para aprender o que são os efeitos de primazia (recordar-se melhor das primeiras palavras) ou de recência (recordar-se das últimas palavras), bem estudados no respeitante às sondagens (polls, em inglês) ou inquéritos amostrais (surveys, em inglês). Pois claro, os dicionários não registam o neologismo «recência». O mais próximo que registam é «decência». São decentes.
[Post 4697]


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Tradução: «unbundling»

Desnecessário

      «A REN está interessada em ficar com o transporte e o armazenamento de combustíveis em Portugal, caso o Estado português decida fazer o unbundling e retirar essa parte ao controlo da Galp.» O anglicismo anda por aí em quase todos os jornais — e nem sempre explicado nem marcado como estrangeirismo, como agora é moda. Fazer o unbundling é fazer a separação, separar, neste caso as redes de transporte de energia e as empresas de energia (as «energéticas», como certos comentadores dizem e escrevem).


[Post 4696]



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Sobre «lusofonia»

É connosco?


      «Queremos contar com o contributo de Portugal, de todas as ex-colónias africanas e do Brasil para podermos transformar este património de Cabo Verde, da lusofonia, em património da Humanidade. Nada melhor do que os próprios protagonistas do 25 de Abril poderem contribuir desta forma para a vivificação do espírito de Abril», afirmou o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, depois de ter («à margem», escrevem os periodiqueiros) participado ontem numa palestra na Associação 25 de Abril. Faltará uma acepção ao termo «lusofonia» registado nos dicionários? É que, de conjunto político-cultural dos falantes de português (na definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa), passou a designar os países em que se fala a língua portuguesa. É mais uma invencionice ou faz falta?



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Léxico: «eurovinheta»

Não é connosco

      Com a Directiva 2006/38/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 17 de Maio de 2006, relativa à aplicação de imposições aos veículos pesados de mercadorias pela utilização de certas infra-estruturas europeias, foi criada a chamada — em francês e em inglês — eurovignette. É ver aí pelos jornais a palavra adaptada: eurovinheta. Como era previsível, por vezes aparece com hífen, «euro-vinheta». Os espanhóis na Comissão Europeia afirmam que «euroviñeta», como se vai lendo na imprensa espanhola, é um decalque incorrecto, já que altera o significado habitual em espanhol (pequena gravura para ornato ou ilustração de um livro e cada um dos rectângulos em que se divide uma banda desenhada), e é desnecessário, pois que em espanhol há outras opções, como adhesivo ou pegatina. O caso análogo que encontram refere-se à inspecção periódica obrigatória (IPO), cujo comprovativo tem o nome de «distintivo». Propõem, por isso, eurodistintivo.
      Não temos o mesmo problema. Para já, e como já referi, na imprensa apenas se usa eurovinheta. Quanto a casos análogos, temos a vinheta dos passes sociais (acepção que o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora esqueceu) e o selo inspecção periódica obrigatória (acepção esquecida de todos os dicionários).

[Post 4694]

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Sobre «gongórico»

É vezo entre nós

      «Talvez por esses seguidores não terem as qualidades do poeta original, ou talvez porque a poesia de Luis de Góngora fosse de difícil acesso e decifração para o comum dos mortais, a verdade é que do nome do poeta viria a nascer a expressão pejorativa “ser gongórico” como sinónimo de alguém que usa uma linguagem demasiado rebuscada, ridícula porque excessiva nos floreados» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 14.04.2011).
      Primeiro e principal: desde quando é que existe a expressão «ser gongórico»? Valha-nos Deus. É quase cada sacholada, sua minhoca... Segundo: não é em todos os dicionários que o falante colhe que é vocábulo pejorativo. É ou pode ser. Do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se retira esse sentido. Mas sabemos que sim, é verdade. Ou, repito, pode ser. No Dicionário Brasileiro de Insultos, de Altair J. Aranha (Rio de Janeiro: Ateliê Editorial, 2002, p. 170), lê-se isto: «Dizer que alguém é gongórico indica que ele fala muito e diz pouco, que tem mais enfeite do que conteúdo.» De determinada escrita, afirmou Afrânio Coutinho: «Ela não é má porque é gongórica, como é vezo entre nós julgá-la, mas porque é de mau gongorismo» (Do Barroco. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994, p. 175).
      Não sei se se interessam por estas miuçalhas da língua, mas algo surpreendente é que logo em 1624 se tenha cunhado no castelhano o termo culterano (registada nos nossos dicionários mas não explicada) para classificar o estilo gongórico, que é um trocadilho com «luterano». Foi nesta altura que Quevedo e outros escreveram que a poesia de Góngora só era clara quando era queimada, em alusão à heresia poética deste e, possivelmente, e de forma ínvia, ao facto de Góngora ser judeu. Vejo que a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira acolhe o verbo agongorar: «Tornar semelhante ao estilo gongórico: para chamar a atenção do público, resolveu agongorar a prosa

[Post 4693]



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Léxico: «enxugo»

Alta engenharia

      Nunca tinha visto a palavra «enxugo», e muito menos suspeitava que pudesse substituir — e com vantagem, pois é bem nossa — o vocábulo «drenagem», que vem do francês drainage. O contexto em que a li referia-se às obras que D. Dinis mandou fazer no paul do Ulmar. Recuamos século e meio e encontramos isto: «O enxugo dos pantanos exige de ordinario, para se effectuar, o emprego de custosas obras, de grossos capitaes, e emfim de todos os recursos da alta engenharia agricola, quer para dar sahida ás aguas accumuladas, quer para prevenir o ajuntamento de outras» (O Archivo Rural — Jornal de Agricultura, Artes e Sciencias Correlativas, n.º 1, I ano, Maio, 1858, p. 309). Na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, leio que foi Fr. Martinho, monge de Alcobaça e esmoler-mor de D. Dinis, que, a mando real, realizou esses importantes trabalhos de enxugo no paul do Ulmar. Não deviam os dicionários fazer remissões mútuas nos verbetes «enxugo» e «drenagem»? 

[Post 4692]
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Tradução: «fish fingers»

Hum... não temos

      «[…] and takes out a box of fish fingers.» «[…]e tira uma caixa de dedinhos de peixe.» Eu até pensava que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já registava o vocábulo... Andam desatentos. Não estou a ver ninguém dizer que quer uma caixa de «dedinhos de peixe». Pode ser sugestivo, um achado magnífico, mas cada língua tenta encontrar a sua forma de expressar as coisas. «Douradinhos», pode ser? Obrigado, capitão Iglo.

[Post 4691]



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Tradução

Laconismo

      Lembram-se dos fachis? Acudiram-me à memória agora quando vi esta frase: «Then it’s all off to Chopsticks for a Chinese.» Tradução? «Depois vão todos ao Chopsticks comer chinês.» Não sabia que agora se dizia assim... «comer chinês». De elipse em elipse, tudo fica subentendido. Talvez pensem que só escritores descuidados como Tomaz de Figueiredo é que escrevem «comer comida»: «E lá por essa Lisboa, de língua de fora, a abafar de calor, a comer em restaurantes, mal comido e a comer comidas indigestas...» (A Gata Borralheira, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Guimarães Editora, 1961, p. 27).


[Post 4690]


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