Propriedade

À primeira vista


      «Mal fecharam as urnas, a televisão pública italiana RAI e a imprensa em geral avançaram com projecções, que se foram confirmando ao longo da tarde e segundo as quais a direita manteria os seus feudos do Norte — caso da Lombardia e do Veneto, aparentemente ganha pelo candidato da Liga Norte, Luca Zaia — e teria conquistado à esquerda quatro regiões. Duas no Sul: a Campânia e a Calábria» («Silvio Berlusconi ‘rouba’ quatro regiões à esquerda», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 30.3.2010, p. 24).
      Tenho dúvidas sobre a propriedade do advérbio «aparentemente». Nada, contudo, que se compare com este absurdo, tantas vezes lido e ouvido: «Afirma que acha a minha religião “positivamente bizarra” e está espantado por eu parecer aparentemente tão bem equilibrado com todos estes disparates na minha bagagem» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 42).

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«Imprensa escrita»

E é mesmo


      Quando um leitor me exprobrou por eu ter usado num comentário a locução imprensa escrita, esqueceu-se de dar uma olhadela aos dicionários (ou a alguns) e de reflectir. Vejamos. Se a acepção mais corrente de imprensa é conjunto dos jornais e publicações afins, não nos podemos esquecemos de outra acepção, registada em alguns dicionários: os meios de comunicação social. «2009 foi um mau ano para a imprensa escrita» (Alexandre Elias, Diário de Notícias, 19.3.2010, p. 58).

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Simpatizantes e partidários

Como é?


      «O violador de Telheiras, Henrique Sotero, vai hoje falar com o seu advogado sobre a alegada agressão de que foi vítima na cadeia da PJ e se o suposto agressor foi mesmo o simpatizante neonazi Mário Machado» («Advogado de nazi não acredita na agressão», Rute Coelho, 24 Horas, 22.3.2010, p. 13).
      No título, «nazi», no corpo da notícia, «simpatizante neonazi». Incongruências à parte, fará sentido escrever «simpatizante neonazi»? Vejamos: neonazi (ou neonazista, verbete para que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remete) é o partidário do neonazismo. Simpatizante, por sua vez, é o apoiante de um partido, de um clube desportivo, etc. Mário Machado é neonazi ou simpatizante do neonazismo?

[Post 3291]
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Elemento de composição «recém» (V)

De mal a pior


      «Um dos pontos altos da noite de sábado do Portugal Fashion foi o desfile de Ricardo Trêpa para a Dielmar. A sua recém-mulher, Cláudia Jacques, esteve na plateia e assistiu entusiasmada ao desfile do marido» («Trêpa casado e feliz», Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 47).
      Já o escrevi aqui por duas vezes: recém é um elemento de composição, forma apocopada do adjectivo «recente», que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. Se voltassem ao ensino primário, eram chumbados.

[Post 3290]

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Sobre «okupa»

Vem de Espanha


      «Os okupas não tardaram em descobrir o novo refúgio, começando a pernoitar nos imóveis — propriedade privada — e nem o facto de a autarquia ter recentemente mandado emparedar os pisos térreos os impediu de treparem a parede de tijolo para aceder ao interior dos blocos» («‘Okupas’ transformam bairro de sonho em pesadelo», Roberto Dores, Diário de Notícias, 24.3.2010, p. 24).
      O movimento e a palavra, que tiveram o seu auge na década de 1980, quando ainda nem sequer existia uma norma legal que proibisse a ocupação de imóveis e terrenos vagos, vieram de Espanha. Deriva da palavra espanhola ocupación. A letra k servirá para marcar a diferença. Tem equivalente no inglês squat. Os squatters são os ocupantes de casas, os okupas.

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Léxico: «corta-vento» II

Está aqui


      De vez em quando, é conveniente revisitar textos antigos e descortinar qualquer evolução. Em relação a corta-vento, por exemplo, alguma coisa mudou: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passou entretanto a registá-lo: «blusão fabricado com tecido ou material resistente à chuva e ao vento, usado sobretudo em desportos de montanha». Claro que me lêem. E agora só falta o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registá-lo. «Chumbaram uns calções por terem cordões na cintura e na bainha; duas blusas e uma camisola com fitas no pescoço, um corta-vento com cordão deslizante no capuz e um biquíni com várias fitas para atar» («Um em oito conjuntos para criança não cumpre regras», Céu Neves, Diário de Notícias, 24.3.2010, p. 17).

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Verbo «dar»

«O verbo deiamos não foi encontrado.»


      Um leitor acaba de me escrever: «No programa Um Certo Olhar, da Antena 2, de hoje, comentava-se a eleição do novo presidente do PSD quando o professor, escritor, dramaturgo, crítico literário, comentador e não sei que mais Miguel Real disse: “Pronto, deiamos oportunidade.”»
      Na Beira Interior é que se conjuga comummente desta forma o verbo dar. Mas Luís Martins, pseudónimo de Miguel Real, é lisboeta, segundo umas fontes, ou sintrense, segundo outras. Pode ser as duas coisas, exactamente: natural de Lisboa e residente em Sintra. Mas quanto ao verbo: Dê/dês/dê/dêmos/deis/dêem.

[Post 3287]
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«Replicar», anglicismo

Replico, refuto, contesto


      «A nova ferramenta deverá estar a funcionar na região de Lisboa e Vale do Tejo até ao final do ano, mas poderá estender-se ao resto do País. Segundo a mesma fonte, houve médicos de saúde pública de várias regiões que já demonstraram vontade de replicar o projecto e deverão fazer as propostas às respectivas Administrações Regionais de Saúde» («Intoxicações alimentares vão ser registadas nos hospitais», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 17).
      Poucos dicionários acolhem a acepção do verbo replicar usada no artigo. E a explicação é simples: nesta acepção é anglicismo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não a regista. Dos que a registam, prefiro a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Repetir ou repetir-se por reprodução ou multiplicação. = REPRODUZIR.» Para concluir: a jornalista não devia ter usado o vocábulo.

[Post 3286]
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«Centro de saúde»

Também não percebo


      «Os médicos dos hospitais e centros de saúde vão passar a registar todos os casos de intoxicações alimentares ou por monoxódio [sic] de carbono num sistema informático» («Intoxicações alimentares vão ser registadas nos hospitais», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 17).
      É muito comum os jornalistas grafarem com maiúsculas iniciais a locução centro de saúde, no plural ou no singular. Mesmo no singular, a não ser que se refira a um centro de saúde específico, é claro que se deverá grafar com minúsculas iniciais.
      A propósito da mesma notícia, pôde ler-se no Correio da Manhã: «Um sistema informático de saúde pública vai permitir que, até ao final do ano, seja possível ter uma ideia do número de toxicoinfecções alimentares causas [sic] pelo consumo de bivalves da região de Lisboa e Vale do Tejo» («Amêijoa ilegal pode provocar intoxicações», Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 18). Nenhum dicionário acolhe o vocábulo toxicoinfecção.

[Post 3285]
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«Directivo» como substantivo?

Não percebo


      «Ontem, aplaudiam; hoje, assobiam e insultam, criam, enfim, aquilo que foi pedido para Alvalade por um directivo imprudente: um “ambiente extremamente difícil”» («Não ponham mão nisto, não», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 19.3.2010, p. 64).
      Como estou a leste destas questões do futebol, fui pesquisar que «directivo» era aquele. Vi que o «directivo» era Salema Garção e se referia ao jogo Sporting-At. Madrid, mas este conhecimento não contribuiu em nada para compreender porque é que o jornalista usara o vocábulo. A minha suspeita era a de que Ferreira Fernandes lançara mão de um castelhanismo, directivo, «miembro de una junta de dirección: es directivo de un equipo de fútbol». Só como adjectivo vejo o vocábulo registado. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista em relação a directivo: «Que dirige. = DIRECTOR». Na expressão plano director municipal, «director» é, é óbvio, adjectivo, e podia substituir-se por «directivo».

[Post 3284]
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Ordem dos elementos na frase

Faltou o revisor


      Um leitor chamou-me a atenção e fui ver: José Rodrigues dos Santos, pivô mas também romancista premiado, disse no Telejornal de hoje: «Cavaco Silva inaugurou uma exposição dedicada a si próprio em Loulé, concelho onde nasceu.» Já viram a deselegância da frase? Atentem.

[Post 3283]
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Sobre «predador sexual»

Apanhar ou matar uma presa


      «Advogado garante que predador e família têm noção da gravidade dos crimes praticados» («Namorada dá apoio a violador na prisão», Helder Almeida, Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 8).
      A expressão, traduzida do inglês (sexual predator), é predador sexual, mas nos jornais vão prescindindo do adjectivo. Nenhum dicionário que eu conheça regista a expressão ou a acepção no verbete correspondente. A propósito: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista, ao contrário do Houaiss e do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o verbo predar.

[Post 3282]


Actualização em 1.06.2010

      Mas lê-se, sobretudo nas traduções: «É a sua vingança por você predar os indefesos» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 55).



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«Tecto» e «plafond»

Redundâncias


      «O Ministério da Saúde vai fixar tectos máximos para os salários dos profissionais de saúde contratados a empresas privadas para exercerem funções, a recibo verde, no SNS» («Salários com tecto máximo», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 28).
      Até parece mentira como os jornalistas perderam a mania de usar o estrangeirismo plafond. Mas estão aqui outros aspectos em causa. Primeiro: o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista (!) esta acepção de tecto. Segundo: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-a como «limite máximo», o que mostra a redundância de «tectos máximos». Terceiro: este dicionário continua a registar o galicismo plafond, sem, contudo, fazer uma remissão para o verbete «tecto».

[Post 3281]
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Geropiga/jeropiga

Escrito no bronze


      «A ideia partiu de uma brincadeira de amigos, mas ao fim de cinco anos, a Confraria dos Amigos da Geropiga de Moinhos e Arredores (CAGMA), de Miranda do Corvo, conta já com 60 confrades, seis dos quais foram entronizados ontem» («Confraria de Mir. Corvo promove Jeropiga», F. P., Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 18).
      Bem, parece que os confrades acham mesmo que se escreve *geropiga. Apesar de estarem no trono, não vamos ter medo de lhes dizer que não é assim, não é assim? Já aqui tínhamos visto esta questão semiobscura.

[Post 3280]
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Tradução: «steward»

Basta!


      Benfica-Braga no Estádio da Luz. O repórter da Antena 1 João Vasco disse no serviço noticioso das 18 horas: «Estão mobilizados para esta partida cerca de 500 polícias. Há também 450 stewards, que foram mobilizados para este encontro.» Os jornalistas não perdem uma oportunidade de nos afrontarem com estrangeirismos. Este já o vi traduzido por assistente de estádio, assistente de recinto desportivo e assistente de campo. Não chega, querem ver? Isto só tinha fim se lhes descontassem no ordenado um determinado montante por cada estrangeirismo desnecessário.

[Post 3279]
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Sobre «onça»

Não me parece


      «Algumas onças de tabaco solto e uns poucos papéis de cigarro» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 254).
      No Grande Dicionário da Língua Portuguesa, José Pedro Machado registou: «Onça, s. f. Pop. Pacotilha de tabaco, cujo peso é variável.» O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista: «Onça, nome feminino. antiquado pacotilha de tabaco em fio.» Quanto a ser antiquado, tenho dúvidas. De qualquer modo, a definição faz perder de vista a ligação à medida de peso. Esta definição é quase igual (com a diferença de que regista que é desusado) à do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa. Infelizmente, os dicionários copiam-se, com prejuízo evidente para os leitores.

[Post 3278]
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Indicação das horas

Um nome trocado


      «Eu», escreveu Ferreira Fernandes na edição do dia 22 do Diário de Notícias, «se fosse o secretário de Estado, teria dito: “Senhor presidente, não me chamo João Trocado mas João Torcato da Mata. E, já agora, não sou secretário de Estado, sou ex-secretário de Estado porque não quero comprometer o Governo no que lhe vou dizer: não admito que me fale assim.”» («Há tons que só pedem isto: não!», p. 56).
      Bem, por vezes os jornalistas têm acesso a informação a que o comum cidadão não chega. Não me parece ser este o caso. Em que dados se baseia Ferreira Fernandes para dizer que o secretário de Estado não se chama João Trocado mas João Torcato da Mata? Escrevi aqui no dia 23 sobre a questão. Fui agora ver de novo: é mesmo Trocado e não Torcato.
      Já agora, a propósito de tons: um leitor, talvez jornalista ressabiado, deixou-me um comentário ao texto «Pelo menos a esta hora» (sobre a dicionarização de rifte): «“10.17” é modo de escrever as horas?» Se se for jornalista do Público, não é, pois até o Livro de Estilo desse jornal recomenda: «Há uma norma para escrever as horas. Ex.:12h30 (e não 12.30h, nem 12.30, nem 12h30m, nem 12H30m).» Se se for jornalista do Diário de Notícias, já é. Três exemplos:

  1. «Na primeira vez, perto da 01.30 da madrugada, a PSP foi chamada ao bairro por moradores que reclamavam de desordens nas ruas e intenso ruído provocado por um grupo de perto de 30 jovens, alguns de bairros vizinhos» («Bombeiros querem protecção policial para ir a bairros de Loures», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 19).

  2. «Os incidentes aconteceram a partir das 16.15, quando chegou a claque portista, com adeptos no tejadilho dos autocarros» («A violência antecedeu o futebol», Carlos Nogueira, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 36).

  3. «É precisamente a banda sonora da saga Guerra das Estrelas, realizada por George Lucas, que virá hoje e amanhã ao Pavilhão Atlântico, em Lisboa, às 21.00, com a digressão Star Wars: in concert, pela mão da Royal Philarmonic [Concert] Orchestra (RPCO)» («A ‘Guerra das Estrelas’ em Lisboa», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 48).
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Frase interrogativa

Discutam no fórum


      Ned dá as boas-vindas ao rei Robert Baratheon, senhor dos Sete Reinos: «— Confio que tenhais apreciado a viagem, Vossa Graça?» (A Guerra dos Tronos, George R. R. Martin. Tradução de Jorge Candeias e revisão de Idalina Morgado. Parede: Saída de Emergência, 3.ª ed., 2009, p. 43).
      Só me pergunto é porque é que aquela frase é interrogativa. Se o tradutor e a revisora também se interrogaram, não chegaram à conclusão a que eu cheguei. Não é a primeira vez que aqui denuncio este erro. Não é raro uma frase interrogativa em língua inglesa não poder ser do mesmo tipo (há quatro tipos: declarativa, interrogativa, imperativa e exclamativa) em português. Nem sequer interrogativa indirecta.

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Léxico: «rifte»

Pelo menos a esta hora


      «A Grande Fenda Africana é um complexo de falhas tectónicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas tectónicas africana e arábica. Esta estrutura estende-se no sentido norte-sul por cerca de 5000 km, desde o norte da Síria até ao centro de Moçambique, com uma largura que varia entre 30 e 100 km. É o melhor exemplo de um rifte emerso» («Vai nascer um oceano em África», Mário Gil, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 25).
      Caro Fernando Venâncio: são 10.17 da manhã e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista este vocábulo, aportuguesamento do inglês rift.

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Pronúncia: «Gibraltar»

Disparates aos pares


      A Antena 1 tem agora um programa chamado Portugueses no Mundo, de Ricardo Alexandre. Todos os dias é entrevistado, por telefone, um português que esteja a viajar ou a viver em qualquer parte do mundo. Na quinta-feira, tratava-se de um português, um construtor civil, a viver em Gibraltar. O jornalista pronunciou sempre a palavra como paroxítona; o construtor civil, sempre como oxítona. E oxítona ela é, como, por exemplo, Trafalgar. Seria mais natural o inverso: o construtor civil a demolir a ortoépia e o jornalista, homem da palavra, a erigi-la.
      Esperem! Ricardo Alexandre não disse «ilha» referindo-se a Gibraltar? Deve ter aprendido geografia nos comunicados da Lusa. Quase, quase... Quase-ilha: Gibraltar é uma península. Do latim paeninsula, que provém de paene, «quase», e insula, «ilha».

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Ortografia: «afro-descendente»

Analogia


      «Os habitantes são de várias raças: os manabitas, vindos da província de Manabi, os afrodescendentes, os mestiços e os oriundos da serra», alguém escreveu. Faz lembrar a infeliz grafia *lusodescendente usada no Diário de Notícias. Rebelo Gonçalves, no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, recomendou o uso de hífen nos «compostos em que entram, morfologicamente individualizados e formando uma aderência de sentidos, um ou mais elementos de natureza adjectiva terminados em o e uma forma adjectiva». Exemplos? Físico-químico, póstero-palatal, trágico-marítimo, ântero-inferior; latino-cristão, grego-latino, afro-negro.

[Post 3273]
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«Torção/torsão»

Torcer


      «Aproveito, já agora, para lhe pedir a opinião sobre o seguinte. É correcto grafar “torsão” ou terá de ser, sob pena de erro ortográfico, “torção”? Ou pode ser escrito das duas maneiras?»
      No âmbito da Matemática, basta pesquisar no Google para o comprovar, usa-se muito mais a grafia torsão do que torção. Todavia, só esta se encontra dicionarizada. Os dicionários dão como étimo de torção o vocábulo latino tortĭo,ōnis, pelo que nunca poderia ser grafado com s. Se supusermos que o étimo de torsão é o inglês torsion, então já estará correcto, pois este vem do latim tardio torsio, alteração de tortĭo,ōnis.

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Superior/superiora

O mundo é dos homens?


      «Pouco depois desta descida pelo rio Cayapas e primeiro contacto com esta etnia negra do Equador, as minhas superiores enviaram-me para Muisne, uma ilha no oceano Pacífico», escreveu a missionária. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, superiora é a religiosa que dirige um convento; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a religiosa que governa uma comunidade ou instituto de mulheres; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Houaiss, é a religiosa que dirige um convento ou mosteiro; abadessa; priora. (Sim, priora ou prioresa é o mesmo.) Julgo que a melhor definição é a do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e, por isso, creio que a missionária deveria ter escrito «as minhas superioras».

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Léxico: «miau-miau»

Agora com fertilizante


      «É que esta droga, conhecida como “miau-miau”, entre outros nomes, é um fertilizante de plantas, pelo que não é uma substância ilegal e pode ser adquirida com grande facilidade através da Internet. Esta facilidade de comprar e o preço (uma grama ronda os onze euros) são algumas das principais preocupações» («Autoridades em alerta com nova droga», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 14).
      Talvez 605 Forte fosse mais eficaz... e ainda estaríamos na mesma área: fertilizantes, pesticidas. O artigo menciona os outros nomes por que é conhecida esta nova droga: M-Cat, MC, 4MMC.
      E é claro que grama, na acepção usada, é do género masculino. A jornalista lembrou-se da erva rasteira, rizomatosa, prejudicial às culturas, pertencente à família das Gramíneas, espontânea em Portugal, e também conhecida por gramão, porque o miau-miau é um fertilizante...

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Ranking/escalafón/classificação

Mais português


      «Rivera Ordoñez é considerado um dos artistas mais bonitos e elegantes de Espanha a par do seu irmão, o também matador de touros Cayetano. Há vários anos que o seu nome é presença assídua no escalafón dos melhores matadores de touros e, no ano passado, recebeu a medalha de ouro das Belas Artes pelos reis de Espanha» («Vai ouvir-se guapo! no Campo Pequeno», 24 Horas, 19.3.2010, p. 30).
      Em Portugal, talvez só um amante da tauromaquia saiba o que é o escalafón. É verdade que o contexto é quase auto-explicativo, mas não chega. Escalafón é qualquer tabela classificativa. («Lista de los individuos de una corporación, clasificados según su grado, antigüedad, méritos, etc.», define o DRAE.) Em Espanha, qualquer falante sabe o que é o escalafón — apesar de, em todos os contextos não relacionados com a tauromaquia, ter vindo estupidamente a ser substituído pelo anglicismo ranking, que também tomou conta da cabeça dos Portugueses. No ténis, por exemplo: algum jornalista se atreve a escrever «tabela classificativa [ou classificação] da ATP»? Não, tem de ser «ranking ATP»: «O francês Jo-Wilfried Tsonga fecha os primeiros 10 jogadores do ranking ATP, por troca com o chileno Fernando Gonzalez, que baixou para o 11.º lugar» («Nadal baixa para o 4.º lugar do ranking ATP», Diário de Notícias, 22.3.2010).
      Ah, sim: escreve-se Belas-Artes (Bellas Artes em espanhol), erro já aqui referido.

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«Desenvergonhado/desavergonhado»

Não é o mesmo


      A propósito da destelemovelfobia do leitor R. A., lembrei-me de citar aqui este trecho de uma composição de uma aluna de 11 anos: «E assim foi: começaram a jogar e não foi que a pouco e pouco as outras crianças se desintimidaram e se juntaram ao jogo?!»
      O sufixo des- (que nem se sabe se deriva do latino dis- se de de ex) com o sentido de oposição, negação ou falta é o mais produtivo da língua portuguesa. No entanto, há centenas de vocábulos formados com este sufixo que o falante comum desconhece. Um deles é precisamente o verbo desintimidar: acabar com timidez ou constrangimento de. Mas não são apenas os falantes comuns a ignorá-los, também os dicionários. Assim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «desintimidar». Tal como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Ora, a aluna também usou o popular desenvergonhado. E que acontece neste caso? Só o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o adjectivo, mas remete para o verbete desavergonhado. Ora, as acepções não são totalmente sobreponíveis, não são coincidentes, pelo que desenvergonhado merecia um verbete com a definição completa.

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Léxico: «enguia-de-vidro» e «angula»

Tudo na mesma


      «“A enguia-de-vidro (meixão) é muito apreciada na região de Espanha. Daí ter de existir captura suficiente para servir os imensos restaurantes e o apetite voraz em relação ao petisco que eles fazem com a angula”, disse ao DN José Eduardo Rebelo, doutorado em Biologia e docente na Universidade de Aveiro» («Enguia bebé que vale ouro», Joana Capucho, Diário de Notícias, 28.2.2010, p. 66).
      Há dois anos, escrevia aqui que os dicionários não registam o vocábulo meixão. Tudo continua na mesma. E todos os anos são publicados vários artigos na imprensa sobre o meixão. Aliás, os dicionários também não registam angula nem enguia-de-vidro. No DRAE, lê-se que angula vem do basco angula, alteração do vocábulo latino anguilla. O que é já nós sabemos: «cría de la anguila, de seis a ocho centímetros de largo, muy apreciada en gastronomía».

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«Alma», uma acepção

Está bem


      A alma não é apenas o princípio da vida e do pensamento. Este vocábulo tem mais de uma dúzia de acepções. Entre elas, a de superfície interior do cano de uma arma de fogo que pode ser lisa ou estriada. É uma extensão do sentido desta acepção que foi usada no seguinte texto: «Instalada num parque industrial com 23 hectares, a Prebesan é a única empresa em Portugal a fabricar tubagens para redes de água sob pressão, emissários submarinos ou estruturas de regadio com ‘alma’ de aço, o que a diferencia da concorrência» («Duplicou negócios apesar do ano de crise», João Nuno Pepino, Revista do Aniversário CM/Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 24). Nestes casos, sim, justificam-se as aspas.

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Uso das aspas

Imagem do jornal Público

Não perdem mesmo a pancada


      «Foi ao som forte de palmas e do barulho ensurdecedor de motos a acelerar que a urna de Nuno Rodrigues — o cantor rap ‘MC Snake’ morto a tiro pela PSP na madrugada de segunda-feira — chegou ontem ao Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa» («“Snake, estaremos contigo eternamente”», Helder Almeida, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 18). Agora, até já os pseudónimos merecem aspas! Mas não são todos os pseudónimos, atenção. «Boss AC e Sam The Kid foram apenas dois dos cantores de rap mais conhecidos a acompanhar o cortejo fúnebre de ‘MC Snake’.» Como são conhecidos, não ficam de quarentena entalados nas aspas.

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Como se escreve nos jornais

Um génio de barrete


      Um chefe de cozinha britânico, natural da Cidade dos Pináculos Sonhadores (exactamente: mais um prosónimo), Geoffrey Brown, a viver em Vilamoura foi assaltado em casa. O Correio da Manhã fala também em sequestro, mas tenho sérias dúvidas que estejam preenchidos os requisitos deste crime tipificado no Código Penal. Mas adiante. «A vítima disse-lhe então que tinha dinheiro no quarto e ouviu os três homens, num dialecto que julgou ser africano, falarem entre si» («“Pensei que me queriam matar”», Teixeira Marques, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 16). Um homem de insuspeitas aptidões: não apenas saberá empratar na perfeição as suas criações gastronómicas, como ainda sabe distinguir, e logo num momento particularmente tenso e violento, em que se urinou pelas pernas abaixo, entre dialecto e língua. Vocações perdidas.

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Uso das aspas

Não perdem a pancada


      Um espanhol de 40 anos foi detido pela Polícia Judiciária no Aeroporto de Faro com 800 gramas de cocaína no estômago. Título do Correio da Manhã? «Trazia ‘coca’ no estômago» (R. P. G., Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 13). Só uma perguntinha: para que servem as aspas? Sim, senhor: é uma redução do vocábulo «cocaína» de uso informal. E depois? As aspas não estão lá a fazer nada.

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«Congelar», uma acepção

Petrificado

      «Na conta bancária, que foi congelada, tinha 355 mil euros» («Idosa emprestava com 30% de juro», A. S. C., Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 51).
      A melhor definição é a do Dicionário Houaiss: «tornar momentânea ou definitivamente indisponível (dinheiro, bens, etc.); bloquear, imobilizar». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem sequer regista o vocábulo (vejam lá isso, meus senhores). É, como regista aquele dicionário, uma derivação por metáfora. E se é mais vulgar referir-se a dinheiro, também se vê aplicado (e a definição reflecte-o) a bens: «As casas, os carros e as contas bancárias da família (excluindo o património do filho, José Augusto de Oliveira e Costa) estão congelados com o objectivo de compensar o buraco de quatro mil milhões de euros que Oliveira e Costa deixou no BPN» («Retiram bens a clã Oliveira e Costa», Miguel Alexandre Ganhão, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 10).

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«Executar», uma acepção

De evitar


      «Ainda para mais, tem chovido na região, o que facilita o desaparecimento de quaisquer vestígios deixados pelos dois criminosos de rosto coberto que executaram o agricultor de Ponte de Sor com dois tiros quando este entrou em casa acompanhado da namorada, Ana Maria Brito, 22 anos, que nada sofreu» («Perícias atrasam investigação», Domingos Grilo Serrinha, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 15).
      Nem todos os dicionários registam esta acepção informal (tirar a vida a alguém; matar; assassinar) do verbo executar, motivo mais do que suficiente para o jornalista não o ter usado. Só por curiosidade, consultei o Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nada. Executar é somente, na acepção mais próxima, aplicar a pena de morte.

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De torque a Trocado

Correio da Manhã trocado


      «O debate sobre o Estatuto do aluno ficou ainda marcado pela intervenção do secretário de Estado da Educação, João Torcato da Mata, que se dirigiu à Assembleia sem usar a fórmula regimental» («Lello censura fotos no Parlamento», Teresa Oliveira, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 31).
      Uma humilhação. Com um nome assim mais invulgar, convinha perder cinco minutos e verificá-lo. Bastava ir ao portal do Governo. está: o secretário de Estado da Educação chama-se João José Trocado da Mata. Neste caso pelo menos, está tudo ligado: Torquato, Torcato e Trocado. Torquato ou torcato era o nome que os Romanos davam ao soldado que, pelos seus feitos bélicos assinaláveis, tinha sido agraciado com o torque. (E agora vejo: nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que vergonha, registam o vocábulo.) O torque é um bracelete, corrente ou colar de metal usado pelos antigos Gregos, Romanos, Gauleses, Persas, Bretões, entre outros povos. Trocado, finalmente, deriva, por via popular, daqueles. Lembro-me de uma vez ter lido numa obra (qual?) de Álvaro Carmo Vaz que, num piquenique em Coimbra com ex-condiscípulos e respectivas famílias, a mulher de um deles chamou o marido assim: «Tor-qu-a-to!»

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Ortografia: «parassónia»

Não percebo


      «Carlos, nome fictício, agrediu a mulher enquanto dormia. Estava a sonhar que alguém a atacava e ele era o salvador. Um outro homem caiu de um quinto andar porque abriu a janela quando estava a dormir. A parassónia é um distúrbio do sono» («Quando o sonho se torna realidade», Ana Maia, 24 Horas, 20.3.2010, p. 58).
      Os dicionários gerais não registam o vocábulo. Só o Dicionário de Termos Médicos, de Manuel Freitas e Costa, da Porto Editora, regista o termo — mas com a grafia parassómnia. Contudo, nas faculdades de Medicina e nos jornais usa-se a grafia parassónia, que reputo mais correcta. Ora, se escrevemos insónia e não insómnia, porque havemos de escrever parassómnia em vez de parassónia?

[Post 3259]
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Léxico: «estrangeirinha»

Ficam algumas

      «Não é só no reino animal que a fronteira entre a vida e a morte pode ser assim tão lenta e porosa. No final do séc. XVI, no triste e breve reinado de D. Sebastião, o Império Português já estava morto, mas os seus inimigos ainda não tinham reparado e receavam-no ao ponto de lhe terem oferecido Larache (a praça que ele queria conquistar quando foi travado em Alcácer Quibir). O palerma não quis, achou que oferecida não tinha piada nenhum, e armou a estrangeirinha que se conhece» («O PSD e o caso da galinha decapitada», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 7).
      Paula Moura Pinheiro diria que é refrescante. Também o digo: é refrescante, nestes tempos de discurso vigiado, ler vocábulos como este, estrangeirinha, expressão de toda a difidência pelo que é estranho, estrangeiro. É isso mesmo, arguto leitor: os vocábulos estranho e estrangeiro têm o mesmo étimo latino: extranĕus,a,um, «que é de fora». Não, calma!, que acolha na minha alma qualquer sentimento xenófobo (mas não contem que vos revele a minha vida), mas porque não devemos descartar vocábulos só por causa dessas remotas associações. Ah, sim: estrangeirinha é a artimanha para enganar alguém, a falcatrua, mesmo a velhacaria. Eu nunca aqui referi alguns dos substantivos ligados ao engano? Devia tê-lo feito, mencionando termos como aldrabice, alicantina, ardil, artimanha, baldoméria, cambalacho, cambão, cilada, codilho, combine (que li pela primeira vez em 1983 numa obra de Jorge de Sena), comedela, conchavo, conluio, embuste, engrimança, escatima, falcatrua, galazia, garatusa, guilha, magicatura, marosca, moscambilha (que li pela primeira vez numa crónica de Miguel Esteves Cardoso), rusto (um brasileirismo para homenagear os meus leitores brasileiros), sofisma, tramóia, trica e muitas, muitas outras. Mas não tive tempo, nem o tenho agora.

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Léxico: «nomofobia»

Venha de lá


      Não digo que o seja já, mas dentro de pouco o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa será o equivalente do Aulete Digital: o maior repositório lexical da língua portuguesa. Hoje, por mero acaso, vi que a palavra do dia deste dicionário é nomofobia. A palavra já corre por aí, em blogues, jornais e revistas. Em Janeiro, um artigo do Diário de Notícias debruçava-se sobre esta (com sua licença, caro Franco e Silva) quase-fobia. Nomofobia: Medo causado pela possibilidade de ficar sem contacto através do telemóvel. Do inglês nomophobia, de no mo[bile], sem telemóvel + phobia, fobia, regista o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

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Léxico: «demótico»

Também aceitamos


      «O Uruguai, a minha terra nativa, surge na minha mente de forma tão fugaz quanto o espanhol demótico que falei outrora, de forma inconsciente» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 13).
      Só o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que regista a acepção de demótico usada no texto: «popular». Entre as três acepções registas pelo Dicionário Houaiss não se encontra esta, que constitui uma extensão de sentido. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

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Léxico: «cepe»

Aceitamos


      «Apanhámos uma bela cesta de cepes e de cantarelos. Esta noite, vou quebrar os meus hábitos e fazer uma omeleta de cogumelos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 426).
      Nenhum dicionário da língua portuguesa regista cepe. Temos cepeiras — mas dão uvas. Estes foram apanhados por Logan Gonzago Mountstuart e Lucien Gorce nos bosques da comuna de Sainte-Sabine, na Borgonha, e aí está a pista: é o aportuguesamento da palavra francesa cèpe (por sua vez proveniente do gascão cep, e este do latim cippus). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista como tradução de cèpe «boleto», mas boleto (e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção do vocábulo) tanto pode designar cogumelos comestíveis como altamente venenosos — e os cèpes são comestíveis.

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Léxico: «flósculo»

Aqui não há erros


      «Guardo a imagem de um rio largo e castanho com árvores aglomeradas na margem mais distante, tão densas como flósculos de brócolos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 13).
      O étimo do vocábulo flósculo significa «florzinha». A comparação é original: compara-se a vegetação da costa com os pequenos botões florais, os flósculos, muito próximos dos brócolos.

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Tradução: «capacity»

É da casa


      «Foi assim que no Verão de 1977, surpreendentemente, viajei muito (de autocarro) pelas Ilhas Britânicas na minha capacidade de membro do Círculo de Trabalho — Acção de Trabalho do SPK» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 401).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora até regista «in his capacity as prime minister na sua qualidade de primeiro-ministro», mas alguns tradutores, seguríssimos de si, não consultam dicionários.
      Ontem, um leitor chamou-me a atenção para o título que a obra The God Delusion, de Richard Dawkins, teve na tradução portuguesa (também da Casa das Letras): A Desilusão de Deus. Distracção das tradutoras ou imposição da editora?

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Aportuguesamentos

Falta de memória


      «Em Battersea, encontrei a cratera feita pelo V-2. O final de uma fila de casas geminadas desaparecido, uma vedação de tábuas à volta do enorme buraco. Deve ter sido súbito. O foguete a cair silenciosamente do céu enquanto as duas caminhavam, de mãos dadas, em direcção a casa, vindas da escola. Apenas o flache, o barulho e depois o oblívio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 271).
      Ferreira Fernando tinha razão, e eu reconheci-o na altura: V-2 é do género feminino. Vergeltungswaffe 2 (arma de retaliação 2). O aportuguesamento de flash é assustador — pelo menos até nos habituarmos. Flache. Há propostas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa que só tiveram eco em meia dúzia de pessoas. Parece-me ser o caso de flache. Mas é de saudar. Quanto ao uso de palavras aportuguesadas nesta obra, é, não apenas abundante, mas incongruente. Se se lê sempre uísque (e há editoras, já aqui o escrevi uma vez, que distribuem a revisores e tradutores algumas regras, e entre elas a proibição de usar o vocábulo «uísque») e coquetel, ora se lê Cornwall ora Cornualha. Se se lê Reiquiavique, também se lê Bahamas. Se se lê búnquer, também se pode ler bunker. Se... Depois de se ter tomado a decisão de escrever búnquer (na página 276), como é que menos de vinte páginas à frente (na página 293) se escreve, e com referência ao mesmo espaço, bunker? Não compreendo.
      Quanto a fila de casas geminadas,aqui vimos que não é a melhor tradução. E também já falámos de oblívio.

[Post 3253]
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«Dormir sobre os louros»

Ó Títiro!


      «— Em breve estaremos no continente europeu — disse. — Não podemos simplesmente dormir sobre os nossos louros» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 240).
      Pois é, mas vê-se também: dormir sob os louros e dormir à sombra dos louros. Esta acepção de louro deriva por metonímia do sentido original. Refere-se, como se sabe, às glórias, aos triunfos alcançados, lembra o Dicionário Houaiss, especialmente nas armas e/ou nas artes. Infelizmente, este dicionário não regista a frase feita (ao contrário, por exemplo, do Michaelis, que regista a última variante). Dormir à sombra dos louros pode ter sofrido contaminação de uma frase feita com um sentido aproximado: dormir à sombra da bananeira. E como à sombra é, parcialmente, sinónimo de sob (Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi), passou a dormir sob os louros. Em francês diz-se s’endormir sur ses lauriers¸ e em espanhol, dormirse sobre (ou en los) laureles.

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Léxico: «mógono»

Nem parece


      «É este o nome pelo qual é conhecido o recinto à sombra do mógano plurissecular rodeado de mangueiras carregadas de frutos», lia-se no texto. Está bem: corrige-se o erro e ainda assim nem todos sabem do que se trata. Mógono. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não deixa de o registar, ao contrário do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Vendo bem, até podia ter sido aportuguesado em mógano, já que vem do inglês mahogany. Isso mesmo: mogno. Uma das melhores madeiras, diz-se, para a construção de guitarras.

[Post 3251]
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Parónimos

Imperdoável


      Ontem, numa mensagem de correio electrónico, um engenheiro pedia-me «descrição» em relação a uns documentos que me enviou. Enfim, algo me levou a desculpar o erro. O pior é livros, com revisão (por assim dizer...), apresentarem o mesmo erro: «Esta noite, fui a um coquetel na embaixada e conheci um homem chamado Eccles que parece ser aqui uma espécie de iminência parda — muito dentro dos assuntos; altamente céptico em relação às capacidades do pessoal da embaixada» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 206). Está a par de almas pardas.

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Encadeamentos ocasionais

Que alguém saiba


      «Depois tenciono fazer Bordéus — Toulouse — Perpignan, atravessar a fronteira em Port Bou e daí descer a costa para Barcelona — Valência — Granada — Sevilha» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 150).
      Espera-se sempre que, não conhecendo o tradutor a língua portuguesa (e alguns estão tão longe da língua viva como nós da China), pelo menos o revisor domine o código de escrita. Em alguns casos, é esperar demasiado. Estatui a Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945: «Emprego do hífen em combinações ocasionais de formas diversas que não constituem propriamente palavras, mas encadeamentos vocabulares. (Exemplos: a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis; o desafio de xadrez Portugal-França, etc.)»

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Avanços e adiantamentos

A bem do leitor


      «Quando Wallace e eu nos encontramos no pátio do Savoy, o fumo dos nossos charutos espesso como ectoplasma ao sol primaveril, Wallace diz que está ansioso pelas negociações: pretende estabelecer um novo padrão de referência para o adiantamento pago por um livro de crítica literária» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 138).
      No meio editorial, não se fala em adiantamento, mas em avanço. Contudo, não propugno o seu uso numa obra literária. Um dia, fiz esta emenda, tendo-se seguido um debate com o editor, cioso do seu jargão. O meu objectivo é sempre que o leitor compreenda sem esforço — sem ter de recorrer a um dicionário, que pode nem sequer registar a acepção.

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Submirjo ou submerjo?

O erro do tabelião grogue


      «Descubro o meu fundão, submirjo a minha garrafa de cerveja num remoinho à beira de água e pesco durante uma hora, apanhando três pequenas trutas, que devolvo ao rio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 125).
      Algumas gramáticas e dicionários de verbos consideram submergir regular e conjugável com -e- no radical da primeira pessoa do presente do indicativo e em todo o presente do conjuntivo, e eu também. Esta forma bastarda, submirjo, deve ter sido lapso de algum tabelião mais conspícuo mas já com os copos. Eu próprio estou a beber — numa caneca, não gosto de muitos calicezinhos — uma reserva Dona Antónia (uma velhota tesa, e a cupidez do barão de Forrester, com a faixa panda de moedas de ouro, é que o afogou), e os efeitos, conspícuos ou não, nunca deixam de se fazer sentir.

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Brasileirismos

Nada de sofreguidão


      Corria o ano de 1985. Humberto Werneck escrevia na revista Isto É que os «puristas de Lisboa estão apreensivos com a invasão — só que, no caso, de brasileirismos. Alguns anos atrás num estudo patrocinado pelo governo lisboeta e intitulado ‘Estão a assassinar o português’, intelectuais lusitanos expuseram sua inquietude diante da sôfrega assimilação, por parte de seus compatriotas, de brasileirismos como ‘transar’, que vão dar às costas de Portugal nas caravelas eletrônicas das novelas globais.»
      Ainda hoje, poucos são os dicionários que registam o brasileirismo transar. E, à distância de 25 anos, não creio que tenha havido invasão nem sôfrega assimilação, e só refiro a questão porque topei, o que me parecia uma improbabilidade, com o vocábulo na tradução que tenho vindo a citar: «Senti-me embaraçado, sabendo que tinha feito amor — tinha transado — com a mulher várias dezenas de vezes: queria deitar tudo cá para fora — como ambos gostávamos de Anna à nossa maneira, como a partilhávamos, falar-lhe de todas as gorjetas que lhe dava, para o ajudar a ele também — como se isso nos fosse, de algum modo, tornar mais íntimos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, pp. 122-23). Se aqui não há grandes dúvidas, Anna é uma prostituta russa a viver em Paris, não se deve negligenciar que o verbo é polissémico.

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Uso da maiúscula

Posição no râguebi


      Ora aqui está um bom exemplo de uma incongruência: «A segunda equipa de 15 anda envaidecida a pavonear-se pelo colégio. fforde afirma que vai estar bom e em forma para o próximo sábado, mas só um louco mudaria de equipa vencedora» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 49).
      Estão a ver o nome fforde? É uma das personagens do romance, um talonador de uma equipa de râguebi. (Em que dicionário está registado este vocábulo? Em nenhum! Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Há alguma palavra que, em início de período, possa começar com minúscula? Não vou estar com paninhos quentes: isto é uma completa tarouquice. Recentemente, o Jornal de Letras, Artes e Ideias publicou um artigo sobre o escritor com letras pequenas — e não é que mesmo em início de parágrafo escreveram o nome com minúscula? Como alguém me disse, é um sinal de menoridade mental fazer tal coisa. Quanto ao próprio escritor, também me garantiram que é um valor seguro, um contador de histórias nato, podendo deixar-se já (como publicidade, num meio semipacóvio, foi óptimo) destas tretas.

[Post 3245]
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«Musical», uma acepção

Músicas e pantomimas


      A actriz Maria de Medeiros sobre as filhas: «Sim, elas são as duas muito artísticas. São as duas muito pantomineiras, como a mãe. A Júlia, a mais velha, até já fez uma peça de teatro muito séria (risos). Depois, penso que são as duas muito musicais. Mas com as crianças nunca se sabe, elas depois decidirão o que querem seguir» («“Em Paris consigo viver no anonimato”», Miguel Azevedo, Vidas Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 41).
      Tanto quanto pude ver, apenas o Dicionário Houaiss regista esta acepção do vocábulo musical: que tem propensão para a música. E porquê? Em parte, porque esta acepção é um anglicismo: «having an interest in or talent for music», leio no Merriam-Webster. Em parte, digo, porque anglicismos escusados todos os dicionários registam. Escapou-lhes este.

[Post 3244]
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Léxico: «patrulheiro»

Adjectivação?


      «Nem agentes de autoridade, nem milícias populares. Os 12 idosos patrulheiros que em Janeiro começaram a fiscalizar a Avenida Luísa Todi rejeitam estes rótulos. Aliás, sabem que há na cidade quem os apelide de “milícias”, mas dizem-se “ofendidos” com a adjectivação» («Patrulheiros impõem regras com a ‘arma’ da palavra’», Roberto Dores, Diário de Notícias, 12.3.2010, p. 16).
      Só o Dicionário Houaiss regista o vocábulo patrulheiro, mas isso não é agora o mais importante. Caro Roberto Dores, onde está o adjectivo? Não é erro de amador?

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Léxico: «ortopraxia»

Deformidades dicionarísticas


      «Conceitos estes que Laurenti Magesa reafirmou em African Religion. The Moral Traditions of Abundant Life (1997), onde apresenta e aprofunda a espiritualidade africana como possível fundamento de uma ortodoxia e de uma ortopraxia de libertação.»
      Três dicionários — Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e Dicionário Houaiss — e nenhum resultado. Melhor: um resultado que não interessa. Este último dicionário diz que a ortopraxia é a «correcção das deformidades do corpo». Contudo, uma leitura mesmo distraída leva-nos imediatamente a concluir que no excerto citado não há deformidades. Nos tempos que correm, há blogues sobre tudo, e, por isso, também sobre a ortopraxia. Há mesmo um cujo nome é Ortopraxia e define o conceito desta forma: «Como definir ortopraxia de forma bastante simples? Diria que ortopraxia refere-se a pureza da prática cristã.» (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

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Tradução: «Spring term»

Algo nosso


      Eu sei que a tradutologia, essa grande ciência, tem várias teorias, mas, para mim, traduzir é sempre encontrar correspondência de uma língua noutra. E não apenas correspondência literal, sob pena de termos obras sem alma, em português, sim, mas num português de tradutor automático (conheço tantas...). A tradução deve ser sempre um texto apetecível, num português provável e, neste sentido, sempre uma obra paralela. É esta obra paralela, a única que interessa ao leitor, que a esmagadora maioria das vezes o recenseador esquece, atribuindo quatro ou cinco estrelas, não à tradução que o leitor irá comprar e ler, mas a factos inteiramente externos, como à «oportunidade» ou à «coragem de editar» ou a outras balelas. Mas esta conversa ficará para outra oportunidade, porque agora quero dizer alguma coisa do que o título promete.
      «Quando fizemos uma pausa para o chá depois da segunda hora de estudo, maquinei um plano para o período da Primavera» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 21). Pelo menos a primeira ocorrência de período da Primavera não é compreensível para todos os leitores. Se o Spring term vai do início de Janeiro até à Páscoa, não se deveria traduzir por 2.º período, que, em Portugal, decorre entre o início de Janeiro e o final de Março? Outro exemplo: «Admirei os quadros — sobretudo aguarelas e gravuras a ponta seca —, olhei para alguns dos seus livros de prémio e falei do meu último trabalho (sobre O Rei Lear), com que eu estava bastante satisfeito, mas que ele classificara com pedantismo com a nota alfa/beta mais, ponto de interrogação, mais» (ibidem, idem, p. 33). Pergunto-me se não se encontraria uma nota igualmente pedante dentro daquilo que conhecemos. Depois de tentar averiguar se a nota do original é alta ou baixa, sei lá, optar por Suficiente Mais ↑↑↑, como vejo em alguns testes. Está aberta a discussão.

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Ortografia: «Hauçás»

Esmiuçar os Hauçás


      «Quando os pastores muçulmanos fulas e haúças desceram sobre as aldeias cristãs dos arredores da cidade de Jos, vingando recontros que as duas partes haviam tido em Janeiro, reacenderam os problemas de um espaço enorme que tem sido um dos mais problemáticos da África, nos seus 50 anos de existência como entidade independente», acabei também de ler. Ainda estamos na Nigéria. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista Haúças, o Dicionário Houaiss regista hauçás, povo do Norte da Nigéria e Sul do Níger. Desta vez, este dicionário não apresenta a etimologia, ao contrário daquele, que regista provir «do vernáculo Hausa ou Hausá, etnónimo, pelo francês Haoussas». Prefiro Hauçás.

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Léxico: «interinato»

Quase internato


      «Uma vez que o vice-presidente, Goodluck Jonathan, é cristão, apenas o colocaram a assumir o interinato, mas sem os verdadeiros poderes de um presidente a tempo inteiro, que estes costumam as elites muçulmanas do Norte do território reservar para os seus», li num texto agora mesmo. Confesso que nunca tinha lido a palavra interinato. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista interinato, embora remeta para o verbete interinado, o Dicionário Houaiss apenas regista este último. Contudo, no Dicionário de Elementos Mórficos, que também faz parte do Houaiss, lê-se que o sufixo –ato se apresenta «como sufixo conexo com dignidades, investiduras, funções, profissões, encargos (estáveis, provisórios, vitalícios, circunstanciais) e não raro alternando-se com o sufixo -ado em igual função».

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Léxico: «processionária»

Em fila indiana?


      «A delegada de saúde de Cascais, Ana Paula Magalhães, também acompanhou o problema. “Esses casos são raros, e não são só as crianças que sofrem reacções alérgicas à processionária [lagarta do pinheiro]. Há três anos houve uma situação numa escola que afectou professores e funcionários.”» («Alergia à lagarta alarma Cascais», Cristina Serra, Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 18).
      Alguns dicionários registam o termo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo: «nome vulgar extensivo aos insectos lepidópteros da família dos Notodontídeos, cujas lagartas se deslocam em fila indiana, entre as quais se incluem as que causam grandes prejuízos nos pinhais». Que se deslocam como numa procissão, deveria estar escrito para se perceber cabalmente a etimologia. Faz bem em perguntar, caro leitor: se deriva de «procissão», talvez se devesse escrever «procissionária». Foi, acho eu, o que também pensou a jornalista do Correio da Manhã, que também escreveu, em relação aos sintomas: «A procissionária, nome devido à descida no tronco em procissão, causa irritações na pele, olhos e aparelho respiratório.» Não podia era deixar as duas formas, uma delas errada, no artigo. A grafia correcta é processionária, porque o étimo é de facto «procissão», mas sob a forma radical procession-, como outros vocábulos da língua portuguesa, como processionário e processional. (Em relação à etimologia de procissão, o Dicionário Houaiss regista: «latim lusitânico *procissĭo,ōnis, idem, derivado do latim processĭo,ōnis».)

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Aportuguesamento: «Vietcongue»

Naturalmente


      «Gostaria de saber a sua opinião», escreve-me um leitor, «sobre se é aceitável aportuguesar Vietcong para Vietcongue e, em caso afirmativo, declinar o número. Já agora, se sim ou não, quando se trata de referir o movimento, se deve usar maiúscula.»
      Aceitável e recomendável. Assim, Vietcongue, Vietcongues, vietcongue. E é mesmo a prática de alguns jornais, nas raras ocorrências do vocábulo, como o Diário de Notícias e o Público. Numa edição da revista Paralelo (n.º 2, Primavera-Verão, 2008, p. 27), da FLAD, lê-se num artigo («Obama combate Hillary com tesouraria virtual») assinado pelo jornalista Filipe Vieira: «Prisioneiro de guerra no Vietname, aquele senador [John McCain] esteve cinco anos detido na famigerada prisão vietcongue ironicamente conhecida como “Saigon Hilton”, onde lhe partiram os dois braços, de tal forma que ainda hoje não os consegue sequer levantar para se pentear.» Usa-se para designar o movimento e os elementos da autodenominada Frente Nacional para a Libertação do Vietname do Sul. O termo, que significa «comunista vietnamita», era considerado pejorativo pelos visados, que afirmavam ter entre eles guerrilheiros não comunistas.

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Verbo «colocar»

De quem não ama a língua


      «Portugal espera convencer os países participantes na 15.ª Conferência sobre o Comércio Internacional de Espécies (CITES), que começa hoje no Qatar, de que pesca artesanalmente o atum rabilho e que, por isso, não coloca a espécie em risco. De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade [ICNB], a CITES é “um acordo internacional ao qual os países aderem voluntariamente”» («País garante sobrevivência do atum rabilho», Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 19).
      Por onde começamos? Pelo título. Tendencialmente, a imprensa vai adoptando o hífen para ligar os nomes compostos que designam espécies botânicas e zoológicas, alteração que já aqui saudei. Sobre este mesmo assunto, o Diário de Notícias, por exemplo, grafa atum-rabilho (e até diz que também é conhecido por atum-vermelho). Também no sítio do Oceanário surge com hífen. Mas não era disto, juro, que queria falar, antes denunciar, mais uma vez, o uso do verbo colocar. Jornalistas e revisores estão apostados em descaracterizar a língua.

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Léxico: «calduço»

Mais uma lacuna


      «Luís Vaz Carmo sentia-se humilhado e arrasado por os alunos chegarem ao ponto de lhe baterem com a mão (calduços) na careca e lhe chamarem ‘cão’» («Directora escondeu carta a professores», João Saramago, Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 5).
      Por onde começamos? Pelo título. O verbo esconder, como transitivo relativo, é regido pela preposição de, ou não? «Directora escondeu carta dos professores.» Mas não era disto, juro, que queria falar, mas sim do vocábulo calduço. Não está, como tantos outros, registado em nenhum dicionário — e todos os dias se dão e se recebem calduços.

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Tradução: «old town»

Mais letra grelada


      «A Cidade Velha sempre foi a minha preferida», lia-se na tradução. E assim quatro vezes, a pretender traduzir old town. Sugeri que se alterasse. O tradutor mandou dizer que pensara nisso, mas depois considerou que os centros históricos estão preservados e a zona referida na obra estava toda em ruínas e cheia de lixo, e que julgava que se fala em centro histórico noutra situação. Com maiúsculas iniciais, nunca vi a locução usada senão para se referir ao bairro mais antigo de Belém do Pará, no Brasil. Com minúsculas, cidade velha, refere-se quase sempre à parte de uma cidade marroquina ou habitada por mouros construída em volta de um castelo. É o mesmo que medina (que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista!) ou almedina.
      Mas quem diz centro histórico também diz zona velha, zona histórica ou usa mesmo o espanholismo casco velho. E o conceito de centro histórico integra os elementos que o tradutor invocou? Mais ou menos: «parte de uma localidade ou cidade, que se caracteriza essencialmente pela remanescência de construções, edificações históricas mais ou menos conservadas, geralmente ligadas a sua fundação, e a partir da qual se irradia o desenvolvimento urbanístico desta localidade ou cidade; núcleo histórico», regista o Dicionário Houaiss no verbete «centro histórico». Mais ou menos: «Uma estimativa aponta para a existência de duas centenas de casas velhas, algumas em risco de derrocada, no centro histórico de Viseu» («Casas velhas em risco de ruir no centro histórico», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 22).

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Nova terminologia

Questões unionitárias


      O mundo anda muito depressa. Ainda nem todos os dicionários registam o adjectivo comunitário na acepção de «relativo à Comunidade Europeia» e já é preciso encontrar um que se refira à União Europeia. (O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «comunitário» como «relativo à União Europeia» — mas isso é só uma forma muito imprópria de falar ou futurologia.) O Tratado de Lisboa, ao modificar o Tratado da União Europeia e o Tratado Constitutivo da Comunidade Europeia, trouxe algumas alterações terminológicas. Uma delas, a única que para aqui nos interessa, é a substituição do adjectivo comunitário (e a flexão dele: comunitária, comunitários, comunitárias) por «da União». Apenas permanece a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom) e o seu tratado constitutivo, pelo que, doravante, em rigor, comunitário refere-se somente a esta comunidade. O problema, como afirma Alberto Rivas Yanes («La Unión Europea busca su adjectivo: Estado de la cuestión y propuesta», in Puntycoma, n.º 116, p. 7 e ss.), é que «da União» não vai cobrir todos os usos do adjectivo «comunitário».
      Há vários caminhos, descortina Alberto Rivas Yanes: 1) atribuir a nova acepção a um adjectivo já existente, e o autor refere apenas dois, que também existem na língua portuguesa: unionense e unionista; 2) criar um neologismo a partir da raiz de «união», e aponta (mantenho as designações em espanhol) «unionario», «unional», «unionés», «uniónico», «unionano», «unionero», «unioní» ou «unioneño». Há quem já tenha sugerido, acrescenta, «unitário» (derivado de «unidade» e não de «união) e a original criação «unionitário», que integra um infixo, it, como um eco de «comunitário»; 3) recorrer a formas neológicas criadas com as raízes de «europeu» no início do vocábulo e «união» ou «unidade» no fim: «eur[o]unionário», «eur[o]unionista», «eur[o]unidense», «eur[o]unitário» ou «eunitário»; 4) combinar raízes de «união» e de «europeu» pela ordem em que figura na locução União Europeia: «unieuropeu», «unioeuropeu» ou «unieuropeísta», ou uma variante, que seria usar a sigla UE como elemento compositivo: «ueuropeu». E um último caminho, o primeiro apontado por Alberto Rivas Yanes: manter tudo igual, sem um adjectivo específico, e consolidar, em contextos informais ou jornalísticos, o uso do adjectivo «europeu» com o significado de «relativo à União Europeia». Este é o caminho mais fácil e conservador, digamos, pois semelhantemente o adjectivo americano não se refere apenas à América, mas também aos Estados Unidos da América.

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Islão/islão

Respeitem as suas próprias regras


      «O xeque Tantawi não era apenas a figura tutelar da maior e mais antiga escola islâmica em todo o mundo, mas também um dos religiosos mais influentes do islão. Foi grande mufti do Cairo e era responsável máximo pela Mesquita Al-Azhar, na capital egípcia, que gere uma universidade com mais de mil anos» («Voz moderada do islão sunita evitou a radicalização egípcia», Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 45).
      Apesar, como já aqui vimos, de uma prática diversa, a verdade é que os dicionários e as gramáticas registam os nomes das religiões com inicial minúscula, e assim também islão. Contudo, há quem grafe com maiúscula inicial quando a acepção é a de conjunto dos países muçulmanos. Umas linhas à frente, lê-se no artigo acima citado: «Num contexto em que a religião tem enorme importância, o xeque Tantawi representava a corrente do Islão político que procurava uma acomodação com o poder secular.» A prática, afirmei, é diversa — mas não deve ser arbitrária. No caso, a minha interpretação, se também seguisse a distinção que explanei, seria precisamente ao contrário: a primeira ocorrência grafá-la-ia com inicial maiúscula e a segunda, com minúscula. Gostava de saber o que pensam os meus leitores sobre esta questão.

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Léxico: «entalpia»

Calores


      «Energia geotérmica é a energia disponível como calor emitido do interior da crosta terrestre, geralmente sob a forma de água quente ou de vapor. A geotermia de alta entalpia é normalmente utilizada para a produção de electricidade e a de baixa entalpia apenas para a produção de calor», acabei de ler. Cá está, pelo menos para mim, um termo novo: entalpia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta o respectivo verbete com três acepções: no âmbito da Física e da Química, características de um sistema termodinâmico que é a soma da energia interna e do produto da pressão pelo volume; conteúdo calorífico e calor total. O Dicionário Houaiss só apresenta uma acepção, mas, em compensação, regista locuções: entalpia de fusão, entalpia de sublimação, entalpia de vaporização e entalpia livre. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz que é «palavra reconhecida pelo FLiP mas sem definição no dicionário». O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado também não regista o vocábulo.

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