Ortografia: «macroorganização»

Assim é


      «É neste contexto», escreveu o ensaísta, «que surge a necessidade de uma administração educativa que tenha a capacidade de orientar, gerir e desenvolver centralmente esta macro-organização.» Pois é, mas com os antepositivos macro- e micro-, e ainda segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945, nunca se utiliza hífen. Logo, macroorganização.

[Post 3696]

Elemento de formação «anti-»

Mais um golpe


      «O paradeiro de [Nicola] Schiavone era desconhecido desde que, em Dezembro, a Direcção Anti-Máfia de Nápoles ordenou a sua detenção» («Detido suposto líder dos Casalesi, importante clã da máfia napolitana», Cláudia Sobral, Público, 16.06.2010, p. 21).
      Pode crer que está errado, cara Cláudia Sobral — e sem justificação alguma, pois até em italiano é aglutinado: Direzione Distrettuale Antimafia. Então o elemento de formação anti- não se aglutina com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen? Simples, simples, mas vão errando.

[Post 3605]

Elemento de composição «recém» (V)

De mal a pior


      «Um dos pontos altos da noite de sábado do Portugal Fashion foi o desfile de Ricardo Trêpa para a Dielmar. A sua recém-mulher, Cláudia Jacques, esteve na plateia e assistiu entusiasmada ao desfile do marido» («Trêpa casado e feliz», Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 47).
      Já o escrevi aqui por duas vezes: recém é um elemento de composição, forma apocopada do adjectivo «recente», que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. Se voltassem ao ensino primário, eram chumbados.

[Post 3290]

Elemento de composição supra-

Supra-sensível


      «O porta-voz do Exército explicou que o inquérito aberto pela PJ Militar visa apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou na altura de verificar se a câmara da pistola ainda tinha munições. “A ocorrência é estranha e anormal, mas tudo indica que seja acidental. Ainda assim, é importante que a situação seja averiguada por uma instituição independente e supra Exército como é a Polícia Judiciária Militar.”» («Polícia Judiciária Militar investiga morte de cadete», Romana Borja-Santos, Público, 16.2.2010, p. 6).
      Mesmo num dicionário como o Houaiss, supra aparece apenas como advérbio a significar acima, «usado para indicar trecho da mesma página, mais acima, ou de página(s) anterior(es)». Supra- é um elemento de formação de palavras e liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, supra-Exército. Por outro lado, que é isso de o inquérito visar «apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou»?

[Post 3147]

Elemento de formação «anti-»


Perplexidades


      «Animador [Daniel Bensaïd (1946-2010)] das revistas Critique Communiste e Contre-Temps [sic], lançara-se em 2009 na criação de mais uma força política, o Novo Partido Anti-Capitalista, em substituição da entretanto extinta Liga Comunista Revolucionária» («O filósofo vermelho», E. C., Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 20).
      «Anti-capitalista»? Não é assim em português — e não é, vê-se, por influência do francês. O elemento de formação anti- (e o copydesk — porque grafam copyDesk? — da revista Visão tem obrigação de sabê-lo) aglutina-se com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen. Anticapitalista, pois.

[Post 3078]

«Docosahexaenóico»?

Princípios gerais


      «O cérebro é bastante rico em ácido docosahexaenóico (DHA), um ácido gordo que o corpo é capaz de produzir, mas não com muita eficácia» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 147).
      A pergunta, muito simples, é: não têm estes compostos de obedecer à regra de que o h é eliminado do segundo elemento? Afinal, é anarmónico, biebdomadário, coonestar, exausto, inabilitar, lobisomem, reaver, etc., que escrevemos. Logo, só podemos ter docosaexaenóico. Lá por em inglês ser docosahexaenoic, não quer dizer que copiemos. Não é justamente a adopção da fonética e da ortografia portuguesas um dos princípios gerais utilizados na adaptação das denominações comuns internacionais (DCI) para a nossa língua?
      O elemento docosa- vem do grego e significa 22, como no vocábulo «docosaedro», que designa o poliedro que tem 22 faces.

[Post 3030]

«Ítalo-»

Vejam lá isso


      «A italo-suíça Susana Maiolo, de 25 anos, que saltara uma barreira e se precipitara sobre Bento XVI, esteve num estabelecimento hospitalar, a ser submetida a exames psicológicos, e depois foi transferida para uma “estrutura protegida”, fora de Roma. Maiolo disse que “não queria fazer mal ao Santo Padre nem a ninguém”» («Segurança do Vaticano revista depois de incidente», Público, 27.12.2009, p. 13). Em quase toda a imprensa portuguesa, é isso que se lê, mas está mal: ítalo-suíça se deveria ter escrito. No Dicionário Houaiss lê-se: «ítalo-: antepositivo (seguido de hífen, donde a acentuação gráfica), do top. Itália, em compostos de tipo afro- (ver), cuja lógica lhe é totalmente aplicável; há ainda as alternativas ou var. itálico- e italiano-.» É esdrúxulo em português e era esdrúxulo em latim: itălus,a,um. Uma das grandes fontes do erro há-de ser o Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, pois que regista italo- como «elemento de formação de palavras que exprime a ideia de itálico e italiano», e ítalo como adjectivo e substantivo, sem deixar de recomendar que se escreva ítalo-etíope. No Departamento de Dicionários desta editora, ainda ninguém deu pela contradição — ou acham que não há contradição.


[Post 2944]

Elemento de composição «recém» (IV)

Por aí vamos


      Alguma vez saberemos quanta da evolução de uma língua se deve à simples ignorância? Não me parece. «E, no entanto, é entre estes jovens idênticos aos jovens de Barcelona, de Amesterdão ou Berlim — que não usam véu mas piercing, que bebem cerveja e falam inglês — que estão os maiores desiludidos com a União Europeia. “Vocês não nos querem”, diz Zeynab, uma recém-economista, “e inventam motivos para não entrarmos. Pessoalmente, acho que não vale a pena tentar mais.”» («Na terra de Jano», Rui Tavares, Público, 28.12.2009, p. 32).

[Post 2942]

Arquivo do blogue