Pronúncia: «ressurreição»

Bem nos parecia

      Já uma vez, no Assim Mesmo, aqui, tratei da pronúncia do vocábulo «ressurreição», assunto de que o padre Américo F. Alves não pôde fugir: «Ressurreição deve pronunciar “ressurreição”, com “e” mudo. Nada justifica que o digníssimo vocábulo se aproxime, fonologicamente, de “rèpública” (com e bem aberto). Enquanto re de república vem do substantivo res-rei, o re de ressurreição é apenas um prefixo, muito frequente na formação de palavras, como: repetição, ressurgir, relembrar, recomeçar, recolher, etc., etc. Não existe o verbo rèssurgir nem o substantivo rèssurgimento; mas ressurgir, ressurgimento, ressuscitar, ressurreição» (Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Edição do autor, Braga, 1993, p. 80).

[Texto 1294]

«Porque/por que»

Fenda gratuita

      «Porque hão-de alguns portugueses escrever por que (em duas palavras), se não há lógica nem análise possível? Que palavra é aquele “que”? Se responderem que é um pronome, tem de estar em vez de um nome, isto é, há-de ter um antecedente ou referente. Qual é, então, esse nome ou referente, tão íntimo, implícito, subjectivo, que ninguém descortina e serve apenas, como fenda gratuita, para se perpetuarem dúvidas e confusões no ânimo de alguns redactores?» (Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Edição do autor, Braga, 1993, p. 33).
[Texto 1293]

«Nem Tanto Erro!»

Do ioga e da gramática

      Ontem descobri este livrinho: Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Conhece, Fernando Venâncio? Foi publicado em 1993. O que me intrigou durante uns segundos foi esta nota: «Os maiores destinatários são os agentes do culto religioso.» Ora, e porquê, erram mais? O cólofon, ou seja, nem é preciso ler a obra, desvenda o mistério: «Fotocomposto e impresso nas oficinas gráficas da Editorial Franciscana Montariol – Braga – 1993». Ah, assim já percebemos. E do prefácio retemos isto: «Pessoalmente, quero praticar mais este humílimo gesto de solidariedade, visto o exercício do ensino ser a melhor escola para o docente continuar a aprender... e porque é “misericórdia corrigir os que erram”.» Tudo verdades, especialmente no que diz respeito a os docentes aprenderem. Ainda recentemente, o grande mestre do ioga Jorge Veiga e Castro afirmava que é obrigação de quem ensina ioga (mas aplica-se a todas as áreas, naturalmente) praticar tantas horas quantas aquelas que lecciona.
[Texto 1292]

«Aparelhístico», «truquismo»

Como falam os nossos políticos

      «Outro dirigente do partido, José Lello – o mais “socrático” dos deputados do PS –, resumiu ao DN numa palavra o que pensa da proposta: “Uma loucura!” Segundo acrescentou, a proposta “não garante diversidade” e permite “controlo aparelhístico”. Outra proposta debaixo de fogo é aquela que alarga o mandato do secretário-geral (e dos órgãos nacionais do partido) de dois para quatros anos, de forma a fazê-lo coincidir com as legislaturas da Assembleia da República. “Cheira-me a truquismo”, disse Lello. “É sinal de um líder fraco com medo do partido”, sublinha Pedroso» («Seguro acusado no PS de “golpe aparelhístico”», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 28.03.2012, p. 8).
      «Aparelhístico» e «truquismo»! Se o revisor antibrasileiro leu isto, não se aguentou: atirou com os aparelhos ao ar. Ainda se lembram do muito mais inócuo «clubístico» e do que ele dizia? Vejam aqui.

[Texto 1291]

Homonímia

Azar

      «Muitos franceses chamados Mohamed Merah estão a ser alvo de insultos e ameaças. Devido à circunstância de os nomes árabes terem mais homónimos do que é habitual na tradição europeia, há centenas de pessoas com o mesmo nome que o terrorista que atacou em Toulouse. A AFP conta a história de um pugilista de 24 anos, muito promissor, mas que tem o azar de se chamar Mohamed Merah. O atleta enchia salas com mil espetadores, conta o seu treinador. Agora, tal como aconteceu a muito [sic] outros franceses, Merah, o inofensivo boxeur, foi alvo de ameaças de morte» («O azar de se chamar Mohamed Merah», Luís Naves, Diário de Notícias, 28.03.2012, p. 25).
      Também Apolónio, se se lembram, fala da homonímia com nomes próprios, que exemplifica com nomes a que se acrescentaram os epitéticos: Dião, o filósofo. Em meios pequenos, vilas, aldeias, é que é motivo de constrangimentos e incómodos.

[Texto 1290]

Lloret de Mar

Ainda dizem que 
são todos iguais

      Ela sabe e até ensina: «Praia, piscina, álcool, drogas e discotecas. Há quem não durma e teste os limites. Estudantes são unânimes: estes dias são únicos. O maior defeito de Lloret de Mar (que se diz lhuréte, já agora) é que a noite “acaba cedo”» («“Estamos aqui para apanhar um esgotamento”», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 28.03.2012, p. 28). Mas o que ouvimos no Forvo não pode ser transcrito como «Lhuréte».
[Texto 1289]

Sobre «cante»

Ora, não se percebe

       «A reunião no MNE foi acompanhada no exterior do Palácio das Necessidades pela actuação de meio milhar de cantadores alentejanos. Entre os temas interpretados, ouviu-se Grândola, Vila Morena. Antes, numa conferência de imprensa na Casa do Alentejo em Lisboa, a comissão executiva lamentou a decisão do embaixador António de Almeida Ribeiro de adiar a entrega da candidatura, alegadamente por ela ter sido questionada por alguns dos membros da comissão científica que colaborou na sua elaboração. Na sessão, o actor alentejano Nicolau Breyner deu voz à “indignação” dos seus conterrâneos: “A candidatura está pronta, tem qualidade inquestionável e é tecnicamente inatacável”» («Cante alentejano insiste na candidatura», Sérgio C. Andrade, Público, 29.03.2012, p. 27).
       O vocábulo, de que cheguei a tratar no Assim Mesmo duas vezes (numa delas referi que o revisor antibrasileiro o desconhecia), continua a não estar registado nos dicionários. E agora sobre a substância da notícia: é já a segunda vez que leio ou ouço, escrito ou dito por não especialistas, que esta candidatura é tecnicamente inatacável. Se não são especialistas que o dizem, não estarão apenas a repetir o que ouvem? Donde lhes vem a autoridade para darem estas opiniões?
[Texto 1288]

Ordem indirecta

Porque é a nossa

      «Em quanto á sintaxe de construção ou de colocação dos Novíssimos Estudos, observa o meu crítico que sou inclinado ás inversões, naturalmente porque não escrevo em francês traduzido, que parece ser o que por aí se denomina escrever hodierno, mas, imitando os bons modelos da língua, fujo da construção directa francesa, que é quási a única empregada por alguns escritores jóvens. Não vou com certa tendência que actualmente se observa, e a meu parecer funesta, para a introdução em nosso idioma da ordem directa da frase francesa, o período do agente, verbo e complemento, —­ estrutura fraseológica de uma pobreza e monotonia supremas — em substituição da construção indirecta que ilustraram tão gloriosamente os nossos antepassados» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 27).

[Texto 1199]

Arquivo do blogue