Léxico: «café comprido»

Curto ou comprido


      «Cheio e escuro» para long black é claramente invencionice, disparate, da tradutora. Black aqui significa tão-somente que não leva leite. Bem, uma das formas de o traduzir é por «café cheio» ou «café comprido», como também se ouve habitualmente, mas que a Porto Editora só regista num bilingue.

[Texto 22 323]


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Definição: «capturar | capturável»

Grandes lacunas


      António José Seguro insiste: «Não sou capturável.» E que diz a Porto Editora na definição deste adjectivo? Pois «que se pode captar». Ora bolas! Já era dizer pouco se dissesse «que se pode capturar», porque depois neste verbete falta o sentido figurado correspondente, mas assim é infinitamente pior. Perante isto, proponho ➜ capturar verbo transitivo 1. apoderar-se de (alguém ou algo), geralmente por força ou astúcia; prender, apreender (ex.: capturar o inimigo; capturar um animal em fuga); 2. figurado exercer domínio ou influência sobre (alguém ou alguma instituição), geralmente com vista a interesses próprios ou particulares (ex.: grupos económicos que procuram capturar o Estado; políticos capturados pelo sistema). Quanto a ➜ capturável adjectivo de dois géneros 1. que pode ser capturado; susceptível de ser preso ou apreendido; 2. figurado susceptível de ser dominado ou instrumentalizado por interesses alheios, nomeadamente em contextos políticos ou institucionais (ex.: juiz capturável; sistema regulador capturável).

[Texto 22 322]

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Léxico: «semiurgia»

Pois se o usamos


      «O livro tornou-se uma espécie de refém, algo que não tem já qualquer ação em si mesmo, que foi ocupado e soçobrou ao destino da mercadoria, incapaz de mover os ânimos e lhe opor qualquer resistência. Nesse movimento de estetização do mundo, o texto desagrega-se facilitando a sua transformação em imagens, a sua organização semiológica. Como nos avisava Baudrillard, “o que estamos a testemunhar, para além do materialismo mercantil, é uma semiurgia de todas as coisas através da publicidade, dos meios de comunicação social, das imagens. Até o mais marginal e o mais banal, inclusive o mais obsceno, é estetizado, culturalizado, museificado”» («Rentrée. O mutismo dos livros frente à orgia publicitária editorial», Diogo Vaz Pinto, «Versa»/Nascer do Sol, 26.09.2025, p. 16). 

      Podemos encontrá-lo em várias obras e por isso acho que está na hora de o dicionarizarmos. Assim, proponho ➜ semiurgia LINGUÍSTICA, SEMIÓTICA, TEORIA DA COMUNICAÇÃO actividade de produção de sentido mediante signos; operação discursiva, mediática ou simbólica que cria ou organiza um universo de significação próprio, por vezes autonomizado em relação à realidade empírica; processo através do qual discursos, imagens ou códigos constroem regimes de sentido e modelam a percepção do mundo.

[Texto 22 321]

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Léxico: «falerística | farologia»

Outro perdido nas mudanças


      «Atualmente, além das reuniões dos associados nas secções de cada tema (Geografia, Cartografia, Migrações, História, Genealogia, Heráldica e Falerística, Ciências Militares, Estudos de Património, entre outras), das conferências, debates e almoços no restaurante que funciona nas instalações da SGL, pouco mais se sabe da atividade da Sociedade» («A casa que o tempo esqueceu», Christiana Martins, «Revista E»/Expresso, 31.10.2025, p. 29). 

      Mais uma lacuna nos nossos dicionários, pelo que, sem arrazoados ou delongas, proponho ➜ falerística HISTÓRIA, HERÁLDICA estudo sistemático das ordens honoríficas, condecorações, medalhas e demais distinções honoríficas, civis ou militares, quanto à sua origem, evolução histórica, simbolismo, critérios de atribuição e valor iconográfico. 

      Sem relação alguma com a anterior, mas importada do francês e bem implantada é ➜ farologia estudo técnico, histórico e patrimonial dos faróis, da sua arquitectura, funcionamento, evolução tecnológica e papel na navegação marítima.

[Texto 22 320]

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Léxico: «bóia-torpedo»

Tão característica


      No Portugal em Rede, na RTP1, de segunda-feira, um nadador-salvador falou nos vários tipos de bóias que usa para realizar salvamentos, e entre elas estava a tão característica ➜ bóia-torpedo NÁUTICA, SOCORRISMO dispositivo de salvamento individual, geralmente de forma alongada e hidrodinâmica, fabricado em material plástico flutuante (como polietileno de alta densidade), com correias ou cordas para fixação ao corpo do nadador-salvador; é utilizado sobretudo em intervenções rápidas no mar ou em piscinas para alcançar e rebocar vítimas conscientes, permitindo ao socorrista manter as mãos livres para nadar e proporcionando estabilidade e flutuabilidade à vítima durante o resgate.

[Texto 22 319]

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Definição: «urso-pardo | urso-negro-asiático»

Voltamos aqui


      Porto Editora, ainda manténs as definições de «urso-pardo» e de «urso-negro-asiático»? Então, repara nas incoerências: o urso-pardo é descrito como podendo «atingir cerca de 2,8 metros de comprimento e 1,5 metros de altura». Já o urso-negro-asiático, bem mais pequeno, «pode atingir cerca de 1,8 metros de altura». A questão impõe-se: estão ambas as alturas a referir-se à mesma posição corporal? E por que razão indicam comprimento e altura no primeiro caso, mas apenas altura no segundo? Se o urso-negro tem 1,8 metros de altura, o urso-pardo não pode ter apenas 1,5, a não ser que as medidas não estejam a ser usadas de forma coerente, o que parece ser o caso. Fica ainda por esclarecer se os 2,8 metros de comprimento atribuídos ao urso-pardo não reflectem apenas os maiores espécimes de subespécies como a Kodiak, pouco representativos da espécie no seu conjunto. A maioria das fontes aponta para um comprimento médio entre 1,8 e 2,1 metros. Assim, tanto os valores indicados como os critérios de medição carecem de revisão.

[Texto 22 318]


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Léxico: «às boas ou às más»

Metade ficou no tinteiro


      «Trump dice que logrará Groenlandia “por las buenas o por las malas”» (María-Paz-López, La Vanguardia, 11.01.2026, p. 4). Às boas ou às más. Infelizmente, o dicionário da Porto Editora apenas acolhe, no verbete «bom», a locução às boas («amigavelmente»), esquecendo de registar o antónimo, às más, no verbete «mau». Não sei se não se devia registar também «às boas ou às más», porque é assim que normalmente se usa.

[Texto 22 317]

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Como se pontua por aí

Um mal ibérico


      «En una tertulia televisiva se burlan de Kiko Rivera porque le ha escrito a una mujer con la que mantiene una relación sentimental una carta sin faltas de ortografía, “incluso con tildes”, lo que atribuyen a que se ayudó de la inteligencia artificial. Mientras los ortógrafos del corazón charlan, en la parte inferior de la imagen aparece este rótulo: “Kiko Rivera, enamora con la IA”. La coma entre el sujeto y el verbo confirma la validez del dicho “No escupas hacia arriba, que te puede caer en la cara”. Y que tire la primera piedra el que nunca haya sido reo de cacografía» («La ortografía у el amor», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 18). 

      Como hoje mesmo já vi (e corrigi) este erro, tão frequente, num texto, nunca é em vão que aqui, e em português ou em castelhano, se fala nestes erros crassos. Eles são bons é em matérias complexas; em coisas assim comezinhas espalham-se com vergonhosa frequência.

[Texto 22 316]

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Léxico: «mineraleiro»

Pesquisada e não encontrada


      «No apogeu da exploração da Mina de São Domingos, iniciada em 1859, subiam o Guadiana navios com 95 metros de comprimento e cinco metros de calado, e chegaram a estacionar no Pomarão, ao mesmo tempo, 20 embarcações de 200 a 1500 toneladas. No dia 4 de Janeiro de 1965, desceu o Guadiana o último navio mineraleiro. Terminara a exploração de pirites na Mina de São Domingos. E nos percursos para passageiros, a última viagem foi efectuada pelo navio Mértola, em Setembro de 1960» («Era o Vendaval que ligava Mértola a Vila Real de Santo António. Acabou num destroço», Carlos Dias, Público, 19.09.2025, p. 22).

[Texto 22 315]


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Léxico: «subinspecção»

Na prateleira


      Outra palavra que nos subtraíram foi... ora deixa cá ver a lista com centenas... foi subinspecção. Isto quando não se esqueceram de «subinspector». Assim, os subinspectores ficam sem trabalho.

[Texto 22 314]

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Léxico: «síndrome de Truman»

Mas depois passa logo


      Sim, por vezes também me sinto um pouco afectado pela ➔ síndrome de Truman PSICOLOGIA perturbação delirante caracterizada pela convicção de que a própria vida está a ser filmada e transmitida como num reality show, levando o indivíduo a interpretar familiares, amigos ou desconhecidos como actores envolvidos num enredo oculto; denominação criada em 2008 pelos irmãos Joel e Ian Gold para descrever pacientes que acreditavam participar, à sua revelia, num programa que difundia o seu quotidiano, à semelhança do enredo do filme The Truman Show (1998), donde o inglês Truman syndrome. Mas depois passa logo.

[Texto 22 313]


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Definição e etimologia: «noosfera»

Ora essa, importa sim


      Se querem saber, também não me parece nada bem que muitos dicionários não indiquem a etimologia correcta de «noosfera» e que definam menos bem o termo. Assim, proponho ➜ noosfera FILOSOFIA, HISTÓRIA DA CIÊNCIA conjunto das manifestações do pensamento humano sobre a Terra, considerado como uma camada ou esfera distinta da biosfera; corresponde à fase evolutiva em que a actividade intelectual consciente se torna força transformadora do planeta, articulando-se com a técnica, a ciência e as dinâmicas sociais e espirituais da humanidade. Quanto à etimologia, vem do francês noosphère (1927), termo cunhado por Édouard Le Roy, do grego noûs, noós, «mente, espírito», + sphaira, «esfera»; desenvolvido por Teilhard de Chardin e Vladimir Vernadsky no contexto da evolução da Terra como sistema.

[Texto 22 312]

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Léxico: «grafémico | grafofonémico»

Precisamos destas


      «Não havendo correspondência grafofonémica entre o p de recepção e qualquer pronunciação de /p/ em português europeu (uma inaceitável arbitrariedade introduzida pelo AO90), a recepção passa a receção em português europeu e mantém-se recepção em português do Brasil. Este desprezo dos autores e defensores do AO90 pela realidade ortográfica do português europeu, com, por exemplo, o p de recepção a indicar uma excepção, com funções grafémicas, entre elas, uma função diacrítica, impedindo o fechamento (ou elevação) da vogal (átona) anterior (ou, nas palavras de Rebelo Gonçalves, exercendo “influência no timbre” da vogal anterior), fez com que entretanto se multiplicassem os casos de confusão, quer na leitura, quer na escrita, tanto do ponto de vista económico (“quatro países da Zona Euro entraram em *receção técnica”, CNN Portugal, 11 de Junho de 2023), como científico (“uma rotação para *otimizar a *recessão de luz sobre os painéis solares”, Lusa, 15/11/2014)» («O conhecimento ortográfico», Francisco Miguel Valada, Público, 24.01.2026, 20h00).

[Texto 22 311]

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Léxico: «cartório»

Culpas


      «Outro momento central do nosso dia é o atendimento no cartório paroquial. As pessoas vêm para se confessar ou simplesmente em busca de conselho ou de uma palavra de esperança» («Acompanhar com proximidade e ternura», Alessio Geraci [missionário comboniano italiano], Além-Mar, Fevereiro de 2026, p. 45).

      Também não tens este «cartório», Porto Editora?! Não pode ser. Não pode continuar a ser assim, pelo que proponho ➜ cartório RELIGIÃO dependência da casa paroquial onde se realizam os atendimentos administrativos e pastorais da paróquia, como emissão de certidões, acolhimento de fiéis, escuta espiritual e aconselhamento; funciona também como arquivo de registos paroquiais.

[Texto 22 310]

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Definição: «vórtice polar»

Com os pés assente na terra


      «La primera pieza del dominó que ahora mismo empuja a todas las demás se encuentra en la alta atmósfera del Ártico, donde se sitúa el vórtice polar. “Se trata de una zona de aire muy frío que queda confinada tanto en la troposfera como en la estratosfera debido a los fuertes vientos que circulan alrededor de las regiones polares”, explica Juan Taboada, de MeteoGalicia» («La rotura del vórtice polar alimenta las borrascas profundas que llegan a Galicia», Xavier Fonseca, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 10). 

      A Porto Editora define assim este fenómeno: «ciclone (centro de baixa pressão atmosférica) persistente localizado junto a um dos pólos de um planeta». Então, em que se distingue de um mero ciclone polar? Embora haja registo de vórtices polares noutros corpos do Sistema Solar, como Marte, Saturno, Vénus ou mesmo o satélite Titã, é no caso terrestre que a designação «vórtice polar» adquiriu relevo linguístico, jornalístico e científico próprio, dada a sua relação directa com os fenómenos meteorológicos extremos que afectam latitudes médias. Assim, proponho que a definição privilegie a realidade terrestre, é aqui que vivemos, remetendo para usos planetários numa acepção secundária.

      Assim, cá vai ➔ vórtice polar 1. METEOROLOGIA circulação ciclónica persistente e de larga escala que se forma sobre o Árctico ou a Antárctida durante o inverno, nas camadas superiores da troposfera e na estratosfera, devido ao forte gradiente térmico entre o ar polar e o ar das latitudes médias; mantém o ar frio confinado às regiões polares, mas o seu enfraquecimento ou fragmentação pode provocar descidas abruptas de ar gelado para latitudes mais baixas, originando vagas de frio ou outras perturbações meteorológicas extremas; 2. ASTRONOMIA fenómeno atmosférico observado noutros planetas do Sistema Solar, como Marte, Saturno ou Vénus, caracterizado pela formação de uma circulação ciclónica persistente junto a um dos pólos, envolvendo massas de ar muito frio.

[Texto 22 309]

⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: A ruptura do vórtice polar, a que o título do diário galego se refere, geralmente associada a um aquecimento súbito da estratosfera, pode desencadear a libertação de ar polar para latitudes médias, provocando vagas de frio e instabilidade atmosférica significativa. É o que está a acontecer por estes dias.


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Definição: «poupa-eurasiática»

Morte súbita


      Alguma coisa de grave terá acontecido quando a Porto Editora definiu assim «poupa-eurasiática»: «ORNITOLOGIA (Upupa epops) ave da família dos Upupídeos». Vamos lá acabar o trabalho propondo ➜ poupa-eurasiática ORNITOLOGIA (Upupa epops) ave da família dos Upupídeos, de plumagem alaranjada com asas listadas de preto e branco, crista eréctil e bico longo e curvo; distribui-se pela Europa, Norte de África e Ásia Ocidental; é maioritariamente insectívora, com especial apetite pelas pupas da processionária-dos-pinhos (Thaumetopoea pityocampa), mas pode também ingerir pequenos vertebrados ou sementes; nidifica em cavidades e distingue-se pelo chamamento repetitivo que inspirou o nome comum.

[Texto 22 308]


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Definição: «removedor»

A prova do algodão


      «Acontece que o pragmatismo de Otis e da respectiva familia também é muito norte-americano, pelo que as sucessivas tentativas do fantasma de Lord Canterville em assustá-los esbarram numa parede: os filhos gémeos atacam o fantasma com almofadas, o senhor Otis oferece lubrificante ao fantasma para aplicar nas suas correntes e, assim, não fazer barulho quando se desloca pelos corredores do castelo, as manchas de sangue que reaparecem todos os dias junto à lareira são limpas com um removedor trazido dos Estados Unidos» («O conflito cultural EUA-Europa de Oscar Wilde nos Primeiros Sintomas», Gonçalo Frota, Público, 15.01.2026, p. 28). 

      Removedor trazido dos Estados Unidos. Para a Porto Editora, o removedor é todo trazido do Brasil, vá-se lá saber porquê. Sabotagem?

[Texto 22 307]


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Definição: «gringo»

Também adjectivo


      Estou para dizer isto há anos, de que só me voltei a lembrar agora que o leio aqui num texto que não posso citar: «gringo» também é adjectivo, o que os nossos dicionários ignoram, além de que nem sempre é pejorativo. Assim, proponho ➔ gringo nome masculino, adjectivo Brasil informal, depreciativo indivíduo estrangeiro, sobretudo de aparência nórdica ou origem anglófona, geralmente percebido como culturalmente alheio ou economicamente privilegiado; pode também designar, em certas regiões do Brasil, mercador ambulante de outra nacionalidade; usa-se ainda adjectivalmente para caracterizar elementos percebidos como estrangeiros ou importados (comida gringa, música gringa, turista gringo). Quanto à etimologia, vem do castelhano gringo (séc. XVIII), segundo Joan Corominas, deformação de griego no sentido de «grego» (> grigo > gringo, por nasalização), associado a língua incompreensível (originalmente em relação ao latim); na Península Ibérica, aplicava-se apenas à linguagem, mas na América passou a designar estrangeiros cujo falar não se entendia.

[Texto 22 306]

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Definição: «crisopa»

No país do vinho


      Pela sua importância na viticultura, importa também definir melhor ➔ crisopa ZOOLOGIA insecto neuróptero do género Chrysopa e géneros próximos, de corpo verde e asas translúcidas com nervuras reticuladas, cujas larvas são predadoras vorazes de afídeos, cochonilhas, ácaros e outros pequenos invertebrados, sendo amplamente usadas no controlo biológico de pragas agrícolas; o grupo inclui espécies morfologicamente idênticas, apenas distinguíveis por genética ou vocalizações vibratórias, e com importância crescente em culturas economicamente relevantes como a vinha.

[Texto 22 305]


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Léxico: «osmol | miliosmol | osmolalidade»

Porque os especialistas já sabem


      Tenho aqui à minha frente a bula do Atyflor Hydra. No verso, indica: «Osmularidade: 234 mOsm/L». A Porto Editora define assim o termo: «FÍSICA, QUÍMICA concentração osmótica de uma solução expressa em osmoles, da substância dissolvida no soluto, por litro de solução». É em «osmole», porém, que tudo se torna mais obscuro para o simples leigo que consulta o dicionário: «FÍSICA, QUÍMICA peso molecular de um soluto, em gramas, dividido pelo número de iões ou partículas dissociadas na solução». Certo de que se pode simplificar, proponho ➔ osmole/osmol MEDICINA, BIOQUÍMICA unidade que mede a quantidade de partículas dissolvidas com efeito osmótico numa solução; é usada no cálculo da osmolaridade ou da osmolalidade, permitindo avaliar a compatibilidade da solução com os fluidos corporais. 

      Por exemplo, valores próximos ou ligeiramente inferiores à osmolaridade do plasma sanguíneo (c. 285-295 mOsm/L) indicam segurança e eficácia na reidratação oral.

[Texto 22 304]


⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: Aproveito, naturalmente, para propor a dicionarização de ➔ miliosmol MEDICINA, BIOQUÍMICA submúltiplo do osmol, equivalente a um milésimo desta unidade (1 mOsm = 0,001 osmol); usado para exprimir a osmolaridade ou a osmolalidade de soluções, designando a quantidade de partículas dissolvidas com efeito osmótico por litro de solução ou por quilo de solvente. Todos os dicionários contêm erros, e, neste ponto, o Houaiss está errado. Vá, embrulhem.


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Léxico: «interfonia»

Senhores passageiros


      No terceiro episódio («Linhas proletárias») da série documental Passagem de Nível, na RTP2, uma revisora, Carla Lima, entrevistada a bordo de um comboio da linha de Cascais, disse que a marcou especialmente a última passagem de ano, em que estava de serviço na linha de Sintra e o colega maquinista, quando passavam pelo túnel do Rossio, ao dar as doze badaladas, «desejar aos passageiros, através da interfonia, um feliz ano novo».

[Texto 22 303]

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Léxico: «fibrado»

Pouco a pouco, chegamos lá


      Numa reportagem que vi na televisão sobre o combate ao narcotráfico nas costas portuguesas, um major-general da GNR dizia que actualmente muitas das narcolanchas são fibradas e mesmo cabinadas. Ora, «cabinado» já nós levámos para o dicionário em Abril do ano passado. Agora só falta ➔ fibrado adjectivo 1. que é feito ou revestido com fibra de vidro ou outro material compósito de fibras, geralmente por motivos de leveza, resistência ou aerodinâmica; 2. que apresenta aspecto ou estrutura de fibras, especialmente em contextos técnicos ou industriais.

[Texto 22 302]

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Definição: «capuchinha»

Porque é mesmo


      «João Farminhão alerta também para a necessidade urgente de controlar a proliferação de espécies invasoras nas arribas do Gargalo do Tejo, como as capuchinhas (Tropaeolum majus) e as canas (Arundo donax)» («Chama-se Linaria almadensis: nova planta endémica descoberta nas arribas do Tejo, em Almada», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 23.01.2026, 11h04, itálicos meus). É isto que se tem de acrescentar na definição de «capuchinha», que é uma espécie considerada invasora.

[Texto 22 301]

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Definição: «inspector»

Observa com atenção


      «Mais de três mil pessoas candidataram-se ao último concurso de inspetores da Polícia Judiciária que abriu no final de dezembro do ano passado e terminou nesta quarta-feira, 21 de janeiro, revelou a PJ ao Observador. São 3.258 candidatos para um total de 150 vagas» («Concurso para inspetor da Polícia Judiciária abriu 150 vagas. Concorreram mais de 3 mil pessoas», Adriana Alves, Observador, 23.01.2026, 16h46).

      Não se pode sustentar que tal acepção de «inspector» está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Aliás, o verbete está tão desfalcado, que proponho ➔ inspector 1. indivíduo encarregado de realizar inspecções, fiscalizações ou acções de controlo em nome de uma entidade pública ou privada, com o objectivo de verificar o cumprimento de normas, regulamentos ou directrizes (ex.: inspector sanitário; inspector do trabalho; inspector tributário); 2. funcionário do Estado que integra a carreira de investigação criminal da Polícia Judiciária, com formação superior e específica, a quem compete coadjuvar as autoridades judiciárias na investigação e instrução de processos-crime, podendo realizar actos de polícia criminal, coordenar equipas, conduzir inquéritos, proceder a buscas, detenções e recolha de prova; 3. [por extensão] membro de outras entidades públicas com competências de inspecção ou auditoria sectorial (ex.: inspector da ASAE; inspector da IGEC). 

      A etimologia mais completa dirá que vem do latim inspectōre-, forma de inspicĕre, «observar com atenção, examinar».

[Texto 22 300]

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Definição: «cranioplastia»

Pouco menos que nada


      «Há quem nunca mais consiga voltar a trabalhar. Suzi já estaria a trabalhar, “se já tivesse feito a cirurgia” final. Precisa de uma cranioplastia. Há que reparar a falha óssea no crânio resultante da operação de salvamento do hematoma subducal a que foi sujeita no Santo António» («Ana e Suzi tiveram de reaprender a falar e querem ajudar outros», Ana Cristina Pereira, Público, 24.01.2026, p. 27).

      A definição de «cranioplastia» da Porto Editora é simplesmente caricata: «MEDICINA operação plástica praticada sobre o crânio». Porquê «sobre»? E cuidado com aquele «plástica», as cabecinhas fracas podem não entender. Assim, proponho ➔ cranioplastia MEDICINA operação cirúrgica reconstrutiva do crânio, destinada a corrigir falhas ósseas provocadas por traumatismo, malformação congénita ou intervenção neurocirúrgica anterior, com recurso a enxertos ósseos ou a materiais sintéticos biocompatíveis; visa restaurar a forma e a integridade estrutural do crânio, podendo também ter finalidade estética.

[Texto 22 299]

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Léxico: «linária»

Só na Outra Margem


      «Uma nova espécie de planta, que em todo o mundo só existe nas arribas do Gargalo do Tejo, em Almada, frente a Lisboa, foi identificada pelo investigador João Farminhão, do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. [...] A Linaria almadensis passa agora a integrar o conjunto de cerca de 90 espécies de plantas que, em todo o mundo, só existem em Portugal continental, sublinhando a responsabilidade coletiva na sua conservação» («Chama-se Linaria almadensis: nova planta endémica descoberta nas arribas do Tejo, em Almada», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 23.01.2026, 11h04, itálicos meus).

      Apesar de não ter, tanto quanto sei, nome comum conhecido, a própria estrutura do verbete de «linária» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nos obriga a levar para lá a acepção. Assim, proponho ➔ linária BOTÂNICA (Linaria almadensis) planta herbácea endémica de Portugal, restrita a paredões e terraços arenosos das arribas do estuário do Tejo, entre o Cristo-Rei e o Mosteiro dos Jerónimos, em zonas próximas de rochas calcárias; distingue-se por folhas estreitas e flores dispostas em espigas compactas, com pétalas superiores branco-amareladas, palato amarelo-alaranjado e esporão frequentemente tingido de violeta.

[Texto 22 298]


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Léxico: «electrolisável»

Ainda morremos e nada


      Oh Porto Editora, e quando teremos a satisfação de ver «electrolisável» no dicionário, quando? Sim, ➔ electrolisável QUÍMICA que pode sofrer electrólise, ou que é susceptível de se decompor por acção de uma corrente eléctrica.

[Texto 22 297]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Estás a deixar várias pelo caminho, Porto Editora. «Distributário», «delta» também como adjectivo (ou não compreenderemos coisas como «variante delta»), etc.


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Léxico: «governante»

Fora da política


      No último episódio do documentário Hotéis XXI, na RTP2, falaram dos vários ofícios num hotel actualmente. Entrevistaram pessoas que ocupam esses cargos. Um, que os nossos dicionários omitem, é o de governante, que se encontra nos hotéis mais luxuosos, algo entre as governantas das casas senhoriais de outrora e os mordomos que até recentemente se encontravam nesses hotéis. Assim, proponho ➔ governante HOTELARIA profissional responsável pela supervisão dos andares de um hotel, coordenando o trabalho das equipas de limpeza e arrumação; assegura que os quartos e áreas comuns se encontram perfeitamente limpos antes da chegada dos hóspedes, cuidando dos últimos pormenores de apresentação e garantindo o cumprimento dos padrões estéticos e de hospitalidade da unidade hoteleira.

[Texto 22 296]


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Léxico: «géstica»

O gesto é tudo


      «A géstica do maestro não cria som, mas influencia decisivamente o som. O estilo de cada um dos maestros pode alterar-se. E há uns que são mais espalhafatosos, outros menos [afirma Rui Massena, em entrevista]» («Rui Massena. “Estou mais elitista do que alguma vez estive. É preciso defender os bons valores”», José Cabrita Saraiva, «Versa»/Nascer do Sol, 2.01.2026, p. 28). 

      Pode intuir-se do que se trata, mas temos de a levar para os dicionários, pelo que proponho ➔ géstica MÚSICA conjunto de gestos usados pelo maestro para dirigir uma orquestra ou coro, correspondendo a uma linguagem corporal codificada e expressiva que transmite indicações de tempo, dinâmica, carácter e entradas, sem produzir som mas influenciando decisivamente a interpretação musical por parte dos executantes.

[Texto 22 295]


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Definição: «bogie»

Ou fica-se com uma ideia muito errada


      O acidente com um comboio de alta velocidade em Adamuz, Espanha, no dia 18, veio chamar a atenção para esta peça essencial da engenharia ferroviária. Um dos bogies, com um peso estimado de 10 toneladas, saltou da via e foi parar a um ribeiro a cerca de 300 metros do local. A definição da Porto Editora, que o descreve apenas como «elemento de um vagão ou carruagem», como se fosse um puxador de uma porta ou um botão, é manifestamente insuficiente e induz em erro. Por isso mesmo, proponho ➔ bogie FERROVIA subchassi metálico giratório sob cada carruagem, vagão ou locomotiva, geralmente com dois eixos e quatro rodas, integrando sistemas de suspensão, travagem e, por vezes, tracção; articula-se com a caixa do veículo por meio de rótula, permitindo a inscrição em curva, a absorção de vibrações e a estabilidade; cada comboio integra vários bogies, normalmente dois por carruagem, pesando cada um até cerca de 10 toneladas, consoante o modelo.

[Texto 22 294]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Era justamente para estes casos que interessava que a Porto Editora ilustrasse o verbete com uma imagem, como faz com alguns vocábulos — pouquíssimos, tão poucos, imagino, que raros serão os leitores que sabem que o faz —, como é o caso de «algodão». Temos então aqui a imagem de um bogie de um comboio moderno.

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Léxico: «prontidão»

Pronto, era isto


      «Escolas e creches podem vir a ser fechadas a partir desta tarde, anunciou a Protecção Civil. Chuva, vento e neve colocam Portugal em “estado de prontidão especial”. GNR adopta medidas de prevenção» («Neve: Portugal entra em “estado de prontidão especial”. Escolas e creches podem vir a ser fechadas», Miguel Pinheiro Correia, Observador, 22.01.2026). 

      Onde está esta «prontidão» nos dicionários? Não está. Assim, proponho ➔ prontidão 1. qualidade daquilo que está pronto ou é feito sem demora; brevidade na resposta ou na acção; 2. presteza ou desembaraço; capacidade de reagir com rapidez e eficácia; 3. facilidade de percepção ou de execução; 4. disponibilidade para agir ou cooperar; atitude receptiva e diligente; 5. PROTECÇÃO CIVIL, FORÇAS DE SEGURANÇA, FORÇAS ARMADAS estado de alerta e preparação operacional decretado por autoridades competentes, que implica a mobilização total ou parcial de meios humanos e materiais, a intensificação da vigilância e a adopção de medidas preventivas, com vista a garantir resposta rápida e coordenada perante uma ameaça ou emergência; pode assumir diferentes níveis, conforme os procedimentos internos de cada entidade ou país.

[Texto 22 293]

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Léxico: «etiquetadora»

Os falantes é que sabem


      «Nas estantes que ocupam uma parede inteira alinham-se pastas, dossiês, capilhas e caixas arquivadoras com diferentes cores – são cerca de 400 unidades de instalação em 20 metros lineares, segundo o léxico de arquivistas e bibliotecários. Todas as lombadas estão zelosamente catalogadas a caneta ou com letras feitas por uma antiga etiquetadora manual» («Inspetor Varatojo e o caso do acervo doado», Maria José Oliveira, «Revista E»/Expresso, 2.01.2026, p. 30). 

      É como eu já tenho aqui dito: se é uma «máquina de colocar etiquetas», o falante dirá, naturalmente, «etiquetadora», não «etiquetador». Como «motorroçadora», de que também já aqui falámos, e tantas outras. O povo é sábio. Já foi mais sereno, mas continua a ser sábio, desconsiderando milhares de casos individuais, bem entendido.

[Texto 22 292]

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Léxico: «esquilo-vermelho-americano»

De certeza que não


      «Durante a operação foram resgatados 16 cães e quatro gatos e 104 animais exóticos, nomeadamente 45 ratos, 11 dragões-barbudos, oito gecos-leopardos, oito chinchilas, seis iguanas, quatro píton-reais, quatro tartarugas terrestres, quatro ouriços, quatro esquilos-vermelhos-americanos, três camaleões, duas tarântulas, dois escorpiões e uma cobra-coral-falsa» («GNR resgata 104 animais exóticos, 16 cães e quatro gatos numa loja em Penafiel», Público, 22.01.2026, 10h04). 

      O que quer dizer que os agentes da GNR não foram consultar o dicionário da Porto Editora, e fizeram bem, que pára em «esquilo-vermelho» (Sciurus vulgaris). Este é americano, como o Agente Laranja, Donald. É o Tamiasciurus hudsonicus.

[Texto 22 291]

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Léxico: «disléctico»

Não vamos perdoar


      Estão sempre a surripiar-nos palavras. Ah, sim, a par de disléxico temos, e encontra-se em vários vocabulários e dicionários, disléctico.

[Texto 22 290]


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Léxico: «câmara corporal»

Antes que seja tarde


      «Forças de segurança vão ser equipadas com oito mil câmaras corporais» (Jornal de Notícias, 22.01.2026, p. 1). Foi assim que as designaram logo no noticiário das 7 da manhã de ontem, 22, na TSF, e das 10 na Antena 1. Temos de ser nós — não que sejamos gurus (ou até somos?), mas porque lidamos com a língua no nosso dia-a-dia e temos responsabilidades — a ajudar a consolidar uma forma de dizer. No caso do jornal, só a chamada de primeira página usa a designação «câmara corporal», porque na notícia, e logo no título!, a opção foi para bodycam. Assim, proponho ➔ câmara corporal SEGURANÇA dispositivo audiovisual portátil, fixado ao uniforme policial, usado para registar intervenções e garantir transparência, prova e responsabilização.

[Texto 22 289]

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Léxico: «termoformação»

Ajudemos a indústria


      «Na escolha dos primeiros moldes, o proprietário do restaurante A Tal da Pizza seguiu as recomendações do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal – que apoiou o projecto testando e validando protótipos com recurso a técnicas como impressão 3D e termoformação» («Coma este chapéu: S. João da Madeira serve sobremesas inspiradas na sua indústria», Alexandra Couto, Público, 22.01.2026, 16h05).

[Texto 22 288]

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Léxico: «delta»

Agora como adjectivo



      Uma dessas acepções em falta no verbete de «delta» é adjectiva e indica meramente uma posição de ordem, e usámo-la recentemente até à exaustão: a variante delta do coronavírus. E torna-se logo evidente — menos para boa parte dos nossos jornalistas — que está aqui a razão para se grafar em minúscula, já que identifica a quarta (porque o delta é a quarta letra do alfabeto grego) variante de preocupação identificada oficialmente pela OMS, com origem inicial detectada na Índia (linhagem B.1.617.2). Mas não é apenas, oh não, em relação a isto que se usa, nem pouco mais ou menos. Assim, proponho ➔ delta adjectivo invariável diz-se do quarto elemento de uma sequência designada pelas letras do alfabeto grego, como em classificações científicas, técnicas ou militares.

[Texto 22 287]
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Definição: «endolinfa»

Mais informativa


      «“Tentar determinar a temperatura de um dinossauro apenas com fósseis é como tentar adivinhar a velocidade máxima de um carro antigo apenas olhando para a sua carcaça ferrugenta. O projecto ‘DAEDALUS’ propõe-se a reconstruir o motor (anatomia interna), analisar o combustível (viscosidade da endolinfa, o fluido contido no labirinto membranoso do ouvido interno) e ver como o carro se comportava na estrada (movimento da cabeça) para saber quão ‘quente’ o motor realmente corria”, frisa o investigador [Ricardo Araújo, paleontólogo do Instituto Superior Técnico (IST) e do Centro de Recursos Naturais e Ambiente (Cerena)], acrescentando que o projecto “não estará apenas a tentar ler um mapa antigo (os fósseis)”, mas também “a construir uma ‘lente’ inteiramente nova que permitirá à comunidade científica ver detalhes fisiológicos que, até agora, eram invisíveis a olho nu”» («Mais de 12 milhões de euros em bolsas europeias para a ciência portuguesa (ou em Portugal)», Filipa Almeida Mendes, Público, 9.12.2025, 15h20). 

     Já que é mais do que a Porto Editora diz, proponho ➔ endolinfa ANATOMIA líquido presente no labirinto membranoso do ouvido interno, com alta concentração de iões potássio (K⁺) e baixa concentração de iões sódio (Na⁺), essencial à transdução dos estímulos auditivos e vestibulares.

[Texto 22 286]

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Definição: «delta» | Léxico: «distributário»

Não tão simples


      «An international research team has found a systemic drop in land elevation across India’s river deltas driven mostly by human activities. The researchers were motivated by the lack of high-resolution data of river deltas’ subsidence worldwide even though they support more than 340 million people» («Study shows India’s deltas sinking due to human activity», The Hindu, 22.01.2026, p. 11).

      O que ficou claríssimo da leitura do artigo é que o conceito de delta é muito mais complexo do que o dicionário da Porto Editora deixa ver: «GEOGRAFIA planície aluvial, geralmente de forma triangular (forma de delta), situada na parte terminal de um rio e resultante da acumulação de sedimentos». Até seria algo tautológico, se o falante conhecesse a letra delta. Geralmente, dizes bem, mas muito variável. E não é meramente uma planície. Assim, proponho ➔ delta GEOGRAFIA formação sedimentar situada na foz de certos rios, geralmente com configuração triangular, lobulada ou em leque, resultante da acumulação de materiais aluviais num corpo de água de menor energia (mar, lago ou estuário), onde o caudal do rio se subdivide em diversos canais (distributários) e se prolonga por uma área plana ou ligeiramente inclinada, frequentemente sujeita a subsidência, variações no nível do mar e ocupação humana intensa.

      Diga-se também, é a oportunidade, que te faltam não menos de cinco acepções de «delta».

[Texto 22 285]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Ah, sim, também não tens, excepto em bilingues, ➔ distributário GEOGRAFIA cada um dos canais em que se subdivide o leito de um rio, especialmente num delta, divergindo do curso principal e conduzindo o caudal para o mar, um lago ou outro corpo de água.




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Definição: «urso-pardo | urso-negro-asiático»

Nada de exageros


      «La población de plantígrados de Japón se ha cuadruplicado desde el 2012 y se eleva a unos 55.000, siendo la mayoría osos negros asiáticos que pesan hasta 130 kilos, y unos 12.000 pardos, más voluminosos (pueden alcanzar los 400 kilos). A su incremento ha contribuido el hecho de que hay cada vez menos cazadores con licencia para matarlos, debido al envejecimiento de la población y a que los jóvenes se van del campo a las ciudades» («Los osos japoneses no son cariñosos», Rafael Ramos, La Vanguardia, 9.01.2026, p. 11). 

      Estão ambos os verbetes a precisar de uns reajustes no dicionário da Porto Editora, como poderão comprovar, sobretudo para eliminar os manifestos exageros quanto ao urso-pardo. Assim, proponho ➔ urso-pardo ZOOLOGIA (Ursus arctos) espécie de urso de grande porte, com várias subespécies distribuídas pela Europa, Ásia e América do Norte, de pelagem castanha em tons variados (do bege ao castanho-escuro); apresenta hábitos solitários e alimentação omnívora, podendo atingir entre 1,8 e 2,1 metros de comprimento e pesar em média cerca de 200 quilos, embora os maiores espécimes ultrapassem os 600. Quanto ao ➔ urso-negro-asiático ZOOLOGIA (Ursus thibetanus) espécie de urso de médio porte, com distribuição alargada pela Ásia temperada e tropical, do Irão ao Japão e Sudeste Asiático, de pelagem negra com mancha branca em forma de V no peito; apresenta hábitos solitários e alimentação omnívora, podendo atingir até 1,8 metros de comprimento e pesar entre 100 e 150 quilos.

[Texto 22 284]


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Definição: «extrema-direita»

Vamos lá abrir os olhos


      «A escassos dias de ser detido, a 14 de Janeiro de 2025, o então deputado do partido populista de direita radical enviou a Ana Arruda fotos de umas sapatilhas Adidas, de um par de sapatos de vela e de umas botas de salto baixo que tinha encontrado numa mala verde, cujo conteúdo haveria mais tarde de ser avaliado em perto de 5500 euros» («Miguel Arruda acusado de 21 crimes. Mulher bem o avisou: “Sabes que há câmaras nos aeroportos?”», Ana Henriques, Público, 9.01.2026, p. 15).

      Este debate já decorreu noutras sociedades: como definir extrema-direita? A definição da Porto Editora — «corrente política de valores conservadores radicais» — é insatisfatória porque reduz a extrema-direita a uma intensificação do conservadorismo, sem referir aspectos fundamentais como o autoritarismo, o nacionalismo étnico ou a exclusão de minorias. Assim formulada, torna-se quase indistinguível de outras correntes ideológicas que também podem ser radicais mas não partilham o mesmo pendor antiliberal ou reaccionário, como o ultraconservadorismo religioso, o libertarismo económico extremo ou o tradicionalismo moral. Ao evitar qualquer referência ao autoritarismo, à rejeição do pluralismo ou à hostilidade identitária, a definição esvazia o conceito e impede o seu reconhecimento enquanto fenómeno político concreto e historicamente documentado. Antes que eles tomem conta disto tudo, proponho ➔ extrema-direita POLÍTICA corrente ideológica ou movimento político caracterizado pela rejeição da democracia liberal, pela exaltação da autoridade, pela hostilidade em relação às minorias e aos estrangeiros, pela glorificação da nação ou da raça, e pelo recurso sistemático a discursos de exclusão ou de medo.

[Texto 22 283]


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Léxico: «lampreia | à bordalesa»

O chefe manda


      Disseram-me, que eu não vi, que um chefe (também conhecido como chef por certos portugueses) foi à Praça da Alegria, na RTP1, ensinar a fazer lampreia à bordalesa e que definiu este simpático ciclóstomo como nem os lexicógrafos, assim ➔ lampreia/lampreia-de-rio ZOOLOGIA (Lampetra fluviatilis) espécie de peixe ciclóstomo anádromo da família Petromyzontidae, com corpo alongado, cilíndrico e sem escamas, pele viscosa de coloração acastanhada com tons esverdeados, boca em ventosa circular com dentes córneos e sem barbatanas pares; durante a fase larvar (amocete), vive enterrada nos sedimentos dos rios como filtrador; após a metamorfose, desloca-se para o mar ou zonas estuarinas, onde parasita outros peixes, fixando-se à sua pele para se alimentar de sangue e tecidos; atinge entre 25 e 40 cm de comprimento, podendo excepcionalmente ultrapassar esse valor, e regressa aos rios para desovar, após o que geralmente morre.

      O chefe não explicou (nem os dicionários o fazem) o que significa «à bordalesa», mas explicamos nós assim ➔ à bordalesa GASTRONOMIA diz-se do modo de confeccionar a lampreia com vinho tinto, cebola e sangue, inspirado na tradição culinária de Bordéus.

[Texto 22 282]


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Léxico: «ceira»

Mas veio em boa hora


      Mas os erros também nos fazem avançar; pessoalmente, prefiro aprender com os erros dos outros, e neste aspecto tenho tido sorte. É verdade que «ceira» já foi sinónimo de «seira», mas apenas, como se lê, e bem, no Houaiss, até ao século XVIII. Mas há outra acepção de «ceira», e aquele dicionário também a acolhe, que importa continuar a estar registada nos dicionários (a Porto Editora diz estar brevemente disponível) de hoje em dia ➔ ceira METROLOGIA (Índia) unidade tradicional de massa usada no subcontinente indiano, correspondente ao termo inglês seer (do hindi sīr), com valor variável segundo a região e a época (cerca de 0,93 kg no período colonial britânico); encontra-se atestada com esta grafia no Glossário Luso-Asiático de Dalgado (1919), com a forma portuguesa arcaica cer.

[Texto 22 281]

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Léxico: «seireiro»

Com dois, mais erros


      «A mudança desse método em meados do século passado levou a produção a cair, e fez os ceireiros [sic] — os artesãos da junça — sair da Beselga à procura de trabalho» («“Vale mais ganhar 800 euros aqui do que 2.000 em Lisboa”. Penedono pede empregos para não perder mais jovens», Beatriz Pereira e João Pedro Quesado, Rádio Renascença, 14.01.2026, 6h30).

[Texto 22 280]

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Léxico: «seta de Moylan»

E se aprendêssemos alguma coisa nova?


      Isto conta-se numa penada: certo dia, James N. Moylan (1944-2025), engenheiro da Ford, parou para abastecer e não sabia de que lado ficava o depósito. De volta ao trabalho, esboçou a solução: um pequeno símbolo no painel, junto ao ícone do combustível, que indicasse o lado certo. Propôs a ideia em Abril de 1986, primeiro com o desenho de um carro visto de cima, e a equipa transformou-o numa seta simples. Em 1989, os primeiros modelos com o novo sinal chegaram ao mercado. Assim, proponho ➔ seta de Moylan AUTOMOBILISMO pequeno triângulo ou seta junto ao ícone do depósito de combustível no painel de instrumentos de muitos automóveis modernos, indicando de que lado (esquerdo ou direito) se encontra o bocal de abastecimento; embora menos comum em veículos eléctricos, pode também surgir junto ao indicador de carga para assinalar o lado da porta de carregamento.

[Texto 22 279]


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Extras! Extras! Extras!

Os primeiros nesta nova casa


      «Mais de um terço dos médicos com horas extras tinha atingido limite anual em Novembro» (Ana Maia, Público, 15.01.2026, 7h01).

[Texto 22 278]

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Léxico: «fago | fagoterapia»

Estão desactualizados


      «El problema es real y el futuro, angustioso. ¿Qué hacer? Además de reducir la ingesta de antibióticos, prosiguen las investigaciones para hallar un arma contra estas superbacterias. Y aquí aparecen unos virus buenos, los fagos, que “destruyen” a las poderosas bacterias. ¿Cómo? Desde dentro, infectándolas. [...] Además, [María del Mar] Tomás [da Sociedad Española de Enfermedades Infecciosas y Microbiología Clínica (SEIMC)] señala que la fagoterapia presenta una baja toxicidad y que puede utilizarse como adyuvante del tratamiento antibiótico, pues los fagos tienen una acción sinérgica con los antibióticos» («Recuperan los fagos, virus descubiertos el siglo pasado, para matar superbacterias», Celeste Lopéz, La Vanguardia, 10.01.2026, p. 26). 

      Este excerto mostra bem como podemos enriquecer e descomplexificar a definição de ➔ fago BIOLOGIA vírus que infecta exclusivamente bactérias, introduzindo o seu genoma no interior da célula hospedeira e recorrendo aos mecanismos de transcrição e tradução bacterianos para produzir novas partículas virais; a infecção pode seguir um ciclo lítico (com lise celular) ou lisogénico (com integração do genoma viral no cromossoma bacteriano). E é evidente que se tem de registar uma primeira acepção, a moderna, de ➔ fagoterapia 1. MEDICINA tratamento de infecções bacterianas mediante a utilização de vírus bacteriófagos (ou fagos), seleccionados por atacarem especificamente a bactéria causadora da infecção.

[Texto 22 277]

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Léxico: «beselguense»

Ninguém pensa neles


      «É tudo verdade. Em 1981, a Beselga tinha 556 habitantes, e a queda tem sido contínua. Os censos de 2021 registaram 270 beselguenses: dez crianças até aos 14 anos, e 11 vezes mais idosos. Desde então, até 2024, morreram 19 residentes. Nasceram dois» («“Vale mais ganhar 800 euros aqui do que 2.000 em Lisboa”. Penedono pede empregos para não perder mais jovens», Beatriz Pereira e João Pedro Quesado, Rádio Renascença, 14.01.2026, 6h30).

[Texto 22 276]

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Léxico: «hidromorfológico»

Só isto


      «Na mesma sessão, foi apresentado o relatório final do estudo técnico para avaliação de danos ambientais e medidas de mitigação, adjudicado pela AdCL ao Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (Cesam) da Universidade de Aveiro. O documento propõe a redundância operacional de infra-estruturas, nomeadamente de drenagem e elevação, a requalificação hidromorfológica e ecológica do rio, a redução de pressões sobre a qualidade da água e a implementação de um plano de monitorização abrangente e mais vasto» («ETAR junto ao rio Lis recebe dois milhões de euros para melhorar tratamentos, mas problema está a montante», Público, 16.01.2026, 17h36).

[Texto 22 275]


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Definição: «constipação»

Depois da gripe, constipação


      «Muitas pessoas de várias culturas crescem a ouvir que o frio nos deixa doentes. Sair de casa sem casaco, respirar ar frio, dormir num quarto frio, ser apanhado na chuva fria ou na neve, ou simplesmente sentir-se com frio são, frequentemente, responsabilizados por causar constipações ou gripe. [...] Constipações e gripes são causadas por vírus, não por ar frio. Vírus como os rinovírus, que causam o constipado comum, e os vírus da gripe transmitem-se de pessoa para pessoa através de gotículas respiratórias ou contacto físico, independentemente da temperatura exterior» («Por que é que há tantas infeções no inverno se o frio não provoca gripe?», Rádio Renascença, 17.01.2026, 10h00). 

      Temos de começar por tirar esta ideia errónea dos dicionários, o que também contribuirá, pouco que seja, para que acabe por sair da cabeça das pessoas. Assim, proponho ➔ constipação MEDICINA infecção viral benigna das vias respiratórias superiores, especialmente da mucosa nasal e faríngea, geralmente causada por rinovírus ou coronavírus sazonais, caracterizada por congestão nasal, espirros, corrimento e obstrução nasais, dor de garganta, tosse ligeira e sensação de mal-estar geral; tem duração limitada (3 a 10 dias), contágio elevado e ocorrência mais frequente nos meses frios, não por acção directa do frio, mas por factores comportamentais e imunológicos associados; resfriado comum.

[Texto 22 274]

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Léxico: «proprietário»

É todos os dias


      Apesar de já constar nos dicionários como adjectivo relacionado com posse ou titularidade, o termo «proprietário» ganhou, nas últimas décadas, um uso técnico muito específico nos domínios da informática e da electrónica de consumo. Multiplicam-se os exemplos nos meios de comunicação (acabei de o ouvir na Rádio Observador) e na linguagem corrente — carregador proprietário, software proprietário, formato proprietário —, com um sentido que não se confunde com o da mera propriedade legal. Trata-se, antes, de produtos cuja utilização é limitada pela entidade que os desenvolve, impedindo a compatibilidade com sistemas ou dispositivos concorrentes. Essa acepção, hoje banal, continua ausente dos dicionários gerais da nossa língua. Assim, proponho ➔ proprietário adjectivo INFORMÁTICA, TECNOLOGIA (software, sistema, carregador, etc.) desenvolvido por uma empresa que impõe restrições ao uso, modificação ou compatibilidade, impedindo a interoperabilidade com produtos concorrentes; opõe‑se a «aberto» ou «normalizado».

[Texto 22 273]

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Léxico: «arquivável»

Ia jurar que o tinhas


      «As páginas digitalizadas são incorruptíveis, mas também imortais demais para se nos imporem. São a memória depois da memória, e talvez seja esse o sinal do tempo: já não procuramos algo que está para lá das nossas previsões, já não entramos na biblioteca para sermos absorvidos, mas para confirmar que o que existe é recuperável, arquivável, imediatamente disponível» («A Biblioteca Joanina dos dois lados do espelho», Diogo Vaz Pinto, «Versa»/Nascer do Sol, 17.10.2025, p. 15).

[Texto 22 272]

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Definição: «visibilidade»

Vamos explicar isto melhor


      «In weather science, ‘visibility’ is a colloquial term for a quantity called the meteorological optical range. It’s defined as the distance a beam of light can travel through the atmosphere before its intensity drops to 5% of its original value» («Visibility: light’s right of way», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 19.01.2026, p. 11).

      Lá temos de aprender com os Indianos o que é visibilidade neste sentido, que a Porto Editora define assim: «qualidade da atmosfera que permite ver a uma distância maior ou menor». Qualidade? Sendo assim, proponho ➔ visibilidade METEOROLOGIA distância máxima a que um observador consegue distinguir um objecto suficientemente contrastante contra o horizonte, em condições normais de iluminação, ou distância a que a intensidade de um feixe de luz se reduz para 5 % do valor original ao atravessar a atmosfera; parâmetro que reflecte a transparência do ar e é afectado por fenómenos como nevoeiro, fumo, poeiras ou poluição, podendo ser determinado por métodos visuais ou instrumentais.

[Texto 22 271]

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Definição: «monsenhor»

Portanto, foi uma excepção


      «O padre José Luís Amaro Pombal, sacerdote da Diocese de Bragança-Miranda e colaborador da Secretaria de Estado do Vaticano, foi nomeado “Capelão de Sua Santidade”, recebendo o título de monsenhor» («Padre José Luís Pombal nomeado Capelão do Papa Leão XIV com o título de monsenhor», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 8.01.2026, 7h30). 

      Só ganhamos em defini-lo mais amplamente, além de que uma outra acepção se impõe: a de monsenhor tal como usada em França, e encontramos em obras literárias e filmes. Assim, proponho ➔ 1. monsenhor título honorífico, sem valor hierárquico, concedido pelo papa a certos sacerdotes como sinal de apreço por serviços prestados à Igreja; decorre da atribuição de uma dignidade eclesiástica específica, hoje limitada à de capelão de Sua Santidade (capellanus Sanctitatis Suae), única categoria actualmente atribuída desde a reforma introduzida pelo Papa Francisco em 2014, que estabeleceu a idade mínima de 65 anos para novas nomeações (sem efeito retroactivo); o título é vitalício e usado como forma de tratamento antes do nome próprio (abreviatura: Mons.); 2. forma de tratamento respeitosa usada, sobretudo em francês (Monseigneur), para príncipes, cardeais ou outras figuras de elevado estatuto social ou eclesiástico, especialmente em contextos cerimoniais ou literários. 

[Texto 22 270]

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Definição: «fentanil»

Mais de duas linhas


      Nos Estados Unidos, o fentanil ilícito é hoje uma das principais causas de mortes por sobredose, com dezenas de milhares de óbitos anuais atribuídos a este opiáceo sintético altamente potente — apenas alguns miligramas podem ser letais — e continua a ser um foco central da crise de saúde pública apesar de sinais recentes de declínio nas estatísticas nacionais. Vai daí, se tivermos uma melhor definição do termo, só ganhamos, pelo que proponho ➔ fentanil FARMÁCIA opiáceo sintético (C₂₂H₂₈N₂O) de acção rápida e potência analgésica muito superior à da morfina, usado em ambiente hospitalar como anestésico ou em casos de dor crónica grave, sendo também responsável por grande parte das sobredoses mortais associadas ao consumo ilícito de opiáceos nos Estados Unidos e noutros países, devido à sua elevada toxicidade em doses muito reduzidas.

[Texto 22 269]

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Léxico: «bomba de calor»

O meu carro tem


      Nos dicionários há muitas bombas, mas não encontramos em nenhum aquela de que mais se fala hoje em dia, a ➔ bomba de calor TECNOLOGIA sistema termodinâmico, usado em edifícios e veículos automóveis, que transfere calor de um meio para outro, geralmente de uma fonte fria para uma quente, permitindo aquecer ou arrefecer ambientes ou fluidos com baixo consumo energético.

[Texto 22 268]

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Definição: «foneticismo»

Um pouco mais complexo


      «Levando às últimas consequências o foneticismo invocado para justificar o AO90, a escrita corrente transformar-se-ia numa mistela irreconhecível. Só que esse foneticismo, como sabemos, foi apenas pretexto para vender a políticos ignorantes nesta matéria uma “unificação” ortográfica tão patética que mesmo os seus criadores afirmam que não passou dos 2%» («O silêncio não se escreve? Grafemos “umanidade” e “erói”», Nuno Pacheco, Público, 15.01.2026, p. 6). 

      Ora ainda bem que isto apareceu, porque estamos a precisar, como verão, de uma melhor definição de ➔ foneticismo 1. LINGUÍSTICA sistema de escrita baseado na representação dos sons da fala por meio de letras ou sinais fonéticos, como sucede na escrita alfabética ou silábica; 2. LINGUÍSTICA doutrina ou tendência que privilegia a aproximação entre grafia e pronúncia, com desprezo pelos princípios etimológicos ou morfológicos, especialmente em propostas de reforma ortográfica; opõe-se ao etimologismo.

[Texto 22 267]


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Léxico: «paleoecólogo»

Avancemos mais um pouco


      «“Esta investigação mostra que a imagem que a muitos de nós temos em mente de um símio, passando por um neandertal, até chegar ao humano moderno, não está correcta – a evolução não funciona assim”, destaca, citada num comunicado divulgado pela Universidade do Estado do Arizona (ASU, na sigla em inglês), a paleoecóloga Kaye Reed, autora correspondente do estudo, que é professora emérita na ASU e co-directora do Projecto de Investigação de Ledi-Geraru desde 2002» («Cientistas anunciam descoberta de autrolopiteco na Etiópia», Filipa Almeida Mendes, Público, 14.08.2025, p. 40).

[Texto 22 266]


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Definição: «biciclo»

Acabamos assim


      Só na semana passada é que, graças a um excelente programa no Conta Lá, fiquei a saber que a tradução de penny-farthing é «biciclo». Até entrevistaram um viajante inglês, Joff Summerfield, que se tornou construtor deste tipo de bicicleta e que já viajou numa por todo o mundo. Também entrevistaram vários participantes da fantástica Tweed Run, onde se viam alguns biciclos. A Porto Editora define-o assim: «veículo com duas rodas de diâmetro diferente, sendo a da frente maior, actualmente em desuso». Podemos melhorar quer a definição quer a etimologia, pelo que proponho ➔ biciclo TRANSPORTES veículo de duas rodas de diâmetros desiguais, com a dianteira significativamente maior do que a traseira, geralmente responsável tanto pela propulsão como pela direcção; de uso corrente na segunda metade do século XIX, conserva‑se hoje sobretudo em contextos históricos, turísticos ou recreativos. 

      Quanto à etimologia, vem do inglês bicycle (1868), pelo francês bicycle (1855), de bi- + cycle, este do grego kýklos, «roda, círculo».

[Texto 22 265]

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Definição: «barrocal»

Menos pobre do que isso


      Na semana passada, vi um documentário na televisão em que se falava do Barrocal algarvio. O que posso afirmar é que o termo está muito mal definido nos dicionários. Sim, porque afirmar-se simplesmente que é o lugar onde há barrocas ou barrocos é quase nada. Assim, proponho ➔ barrocal GEOGRAFIA faixa de transição entre o litoral e a serra, característica do Sul de Portugal (em especial do Algarve), constituída por terrenos de relevo suavemente ondulado ou acidentado, com solos calcários, afloramentos rochosos (barrocas) e vegetação mediterrânica adaptada à secura; zona tradicionalmente agrícola, onde predominam culturas de sequeiro como a figueira, a amendoeira, a oliveira e a alfarrobeira.

[Texto 22 264]

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Definição: «gripe»

Muito a propósito


      A minha filha está com gripe A. Pelo menos inicialmente, entre os sintomas não estava a febre. Tudo normal. A Porto Editora define a gripe como «doença febril», o que é clinicamente incorrecto: a febre é comum, mas não obrigatória, e há muitos casos de gripe sem febre, incluindo gripe A. Logo, pode estar entre os sintomas, mas não é definidora. Está na altura de rever a definição. Assim, proponho ➔ gripe MEDICINA doença respiratória aguda e muito contagiosa, causada por vírus do género Influenzavirus, transmitida por gotículas ou contacto com superfícies contaminadas, com início súbito e sintomas variados, como mal-estar ou abatimento geral, dores musculares, cefaleias, tosse seca e inflamação das vias respiratórias; a febre é frequente, mas pode não estar presente, sobretudo em crianças, idosos ou casos de gripe A.

[Texto 22 263]

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Léxico: «rinoceronte-lanudo»

Já temos a sequência genómica


      «O genoma de um rinoceronte-lanudo com 14.400 anos foi recuperado a partir de uma amostra de tecido muscular encontrada no estômago de uma cria de lobo da Idade do Gelo, cujos restos mortais se encontravam preservados numa camada de solo rochoso congelado na Sibéria» («Genoma do rinoceronte-lanudo recuperado a partir do estômago de um lobo da Idade do Gelo», Filipa Almeida Mendes, Público, 15.01.2026, p. 27).

      Vamos lá ressuscitá-lo para os dicionários, tanto mais que o encontramos num texto de apoio da Infopédia, mas não, como devia, no dicionário. Assim, proponho ➔ rinoceronte lanudo PALEONTOLOGIA (Coelodonta antiquitatis) rinoceronte extinto que habitou as regiões frias da Eurásia durante o Pleistocénico Superior (até cerca de 14 000 anos atrás), de grande porte (cerca de 4 metros de comprimento, 2 de altura e mais de 3 toneladas), membro da megafauna adaptada às estepes geladas da Idade do Gelo, semelhante ao rinoceronte‑branco (Ceratotherium simum), caracterizado por adaptações ao frio como pelagem espessa, chifres desenvolvidos e camada subcutânea de gordura.

[Texto 22 262]

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Léxico: «neotemperança»

Coisas novas


      «Andrew Langer, director do Centro para a Liberdade Regulatória da Fundação da Conferência Política Conservadora, classificou as novas directrizes como uma “posição de compromisso” entre “o movimento neo-temperança, que diz que as pessoas não devem beber nada, e outro grupo, que diz que o Governo dos EUA não deve fazer declarações sobre o álcool”» («Administração Trump elimina proposta para introduzir limites ao consumo de álcool em directrizes», Público, 9.01.2026, 14h56). 

      Já anda por aí desde a década de 1980, pelo que proponho  neotemperança SOCIOLOGIA atitude ou movimento contemporâneo que defende a abstenção total de bebidas alcoólicas, retomando princípios do movimento da temperança do século XIX mas enquadrando-os em preocupações actuais com a saúde pública, os riscos do álcool e o papel do Estado na regulação de comportamentos individuais; distingue-se da temperança histórica pelo afastamento de fundamentos religiosos ou morais e pela ênfase em evidência científica e políticas de saúde.

[Texto 22 261]

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Léxico: «merogueiro | merogo»

Dicionários fora dos dicionários


      Não estão nos dicionários, mas depois o país real conhece-as e usa-as diariamente, essa é que é essa: «É que numa das bancas da feira Isaltino [Morais] encontrou a fórmula para a vitória do candidato nestas presidenciais: “Merogueiro ‘prà’ próstata.” Porque se a coisa não vai lá com ervas medicinais, então não vai com nada. Mas se der resultado, daqui para a frente é sempre a subir!» («Gouviagra e Melo», Sónia Dias, Correio da Manhã, 14.01.2026, p. 22).

[Texto 22 260]


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Léxico: «cereulide»

Recomecemos aqui


      «Nestlé est retombé dans des eaux très agitées depuis une semaine. A la suite d'une anomalie dans plus de dix de ses usines, notamment aux Pays-Bas et en Allemagne, liée à un problème de qualité sur un ingrédient d’un de ses fournisseurs, le géant suisse de l’agroalimentaire a procédé tout début janvier à un rappel volontaire de certains de ses laits pour nourrissons. La raison? La présence potentielle d’une substance d’origine bactérienne : la céréulide. Celle-ci est susceptible de provoquer chez les bébés des troubles digestifs, comme des diarrhées et vomissements» («Chez Nestlé, les rappels de laits infantiles virent au cauchemar», Olivia Détroyat, Le Figaro, 13.01.2026, p. 23).

      Apareceu, logo proponho  cereulide BIOQUÍMICA toxina peptídica termoestável produzida por certas estirpes da bactéria Bacillus cereus, responsável por intoxicações alimentares do tipo emético (com vómitos) associadas sobretudo ao consumo de arroz, massas ou leite contaminados; actua como ionóforo de potássio nas mitocôndrias, induzindo disfunções metabólicas e distúrbios gastrointestinais agudos, incluindo náuseas, vómitos e, em casos graves, danos hepáticos. 

      Quanto à etimologia, vem do latim científico [Bacillus] cereus, nome da bactéria em que a substância foi identificada, com o sufixo ‑ide usado para compostos químicos e bioquímicos.

[Texto 22 259]


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