«Às custas», de novo

Reciclem-na já


      A mais recente trapalhada nos jornais portugueses relaciona-se com o nome por que querem ser conhecidos os ciganos noutros países. Não em Portugal, que ainda cá não chegou a moda. «Isabela Mihalache, directora adjunta da organização internacional European Roma Rights Center, não quer que lhe chamem cigana. Tigan, na Roménia, é sinónimo de escravo. E os ciganos romenos não desejam perpetuar uma história de servidão. Querem um nome limpo — querem ser roma» («Romenos que não são vistos como cidadãos», Ana Cristina Pereira, Público, 30.08.2010, p. 8). E mais: «A socióloga desfaz o estereótipo dos roma da Roménia, que estão a ser expulsos de vários países europeus, França, mas também Itália, Alemanha, Dinamarca e Suécia: “Não querem trabalhar, vivem às custas da segurança social, roubam, mendigam, não se vêem atrás de uma secretária a trabalhar num computador”.» Isabela Mihalache não saberá português, o erro crasso é, seria sempre, da jornalista.

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Como se escreve nos jornais

Dão-se alvíssaras


      «É um dos livros mais aguardados da rentrée literária espanhola: a novela El sueño del celta do escritor peruano Mario Vargas Llosa. A obra parte da vida de Roger Casement (1864-1916), um diplomata e nacionalista irlandês, escritor, defensor dos direitos humanos, homossexual atormentado comisso» («Novo livro do autor Vargas Llosa», Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 43).
      Na página na Internet da Casa Fernando Pessoa, pode ver-se assim transcrita a notícia (a parte que interessa): «A obra parte da vida de Roger Casement (1864-1916), um diplomata e nacionalista irlandês, escritor, defensor dos direitos humanos, homossexual atormentado com isso.» Ou seja, a palavra «comisso» foi interpretada como gralha. Será mesmo? É o mais provável, tanto mais que a pontuação reforça a hipótese. Contudo, se a fonte mais próxima foi a entrevista que o escritor deu ao jornal El País, fico com dúvidas. O excerto que interessa do intróito da entrevista: «Diplomático reservado, sir y escritor, temprano relator de derechos humanos, héroe irlandés, traidor británico, torpe estratega militar, homosexual atormentado, reo ajusticiado...» Sabe Deus se não quiseram traduzir «reo ajusticiado» por «comisso»... Por outro lado, como em fontes em língua inglesa relacionadas com Roger Casement é muito usada a palavra «penalty», que numa das acepções se poderá traduzir por «comisso», não sei. De qualquer modo e finalmente, «homossexual atormentado com isso» não é redacção que se recomende.

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Samatra/Sumatra

Tudo na mesma


      Isto? «O vulcão Sinanbung, situado no norte da ilha indonésia de Samatra, despertou ontem, ao fim de 400 anos de actividade, levando as autoridades a accionar de imediato os sinais de alerta máximo» («Doze mil fogem de vulcão activo», Pedro Correia, Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 21).
      Ou isto? «As autoridades da Indonésia começaram ontem a evacuar 10 mil pessoas por causa da erupção do vulcão Sinanbung, a norte da ilha de Sumatra» («Vulcão provoca retirada de milhares de pessoas», Jornal de Notícias, 30.08.2010, p. 16).

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Léxico: «ventana»


Palavras ao vento

      Ventāna, ae é só um termo latino hipotético do qual derivou o espanhol ventana. E deste derivou o vocábulo português... ventana. Está bem, este deixou de ser usado em português. E do português venta, cada uma das narinas. Em latim, denominaria o lugar por onde passa o vento, daí vir a designar as janelas e as narinas. Também na nossa língua designou a abertura, nas torres das igrejas, onde se situam os sinos. Ventana e, mais frequentemente, o diminutivo, ventanilha, é o nome que se dá a cada uma das aberturas ou bocas por onde caem as bolas nas mesas de bilhar, como a imagem ilustra. Em inglês, dá-se-lhes o nome, vejam bem a pobreza!, de pocket. What a folly!

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Sobre gralhas

Gralhas e ciganos


      Tanto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a definição de gralha, essas manchas que desvirtuam e desfeiam tantos textos, não é menos que imprecisa. Não: é errónea. A mais satisfatória é a do Dicionário Houaiss. O jornalista Rui Osório, do Jornal de Notícias, escreveu recentemente um texto em que protestava contra o Governo francês por estar a expulsar os ciganos. E, depois, aconteceu isto: «Alguns leitores do JN online não gostaram do meu protesto e indignaram-se com uma gralha que me escapou. Quis escrever “camião” e saiu-me, calculem!, “caminhão”. Foi o suficiente para que os meus críticos me acusassem de “ignorante” e de “cigano” analfabeto, incapaz da 4.ª classe» («Jornalista fingido de “cigano ignorante”», Rui Osório, Jornal de Notícias, 29.08.2010, p. 24). Ter querido escrever uma palavra e sair outra não é, evidentemente, gralha. Se Rui Osório, que é padre, tivesse sido missionário no Brasil, estaria facilmente explicada a troca. Ter alegado que a 8.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (e decerto que a edição para (!) 2011 também) «regista “caminhão” remetendo para “camião”» também não é dos argumentos mais contundentes, pois aquele dicionário regista que é variante usada no Brasil. Os Brasileiros usam «caminhão», mera diferença morfológica, nada ralados com a opinião de Rodrigo de Sá Nogueira. O étimo é o mesmo, o francês camion, mas no Brasil estabeleceu-se, ao que parece, uma curiosa analogia com o vocábulo «caminho»: como aquele veículo é para andar nos caminhos, passou a dizer-se «caminhão». Entre nós, não era nada raro, há vinte e trinta anos, ouvir-se «camion» em vez de «camião», e não seriam decerto só os ciganos analfabetos que falavam assim, mas sem dúvida que seriam os incapazes da 4.ª classe.

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«Taliban», outra vez

Elogio da sensatez


      «Dezenas de taliban atacam duas bases no Leste do Afeganistão e sofrem 21 mortos» (Jorge Heitor, Público, 29.08.2010, p. 12).
      Já aqui (e aqui) falei desta aberração, e sei que há leitores do Público que mandam mensagens de correio electrónico e cartas à directora em que protestam contra este abastardamento. Pura perda de tempo. Itálico, já sabemos, é recurso que a generalidade dos jornais vai ignorando. Contudo, há sempre pior, como isto: «Ataque a bases da Nato mata 24 rebeldes talibã» (Jornal de Notícias, 29.08.2010, p. 57).


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Mercados de levante

Elogio do clima


      Decerto que se recorda da questão do mercado de levante. Pois na edição de ontem do Público podia ler-se isto: «Viajando por diversas cidades, procuro — e facilmente encontro — os mercados mais diversos. Mercados permanentes e mercados de levante (que, justamente, se levantam de madrugada e retiram ao fim do dia)» («Os mercados de levante», João Seixas, «Cidades»/Público, 29.08.2010, p. 2). Muito bem explicado, sim senhor. Levantam-se, isto é, são armados (tendas, barracas), montados (bancas), logo de madrugada, e retirados ao início da tarde ou ao fim da noite. O autor do texto, geógrafo urbano, diz-nos que «só nos últimos dois anos, Nova Iorque instalou 50 novos mercados, quase todos de levante», estranha que num país como o nosso, com este clima, não haja mais mercados.

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Tradução: «ingenio»

Imagem tirada daqui

Engenhar com números


      Ingenio é uma dessas palavras espanholas infinitamente mais ricas na língua que no dicionário, sim, mas, ainda assim, infinitamente mais ricas no Diccionario da Real Academia Española que em qualquer dicionário bilingue. Se eu fosse sentenciador (e parvo, e parvo), até diria: dos que houve, há e haverá. No D. Quixote, ingenio, que aparece 45 vezes, é agudo, maduro, cultivado, felicísimo, boto, corto, seco, sutil, admirable, gran, ruin, desenfadado, buen, resfriado... Abro de novo a tradução de D. Quixote feita por José Bento, que me acompanha por estes dias que me abafam o engenho para obra mais substanciosa, e faço as contas: o tradutor verteu o vocábulo 21 vezes como «engenho», 13 como «inteligência», duas como «esperteza», cinco como «mente», duas como «imaginação», uma como «espírito» e uma como «cérebro». Vamos agora, como leitores usurários, aplanar o trabalho alheio e dizermos que podia ter recorrido a menos palavras, ou mesmo a uma só, como alguns pretendem? Não e não, que os matizes no original também podem, e muitas vezes devem, ser dados por diferentes vocábulos. Que não vamos agora poupar riquezas e esbanjar pobrezas.

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«Faixa de Gaza»

Já há quem


      Só espero que não tenha sido por acaso, que tanta culpa tem no que acontece de bom e de mau: na revista Notícias Sábado de ontem, num artigo sobre a inauguração de um centro comercial, o Gaza Mall, na faixa de Gaza, a jornalista foi assim mesmo que grafou e como eu recomendei há uns meses: «As notícias internacionais mostram o território da faixa de Gaza isolado, com uma população miserável apanhada no meio da guerra fratricida entre o Hamas e a Autoridade Palestiniana e sujeita ao embargo israelita» («Até a faixa de Gaza já tem um centro comercial», Ana Pago, Notícias Magazine, 28.08.2010, p. 11).

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«Câmara-ardente» e «primo direito»

Desde quando?


      «Os corpos de mãe e filha serão hoje resgatados por familiares no IML de Aveiro, por volta das 10 horas, seguindo para a igreja matriz de Arcozelo das Maias, onde ficarão em câmara ardente até às 15 horas. Serão sepultados em campa de família, no cemitério local. “Estamos todos de luto. Eram duas almas boas. Os meninos (órfãos de mãe) perderam duas mães”, diz uma prima directa das vítimas» («ADN confirma mãe e filha carbonizadas», Jesus Zing, Jornal de Notícias, 28.08.2010, p. 4).
      Primos há muitos, e direito e directo são palavras divergentes, isso é verdade, mas o que sempre ouvi e li foi primo direito.
      Todos os dicionários que consultei grafam câmara-ardente desta forma, com hífen. E todos os jornais, os bons e os menos bons, assim grafam: «O corpo de Barradas está em câmara-ardente no Palácio das Galveias, em Lisboa, de onde o funeral sai hoje, às 15.00, para o Cemitério do Alto de São João» («No teatro como na vida era um militante de esquerda», M. J. C., Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 51). «O corpo do actor está em câmara-ardente hoje, a partir das 17h00, na Basílica da Estrela, em Lisboa» («Actor Luís Zagallo parte aos 69 anos», Sofia Rato, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 41).

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Tradução: «suceso»

Ler e contar


      Sabiam que Cervantes usou 157 vezes a palavra suceso no D. Quixote? E sabiam que o tradutor José Bento só duas — duas, tomem nota — verteu como «sucesso»? Claro que não sabiam, que estas são contas que só eu faço, e não tenho formação em engenharia, como Jorge de Sena. Fê-la corresponder aos nossos vocábulos «acontecimento» (a maioria das vezes, como é fácil de imaginar), a «êxito», a «história», a «vitória», mas também a «suceder», «sucedido», «resultado», «lance», «fim», «desgraça» (mal suceso), «mau bocado» (mal suceso), «o que acontecia», «o que se passou», «caso», «desenlace», «episódio», «final [feliz]» (buen suceso), «[feliz] desfecho» (buen suceso), «[feliz] resultado» (buen suceso), «triunfo» (buen suceso), «procedimento», «conhecimento»...

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Como se escreve nos jornais

Do espanador para o rato


      Pelo menos três pessoas deviam ter lido o artigo, mas saiu isto: «Renato Pedro é um dos 1436 portugueses que tiveram de ser internados devido ao vírus H1N1, mas a sua história é única, tanto em Portugal como, provavelmente, a nível internacional. Porque passou meses em coma, fez choques cépticos, teve uma pneumonia bilateral extensa, entrou em falência renal e, por várias vezes, foi resgatado de paragens cardio-respiratórias» («Doente com gripe A teve alta após luta de um ano pela vida», Helena Norte, Jornal de Notícias, 27.08.2010, p. 6). E, no fim, o leitor ainda foi brindado com uma «musculatura orofaringea». Talvez a senhora da limpeza, romena ou ucraniana, andasse por ali a espanejar e tivesse decidido fazer a revisão do texto. Reparem como aos erros se junta o jargão médico: «fez choques». Chocado fico eu com este psitacismo jornalístico.

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Aportuguesamento: «placar»

Entrou nos hábitos


      «O edifício ficou assim excluído de uma iniciativa que ontem concedeu a Times Square — a praça onde confluem algumas das maiores avenidas da cidade — uma aura azulada, proveniente das luzes de edifícios e placares» («Católicos celebram os cem anos do nascimento da ‘santa dos pobres’», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 29).
      Embora seja um estrangeirismo para o qual temos vocábulos correspondentes, entrou em força na nossa língua. Ultimamente, está a consolidar-se o aportuguesamento placar. Ao lado do verbo «placar», o mesmo que «aplacar», e do também francesismo «placar», o termo do râguebi. A língua aguenta. E nós também.

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Léxico: «mocktail»

Uma imitação, sem moca


      «Foi este espaço que o DN foi visitar. Não para falar sobre cocktails, mas sobre uma versão sem álcool destas bebidas: os chamados mocktails» («Já provou ‘mocktails’?», Catarina Reis da Fonseca, «DN Verão»/Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 10).

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Colectivo de tubarão

Peixe seláquio, de grande porte


      «Quando zarparam do porto de pesca de Portimão, com destino a águas de Sagres, o objectivo era o de todos os dias: pescar cavala, sardinha e carapau. Não esperavam, por isso, deparar-se com um cardume de tubarões» («Dezenas de tubarões invadem costa algarvia», Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 13).
      Sim, senhor, que tubarão é peixe, tão peixe como um carapau. Só não estamos habituados a ouvir e a ler este colectivo referido a tubarões.

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Estrangeirismos e itálico

Imagem tirada daqui

Isso é que é pensar


      «Mehlman foi responsável do Partido Republicano de 2005 a 2007, precisamente quando se radicalizavam as posições anti-gay da direita americana» («Ex-director de campanha de Bush assume-se como homossexual, L. R., Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 29).
      Já aqui tinha abordado esta questão — mas já foi há muitos anos. Reparem no preciosismo gráfico: metade em redondo, metade em itálico. Que porcaria é esta? A língua inglesa não tem, porventura, a palavra «anti-gay»?
      Para rirmos até ao fim (desmentindo assim o aforismo), lemos isto umas páginas à frente: «Este foi um ponto de forte discórdia entre a FIFA e a Agência Mundial Antidopagem (AMA), pois a FIFA resistiu a alterar os seus estatutos e permitir que a AMA, as agências antidoping nacionais e a própria FIFA pudessem recorrer para o TAS [Tribunal Arbitral do Desporto] de decisões sobre doping» («Queiroz não pode recorrer para a FIFA», Cipriano Lucas e Duarte Ladeiras, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 44). Pois é, mas se em inglês é «anti-doping», porque não grafam anti-doping, hã?

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Nomenclatura científica

E eles aprendem?


      «Foi a bactéria helicobacter pylori que provocou o cancro de estômago que matou no dia 20 de Julho o judoca internacional português Tiago Alves, de 18 anos» («Você pode estar infectado», Mariana Correia de Barros, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 88).
      Já há muito tempo que não abordava aqui a nomenclatura científica, e nunca ninguém terá falado tanto desta questão como eu, não porque tenha deixado de ver erros na imprensa, mas porque cruzei os braços. Nova investida, agora, e para me repetir, até para, descomplexadamente, me autocitar: nos jornais ainda compreendo (a pressa, a falta de revisores, etc.), não nas revistas e nos livros. É, nada de paninhos quentes, intolerável tanto amadorismo, e estou a referir-me, desta vez, aos revisores.

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«Suite»/«suíte»

Há muitos anos


      «Foram três dias difíceis, de grande sacrifício pessoal. O repórter Ricardo Dias Felner entrou no motel D’lirius Azuis, entre Rio de Mouro e Sintra, às 13h. Saiu às 18h, depois de uma longa e detalhada bateria de testes à suíte principal» («O teste aos motéis», Miguel Pinheiro, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 6).
      Como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo «suíte», seja o quarto de hotel, seja o termo do léxico musical, sem acento agudo, temos mais de metade da população a escrever dessa forma. Faz-me lembrar o que acontece em certo jornal: dois revisores grafam sempre a palavra «míster» com acento, outros dois grafam sempre sem acento, e o quinto grafa ora de uma ora de outra forma em função de com quem está acompanhado. Um critério de conveniência... Ah, sim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo aportuguesado, com acento: «míster».

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«Correr as cortinas»

Imagem tirada daqui

Ao correr da pena


      Quando corremos um ferrolho ou uma cortina, como ficam a cortina ou o ferrolho — abertos ou fechados? Simples? Não para um jornalista: «À esquerda fica o quarto, amplo, o tecto estrelado, uma música a sair baixinho das colunas embutidas. Quando se correm as cortinas e levantam os estores (normalmente fechados), o efeito intimista perde-se» («Dois dias em motéis com muito sacrifício», Ricardo Dias Felner, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 84).
      Ainda recentemente vi este mesmo erro, mas não disse aqui nada. Ou seja, corri uma cortina sobre o assunto. Décima acepção do verbete «correr» no Dicionário Houaiss: «Empurrar ou puxar (algo), fazendo deslizar. Ex.: para que o sol não entrasse, correu as cortinas.» Convenho: a definição está mal redigida, pois somente pela leitura do exemplo se fica a perceber que esse movimento se faz no sentido de fechar as cortinas. É o que eu costumo dizer: os dicionários têm muito por onde melhorar. Tal como os falantes.

[Post 3819]
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Ortografia: «neonatologia»

Vai melhorando


      «A Maternidade Daniel de Matos, em Coimbra, reabriu ontem a unidade de neonatologia a novos internamentos, disse Fernando Regateiro, presidente do conselho de administração dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC)» («Maternidade de Coimbra retoma internamentos na Neonatologia», D. M., Diário de Notícias, 25.08.2010, p. 12).
      Pelo menos nesta, ou, melhor dizendo, pelo menos na página da Internet, não escrevem esse absurdo que é «neonatalogia», como vimos aqui. Ainda há esperança.

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Léxico: «radiotelefone»

Esmerem-se


      «“Puro, Chile, é o teu céu azulado...” cantaram os 33 mineiros presos há 20 dias a quase 700 metros de profundidade. O hino chileno soou no radiotelefone quando souberam que os companheiros sobreviveram ao acidente de 5 de Agosto e que os seus familiares estão acampados à superfície» («Mineiros ignoram que resgate vai durar meses», Susana Salvador, Diário de Notícias, 25.08.2010, p. 22).
      O Dicionário Houaiss não regista, santo Deus!, o vocábulo «radiotelefone». (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Vejamos o que dizem outros dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-o assim: «Aparelho receptor na transmissão da palavra pela radiotelefonia.» Percebe-se? Não me parece. E quanto ao Dicionário Priberam da Língua Portuguesa? O verbete diz isto: «Telefone colocado num veículo e que funciona utilizando ondas radioeléctricas.» Se estiver no fundo de uma mina, já não é um radiotelefone? Passemos a fronteira. A definição do DRAE é esta: «Radioteléfono. m. Teléfono sin hilos, en el que la comunicación se establece por ondas electromagnéticas.»

[Post 3817]
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Ortografia: «homem-forte»

E pode não ser forte


      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista homem-bom, homem-galinha e homem-rã. Ora, homens-bons já não há; homens-galinhas só no Brasil; os homens-rãs metamorfosearam-se em mergulhadores. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista homem-bom, Homem-Deus, homem-orquestra, homem-rã e homem-sanduíche. De vez em quando, porém, vai-se insinuando, por enquanto ainda apenas nos jornais, outro homem composto: «Uma corrida contra o tempo para salvar vidas, num ambiente aterrador, exigiu serenidade ao homem-forte das operações de socorro do distrito» («“As equipas que intervêm têm de ter alguma frieza nestas situações”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 25.08.2010, p. 5). E justifica-se o hífen neste caso? Não configura um sentido diferente da simples adjunção dos vocábulos «homem» e «forte»? Como entre «braço-direito» e «braço direito». Está aí a resposta.

[Post 3816]

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A regência de «preferir»

Desprestigiante


      «Hesitante, prefere antes falar em romeno do que em francês» («Ciganos repatriados mantêm sonhos francês», Isabelle Wesselingh, Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 25).
      Que trapalhada, na verdade! O verbo preferir, e já aqui abordei diversas vezes a questão, rege a preposição a e não a construção do que, e o advérbio antes é pedido por outra construção. Este é, contudo, um erro já com fortes raízes. Outro exemplo da mesma edição deste jornal: «Legítima pretensão, mas Franco não tinha grande apreço pelo ramo da família de Carlos Hugo, preferindo antes a linhagem de D. Juan de Borbón» («Espanha perde o príncipe que disputou o trono com o Rei», Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 49). Em relação ao primeiro excerto, porém, a questão é ainda outra. Isabelle Wesselingh é uma jornalista francesa, da agência France-Presse (AFP), e não escreveu o artigo em português. Alguém o traduziu, e traduziu com erros daquele jaez. A acompanhar a autoria, devia aparecer sempre o nome de quem fez a tradução.

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Ortografia: «mal-amanhado»

Sem revisor, não será fácil


      «Ao que se diz, Passos Coelho mora em Massamá. O facto pertence à mesma família de uma fotografia de José Sócrates, adolescente e com fato mal amanhado» («Peúgas, fatos e moradas», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 23.08.2010, p. 52).
      Mal antes de vogal e h, caro Ferreira Fernandes, pede sempre hífen: mal-amanhado como mal-amado. E mal-afeiçoado como mal-afortunado. Mal-agradecido como mal-ajambrado... Pecadilho facilmente desculpável em quem tão bom português nos dá diariamente, mas não deixa de ser um atentado à ortografia. Esperamos agora a devida e cristã resipiscência.

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Léxico: «desbridar»

Aqui não há cavalos


      O mais provável, quando lemos a palavra «desbridar», se descontextualizada, é pensarmos em brida, a correia que se liga ao freio ou bridão dos cavalos. Esta é outra acepção, de uso científico, e, o que não é o mais habitual, dicionarizada: «Nestas situações, o procedimento é sempre o mesmo — mas pode variar entre horas e dias. “Primeiro é preciso desbridar, ou seja, tirar os tecidos mortos, e depois começar a reconstruir o possível”, explica o especialista [João Anacleto] à SÁBADO» («Doutor, dei um tiro no pé», Vera Moura, Sábado, n.º 329, 19.08.2010, p. 80). Também em inglês existe o verbo debride (e o substantivo debridement, «desbridamento»), que deriva, como o português, do verbo francês débrider, com o mesmo significado.

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Género de «dengue»

Simples casmurrice?


   O Diário de Notícias continua a atribuir o género masculino ao vocábulo «dengue»; os dicionários continuam a registá-lo somente como sendo do género feminino. «A Holanda identificou uma colónia de mosquitos Aedes aegypti, responsáveis pela transmissão do dengue e da febre-amarela» («Portugal atento ao regresso do mosquito da febre-amarela», Ana Maia, Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 14).

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«Dobrar os óculos»

Idiomático, sim, mas


      «“Já estava a dobrar os óculos com as mãos”, contou ontem ao CM o professor, que pediu para não ser identificado, lembrando que não é a única vítima do rapaz com necessidades educativas especiais. Há pelo menos cinco casos. O aluno ataca sobretudo os óculos de docentes e funcionários» («“Professor, vou-te partir os óculos!”», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 23.05.2008).
      Não, não vou falar de rufias mentecaptos. Reparem naquela forma peculiar de dizer: «dobrar os óculos». Será mesmo peculiar? «He took off his glasses and folded them on his lap...» «Tirou os óculos e dobrou-os no regaço...» Podia pensar-se que se adequaria mais o verbo «fechar», por exemplo: «Já estava a fechar os óculos com as mãos.» Não, não: o rufiazinho já estava a dobrar, para partir, os óculos.

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Sobre «câmara-de-ar»

Imagem tirada daqui

Pensemos nisto


      Os Brasileiros grafam câmara de ar e nós, câmara-de-ar. O problema, porém, não é nem podia ser esse. Vejam a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Tubo circular de borracha que, cheio de ar, se ajusta à volta do aro das rodas das bicicletas, dos automóveis, etc.» Ora bem, e como se diz «câmara-de-ar» em inglês? Justamente: inner tube. E que nome se dá ao compartimento que, nas naves espaciais, permite a passagem de pessoas e objectos de uma área com um nível de pressão para outra com diferente nível? Em inglês, airlock. Em português, muitas vezes câmara de ar. E sala estanque. E sistema de saída para o espaço. E escotilha de despressurização... Supondo que a primeira é a designação mais usada, falta acrescentar uma acepção no verbete dos dicionários. E mais: não há compartimento destes somente nas naves espaciais.  É verdade que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista, além da definição do dicionário da Porto Editora, esta: «Cavidade que contém ar.» Contudo, não me satisfaz.

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Tradução: «levelly»

Desnivelado


      Conheciam-se mal, era a segunda vez que se encontravam. Estavam agora num cafezinho. «She watched him levelly», dizia o original, e fez-lhe outra pergunta relacionada com o pai dele. «Ela observou-o com equanimidade», complicou o tradutor. «Equanimidade» é uma palavra demasiado pesada e, ao mesmo tempo, demasiado etérea. «Equanimidade» é, e sigo a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «igualdade de espírito perante a prosperidade e a adversidade; serenidade de espírito; imparcialidade; rectidão». Estavam sentados, pelo que aquele «levelly» até pode referir-se à posição que ela adoptou: observou-o de frente. Fitou-o olhos nos olhos. Ou, até, olhou-o de igual para igual, mas só um contexto mais alargado permitiria dizer se se adequava. Que acham?

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Tradução: «deck»

Imagem tirada daqui


Proponham


      Uma casa junto do mar, assente em palafitas (stilts), com um deck à volta. Um deck... Talvez uma plataforma, uma coberta... Não, «coberta» não, faz lembrar demasiado um navio, que, apesar de tudo, a casa não é. É difícil encontrar a palavra certa. Sim, com certeza, um promotor imobiliário diria, presunçoso, «deck». Nós não podemos exprimir-nos assim.

[Post 3808]
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Léxico: «macaréu»

Para a troca


      Como nos acontece em relação às pessoas, também há palavras que nos parece já termos encontrado alguma vez. «Macaréu» é uma delas. Na crónica de Nuno Rogeiro no Jornal de Notícias de ontem («Águas profundas», p. 9), fui encontrá-la: «Parece natural que, face a terramotos e macaréus, incêndios e vendavais, a primeira reacção seja a da ajuda, pura e simples.» Está a falar do Paquistão, um país com «vida tribulada» (mais antigo e próximo do étimo latino que «atribulada»). Se estivesse em amena conversa com o autor, agradecer-lhe-ia as palavras, e sobretudo «macaréu», mas também lhe perguntaria se queria mesmo manter esse disparate de «catástrofes humanitárias»; perguntar-lhe-ia se as primeiras estimativas para a reconstrução do Paquistão apontam mesmo para «15 biliões de euros» ou se não será um valor com uns zeros a menos; dir-lhe-ia que se não escreve «as referidas vinte milhões de almas», mas «os referidos vinte milhões de almas».
      Macaréu. Dos três dicionários aqui mais citados, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é o que apresenta a melhor definição: «Onda de maré formada pelas grandes massas de água acumuladas na preia-mar, à entrada de certos estuários, e que avança, em forma de muralha, pelo rio, após ter vencido a força da corrente deste.» O verbete do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisa claramente de ser revisto.

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Tradução: «stepping-stone»

Também é dramático


      Já duas personagens diferentes passaram sobre stepping-stones para chegar aonde queriam. Bem, no primeiro caso, as pedras do jardim eram como stepping-stones. No segundo, sim, eram mesmo stepping-stones. Das duas vezes, o tradutor, ignorante da palavra portuguesa, diz que a personagem «pulava pela correnteza de pedras que serviam de trampolins». Estão a ver como há sempre quem não saiba?
      Há quatro anos já que aqui referi que a tradução correcta desta palavra inglesa é alpondra. Entretanto, já nasceram novas fornadas de tradutores.

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Tradução: «dramatically»

É claro que é dramático


      Eurico de Barros escreveu um texto todo catita sobre as recomendações do organismo nacional de turismo britânico, o VisitBritain, sobre os Jogos Olímpicos de 2012, mas com os erros que qualquer tradução descuidada tem. Segundo aquele organismo, a Espanha era até há pouco tempo muito machista, mas mudou «dramatically». «Dramaticamente», traduziu o jornalista. Quando tiver de a usar num contexto que a exija, a palavra terá perdido eficácia. O texto («Como lidar com os estrangeiros», Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 44) começava com uma «listagem de sugestões para consumo interno e conformes às características nacionais dos muitos turistas que acorrerão às Olimpíadas de 2012». «Listagem», pois.

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Tradução: «paper»

Aos papéis


      Uma personagem, professor universitário, tinha uma determinada teoria, que não posso identificar, e «once wrote a paper». Para o tradutor, este paper é uma dissertação. Ora, esta é apenas uma das correspondências possíveis, mas decerto que não a adequada no contexto. Terá escrito um ensaio, talvez uma monografia.

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Tradução

E não bate bem da cabeça


      Lembram-se da rapariguinha de ontem? Sim, aquela que coxeia. Tem mais problemas — pelo menos na tradução. «Ela sacudiu a cabeça em negação», leio de duas em duas páginas. São, então, problemas de cabeça. Também se lembrarão do anacronismo na última obra de Moita Flores, espero, e da fase de negação. Pois aqui não é nada disso, porque o original diz isto: «She shook his head.» Isto também é divertido. E trágico, pois.

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Acordo Ortográfico

Mais desortografias


      Os meus leitores não dormem: às 4.42, avisavam-me de que no sítio do Expresso estava — num título! — esta preciosidade: «Maré negra: México e Washington vão avaliar juntos o impato ambiental». O Gabinete de Copydesk do Expresso tem a máquina de tirar consoantes desafinada. Entretanto, o sítio foi «atualizado» às 6.22 e os olhos de lince míope do revisor não viram nada. Com bojardas destas, mais do que de um Gabinete de Copydesk, estão a precisar de um Gabinete de Crise. É como diz o meu leitor: divirta-se, que isto é só o começo. É o que estou a fazer.

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«To order»

Bela encomenda


      O jornalista Jorge Fiel está de férias nos Estados Unidos, motivo mais do que suficiente para confundir um pouco as línguas: «Nos States, o simples acto de encomendar um vulgar cheeseburger fora das cadeias globais pode ser o passaporte para uma aventura em que caímos na contingência de optar entre o cheddar, jack, swiss, blue ou american cheese» («Os militantes dos Assuntos Pendentes», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 7). Antes, já se tinha baralhado nas línguas: «Ao terceiro dia, não resisti à tentação de aplicar um chuto de colesterol directo na veia e, de castigo, fui submetido a um interrogatório pelo Cliff, que não se ficou quando lhe encomendei ovos com bacon
      Logo que chegar a Lisboa, recomeça a pedir em vez de encomendar. Pelo menos é o meu desejo, mas já sei que há tradutores que fazem isto a vida inteira, decerto por não terem tempo de ler depois de revistos os livros que traduzem.

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Regência verbal

Caem e recaem


      «Se a paixão recai por modalidades náuticas, como vela ou canoagem, então existe um investimento que pode incluir material e inscrição num clube para a prática destes desportos» («Praticar desporto no meio da natureza», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 44).
      Não sei em que país vivem estes jornalistas que trocam ou não apanham no ar as regências verbais e nominais. Diz-se recair em ou recair sobre.

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Verbo

Arrojos estivais


      «Uma baleia-anã, em avançado estado de decomposição, arrojou ontem à tarde na praia de Faro. De acordo com o biólogo marinho Élio Vicente, o animal morreu há pelo menos seis dias e não será possível saber o que aconteceu» («Baleia-anã morta há seis dias deu à costa na praia de Faro», Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 13).
       Que baleia-anã intransitiva é esta? Há-de ter sido mais o mar que arrojou a baleia à costa. É pena o mesmo mar não ter arrojado gramáticas para a praia em dia que o jornalista lá estivesse.

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Léxico: «condition»

Claudica


      A rapariga «developed a particular way of walking to accommodate her condition». Andava com o auxílio de uma muleta. A história está no princípio, pelo que não sei porque está assim. O tradutor assegura que ela «desenvolvera uma forma particular de andar para acomodar a sua condição». Ainda recentemente aqui falámos deste «condition» e de como deve traduzir-se. E aquele «accommodate»... Hum... Vamos ajustar isto. Que acham os meus leitores?

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Léxico: «chocalheiro»

Um trabalho sério


      «Aos 75 anos, António Ferreira da Costa é o último dos chocalheiros dos Açores. As folhas de chapa de latão custam-lhe 25 euros no mercado e dão para fazer 15 chocalhos, que vende a 20 euros (vacas) e a dez (cabras). Cada chocalho demora duas horas a fazer» («Último chocalheiro vive em Angra do Heroísmo», Correio da Manhã, 17.08.2010, p. 21).
      Bem, talvez já não valha a pena os dicionários da língua portuguesa registarem a acepção. Este atraso é atávico. Fiquem apenas com os intriguistas, os mexeriqueiros.

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Sobre «resignação»

Não me resigno


      «“Quando um bispo chega aos 75 anos, segundo o direito canónico, deve pedir a resignação. A partir daí inicia-se um processo de substituição organizado pela Nunciatura Apostólica”, explica Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal» («Oito bispos diocesanos vão apresentar a sua resignação», Público, 16.08.2010, p. 6).
      Bem, o certo é que a versão em português do Código de Direito Canónico não usa o termo «resignação», mas «renúncia». Recordo ao Sr. P. Manuel Morujão o Cânone 401 § 1: «O Bispo diocesano, que tiver completado setenta e cinco anos de idade, é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, que, ponderando todas as circunstâncias, tomará providências.» Se estivermos a falar em inglês, então sim, dizemos que o bispo «is requested to present his resignation». No caso, vale mais recordar a versão latina do código, o Codex iuris canonici, que diz que o bispo «rogatur ut renuntiationem». É um refrigério ler em latim, tanto mais que a versão portuguesa está mal pontuada.

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Sobre «conceção»/«concepção»

Desortografias


      «Leio, por exemplo, na pág. 20 do último número do J/L, Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 11 a 24.8.10, que “para a autora é essa uma das principais linhas da sua conceção de poema (…)”. A culpa da “conceção” não é evidentemente do autor do texto, mas da redacção do jornal. O J/L pertence ao grupo Impresa e este resolveu adoptar as pseudo regras dessa enormidade que dá pelo nome de Acordo Ortográfico» (‘Silly season’ e ‘silly country’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 50).
      E por falar de desortografia, muito se descuidou o colunista ao escrever «pseudo regras». Estilhaçaram-se os telhados de vidro. Continuemos: «Se isto já envolve o recurso ao mais aberrante dos instrumentos utilizáveis, no caso de “conceção” as coisas vão ainda mais longe e entram patentemente no domínio da “desortografia”. É que os dicionários brasileiros não registam “conceção”. Registam, normalissimamente, “concepção”. Não há qualquer dúvida. Consultei o Michaelis e o Aurélio. Nada. Ainda admiti que os volumes em suporte de papel estivessem desactualizados. Fui à Internet consultar as versões on line. Nada…» (idem, ibidem). Aqui, francamente, não percebo. Se na norma brasileira da língua portuguesa se articula o p de «concepção», como queria que o não grafassem? Peguemos num exemplo ao contrário. Acaso os dicionários brasileiros grafam o c de «facto»?
      Não sou defensor deste acordo ortográfico que entrou agora em vigor, mas sim da coerência e da sensatez. Já aqui falei do caso de «espetadores», vocábulo com que Vasco Graça Moura exemplifica, dizendo-o «alvoroçadamente cunhado pelo Expresso», o descalabro ortográfico, donde colijo que também é adepto de uma ortografia ao gosto e medida de cada um. Ora, tal é inadmissível.
      Para terminar, não percebo porque é que se há-de grafar a abreviatura de «Jornal de Letras, Artes e Ideias» com barra, J/L. Tão incorrecto como escrever C/M para «Correio da Manhã», D/N para «Diário de Notícias», J/N para «Jornal de Notícias», etc.

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Léxico: «desforradeira»

Mais uma lacuna


      Qualquer bombeirito conhece a palavra «desforradeira», pois designa um instrumento de trabalho no combate aos incêndios. E o leitor também há-de ter uma ideia. Está a ver aquelas hastes compridas terminadas em forma de gancho achatado? São as desforradeiras, que servem para abrir espaços nos tectos de construções de madeira. E desforrar não é retirar o forro, o revestimento, o tecto? Então, está explicado, só não se explica a ausência deste vocábulo de todos os dicionários.

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Como se escreve nos jornais

Opiniões


      No início do blogue, afirmei que nunca iria ocupar-me de gralhas, o que mantenho. Com milhares de erros e questões linguísticas problemáticas, não me parece que tenha jamais de descer tanto. O intróito serve para prevenir que, embora alguém repute como gralha o que a seguir transcrevo, não o considero tal.
      «Vera Jardim, um militante histórico e um dos melhores ministros da Justiça que o País esteve, passa por ter uma “provecta idade” e, por isso, fazer opções “estranhas”» («O velho e o novo PS», Eduardo Dâmaso, Correio da Manhã, 17.08.2010, p. 2). Reparem que é o editorial, assinado pelo director adjunto.
      Já conhecíamos o verbo *tar da oralidade, mas num texto jornalístico não é menos que imperdoável. Os «meios aéreos» (que não defendi, e muito menos a estulta quantificação que lemos e ouvimos todos os dias), comparados com isto, não são nada que mereça perdermos a cabeça. Confundir teve (pretérito perfeito do indicativo do verbo ter) com esteve (pretérito perfeito do indicativo do verbo estar) é que me parece gravíssimo. E pergunto-me, naturalmente, se também neste jornal os revisores são prevenidos para não bulirem muito com os textos das chefias e colunistas. Nada de explícito, formal, apenas um aviso sussurrado por um colega mais velho — e sem espinha dorsal.

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Topónimos

Semianalfabetos


      «A zona mais atingida pela intempérie foi o noroeste do Paquistão, habitual palco de combates entre forças do exército e a guerrilha talibã. Mas também as regiões de Punjab e Sind, no Sul, foram muito afectadas» («Um quarto do Paquistão foi atingido pelas cheias», Pedro Correia, Diário de Notícias, 16.08.2010, p. 23). «A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou ontem para o risco de seis milhões de pessoas no Paquistão poderem vir a ser contaminadas com doenças potencialmente fatais na sequência das cheias que deixaram completamente submersas as planícies do rio Indo na populosa província do Punjab e nas regiões vizinhas de Sindh e Baluchistão — que ontem estavam ameaçadas por mais chuvas e inundações» («Seis milhões em risco de contrair doenças contagiosas no Paquistão», Rita Siza, Público, 17.08.2010, p. 11).
      No caso, a diferença não é muito grande: Sind ou Sindh. Contudo, em boa parte da má imprensa pôde ler-se, ao longo da semana, «rio Indus» — bem conhecido dos leitores anglo-saxónicos.

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«Meios aéreos»

Imagem tirada daqui

Mais lambras


      «Em plena época de incêndios», escreve-me um leitor, «gostaria de o ver tratar no seu blogue de uma questão que me levanta as mais sérias dúvidas: a dos famigerados “meios aéreos”. Todos os dias se lê e ouve dizer coisas do tipo: “O incêndio foi combatido por x bombeiros e y meios aéreos” e isto causa-me erisipela. Será só a mim?»
      Não é, pelo menos se essa inflamação for causada pela quantificação dos «meios aéreos». A locução não terá, tenho quase a certeza, nascido da cabeça dos Portugueses: foi importada de França, não já pelo paquete do Havre, mas por moyens aériens. Claro que antes dos aéreos tínhamos somente os moyens de combat, locução referente à guerra. Com o advento da aviação, esses meios passaram a ser também aéreos e não meramente terrestres e navais. A determinada altura, os termos passaram a ser usados, pela similitude, para o combate aos incêndios — e não chamamos aos bombeiros «soldados da paz»? Por um princípio de economia, passámos a referir-nos elipticamente aos «meios aéreos».

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Nomes pátrios, étnicos ou gentílicos

Mais uma sapatada


      Que nome têm os naturais e os residentes em Caxemira? Não são muitos os dicionários a registá-lo, mas os que o fazem dizem que são os Caxemirenses. Alguma imprensa portuguesa, porém, prefere copiar a forma inglesa: «O homem falhou o alvo e o líder caxemire [Omar Abdullah] prosseguiu o seu discurso após uma breve pausa» («Líder da Caxemira alvo de sapato», P. V, Diário de Notícias, 16.08.2010, p. 23).

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«Estar a ser presente a tribunal»

Do Cáucaso


      Ser presente a tribunal, esse rebarbativo dizer do jargão jurídico, já é suficientemente mau, mas os jornalistas têm artes de o piorar. Ora vejam: «O alegado violador de 30 anos estava ontem a ser presente a primeiro interrogatório judicial, no Tribunal Judicial da Amadora, para saber a medida de coacção a que ficará submetido» («Violador em série foragido foi detido pela PJ», Rute Coelho, Diário de Notícias, 14.08.2010, p. 20). E quanto às vítimas, pode dizer-se alguma coisa? Só com um anglicismo: «Das três vítimas registadas pela PJ só uma é de etnia africana, as outras são caucasianas» (idem, ibidem).

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«Acima»/«a cima»

É pena


      «As lambras estendiam-se ladeira a baixo na direcção do autotanque de Alcobaça, acabado de capotar» («O lume que trouxe o diabo no corpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 14.08.2010, p. 2). A jornalista também gostou da palavra «lambra», e, com o entusiasmo, errou: escreve-se «ladeira abaixo». Mais à frente, porém, lemos isto: «“Se eu estivesse aqui, olhe que morria. E se não fosse o meu filho a levar-me no carro, estrada acima, como é que eu fugia?”, pergunta Esmeralda, apoiando o peso do corpo entravado no pau de madeira, habituado a servir de bengala há já muitos anos» (idem, ibidem, p. 5). Lembrem-se do poema de Fernando Venâncio: «Escada acima,/Escada abaixo,/Rua afora,/Mar adentro.» Se o corpo estivesse apenas «entravado no pau», teria gostado muito. Para quê «pau de madeira»? Pau não é (lanço mão da definição do Dicionário Houaiss) «qualquer madeira, ou pedaço dela (acha, bastão, lasca, vara, viga, etc.)? A imagem da entrevistada sugere isso mesmo: inclinada para a frente e apoiada no pau, o corpo está travado — entravado. Perigosamente próximo de entrevado. Ou será que, sou agora assaltado pela dúvida, a jornalista queria escrever «entrevado»?

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Revisão

Uma lição portuguesa


      O trivial: faltas de concordância, erros de pontuação e de ortografia, frases ilegíveis e falta de cultura. Um escreve sobre «um encontro que oporará dois crónicos candidatos», outro confunde «conjuntura» com «conjectura», aqueloutro escreve «beneficiência», estoutro assevera que a capital de Cabo Verde é a «Cidade da Praia», e por aí fora. «“Já se tornou um hábito”! Um hábito, dois hábitos, três hábitos...», murmura o revisor antibrasileiro. Contudo, o que o faz mesmo entrar em delírio é a palavra «soalheiro». Tratava-se de uma ficha de jogo, com o número de espectadores, a hora a que começou, faltas e outras informações de igual jaez e relevância. Naval-FC Porto. «Fim de tarde soalheiro», escreveu o inocente jornalista. Nisto, o revisor lança um grito triunfal e agarra no dicionário e quer ver, à viva força, no verbete «ensolarado», com que queria substituir aquele «soalheiro», algo como «diz-se do tempo em que há sol», mas, desobediente, o dicionário só lhe diz «que está ao sol; soalheiro». Já a matéria não nos obedece. Deve ser porque as ondas de calor interferem com as ondas telepáticas, refractando-as e dispersando-as no éter.

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Revisão

Uma lição africana


      Mário Pinto de Andrade estava então radicado em Cabo Verde. Tinha mandado rever o texto de um discurso e, quando o revisor lhe entregou as provas, viu, satisfeito, que todas as desconcordâncias, todas as faltas de ortografia, todos os problemas de pontuação estavam resolvidos. Em boa hora (para ele, e má para o revisor), porém, aprofunda a análise e vê que o sapateiro, perdão, o revisor, se tinha atrevido a «corrigir-lhe» uma tirada marxista (ou será proudhoniana?). O intelectual africano tinha escrito «exploitation de l’homme par l’homme», mas o revisor quis que fosse «exploration de l’homme par l’homme». Não morreu então, mas explodiu, apopléctico, perguntando se o revisor já se atrevia a corrigi-lo e se não sabia que exploration se usa em relação à extracção de minério. Uns rapapés, umas humílimas escusas do revisor — e uma lição para a vida.

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Léxico: «lambra»

Era bom, era


      «O lume parecia que trazia o demónio. E botando línguas de 100 metros, daqui de cima, foi lançar-se lá em baixo. Se visse essas lambras... eram de deitar as mãos ao céu.» Parece uma personagem vicentina ou cervantina a falar. Se os nossos professores universitários e deputados escrevessem e falassem assim, estávamos bem. E quem se exprime assim? É uma moradora da aldeia de Bustarenga: «Carminda Guimarães descreve em tom exaltado, mas sem tirar o sorriso do rosto, os minutos de aflição que reduziram a escombros as duas casas onde guardavam as coisas da terra» («O lume que trouxe o diabo no corpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 14.08.2010, p. 6). Não procurem a palavra mais saborosa do discurso no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pois este dicionário não a regista. É com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa que ficamos a saber que lambra é «fome» em Trás-os-Montes e «labareda» na Beira. Confere, pois a aldeia de Bustarenga fica no concelho beirão de S. Pedro do Sul, na serra da Gralheira.

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Grafia dos topónimos

Realmente


      «O reencontro de uma família de emigrantes portugueses que vivem em Espanha e França ficou marcado pela tragédia quando o automóvel em que seguiam avós e três netos saiu da estrada, a cinco quilómetros de Alconchel, na Estremadura espanhola, provocando a morte a um rapaz de oito anos» («Rapaz de oito anos morre em acidente a caminho de França», Luís Maneta, Diário de Notícias, 12.08.2010, p. 19).
      Sim, Estremadura, pelo menos para nós. Aliás, em Cervantes e em autores coevos, a grafia é esta. Vejo de novo a tradução do D. Quixote de José Bento (O Engenhoso D. Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes. Tradução e notas de José Bento e revisão de Helder Guégués. Lisboa: Relógio D’Água), e não leio Ciudad Real, mas Cidade Real, não leio Valladolid, mas Valhadolide. Mais, até topónimos como Miguelturra são transformados — Miguel Turra. E são, lembro aos leitores distraídos, topónimos reais, que não utopias ficcionais.

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Redacção

Ensino a distância


      Imaginem que um jornalista escreveu isto: «A saída do avançado do Santos para a Europa deverá estar para breve, sendo que o Chelsea é o principal interessado na aquisição do atacante de 18 anos, que se estreou há poucos dias pela canarinha — e logo com um golo, frente aos Estados Unidos.» O revisor antibrasileiro, lembram-se?, espuma quando lê semelhante construção. Sendo que é... Ele que é... Que pobreza.

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«Estado social»

Livrai-nos destes também


      «Muita da esquerda continua irresponsavelmente pregada a dogmas. Ouvimos vozes estafadas vestirem a ferrugenta armadura de guerreiros de esquerda e assumirem o papel de guardiões do Estado-social ou Estado-providência» («Estado com coração», Luís Campos Ferreira, Correio da Manhã, 12.08.2010, p. 2).
      É, certamente, uma convicção do autor, pois escreve *Estado-social sete vezes. O professor universitário e deputado há-de pensar que, lá porque se escreve Estado-providência, se tem de escrever *Estado-social. E onde está a analogia, pode saber-se? «Social» nem é, por acaso, adjectivo, não?
      A meio do texto, o deputado também assevera que «fomentamos a cultura do não trabalho e da subsídio-dependência», mas já aqui vimos que se deverá escrever subsidiodependência. Imagino que os revisores estivessem manietados e o autor mandasse castigar aquele que se atrevesse a melhorar-lhe o texto...

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«De vento em popa»

Imagem tirada daqui


Livrai-nos deles


      A jornalista escreveu que «Beckham mostrou, no entanto, que a relação vai de vento em poupa». Bem, se fosse a cabeça de Rihanna, com o penteado da foto, transformada em carranca de embarcação (atenção: o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registam a acepção), então sim, seria de vento em poupa. Tanta ignorância...
      Diz-se que uma embarcação navega de vento em popa quando os ventos lhe são favoráveis. Em sentido figurado, diz-se do que conta com circunstâncias a seu favor, do que decorre com prosperidade.

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Tradução

HERALDO.es


      A edição de ontem do Diário de Notícias tinha pelo menos mais um espanholismo. Nas páginas 6 e 7, mencionava-se a fortuna conhecida de algumas personagens que ficaram na História. Se, por um lado, fiquei satisfeito por ver que a minha fortuna se aproxima muito, se não a ultrapassa, do património deixado por Lewis Carroll, deixando muito para trás o pobre Karl Marx, por outro, não gostei de ler, também numa má tradução do espanhol, que o explorador polar anglo-irlandês Ernest Shackleton (1874–1922), «após más inversões», «perdeu parte da sua fortuna». Mal traduzido daqui — e sem indicação da fonte. Oh, vergonha! Este jornal costumava ser mais sério.

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«Selecção aleatória»

Sem rumo nem ordem


      «O homem também desenvolveu novas espécies vegetais como o triticale (pelo cruzamento, há mais de 540 anos, de trigo e centeio, obtendo uma planta mais rústica que o trigo mas mais performante que o centeio) ou as nectarinas, pelo cruzamento entre o pêssego e a ameixa. Fê-lo pelo método tradicional de selecção, introduzindo genes ao azar. Nos organismos geneticamente modificados (OGM), por seu lado, apenas se transfere o gene pretendido, por processo controlado» («Biotecnologia na Agricultura», Gabriela Cruz, Diário de Notícias, 12.08.2010, p. 51).
      Se pensam que vou implicar com aquele performante, não se enganam muito — e afirmo mesmo que é uma vergonha que se usem estas palavras. Mas, na verdade, atraiu muito mais a minha atenção a locução ao azar, que não passa da má tradução da locução espanhola al azar.
      «Método tradicional de selecção» — por vezes, também numa má tradução, dita selecção randómica, vergonhosa e desnecessariamente decalcado do inglês random selection. Em espanhol é, já terão adivinhado, selección al azar.

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Léxico: «rodofluvial»

Algo inédito


      «“O motorista travou, travou, travou, mas o autocarro não parava. Foi um terror. Pessoas pelo chão, outras a fugir e crianças aos gritos.” Foi este o cenário vivido ontem ao fim da tarde no terminal rodofluvial do Barreiro descrito por Anabela Militão, que testemunhou o momento em que a “carreira 7” abalroou várias pessoas que, pelas 18.20, se encontravam na paragem do autocarro à espera da “carreira 3”, tendo provocado a morte a um homem, na casa dos 50 anos, e ferimentos graves numa mulher. Há mais três feridos ligeiros que não correm perigo de vida.» («“Foi um terror, pessoas pelo chão, outras a fugir e gritos”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 11.08.2010, p. 16).
      Já aqui vimos mais de uma vez a grafia de rodoferroviário. Hoje, temos esta, também correcta, rodofluvial. Só não percebo é porque tão poucos dicionários registam estes vocábulos.

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Becas e togas

Luxo e simples decoro


      «Disse-me, ontem, o jornal i: das reformas milionárias (de mais de 5 mil euros), do total das atribuídas desde Janeiro de 2008, “mais de metade corresponde a aposentações de magistrados, incluindo juízes e procuradores”. Calculo os que servem o Estado em lugares superiores, de simples licenciados em Direito e economistas a museologistas, cardiologistas e professores de física quântica, e vejo mal como eles, todos somados, sejam menos, em número, que os juízes e procuradores. Então, como é que as becas e togas se abarbatam com mais de metade das melhores reformas?» («Explicação de tanta manchete», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 11.08.2010, p. 52).
      Ferreira Fernandes parece vestir os juízes de becas e os procuradores de togas, é isso? Nesta questão, os dicionários de pouco ou nada nos servem, e, menos que todos, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a cujos responsáveis recomendo vivamente uma nova e cuidada redacção dos verbetes «beca» e «toga». Em relação ao traje profissional, o que o Estatuto dos Magistrados do Ministério Público estatui para cada figura da cadeia hierárquica é que usa o que compete ao magistrado judicial a que é equiparado. Se, de seguida, consultarmos o Estatuto dos Magistrados Judiciais, lemos que os «magistrados judiciais usam beca». Assim, juízes e procuradores usam beca. As togas são usadas pelos advogados. Os funcionários de justiça usam capa. Réus e arguidos só têm de observar o decoro na indumentária que usam em audiência.

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Léxico: «paneiro»

Imagem tirada daqui

Seco ou enjoado, no paneiro

      Estão a ver as bases rectangulares onde o peixe está a secar? Como se chamam? Pois é, também eu, há uns anos, tive muita dificuldade em traduzir uma palavra espanhola para designar o mesmo. «Francelina sorri e continua a labuta. Tem vários paneiros (grandes rectângulos de madeira, onde é aplicada rede de pesca da arte xávega esticada, de modo a que o ar circule e seque o pescado), para preencher e o tempo escasseia» («Nazaré mantém viva a tradição da secagem do peixe», Alexandra Serôdio, Jornal de Notícias, 9.08.2010, pp. 24 e 41). E o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que regista tantas acepções até caídas em desuso, como o regionalismo (alentejano?) com que se designava o rapaz que estendia panos (chamados toldos ou toldes — mais uma acepção ignorada pelos dicionários — feitos de ráfia) debaixo das oliveiras durante a apanha da azeitona, não regista o vocábulo nesta acepção.
      Vá, agora já podem pôr carapaus, salemas, sáveis e polvos a secar nos paneiros. Ao gosto de cada um: «[Francelina Quinzico] Explica que há quem goste do peixe seco, que demora dois a três dias a secar (dependendo das condições climatéricas e da temperatura), ou do enjoado[,] que “não é bem seco nem bem cru”» (idem, ibidem).

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Unidades de massa

E isso dá?...


      Todos os dias se lê *graus centígrados, e, contudo, sabemos, e há leitores a lembrarem-nos, que correcto é graus Celsius. «Vladimir Ladyzhenskiy, o russo que participou no concurso da cidade de Heinola, morreu após resistir a 110 graus centígrados durante seis minutos» («Não haverá mais campeonatos de sauna», Jornal de Notícias, 10.08.2010, p. 23).
      Mas não é só na imprensa e não apenas com os graus: «Ao entrarem, já vários hóspedes se encontravam na sala, com revistas rasgadas pousadas sobre os joelhos, à espera como eles: um jovem sueco de estatura enorme, que tomava as refeições à mesa de Settembrini e que, ao que constava, chegara tão doente em Abril que já nem o haviam querido receber; entretanto, havia engordado oitenta libras e estava prestes a ter alta por se encontrar completamente curado; havia ainda uma mulher da mesa dos russos maus, de aspecto deplorável, com um filho feio e de nariz comprido, um rapazinho chamado Sascha de aspecto ainda mais deplorável do que a mãe» (A Montanha Mágica, Thomas Mann. Tradução de Gilda Lopes Encarnação e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Dom Quixote, 2009, 2.ª ed., p. 241). O original fala em «achtzig Pfund» («Sie waren nicht allein: mehrere Gäste hatten, zerrissene illustrierte Zeitschriften auf den Knien, schon im Zimmer gesessen, als sie eingetreten waren, und warteten mit ihnen: ein reckenhafter junger Schwede, der im Speisesaal an Settembrinis Tische saß, und von dem man sagte, er sei bei seiner Ankunft im April so krank gewesen, daß man ihn kaum habe aufnehmen wollen, nun aber habe er achtzig Pfund zugenommen und sei im Begriffe, als völlig geheilt entlassen zu werden; ferner eine Frau vom Schlechten Russentisch, eine Mutter, selbst kümmerlich, mit ihrem noch kümmerlicheren, langnäsigen und häßlichen Knaben namens Sascha»).
      O que é que a unidade de massa libra diz ao leitor médio português? Nada. Se quiser saber mais (e que remédio, nem sequer há nota de rodapé), terá de consultar um dicionário, e o facto de a definição afirmar que é uma unidade de massa utilizada no sistema inglês pode logo induzir em erro, e, neste caso, a diferença entre consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o Dicionário Houaiss é meramente de casas decimais: «equivalente a 453,6 gramas», diz aquele; «equivalente a 0,4535923 quilogramas», diz este.

[Post 3775]
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Ortografia: «multiorgânico»

Semelhanças


      «O Hospital Dr. José de Almeida (Cascais) fez a sua primeira colheita multi-orgânica» («Colheita multi-orgânica no Hospital de Cascais», Correio da Manhã, 10.08.2010, p. 21).
      As palavras formadas com o elemento multi- não levam hífen. Logo, grafar-se-á multiorgânico, como também se grafa multiatómico e multiétnico.

[Post 3774]
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Plural: «corta-ventos»

Pensar também é um hábito

      Os agentes da PSP vão ter novo fardamento. Em certas circunstâncias, vão parecer gaúchos — pois vão usar ponchos. «Identificação mais fácil. Blusões, anoraques, corta-vento, fatos de motociclista, pólos de manga curta ou comprida e ponchos têm bem visível atrás a palavra “polícia”» («Polícias pedem mais apoio», Carla Soares, Jornal de Notícias, 10.08.2010, p. 8).
      Esqueçam os ponchos, eu queria é falar daquele «corta-vento». Já aqui falei duas vezes deste vocábulo, mas por outros motivos. O plural é então, senhores revisores do Jornal de Notícias, «corta-vento», invariável? Não me parece. Por analogia, lembro-me logo de «guarda-vento», composto em que guarda também é uma forma verbal do verbo guardar, e o plural deste é guarda-ventos.

[Post 3773]
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