«Tropa», não contável

A tropa-fandanga opõe-se     

      Numa comunicação datada de 27 do corrente, a Fundéu veio esclarecer que o substantivo «tropa» não é contável, como eu já aqui tinha escrito em relação à língua portuguesa. Na definição do Dicionário Terminológico (DT, ex-TLEBS), nomes contáveis são «nomes comuns que se aplicam a objectos ou referentes que podem ser diferenciados como partes singulares ou partes plurais de um conjunto (i). Assim, podem ocorrer em construções de enumeração (ii) e a forma de plural marca uma oposição quantitativa (iii)». Deixo na íntegra o texto da Fundéu:
      «La Fundación del Español Urgente explica que en español no pueden contarse las tropas, sino los soldados, pues la palabra tropa no es un sustantivo contable.
La Fundéu BBVA indica que no se pueden contar «una tropa», «cinco tropas», «trescientas tropas» o «28.000 tropas».
      Tropa, en singular, se refiere a los miembros del ejército que no son mandos con rango de oficial, y comprende a los sargentos, cabos y soldados. Y en plural, tropas, puede utilizarse para mencionar a las de diferentes secciones del Ejército o a las de distintos países: «Desfilaron las tropas del Ejército del Aire y de la Legión»; «Se produjeron escaramuzas entre las tropas de Colombia y Venezuela».
      No son correctas frases como: «Fidel sacó a 3.000 tropas de Haití»; «Llegaron 23.000 tropas de marines enviadas por los EE. UU.»; «…autorizó solo 20.000 tropas para Bosnia». En esos casos debieron usarse las palabras soldados o infantes de marina, respectivamente.
      Así, pues, la Fundéu BBVA advierte que no se puede hablar de las tropas como si se tratara de los individuos que las componen.»

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Pronome pessoal «si»

«Isto é para si»!?


      Escreveu João de Araújo Correia na obra A Língua Portuguesa (Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959]): «A troco de evolução, desculpa-se a corrupção e a má-criação. — Esta fita é para si — diz o caixeiro à senhora» (p. 83). «Será lógica esta maneira de pensar, mas, não abona amor de raiz à verdadeira língua portuguesa. Em bom Português, só se admite si referido ao sujeito da proposição. O figo cai por si; o homem caiu em si; a menina voltou a si» (p. 86).

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Tradução: «party favor»


Faz-me um desenho


      Um leitor pretende saber como se pode traduzir a locução inglesa «party favor». Como se vê na imagem, trata-se de uma corneta usada nas festas, que, quando soprada, estende várias línguas de papel. Bem, talvez corneta das festas. No sítio da empresa Animeventos, Lda., de onde tirei a imagem que está em cima, aparece com o nome corneta. Como muitas vezes sucede, o contexto poderá indicar ao leitor de que se trata.

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Elemento «eco-»

In Diário de Notícias, 28.1.2009, p. 15

Antipedagógico



      Há alguns casos de designações de entidades e programas que não respeitam a ortografia. Pouco se pode fazer contra isso, excepto protestar, chamar a atenção dos responsáveis e não escrever da mesma maneira. Um exemplo é o do Programa Eco-Escolas, de que já aqui falei. Os jornais, como o Diário de Notícias, é que não deviam grafar assim, pois o elemento de composição eco- não se liga com hífen ao elemento seguinte. Logo, ecoescola. Como não deveriam escrever, por exemplo, Rede Europeia Anti-Pobreza.


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Sobre «comercial»


Palavras cruzadas


      «Participa em todos os fóruns da TSF e da Antena 1 (pl.).» Com dez letras? Hum… Uma ajudinha: a acepção nem sequer está registada nos dicionários… Desistem? Comerciais. «E o António o que faz?» «Como?» «A sua profissão.» «Sou comercial.»
      É como afirmei: tanto quanto sei, nenhum dicionário regista esta acepção da palavra «comercial». E há centenas e centenas de profissionais que se dizem «comerciais». Será redução do inglês commercial traveler? Ou será por se deslocarem num comercial: automóvel ligeiro destinado ao transporte de mercadorias, também designado utilitário? Embora comercial tenha vindo substituir vendedor, categoria a que pertence caixeiro-viajante, e um comercial pode estar confortavelmente instalado num gabinete de uma empresa e não andar a percorrer o País.

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Registos de língua

Uma ideia de ênfase


      A comentar o caso Freeport, ontem à noite na Sic Notícias, Luís Delgado estava tão bem instalado, tão relaxado, que já lhe saíam coisas como estas: o Serious Fraud Office «funciona à séria, funciona muita bem». Que terão a dizer, neste caso, os guardiões da lei ortográfica? Há infracção?

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«O que ele é é…»

Agora que o diz…


      A questão da repetição do verbo fez-me lembrar de outra. Quem é que ainda nunca leu uma frase com a estrutura «O que ele é é…»? Por exemplo: «O que ele é é arrogante.» Quantas vezes é que tiveram a sorte de não verem ali uma virgulazinha entre as duas formas verbais, digam lá? Contar-se-ão pelos dedos. É mais um erro abundantíssimo. Vejo-o em livros, jornais e blogues.



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Destacar prefixos

In-coerente?


      Caro C. T.: se é recorrente, tem de manter. Há-de ser, concorde ou discorde, estilo do autor. De contrário, deverá sugerir alteração. No século XVIII é que Filinto Elísio escrevia, para acentuar mais a ideia de negação, in-consolado, separando com hífen o prefixo da palavra, a fim de lhe dar mais relevo.

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Acordo Ortográfico


Sem mais tardança


      Espero que não andem distraídos a ponto de não terem visto que o desportivo Record adoptou as regras (todas?) do Acordo Ortográfico de 1990. Fica uma amostra: a capa revela que já não temos selecção, mas seleção. É caso para dizer que vai correr menos tinta a propósito do futebol. E mais: «Em direto na Sport TV.» E ainda: o leitor ganha um cupão para um «filme de ação».

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Verbos repetidos


Que estude


      Santo Deus! Mas onde é que essa gente aprendeu português? Pergunte-lhe, cara Luísa Pinto, se quer corrigir Camões: «Este [o dinheiro] a mais nobres faz fazer vilezas» (Os Lusíadas, Canto VIII, 98). Quando se tornam editores, pessoas assim são bem capazes de expurgar obras cimeiras destes «erros».

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Uso de estrangeirismos


Assim não vamos lá
     


      «Em 2007, o GPIAA [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves] recebeu 126 notificações de casos de bird strikes registados nos aeroportos portugueses. Só na Portela foram 51» («Pombais na Portela são ‘bateria antiaérea’», Global, 26.1.2009, p. 4). Por qualquer razão insondável, o jornalista achou que ficava bem usar aquela locução inglesa — sem a traduzir nem explicar. E para quê? Ainda que se designem daquela forma os incidentes de colisão de aves com aeronaves, não há motivo para usar a expressão inglesa, pois não se trata de um relatório científico, mas de uma notícia de um jornal lido maioritariamente por pessoas semianalfabetas que, tirando estes jornais gratuitos, só lêem os talões do Multibanco.

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Bordões da linguagem

Perspectivas erradas


      O leitor R. A. escreveu sobre alguns bordões usados incorrectamente nos meios de comunicação social: «Ouvem-se muito as expressões “desse ponto de vista” e “do meu ponto de vista” sem que os seus emissores se dêem/deem conta do seu real significado ou sentido. É exemplo flagrante o de Luís (desse ponto de vista) Delgado, comentador residente na SIC Notícias.
      Creio bem que a equivalência entre “na minha opinião” e “do meu ponto de vista” não é exacta/exata, nem unívoca: muitas das minhas opiniões não dependem da posição onde me encontro! Por outro lado, responder à opinião do meu interlocutor com um “desse ponto de vista” pode ser interpretado como um “isso é o que tu dizes, por estares aí ou por seres o que és”, quando, muitas vezes, o contexto em que é usado esse bordão é manifestamente outro.
      Outros bordões são também curiosos por parecerem revelar, inconscientemente, que, até ao momento em que são ditos, não se estava a ver bem: é o caso de Mário (vamos lá a ver) Crespo, também da SIC Notícias.»
      Se o recurso, quase sempre inconsciente, a bordões linguísticos empobrece a comunicação, o uso de bordões inadequados é o cúmulo da falta de reflexão sobre os limites e significados da linguagem. Em pessoas que todos os dias entram em nossas casas pela televisão ainda é mais censurável essa irreflexão. É uma agravante.

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«Reacção» e «reagir»

Quedas jornalísticas


      Reagir e reacção continuam em voga na linguagem jornalística: «Ao meio-dia, o primeiro-ministro vai prestar esclarecimentos sobre o caso Freeport. A conferência de imprensa está marcada para a Alfândega do Porto. Acontece depois da reacção já ontem em comunicado aos desenvolvimentos do caso do empreendimento de Alcochete. José Sócrates reagiu com indignação e repúdio às informações avançadas pelo Sol» (Antena 1, informação às 9 horas, com Nuno Rodrigues). Nas reportagens de rua, os repórteres também gostam de pespegar o microfone à frente do nariz das pessoas e perguntarem: «Como reage a…?» Por vezes, o entrevistado não reage, porque não percebe a palavra.
      E já no fim das notícias: «O mau tempo desta noite provocou dezenas de quedas de árvores.» Quanto melhor não seria: «O mau tempo desta noite provocou a queda de dezenas de árvores.» Já tínhamos quedas-d’água, agora passamos a ter quedas de árvores.

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História da revisão

Mais uma tarefa

     
      Caro Vasco Lopes: isso não sei, que a história da revisão está por fazer. Sei é isto: a Sociedade da Língua Portuguesa (SLP) enviou uma vez uma carta ao ministro da Educação Nacional em que se podia ler, entre outras propostas, esta: «4.º — Todos os folhetos, opúsculos e livros devem mencionar o nome do revisor tipográfico, na página onde se indicar a data e o local da impressão» (in Manuel Pedro (Pai). Correcção de Provas Tipográficas. Porto, 1973, p. 37).

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Sobre «ulemá»

Sim, onde estaríamos?

Aposto que se lembram desta questão sobre os vocábulos maulavi, mulá e mujaidine. Pois ontem vi que o romance, de resto com excelente crítica, Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian, de Alaa El Aswany, traduzido por Helena Falé Chora e publicado em 2008 pela Editorial Presença, tem um glossário no fim em que se lê: «Oulamâ/Oulémas: Sábio/sábios. Especialistas em assuntos religiosos, de reconhecida autoridade, que são consultados sobre questões de doutrina e fé» (p. 230). Repito: há muitos anos que se usa ulemá/ulemás na língua portuguesa. Que seria de nós se desde sempre tivéssemos respeitado em palavras comuns grafias estranhas e observado plurais extravagantes? A língua portuguesa teria parado no tempo! Temos de nos apropriar inteiramente das palavras de outras línguas que nos sejam necessárias — aportuguesando-as de forma correcta.

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Léxico contrastivo: «canudo»


Para sorver


      À minha frente estavam três brasileiros, que pediram quatro cachorros-quentes. Um deles voltou depois ao balcão, pegou em três palhinhas e disse aos outros: «Querem canudos?» Em Portugal usamos canudos para enfiar diplomas e projectos de arquitectura ou para atiçar, avivar, espertar o lume, por exemplo, mas não para sorver líquidos, como fazem os Brasileiros. Nós chamamos-lhes palhinhas.

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Verbo «deter»


Horresco referens


      «Don’t let him do this, l’ll tell you what you want to know!», gritou o guarda-livros de Al Capone na cena da escadaria da Chicago Union Station no filme Os Intocáveis (Brian De Palma, 1987), que anteontem passou no canal Hollywood. Na legenda lia-se: «Se os deter[,] conto-lhe tudo o que sei.» O tempo usado é o infinitivo pessoal; o tempo adequado é o futuro simples do conjuntivo. Deter é um derivado de ter; logo, conjuga-se como este. O tradutor não dirá, suponho: «Se o senhor ter tempo, passe lá pelo escritório.» Como é que um tradutor escreve desta forma?

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Sobre «curatelar»

Use-se

«Gostava que comentasse a palavra “curatelado” que está no Artigo 48.º (*) do Decreto-Lei n.º 6/96, de 31 de Janeiro (Código do Procedimento Administrativo) e provavelmente noutros sítios. Havendo curatela (substantivo) e não havendo curatelar (verbo) como aparece esta forma? Curatela e curatelado estão no Houaiss e no Grande Dicionário da SLP mas não no da Academia!», escreveu o leitor Rosalvo Almeida.
Não seria o único caso em que temos um adjectivo sem termos o respectivo verbo. Contudo, os Brasileiros, que também usam o vocábulo «curatelado», registam no Aulete Digital o verbo «curatelar», «atuar como curador». Do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é melhor não falarmos.

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Verbo «ir»+«a»

Se ela o diz… engana-se!

«Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta» (Machado de Assis, D. Casmurro, Capítulo III). Por vezes, como pode ver, caro M. L., o infinitivo que se segue ao verbo ir é regido pela preposição a. É, creio, elementar. Qualquer pastor da serra do Marão o sabe — a sua professora não o pode ignorar! Ou vai ela para a serra e pagamos ao pastor para nos ensinar.


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Prefixo «hiper-»

Para isso pagamos

Chamem-me Júlio Verne ou chamem Júlio de Matos — acredito que chegará um dia em que um chip implantado no nosso cérebro nos comandará a mão a escrever segundo a norma ortográfica então vigente. Nessa altura, só os vírus (ou quem controlar um poderosíssimo computador central que enviará informação para o chip) nos impedirão de escrever bem. Entretanto, sobretudo quando se trata de palavras menos vulgares, convém que todos — mas sobretudo os jornalistas, que escrevem para milhares e milhões — consultemos dicionários e prontuários. Os leitores não pedem mais nem muito.
«Hiper-protegido, o pequeno Nuno não frequentou a escola, não brincava na rua com as outras crianças, no futebol só podia jogar a guarda-redes para não se aleijar e tinha sempre consigo a mãe preocupada com as correntes de ar» («Um filme para redescobrir “o homem que dava pulos”», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 20.1.2009, p. 24). A consulta a um prontuário diria que o prefixo hiper- só tem hífen antes de h e de r.

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À volta de «non-believers»

Medievo, acho

Vi parte do discurso de posse de Barack Obama na Sic Notícias. Detenho-me nesta frase: «For we know that our patchwork heritage is a strength, not a weakness. We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus—and non-believers.» Pois na legenda pôde ler-se, e não sustive um frouxo de riso, «incréu» a traduzir «non-believers». Vamos lá, há formas mais terra-a-terra, mais modernas, de o traduzir. A mais colada ao original, como a tradução divulgada no Público (e subscrevo o reparo quanto ao crédito da tradução que Rui Oliveira faz no Super Flumina): «Porque nós sabemos que a nossa herança de diversidade é uma força, não uma fraqueza. Nós somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus — e não crentes.» Ou, mais do meu agrado, como traduziu Luiz Roberto Mendes Gonçalves: «Pois sabemos que nossa herança de colcha de retalhos é uma força, e não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus — e de descrentes.»

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Escreva: «faixa de Gaza»

Imagem: http://www.estadao.com.br/

Franjas, bandas, faixas e tiras

«Ban Ki-moon prepara visita à Faixa de Gaza», titulava ontem o Diário de Notícias um artigo assinado por Lumena Raposo. Vejam como os Espanhóis escrevem: «Los palestinos intentaron ayer volver a la normalidad tras el alto el fuego y, después de 22 días de ataques israelíes, se enfrentaron a la situación de la franja de Gaza con los rostros marcados por la tristeza, desesperación y rabia» («Gaza intenta volver a la normalidad tras los duros ataques de Israel», 20 Minutos, 20.1.2009, p. 8). Ou os Franceses: «La ministre israélienne des Affaires étrangères Tzipi Livni a réaffirmé aujourd’hui à Paris qu’Israël déciderait “ le moment venu ” d’arrêter ses opérations militaires contre la bande de Gaza, estimant que la situation humanitaire y était “ comme elle doit être ”» («Gaza: “ pas de crise humanitaire ” (Livni)», Le Figaro, 1.1.2009).
Sem ser um termo reconhecida e especificamente geográfico, como «cabo», península» ou «ilha», por exemplo, não deixa de significar «pedaço longo e estreito de terra», como regista o Dicionário Houaiss. Assim, é também a designação de um acidente geográfico, e estes, como sabem, grafam-se com minúscula inicial. Logo, faixa de Gaza.

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Uso das aspas

Indocíveis

Não é a primeira vez que aqui refiro esta questão: as aspas desnecessárias. Na edição de anteontem do Global, uma chamada de primeira página, que remetia para a página 8, referia que a Marinha passou a ter mais um salva-vidas, este «inafundável». Já a página 8 titulava inequivocamente: «Salva-vidas inafundável reforça frota nacional». Quase todos os jornais acolhem este tipo de incoerência. Porque tem a palavra aspas numa ocorrência e as não tem noutra? O salva-vidas é ou não é inafundável? A leitura da notícia não nos deixa dúvidas: «O navio consegue fazer a rotação por si próprio no caso de se virar no mar, voltando à tona da água e mantendo em simultâneo a segurança dos náufragos que transporta.» Ou quem escreveu assim pensou que estava a inventar uma palavra? Só se não frequenta dicionários, pois estão registados vocábulos como estes: inaclimável, inacumulável, inacusável, inafiançável, inafável, inagitável, inalisável, inamável, entre dezenas de outros.

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Léxico: «disna»

Imagem: http://www.defdave.com/

De África

O leitor Júlio Correia quer saber que nome se dá às casas africanas circulares e de telhado cónico. «Será cubata? Será senzala?», pergunta. Não é. Cubata é a designação genérica das habitações de povos africanos. Senzala, por sua vez, é a residência de um soba (ou o alojamento destinado aos escravos numa fazenda no Brasil). A uma casa como a da imagem, circular e com telhado cónico, dá-se o nome de disna.

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«Paralelepípedo»

Imagem: http://theparallellines.blogspot.com/

Simplesmente paralelo


      Nunca presenciei, mas já ouvi que algumas pessoas têm dificuldade em pronunciar a palavra. João de Araújo Correia fala mesmo de um professor que era simplesmente incapaz de a pronunciar. Também Tomaz de Figueiredo desfaz na palavra: «Paralelepípedo, palavra má de pronunciar, palavra enrodilhada, já o povo a ia desbotando em “paralelo”… Pois que deixassem o povo! As leis da linguagem, ao menos, era ele quem as sabia: deixassem-no legislar» (Uma Noite na Toca do Lobo. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 75).


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Léxico: «empaste»


Artes e ofícios

Alguns dicionários registam o termo. Empaste: «Acto ou efeito de o encadernador aplicar as capas de um livro.» Sendo um termo menos vulgar, não podia deixar de dar nota dele aqui. Em espanhol também existe, e com o mesmo sentido, o termo, um substantivo deverbal, isto é, formado a partir de um verbo: «Encuadernar en pasta los libros.»
Fica também, porque algum leitor poderá precisar, a morada completa da oficina referida na reportagem do Público:

Invicta Livro — Encadernações, Restauros e Dourados, Lda.
Praça da República, 180-r/c
4050-498 Porto
Tel.: 222 004 774 Fax: 222 004 771

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Tradução: «legal requirement»

Sem rasto de português…


      Na série Sem Rasto, no canal AXN, um jovem foi detido por suspeita de violação de uma rapariga que depois se suicidou. No interrogatório, afirmou cinicamente (o que o agente especial Jack Malone, da Brigada de Pessoas Desaparecidas do FBI de Nova Iorque, recompensou, enfiando-lhe mais tarde a cabeça numa sanita) que não sabia que o final feliz era um «legal requirement». A tradutora, Susana Bénard, da Dialectus, verteu para «requerimento legal». Já tínhamos visto aqui a tradução de technical requirement. A argumentação é a mesma.

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Verbo «rever»

In Ípsilon, 9.1.2009, pp. 26-27

Perda de paradigmas



      Se até um jovem escritor, saramaguianamente galardoado, proferiu o disparate no lançamento de uma obra sua, não podemos estranhar que os jornalistas também o façam. Claro que, no caso, há mais gente envolvida, com excepção do revisor, porque parece que o jornal o não tem. Já vi professores fazer o mesmo. É, parece-me, muito simples: o verbo rever conjuga-se como o verbo ver, que é um verbo irregular da 2.ª conjugação. Ora, o jornalista, Óscar Faria, não diz, ou pelo menos esperamos que não diga, «Paulo Nozolino veu tudo para nos contar», por exemplo. Para que existem os dicionários de verbos?

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«Judaico», «hebreu», «israelita»

É só uma maneira de dizer

Em Espanha, teve de ser a Fundéu a lembrar algo muito elementar mas que a generalidade dos jornalistas esquece: «Los términos hebreo, judío e israelita funcionan solo como sinónimos en su sentido histórico (relativo al antiguo pueblo de Israel) y en su sentido religioso (referido a aquellas personas que profesan la religión judía y a todo aquello propio de los judíos). Israelí, sin embargo, designa a aquellas personas que viven en el moderno Estado de Israel (los israelíes pueden profesar cualquier religión, no necesariamente la judía)» («Hebreo no es sinónimo de israelí», 20 Minutos, 14.1.2009, p. 21). Cá, isto são eflúvios que pairam sobre a meseta Ibérica, passa-se o mesmo. Ainda ontem: «A organização norte-americana assinala ainda que o bloqueio israelita à Faixa de Gaza e os rockets disparados pelo Hamas contra o Estado hebreu vieram piorar bastante a situação dos direitos humanos nos chamados territórios palestinianos» («EUA devem recuperar credibilidade perdida», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 15.1.2009). É isso mesmo: é só uma maneira de dizer… parva.

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«Quartada», nova/velha palavra

Eu não estava lá

Só não me perguntem é onde, porque terei lido seguramente mais de 1000 páginas de diversas obras nos últimos seis dias, mas li num autor português a palavra «quartada» no sentido de «álibi». Pois agora mesmo leio isto na obra Uma Noite na Toca do Lobo, romance, já aqui citado, de Tomaz de Figueiredo: «Isso que, por todos os cantos, cozinheiras e sogras diziam alibi (e álibi, aliás), dizia-se quartada antes do romance policial, e o Zé congeminara quartadas de mão-cheia, perfeitas» (p. 144). E confirmo no velho Morais: «Justificação de emprego de tempo ou de localização num momento dado (em que um crime foi praticado, por exemplo).» Para um castelhanófilo, pelo menos em tempo de paz, como eu (ah, não sabiam? Pouco me conhecem…), é muito provável que tenha aprendido primeiro a palavra e o conceito através do espanhol coartada. «Argumento de inculpabilidad de un reo por hallarse en el momento del crimen en otro lugar», regista o DRAE.

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Novas palavras em Espanha

Unidos na ignorância


      Clara Hernández, jornalista do 20 minutos, fez o levantamento das palavras que os Espanhóis passaram a usar — ou, por vezes, alguém pretendeu impor — em 2008. A mais cómica será «miembra», que a ministra da Igualdade, Bibiana Aído (uma jovem desempoeirada, a quem chamam, e com razão, pois tem blogue, canal no YouTube, conta no Flickr e perfil no Twitter, a ministra 2.0), afirma que integra, a par do masculino «miembro», qualquer comissão. De Espanha já nos veio, lembrem-se, uma coisa semelhante. Outra palavra, esta um arcaísmo tirado do baú, é «insaculación», que o socialista José Bono usou, pondo os restantes deputados a rir, no Parlamento espanhol. Significa a introdução de votos num saco para depois proceder ao escrutínio. Não se pode sair da mediania.


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Formas de tratamento

Desgrava!


      No canal Panda, acabo de ouvir um cão, na série Vipo, anunciar «Sua Alteza, a Rainha de Inglaterra». Elizabeth Alexandra Mary Windsor não iria gostar nada. A forma de tratamento adequada a um rei ou a uma rainha é Sua Majestade (S. M.) e, concretamente no caso do Reino Unido, Sua Majestade Britânica (Her British Majesty). Por sua vez, o título de Sua Alteza (S. A.) é reservado a duques, arquiduques e príncipes. Só desculpo por ter sido um cão, mas pergunto a mim mesmo se daqui a uns anos as crianças que ouviram agora a frase canina não reproduzirão o dislate.

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De «banir» a «bandido»

«Banem»?

Cara Maria João Pires: comecemos pelo fim. A edição de 1913 do dicionário de Cândido de Figueiredo, que espero Luís Lavoura não inclua nos pós-modernos, se regista que banir é «desterrar, lançar fora de um país», conforme à etimologia latina, não deixa igualmente de registar que significa, decerto por extensão de sentido, «excluir, tirar, suprimir». Resta a objecção inicial de Luís Lavoura: to ban é «to prohibit especially by legal means: ban discrimination; also: to prohibit the use, performance, or distribution of: ban a book; ban a pesticide» (in Merriam-Webster). Ora, esta acepção só é registada pelos «pós-modernos», como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «eliminar; suprimir; proibir». Mas não pelo Dicionário Houaiss.
Não tenho, e quem me acompanha sabe que é assim, nenhuma posição de princípio contra novas acepções em vocábulos já de uso em português. Pondero sempre em cada caso, e neste creio que nada custa enriquecermos a língua acrescentando esta às acepções já dicionarizadas. Assim, só me causa alguma estranheza aquele «banem», e com razão, comprovei-o agora: alguns dicionários dizem que o verbo banir é defectivo, usando-se do presente do indicativo apenas as formas «banimos» e «banis». Temos a solução à vista: «Porque não banimos de vez as bombas de fósforo branco?»
O nosso banir provém do latim tardio bannire e este do gótico bandwjan, intermediado pelo francês bannir, «assinalar, proclamar», significado que manteve até ao século XIII. A partir desta altura, toma então o significado de proclamação da expatriação, do exílio de um cidadão nacional. Banir e desterrar é o mesmo. O nosso bandido, por exemplo, deriva deste banir, porque bandido é o que foi banido da sociedade, o fora-da-lei que vive de expedientes.

Actualização em 26.05.2009

«Esta [Igreja da Cientologia] está agora no banco dos réus por fraude e arrisca-se a uma multa de cinco milhões de euros, além de poder ser banida de França se for considerada culpada» («França acusa Cientologia de fraude e ameaça bani-la», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 26.05.2009, p. 23).
«A muito controversa Igreja da Cientologia, considerada em França como uma seita, será de novo julgada hoje, em Paris. Responde por fraude. Só que desta vez as suas estruturas no país poderão ser simplesmente banidas» («Cientologistas podem ser banidos de França», Público, 25.05.2009, p. 13).

Actualização em 27.05.2009


Cá está de novo a acepção posta em causa: «Casamentos gay ficam banidos na Califórnia» (Isabel Gorjão Santos, Público, 27.05.2009, p. 17).

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Confusões: «extracto» e «estrato»


Então toma lá

      Parece publicidade, não é? E é mesmo! Só o recomendo por causa dos extractos vegetais que afirma conter. Assim, já temos o primeiro elemento deste texto: o extracto. Vem do latim extractu-, particípio passado de extrahere, «extrair; tirar». Este tónico tem pois substâncias extraídas de plantas. Mas há outras extracções: da cortiça aos extractos que os bancos nos mandam, isto é, o registo dos movimentos das nossas contas. Em matemática e em medicina dentária há extracção de raízes, ambas mais ou menos dolorosas. Também há, e todos conhecemos, gente de baixa extracção. Do piorio. Acepção que os puristas, esses macacos, dizem ser galicismo. Credo! Estamos, assim, onde eu queria: na origem social. O segundo elemento deste texto. A sociedade tem, como sabemos, camadas, como os terrenos sedimentares e os bolos de noiva. Camadas — estratos. Isso mesmo, leitor arguto: diz-se estrato social e não — oh horror! — extracto social.
      Agora só falta uma coisinha: verem se não foram vocês que andaram para aí a escrever aquela barbaridade (porque está em blogues, em documentos assinados por médicos, professores, e por aí fora), convencidíssimos de que sabem português.

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Léxico: «assecla»

Não há língua como a latina


      «Franciscus Bacone et asseclae cogitationi recentioris aetatis adhaerentes ab eo inspiratae, cum censerent per scientiam redimi hominem, errabant omnino.» Já antes tinham lido, mesmo em português? Reconhecem? É da carta encíclica Spe Salvi de Bento XVI. A versão em português diz: «Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido através da ciência.» Aquele asseclae, com filhos registados em pouquíssimos dicionários da língua portuguesa, é ainda usado pelos Brasileiros, que entesouraram vocábulos que nós já esquecemos. Assecla: sequaz, partidário, seguidor, acólito, adepto. E foi numa obra brasileira que o conheci hoje mesmo.

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O verbo «haver» nos manuais escolares


Mais uma infausta vez


      A somar aos preconceitos e erros de natureza factual, de vez em quando denunciados na imprensa, os manuais escolares acolhem — mesmo, valha-me Deus!, os de Língua Portuguesa — também erros gramaticais inadmissíveis. Será curial exigir-se, e exigirem os professores, que os nossos filhos não dêem erros, quando os próprios autores de manuais escolares os dão? Por detrás desta interrogação, está sempre a perplexidade: mas estas obras não são revistas? Ou não o deviam ser ainda com mais cuidado? E, a propósito, onde pára a tão polémica certificação?
      Neste caso, é a obra Estudo Acompanhado, de Carla Rebelo Rodrigues, Eduardo Aurélio Pereira e Laura Espírito Santo, publicada pela Texto Editora em 2001. Ah, não, leitor perspicaz, não é só o verbo haver que sai maltratado.

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Maiúsculas e minúsculas

Provas?

Claro que é convencional, caro M. L., e o que não o é na língua? Mas é convenção que já vem de longe. Veja o que escreve o P. Avelino de Jesus da Costa na obra Normas Gerais de Transcrição e Publicação de Documentos e Textos Medievais e Modernos (Coimbra, 3.ª ed., 1993): «Algumas palavras podem escrever-se com maiúscula ou minúscula, conforme o sentido em que se tomam: ecclesia (= templo), mas Ecclesia (= diocese ou Igreja universal); (= catedral), mas (= Sé Apostólica ou Santa Sé), imperium (reino), mas Imperium (= Sacro Império)» (p. 54).


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Informação


Curso de Técnicas de Revisão


      Nos dias 23, 24, 30 e 31 deste mês, voltarei a estar na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (segundo curso de formação intermédia). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

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Norma brasileira do português

Do acordo ao Havai

Num dos comentários mais soezes dos últimos tempos, obviamente apagado, que me deixaram aqui, o seu autor, obviamente anónimo, pretendia ter descoberto porque sou a favor (sou?) do Acordo Ortográfico de 1990: é que assim eu teria «aquilo com que se compra melões». É tão estúpido como afirmar que só os juízes que aplicam o novo Código do Trabalho poderão ter férias no Havai. Como se eu e os juízes não tivéssemos de aplicar o que está em vigência.
Agora que tenho em mãos uma revisão muito especial, lembrei-me de referir o episódio. Mais do que revisão: é a adaptação, da norma brasileira para a norma europeia do português, de uma obra sobre história. Vejo, contudo, que os editores, quando pretendem um trabalho semelhante, afirmam quase sempre, menorizando, que se trata de «adaptação ortográfica», quando, na verdade, esta é o que menos importa. São em muito maior número — e incomparavelmente mais importantes, decisivas mesmo — as adaptações lexicais. Sem esquecer as adaptações sintácticas. Lexicais, então. Digam-me só quantos leitores portugueses saberiam o que é: interiorano, trafegar, traquinagem, contábil, mutirão, borduna, cabano, blefe, na marra, grilar, picape, píer, trapiche, lastrear, malemolente… — quantos?


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Recomendações

À puridade

Andam sempre a pedir-me, o que é sumamente lisonjeiro, que recomende isto e aquilo. A melhor gramática, o melhor dicionário, o melhor apara-lápis, etc. Hoje tomo eu a iniciativa, alargando-me a outras áreas: os melhores electricistas são da empresa Yebra & Simões. Não estavam à espera, hem? Nem eu. Estou a falar a sério. Mas regressando, lesto e prudente, à minha área, um jornalista com que muitos dos outros poderiam aprender a escrever (já que, quanto à imaginação, não se aprende) é Ferreira Fernandes, que tem uma crónica quotidiana no Diário de Notícias. Não é exagero (e se for, paciência) afirmar que praticamente todas são antológicas. Agora vejam lá a quem comunicam esta confidência.

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Sílabas abertas e sílabas fechadas

Algumas ainda referem

Caro L. C.: poucas são as gramáticas que actualmente falam sobre essa matéria. O brasileiro Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, já aqui recomendada, escreve: «A sílaba composta é aberta (ou livre) se termina em vogal: vi; é fechada (ou travada) em caso contrário, incluindo-se a vogal nasal, porque a nasalidade vale por um travamento de sílaba: ar, lei, ou, mas, um» (p. 85).

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Nome das letras, outra vez

Também me parece confusão

Talvez se lembrem desta questão do nome das letras. Mais um contributo, desta vez do escritor João de Araújo Correia: «Diz este amigo que o nome de cada letra deve representar todos os seus valores. Ó matemáticos, acudi-lhe!» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 84).

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«Por demais»

Consabidamente

Quem é que me disse uma vez que a expressão «por demais» não era português legítimo? E não se referia, creio, à questão de ser «de mais» ou «demais», sobre a qual um dia aqui deixarei abundantíssimas abonações contra o que os gramáticos prescrevem. Bem, não sei. Sei, isso sim, que a encontrei mais de uma vez em Saramago (convenho: eivado de espanholismos) e noutros autores. Em Tomaz de Figueiredo, por exemplo, topo com ela amiúde, e não me causa engulhos nem me confunde a gramática: «Ninguém da casa perguntava quem era esse Ele, por demais o saber, e a prima D. Maria do Socorro, alheia, mexia nas “vistas”» (Uma Noite na Toca do Lobo. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 43). Os gramáticos dizem muitos disparates, e eu de vez em quando esqueço-me disso.

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Soluções de outras línguas

Nem de propósito

     

      O mimetismo acrítico produz monstros. Em certo jornal, cujo nome agora me esquece, alguns jornalistas escrevem (mas talvez nunca chegue a público), por exemplo, «era-Queiroz». Assim mesmo, com hífen. Relembro-o a propósito de uma frase que acabo de ler: […] was an organization founded in 1997 and similar in scope to the Reagan-era Committee on the Present Danger». É como eu costumo dizer: se tivermos de copiar, que temos, que copiemos então o que são soluções de outras línguas para suprir falhas da nossa língua.

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Léxico: «caixola dos ferros»


Tirado a ferros


      Sobretudo os médicos rurais tinham uma mala deste tipo. Esta, de couro inglês, uso-a quando vou parturejar alguma vaca em derredor. Dentro, levo a caixola dos ferros. Estou a brincar. Vejam como escreve Tomaz de Figueiredo, o escritor que uma vez afirmou, no prefácio ao Dicionário Falado, que «tudo as palavras podem dizer»: «Também vestido à trouxe-mouxe (com aquele sobretudo abandado a seda — lembras-te, Francisquinha?) e a caixola dos ferros apanhada também às carreiras, lá arrastara a prima D. Maria do Socorro o Dr. Fortunato a ver o mano Francisquinho, a quem deixara de guarda, sob o travesseiro, o rosário bento pelo Papa que o mano lhe trouxera de Roma…» (Uma Noite na Toca do Lobo. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 14). Caixola é uma pequena caixa, vocábulo que alguns dicionários dão erradamente como somente usada no Brasil, e os ferros são os instrumentos médico-cirúrgicos. Não confundir caixola com o parónimo cachola, que os médicos deixaram de ter depois que o Governo arrepiou caminho na ideia de lhes impor a exclusividade ao Serviço Nacional de Saúde.

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«Hífens» e «ciclámens»

Aqui está



      Ainda se lembrará, caro Fernando Ferreira, dos hífens. Pois aqui está: Tomaz (ou, para os mais comichosos, Tomás) de Figueiredo a escrever — e ninguém me convence que se enganou duas vezes seguidas — ciclámens: «A ver se o Pedro, pela Páscoa, apresentava bons canteiros de tulipas, bons ciclámens… Que ela até lhe prometera um fato se lhe apresentasse boas tulipas, bons ciclámens, para a mesa do dia de Cruz…» (Uma Noite na Toca do Lobo, pp. 25-26). Estará por ciclâmens, estará, mas não saberia o autor, cuidadoso como poucos, o que estava a fazer? Vão-se somando as excepções…

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Tradução: «Beltway»

Não é tudo o mesmo
     


      Tem toda a importância, caro L. C.: beltway é uma coisa, Beltway, outra. Contudo, suponho que não quererá saber qual a tradução da primeira, pois qualquer dicionário de inglês-português a regista. Beltway, então. Os dicionários definem-na assim: «The political and social world of Washington, D.C., viewed especially as insular and exclusive “understanding better than Beltway insiders what really interests voters — L. I. Barrett”» (in Merriam-Webster). Traduza por altas esferas e todos, tenho a certeza, compreenderão.


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À volta de «stoma»

Já vê porquê


      O leitor Armando Pereira pergunta-me porque não encontra nos dicionários a palavra «ostomizado», uma vez que «é uma dura realidade com que vivem milhares de pessoas». Bem, pode ser por várias razões: porque nem todos os vocábulos estão registados, apesar de usados quotidianamente; porque não consultou todos os dicionários; porque a palavra não é assim que se escreve, etc. Sendo um neologismo, é natural que ainda não esteja registado. Contudo, talvez pese o facto de ser uma palavra mal formada. O correcto seria estomizado, pois todas as palavras portuguesas derivadas do grego stoma têm um e prostético e não um o: estomatite, estomocefalia, estomocéfalo, estomódio, estomogástrico, estomografia… E temos outros neologismos a partir do grego stoma, como «estomoterapeuta» (usado largamente no Brasil, mas também já registado na MorDebe), em que se respeitou a regra. Ao contrário do que aconteceu com o termo «merologia», aqui não houve a sensatez necessária para não copiar o inglês. Nesta língua diz-se ostomy e ostomate.

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Abuso do pronome relativo «qual»

Qual qual!


      Não há mesmo nada de novo sob o Sol. «Ultimamente, chegou à Imprensa, para substituir o que, grande reforço de qual. Já repararam? Não há período em que não entre o qual cozido ou frito. Um rapaz, o qual trabalhava na serralharia. A mãe, a qual lhe trouxe o almoço. A namorada, a qual tinha ciúmes» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 72). Aqui há tempos conheci um militar constrangedoramente ignorante — agora talvez apenas um indivíduo constrangedoramente ignorante, pois já não há empregos para a vida — que em cada frase cometia a proeza de encaixar pelo menos um «do qual». Mais estranho ainda: só por acaso havia concordância em género com o antecedente. Podia dizer: «Esta vida estúpida e vazia que levamos, do qual nos arrependeremos no fim, afasta-nos da leitura.» Não, não, a estrutura era essa, mas mais despropositada, e o conteúdo assemelhava-se mais a isto: «O jogo do Benfica, no sábado, foi o máximo, da qual comemorei com cinco bejecas.»


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Ortografia: «microindústria»

Como microempresa


      É como diz, cara Luísa Pinto: enquanto alguns dicionários e prontuários referem explicitamente que as palavras formadas com o elemento micro- nunca devem apresentar hífen entre este e os restantes elementos, outros não dizem nada. No âmbito do Acordo Ortográfico de 1990, a questão está, felizmente, tratada de forma explícita. Assim, a Base XVI (Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação), n.º 1, b), estipula: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.» Logo, a contrario sensu, será microindústria.


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Pronúncia: «Euribor»

Imagem: http://www.euroresidentes.com/

No Sul e no Norte



      Chegámos ao ano da crise. Segundo notícia divulgada ontem, as palavras «Euribor» e «petróleo» foram as mais pesquisadas no portal Sapo durante o ano de 2008. Quanto a esta última, não há nada a dizer. No que diz respeito a «Euribor», já é diferente. Euribor é o acrónimo de Euro Interbank Offered Rate e é uma palavra aguda e não grave, como todos os dias ouço os jornalistas pronunciar.

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