«Majestade»

Imagem tirada daqui

Realmente cavalar


      É só uma anedota, mas com pretensões de ser facto. Quando Lula da Silva visitou oficialmente o Reino Unido, em Novembro do ano passado, foi com a rainha para o Palácio de Buckingham na carruagem real. Durante o percurso, um dos cavalos soltou uma ventosidade muito malcheirosa. Constrangida, Isabel II, através do intérprete, pediu desculpa. Lula, educadamente, respondeu: «Não se preocupe, Majestade. São coisas que acontecem. Eu até pensei que tinha sido o cavalo...»
      Vejam: é uma anedota, inventada sabe-se lá por quem, mas o seu anónimo autor não pôs na boca do metalúrgico semianalfabeto que é Lula da Silva um «Sua Majestade». Isto só os nossos romancistas, tradutores e revisores de pacotilha escrevem ou deixam passar.

[Post 3960]

Formas de tratamento

Trapalhadas


      V de Vingança, outra vez. O P. Lilliman fora capelão na Prisão de Larkhill. Agora é bispo. Vamos encontrá-lo na Abadia de Westminster, com o secretário a dirigir-se-lhe: «Your Grace.» «Oh, Dennis. Has everything been arranged?», diz o bispo. Há então um pequeno equívoco, pois o secretário pensa que o prelado se está a referir a uma viagem a Perth, mas na realidade era aos seus apetites pedófilos. («My last little joy.») O secretário desculpa-se: «I’m sorry, Your Grace.» Como é que Accra B. Rockley traduziu your grace, podemos saber? Traduziu sempre mal, traduziu por «vossa graça». Desde quando se usa «vossa graça» para nos dirigirmos a um bispo? Usa-se excelência (e «Vossa Excelência» ou «Vossa Excelência Reverendíssima» na correspondência). Entretanto, entra V, que cumprimenta: «Reverend.» Tradução de Accra B. Rockley: «Reverendo.» Mas reverendo, em português, é a forma de tratamento para um simples padre. Não é só Isabel Stilwell que vem errando de livro para livro.

[Post 3549]

«Sua Alteza»?

Vossa Esperteza


      «Saiba vossa majestade/quem é Genebra Pereira/que sempre quis ser solteira/por mais estado de graça.» É um excerto do monólogo da feiticeira — cuidado!, agora tem de se antepor sempre a precauciosa palavrinha «alegada», pois apenas dizem que era feiticeira — Genebra Pereira, do auto vicentino Fadas. Ao que parece, esta forma de tratamento, vossa majestade, era pouco comum na primeira metade do século XVI, época em que ainda continuava, depois de séculos a usar-se, Vossa Mercê, que depois se estendeu a qualquer membro da pequena burguesia urbana — e, por fim, foi parar, através do você, à estrebaria. Isto é mero intróito para falar de uma questão relacionada com formas de tratamento no último romance histórico de Isabel Stilwell, D. Amélia — A Rainha Exilada Que Deixou o Coração em Portugal (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2.ª ed., 2010. Revisão de Lídia Freitas e Sofia Graça Moura). Numa cena (p. 327) que decorre no dia 13 de Janeiro de 1891, por exemplo, D. Amélia está acompanhada de uma das suas damas, a duquesa de Palmela, Helena Maria Domingas de Sousa Holstein. E D. Carlos aparece:
      «— Boa tarde, Helena.
      A duquesa de Palmela levantou-se e cumprimentou-o.
      — Estava já a sair, Sua Alteza.»
      E é assim na obra toda: Sua Alteza para aqui, Sua Alteza para acolá. Primeira questão: a forma de tratamento por alteza não se aplica somente a príncipes, arquiduques e duques? Ora, D. Carlos, que tinha sido príncipe real e duque de Bragança, com a morte do pai, o rei D. Luís, fora aclamado rei de Portugal a 28 de Dezembro de 1889. Como soberano, tinha direito a ser tratado, e sê-lo-ia decerto, por majestade. Segunda questão: porque é que a autora não respeitou a distinção entre tratamento directo e tratamento indirecto? Estando a dirigir-se directamente ao rei, a duquesa de Palmela deveria ter dito Vossa Majestade. Se se estivesse a referir, numa conversa com terceiros, ao rei, deveria usar a forma de tratamento indirecto, dizendo então Sua Majestade.

[Post 3401]

Formas de tratamento

Desgrava!


      No canal Panda, acabo de ouvir um cão, na série Vipo, anunciar «Sua Alteza, a Rainha de Inglaterra». Elizabeth Alexandra Mary Windsor não iria gostar nada. A forma de tratamento adequada a um rei ou a uma rainha é Sua Majestade (S. M.) e, concretamente no caso do Reino Unido, Sua Majestade Britânica (Her British Majesty). Por sua vez, o título de Sua Alteza (S. A.) é reservado a duques, arquiduques e príncipes. Só desculpo por ter sido um cão, mas pergunto a mim mesmo se daqui a uns anos as crianças que ouviram agora a frase canina não reproduzirão o dislate.

Pronomes de reverência. Tradução

Falsas realezas


      O Panorama BBC de ontem, na Sic Notícias, era sobre a Igreja Anglicana e a crise que a está a afectar. Um dos entrevistados foi, como seria inevitável, o arcebispo da Igreja Anglicana da Nigéria, Peter Jasper Akinola, «o Bin Laden do anglicanismo», tradicionalista que é contra a ordenação de religiosos homossexuais. Porque está na Bíblia, diz, é só ler. Em duas ocasiões, o repórter Ben Anderson profere o pronome de reverência inglês usado habitualmente no trato com um arcebispo da Igreja Anglicana: Your Grace. A tradutora portuguesa não teve dúvidas e verteu para Sua Alteza. Estava-se mesmo a ver. Ora, para um arcebispo, em português a forma de tratamento é Excelência, e por escrito, V.ª Exc.ª Reverendíssima.

Formas de tratamento

Calinadas


      No Público, Nicolau Ferreira escreve sobre os funerais do futuro — «Os cemitérios do futuro vão estar vivos», é o título. O sumário previne, amigável e erroneamente: «No dia do vosso funeral não fiquem surpreendidos se houver pessoas a assistir a um concerto na esplanada do cemitério. A Europa espera por uma morte mais verde, tecnológica e personalizada. Vamos adiar a morte para ver o funeral de amanhã». Mortos e surpreendidos… Alguma figura de estilo, cogitará o revisor temeroso. Vamos, porém, por outro lado: «vosso» e «não fiquem».
      Já o Prof. Vasco Botelho de Amaral escrevia, a propósito das formas de tratamento, em 1947: «Considero que a língua portuguesa é rica demais quanto a formas, fórmulas, jeitos e processos de tratamento. Rica demais, porque a abundância de obstáculos não apenas se opõe aos estrangeiros dispostos a aprender a falar ou a escrever o nosso idioma, mas, inclusivamente, dificulta o acesso dos próprios Portugueses ao conhecimento seguro ou correcto da técnica do tratamento» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 540-557). Muito bem dito — até o duplo «demais». Ah, sim, não digam disparates. O texto vai por ali fora e lá está o que nos interessa: «Outro solecismo, frequente, por exemplo, nas locuções radiofónicas inclusivamente da nossa primeira estação, é a mistura do tratamento vocativo na 3.ª pessoa com pronomes na 2.ª:
      “Prezados ouvintes. Esperamos que o programa que lhes temos estado a transmitir seja do vosso agrado.”
      Quando se diz lhes, o tratamento realiza-se na 3.ª pessoa. Pois, esta mesma construção tem de manter-se, e, portanto, não se apresenta canonicamente o vosso, em lugar de seu. O programa que lhes temos estado a transmitir seja do seu agrado — será a única dicção correcta.»
      Na página 551, faz uma advertência: «2.as com 3.as = calinada». Não é bonito? Sessenta anos depois, o erro persiste. Tenho à minha frente duas obras: uma tradução e uma obra original portuguesa. Veja-se um exemplo da primeira: «— Mas agora entendem por que a casa é demasiado perigosa para vós? Têm de fazer com que a vossa mãe o entenda também. Têm de fazer com que ela queira ir-se embora dali. Se eles souberem que lá estão, pensarão que têm o livro e jamais vos deixarão em paz» (O Mapa Secreto. Livro 3 de As Crónicas de Spiderwick, de Tony DiTerlizzi e Holly Black, tradução de Isabel Gomes e revisão de Isabel Nunes. Editorial Presença, Lisboa, 3.ª ed., 2008, pp. 41-42). E um exemplo da segunda: «Lydia carregou na tecla que dizia “ler” e a mensagem apareceu escrita no ecrã: “Bem-vindos ao Planeta Branco. Convidamo-los a desembarcar, sem medo. As vossas vidas não correm perigo e a atmosfera é respirável» (O Planeta Branco, Miguel Sousa Tavares, revisão de Silvina Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 1.ª ed., 2005, pp. 61-62). Para quê continuar? Já perceberam.

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