Verbo «haver»

Até os Cairotas entenderiam


      «Na sequência dos confrontos que começaram a 25 de Janeiro no Egipto e que já causaram mais de 125 mortos e milhares de feridos, o Governo português decidiu enviar um avião para retirar os cidadãos lusos do país e apelou ontem ao contacto destes. O primeiro voo parte hoje às 10h30 do Cairo com destino a Lisboa e irá transportar 70 portugueses. Contudo podem haver mais viagens, disse o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas» («Primeiro voo com cidadãos lusos abandona hoje o Cairo», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 1.02.2011, p. 5).
      É aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam muitos jornais, revistas e mesmo, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez, livros. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto-me o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir.
      Quanto a «lusos» em vez de «portugueses», moda lançada e mantida pelos jornais gratuitos, é simplesmente execrável.

[Post 4381]

Verbo haver

Imagem tirada daqui

Corta!


      José Manuel Rosendo entrevistou (numa cafetaria?!) o filósofo José Gil para a Antena 1. Eis um excerto mais antigramatical: «Quer dizer, a questão é de tal ordem, que nós vamos começar um mau ano 2011, com uma recessão que todos anunciam, depois haverão uma estagnação, haverão um aumento mínimo do crescimento económico, estagnante, e não se vê o fim. É sem fim à vista.» O mais intrigante (bem sei que se trata da oralidade) é que, mesmo que o verbo permitisse, nesta acepção, o seu uso no plural, o sujeito, neste caso, não o pedia.

[Post 4048]

Verbo «haver»

Era só o que faltava


      À saída do debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro, José Sócrates, disse aos jornalistas: «Não, as únicas medidas que podem haver são aquelas medidas que são previstas no Plano de Estabilidade e Crescimento.»
      Por coincidência, já hoje aqui falámos da impessoalidade do verbo haver no sentido de existir. Há, é verdade, alguma tolerância (e é conveniente dizê-lo, pois em público, em vez de se congratularem com um blogue como este, há quem apele para a minha «complacência», como se eu fosse um monarca absoluto atreito a excessos...), dado que se trata da oralidade, mas ainda assim erro é erro, e este é grosseiro. Estão reunidas as condições para ser mais grave do que parece: é o primeiro-ministro e foi aos microfones da rádio.

[Post 3543]

Haver/existir

É connosco


      «Dou frequentemente com o verbo “existir”», escreve-me o leitor Pedro Ribeiro, «a ser usado em frases onde o verbo “haver” servia perfeitamente.» Acrescentou alguns exemplos: «O responsável assinalou que existem em Portugal cerca de 1,4 milhões de armas legais» (in Sol). «Existem 2,08 milhões de empréstimos à habitação» (in Diário de Notícias). «Porque não dizer que “há em Portugal cerca de 1,4 milhões de armas” ou que “há 2,08 milhões de empréstimos”?» E conclui: «Enfim, a minha sensação é que, como “haver” é um verbo irregular e que pode ser complicado de conjugar, muitos escritores acabam por se refugiar no “existir”. Mas não creio que as palavras sejam sinónimos.»
      São sinónimos, pelo menos actualmente e numa das acepções, mas a peculiaridade do verbo haver no sentido de existir é a sua impessoalidade, o que é ignorado por alguns alunos, professores, políticos, jornalistas, revisores... Nos casos que indica, contudo, também eu mudaria os verbos.

[Post 3541]

Verbo «haver»

Sr. presidente


      A Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Sernancelhe (APAES) defende nota máxima para metade dos alunos de Ciências Naturais do 3.º Ciclo, que estiveram sem professora desde o início do ano. João Aguiar, presidente da associação, afirmou ao repórter Jorge Bastos, da Antena 1: «Não acha também que é muito injusto no século XXI haverem crianças que não tenham aulas durante o 1.º período e 2.º período de Ciências Naturais?» O repórter tinha perguntado: «Se dar 3 e 4 não se justifica porque não houve aulas, dar nota máxima justifica-se?» O entrevistado usou ainda seis vezes a palavra «crianças» para se referir aos alunos. Aposto que nenhum dos alunos, e não me refiro apenas aos que vão armados de pistolas, facas e soqueiras para a escola, gostaria de ser assim considerado. Com a definição de bebé também os falantes, mesmo os jornalistas, não se entendem.

[Post 3310]

Verbo «haver» — inacusativo?

Vislumbre do futuro


      «Toda a ajuda é pouca, ou não houvessem, segundo os dados da Organização Internacional para as Migrações, pelo menos 500 mil pessoas sem casa, isto só na capital haitiana, Port-au-Prince, onde a confusão parece instalada, como testemunham os portugueses» («Equipa nacional ajuda a minimizar as dificuldades dos sobreviventes», Destak, 25.1.2010, p. 19).
      Na acepção de existir, já aqui o escrevi vezes sem conta, o verbo haver é impessoal, a concordância é com o sujeito nulo (de 3.ª pessoa singular). Há estudos recentes que apontam para a hipótese de estarmos no limiar de uma mudança que conduzirá ao uso deste verbo como inacusativo*.

[Post 3065]


* «Sabe-se, desde a publicação de Perlmutter 1978, que os verbos que seleccionam um só argumento e que a tradição gramatical designa por “intransitivos” não são uniformes, podendo englobar verbos que seleccionam um argumento externo — os chamados inergativos — e os verbos que seleccionam um argumento interno a que não atribuem caso acusativo, argumento esse que se comporta como sujeito final — os chamados inacusativos» («Nomes derivados de verbos inacusativos: estrutura argumental e valor aspectual», Ana Maria Brito, in Revista da Faculdade de Letras — Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXII, Porto, 2005, p. 48).

Verbo «haver»


Queres festa


      Todos os dias podia referir mais um atropelo ao verbo haver, mas não me apetece. «Olá, sou o Robby. Sou o pai da Miley e do Jackson. Tenho uns filhos fantásticos, embora gostasse que ouvissem o que eu digo mais vezes.» Assim se apresenta esta personagem da série Hannah Montana, que passa no Disney Channel. No episódio de ontem, a personagem disse à filha: «Acalma-te! Vão haver mais festas.» Oxalá os jovens telespectadores também não o ouçam. O tradutor, é claro, ignora regras gramaticais básicas, e o actor que fez a dobragem não quer saber destas minudências.

O verbo «haver» nos manuais escolares


Mais uma infausta vez


      A somar aos preconceitos e erros de natureza factual, de vez em quando denunciados na imprensa, os manuais escolares acolhem — mesmo, valha-me Deus!, os de Língua Portuguesa — também erros gramaticais inadmissíveis. Será curial exigir-se, e exigirem os professores, que os nossos filhos não dêem erros, quando os próprios autores de manuais escolares os dão? Por detrás desta interrogação, está sempre a perplexidade: mas estas obras não são revistas? Ou não o deviam ser ainda com mais cuidado? E, a propósito, onde pára a tão polémica certificação?
      Neste caso, é a obra Estudo Acompanhado, de Carla Rebelo Rodrigues, Eduardo Aurélio Pereira e Laura Espírito Santo, publicada pela Texto Editora em 2001. Ah, não, leitor perspicaz, não é só o verbo haver que sai maltratado.

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