Ficha clínica

Sexo: outro

      Na ficha médica, o campo destinado a indicar o sexo do doente pode deixar o clínico perplexo, pois há cinco — cinco, santo Deus! — hipóteses: 1. Masculino; 2. Feminino; 3. Indeterminado; 4. Inaparente; 5. Outro. Só por isto, os médicos merecem ser bem pagos.
[Texto 1198]

O verbo «haver»

Definitivamente

      A propósito do Dia Internacional da Mulher, a repórter da RTP Cláudia Viana foi ontem entrevistar quatro sócias de uma agência de conteúdos (seja lá isso o que for). Uma delas resumiu a opinião das quatro: «Houvessem mais mulheres em postos de poder, em postos determinantes, e o nosso país era mais feliz, era mais feliz. O mundo era definitivamente melhor, muito melhor.»
[Texto 1197]

«Que compara com»?

Vagamente português

      «Alexandre Soares dos Santos foi o único milionário português que aumentou o seu património no último ano. Segundo a lista dos mais ricos do mundo, ontem divulgada pela revista Forbes, o dono das cadeias Pingo Doce e Biedronka (Polónia) tem actualmente uma fortuna de 2,5 mil milhões de dólares (1,9 mil milhões de euros), que compara com os 2,3 mil milhões de dólares apurados para o ranking de 2011» («Dono do Pingo Doce foi o único milionário que aumentou a sua fortuna», José Manuel Rocha, Público, 8.03.2012, p. 16).
[Texto 1196]

«Sociopoliticoeconómico»?

Tenham lá paciência

      «Helena Vasconcelos é crítica literária. Lançou em Fevereiro Humilhação e Glória (ed. Quetzal), um fresco sobre as mulheres das artes, letras e ciências que, ao longo dos séculos, marcaram as suas áreas. Nesta obra, as escritoras, artistas e investigadoras portuguesas, muitas das quais pouco divulgadas ou mesmo estudadas, surgem enquadradas nos sucessivos contextos sociopoliticoeconómicos internacionais, olhando-se para trás até nomes como Hipácia de Alexandria e Leonor de Aquitânia» (Público, 8.03.2012, p. 27). 
      Eh lá! O novíssimo Público anda a exagerar. Tudo fundido? Vá lá com um hífen: sociopolítico-económico. Ou mesmo, por respeitar mais a natureza dos elementos, com dois: sócio-político-económico.

[Texto 1195]

«Passagem hidráulica»

Agora somos engenheiros

      «Nos dias 9 e 10 de Março, dezenas de cidadãos de Vila Real vão construir um muro com 40 centímetros de altura, dos dois lados da estrada nacional EN313 – que liga Vila Real a Lamas de Olo –, num troço de 1400 metros. “Esta estrada já tem uma série de passagens hidráulicas por baixo da estrada. Aquilo que vamos fazer é construir um murete que conduza os anfíbios até essas passagens, para diminuir a mortalidade acidental por atropelamento, que no ano passado foi muito elevada”, disse ao PÚBLICO Carlos Lima da Divisão de Planeamento da Câmara Municipal de Vila Real» («Voluntários vão ajudar salamandras e sapos do Alvão a atravessar a estrada», Helena Geraldes, Público, 8.03.2012, p. 29).
      É o nome que se dá às estruturas, de secção circular, rectangular ou arqueada, que permitem a drenagem transversal das estradas.

[Texto 1194]

Sobre «presidenta», de novo

A propósito

      «O famigerado cronista da ordem dominicana [Fr. Luís de Sousa] empregou a palavra presidente como comum aos dois géneros. Hoje por analogia com os biformes em o, a, dá-se a forma feminina com a desinência a a alguns dêsses vocábulos, primitivamente uniformes, terminados em nte, em sua maioria derivados verbais, particípios activos que fazem de nomes e adjectivos. Assim é que infante e parente, que eram invariáveis, admitem hoje as formas infanta e parenta. Quanto a presidente, que o frade de Bemfica empregou como comum, outro esmerado escritor português, A. F. de Castilho, trá-lo como variável, mudando-lhe o e por a na formação do feminino. No Novo Dic. de Cândido de Figueiredo, 2.ª ed., já se consigna a terminação feminina de presidente: o termo vem assinalado com asterisco, o que quer dizer que inda não corria autorizado pelos dicionaristas portugueses, e cita-se um exemplo que eu já citara nos Novos Estudos (Rio, 1911), em que o Castilho concedeu terminação feminina ao nome em questão, estampando presidenta a páginas 128 das Sabichonas» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 203).

[Texto 1193]

Aviso para o presente

Barbaridades dos revedores

      «Em Lisboa tem a Parceria António Maria Pereira reeditado muitas obras do célebre romancista Camilo Castelo Branco. Reedições são estas que não podem merecer a estima nem a confiança dos estudiosos por estarem lastimávelmente inçadas de erros tipográficos que revelam uma revisão nada acurada; por nelas se encontrar a cada passo desordem de paginação, e ainda porque, confrontando estas novas edições com as da vida do autor, falecido em 1890, se notam não poucas inexactidões na reprodução do texto, o que tudo representa, alêm do mais, grave irreverência á memória do autor reeditado, a quem assim atribuem tipógrafos e revedores as suas próprias barbaridades» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 149).

[Texto 1192]

Como se fala na televisão

E em todo o lado

      Dez Estados norte-americanos escolhem o candidato republicano para defrontar Barack Obama. A jornalista da RTP Márcia Rodrigues está lá. «É uma data especial. Chamam-lhe Superterça-Feira, em regra o dia onde se conhece o candidato do Partido Republicano à Casa Branca.» «O dia onde»! O meu favorito é Mitt Romney, porque o homem tem muitíssimo dinheiro, muito humor e algumas ideias: «Preciso do vosso voto, votai as vezes que vos deixarem...»
[Texto 1191]

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