Léxico: «fita do tempo»

Ora esta

      Estamos sempre — qual é a dúvida? — a aprender. Numa mensagem de correio electrónico, um militar fala-me da «fita do tempo» de certas actividades. Nunca tinha lido ou ouvido tal expressão. Distraí-me em algum momento, pois Boaventura de Sousa Santos tem, sei-o agora, uma obra com o título A Fita do Tempo da Revolução (Edições Afrontamento). Na sinopse, pode ler-se: «O texto que vos apresento tem um nome estranho, Fita do Tempo. Não é uma metáfora poética sobre o passar do tempo. É o nome militar do registo de operações. Tal como na Marinha há o diário de bordo, no Exército há a fita do tempo. Trata-se do registo das operações que na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 derrubaram a ditadura...»

[Texto 1158]
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A abreviatura: FFAA

Abreviaturas

      «As FAA deverão dispor de estruturas, dispositivos e forças em condições de, etc.» E por ali abaixo, dezenas de vezes, FAA. Não pode ser: se dobra o A, de «Armadas», também tem de dobrar o F, de «Força». FFAA. Claro que nunca mais ouvi ou li a expressão «Forças Armadas» que não me lembrasse da «Força Armada» do preclaro VPV.
      «O objectivo era, creio bem, sair das FFAA logo que pudessem» (Os Anos Decisivos: Portugal 1962-1985. Um Testemunho, César de Oliveira. Lisboa: Editorial Presença, 1993, p. 124).

[Texto 1157]
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«8 p. 100»

Esta é nova

      Comecei a ler Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro, na 6.ª edição, de 1991, da Livraria Sá da Costa Editora. Lembrei-me do que escreveu aqui Montexto sobre o géografo: «Aproveitemos igualmente nós pelos cabelos esta oportunidade, mas de dizer bem — tão difícil, de rara, — para saudar em Orlando Ribeiro um cientista que era também um óptimo escritor, que se lê melhor e com mais proveito do que muitos da chamada literatura amena. Um prazer lembrar aqui o título Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico.» Logo nas primeiras vinte linhas, vi algo que nunca antes vira: «A sua gente representa cerca de 250 milhões, apenas 8 p. 100 da humanidade em 1,5 p. 100 da superfície emersa do Globo» (p. 1). Caro Fernando Ferreira, já conhecia esta notação?

[Texto 1156]
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Tradução: «fiscal»

A pressa e tal

      «Após declarar perante o juiz durante mais de 16 horas, o interrogatório a Iñaki Urdangarín prosseguiu pela noite dentro sob o comando do fiscal anticorrupção» («Resposta evasiva de Urdangarín pode levar infanta ao juiz», Jornal de Notícias, 27.02.2012, p. 29).
      São tão bons tradutores, no Jornal de Notícias, como os da RTP. Não lhes ocorre que o termo «fiscal», entre nós, não se refere a quem exerce funções em tribunais. O fiscal castelhano é o correspondente ao nosso procurador adjunto. Dementres, é melhor frequentarem, se o caso se arrastar, um curso de Espanhol Jurídico. Ora deixem cá ver... Em 30 horas e por 300 e tal euros, podem aprender alguma coisa. Ou gratuitamente, aqui no Linguagista.
[Texto 1155]
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Língua e racismo

Estáquio vs. D’Elboux

      «O Dantas é um cigano! O Dantas é meio cigano! O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!» Se fosse hoje e estivesse no Brasil, Almada Negreiros arriscava-se a levar com um processo em cima. «O Ministério Público Federal (MPF)», lê-se no Estadão, «entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para tirar de circulação o Dicionário Houaiss, um dos mais conceituados. A publicação conteria, em uma das acepções da palavra cigano, expressões “pejorativas e preconceituosas” e praticaria racismo. A Justiça não se manifestou.» Ao menos isso. «Para o procurador Cléber Eustáquio Neves, o texto afronta a Constituição e pode ser considerado racismo. “Ao se ler em um dicionário que cigano significa aquele que trapaceia, ainda que se deixe expresso que é pejorativo, fica claro o caráter discriminatório da publicação.” A advogada Sonia Maria D’Elboux, especialista em direitos autorais, discorda da ação. “A Justiça não pode apagar a História. É natural que um grande dicionário registre esse significado.”»

[Texto 1153]
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A etimologia

Aplacar as iras

      A etimologia... A quem ocorre, perante a palavra «duvidar», por exemplo, que parte de duo, tal como «duelo», «dualismo», «dobro», «dúplice»? «Pacare», escreveu Elviro Rocha Gomes na comunicação «O Homem e a Língua» (separata da revista Labor, números 284 e 285, 1970, p. 12), «significava aplacar e agora significa pagar; deve ser porque quem paga aplaca as iras do credor.»
      Elviro Rocha Gomes, professor, poeta, escritor, tradutor e um grande divulgador da poesia alemã entre nós, também lembrou, neste texto de uma conferência no Círculo Cultural do Algarve, que até «no que diz respeito a antropónimos, a língua mais uma vez se impõe ao homem, como o provam os numerosos Lisboas, Portos, e o Dr. Paulo Quintela, que se assina assim mas é Paulo Pires, natural de Quintela».

[Texto 1152]
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Requerimentos e contestações

Estamos em tribunal

      Desta vez, foi a jornalista Isabel S. Costa, da RTP, que acompanhou o caso de Iñaki Urdangarín, genro do rei de Espanha. O advogado, Mario Pascual Vives, declarou que o duque de Palma «atendió a todos los requerimientos que le formularon por parte de la Casa de su Majestad el Rey». Nas legendas, apareceu: «respondeu a todos os requerimentos». Ficámos também a saber, pelas legendas, que o genro do rei de Espanha «conseguiu contestar completamente a todas e cada pergunta que lhe foram fazendo».

[Texto 1151]
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Léxico: «pistolo»

Onde está?

      «Se apenas dispunha desse recurso, se não trazia no bolso um daqueles pistolos com que nas feiras, quando havia zaragata, os homens se matavam uns aos outros, estavam liquidados» (Bichos, Miguel Torga. Revisão de João Vidigal. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010, 4.ª ed., p. 37).
      A única acepção, nos poucos dicionários que acolhem o vocábulo, que encontro é a de cunha de ferro para rachar pedra, termo colhido no Fundão. «Ah, o patrão não ter um trabuco dos tais!»

[Texto 1150]

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Saiu bem

Con coraje, con tesón

      Raquel Gomes, jornalista da RTP, continua a acompanhar o caso de Iñaki Urdangarín, genro do rei de Espanha. A tradução das declarações do advogado à porta do Tribunal de Palma de Maiorca saiu bem, vá lá. O duque de Palma continua «con coraje, con tesón y con ganas de poderse explicar», disse o advogado, Mario Pascual Vives. Não traduziram, como receei, por «tesão», mas por «determinação». E vai haver acareação? «No lo sé. Las decisiones las tiene que tomar su señoría.» «Meritíssimo», muito bem.

[Texto 1149]
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Como se fala na rádio

C’est dommage

      Ana Maria Ramos no noticiário das três da tarde de ontem na TSF: «O menino amante da música [Maurice André] assume a paixão pelo trompete e após dois anos de solfejo, o pai coloca-o nas aulas de um amigo, Monsieur Léon Barthélémy, músico do Conservatório, seguidor do mestre Merri Franquin, com quem o jovem aprende a ler pautas e a comprar livros como método de estudo. Quatro anos depois, o tutor convence o pai de Maurice à criança abandonar o trabalho na mina e a mandá-lo para o Conservatório na capital francesa.»
      Além de tudo o resto, nem a pronúncia da palavra francesa «monsieur» sai já escorreita da boca dos jornalistas.

[Texto 1148]
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Em vez de «alienadas»

Perturbadas

      Que vocábulo, pergunto, seria adequado neste contexto: século XVI, uma donzela fala de mulheres que iam, em determinado contexto que não posso nem interessa precisar, presas. Iam trôpegas, alienadas. Aturdidas?

[Texto 1147]
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Deixem-nos morrer

Que surpresa!

      Fernando Belo, catedrático jubilado de Filosofia, com doutoramento sobre a epistemologia da Linguística saussuriana, também escreve hoje no Público sobre o Acordo Ortográfico de 1990. O título diz quase tudo: «Nem pró nem contra». No fundo, só pede que o deixem morrer — e a todos nós, uns mais novos, outros mais velhos —, e depois que façam o que quiserem. Um filósofo a remeter para o futuro um problema dos nossos dias? Está bem. «Ora, é nas escolas que a questão é complicada, porque a quem está a aprender a escrever o problema das consoantes mudas não se põe (a mim, sim, porque não as digo mas leio-as!). E aí julgo que o Ministério da Educação tem pertinência em propor uma lei destas. Poupem-nos a nós, os mais velhos, deixem que o tempo nos leve e que daqui a umas boas dezenas de anos já seja como em relação aos dois ll ou ao ph, igual para todos.»

[Texto 1146]
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VOP e LINCE, «malformações inviáveis»

Inaplicável

      Paulo Jorge Assunção, docente e investigador, escreve hoje no Público sobre o Acordo Ortográfico. Eis um excerto do que me parece mais relevante: «Para quem não esteja a perceber nada, por não ter lido o AO90, esclareço. O texto publicado no Diário da República de 23-8-1991 não contém, realmente, a nova grafia das palavras. O que se lê, num Anexo, é apenas um conjunto de regras gerais (muito mal feitas), para serem mais tarde concretizadas (artigo 2.º do AO90) através do estabelecimento de um vocabulário ortográfico comum a todos os países signatários (ou seja, por via de outro acordo, específico), que nunca foi feito.
      Isto significa que o AO90 ficou (nos seus próprios termos) inaplicável, suspenso de facto futuro. Não sou eu quem o diz. É o texto do AO90 que é explícito.
      E, no meio do absurdo, tem lógica que assim seja, pois ninguém sabe ao certo explicar o que significa “escreve-se quando se pronuncia”, porque isso retira o “h” ao verbo “haver”, por exemplo, e deixa a dúvida acerca do “p” em “excepto”, porque o João não diz o “p”, mas a Maria diz o “p”. Se o Estado se comprometera, com os demais signatários, a elaborar o vocabulário comum, não poderia entregar a mãos incertas aquilo que nem sequer é seu: a Língua Portuguesa.
      Postos à solta, os legisladores por contrato andaram a inventar. Já que estavam “com a mão na massa”, moldaram (com os pés?) o próprio acordo (que não lhes pareceu suficientemente mau...), cortando consoantes a granel, como se não houvesse amanhã!
      O acordo, na Base IV, prevê duplas grafias?! Nada disso! O acordo prevê, mas eles não deixam! Com a legitimidade democrática do recibo verde e a sensibilidade linguística da retroescavadora, esta troika oculta reinventou a Língua, segundo o insondável critério do “acho que fica melhor assim”. No entusiasmo, aproveitou o facto de o AO90 ser aberto e impreciso e, milhares de euros mais tarde, eis que pariu esta malformação inviável, a que chamam VOP e LINCE. E é como estamos. Porém, num Estado de Direito, de onde a certeza e a segurança não devem ausentar-se, as coisas não são assim.
      Por isso, sem norma técnica com valor jurídico que as defina, as regras gerais do AO90 não vigoram.
      Como se entende, pois, esta desenfreada imposição do disparate? É simples. A maioria das pessoas não leu o texto do acordo. Diz-se que aquilo é obrigatório. Os impostos pagam as acções de (de)formação nos serviços públicos e nas empresas. Começa a usar-se o barbarismo de modo generalizado. E pronto! A mentira torna-se verdade e não se fala mais nisso» («O AO90 está em vigor? Onde?», Público, 26.02.2012, p. 52).

[Texto 1145]
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Impedimentos que impedem

Falha do redactor dos improvisos

      Sobre o cancelamento da visita à Escola António Arroio, disse Cavaco Silva: «O meu gabinete, no dia próprio, teve o cuidado de informar a direcção da escola de que um impedimento de última hora me impediu de concretizar a visita.» Parece mais discricionário do que é: não terá sido no dia próprio, mas no próprio dia. E lá está o impedimento a fazer, num país onde nem tudo funciona bem, o que lhe compete: a impedir.

[Texto 1144]
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«Duzentos gramas»

Uma batalha quase perdida

      Disse, no Telejornal de ontem, a jornalista Marta Jorge: «Estela [neta dos reis da Suécia] nasceu ontem, com três quilos e duzentas. Vai receber o título de duquesa e será tratada por Sua Alteza Real.» Em Ciências da Comunicação não ensinam coisas tão comezinhas como o género de «grama». Não é preciso: está nos dicionários.

[Texto 1143]
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«Ridículo/risível»

E porquê, não nos diz?

      «Há também por aí também o risível que é», escreveu certa vez Bic Laranja num comentário no Assim Mesmo, «em todos os sentidos, ridículo. Este alvor de “risibilidade” é um enjoo.» Ora, não concordo nem um pouco, e muito satisfeito fiquei de ver em Mário Barreto a palavra condenada: «Da colocação defeituosa dos sinais de pontuação podem tambêm resultar equívocos, ás vezes risíveis, como êste que se nos depara na prosa de um ilustre contemporâneo, e que é talvez descuido de impressão» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 77).

[Texto 1142]
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Quais estrangeirismos?

Este é que era sensato

      «Rui Barbosa, no lugar indicado da sua Réplica que eu cito sempre que posso e com loa pela muita erudição que encerra e pela fadiga e trabalho que deve ter custado a seu autor, salvou palavras e construções do injusto ferrete de galicanas, e mostrou o quanto é delicada e exposta a equivocações a divisão exacta dos vocábulos em estranhos e castiços, pois pululam grande número de vozes, que, ainda que parecem novas e de fisionomia tirante ao francês, são de mui antiga e acrisolada ascendência. É preciso, pois, que se ponha suma atenção ao qualificar as palavras e frases que se supõem suspeitosas do pecado de estrangeirismo, para que não suceda que, por excluir as forasteiras, vindas de França, arrojemos tambêm do seu próprio solar palavras lusitaníssimas» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 117).
      Faz lembrar o provérbio (alemão?) que diz que não se deve deitar fora o bebé com a água do banho, que ainda ontem ouvi na rádio. Como a pessoa que estava ao meu lado elevou para mim um olhar interrogador, posso supor que é menos universal do que eu pensava? Não. Se estivéssemos a ouvir a BBC Radio 4 — Throw out the baby with the bath water either —, o olhar já teria sido de entendimento.

[Texto 1141]
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De como a revisão faz falta

Estas contas

      Eu não dava mais de 70 anos a Almeida Faria, mas, pelo que leio na Ípsilon, tem 88! «Muito novo, Almeida Faria deu sinais de não jogar de acordo com as regras habituais da carreira literária: surgiu cedo e com brado, publicando “Rumor Branco” em 1943, com 19 anos – uma raridade, face à maturidade do livro» («O regresso do estilista esquivo», João Bonifácio, p. 20). A falta de revisão nota-se sempre: «Em termos estilísticos, o livro representa um salto na sua obra – é mais narrativo e mais ensaístico do que toda a sua produção, mas acima de tudo menos barroco, mais limpo e as longas elipses que usava.» As longas elipses que usava... desapareceram.

[Texto 1140]
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Inanidades em vez de notícias

Ah! Je suis fadé!...

      «As mulheres que participavam nestas festas eram prostitutas que trabalhavam para Dodo La Saumure (a Salmoura), proprietário de vários bordéis na Bélgica, junto à fronteira» («Strauss-Kahn será arguido por suspeita de cumplicidade em proxenetismo e receptação», Clara Barata, Público, 23.02.2012, p. 18).
Sim, saumure significa «salmoura», como dodo quer dizer «caminha» e «oó» — e depois, cara Clara Barata, que acrescenta isso à notícia senão caracteres? Está aqui a escapar-me alguma coisa? Se se chamasse Dodo le Branleur, ainda vá que não vá.
[Texto 1139]
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Como se fala na rádio

Filosofices

      «Uma semana depois de terminar o prazo dado às autarquias para apresentarem um plano de pagamento das dívidas à Águas de Portugal (AdP), o Ministério do Ambiente não divulgou quantas câmaras cumpriram as orientações da tutela» («Dívidas das câmaras à Águas de Portugal sem plano», Público, 23.02.2012, p. 7).
      Sim, subentende-se ali a palavra «empresa», mas não deixa de ser estranho. «Uma semana depois de terminar o prazo dado às autarquias para apresentarem um plano de pagamento das dívidas à empresa Águas de Portugal, etc.» «Bem vindo à Águas de Cascais», li hoje mal entrei no edifício da empresa na Avenida do Ultramar. (E na Antena 2 ouvi uma entrevista a Eduardo Lourenço em que o filósofo falava da nossa «ex-África».)
[Texto 1138]
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Como se fala na rádio

Levado ao extremo

      Rui Pedro, disse Pedro Malaquias na revista de imprensa na Antena 2, hoje de manhã, «está desaparecido em parte incerta». Se estivesse desaparecido em parte certa, provavelmente já teria sido encontrado...

[Texto 1137]
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«Prescindir de»

Pode acontecer

      «Bem sabemos que o país vive a hora de prescindir os anéis para salvar os dedos. Mas a pressão dos cortes não deve ser um rolo compressor que faça tábua rasa de um passado», lê-se no editorial de hoje do Público. Como pode não ser gralha, é conveniente dizer que está errado. Correcto é prescindir de.

[Texto 1136]
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Como se escreve nos jornais

Chega: já sabemos

      «Paszkowski era um amigo chegado de DSK, como os franceses lhe chamam, aquele com quem ele trocava sms [sic], que no âmbito do processo são passados a pente fino, em busca de pistas. Os juízes tentam determinar se o ex-dirigente do FMI sabia ou não que as festas se faziam com prostitutas. Strauss-Kahn garante que não» («Strauss-Kahn será arguido por suspeita de cumplicidade em proxenetismo e receptação», Clara Barata, Público, 23.02.2012, p. 19).
      Depois de meses e meses a escreverem o mesmo, será necessário que à abreviatura DSK se siga sempre o apêndice «como os franceses lhe chamam»?

[Texto 1135]
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Pontuação de frase

Recomendo

      Um historiador, Cristiano Pinheiro de Paula Couto, quis saber como pontuar uma frase. Vai daí, achou que o melhor era perguntar ao Ciberdúvidas: «“A história ou, mais precisamente, a historiografia tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”
      “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”
      Afinal, como devo pontuar essa frase?»
      Ao que respondeu o consultor: «Recomendo a segunda opção, visto a expressão “mais precisamente” introduzir, de forma semelhante a um aposto, a retificação ou a especificação de uma expressão imediatamente anterior no contexto frásico:
      1. “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado...”
      Em expressão [sic] “ou mais precisamente” poderia também ocorrer sem a conjunção coordenativa disjuntiva ou: “A história, mais precisamente a historiografia, tem...”
      Não encontro informação em gramáticas ou prontuários que reforcem esta minha recomendação. Na falta de outras fontes normativas, a observação de corpora linguísticos pode ser útil para definir um padrão de uso. Por isso, compare-se 1 com a pontuação das frases 2 e 3, recolhidas no Corpus do Português, de Mark Davies e Michael Ferreira:
      2. “A França, mais precisamente Paris, passou a ser o centro das atividades artísticas.”
      3. “No século XV, mais precisamente em 1442, fundou-se a Gilda [sic] de São Lucas.”
      Os exemplos 2 e 3 permitem evidenciar que “mais precisamente X” se usa habitualmente entre vírgulas.»
      Sim, «mais precisamente X» usa-se habitualmente entre vírgulas, mas as expressões definidoras ou esclarecedoras, como alguns autores as designam, tais como isto é, a saber, quer dizer, ou seja, etc., não incluem a rectificação ou especificação, e, assim, a primeira opção também está correcta.

[Texto 1134]
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Ortografia: «leão-marinho-da-califórnia»

Não recomendo

      «Penso que o correcto», escreve Maria Sousa, uma editora, no Ciberdúvidas, «é escrever leão-marinho-da-califórnia, ou seja, com as iniciais minúsculas. No entanto, se se pretender, para salientar o nome do animal, começar por maiúscula, devo utilizar a maiúscula para as restantes palavras que compõem o nome? Ou seja, devo escrever Leão-marinho-da-califórnia, ou Leão-Marinho-da-Califórnia?» Não percebo para quê tal realce, mas está bem. O consultor respondeu: «A palavra corresponde a substantivo comum, pelo que deve ser escrita com iniciais minúsculas: leão-marinho-da-califórnia. Sobre a possibilidade colocada, tendo em conta que preposições e contrações não têm maiúscula inicial em nome de países (p. ex., Estados Unidos da América, Costa do Marfim), recomendo a forma proposta pela consulente, só em situações excecionais: Leão-Marinho-da-Califórnia.» A possibilidade colocada... Bem, eu não recomendo.
[Texto 1133]
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Como se traduz nos jornais

Ou uma prostituta vestida

      «“Nessas soirées as mulheres não tinham roupa, e desafio quem quer que seja a distinguir uma mulher nua de uma prostituta nua”, disse o seu advogado Henri Leclerc» («Strauss-Kahn permanece sob detenção numa esquadra de Lille até terminar interrogatório», Rita Siza, Público, 22.02.2012, p. 19).
      Soirée! Mas então que diremos? Serão? Sarau? Reunião nocturna? Na imprensa de língua inglesa, escreveram assim: «“At these parties, people were not necessarily dressed, and I defy you to tell the difference between a naked prostitute and any other naked woman,” he said.» Reparem também: «people were not necessarily dressed». O Libération diz o mesmo: «Selon le conseil de DSK, “dans ces soirées, on n’est pas forcément habillé. Et je vous défie de distinguer une prostituée nue d’une femme du monde nue”, avait déclaré Me Henri Leclerc.» Mal traduzido, pois.
[Texto 1132]
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Como se escreve nos jornais

Da participação em rixa

      Pierre Casiraghi, o filho mais novo da princesa Carolina do Mónaco, envolveu-se numa briga num bar de Nova Iorque. É o que se lê no Público, e percebe-se («Nova Iorque. Pierre Casighari [sic] ferido em briga», «P2»/Público, 22.02.2012, p. 15). O último parágrafo, pelo estilo telegráfico, é que nos deixa um pouco atordoados: «No domingo, Pierre foi hospitalizado para tratar ferimentos e Adam Hock compareceu perante em [sic] tribunal, sendo acusado de agressões. Questionou por que não havia acusações contra Casighari [sic]. A Casa Real de Mónaco comentou.»
[Texto 1131]
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O AOLP90 mal pensado

Uma espécie de argumento

      «Eu não vou aderir nunca ao acordo ortográfico», escreve o fundador do Clube dos Pensadores, Joaquim Jorge, na edição de hoje do Público. Há muitas pessoas a dizerem o mesmo, mas têm sempre* mais de 50 anos (e 60, e 70...) e não vivem, directa ou indirectamente, da escrita. A mensagem principal, demasiado repetida, é a de que o autor não vai escrever em conformidade com as novas regras ortográficas. «Vou escrever sempre como aprendi e me ensinaram.» «A língua é algo inegociável e patriótico, nada se consegue à força. Eu vou continuar a escrever como antigamente.» «Não contem comigo.» «Quando escrevo um artigo de opinião para um jornal vinco no fim do texto que escrevo ao abrigo do antigo acordo ortográfico, aliás não sei escrever ao abrigo do novo acordo e nem me interessa saber nem perceber.» Argumento (ou ameaça, ou ideia...) final: «Não se muda uma língua por decreto, contra a vontade de um povo e contra a maioria de pareceres técnico-científicos. O que é imposto dificilmente é aceite.» Ah não? Então e a ortografia do Acordo Ortográfico de 1945, aquela que o biólogo Joaquim Jorge usa, é inata, uma dádiva dos deuses?

[Texto 1130]

* Só com uma excepção, que eu conheça: João Pedro Graça, o primeiro subscritor da ILC, que, segundo notícia do Público aqui reproduzida, «abdicou da sua profissão, e está agora desempregado, por se recusar a trabalhar subjugado pelo AO». Só espero que não aufira subsídio de desemprego, pois era como o tipo que mata os pais e depois pede auxílio por ser órfão.

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Sobre «modelo»

Ele é que sabia

      «Houve dançarinos que foram às mesas buscar modelos para os colocarem elegantemente em cima das mesas ao som de Led Zeppelin, um concerto da orquestra de jazz de Ronnie Scott e números de magia do holandês Hans Klok, que fez da manequim Alexa Chung sua assistente (Chung não foi só hipnotizada, como levitou sobre três espadas)» («Londres Jantar de Stella McCartney ficou na história da moda», «P2»/Público, 21.02.2012, p. 15).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «modelo», nesta acepção, é de ambos os géneros. O revisor antibrasileiro não deixava passar isto, que considerava um disparate. Modelo é do género masculino.
[Texto 1129]
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Léxico: «semáfora»

Termo da Marinha

      «Na sua origem está o movimento britânico de luta contra o nuclear e a semáfora, o código de bandeiras usado para a comunicação entre embarcações, mas quase todos o conhecemos como o símbolo da paz, impresso em t-shirts e canecas, pintado em paredes, viadutos e nas velhas Volkswagen “pão de forma”» («Gerald Holtom cria o símbolo que viria a ser da paz», «P2»/Público, 21.02.2012, p. 2).
      É termo que não está em muitos dicionários. O Dicionário Houaiss acolhe-o: «bandeirola colorida para transmissão manual de sinais, usada aos pares». Acabei de redigir uma definição e ofereci-a ao Departamento de Dicionários da Porto Editora.
[Texto 1128]
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«Sua eminência reverendíssima»

Bem e mal

      «A alfaiataria fica em Roma, a Cidade dos Cardeais. As vestes de suas eminências reverendíssimas são apenas feitas de vermelho carmesim. Numa Igreja marcada por símbolos, a cor contém uma importante mensagem», disse Márcia Rodrigues. E logo a seguir o padre John Wauck, um vaticanista bem-disposto, explicou o simbolismo das cores. Esta é, de facto, a forma de tratamento de um cardeal, quando referido de forma indirecta: sua eminência reverendíssima. Ora, ainda recentemente ouvi um oficial do Exército a referir-se ao bispo D. Januário Torgal Ferreira como «sua eminência». Márcia Rodrigues errou a seguir: «Os cardeais, também tidos como príncipes da Igreja, distinguem-se pelo barrete cardinalício.» Príncipe da Igreja é um título criado pelo Papa Bonifácio VIII. Ainda teve, contudo, oportunidade de ensinar que «o nome “cardeal” significa “eixo”, uma linha que gira em torno do papa».
[Texto 1127]
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«Se não/senão»

Mas escrevam melhor

      «“Esta situação é um autêntico engano e o Governo sabe-o há meses. Todos os matadouros da região de Paris vendem carne halal, sem excepção. Não há se não carne halal”, argumentou Le Pen, no congresso em Lille neste fim-de-semana do seu partido, a Frente Nacional. É um regresso ao território anti-imigração habitual na líder da extrema-direita francesa, a qual ameaçou apresentar queixas legais contra os distribuidores por “enganarem os consumidores”» («Marine Le Pen volta à retórica anti-imigração e anti-islâmica», Público, 20.02.2011, p. 17).
      «Não há senão mato rasteiro, imbondeiros, nuvens, abutres, um horizonte por vezes cor de fogo, talvez revérberos de queimadas» (Jornada de África, Manuel Alegre. Revisão de Susana Baeta. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2007, p. 95).
[Texto 1126]
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Isso não é português

Parem!

      «Irão pára de vender petróleo a Paris e Londres» (Público, 20.02.2011, p. 17). Quase copiaram o que diziam os jornais de língua inglesa: «Iran Stops Oil Sales To British, French Companies».

[Texto 1125]
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O AOLP90 e os cágados

Assim não convence ninguém

      «Mas faltam ainda muitas assinaturas, por isso este apelo que hoje faço a toda a gente que acha que tirar o acento ao cágado é humilhante para a criatura, que ver Clara a boiar não teria sido certamente a intenção do prémio Nobel autor de Clarabóia, ou que não esteja minimamente de acordo com a transmutação absurda de espectadores em bandarilheiros» («Ilcao.cedilha.net», Manuel Luís de Bragança, Público, 19.02.2012, p. 52).
      Manuel Luís de Bragança, subscritor da iniciativa legislativa de cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, confunde os acordos ortográficos. No texto do acordo de 1986 é que «cágado» perdia o acento. Talvez Manuel Luís de Bragança queira vir aqui explicar porque o fez.

[Texto 1124]
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«Dicção» e «dicionário»

O AOLP definitivamente explicado

      Helena Topa, professora do ensino superior, tradutora e revisora de texto, no Público de hoje: «4.º Parece-me que algumas mudanças são empoladas e dramatizadas (e serão assim tantas e com tantos efeitos? Experimentem ler textos de jornal, aqui no PÚBLICO, por exemplo, onde as duas normas convivem, e não vão notar assim tantas diferenças). Aqui d’El-Rei!, como irá um professor explicar ao pobre aluno que ‘Egito’ se escreve sem p e ‘egípcio’ com? Do mesmo modo que terá de explicar, por exemplo, que ‘dicção’ se escreve com c e ‘dicionário’ sem. E outras irregularidades (não só ortográficas) da língua» («Acordo Ortográfico: prós e contras», p. 52).
      Como se fossem situações semelhantes. Desde quando é que o falante comum, e em especial as criancinhas que estão a aprender, pois é neste contexto que a autora usa o argumento, liga «dicção» a «dicionário» como liga «Egipto» a «egípcio»?

[Texto 1123]
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O AOLP nos partidos

Ação Socialista

      «Os partidos políticos ainda não são obrigados a aplicar as novas regras e o PCP optou mesmo por só o fazer mais tarde» («Socialistas e PSD já instalaram conversores nas sedes nacionais», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 23).
      E alguma vez vão ser obrigados a fazê-lo? Claro que o ideal é os cidadãos não refilarem. «Faro foi uma das dez autarquias, entre as capitais de distrito, que aderiram. O presidente e ex-governante Macário Correia explica ao i que tem por “bom hábito cumprir as leis e as normas” e por isso cumpre “o acordo desde que entrou em vigor”» («Lisboa e Jardim resistem ao acordo ortográfico. Maioria das câmaras já o aplica», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 22). O maior dilema é no PS: «O PS – que protestou contra a decisão de Vasco Graça Moura de retirar os conversores no Centro Cultural de Belém – foi o partido que mais se aplicou em cumprir à risca as novas regras, mas, durante este processo, foi confrontado com um pequeno imbróglio: o cabeçalho do jornal oficial “Acção Socialista” deve ser alterado ou não? A decisão foi, diz o director do jornal, Marcos Sá, “não fazer [a] alteração, já que é uma marca que está registada”» («Socialistas e PSD já instalaram conversores nas sedes nacionais», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 23). Não me parece um imbróglio.
[Texto 1122]
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«Evadir questões»

Eludir, evitar

      «O Presidente tornou-se alvo de chacota geral: foi mesmo criado o verbo wulffen (“wulffar”), que pode ter vários significados: “gritar enraivecido para uma caixa de mensagens de um telemóvel”, “conseguir evadir questões sem chegar necessariamente a mentir”, ou “obter algo sem pagar”» («Presidente alemão demite-se após anúncio de que ia ser investigado», Maria João Guimarães, Público, 18.02.2012, p. 16).
      Serão questões ou perguntas? Evadir ou evitar? E que alcance prático tem tentar traduzir ou adaptar o verbo à língua portuguesa?
[Texto 1121]
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«Beto», «betinho»

Tipo social

      «“Os betinhos e as betinhas de Lisboa que integram este Governo talvez ainda não tenham percebido que estão a mexer com coisas muito sérias”, disse Marinho Pinto, em Castro Daire, onde, ontem à tarde, mil pessoas se manifestaram contra o encerramento do tribunal da comarca» (Público, 18.02.2012, p. 6).
      Os Brasileiros não conhecem o termo. E qual é a melhor definição? «Jovem bem-comportado, geralmente um pouco presumido», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «Diz-se de ou jovem que exibe comportamento ou aparência considerado como pertencente a uma classe social elevada», lê-se no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
[Texto 1120]
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«Fizeram rebentar o portão»

Ora vejamos

      «Na Nigéria, homens armados de um grupo islamita atacaram uma cadeia. Mataram um guarda e libertaram 119 prisioneiros. Os assaltantes fizeram rebentar o portão da cadeia com uma bomba. O Governo da Nigéria já ordenou uma investigação ao caso» (Bom Dia Portugal, Carla Trafaria. RTP 1, 17.02.2012, 7h14).
      «Fizeram rebentar»? Se fosse necessário, não teria usado, como é tão vulgar, o verbo «fazer». No caso, há-de querer dizer que os assaltantes contrataram alguém — talvez serralheiros — para rebentar o portão...
Quanto a islamita, está correcto. É a única forma, registada na página 575, que encontramos no Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves. Saberão isto no Público?
[Texto 1119]
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Como se fala na televisão

Ficamos estafados só de ouvir


      Triplo homicídio em Beja. Helena Sousa e Silva, da RTP, junto ao Estabelecimento Prisional de Lisboa: «Bom, aquilo que foi divulgado então é que Francisco Esperança, de 60 anos, se enforcou durante esta noite. Enforcou-se na cela onde estava. Utilizou os lençóis da sua cama para colocar termo à vida, ele que tinha sido transferido aqui para o Estabelecimento Prisional de Lisboa ontem à tarde, e por questões de segurança, ou seja, ele tem estado, desde segunda-feira que estava em Beja, na prisão, mas depois as autoridades consideraram que seria perigoso ele estar ali por estar então em contacto com outros presos, e poderia haver retaliações depois daquele alegado crime, não é, que ele então era o suspeito de ter matado a mulher, a filha e uma neta de apenas 4 anos, para além de todos os animais que tinha em casa, portanto as autoridades consideraram que poderia haver ali algum perigo e transferiram-no aqui para o Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde ironicamente foi o próprio Francisco Esperança que decidiu então pôr um termo à sua vida.»
      Penoso. Com metade das palavras (e metade dos erros e redundâncias), diria o mesmo.

[Texto 1118]
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Como falam os psicólogos

O povo não percebe

      Triplo homicídio em Beja. Maria Francisca Rebocho, psicóloga forense, veio explicar tudo: «Tipicamente, este crime, estes crimes organizados estão associados a patologia mental, do tipo psicótico, patologia major, que este indivíduo não parece ter, porque, se ele estivesse sob o efeito de um delírio, não teria havido lugar àquela premeditação tão estruturada.» Hã?! Está bem, está bem.
[Texto 1117]
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«Nariz saliente»

Mas todos dizem assim

      «D. João V era bastante alto, por isso descrito como tendo “uma estatura bizarra”. Contudo, era bem proporcionado e de agradável presença, com grandes olhos cinzentos e nariz saliente» (O Caminho dos Reis de Portugal, Sérgio Luís de Carvalho. Revisão de Fernanda Fonseca. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2.ª ed., 2010, p. 88).
      Ora, eu já li muitas vezes isto: «nariz saliente». Fará sentido? É que o nariz é, como se pode ler em qualquer dicionário, a parte saliente do rosto, situada acima da boca, onde se encontra a parte anterior das fossas nasais, e que constitui o órgão do olfato. O vigésimo quarto rei de Portugal não teria antes o nariz demasiado saliente?
[Texto 1116]
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Sobre «gulag»

Direcção-Geral dos Campos

      Não é estranho que nunca se veja o aportuguesamento de gulag? Até porque é o acrónimo (o acróstico!, lê-se no Dicionário Houaiss em linha — sabia, caro Paulo Araujo?) de Glavnoie Upravlenie Laguerei. Gulague.

[Texto 1115]
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Felicitas Philippi

Por um p

      «Filipe II chegou a pensar em transferir a capital de Espanha para Lisboa. A cidade passaria a chamar-se Felicitas Philipi» (O Caminho dos Reis de Portugal, Sérgio Luís de Carvalho. Revisão de Fernanda Fonseca. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2.ª ed., 2010, p. 72).
      Só o refiro porque poucos portugueses (e nenhum espanhol?) o saberão. Quase acertaram, o autor e a revisora. Felicitas Philippi. «Houve mesmo o projecto de estabelecer a capital da Hespanha em Lisboa, a que chamavam Felicitas Philippi; a morte do monarcha, acontecida a 13 de março de 1621, impediu, talvez, de realizar-se a mudança», escreveu Teixeira de Aragão em 1875.
[Texto 1114]
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«Último/mais recente»

Tu quoque, Antoni

      Na Antena 1, estavam a oferecer bilhetes para o concerto de Sara Tavares no Centro Cultural de Belém. Os ouvintes só tinham de saber o nome do último disco (Xinti) da artista. «Último não», corrige-se a si próprio António Macedo. «O mais recente trabalho. Último será daqui a muitos anos.» Não é assim, caro António Macedo, pois «último» também significa mais recente, mais novo. Nunca teve curiosidade de consultar um dicionário para ver? Quis dizer-lhe, mas: «A caixa de correio do destinatário está cheia e não pode aceitar mais mensagens.»
[Texto 1113]
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«Força Armada»

Também não percebi

      Um oficial da Armada, Rui Amaral, nas «Cartas à Directora» do Público: «Li com bastante atenção o artigo de Vasco Pulido Valente (V.P.V.) de 10/02, “A insubmissão militar”. Entre outras coisas, escreve V.P.V. “Para que precisa a Força Armada de privilégios, que só faz sentido conceder em tempo de guerra? Como de costume, os militares começaram agora com exigências de puro carácter corporativo: promoções (sempre essa velha questão), saúde, equiparação de facto ao funcionalismo civil e outras queixas do mesmo teor....” Quanto à “Força Armada”, interrogo-me porque não usou V.P.V. a expressão correcta “Forças Armadas”. Terá querido usar um termo depreciativo para se referir a uma organização secular e estruturante do país ou ao invés tratou-se somente de um engano?»
      Também me interroguei sobre este singular tão singular. Não é raro que tais subtilezas, se o são, se percam completamente. É, convenhamos, um castigo justo.
[Texto 1112]
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Diferença e discriminação

Não se percebe a intenção

      «“A paz vai tardar” na comunidade de Beja, antecipa João Gregório, que diz ter andado “à escola” na primária com Francisco Esperança» («Prisão preventiva para alegado autor de triplo homicídio», Carlos Dias, Público, 16.02.2012, p. 10).
      Não sei se gosto de ver os jornalistas, habitualmente tão desleixados quanto ao resto, tão atentos a estas diferenças linguísticas. Está a fazer um ano que a jornalista Catarina Pires tentou reproduzir o sotaque de uma imigrante chinesa: «Estudantes do 9.º e 6.º anos da Escola Selecta, em Lisboa, estão entre os melhores alunos e, quando não estão nas aulas, estão em casa a estudar. “Acho que aquela é muito regulosa. Eu também sou, mas ainda não cheguei ao nível dela. Ela é mais exigente”, observa Inga, a rir» («Mães tigre em Portugal», Catarina Pires, Notícias Magazine, 6.03.2011, p. 69).
      «Nega, contrafeito, e informa-me que é de Évora. Digo-lhe de onde sou. Servido o brande, com mão de alentejano para alentejano, a conversa adianta-se, fluente e íntima como se nos conhecêssemos de andar à escola» (Crónicas Algarvias, Manuel da Fonseca. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, p. 72).

[Texto 1111]
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Como se fala na televisão

Exagerado

      Triplo homicídio em Beja. O repórter Paulo Nobre, da RTP, em directo: «Não, não se percebeu o que precedeu este massacre e porque é que ele aconteceu. E é isso que tem intrigado aqui as pessoas e que as tem movido, quer ontem à porta da casa do alegado homicida e daquela família, quer hoje aqui frente ao Tribunal de Beja.»
      Felizmente o tribunal fechou à hora de almoço, e as pessoas lá puderam ir para casa... «Massacre», Paulo Nobre? Não estará a confundir o alegado homicida, «pessoa afável, simpática, de fino trato», com Pol Pot? Massacre, mortandade, carnificina...
[Texto 1110]
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AOLP90, um purgante?

Agora vamos ver

      O Acordo Ortográfico de 1990 voltou a ser tema do editorial do Público: «De repente, parece que a contestação ao Acordo Ortográfico (AO) deixou o aparente silêncio onde se movia para ressurgir, com estrondo, na opinião pública. Artigos em jornais e revistas, actos públicos, iniciativas coordenadas ou isoladas insinuam-se como se de uma campanha se tratasse. Há uma explicação para isso: a profusão de textos escritos (e muitos deles mal escritos) seguindo, ou pretendendo seguir, o AO (alguns com disparates de monta, como escrevendo “fato” em lugar de facto, quando este é um dos muitíssimos casos onde se fixou dupla grafia, “fato” para o Brasil e “facto” para Portugal — já que os africanos têm sido marginalizados em tal “partilha”) faz com que as reacções aumentem. É como o óleo de rícino: ninguém diz mal dele até começar a tomá-lo. O Acordo Ortográfico, cuja aplicação forçada e nada consensual vai revelando cada vez mais as suas muitas fragilidades e incongruências, apela a que, de uma vez por todas, se olhe para o amontoado de erros que ele contém e se decida o seu destino, a bem da língua portuguesa, onde quer que ela se fale e escreva. E é em nome do futuro e não do passado que falamos, ao renovar tal apelo» («Língua, ortografia e óleo de rícino», Público, 15.02.2012, p. 30).
[Texto 1109]
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«Lacuna/laguna/lagoa»

Tudo passa

      «La extensa biografía que Walter Isaacson escribió sobre el co-fundador de Apple no se detenía demasiado en su faceta zen, laguna que ahora pretende cubrir The Zen of Steve Jobs, novela gráfica que explora la relación de Jobs con el sacerdote budista Kobun Chino Otogawa», acabei de ler no blogue Papeles Perdidos, do El País.
      Em castelhano, laguna tanto é bacia litoral de água paradas como omissão. Nós divergimos — e ainda bem. Para a bacia litoral, temos laguna e para a omissão temos lacuna, que foi, outrora, um cultismo. Tudo passa. «En los manuscritos o impresos, omisión o hueco en que se dejó de poner algo o en que algo ha desaparecido por la acción del tiempo o por otra causa.» E até divergimos mais, pois também temos, por via popular, lagoa.
[Texto 1108]
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Quem tuteamos

Detido e tuteado

      Acesa altercação. Já sabem onde. O inspector tratou o detido por tu. O advogado deste não gostou e disse-o. Que era falta de respeito. Que não, não era, respondeu o inspector. Eu só desabafei com um audível «Valha-me Deus!», mas apetecia-me afirmar em voz alta, se fosse ali chamado, que era falta de respeito, sem dúvida. «Só o fez porque o meu cliente é negro.» Isso é que já não sei, senhor Dr.

[Texto 1107]
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«Brisa glaciar»

Humildemente

      «Agora, sempre que vejo os restos mortais de algum jornal gratuito abandonado no metropolitano, ou esvoaçando, qual melancólico fantasma, pelas ruas flageladas pela brisa glaciar de Fevereiro, lembro-me do Manuel António Pina» («Embrulhar o peixe», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 14.02.2012, p. 3).
     Tenha atenção da próxima, Jorge Marmelo, «glaciar» é substantivo e verbo. O que queria era um adjectivo. Ei-lo: glacial. Ora de nada, eu também sou generoso.
[Texto 1106]
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Neste momento

Aguarda-se a todo o instante...

      Entretanto, na Assembleia da República, na comissão de Educação, Ciência e Cultura, encontra-se o cidadão (outro jurista?) David José Caldas Baptista da Silva para defender a petição (n.º 68/XII), de que é o único subscritor, em que exige um referendo sobre o Acordo Ortográfico. A «questão» que o peticionário quer «colocar» — são os termos da petição, que está aqui — ao bom povo é a seguinte: «Concorda com a existência e implementação do Novo Acordo Ortográfico?»
[Texto 1105]
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«Contra a vontade do povo português»

Não colhe

      «O queixoso [Ivo Miguel Barroso, assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa] explicou à Lusa que o AO viola a Constituição, porque esta foi escrita seguindo a ortografia anterior ao acordo aprovado em 1990. Daí que seria necessária “uma revisão constitucional” para que a ortografia da Constituição fosse alterada. “Assinalo, porém, que a Constituição já foi aprovada. As alterações, em sede de revisão, são feitas artigo a artigo. Por isso, só alterando todos os artigos que estão em desconformidade com o AO”, adverte Ivo Barroso, segundo a Lusa. E acrescenta que “uma língua não se muda por decreto”, além de que considera que o acordo foi elaborado “contra a vontade do povo português” e contra a maioria dos “pareceres técnico-científicos”.
      Jorge Bacelar Gouveia, professor da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, ainda que admitindo que a iniciativa de Ivo Barroso vem “abrir uma nova frente de discussão” sobre o tema, não concorda que a constitucionalidade do AO esteja em causa. “Não se trata de uma revisão da língua, que não muda”, argumenta o também presidente do Instituto de Direito da Língua Portuguesa. E nota que o AO “não tem uma dimensão punitiva”, continuando os portugueses a poder usar a língua como bem entenderem. Também a constitucionalista e deputada independente pelo PS Isabel Mayer Moreira, salvaguardando não conhecer o teor do requerimento, acha que a ideia da inconstitucionalidade “não colhe”. “O que não pode ser alterado são as palavras no seu significante, não na forma. Se se retirar um ‘c’ antes de um ‘p’, isso não altera o significado da palavra”, diz» («Movimento de oposição ao Acordo Ortográfico cresce em várias frentes», Sérgio C. Andrade, Público, 14.02.2012, p. 10).
      Custa um pouco a crer que um assistente de Direito tenha enveredado por esta via tão pouco promissora.

[Texto 1104]
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Subjugado pelo AO

Inconvertíveis

      «Quem fez questão de recusar qualquer associação entre a queixa na Provedoria e a sua luta contra o AO foi João Pedro Graça, o primeiro subscritor da ILC que continua a cuidar de reunir as assinaturas necessárias para apresentar um projecto de lei na AR que revogue o AO. “Não queremos ter só as 35 mil assinaturas exigidas por lei, mas o máximo possível para fazermos valer a nossa causa”, diz o ex-tradutor, que abdicou da sua profissão, e está agora desempregado, por se recusar a trabalhar subjugado pelo AO» («Movimento de oposição ao Acordo Ortográfico cresce em várias frentes», Sérgio C. Andrade, Público, 14.02.2012, p. 10).
      Não sabia. Inevitável é um revisor ter de se submeter, quer queira quer não queira, às novas regras ortográficas. Um tradutor, se for competente, terá sempre clientes, e a conversão é feita na editora ou pelo revisor. Uma questão de princípio, dir-se-á.
[Texto 1103]
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«Condenação no crime»?

Condenável

      «A condenação (e inabilitação durante onze anos) de Baltazar Garzón no crime de prevaricação, por ter ordenado escutas das conversas confidenciais entre os arguidos do processo Gurtel e os seus advogados, não é trama que mereça ficar entre parangonas» («O caso Garzón», Pedro Lomba, Público, 14.02.2012, p. 40).
      É-se condenado no crime ou pelo crime? Condenado na pena de... pelo crime de...
[Texto 1102]
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«Anóxia/anoxia»

Ao seu dispor

      «Uma enorme bolha preta quase tapa a vista de quem entra no Salão Nobre. “É uma bolha de desinfestação por anóxia, perfeitamente segura para os visitantes, onde o mobiliário é colocado para matar os bichinhos da madeira”, esclarece Nunes Pereira [director do Palácio da Pena]» («Aberto para obras», Marina Marques, Diário de Notícias, 30.01.2012, p. 29).
      «Anoxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso», escreveu certa vez D’ Silvas Filho. Não faltará quem afirme: «Anóxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso.» Alguns dicionários registam as duas formas.
[Texto 1101]
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Sobre «recetação»

Quase «receitação»

      «Ao todo, responderam na barra do tribunal de Aveiro seis arguidos, cinco dos quais por participação nos assaltos e um por recetação de ouro» («Ladrão quer trabalhar para ourives que agrediu», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 30.01.2012, p. 20).
      Pois, caro Vítor Lindegaard, não sabemos porque não se fechou o a de «actual» e de «actividade». Pode ser mera especulação, mas em relação ao e de «recetação», um termo pouco frequente, só podemos esperar que, daqui a uns anos, se feche completamente.
[Texto 1100]
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Interditar mais a sul

Ou antes

      O Laboratório Nacional de Engenharia Civil fez uma inspecção à Ponte D. Maria II, em Lagos, e afirma que há perigo iminente de desmoronamento. A ponte foi encerrada ao trânsito. O vice-presidente da Câmara Municipal de Lagos, António Marreiros Gonçalves, estudou profundamente o relatório e pode afirmar: «Apesar de ser um relatório ainda preliminar, diz que nós devemos encerrar, ou devemos interdir, a passagem a viaturas e a peões.» Talvez o relatório estivesse escrito em francês, interdire. Não, não: a explicação há-de estar na analogia com o verbo — mais conhecido de qualquer autarca — «intervir».

[Texto 1099]
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Como se fala na rádio

... base, sustentáculo...

      Jornalista Jorge Correia, no noticiário do meio-dia na Antena 1: «Whitney Houston passou os últimos com vários problemas sentimentais, de dinheiro e de carreira. Estava, de resto, prestes a ficar na rua, sem casa, se não fosse o suporte e apoio dos seus amigos mais próximos.»
[Texto 1098]

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Léxico: «palude»

Fora dos dicionários

      «Quem visita o Sudão do Sul fica com a impressão de que esta é uma terra de contrastes, a começar pela geografia e pelo clima: as savanas secas alternam-se com as paludes e as florestas tropicais; o calor intenso da estação seca contrasta com a humidade da estação das chuvas.» Nunca tinha visto, fora dos dicionários, a palavra «palude». Directamente do latim, é o mesmo que pântano, paul, lagoa. «Paludismo» tem aqui raiz. Quem usou a palavra só se enganou no género, que é masculino.
[Texto 1097]
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Infinitivo pessoal e impessoal

E quem não ficaria?

      «A questão dos infinitivos flexionados continua a dar-me cabo da cabeça, e não encontro solução para ela», escreve-me um leitor habitual do blogue. «Será o gosto pessoal o único critério?» A dor de cabeça foi agravada — e com que razão! — por este parágrafo da crónica de Pacheco Pereira no Público de ontem: «O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os “preguiçosos”), cultivando um egoísmo social assente em pretensos “direitos adquiridos” (“autocentrados”); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma “cultura empresarial”, capazes de correrem riscos (“competitivos”), sem cuidarem de terem “direitos” para subirem “por mérito” na escala social (“descomplexados”). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa» («A nova luta de classes», p. 32).
[Texto 1096]
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Sobre «hipster»

Degenerámos

      «Existe o mito de que os espanhóis traduzem tudo: expressões idiomáticas, termos técnicos, nomes de bandas. Não é verdade, apenas são suficientemente confiantes para arriscar em neologismos mais patrióticos. Por isso, frente a alguém que engole tendências de moda com a mesma rapidez com que muda de banda indie favorita, nós, os portugueses[,] dizemos que “é da cena”, escapando ao objectivo de classificar o objecto, ou que é um “hipster”, um estrangeirismo preguiçoso e reconfortante. Um espanhol diz, com todo o orgulho latino, que vai ali um “moderno”. Assim mesmo, a carregar no erre» («Moderna de Pueblo. Com a modernice (não) me enganas», Margarida Videira da Costa, «Liv»/. i, 11.02.2012, p. 8).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora apenas regista neste verbete: «antiquado termo designativo de determinadas pessoas com certas semelhanças com os beatniks e igualmente integradas na Beat Generation». Falta um sentido, por sinal bem moderno. Já sugeri, porque, além de criticar, temos de contribuir activamente para as coisas mudarem.
[Texto 1095]
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Debaixo da língua

Muito parecido

      E chamou nomes aos polícias? «“Não tenho precisão de ter dito isso, mas se calhar, tinha sido agredido. Mandaram-me contra a viatura. Não é assim que se interpreta as pessoas.” O que Jorge queria dizer é que não é assim que se aborda, ou se intercepta as pessoas» («Crime do Jorge Povinho. Quando um tipo se armou no Zé e fez um manguito aos agentes de autoridade», Sílvia Caneco, i, 11.02.2012, p. 29). Será, Sílvia Caneco? Há-de ser «interpela».
      «Namorados em lua-de-mel, de vez em quando trocavam lentos beijinhos. E calhou trocarem um desses beijinhos quando passavam perto de um polícia. Ora, o polícia não gostou e interpelou o casal: essas eram maneiras de andar na rua?» (Estórias Contadas, Germano Almeida. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 177).
[Texto 1094]

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«Pirete», de novo

Segunda vez

      «Jorge exemplifica com a mão esquerda: um pirete em plena sala de audiências» («Crime do Jorge Povinho. Quando um tipo se armou no Zé e fez um manguito aos agentes de autoridade», Sílvia Caneco, i, 11.02.2012, p. 29). Foi a juíza que pediu. Só não percebo é porque é que a jornalista ora fala de manguito ora de pirete. Estava nervosa, há-de ser isso, e baralharam-se-lhe as palavras e as imagens na mente. Eu é que não podia deixar passar em claro o «pirete», pois é a segunda vez — lembram-se? — que deparo com a palavra.
[Texto 1093]
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Dama de Ferro

Sabe-se lá

      «A propósito do lançamento do filme em que Meryl Streep vive a vida da primeira-ministra, um pequeno debate sobre a Dama de Ferro (nome que, ficamos a saber, foi dado por um general russo num artigo do “Pravda”)», lê-se na rubrica «Janela Indiscreta», da autoria de José Couto Nogueira, na edição de hoje do i (p. 43).
      Até que enfim que vejo isto bem escrito. É verdade que por alguém a quem ouvi, há mais de cinco anos, que não há variante brasileira da língua portuguesa, mas língua brasileira. Eu deixei-me rir, mas há-de ser porque nunca fui ao Brasil.
[Texto 1092]
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Acordo Ortográfico na PJ

E radiotelegramas, ainda há?

      Eu até pensava que já não se mandavam telegramas. Mas não: ontem recebi um da Polícia Judiciária, a notificar-me para prestar declarações como testemunha. E agora é muito mais fácil, pois também se podem enviar pela internet. Será que os manuais escolares ainda afirmam que «podemos utilizar duas formas para expedir um telegrama»? Já são três, pelo menos. Ah, e o telegrama estava assinado pelo «inspetor ***». Não tardará e vamos ter muitos falantes — quem sabe os próprios «inspetores» — a fecharem o e.

[Texto 1091]
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Acordo Ortográfico em Angola

Uma lição africana

      «O principal jornal diário angolano, Jornal de Angola, detido pelo Estado, publicou um editorial dedicado ao Acordo Ortográfico, ao qual tece duras críticas, defendendo que “há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam”» (Público, 10.02.2012, p. 21). Gostava de ler, mas não encontro o texto.
[Texto 1090]
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Caracteres especiais

E muito bem

      «No campo, perto de Budapeste, a equipa de Susanne Åkesson, da Universidade de Lund, na Suécia, criou quatro modelos de cavalos, cada um pintado de castanho, preto, branco e com riscas pretas e brancas. “Pusemos uma cola especial nos modelos e depois contámos o número de moscas atraídas por cada um”, disse Åkesson à BBC» («Zebras têm riscas pretas e brancas para se protegerem de picadelas de insectos», Público, 10.02.2012, p. 21).
      Como sempre defendi, tenho mesmo textos no Assim Mesmo sobre o assunto, eis que os jornais começaram a usar de forma sistemática os caracteres especiais de certas línguas, como é o caso do å.

[Texto 1089]
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Espécies botânicas e zoológicas

Qual planta?

      «O escaravelho da palmeira está a ameaçar as três centenas de exemplares desta planta existentes no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, que não tem dinheiro para proteger todas as plantas em risco» («Escaravelho ameaça três centenas de palmeiras no Jardim Botânico», Ana Henriques, Público, 10.02.2012, p. 23).
      Quando lhes dá jeito — se é que têm consciência de tal —, seguem a regra do novo acordo ortográfico que manda usar hífenes nos nomes de espécies botânicas e zoológicas. Claro, agora não dava mesmo jeito: «O escaravelho-da-palmeira está a ameaçar as três centenas de exemplares desta planta, etc.»

[Texto 1088]
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«Necessidades biológicas»

Isto está a mudar

      «Uma mulher de 77 anos viveu durante quase um ano fechada numa garagem de uma habitação em S. Cosme, Gondomar. Era a própria filha que a mantinha retida no espaço, onde dispunha apenas de um sofá velho onde dormia e de uma lata que usava para as suas necessidades biológicas» («Fechou mãe na garagem durante um ano», Pedro Sales Dias, Público, 10.02.2012, p. 23).
      Não está errado, não, senhor, mas dantes só se ouvia e lia necessidades fisiológicas.
[Texto 1087]
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«Comer vegetais»

Veggies, always!


      «Bobbi Brown deu apoio com as suas maquilhagens e disse: “Quand [sic] comecei [a colaborar com este desfile], há sete anos, não sabia que as doenças do coração são a primeira causa de morte das mulheres”. Brown deu conselhos: não fumar, beber muita água, comer vegetais, ter um estilo de vida saudável. “Não é só bom para o corpo, é bom para a vida, é bom para o cabelo, é bom para rosto”, defendeu» («Nova Iorque. Mulheres de vermelho contra os males do coração», «P2»/Público, 10.02.2012, p. 19).
[Texto 1086]
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Sobre «bilíngue»

Bem lembrado, mas

      «A cedência à ortografia brasileira talvez faça vender alguns dicionários mas será altamente prejudicial para a aprendizagem da língua pelas futuras gerações de Portugueses da Europa, que já não precisam de ser desajudados. As profundas alterações introduzidas pelo presente “acordo” na ortografia portuguesa não são equivalentes à substituição do “ph” de “pharmácia” por “f”, pois esta alteração não afectou a fonética da palavra, como a supressão do “c” mudo afectará a pronúncia dos compostos do étimo “afecto” se este “acordo” for por diante. Ignora Rui Tavares o que aconteceu ao fonema “güe” na palavra “bilingüe” quando o trema foi suprimido em Portugal (o Brasil não nos acompanhou e fez bem)?» («Consoantes mudas ou colunistas surdos?», Manuel Villaverde Cabral, Público, 10.02.2012, p. 33).
      Bem lembrado. Aconteceu o que se ouve no Prontuário Sonoro. Embora — diga-se — nada tenha que ver com consoantes, mudas ou palradoras. Tem que ver com uma reforma ortográfica e com a falta que faz este sinal gráfico, que em má hora foi eliminado da língua portuguesa.
[Texto 1085]
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Como se fala na televisão

Por parte de todas as partes

      Rita Marrafa de Carvalho, em directo da Praça do Munícipio, ontem à noite: «Foram quatro longas horas aqui no Tribunal da Relação para ouvir estas alegações finais por parte de todas as partes que dizem respeito a este processo que é o Processo Casa Pia sem qualquer pausa. Ricardo Sá Fernandes foi de facto o mais intenso, aquele que com maior intensidade e veracidade se mostrava indignado perante as suas alegações finais.»
[Texto 1084]
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De escombro em escombro

Um aviso a precisar de talas

      O aviso de D. Januário Torgal Ferreira, ordinário castrense das Forças Armadas e de Segurança, não saiu lá muito escorreito: «Começo a sentir o cheiro à queda do regime. Não me admiraria que, de escombro em escombro, este governo pudesse ter horas contadas. Que não.» Saiu tão bem ou tão mal, na verdade, como estoutra: «A questão social está a ser perfeitamente esbulhada, nos seus direitos e deveres, nesta hora, em Portugal.»
[Texto 1083]
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Água-de-colónia/«eau de toilette»

Sistematizar

      Há-de ser por facilidade que o Dicionário Francês-Português da Porto Editora dá como tradução de «une eau de toilette au chèvrefeuille» «uma água-de-colónia de madressilva», pois o próprio Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que a eau de toilette é a «solução preparada com álcool, água e diversas essências aromáticas, de concentração superior à da água-de-colónia e inferior à do perfume». E José Pedro Machado também escreveu que a eau de toilette é a «loção perfumada, mais do que a água-de-colónia e menos do que o perfume propriamente dito». Segundo os manuais de perfumaria, a eau de toilette tem entre 4 % e 8 % de óleo essencial; a água-de-colónia, entre 2 % e 5 %. Nem vale a pena complicar com a eau de parfume ou o splash ou splash cologne.
      E, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, não se esqueçam: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).»
[Texto 1082]
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Como se escreve nos jornais

Na América, escreve-se assim

      Ora vejam como escreve o «nosso correspondente em Hollywood»: «[Meryl Streep] Faz de Margaret Thatcher nos anos do crepúsculo, quando a nova Britânia se invadiu de lojistas imigrados e gente nova que a ignora com impaciência» («“Foi uma maneira de sentir empatia por alguém com quem discordava”», John-Miguel Sacramento, Metro, 8.02.2012, p. 11).
[Texto 1081]
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Sobre «racional»

Dizem que é um génio

      Zurzido ontem por Ana Sá Lopes no Público, Henrique Monteiro responde hoje mansamente na secção «Cartas à Directora»: «Pelo meu, [sic] lado, além de detestar o tipo de jornalismo que fez Margarida Cardoso, gostaria de deixar claro a quem leu a peça em causa, [sic] que apenas questionei o racional do negócio, pelo que a prosa por vós citada nada tem a ver com algo que eu tenha dito, ou sequer pensado» («O i, Ana Sá Lopes e Henrique Monteiro», p. 38).
      Ainda não percebi o que é isto do «racional». Ora tenham a bondade.

[Texto 1080]
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«Face a»

Agora já é tarde

      «No sábado, Nora Berra publicou no seu blogue oficial uma nota em que recomendava medidas a adoptar face ao frio, designadamente por “sem-abrigo, crianças, idosos ou quem sofra de patologias crónicas”. Normal. O problema é que, quatro parágrafos depois, aconselhava as mesmas “populações vulneráveis” a “evitarem sair” de casa» («Gaffe em França em plena vaga de frio polar», João Manuel Rocha, Público, 9.02.2012, p. 23).
      Não é monomania, não... mas face a não é francês escarrado e cuspido? Mes recommandations face au froid...
[Texto 1079]
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Léxico: «camarinha»

A bordo

      A repórter Raquel Morão Lopes foi visitar ontem o navio-escola Sagres. O comandante Sardinha Monteiro definiu a camarinha: «Aqui a camarinha do comandante é o espaço reservado ao comandante. Onde o comandante trabalha, toma as suas refeições e onde também recebe as suas visitas.»
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista o vocábulo: «antiquado pequena câmara à popa dos navios antigos».
[Texto 1078]
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Léxico: «desmonte»

A palavra do dia

      Eng.º António Ferreira da Costa, administrador da EDP Produção, em declarações à Antena 1: «Quando se executava o desvio da Estrada Nacional 212, estava a proceder-se ao desmonte de rocha. Estes desmontes são efectuados recorrendo a explosivos, o que é normal neste tipo de obras.» Está correcto: desmonte é a escavação de rochas ou solos muito consistentes.
[Texto 1077]
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«Rubrica/rúbrica»

Os factos disponíveis

      Daniel Catalão, no Jornal da Tarde de ontem: «Pedro Rosa Mendes diz que os factos disponíveis apontam para uma relação entre a crónica que fez sobre o programa Reencontro, emitido a partir de Angola, e o fim da rúbrica Este Tempo, na Antena 1.» Está no Prontuário Sonoro, caro Daniel Catalão. E mais: «O jornalista anunciou ainda que vai colocar um processo por difamação contra Luís Marinho por causa das declarações prestadas na mesma comissão durante o dia de ontem.»
[Texto 1076]
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Como se fala no Parlamento

Dizem que é poeta

      Deputado Mendes Bota, a ler no Parlamento: «O que nós precisamos é de um PS interessado verdadeiramente no interesse nacional e que não tenha declarações políticas, essas sim verdadeiramente piegas como aquela a que aqui assistimos.»
[Texto 1075]
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Como se escreve nos jornais

Mes recommandations face au froid

      «O número de mortos proporcionado pela vaga de frio que assola a Europa fez mais de 450 mortos ao longo da última semana. Muitas das vítimas são sem-abrigo» («Governante francesa aconselha sem-abrigo a “evitarem saídas” por causa do frio», Hugo Torres, Público em linha, 8.02.2012, 15h38).
      É como um espectáculo, lindas emoções nos proporciona o frio. E o texto é sobre o deslize de Nora Berra, a secretária de Estado da Saúde francesa, que aconselhou no seu blogue certos grupos de risco, como agora se diz, a não saírem de casa. Entre eles, os sem-abrigo! Que não saiam de casa, coitados... Agora, depois de toda a chacota, já apagou os sans-abri.
[Texto 1074]
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Faculdade de Letras e AOLP90

Não passarão

      «A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) não vai implementar o novo Acordo Ortográfico oficialmente mas também não tomará uma posição contra porque não tem uma política de ortografia. A reitoria diz que o assunto ainda não foi discutido. Há quem seja a favor do acordo e quem seja contra mas a faculdade, por enquanto, não assumirá uma posição» («Faculdade de Letras de Lisboa sem posição sobre o acordo», Cláudia Carvalho e Isabel Coutinho, Público, 8.02.2012, p. 5).
      Implementar, pois... E que «política de ortografia» havia de ter uma faculdade, mesmo de Letras?
«O “site” da Faculdade de Letras de Lisboa está com a grafia antiga, como sempre esteve e não será alterado. “Se alterássemos estaríamos a ter uma posição política de ortografia e por isso vamos mantê-lo”, diz Feijó [director da Faculdade de Letras], alertando que em termos de imperativos legais o acordo não está completamente em vigor. “Eventualmente a faculdade poderá vir a ter que tomar uma decisão, mas eu não antecipo quando será”.»
      Entretanto, na página da internet do CCB ainda vemos visitas guiadas «monumentais, espetaculares» e mesmo, para lá de toda a controvérsia em torno da ortografia, «perfomáticas». É difícil pôr tudo a funcionar bem.
[Texto 1073]
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«Jura/juramento»

Bem, mas

      «O primeiro-ministro britânico, David Cameron, elogiou-lhe [a Isabel II] “a dignidade e a autoridade tranquila” e o arcebispo de Cantuária destacou o “serviço generoso” prestado ao país. A monarca, que ontem manteve uma agenda discreta, declarou-se “comovida” com as homenagens. “Consagro-me hoje de novo ao vosso serviço”, anunciou, repetindo uma jura antiga e deixando claro que o trono será seu enquanto for viva» («Reino Unido. Isabel II, a serena, subiu ao trono há 60 anos», A. F. P., Público, 7.02.2012, p. 18).
      O jornalista não deveria ter escrito «juramento»? Sim, são sinónimos — jura e juramento —, mas neste contexto é mais adequado «juramento».
      «Ali estavam “todos os grãdes, titulos & Fidalgos destes Reynos”, com um cerimonial não sumptuoso, embora digno, para o juramento do novo monarca» (História de Portugal: a Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa: Editorial Verbo, 1997, p. 24).
[Texto 1072]
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Sobre «desapontamento»

Passo

      «Albert Speer, o arquitecto do Reich, afirmou que Eva Braun “iria provar-se um grande desapontamento para os historiadores”. Um mistério trágico e medíocre» («Nascimento de Eva Braun, a amante de Adolf Hitler», «P2»/Público, 6.02.2012, p. 2).
      Desapontamento é anglicismo desnecessário, como qualquer falante reconhecerá. E há-de ser, digo eu, por Garrett declarar, no prefácio da Lírica de João Mínimo, que tem virtudes expressivas que nem sequer Montexto o enjeita. Por mim, embora saiba perfeitamente que está muito enraizado na nossa língua, detesto-o. «Nunca agradeceremos demasiado», escreveu José Gomes Ferreira, «a Garrett este abençoado anglicismo: desapontamento
[Texto 1071]
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Outro colocanço

É uma doença

      «O antigo ministro da Cultura de José Sócrates José António Pinto Ribeiro não conseguiu provar em tribunal que o jornal Expresso deturpou as suas declarações numa entrevista que concedeu ao semanário em 2008. O Ministério Público arquivou a queixa por difamação e Pinto Ribeiro foi colocando recursos até chegar ao Tribunal Constitucional» («Pinto Ribeiro perde processo contra Expresso», Maria Lopes, Público, 6.02.2012, p. 9).
      Que desgosto, Maria Lopes, que desgosto, então agora é assim que escreve? «Colocando recursos»!

[Texto 1070]
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