Latim

Tinha de ser

      A repórter Arlinda Brandão, da RTP, foi ouvir Vítor Ferreira, o organizador da exposição O Mundo dos Dinossauros, na Cordoaria Nacional. «Aqui de novo o Velociraptor, não é, e um dos animais, que era o Spinosaurus, um dos animais mais violentos da altura, apesar de não ser dos maiores, porque, como pode ver pela dentição, era uma dentição onde encaixava [sic] os dentes perfeitamente e entrava uns dentro dos outros e portanto a vítima era esmagada.» E como é que o entrevistado pronunciou o nome do dinossauro? À inglesa, pois claro.
[Texto 600]
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Acordo Ortográfico

Mal começou

«Ajudara-o a levantar-se e tinham caminhado juntos pela 24 de julho, em direção às docas.»
A aplicação cega das regras do Acordo Ortográfico também dá nisto. Como o AOLP90 manda grafar com minúscula inicial os nomes dos dias, meses e estações do ano e permite escrever Avenida 24 de Julho ou avenida 24 de Julho, vai tudo a eito.

[Texto 599]
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«À boca calada»

Bocas

      «Foram estas forças que faltaram e à boca calada se atribui a responsabilidade a Joffre» (É a Guerra, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1934, p. 161). É expressão sinónima da outra: dizer à boca pequena, que é o mesmo que dizer em privado ou em voz baixa. O contrário é dizer à boca cheia, que significa dizer publicamente.

[Texto 598]
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Sobre «travo»

Hum...

      «Expulsa pelo nariz, devagar, o fumo do primeiro travo e sente-se vacilar durante um instante.» Eu também me sinto vacilar um pouco. Podemos travar o fumo do cigarro — mas nunca antes vira o substantivo deverbal (é disso que se trata?) «travo». Conheciam? Só conheço o «travo» que todos conhecerão: o sabor adstringente de bebida ou comida ou, figuradamente, o vestígio ou impressão desagradável.
      «Tirei um cigarro e acendi-o. Inalei o fumo, travando-o nos pulmões até a vista me turvar» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 55).
[Texto 597]
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«Ter ganhado»

Em bom português

      «The Sense of an Ending, a novela de Julian Barnes que esta semana ganhou o prémio Booker, lê-se em duas horas. Levou um ano a escrever, disse o autor ao melhor telejornal do mundo — a Newsnight da BBC 2 — logo depois de ter ganho» («O Booker», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.10.2011, p. 41).
      Ter ganhado está mais conforme com os cânones da língua. «Eu só uso outro quando me engano», comentou aqui Montexto recentemente. Também há o contrário: quem acerte apenas quando se engana.

[Texto 596]
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«Backbenchers»

Se não se importam

      «Cameron já ordenou aos líderes parlamentares para imporem disciplina partidária, mas o problema não deve desaparecer, pois a iniciativa surge ao abrigo de um novo procedimento que facilita a discussão de propostas apresentadas pelos deputados menos relevantes, como é o caso de Nuttall, os chamados backbenchers, que se sentam nos lugares de trás do parlamento» («Parlamento britânico discute referendo sobre saída da UE», Diário de Notícias, 20.10.2011, p. 25).
      Muito bem: se explicam o significado, podem usar estrangeirismos, tanto mais que não há em português um termo para dizer o mesmo.

[Texto 595]
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Ortografia: «Salonica»

Assim está bem

      «Michael Staikos era, actualmente, o mais alto dignitário da Igreja Ortodoxa na Áustria. De origem grega, o metropolita ortodoxo — cargo hierárquico similar a arcebispo — estudou teologia na Universidade de Salonica» («Um defensor do diálogo ecuménico e inter-religioso», Diário de Notícias, 20.10.2011, p. 43).
      Houve uma altura em que, na imprensa, o topónimo era sempre grafado como esdrúxulo — que não é.

[Texto 594]
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Cartas de Camões

Alguém sabe?

      Escreveu Camões numa carta: «Este soldo se paga no Tesouro, s. em talhadas de marmelada e púcaros de água fria, com uns debruns da vista da senhora sua irmã. Que, ainda que esta mercadoria seja defesa pelo senhor da fortaleza, nestas viagens da China, mais se ganha no furtado que no ordenado.» Ah, sim, também merece reflexão, acho eu, a anteposição do pronome ao verbo. O que me traz aqui, porém, é aquela abreviatura misteriosa: s. É assim que vejo em todas as edições — sem uma nota explicativa. Ah, esperem: num número da Lusitânia, o s tem um ponto antes e outro depois — .s. —, o que não complica nem simplifica nada. É mesmo abreviatura? Ou será mais uma gralha que passou de edição em edição?

[Texto 593]
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Linguagem

A essência do não ser

      «Gostou da obra?» «Sim, gostei.» «Ele é conhecido por não ser bom tradutor do ***.»
      Não sei, mas não acham isto trágico? Conhecido por não ser bom tradutor... Habitualmente, é-se conhecido por aquilo que se é. Faz-me lembrar aquela anedota em que uma aluna pergunta à professora se uma pessoa pode ser castigada por algo que não fez. «É claro que não, Teresinha!» «É que eu não fiz o trabalho de casa...»
[Texto 592]
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«Remate final»?

Não era preciso

      «Mas o remate final é forte: “Estas sardinhas atingirão a maturidade gustativa daqui a três ou quatro anos.” Estamos a comer as nossas sardinhas cedo de mais, como sempre» («As sardinhas de 2016», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.10.2011, p. 39).
      Já uma vez escrevi no Assim Mesmo que é cada vez «mais vulgar ouvir-se, na rádio e na televisão — na imprensa escrita ainda não vi —, “desfecho final”. Como se houvesse um “desfecho inicial”, um “desfecho médio” e um “desfecho final”. Um conselho: de vez em quando, experimentem consultar um dicionário». O «remate final», por ser sinónimo, é do mesmo jaez.
[Texto 591]
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Analfabetismo diplomado

Agora processe-me

      «Os nossos professores comunicam regularmente com os encarregados de educação. Por favor se alguma situação lhe parecer estranha, ou se tiver alguma dúvida não exite em falar directamente com a professora no momento», escreveu a directora pedagógica. Alguns professores escrevem assim. Ou serão apenas alguns directores pedagógicos? A tróica não tem nenhuma solução para esta calamidade? Podemos reiniciar o sistema?
[Texto 590]
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«Relator/narrador de futebol»

Sinais

      «O futebol é um terreno propício à metáfora e ao trocadilho, mas nem sempre as flores de estilo dão golo de letra», lembrou hoje Fernando Alves na sua crónica na TSF. «Não se pede aos narradores de futebol que leiam Samir Amin ou Lévi-Strauss, mas se há lugar onde a percepção do Outro deverá ser evidente, esse lugar é o futebol.»
      É impressão minha ou entre nós usa-se (sempre?) relator de futebol — e no Brasil, sim, narrador de futebol?
[Texto 589]
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Jornais

Como por lapso

      A secção «O Público errou» está a descer (ou a subir, conforme a perspectiva) a minudências promissoras (ou aterradoras, é conforme, etc.): «O título do artigo de William Hague publicado na edição de ontem é Oportunidade e risco do ciberespaço e não “de ciberespaço”, como por lapso se escreveu. As nossas desculpas.»
[Texto 588]
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Linguagem

É conforme

      «[Jarvis Cocker] Disse que os jovens de hoje ouvem falar de músicas no Facebook e escolhem-nas conforme, ideais para banda sonora de outras coisas que estão a fazer e a escrever ao mesmo tempo. A música pop, que era central, como poesia, vingança e ideologia, tornou-se numa vela perfumada, limitada a acompanhar outras actividades» («O bom do Jarvis», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.10.2011, p. 39).
      «Escolhem-nas conforme»? É mais conformes com eles, jovens...

[Texto 587]
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Formas de tratamento

El-rei, meu senhor e pai

      De verdade histórica, mais do que de verosimilhança, se trata. Dirigir-se-ia, em público, o infante D. Henrique a seu pai por «meu pai»? Não seria antes «meu Senhor», pois que a soberania do monarca a tudo e todos se estende?

[Texto 586]
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Léxico: «quatrínqua»

Alguém o tem visto?

      «E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos uma quatrínqua de vezes, cuja vida e reverendíssima pessoa nosso Senhor, etc.», despede-se Camões numa das cartas. Onde pára (ou «onde para», na nova ortografia) o vocábulo «quatrínqua»? Desapareceu na voragem do tempo. Será castelhanismo? Digo-o, embora, naturalmente, pareça mais directamente provir do latim, porque os dicionários actuais ainda registam quatrinca, do castelhano cuatrinca, quatro cartas do mesmo valor, no jogo.
[Texto 585]
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Tradução: «filo de las hojas»

Dúvida cortante

      Os livros eram já muito manuseados, tanto «que el filo de las hojas se había granulado». Como traduzir aquele filo de las hojas? Será «rebordo das folhas»? «Extremidade»?

[Texto 584]
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«Primavera Árabe»

Não é só a mesma estação

      «Tem seguido as Primaveras Árabes. Que impressão tem sobre esse processo?», perguntam, no Público de hoje, Isabel Coutinho e Miguel Gaspar a Ricardo Pereira, director da TV Globo Portugal.
      Já mais de uma vez pensei — perante a diversidade do que leio, mas não só — qual a melhor forma de grafar a expressão. Ocorre-me outra semelhante, a que dá nome à época de descompressão no final do Estado Novo. Assim, vê-se: «primavera marcelista»; primavera marcelista (usada por Cunhal, que acrescentou: «expressão deliciosa»); Primavera marcelista; «Primavera marcelista»; «Primavera Marcelista»; primavera Marcelista... Tanto num caso como no outro, a que me parece que se deve adoptar é com maiúsculas iniciais, sem aspas: Primavera Árabe, Primavera Marcelista.

[Texto 583]
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Como se escreve nos jornais

É que são sempre os mesmos

      «Depois de uma eleição ou de uma remodelação, muitas vezes até ganha. Serve para tapar um “buraco”, para afastar um apoiante incómodo, para resolver com mansidão e “neutralidade” uma querela entre dois “caciques”. A televisão e os jornais declaram o “independente” uma “cara fresca” e ele entra esfusiante pelo Estado dentro na completa ignorância do que sejam a administração e a sociedade portuguesa. Para naturalmente fugir dali a uns meses como um sendeiro triste, à procura de um novo dono» («O “independente”», Vasco Pulido Valente, Público, 16.10.2011, p. 56).
      O Público trata todos os textos — seja uma local ou uma crónica — da mesma maneira. Mal. Nem são apenas questões de ortografia (é «esfuziante», com z), mas repetições inadmissíveis num texto pequeno: «O “independente” costuma esvoaçar à volta à volta dos grandes grupos de interesses, dos lobbies universitários, do PSD e do PS.»
[Texto 582]
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