Tradução: «spider hole»

Eles talvez saibam

      Na minha família mais próxima, com tantos homens, só um primo de minha mãe, por sinal o mais franzino, fraca-figura, imbecil mesmo, esteve no Ultramar. Veio incólume da Guiné e o juízo, ao que parece, não está pior do que antes de ter embarcado a defender o império. Ah, mas o intróito vai longo... só estava a pensar que os militares, sobretudo estes que estiveram na guerra, hão-de saber qual a designação portuguesa para spider hole, o buraco de aranha que descobrimos com a captura de Saddam Hussein.
[Texto 627]
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Acordo Ortográfico

Séculos de novilíngua, então

      «Disse-se aqui, na semana passada, que nem Saramago escapava ao acordo ortográfico. Não é verdade. Saramago foi, talvez, um pioneiro das adesões post mortem. Agora vêm outros, aliás com um argumento bastante singelo: o de que “a língua está sempre a mudar”. E assim Camões, Gil Vicente, Camilo e outros mais que se verá estão a ser implacavelmente traduzidos para a novilíngua nacional para venda a preços módicos, nas bancas já a partir de amanhã» («Taprobana, meu», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 31.10.2011, p. 22).
      Terá Nuno Pacheco lido alguma vez Camões na ortografia original? Ou Gil Vicente? Ou, mais próximo, mesmo Camilo? E os contemporâneos de Nuno Pacheco, todos nós? Bah, que grande argumento.

[Texto 626]
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«Dicionário Luís de Camões»

Só agora

      Na segunda quinzena de Novembro, a Caminho lança o Dicionário Luís de Camões, fruto de cinco anos de trabalho de uma equipa coordenada por Vítor Aguiar e Silva. Já tardava. (E vai mesmo chamar-se Dicionário Luís de Camões? É que a editora já tem o Dicionário de Camilo Castelo Branco e o Dicionário de Eça de Queiroz...)
[Texto 618]
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Pontuação

Que faço?

      «E a passagem da monarquia para a república não melhorou a vida da população, que se sentiu defraudada.» A autora não quer ali a vírgula. Que é um disparate. Que seja à responsabilidade dela, pede. Quanto a Jaime Rebelo e às orações relativas explicativas e às orações relativas restritivas, isso é para esquecer. Viva a intuição!
[Texto 603]
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Latim

Tinha de ser

      A repórter Arlinda Brandão, da RTP, foi ouvir Vítor Ferreira, o organizador da exposição O Mundo dos Dinossauros, na Cordoaria Nacional. «Aqui de novo o Velociraptor, não é, e um dos animais, que era o Spinosaurus, um dos animais mais violentos da altura, apesar de não ser dos maiores, porque, como pode ver pela dentição, era uma dentição onde encaixava [sic] os dentes perfeitamente e entrava uns dentro dos outros e portanto a vítima era esmagada.» E como é que o entrevistado pronunciou o nome do dinossauro? À inglesa, pois claro.
[Texto 600]
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Acordo Ortográfico

Mal começou

«Ajudara-o a levantar-se e tinham caminhado juntos pela 24 de julho, em direção às docas.»
A aplicação cega das regras do Acordo Ortográfico também dá nisto. Como o AOLP90 manda grafar com minúscula inicial os nomes dos dias, meses e estações do ano e permite escrever Avenida 24 de Julho ou avenida 24 de Julho, vai tudo a eito.

[Texto 599]
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«À boca calada»

Bocas

      «Foram estas forças que faltaram e à boca calada se atribui a responsabilidade a Joffre» (É a Guerra, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1934, p. 161). É expressão sinónima da outra: dizer à boca pequena, que é o mesmo que dizer em privado ou em voz baixa. O contrário é dizer à boca cheia, que significa dizer publicamente.

[Texto 598]
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Sobre «travo»

Hum...

      «Expulsa pelo nariz, devagar, o fumo do primeiro travo e sente-se vacilar durante um instante.» Eu também me sinto vacilar um pouco. Podemos travar o fumo do cigarro — mas nunca antes vira o substantivo deverbal (é disso que se trata?) «travo». Conheciam? Só conheço o «travo» que todos conhecerão: o sabor adstringente de bebida ou comida ou, figuradamente, o vestígio ou impressão desagradável.
      «Tirei um cigarro e acendi-o. Inalei o fumo, travando-o nos pulmões até a vista me turvar» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 55).
[Texto 597]
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«Ter ganhado»

Em bom português

      «The Sense of an Ending, a novela de Julian Barnes que esta semana ganhou o prémio Booker, lê-se em duas horas. Levou um ano a escrever, disse o autor ao melhor telejornal do mundo — a Newsnight da BBC 2 — logo depois de ter ganho» («O Booker», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.10.2011, p. 41).
      Ter ganhado está mais conforme com os cânones da língua. «Eu só uso outro quando me engano», comentou aqui Montexto recentemente. Também há o contrário: quem acerte apenas quando se engana.

[Texto 596]
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«Backbenchers»

Se não se importam

      «Cameron já ordenou aos líderes parlamentares para imporem disciplina partidária, mas o problema não deve desaparecer, pois a iniciativa surge ao abrigo de um novo procedimento que facilita a discussão de propostas apresentadas pelos deputados menos relevantes, como é o caso de Nuttall, os chamados backbenchers, que se sentam nos lugares de trás do parlamento» («Parlamento britânico discute referendo sobre saída da UE», Diário de Notícias, 20.10.2011, p. 25).
      Muito bem: se explicam o significado, podem usar estrangeirismos, tanto mais que não há em português um termo para dizer o mesmo.

[Texto 595]
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Ortografia: «Salonica»

Assim está bem

      «Michael Staikos era, actualmente, o mais alto dignitário da Igreja Ortodoxa na Áustria. De origem grega, o metropolita ortodoxo — cargo hierárquico similar a arcebispo — estudou teologia na Universidade de Salonica» («Um defensor do diálogo ecuménico e inter-religioso», Diário de Notícias, 20.10.2011, p. 43).
      Houve uma altura em que, na imprensa, o topónimo era sempre grafado como esdrúxulo — que não é.

[Texto 594]
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Cartas de Camões

Alguém sabe?

      Escreveu Camões numa carta: «Este soldo se paga no Tesouro, s. em talhadas de marmelada e púcaros de água fria, com uns debruns da vista da senhora sua irmã. Que, ainda que esta mercadoria seja defesa pelo senhor da fortaleza, nestas viagens da China, mais se ganha no furtado que no ordenado.» Ah, sim, também merece reflexão, acho eu, a anteposição do pronome ao verbo. O que me traz aqui, porém, é aquela abreviatura misteriosa: s. É assim que vejo em todas as edições — sem uma nota explicativa. Ah, esperem: num número da Lusitânia, o s tem um ponto antes e outro depois — .s. —, o que não complica nem simplifica nada. É mesmo abreviatura? Ou será mais uma gralha que passou de edição em edição?

[Texto 593]
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Linguagem

A essência do não ser

      «Gostou da obra?» «Sim, gostei.» «Ele é conhecido por não ser bom tradutor do ***.»
      Não sei, mas não acham isto trágico? Conhecido por não ser bom tradutor... Habitualmente, é-se conhecido por aquilo que se é. Faz-me lembrar aquela anedota em que uma aluna pergunta à professora se uma pessoa pode ser castigada por algo que não fez. «É claro que não, Teresinha!» «É que eu não fiz o trabalho de casa...»
[Texto 592]
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«Remate final»?

Não era preciso

      «Mas o remate final é forte: “Estas sardinhas atingirão a maturidade gustativa daqui a três ou quatro anos.” Estamos a comer as nossas sardinhas cedo de mais, como sempre» («As sardinhas de 2016», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.10.2011, p. 39).
      Já uma vez escrevi no Assim Mesmo que é cada vez «mais vulgar ouvir-se, na rádio e na televisão — na imprensa escrita ainda não vi —, “desfecho final”. Como se houvesse um “desfecho inicial”, um “desfecho médio” e um “desfecho final”. Um conselho: de vez em quando, experimentem consultar um dicionário». O «remate final», por ser sinónimo, é do mesmo jaez.
[Texto 591]
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Analfabetismo diplomado

Agora processe-me

      «Os nossos professores comunicam regularmente com os encarregados de educação. Por favor se alguma situação lhe parecer estranha, ou se tiver alguma dúvida não exite em falar directamente com a professora no momento», escreveu a directora pedagógica. Alguns professores escrevem assim. Ou serão apenas alguns directores pedagógicos? A tróica não tem nenhuma solução para esta calamidade? Podemos reiniciar o sistema?
[Texto 590]
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«Relator/narrador de futebol»

Sinais

      «O futebol é um terreno propício à metáfora e ao trocadilho, mas nem sempre as flores de estilo dão golo de letra», lembrou hoje Fernando Alves na sua crónica na TSF. «Não se pede aos narradores de futebol que leiam Samir Amin ou Lévi-Strauss, mas se há lugar onde a percepção do Outro deverá ser evidente, esse lugar é o futebol.»
      É impressão minha ou entre nós usa-se (sempre?) relator de futebol — e no Brasil, sim, narrador de futebol?
[Texto 589]
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Jornais

Como por lapso

      A secção «O Público errou» está a descer (ou a subir, conforme a perspectiva) a minudências promissoras (ou aterradoras, é conforme, etc.): «O título do artigo de William Hague publicado na edição de ontem é Oportunidade e risco do ciberespaço e não “de ciberespaço”, como por lapso se escreveu. As nossas desculpas.»
[Texto 588]
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Linguagem

É conforme

      «[Jarvis Cocker] Disse que os jovens de hoje ouvem falar de músicas no Facebook e escolhem-nas conforme, ideais para banda sonora de outras coisas que estão a fazer e a escrever ao mesmo tempo. A música pop, que era central, como poesia, vingança e ideologia, tornou-se numa vela perfumada, limitada a acompanhar outras actividades» («O bom do Jarvis», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.10.2011, p. 39).
      «Escolhem-nas conforme»? É mais conformes com eles, jovens...

[Texto 587]
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Formas de tratamento

El-rei, meu senhor e pai

      De verdade histórica, mais do que de verosimilhança, se trata. Dirigir-se-ia, em público, o infante D. Henrique a seu pai por «meu pai»? Não seria antes «meu Senhor», pois que a soberania do monarca a tudo e todos se estende?

[Texto 586]
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Léxico: «quatrínqua»

Alguém o tem visto?

      «E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos uma quatrínqua de vezes, cuja vida e reverendíssima pessoa nosso Senhor, etc.», despede-se Camões numa das cartas. Onde pára (ou «onde para», na nova ortografia) o vocábulo «quatrínqua»? Desapareceu na voragem do tempo. Será castelhanismo? Digo-o, embora, naturalmente, pareça mais directamente provir do latim, porque os dicionários actuais ainda registam quatrinca, do castelhano cuatrinca, quatro cartas do mesmo valor, no jogo.
[Texto 585]
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Tradução: «filo de las hojas»

Dúvida cortante

      Os livros eram já muito manuseados, tanto «que el filo de las hojas se había granulado». Como traduzir aquele filo de las hojas? Será «rebordo das folhas»? «Extremidade»?

[Texto 584]
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«Primavera Árabe»

Não é só a mesma estação

      «Tem seguido as Primaveras Árabes. Que impressão tem sobre esse processo?», perguntam, no Público de hoje, Isabel Coutinho e Miguel Gaspar a Ricardo Pereira, director da TV Globo Portugal.
      Já mais de uma vez pensei — perante a diversidade do que leio, mas não só — qual a melhor forma de grafar a expressão. Ocorre-me outra semelhante, a que dá nome à época de descompressão no final do Estado Novo. Assim, vê-se: «primavera marcelista»; primavera marcelista (usada por Cunhal, que acrescentou: «expressão deliciosa»); Primavera marcelista; «Primavera marcelista»; «Primavera Marcelista»; primavera Marcelista... Tanto num caso como no outro, a que me parece que se deve adoptar é com maiúsculas iniciais, sem aspas: Primavera Árabe, Primavera Marcelista.

[Texto 583]
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Como se escreve nos jornais

É que são sempre os mesmos

      «Depois de uma eleição ou de uma remodelação, muitas vezes até ganha. Serve para tapar um “buraco”, para afastar um apoiante incómodo, para resolver com mansidão e “neutralidade” uma querela entre dois “caciques”. A televisão e os jornais declaram o “independente” uma “cara fresca” e ele entra esfusiante pelo Estado dentro na completa ignorância do que sejam a administração e a sociedade portuguesa. Para naturalmente fugir dali a uns meses como um sendeiro triste, à procura de um novo dono» («O “independente”», Vasco Pulido Valente, Público, 16.10.2011, p. 56).
      O Público trata todos os textos — seja uma local ou uma crónica — da mesma maneira. Mal. Nem são apenas questões de ortografia (é «esfuziante», com z), mas repetições inadmissíveis num texto pequeno: «O “independente” costuma esvoaçar à volta à volta dos grandes grupos de interesses, dos lobbies universitários, do PSD e do PS.»
[Texto 582]
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Como se fala na rádio

Muito me contas

      No Hotel Babilónia, João Gobern, que, ao que confessou, acordara com sangue quente e resposta pronta, inventou hoje uma nova forma de nos referirmos aos que estão informados: «documentados». Já estávamos familiarizados com os imigrantes indocumentados, agora temos as «pessoas documentadas», não como antónimo, mas antes como nova categoria.

[Texto 581]
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Linguagem

Chegou à casa de banho

      «Ir à casa de banho pode tornar-se uma experiência de outro mundo para os ricos deste mundo. O Numi, nova sanita lançada pela empresa norte-americana Kohl, vem equipado com um telecomando de ecrã táctil, “parecido com um iPod”, escreve Sam Grobart no New York Times. “Também lava e seca o utilizador [com água e jacto de ar quentes, configuráveis conforme o sexo]”, acrescenta. O autor teve o privilégio de ter um em casa durante um mês para “tentar perceber por que é que alguém gastaria 6400 dólares (cerca de 4600 euros) numa sanita high tech, ou seja, “81 vezes mais cara do que um trono de base”» («Sanita para rabos de luxo», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 15.10.2011, p. 3).
      Talvez só o Aulete registe o vocábulo «trono» como sinónimo jocoso e popular de vaso sanitário — mais do que propriamente de sanita. A empresa norte-americana não se chama Kohl, como o antigo chanceler alemão, mas Kohler. Ah, e porque há-de ser «o Numi» e não «a Numi»?

[Texto 580]
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Uso das aspas

Não valia a pena

      «Desavenças relacionadas com um divórcio levaram dois homens a envolver-se numa luta corpo a corpo. Um deles, que está separado da mulher que agora vive com o outro, serviu-se de um chicote de couro e “alma de alumínio” de 60 centímetros. Mas foi ele quem apanhou mais. O segundo conseguiu tirar-lhe o objecto e acabou por lhe dar uma sova» («Um chicote de couro é uma arma cuja posse é proibida ou é um objecto decorativo?», José António Cerejo, Público, 14.10.2011, p. 14).
      É mais uma catacrese — e as aspas mostram o receio do jornalista (e dos juízes?) de que se confunda o interior do chicote com a parte imaterial do ser humano.
      Quanto à substância da questão jurídica: podeis chicotear quem vos aprouver (há sempre quem mereça), porque, segundo os desembargadores, se trata de um «objecto cujo “uso foi desviado” da sua finalidade originária de “fustigar cavalos”». Pelo menos do crime de detenção de arma proibida ficam absolvidos. Quanto ao resto, logo se verá.
[Texto 579]
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Como se escreve nas revistas

Ai, Jasus!

      Montexto, veja esta: na página 3 da edição desta semana da revista Sábado, ficamos a saber por uma legenda que Marta Ortega, filha do dono da Zara, vai casar-se — «com um cavaleiro hípico»! Com os ricos é tudo assim, redundante, excessivo, perdulário.

[Texto 578]
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Métrica

Actualização ortográfica

      Na edição da poesia dos clássicos, há ou pode haver actualizações ortográficas desde que a métrica não saia prejudicada. Por exemplo, a célebre canção camoniana «Junto de um seco, fero e estéril monte». Ou será «Junto de hum seco» ou «Junto dum seco»? Estou a pensar em voz alta... (E, embora sem consequência para a métrica, o aborrecido — «Da Natureza em tudo aborrecido» — não seria, e já aqui falámos de tais alterações ortográficas — aborrescido»? Que acha, Fernando?)

[Texto 577]
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«Falir»

Falências linguísticas

      «Mas enquanto o antigo secretário de Estado das Obras Públicas, o inimitável Paulo Campos, o homem do Aeroporto de Beja, se passeia por aí com a sua conhecida displicência, seria bom que tudo isto fosse muito bem escrutinado e investigado, desde logo na sede própria que é o Parlamento, visto que não é porque o homem saiu do governo que não tem de prestar contas sobre a forma como negociou a revisão das concessões de auto-estrada. Esta gente inconcebível andou a brincar com o nosso dinheiro. E assim se faliu um país» («A factura», Pedro Lomba, Público, 13.10.2011, p. 32).
      «E assim se faliu um país»? Não há melhores formas de dizer o mesmo? Se não nos falir a vontade, sim: «E assim se levou um país à falência.»

[Texto 576]
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Léxico: «puxanço»

Não deixaremos

      Está aqui um leitor muito preocupado porque a palavra «puxanço» está a desaparecer de todos os lados. Puxanço, «aquele golpe de raqueta violento e quase indefensável que se dava no pingue-pongue», explica-me. Teme, e com razão, que seja substituído por «um anglicismo despudorado, como smash». O Aulete regista-o, referindo-o embora apenas ao bilhar. A MorDebe regista-o. A nossa memória regista-o.

[Texto 575]
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«Ventre à terre»

Não me parece

      «Hommes, mammifères ventre à terre, serpents rampants s’enfuient.»
      Estava aqui a pensar se não teremos, mas creio que não, uma expressão idiomática semelhante. Há muitas expressões iguais em várias línguas, holismos, já o temos visto. Deixar as calças, por exemplo, um sinónimo de morrer, em francês diz-se laisser ses grègues. Mas tirer ses grègues, pôr-se a milhas, não tem uma correspondência exacta.
[Texto 574]
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Pontos cardeais

Não sopra daí

      «Ainda anteontem, neste Outubro levado da breca, fui um dos peixes imperadores da Praia Grande, boiando pelas vagas adentro, apontando com os dedos dos pés, como os mortos, hesitando entre o ter medo e o dar glória a Deus. O calor é estranho — meio-vento de Espanha, meio-vento de África —, ocupando os dois pontos cardeais que mais nos abafam e irritam: o Leste e o Sul» («Estação só para nós», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.10.2011, p. 35).
      Os hífenes no «meio» não são necessários. Quanto aos pontos cardeais, saiba Miguel Esteves Cardoso que se grafam e continuarão a grafar com minúscula inicial.

[Texto 573]
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«É de pura lógica»?

De contrabando

      «Salvo en casos excepcionalísimos de absoluta flagrancia, es de pura lógica que, etc.» E os tradutores (dois)? «Salvo em casos excepcionalíssimos de absoluto flagrante, é de pura lógica que, etc.» E esta forma de dizer é portuguesa? Emparelha — até porque estamos a falar de dois tradutores — com o «logicamente» contrabandeado de Espanha de Luís Figo.
[Texto 572]
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Como se escreve nos jornais

Ou será «rompente»?

      «Dos indignados que têm pernoitado em Wall Street aos protestantes das ruas de Atenas, Madrid ou Lisboa há certamente muitas semelhanças ou pontos de contacto. Em todos eles, por exemplo, se vê uma genuína raiva contra bancos e banqueiros, uma percepção de que os responsáveis permanecem à “solta”, um tom severo de caça aos ricos e poderosos, uma rompante impotência e falta de fé naquilo que o futuro nos reserva» («Do baú das ideologias», Pedro Lomba, Público, 11.10.2011, p. 32).
      Impotência precipitada? Impotência impetuosa? Impotência arrogante? Impotência orgulhosa? Desisto!

[Texto 571]
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«Homilia/homília»

Falsa esdrúxula

      «“Deixai que bos fale na buossa lhéngua mirandesa; perdonai-me se nun la sei falar tan bien cumo bós”, foram as primeiras palavras em mirandês proferidas por D. José Cordeiro, durante a parte final da homília que decorreu na Sé de Miranda» («Bispo deu parte da missa em mirandês», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 11).
      Os leitores mais atentos viram decerto que no texto sobre o vocábulo «concatedral» foi usada a palavra «homília» e não, como é mais vulgar, «homilia». E usada quatro vezes.
      No mesmo artigo, uma caixa de texto relembra que o mirandês é desde Janeiro de 1999 a segunda língua oficial de Portugal, mas que «não existe um número rigoroso de falantes». Ah não?

[Texto 570]
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«Privar da companhia»

Pois é

      «Lili Caneças usou um vestido de cores vibrantes e revelou que é uma mulher bastante atenta ao que se passa na moda. A ex-deputada Marta Rebelo, que é uma presença habitual neste evento, privou da companhia do actor Heitor Lourenço, que esteve sempre bastante divertido» («Último dia recheado de famosos e de ‘glamour’», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 46).
      Expressão interessante: «E decidiu que a tentativa de suicídio tivesse sido por ele se privar da companhia dela, nesse internato indecoroso dos Três Irmãos Carecas» (O Adeus às Virgens, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 179). «Até 2003, Leni Riefenstahl ainda assustava como a última sobrevivente daqueles que privaram da companhia de Hitler, e que dele mereceram admiração irrestrita» (Imagem, Tempo e Movimento, Mauro Luiz Rovai. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005, p. 91).
[Texto 569]
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Léxico: «desconvidar»

Para variar

      «Na entrevista, Vasconcellos aborda o caso Bernardo Bairrão, ex-administrador delegado da Media Capital, convidado pelo Governo PSD/CDS para secretário de Estado da Administração Interna e depois desconvidado. Diz ter excelentes relações com Bairrão, com quem já teve uma ligação familiar» («Nuno Vasconcellos quer RTP toda privatizada», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 51).
      Não é todos os dias que se vê o verbo desconvidar — que, além do óbvio significado de anular convite também significa não incitar, não atrair, não despertar: «Essa mulher desconvida qualquer galanteio.» (Exemplo da Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.)

[Texto 568]
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Linguagem

Não me parece, respondo

      «A insatisfação dos mirandeses resulta da actual designação de diocese de Bragança-Miranda (com a supressão do “e”), datada de Setembro 1996, já que até então se chamava de Bragança e Miranda.
      A supressão do “e” não agradou ao povo mirandês, tendo-se verificado várias manifestações de desagrado, pois os mirandeses lembram que o berço da diocese é Miranda do Douro» («Bispo deu parte da missa em mirandês», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 11).
      Não percebo: uma conjunção vale mais do que um hífen? E é uma atitude cristã e adulta?

[Texto 567]
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Léxico: «concatedral»

Nova

      «O novo bispo da diocese de Bragança-Miranda apresentou-se ontem na concatedral de Miranda do Douro, com parte da homília a ser proferida em língua mirandesa, acto aplaudido pelos presentes na cerimónia religiosa» («Bispo deu parte da missa em mirandês», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 11).
      Ora cá está um vocábulo que eu não conhecia ou — o que será mais invulgar — de que me tinha esquecido entretanto. O significado é óbvio.
[Texto 566]
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Léxico: «malão»

Não me diga

      «A minha mãe olhava para o tecto, coçava as costas, abria o malão — enquanto eu pedia a todos os anjos e arcanjos que o malão não se esvaziasse ali, para não passarmos a vergonha de andarmos de gatas num teatro tão fino e tão cheio de veludos como aquele, no cinema do centro comercial ainda vá que não vá» (Caderno de Agosto, Alice Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2006, p. 184).
      Estranheza minha e do leitor que me contactou: nenhum dicionário regista o termo «malão». E eu ia jurar que sim. E faltarão, acaso, aumentativos nos dicionários? Com este não engraçaram. Segundo certas inteligências nacionais, especialistas disto e daquilo (mais daquilo, na verdade), se não está no dicionário, é de evitar...
[Texto 565]
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Prefixo «anti»

O elemento da direita

      No fim de Setembro passado, uma consulente, Elisabete Cataluna, perguntou ao Ciberdúvidas: «À luz do novo acordo ortográfico, o prefixo anti une-se sempre à palavra que antecede, excepto se esta iniciar com h ou com a mesma letra com que acaba o prefixo. Contudo, segundo averiguei, a palavra anti-stress continua a escrever-se com hífen. Porquê? Compreendo que seria impensável, em português, aceitar “antisstress”, mas creio que poderia ser aceitável aceitável “antistress”.» Respondeu Sandra Duarte Tavares: «Segundo o novo Acordo Ortográfico, usa-se sempre hífen quando o elemento da direita é um estrangeirismo, pelo que anti-stress deve ser grafado com hífen.»
      Dito assim, tão peremptoriamente, até parece que o texto do Acordo Ortográfico de 1990 consigna esta regra ­— mas já aqui desafiei a jornalista Ana Sofia Rodrigues a dizer onde encontrou essa regra, mas não me respondeu. (Querem prescindir do hífen? Escrevam, se tiverem coragem, «antistresse».)

[Texto 564]
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Jornais

Eventualmente

      «Vários leitores», escreve o provedor do leitor do Público na edição de hoje, «têm chamado a atenção para a frequência com que deparam com erros de tradução nas páginas do jornal. Têm razão em fazê-lo: esses erros — que por vezes chegam a ser anedóticos — podem distorcer informações ou, no mínimo, torná-las confusas. Em alguns casos, resultam da “tradução” literal de termos estrangeiros, sem atenção às expressões idiomáticas próprias da língua de origem ou à sintaxe da língua portuguesa, como parece ter acontecido no caso recente, assinalado pela leitora Eunice Silva, do texto intitulado “Bactéria irmã da tuberculose pode ajudar a combater doença” (edição on line, 6/9).
      A peça noticiava os resultados de uma investigação publicada numa revista científica de língua inglesa e é de presumir que tenham sido traduzidas do artigo original frases como esta: “Há estirpes muito resistentes que a medicina actual tem menos e menos ferramentas para lutar contra”. A leitora argumenta que “esta frase não faz sentido em português, além de se notar que é uma tradução (uma má tradução, diga-se)”. Admite que a expressão “menos e menos” (em vez do português “cada vez menos”) tenha resultado do “less and less” inglês, e critica sobretudo a estrutura sintáctica da frase”, pois em bom português ter-se-ia escrito “há estirpes muito resistentes contra as quais a medicina actual tem cada vez menos ferramentas”. Eunice Silva refere ainda a existência, na mesma peça, de uma provável distorção do sentido do texto original, resultante do erro infelizmente comum de “traduzir” o vocábulo inglês “eventually” por “eventualmente”» («Traduções mal feitas e outros equívocos», p. 55).

[Texto 563]
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«Info-excluído/infoexcluído»

Com ou sem

      «Eu ia dizer uma tolice, que era, se eu mandasse, as escolas abriam hoje a ouvir o discurso de Steve Jobs, em 2005, na Universidade de Stanford. É para ver como sou velhadas e tenho de pensar duas vezes para me dar conta que, ontem, os jovens foram ao YouTube ouvir esse discurso inspirador. Sendo que é melhor ter Jobs em pessoa, no meu ecrã, em vez de aula obrigatória. Eu, infoexcluído militante (desligar e voltar a ligar é o mais longe que vou na resolução dos problemas de computador), descubro na vida e obra de Steve Jobs o sentimento raro que já encontrei ouvindo – eu, ateu – uma missa de rito caldeu na Basílica de São Pedro» («O homem que cuidou dos pormenores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2011, p. 56).
      Nos dicionários da Porto Editora, a grafia registada é com hífen: info-exclusão. Neves Henriques chegou a sugerir que se preferisse inforexclusão para evitar o hiato.

[Texto 562]
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Léxico: «cubre»

Ilha das Flores

      «Metrosídero», enfim, não me surpreende que não tenha sido até hoje acolhido pelos dicionários gerais da língua portuguesa — mas «cubre»? Meu Deus, até dá nome à fajã da Ribeira Seca. Fajã dos Cubres. O certo é que há termos bem mais exóticos, invulgares e usados com menos frequência nos dicionários.

[Texto 561]
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«Não se o»

Olha, olha

      «La única excepción a este castigo por encubrimiento [...] en tal caso, si para acreditar la exceptio veritatis debe aportar documentos obtenidos mediante violación del secreto de la investigación, no se le persigue como encubridor». E os tradutores? «Não se o perseguirá pelo favorecimento pessoal». Onde é que eu já vi isto?

[Texto 560]
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«Tranquilizador»/«tranquilizante»

Mas cada um

      «O primeiro-ministro, um ou outro ministro e vários comentadores voltaram a manifestar preocupação de que a crise pudesse degenerar em violência como na Grécia. Não há segurança nenhuma de que não degenere, mas talvez seja tranquilizante pensar que a Grécia é um país novo (até ao princípio do século XIX fazia parte do império turco), que recentemente sofreu uma invasão alemã (o que não o tornou muito germanófilo) e passou depois por uma resistência generalizada ao nazismo, por uma guerra civil e por uma ditadura militar» («Violência?», Vasco Pulido Valente, Público, 8.10.2011, p. 36).
      Há outros pares de adjectivos («contagioso»/«contagiante», v. g.) à primeira vista intermutáveis, mas depois verifica-se que cada um tem um uso mais específico. No caso, eu usaria «tranquilizador» e não «tranquilizante» (que, como substantivo, também é o medicamento de acção neurossedativa usado nas situações de ansiedade e de emotividade).
[Texto 559]
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Garrett

Digam-lhe, que ela é nova

      «No Cartaxo, [o Presidente da República] citou uma conversa de Almeida Garrett com o dono do café da terra para deixar um aviso.» E a repórter da RTP, Daniela Santiago, quis que o nome do escritor rimasse com café: Garré. Este bem dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.

[Texto 558]
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Tradução

Omissões e comissões

      Ne sutor ultra crepidam, claro, bem sei — mas o original não está igualmente mal escrito? Um exemplo: «la comisión de una conducta punible, etc.». «Comissão de uma conduta»? Não deveria antes ser «comisión de un hecho punible»? É que, assim, nem tradutores bons fazem obra razoável, quanto mais maus tradutores. E agora, corrijo o original (oh sacrilégio!) ou vou à praia?
[Texto 557]
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Tradução: «gnocca»

Por aí

      «Povo da Liberdade, o nome do partido de Silvio Berlusconi, já não satisfaz. “Vamos mudar o nome, as pessoas não gostam. Aceitamos sugestões”, disse o primeiro-ministro de Itália. Depois acrescentou: “Dizem-me que teríamos sucesso com ‘Forza Gnocca’”, termo coloquial que pode ser traduzido como “Força, boas”» («Mais uma piada sexista de Silvio Berlusconi», Público, 7.10.2011, p. 38).
      Estes apontamentos linguísticos têm sempre a sua utilidade. «Boas» parece-me fraco. Gnocca é uma «bella ragazza, sensuale e procace». E também é — preparem-se! — «cona». (Aos 110 leitores em simultâneo das 23h24 de ontem já lhes cheirava...)
[Texto 556]
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«Linguagem criminal»

Eh lá

      «O culpado tem um rosto e uma voz, pois deu logo a cara e reclamou logo, com irrepremível orgulho, que era ele. Alegou até, usando linguagem criminal, ter actuado em “legítima defesa”, pois “eles ainda nos tiravam mais dinheiro se andássemos a mostrar o jogo”» («O carnaval madeirense», Carlos Fiolhais, Público, 7.10.2011, p. 38).
      «Linguagem criminal?» Valha-o Deus, homem! Isto é, senhor professor doutor.

[Texto 555]
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Pontos cardeais

Quando empregados absolutamente

      A revista Lux já usa a nova ortografia e fá-lo, pois claro, como sabe e pode. Mas não chega. Título da capa da edição desta semana: «Toda a história da relação do ‘conde’ com empresário do norte envolvido em orgias». Rapaziada, vejam lá de novo as regras, não sejam tão alegremente incompetentes.

[Texto 554]
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Anglicismo: «incumbente»

Por terra

      «A morte de Steve Jobs proporcionou uma excelente oportunidade para revisitar a sua vida e legado e, também, para ver ou rever muitos dos seus vídeos hoje disponíveis na Internet. Entre os que revi ontem quero destacar um: é do final de 1983 e mostra um jovem de menos de 30 anos a anunciar não o novo, e revolucionário, Macintosh, mas o spot publicitário de lançamento. Trata-se do memorável filme que glosa o conceito do 1984 de Orwell para destacar a coragem dos que desafiam a hegemonia dos incumbentes. No caso, a poderosa IBM, como Steve sublinha» («Notas soltas: Steve Jobs, ERC e Alberto João Jardim», José Manuel Fernandes, Público, 7.10.2011, p. 39).
      Ultimamente não se pode falar de estrangeirismos — mas eu arrisco mais uma vez. Incumbente não é, na frase, um anglicismo semântico? Para nós, «incumbente» é quase só o que está inclinado para baixo. Adjectivo. Em inglês, é «one that occupies a particular position or place». O leitor pode sentir-se um tudo-nada atrapalhado, mas não faz mal — passa à frente.
[Texto 553]
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«Entra por uma orelha, etc.»

Disparates oficiais

      «O discurso oficial da direita e da esquerda, à força de se repetir, deixou de ser ouvido. Entra por uma orelha e sai por outra. E nem o acordo piedoso dos partidos ditos “democráticos” aumenta a confiança no Governo ou no futuro» («O realejo»,Vasco Pulido Valente, Público, 7.10.2011, p. 44).
      É mais vulgar entra por um ouvido e sai pelo outro. Vasco Pulido Valente começa por falar de outro discurso, o do Presidente da República no 5 de Outubro, em que S. Exa. disse — leu — «pese os avisos que foram feitos». A Presidência da República não tem dinheiro para contratar os serviços de um revisor.

[Texto 552]
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«Imputado/arguido»

E tem consagração legal?

      Num ensaio breve, o autor compara o tratamento dado ao segredo de justiça em vários ordenamentos jurídicos. Nunca usa outros termos que não imputado e indagato. Para os sistemas inglês, norte-americano, alemão e francês não usa os termos destas línguas. Num assomo de bom senso, os tradutores não verteram indagato. Em relação a imputado, não sei com que critério, verteram menos de metade por «arguido» e as restantes ocorrências por... «imputado»! Nunca da leitura se percebe que o mesmo termo espanhol deva corresponder a dois termos — e conceitos — diferentes na tradução. Claro que são figuras diferentes, e não é por acaso que até há obras que as comparam, como Arguido e Imputado no Processo Penal Português, de José Lobo Moutinho. No sítio da Almedina, lê-se a propósito desta obra: «O autor começa por traçar uma panorâmica geral do modo de surgimento e evolução da imputação no processo. Em seguida, analisa a figura do arguido formalmente constituído. Finalmente, trata da questão da situação processual do imputado não formalmente constituído.» A meu ver, ao imputado do original corresponderá sempre e só «arguido» na tradução.

[Texto 551]
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Tradução: «quinquies»

E outro

      «De forma muy especial, el art. 391-quinquies cpp, etc.», lia-se no original. E os tradutores, agora aos pares, verteram assim: «De forma muito especial, o art. 391.º -quinque CPP, etc.» Há quem afirme, mas eu nunca vi, que também entre nós se usam os numerais (bis, ter, quater, quinquies, sexies...) latinos para as alíneas, mas vulgares são estas. Logo, «art. 391.º, e), do CPP».
[Texto 550]
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Tradução: «piezas de convicción»

Mais um exemplo

      O original (e a tradução, porque estou a fazer apenas a revisão) apresenta ainda a expressão piezas de convicción. Peças de convicção, verteram os tradutores. Nunca tinha lido ou ouvido tal. Uma pesquisa perfunctória mostrou-me que a jurisprudência espanhola identifica as piezas de convicción com todos os objectos inanimados que possam servir para representar a realidade de um facto e que tenham sido carreados para a acção, unindo-se materialmente a esta ou conservando-se à disposição do tribunal, englobando, desta maneira, os «documentos». Curiosamente, a expressão é usada também no Brasil. Mais uma vez, o problema nem sequer é, em termos estritos, de tradução — que foi literal —, mas de correspondência entre os diferentes ordenamentos jurídicos.
[Texto 549]
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Tradução: «sumario»

Pois não é

      Traduzir não é, já o sabemos, fácil. Seja qual for a língua de partida. No caso, é um texto espanhol sobre o segredo da investigação no processo penal. Primeiro perigo: os falsos cognatos. Segundo perigo: as diferenças terminológicas e processuais. Assim, como traduzir o sumario do original? Álvaro Iriarte Sanromán, no Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, regista: «Sumário (conjunto de actuações preparatórias de um julgamento nas quais se juntam provas, dados e testemunhos)». Todas as sugestões serão bem-vindas.
[Texto 548]
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Sobre «abater»

Entre mortos e abatidos

      «Um português de 46 anos, a sua mulher e o filho adolescente foram abatidos a tiro na casa onde viviam, a sul de Joanesburgo, África do Sul. De acordo com a polícia sul-africana, o principal suspeito é o filho da empregada doméstica da família, detido poucas horas depois» («Família portuguesa abatida a tiro na África do Sul», Público, 4.10.2011, p. 8).
      Se fosse jornalista, não sei se alguma vez usaria o verbo «abater» como sinónimo de «matar, assassinar» — mas, se usasse, não abusaria, como se vê na imprensa portuguesa.

[Texto 547]
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«Imunológico/imunitário»

Ninguém está imune

      Não foi o caso da imprensa portuguesa, mas no Brasil, o que boa parte dos leitores puderam ler foi que Bruce Beutler, Jules Hoffmann e Ralph Steinman foram ontem distinguidos em Estocolmo com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina 2011 por terem permitido perceber como o sistema imunológico é activado quando surge uma ameaça patogénica. Ora, «imunológico» está relacionado com a ciência da imunologia, ao passo que para o que se relaciona com a imunidade se usa o adjectivo «imunitário». Na Antena 1 também disseram — mas esse foi mero lapso — «sistema humanitário».

[Texto 546]
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Evacuar prédio/retirar pessoas

Não está tudo perdido

      «Um incêndio que deflagrou ontem à tarde num apartamento da Avenida do Uruguai, em Benfica, Lisboa, obrigou a evacuar o edifício. “Tivemos de retirar três pessoas do primeiro andar, onde ocorreu o fogo, e outras sete dos andares superiores, mas ninguém ficou ferido”, informaram os bombeiros» («Fogo obrigou a evacuar prédio em Benfica», Público, 3.10.2011, p. 19).
      Aqui está muito bem: os bombeiros evacuaram o prédio, as pessoas foram retiradas. Acontece que, ainda na semana passada, me disseram para «esquecer esse preciosismo».

[Texto 545]
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«Jeremíada/jeremiada»

Eu também insisto

      A crónica de Rui Tavares na edição de hoje no Público tem como título «Uma jeremíada». No fim do texto, esclarece: «Nota: sei que a maior parte dos dicionários indica que “jeremiada” se escreve sem acento, por influência da língua francesa, mas é intencionalmente que escrevo, como digo, “jeremíada”.»
      Ainda se lembra, é claro, do comentário que fiz a outra crónica no Assim Mesmo: «Tenho um peso na consciência. Na última crónica usei a certa altura a expressão “pessimistas jeremíadas” para me referir às crónicas de Pacheco Pereira, Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares. Peço desculpa. Trata-se de uma redundância: uma jeremíada é, por natureza, pessimista. Ainda tentei corrigir enviando uma emenda de última hora para “amargas jeremíadas”. Felizmente, não fui a tempo: uma jeremíada é sempre amarga; outra redundância. Quais eram as opções corretas? Repetitivas jeremíadas. Preguiçosas jeremíadas. Em última análise, redundantes jeremíadas» («Redundâncias», Rui Tavares, Público, 19.5.2010, p. 44).
      Consultei, num assinalável excesso de zelo, doze dicionários apenas para concluir o que já sabia: só jeremiada existe. Lamente-se, pois, Rui Tavares na próxima crónica pelos erros da penúltima e da última, reflexo, decerto, de uma silabada. O vocábulo chegou-nos da língua francesa, jérémiade, que também tem, como nós, o respectivo verbo, jérémier/jeremiar. Foi forjada com base no nome do profeta Jeremias.

[Texto 544]
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O Público errou

Colonia e colónia

      «Um erro na revisão final do texto “O poder de Alberto João Jardim à lupa”, publicado ontem, levou à colocação de um acento na palavra “colonia”, transformando esta em “colónia” e deturpando as duas referências feitas nesse texto ao “regime de colonia” que, segundo um dicionário, foi “um contrato entre o colono e o proprietário, na Madeira, pelo qual o colono perdia o direito às benfeitorias prediais”. As nossas desculpas aos leitores e ao advogado Cabral Fernandes» («O Público errou», Público, 3.10.2011, p. 30).
      Não corrigem as «exonerações da culpa», mas atrevem-se a pôr acento onde não devem. A ignorância dá nisto. Claro que o vocábulo não estar registado em alguns dos dicionários mais usados também contribui, e de que maneira, para estes disparates. E aquele «segundo um dicionário» também tem muito que se lhe diga. A citação é do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — e deviam tê-lo referido.

[Texto 543]
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Tradução: «exoneration»

E ainda falam

      «Há quatro desfechos possíveis para o caso de Amanda Knox, uma estudante norte-americana condenada pelo assassínio da sua colega de quarto na cidade italiana de Perugia, em Novembro de 2007. Mas só um é aquele [sic] que Amanda espera ouvir hoje, quando o tribunal de recurso anunciar a sua decisão: a exoneração das queixas, que lhe permitirá sair em liberdade» («Amanda Knox sabe hoje se sai em liberdade ou fica presa», Rita Siza, Público, 3.10.2011, p. 11).
      A falta de ponderação quando se está perante um falso cognato leva a estes disparates. Rita Siza e os copidesques do Público acham que em português é assim que se diz? Então, traduzam também esta frase: «The accused was exonerated by the Grand Jury.»
[Texto 542]
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«Alma mater»

De alma penada

      Se alguém apresenta certa característica peculiar, dizemos que é a sua marca de água (ou marca d’água, como decerto os Brasileiros preferirão) ou a sua marca registada? Pois é, consultem um dicionário, por exemplo, o da Porto Editora, e depois dizem-me. Ah, as expressões... No Império dos Sentidos, da Antena 2, Paulo Alves Guerra volta não volta refere-se à pessoa que criou ou dinamiza um determinado acontecimento cultural (festival de música, por exemplo), agrupamento (Shostakovich Ensemble, por exemplo), etc., como a alma mater do referido acontecimento ou agrupamento. Caro Paulo Alves Guerra, então a expressão latina não é usada hoje em dia exclusivamente para designar a universidade que nos formou? A mãe que nos alimentou ou nutriu. A expressão começou a ser usada na língua inglesa logo no início do século XVII, ao que parece. A propósito, vale a pena lembrar que alumnus (alumni) em inglês, não é aluno — mas ex-aluno. Mais um falso amigo a fazer escorregar em falsas traduções.
[Texto 541]
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«Deprimido/depressivo»

Antidepressivos e ansiolíticos

      No Telejornal de hoje: «No corre-corre da incerteza, mais de 700 mil portugueses sofrem da doença. O País regista assim a maior taxa da Europa, e no mundo, só mesmo os Americanos andam mais depressivos.» São sinónimos, «deprimido» e «depressivo»? Parece que sim. Pelo menos é o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «indivíduo com tendência para a depressão».

[Texto 540]
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Redundâncias

Caladinho era melhor

      «Eu vou ler-vos uma declaração», disse Isaltino Morais junto de sua casa, em Miraflores. E leu. «Provavelmente, ao longo da minha vida, tomei algumas decisões erradas. Não sou o único.» Etc. Para meu espanto, o repórter da RTP José Manuel Levy, muito mais nervoso do que o autarca, repetiu quase tudo o que Isaltino Morais tinha dito. Isto é jornalismo? Para que servem estes comentários, quase paráfrases? E ainda dizem que o tempo em televisão é precioso...

[Texto 539]
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