Como se escreve por aí

Só vêem o argueiro


      «“O discurso de Marco Rubio”, disse Alexandria Ocasio-Cortez a propósito da intervenção do Secretário de Estado dos EUA em Munique, “foi um apelo puro à cultura Ocidental”. Seria necessária uma imaginação invulgarmente fértil para conjecturar a frase que escreverei de seguida, mas aqui vai: concordo com Ocasio-Cortez. Está certa. O discurso de Rubio foi indubitavelmente uma ode à cultura e à civilização Ocidental» («Em defesa da cultura Ocidental», Gonçalo Nabeiro, Nascer do Sol, 25.02.2026, 9h26).

      Parece que nem no ISEG nem no jornal se ocupam destas minudências ortográficas, isso é para ociosos como nós. E lá aparece também Michelangelo, agora grafia obrigatória.

[Texto 22 527]

Plural: «pequeno-burguês»

Para evitar disparates


      Podia citar Marx, ou Cunhal, ou até Mário Cláudio, mas vai assim a seco: Porto Editora, tens de indicar urgentemente o plural de «pequeno-burguês». Citar Mário Cláudio ou Cunhal teria um duplo escopo: mostrar que também existe e se usa o termo «médio-burguês».

[Texto 22 526]

Léxico: «multissensor»

Já que o procuras


      «A Petkit Purobot Max Pro 2 (600 euros) é uma caixa de areia para gatos que redefine a higiene felina. Através de uma câmara com IA, o sistema reconhece individualmente cada gato, monitoriza os seus hábitos de utilização e regista padrões que podem indicar problemas de saúde. Com um sistema de segurança multissensor e compatibilidade com a maioria das areias, é um dispositivo que remove o esforço manual da limpeza, mantendo um registo rigoroso do bem-estar dos animais via aplicação» («Há um exército de ajudantes digitais que torna a casa mais inteligente», Sérgio Magno, Público, 27.02.2026, 11h15).

[Texto 22 525]

Léxico: «extrapesado»

Densidade relativa dos líquidos


      «A Venezuela exportou mais de 900 mil barris por dia de petróleo no mês passado, o terceiro valor mensal mais elevado deste ano, à medida que a petrolífera estatal PDVSA aumentou as importações de nafta para diluir a produção de petróleo extrapesado» («EUA apreendem petroleiro ao largo da Venezuela», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 10.12.2025, 20h11). 

      Pois, é que o adjectivo não aparece em lado nenhum, pelo que proponho ➔ extrapesado 1. que é mais pesado do que o normalmente considerado pesado; de peso extremamente elevado; 2. diz-se do petróleo bruto de viscosidade e densidade muito elevadas (gravidade API inferior a 10°), que dificulta a sua extracção, transporte e refinação.

[Texto 22 524]

Léxico: «adularescência»

Para fechar este tema


      «A gemstone called moonstone is famous for its soft milky glow that seems to float just beneath its surface when light moves across it. What do gemologists call this gentle, billowing light in certain feldspar gemstones? Its name comes from a mineral first found in the Adula Alps in Switzerland» («The natural artists called minerals», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 2.12.2025, p. II). 

      Sim, está ali uma bela dica, é a ➜ adularescência MINERALOGIA, GEMOLOGIA brilho esbranquiçado, leitoso ou azulado que parece flutuar sob a superfície de certos feldspatos, em especial a adulária, causado pela dispersão da luz em finas camadas internas do mineral, observado pela primeira vez nos Alpes de Adula, na Suíça.

      No que respeita à etimologia, vem do francês adularescence, nome formado a partir do topónimo Adula (Alpes Suíços), com o sufixo francês -escence, equivalente ao português -escência.

[Texto 22 523]

Léxico: «perolescência | nacaragem»

Voltemos à Índia


      «Car paints, some plastics, and natural nacre – all display a smooth, silky sheen that seems to change subtly as they move. This is due to an effect called X: it’s the same principle as in the answer to Q1, except most of the reflected light is white» («The natural artists called minerals», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 2.12.2025, p. II). 

      Isso, ➜ nacaragem MINERALOGIA, FÍSICA efeito óptico caracterizado por um brilho suave e sedoso, com reflexos esbranquiçados que mudam ligeiramente consoante o ângulo de observação, semelhante ao observado no nácar (madrepérola), em certas tintas, plásticos e revestimentos. Poderíamos ter proposto o termo perolescência, perfeitamente regular e paralelo a «opalescência», «adularescência» ou «labradorescência», e directamente modelado sobre o inglês técnico pearlescence. Precisamos dele, sem dúvida: falta-nos em português um vocábulo que designe com precisão o brilho suave, esbranquiçado e iridescente da madrepérola e dos materiais que o imitam. Mas, receando raios e coriscos sobre a cabeça, abstemo-nos, por ora, de o propor formalmente, e optámos antes pela forma atestada (ainda que pouco usada) nacaragem.

[Texto 22 522]

Léxico: «período de carência»

Para resolver já


      Cá está uma locução que se usa diariamente e não está nos dicionários, e aposto que já milhares de vezes os falantes consultaram um dicionário para saber do que se tratava. Sendo assim, proponho ➜ período de carência prazo definido contratualmente durante o qual um beneficiário, segurado ou subscritor de um serviço ainda não tem direito a usufruir de determinadas coberturas, garantias ou benefícios, apesar de já ter iniciado o pagamento correspondente.

[Texto 22 521]

Léxico: «anilina»

Vamos lá aprender com eles


      Agora a pergunta 4: «By the 1850s, chemists were turning coal-tar benzene into vivid purple and red dyes whose molecules imparted bright colours to writing fluids. What’s this family of dyes called that transformed 19th century ink colours? Hint: the answer is also what the ‘A’ in the chemical company ‘BASF’ stands for» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Isso mesmo: anilina. Ora, como lhe falta uma acepção no dicionário da Porto Editora e a nota etimológica é melhorável, proponho ➔ anilina 1. QUÍMICA composto orgânico aromático (C₆H₅NH₂), obtido a partir do benzeno por substituição de um átomo de hidrogénio por um grupo amino, usado como intermediário na síntese de corantes, fármacos e plásticos; 2. HISTÓRIA, TECNOLOGIA designação dada aos primeiros corantes sintéticos derivados da anilina, como a mauveína, que revolucionaram a indústria tintureira no século XIX. A etimologia: de anil (do árabe al-nīl, e este do persa nīl, «índigo») + sufixo químico -ina.

[Texto 22 520]

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