Como se escreve por aí

Só vêem o argueiro


      «“O discurso de Marco Rubio”, disse Alexandria Ocasio-Cortez a propósito da intervenção do Secretário de Estado dos EUA em Munique, “foi um apelo puro à cultura Ocidental”. Seria necessária uma imaginação invulgarmente fértil para conjecturar a frase que escreverei de seguida, mas aqui vai: concordo com Ocasio-Cortez. Está certa. O discurso de Rubio foi indubitavelmente uma ode à cultura e à civilização Ocidental» («Em defesa da cultura Ocidental», Gonçalo Nabeiro, Nascer do Sol, 25.02.2026, 9h26).

      Parece que nem no ISEG nem no jornal se ocupam destas minudências ortográficas, isso é para ociosos como nós. E lá aparece também Michelangelo, agora grafia obrigatória.

[Texto 22 527]

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Plural: «pequeno-burguês»

Para evitar disparates


      Podia citar Marx, ou Cunhal, ou até Mário Cláudio, mas vai assim a seco: Porto Editora, tens de indicar urgentemente o plural de «pequeno-burguês». Citar Mário Cláudio ou Cunhal teria um duplo escopo: mostrar que também existe e se usa o termo «médio-burguês».

[Texto 22 526]

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Léxico: «multissensor»

Já que o procuras


      «A Petkit Purobot Max Pro 2 (600 euros) é uma caixa de areia para gatos que redefine a higiene felina. Através de uma câmara com IA, o sistema reconhece individualmente cada gato, monitoriza os seus hábitos de utilização e regista padrões que podem indicar problemas de saúde. Com um sistema de segurança multissensor e compatibilidade com a maioria das areias, é um dispositivo que remove o esforço manual da limpeza, mantendo um registo rigoroso do bem-estar dos animais via aplicação» («Há um exército de ajudantes digitais que torna a casa mais inteligente», Sérgio Magno, Público, 27.02.2026, 11h15).

[Texto 22 525]

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Léxico: «extrapesado»

Densidade relativa dos líquidos


      «A Venezuela exportou mais de 900 mil barris por dia de petróleo no mês passado, o terceiro valor mensal mais elevado deste ano, à medida que a petrolífera estatal PDVSA aumentou as importações de nafta para diluir a produção de petróleo extrapesado» («EUA apreendem petroleiro ao largo da Venezuela», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 10.12.2025, 20h11). 

      Pois, é que o adjectivo não aparece em lado nenhum, pelo que proponho ➔ extrapesado 1. que é mais pesado do que o normalmente considerado pesado; de peso extremamente elevado; 2. diz-se do petróleo bruto de viscosidade e densidade muito elevadas (gravidade API inferior a 10°), que dificulta a sua extracção, transporte e refinação.

[Texto 22 524]

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Léxico: «adularescência»

Para fechar este tema


      «A gemstone called moonstone is famous for its soft milky glow that seems to float just beneath its surface when light moves across it. What do gemologists call this gentle, billowing light in certain feldspar gemstones? Its name comes from a mineral first found in the Adula Alps in Switzerland» («The natural artists called minerals», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 2.12.2025, p. II). 

      Sim, está ali uma bela dica, é a ➜ adularescência MINERALOGIA, GEMOLOGIA brilho esbranquiçado, leitoso ou azulado que parece flutuar sob a superfície de certos feldspatos, em especial a adulária, causado pela dispersão da luz em finas camadas internas do mineral, observado pela primeira vez nos Alpes de Adula, na Suíça.

      No que respeita à etimologia, vem do francês adularescence, nome formado a partir do topónimo Adula (Alpes Suíços), com o sufixo francês -escence, equivalente ao português -escência.

[Texto 22 523]

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Léxico: «perolescência | nacaragem»

Voltemos à Índia


      «Car paints, some plastics, and natural nacre – all display a smooth, silky sheen that seems to change subtly as they move. This is due to an effect called X: it’s the same principle as in the answer to Q1, except most of the reflected light is white» («The natural artists called minerals», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 2.12.2025, p. II). 

      Isso, ➜ nacaragem MINERALOGIA, FÍSICA efeito óptico caracterizado por um brilho suave e sedoso, com reflexos esbranquiçados que mudam ligeiramente consoante o ângulo de observação, semelhante ao observado no nácar (madrepérola), em certas tintas, plásticos e revestimentos. Poderíamos ter proposto o termo perolescência, perfeitamente regular e paralelo a «opalescência», «adularescência» ou «labradorescência», e directamente modelado sobre o inglês técnico pearlescence. Precisamos dele, sem dúvida: falta-nos em português um vocábulo que designe com precisão o brilho suave, esbranquiçado e iridescente da madrepérola e dos materiais que o imitam. Mas, receando raios e coriscos sobre a cabeça, abstemo-nos, por ora, de o propor formalmente, e optámos antes pela forma atestada (ainda que pouco usada) nacaragem.

[Texto 22 522]

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Léxico: «período de carência»

Para resolver já


      Cá está uma locução que se usa diariamente e não está nos dicionários, e aposto que já milhares de vezes os falantes consultaram um dicionário para saber do que se tratava. Sendo assim, proponho ➜ período de carência prazo definido contratualmente durante o qual um beneficiário, segurado ou subscritor de um serviço ainda não tem direito a usufruir de determinadas coberturas, garantias ou benefícios, apesar de já ter iniciado o pagamento correspondente.

[Texto 22 521]

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Léxico: «anilina»

Vamos lá aprender com eles


      Agora a pergunta 4: «By the 1850s, chemists were turning coal-tar benzene into vivid purple and red dyes whose molecules imparted bright colours to writing fluids. What’s this family of dyes called that transformed 19th century ink colours? Hint: the answer is also what the ‘A’ in the chemical company ‘BASF’ stands for» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Isso mesmo: anilina. Ora, como lhe falta uma acepção no dicionário da Porto Editora e a nota etimológica é melhorável, proponho ➔ anilina 1. QUÍMICA composto orgânico aromático (C₆H₅NH₂), obtido a partir do benzeno por substituição de um átomo de hidrogénio por um grupo amino, usado como intermediário na síntese de corantes, fármacos e plásticos; 2. HISTÓRIA, TECNOLOGIA designação dada aos primeiros corantes sintéticos derivados da anilina, como a mauveína, que revolucionaram a indústria tintureira no século XIX. A etimologia: de anil (do árabe al-nīl, e este do persa nīl, «índigo») + sufixo químico -ina.

[Texto 22 520]

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Tradução: «sous-traitante»

Fica para a próxima


      Na série francesa Equipa de Limpeza (Frotter-Frotter, no original), exibida na RTP2, uma das camareiras, ao comprovar que não lhe foram pagas horas extraordinárias, afirma: «Vou falar com o Roullet.» Roullet é o gerente do hotel. A supervisora, Solange, corrige-a: não é com o hotel que devem tratar do assunto, mas com a empresa que as contratou e que lhes paga o salário, a Clean Up. A primeira insiste: «Não me importo de ir desancar o subempreiteiro.» 

      O problema é terminológico e é duplo. Em primeiro lugar, «subempreiteiro» é termo técnico próprio do âmbito da construção civil, relativo à subempreitada. Num contexto de prestação de serviços de limpeza hoteleira, a figura jurídica pertinente não é a subempreitada, mas a subcontratação ou a externalização de serviços. Em segundo lugar, mesmo no plano da subcontratação, o hotel não é o subcontratado. Pelo contrário: a Clean Up é que presta o serviço ao hotel, paga os salários e organiza o trabalho; ela é que corresponde, em francês, à sous-traitante, isto é, à empresa subcontratada. O hotel é a entidade contratante (donneur d’ordre), não o subcontratado. Há ainda um elemento interno que torna a opção da legenda particularmente infeliz. Num almoço do pessoal, o próprio gerente explica que o serviço de limpeza é «externalizado» — no original, ouve-se on l’externalise. A legenda traduz, e bem, por «subcontratado». Estamos, portanto, claramente perante um serviço que o hotel decide externalizar, confiando-o a uma empresa terceira. Não há aqui nenhuma lógica de empreitada. 

    A tradução e legendagem portuguesa, da responsabilidade de Rita Neves, ao optar por «subempreiteiros», desloca o enquadramento para o domínio errado e agrava a confusão, tanto mais que a própria série fornece, noutra cena, a chave terminológica correcta. Num registo rigoroso, a réplica poderia ter sido algo como: «Não me importo de ir falar com os do hotel», «Não me importo de ir falar com a direcção» ou, querendo manter alguma precisão técnica, e já que a personagem parece especialista em mopas e normas, «Não me importo de ir falar com a entidade contratante.»

[Texto 22 519]


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Como se escreve por aí

Ainda há dicionários


      «Num período de catástrofe, como o iniciado a pelo mega-ciclone de 28 de Janeiro e seguido pelas ondas e inundações, essa função exacerba-se de parte a parte: por um lado, a TV dá voz a queixas, que são notícia, por outro os chamados ‘populares’, cidadãos sem poder na terra, só na TV, procuram ou são procurados pelas câmaras para dar conta dos seus estragos, perdas e desgaste. Fazem-no individualmente, em família, em grupo de moradores ou trabalhadores, o que for necessário, mas amiúde sem se enquadrarem institucionalmente debaixo da asa de sindicatos, patrões ou de autarcas. Fazem como que micro-movimentos sociais instantâneos» («O povo reivindica pela televisão», Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã, 22.02.2026, p. 37). 

      Eduardo Cintra Torres também é dos tais que não perde tempo com minudências como a ortografia. Para quê, não é? Aliás, o afinco com que se empenha a desancar a torto e a direito não lhe deixa tempo nem espírito para olhar para si mesmo.

[Texto 22 518]

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Definição: «bioaerossol»

Ampliemos um pouco


      «O céu ficou mais esbatido e a qualidade do ar degradou-se, mas o que chega não é apenas “poeira”. Trata-se de bioaerossóis: partículas finas de terra levantadas em zonas áridas de África que entram na atmosfera e são transportadas pelos ventos para outros continentes. Chamam-se aerossóis porque viajam em suspensão e “bio” porque podem levar consigo vida microscópica, como vírus e bactérias» («Poeiras do Chade chegam a Portugal e trazem consigo microrganismos, mas chuva atenua riscos», Alexandra Tavares-Teles, Diário de Notícias, 25.02.2026, 18h42). 

      O mesmo é dizer que não bate inteiramente certo com a definição da Porto Editora: «BIOLOGIA partícula sólida ou gotícula de origem biológica (esporo fúngico, bactéria, vírus, etc.) que se mantém em suspensão num ambiente gasoso». Assim, proponho ➔ bioaerossol BIOLOGIA partícula sólida ou gotícula em suspensão num meio gasoso que contém ou transporta organismos vivos ou material de origem biológica, como esporos fúngicos, bactérias, vírus ou fragmentos celulares.

[Texto 22 517]

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Léxico: «bioenergia»

A que mais interessa, hoje


      «Actualmente, regista-se um aumento contínuo da produção de energia renovável, liderada pela energia solar fotovoltaica, e crescimentos robustos nas eólicas, hidroeléctricas, bioenergias e geotérmicas, e por melhorias na eficiência energética» («A era da electricidade verde», Carlos Reis, Além-Mar, Março de 2026, p. 18). 

      Só a registas, Porto Editora, como sinónimo de «bioenergética» (e, ainda assim, a precisar de melhor definição), mas aqui é ➔ bioenergia energia obtida de matéria orgânica (biomassa vegetal, animal ou resíduos), por processos de combustão, gaseificação, pirólise, digestão anaeróbia, fermentação, entre outros, empregada na produção de calor, electricidade ou biocombustíveis.

[Texto 22 516]

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Léxico: «atazagorafobia»

Tenham medo, muito medo


      «Adorant la langue française, il n’est pas rare qu’il [José Barrense-Dias, guitarrista de origem brasileira radicado na Suíça] sorte dans une discussion le mot “athazagoraphobie”, la peur intense et irrationnelle d’être oublié, ignoré, ou de ne pas être reconnu par les autres. Cela fait sourire ce coureur décidément pas comme les autres, qui va couvrir les 9,2 kilomètres de l’Escalade avec sa fille Jany et sa petite-fille Yara, criminologue» («Le plus vieux participant à la Course de l’Escalade est un Vaudois de 93 ans», Christian Maillard, 24 heures, 8.12.2025, p. 6). 

      Sim, sim, ainda não é uma fobia clinicamente reconhecida nos manuais diagnósticos como o DSM-5 ou a CID-10/11, e por vezes usa-se num tom humorístico, mas também já há psicólogos que usam o termo, e a imprensa, pois claro, logo ➔ atazagorafobia PSICOLOGIA medo intenso e irracional de ser esquecido, ignorado ou de não ser reconhecido pelos outros. 

      Quanto à etimologia, veio do inglês athazagoraphobia, formado do grego phobos («medo») e de um elemento inicial que remete para a ideia de ser ignorado ou esquecido (azētētos, «não procurado», «ignorado»).

[Texto 22 515]

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Léxico: «privatístico»

Faltaria sempre uma


      «O Ministério da Justiça apontou que Blandina Soares tem um mestrado em Direito, com especialização em Ciências Jurídico-Privatísticas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto e “é uma jurista com mais de duas décadas de experiência na Administração Pública, no âmbito dos registos e do notariado”» («Mudança no Instituto dos Registos e Notariado após presidente pedir para sair», Público, 24.02.2026, 16h43). 

      Quanto à definição da única acepção que acolhias até recentemente (!), Porto Editora, pouco mais se podia dizer, mas, ainda assim, proponho ➜ privatístico 1. que pertence à esfera privada ou pessoal; relativo ao âmbito íntimo ou não público; 2. DIREITO relativo ao direito privado; que respeita às normas e institutos que regulam as relações entre particulares em plano de igualdade jurídica, sem exercício de poderes de autoridade pública.

[Texto 22 514]

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Léxico: «pichelaria»

Parados no tempo


      E por piche... Se a língua evolui, também nós temos de evoluir. No verbete «pichelaria» do dicionário da Porto Editora, nada ficamos a saber: «oficina, obra ou ofício de picheleiro». No verbete «picheleiro», só na segunda acepção se diz que é sinónimo de «canalizador». Aliás, não faz bem isto, remete para «canalizador». Há largos meses que passo por uma obra aqui em Cascais, um condomínio de luxo, e nas imediações há sempre uma ou duas carrinhas da Pichelaria Roriz.

[Texto 22 513]

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Léxico: «lei-travão»

Negação da realidade


      Os dicionários, quase todos, continuam a acolher somente «norma-travão», mas a verdade é que o que se lê quase sempre e só é «lei-travão». «Confrontado com a provável “coligação negativa”, o executivo defende que, se os deputados aprovarem a iniciativa, estarão a violar a chamada “lei-travão” — a Constituição não permite que a Assembleia da República aprove medidas que diminuam a receita ou aumentem despesa durante a execução de um determinado Orçamento do Estado» («Governo considera que se o Parlamento aprovar layoff a 100% viola lei-travão», David Santiago, Público, 24.02.2026, p. 14). E até pode acontecer que ambas as palavras convivam pacificamente no mesmo texto: «O PSD pediu “bom senso” à Oposição e que não se queira substituir ao Governo, avisando que alguns dos diplomas que vão ser debatidos hoje no Parlamento, de resposta aos efeitos do mau tempo, podem “colidir com a lei-travão”. [...] Também Isabel Mendes Lopes, do Livre, afirmou que, caso surja alguma questão relacionada com a norma-travão, está disponível para aprovar um orçamento retificativo para a ultrapassar, insistindo que o Parlamento está a “honrar a palavra dada” pelo Governo num primeiro momento, já que inicialmente o Executivo tinha anunciado o pagamento do lay-off a 100% e depois recuou» («PSD avisa que lay-off pago a 100% colide com “lei-travão”», Jornal de Notícias, 25.02.2026, p. 22).

[Texto 22 511]

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Léxico: «irano-arménio»

Temos de ir acolhendo tudo isto


      «Entre as vítimas estão “numerosos cristãos”, afiança Fred Petrossian, jornalista e investigador irano-arménio, forçado ao exílio na Europa, “por necessidade, não por opção”, para escapar a uma “ideologia totalitária” que, desde 1979, sujeita as minorias a um sistema de “discriminação institucionalizada”, um “apartheid religioso”» («Cristãos do Irão: à espera que as portas se abram», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Março de 2026, p. 33).

[Texto 22 510]

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Léxico: «choque em cadeia»

Para evitar alguns disparates


      Como aqui este tradutor julga, entre outros desconchavos, que se diz «choque-em-série» (pois, logo com hífenes também, para ser ainda mais repulsivo), é melhor dicionarizar choque em cadeia — tanto mais, Porto Editora, que já usas a expressão para explicar o que é o brasílico «engavetamento».

[Texto 22 509]

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Definição: «dilapidado | delapidado»

Não é boa ideia


      Então, vejamos, Porto Editora: porque dizes em dilapidado «particípio passado do verbo dilapidar» e em delapidado, já apresentado como adjectivo, «1. que se delapidou; 2. gasto de forma desmedida; 3. arruinado»?

[Texto 22 508]

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Definição: «acidente isquémico transitório»

Explicando um pouco mais


      «Joaquim Miranda Sarmento vai estar sob observação no hospital de Santa Maria, em Lisboa, até amanhã de manhã, quando passarem 24 horas do momento em que entrou nas urgências com uma suspeita de AVC, que os exames descartaram: tratou-se sim de um um [sic] Acidente Isquémico Transitório, conhecido como AIT» («Ministro das Finanças tem de ficar em observação no hospital durante 24h. Teve um Acidente Isquémico Transitório: o que é um AIT?», Sâmia Fiates e Luís Rosa, Observador, 25.02.2026, 15h55). 

      Não é com maiúsculas, mas isso é problema dos jornalistas. Como são dois, e até já deve haver teses universitárias sobre isto, a propensão para haver erros aumenta logo. (O título do artigo também é um tudo-nada esquizofrénico, diga-se.) Como agora, durante algum tempo, se passará a dar mais atenção a este problema, sugiro que enriqueçamos a definição de ➜ acidente isquémico transitório (AIT) MEDICINA episódio súbito e transitório de défice neurológico causado por isquemia cerebral, com resolução completa dos sintomas (geralmente em menos de 1 hora e, por definição clássica, até 24 horas) e sem evidência de enfarte cerebral em exames de imagem.

[Texto 22 507]

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Definição: «sensação térmica»

Muito longe do subjectivismo


      Já aqui o disse uma vez, mas repito: a definição de «sensação térmica» da Porto Editora labora num grande erro ao afirmar que é uma «percepção subjectiva». Não é. No uso meteorológico actual, «sensação térmica» não designa um estado psicológico individual, variável de pessoa para pessoa, como sugere a definição, mas antes um valor calculado por modelos físico-empíricos que estimam a temperatura equivalente percebida pelo corpo humano em determinadas condições ambientais. Os serviços meteorológicos calculam o chamado «feels like» a partir da temperatura do ar, da velocidade do vento (wind chill) e/ou da humidade relativa (heat index). Trata-se, pois, de um índice objectivo, baseado em fórmulas padronizadas. É certo que o fenómeno fisiológico subjacente, a percepção do frio ou do calor, envolve a experiência humana, mas o que a meteorologia divulga não é a «sensação» individual de cada pessoa, e sim uma estimativa normalizada do efeito térmico no corpo humano médio, em condições padrão (pele exposta, ausência de esforço físico, etc.). Assim, proponho ➜ sensação térmica METEOROLOGIA temperatura aparente calculada com base na temperatura do ar e em outros factores atmosféricos, como o vento e a humidade, destinada a representar o efeito térmico dessas condições no corpo humano.

[Texto 22 506]

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Como se inventa por aí

Ora, não vale a pena


      «Muçulmanos caxemires rezam após concluírem a oração do Asr (tarde) durante o mês sagrado de jejum do Ramadão no Santuário Dargah Hazratbal, em Srinagar», era a legenda de uma imagem no Público de ontem. Pois, era uma boa ideia, mas os gentílicos de que dispomos são dois, não três: caxemirense e caxemiriano.

[Texto 22 505]

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Definição e etimologia: «policrise»

Pois se o importámos


      Ora ainda bem que me apareceu aqui o termo «policrise». Porto Editora, o termo tem pai, e pai conhecido: assim, na nota etimológica dir-se-á algo como ➜ do ingl. polycrisis, termo cunhado por Adam Tooze (2022), de poly- + crisis. Quanto ao próprio conceito, é francamente mais complexo, assim ➜ policrise situação caracterizada pela sobreposição e interacção de múltiplas crises sistémicas (económicas, financeiras, sanitárias, ambientais, geopolíticas, etc.), cujos efeitos combinados se reforçam mutuamente e produzem um impacto global superior ao que resultaria da sua simples soma.
[Texto 22 504]
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Léxico: «cidade-berço»

Temos de lhe dar o aval


      A tradutora escreveu que aquelas duas eram as «cidades-berço do tecno». Bem, sempre evitei usar esta palavra composta, mas são cá coisas minhas, porque tenho de admitir que circula por aí há largas décadas e — aviso a mim próprio — nem sempre referido a Guimarães, terra dos nossos antepassados façanhudos. Neste caso é Guimarães, cidade-berço da nacionalidade. Não, nada disso: referida a outras cidades, noutros continentes, a outras realidades. Por isso, sim, deve ser dicionarizada. Não desperdicemos recursos, munições.

[Texto 22 503]

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Léxico: «primum movens»

Latim que ainda faz falta


      O tradutor achou que a tinha de explicar numa nota de rodapé, e se calhar tem razão, já que não está em todos os dicionários. Assim, proponho ➜ primum movens 1. FILOSOFIA (lat. «primeiro motor») princípio ou causa primeira que dá origem ao movimento ou à mudança sem ser, ele próprio, movido ou causado por outro; na metafísica aristotélica, acto puro e fundamento último da ordem do mundo, posteriormente identificado, na tradição escolástica, com Deus; 2. [por extensão] factor decisivo, elemento impulsionador ou força determinante que está na origem de uma acção, projecto ou processo.

[Texto 22 502]

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Definição: «rio atmosférico»

Pode ficar melhor


      «Rios atmosféricos são um fenômeno que ocorre quando uma corrente de umidade em alta altitude flui das regiões oceânicas tropicais, potencialmente levando a precipitações muito mais intensas por onde passam. Os rios atmosféricos do oceano Pacífico estão se tornando mais úmidos e quentes e podem levar a fortes nevascas em elevações montanhosas mais altas, mesmo com a diminuição do número de dias com neve, de acordo com um estudo revisado por pares publicado em 2023 na revista Climate Dynamics» («Crise climática aumenta risco de avalanches, mostram estudos», Eric Niiler, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A35, itálicos meus). 

      Menciona aspectos que podem contribuir e muito para melhorar a definição de ➔ rio atmosférico METEOROLOGIA faixa longa e estreita de ar húmido em altitude (até vários quilómetros) que transporta grandes quantidades de vapor de água desde regiões oceânicas tropicais ou subtropicais para latitudes médias; ao interagir com relevo ou frentes frias, pode provocar precipitação muito intensa, incluindo fortes nevadas em zonas montanhosas; Brasil rio voador.

[Texto 22 501]

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Definição: «calão»

Isso é muito poucochinho


      Viram bem: no texto que citei em que se mencionava a andaina (e aquela 2.ª acepção que continua a misturar vestuário — que vestuário?, da tripulação? — e velas...) também se referia o calão, outra embarcação tradicional, sobre a qual a Porto Editora apenas diz que é o «barco empregado na pesca do atum». Assim, proponho ➜ calão NÁUTICA/PESCA embarcação tradicional de boca aberta, utilizada sobretudo no Sotavento Algarvio como barco utilitário de apoio às antigas armações do atum, desempenhando funções de transporte de homens, aprestos e pescado, bem como de auxílio nas manobras da faina; mede cerca de 7,5 m de comprimento por 2,6 m de boca, é de borda rasa, proa redonda e popa ogival, podendo operar com tripulação numerosa, até uma dezena de homens.

[Texto 22 500]

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Léxico: «persa»

Falar persa


      Nesta acepção, a Porto Editora diz que é a «língua oficial do Irão». Só!? Mas sabemos que também tem o nome de farsi — não que o falante fique a saber, porque o dicionário omite a sinonímia —, e neste caso já se espraia: «LINGUÍSTICA língua oficial do Irão, pertencente ao ramo indo-iraniano do indo-europeu e escrita em alfabeto árabe; persa moderno; parse, pársi». Não apenas a definição deve ser única, como pode ser mais rica em pormenores. Assim, proponho ➜ persa LINGUÍSTICA designação comum da língua iraniana ocidental do ramo indo-iraniano da família indo-europeia, falada principalmente no Irão (onde é língua oficial sob a denominação farsi), no Afeganistão (como dari) e no Tajiquistão (como tajique), escrita tradicionalmente em alfabeto árabe adaptado no Irão e no Afeganistão e em alfabeto cirílico no Tajiquistão.

[Texto 22 499]

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Como se escreve por aí

Nada que se recomende


      «Seguro está a formar a sua equipa, Ventura voltou ao parlamento, Marques Mendes percorre o deserto, o almirante faz contas de cabeça e Cotrim provou não ser adepto de travessias ou de médios ou longos silêncios. Depois das presidenciais cada um foi à sua vida, uns com mais estardalhaço, outros com mais discrição, mas todos se fizeram ao caminho» («Ele acredita mesmo que o país precisa de si», Luís Osório, Diário de Notícias, 20.02.2026, p. 4). 

      Como é que escrevem o nome de uma instituição com minúscula? Nas traduções, estou sempre a ver isto. Mas são os mesmos que depois escrevem «Castanheiro-da-Índia». Decorre do défice de reflexão sobre a língua, simplesmente.

[Texto 22 498]

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Léxico: «listado»

Pois faz muita falta


      Espera lá, as crias do javali não são bacorinhos. Até aos 3 meses, apresentam listas longitudinais alternadamente de cor mais escura e clara, e por isso dá-se-lhes o nome de listados. Bem bonitos, por sinal. Então, para não se escreverem bacoradas, sugiro que vá para o dicionário. Que, já agora, não dormem em ninhos, mas em camas e, até mais propriamente, em encames.

[Texto 22 497]

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Definição: «ladrão»

É muito mais do que isso


      Porto Editora, vê-se logo que nunca foste ajudante de canalizador. Sim, como eu. Não se dá o nome de ladrão, como garantes, apenas à «comporta que [numa levada] permite derivar o caudal excessivo, geralmente situada junto à entrada de moinho». Assim, é com todo o gosto que proponho ➜ ladrão HIDRÁULICA dispositivo ou abertura praticada na parede de um reservatório, depósito ou conduta, destinado a escoar automaticamente o líquido excedente quando este atinge determinado nível, evitando o transbordo; aplica-se, entre outros, a tanques, cisternas, barragens, levadas, moinhos, lavatórios, banheiras e autoclismos; por extensão, canal ou comporta que deriva o caudal excessivo numa instalação hidráulica.

[Texto 22 496]

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Léxico: «cápsula do tempo»

Mas não disse


      Quando ele referiu que havia «outro pormenor curioso que era a autora ter enterrado jornais e moedas, entre outros objectos da época, na base do monumento», estive para lhe dizer que isso tem o nome de ➜ cápsula do tempo caixa ou cofre selado onde se guardam objectos, documentos ou testemunhos representativos de uma determinada época, destinados a ser descobertos e abertos numa data futura previamente fixada.

[Texto 22 495]

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Definição: «alizar»

Isso está mal explicado


      Para mim é ponto assente que nenhum dicionário de português à face da Terra acerta na definição de «alizar». Assim, proponho ➜ alizar CONSTRUÇÃO régua, sarrafo ou peça moldurada, geralmente de madeira, aplicada ao longo do perímetro de portas, janelas ou outros vãos, no interior e no exterior, destinada a cobrir a junta entre o aro e a parede, servindo de acabamento e elemento decorativo; guarnição; cercadura.

[Texto 22 494]


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Definição: «descarregador»

Ainda as depressões


      «Os diques e o canal de rega continuam hoje a estruturar o território. Foram bem concebidos e cumpriram a sua função durante décadas. Mas o clima mudou. Chove mais, com episódios associados a ventos ciclónicos e a picos súbitos (flash floods), de difícil previsão. Os incêndios florestais no Médio e Alto Mondego aumentaram a erosão e a velocidade de escoamento. O sistema precisa de ser recalculado e reforçado — com mais canais, mais descarregadores e zonas de expansão de cheia controlada. Isso é pensar em sistema. Isso é cuidar» («Coimbra e o Baixo Mondego precisam de um sistema de cuidados, não de uma barragem», A. Nuno Martins [investigador e professor de Arquitectura e Alterações Climáticas no CIAUD-UBI], Público, 22.02.2026, 12h51).

      Está no dicionário da Porto Editora, sim senhor, mas ainda o pobre leitor vai imaginar algo semelhante à abertura que temos nos lavatórios: «abertura existente numa barragem que permite a saída das águas». Assim, proponho ➜ descarregador ENGENHARIA HIDRÁULICA estrutura integrada em barragem, dique, açude ou canal, destinada a escoar de forma controlada o caudal excedente, garantindo a segurança da obra e prevenindo a galgagem, podendo assumir a forma de soleira vertente, descarregador de superfície, de fundo ou lateral, com eventual dispositivo de dissipação de energia a jusante.

[Texto 22 493]

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Definição: «carolo»

Não é o que dizem


      No canal Conta Lá, no sábado, mostraram uma reportagem sobre as Festas das Papas na Póvoa da Atalaia, Fundão, terra natal do poeta Eugénio de Andrade, festas que se realizam no terceiro domingo de Janeiro. Um dos pratos típicos na altura da festa são as papas de carolo, que o presidente da Junta de Freguesia explicou que, tradicionalmente, eram despejadas ainda quentes em tabuleiros grandes e depois cortadas em talhadas. No caso, é carolo branco. A Porto Editora diz que carolo é a «farinha de milho grosseira» ou as «papas feitas com esta farinha», mas podemos apurar a definição, porque não faltam fontes. Assim, proponho ➔ carolo ALIMENTAÇÃO produto de moagem incompleta do milho, constituído por grânulos de dimensão variável (sêmola; milho partido miúdo), mais grosso do que a farinha de milho peneirada, usado, nomeadamente, na confecção de papas e de outros preparados tradicionais.

[Texto 22 492]

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Léxico: «pôr-se/andar em bicos de pés»

Já reinou demasiado


      Estes aqui foram até à gruta em bicos de patas. De patas, porque eram animais. Ora, em bicos de pés não está no dicionário da Porto Editora. Só em bilingues está pôr-se/andar em bicos de pés. Estes eram ingleses, como o outro bicharoco agora acossado, o Mountbatten-Windsor. Together, they tiptoed into the cave...

[Texto 22 491]

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Definição: «ramadão»

Duas ou três melhorias


      «“Mangez et buvez, jusqu’à ce que vous distinguiez le fil blanc de l’aube du fil noir de la nuit”, dit la sourate. Le début du ramadan fait remonter, en France, la crainte d’un grand remplacement d’une religion historique, pourtant abandonnée depuis un demi-siècle» («Mois de jeûne: “Le ramadan offre la possibilité de ralentir”», Pierre-Alexandre Sallier, 24 heures, 23.02.2026, p. 15). 

      Bem, o Houaiss erra quanto à duração deste mês e, ainda que pudéssemos evitar esse erro, o melhor é dirigir a nossa atenção para outros aspectos. A Porto Editora, por exemplo, só por causa da escolha vocabular («devem jejuar»), torna-o normativo, o que não deve acontecer. E outro aspecto: deve dizer-se que são os adultos que jejuam. Assim, proponho ➔ ramadão 1. RELIGIÃO nono mês do calendário islâmico, considerado sagrado, durante o qual os muçulmanos adultos jejuam diariamente desde a alvorada até ao pôr-do-sol; 2. RELIGIÃO [com maiúscula] jejum ritual observado pelos muçulmanos durante esse mês, um dos cinco pilares do islão.

[Texto 22 490]

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Léxico: «andaina»

Falta o mais típico


      «Durante aqueles dez dias no início da campanha, todos trabalhavam “do nascer ao pôr [do Sol]”. Há que imaginar dezenas de homens a retirar das casas todo o material que ali guardavam durante o Inverno: cerca de oito mil metros de redes; 87 mil metros de cabos; dezenas e dezenas de bóias de cortiça. Os “barcos gigantes” eram içados para a praia, entre calões, andainas, barcas, botes... Tudo sobre a areia, onde já tinham ficado as mais de 300 âncoras no final da campanha anterior, hoje imagem de marca e principal postal turístico do Barril, na ilha de Tavira» («A Rota do Atum do Algarve: “A tourada do mar era uma coisa linda”», Mara Gonçalves, Público, 21.02.2026, 9h11). 

      Não apenas esta andaina não está no dicionário da Porto Editora, como uma das acepções que regista confunde claramente coisas diferentes, o que induzirá o falante em erro: «conjunto das peças do vestuário ou das velas da embarcação». Quanto a esta, proponho ➔ andaina NÁUTICA conjunto ou jogo completo de velas, toldos e demais panos de bordo de uma embarcação (incluindo sobressalentes). Quanto à embarcação tradicional algarvia, é a ➔ andaina regionalismo algarvio lancha de convés tradicional do Sotavento Algarvio, usada nas armações (designadamente do atum) para transportar o pescado capturado até terra e à lota; enviada; na forma tradicional, embarcação à vela e a remos, mais tarde também motorizada. 

      No que diz respeito à etimologia, para o Houaiss não é obscura nem nada que se pareça, e parece-me convincente.

[Texto 22 489]


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Plural: «cabra-montês»

Não é a melhor escolha


      «Estas, nestas alturas, tendem a assumir as dores do povo, afastando as suas próprias responsabilidades em anos ou décadas de relaxe, de autorização de construção em leitos de ribeiras e até de rios, como no Mondego, construção sob ou sobre arribas e na linha de costa, como em Almada, falta de obras em estradas municipais que mais parecem caminhos de cabras-monteses e noutras construções da responsabilidade autárquica, como edifícios de serviços públicos» («O povo reivindica pela televisão», Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã, 22.02.2026, p. 37).

      Não será a mim que me vão apanhar a usar «cabra-montês». Regular e com plural inequívoco é «cabra-montesa». Bem podia a Porto Editora indicar o plural de «cabra-montês», sempre contribuiria para haver menos erros.

[Texto 22 488]

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Léxico: «filoguiado»

Mais pontas soltas


      No Jornal de Domingo na SIC Notícias, o jornalista Rui Cardoso, a propósito da guerra na Ucrânia, falou nos «drones filoguiados russos». Ora, em textos de apoio da Infopédia encontramos o adjectivo, mas não nos dicionários.

[Texto 22 487]

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Léxico: «coiote»

Vamos lá pôr-nos a par


      «Grupos de WhatsApp administrados por aliciadores e coiotes são comuns em Cuba. Nos grupos, é possível encontrar ofertas de agências de viagem irregulares que ajudam os moradores a sair do país sem precisar de vistos de viagem, missão quase impossível para os cubanos» («Coiotes se transformam na principal forma de entrada de imigrantes cubanos no Brasil», Mayara Paixão, Folha de S. Paulo, 23.02.2026, p. A24).

      Os nossos dicionários não estão preparados para nos ajudarem. Só o Houaiss: «indivíduo que cruza fronteiras de países com clandestinos».

[Texto 22 486]

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Léxico: «prescricionista»

Esqueceram-se dela


      Conhecida desde sempre e nunca dicionarizada: «Por mais que me esforce não consigo ver méritos jurídicos nem linguísticos na empreitada. Mesmo reconhecendo que a Carta impõe a concessionários de TV aberta certas obrigações relativas ao conteúdo da programação, não vislumbro no arcabouço legal brasileiro nada remotamente semelhante a um dever de obedecer a gramáticos prescricionistas» («O anarquismo que funciona», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A3).

[Texto 22 485]

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Léxico: «motonormatividade»

Por serem normais


      «As questões sobre fumo e trabalho não são apenas uma hipótese. Estas e outras perguntas foram feitas a 2157 pessoas, no Reino Unido, para um estudo que o agora o professor da Universidade de Swansea realizou com os académicos Alan Tapp e Adrian Davis (“Motonormativity: how social norms hide a major public health hazard”, publicado em 2023, no International Journal of Environment and Health). As respostas mostram que normalizamos um problema quando ele envolve um carro, e isso passou a ter um nome: motonormatividade» («Ian Walker explica como desvalorizamos o impacto dos carros», Camilo Soldado, Público, 25.10.2025, p. 26). 

      E assim também motonormativo, claro. O que me trouxe à mente que já este ano revi uma obra em que se falava nos superdotados e nos... normodotados. Estes, a maioria, ainda não foram levados para o dicionário, coitados. Como são normais, não conseguem.

[Texto 22 484]

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Definição: «bistre»

Retomando a ciência


      Fiquem com a pergunta 1: «This historical ink was made by boiling soot from burned beechwood, yielding a warm brown, transparent pigment that faded faster than carbon black in old drawings. Name this ink, which architects and artists once favoured (but especially Rembrandt) for its light-sensitive nature» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Ah, muito bem, a resposta é mesmo bistre. Define-o assim a Porto Editora: «1. cor entre o castanho e o amarelo; 2. substância corante de coloração entre o castanho e o amarelo, obtida pela fervura de fuligem em água e usada sobretudo em pinturas de aguarela». Proponho assim ➔ bistre 1. cor entre o castanho e o amarelo, com tonalidade quente e translúcida; 2. substância corante de coloração castanha, obtida tradicionalmente pela fervura da fuligem resultante da queima de madeira de faia (Fagus sylvatica), usada sobretudo em desenhos e aguarelas; menos estável do que o negro de fumo por ser sensível à luz, e amplamente utilizada por arquitectos e artistas, como Rembrandt, até ao século XIX. 

      Quanto à etimologia, vem de facto do francês bistre (século XVII), de origem obscura.

[Texto 22 483]

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Definição: «barão»

Problemas na embraiagem?


      «Los barones del PP aconsejan a Guardiola hacer una campaña regional» (La Vanguardia, 9.12.2025, p. 22). A Porto Editora precisa (?) de duas ou três acepções para definir o que são estes barões: «3. figurado personalidade poderosa e influente na sua área de actividade; 4. figurado figura de destaque em determinada área de negócio; 5. figurado magnata». O dicionário da Real Academia Espanhola di-lo numa só bem estruturada e abrangente acepção: «Persona que tiene gran influencia y poder dentro de un partido político, una institución, una empresa, etc.»

[Texto 22 482]

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Léxico: «videovigilante»

Tinha de haver


      «A música há-de desacelerar, baixo e bateria repentinamente a volume reduzido e em câmara lenta. “Vivemos numa selva sem árvores, banhada pela chuva ácida dos rios que envenenámos”, sussurram Manuel Molarinho e a convidada especial Evaya. “Somos videovigilantes do mundo, para que não pegue fogo/ mas aproveitamos o calor para fazer pipocas e vê-lo arder”, prosseguem, como se nos segredassem ao ouvido, como se dançassem nas ruínas» («Baleia Baleia Baleia vs. o retrocesso: “Gostava de não caminhar para a Idade Média de novo”», Daniel Dias, Público, 19.02.2026, 14h33).

[Texto 22 481]

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Léxico: «homofobismo»

Mostra a riqueza da língua


      «Não existe tabu, quando você não o cria. O tabu não existe, na verdade. Homofobismo, por exemplo... Sei lá, 70% dos meus amigos são gays [diz a actriz brasileira Claúdia Raia em entrevista]» («“Não existe tabu quando você não o cria”», Sara Porto, «Versa»/Nascer do Sol, 6.02.2026, p. 27). 

      Sobretudo em textos académicos, não faltam ocorrências do termo «homofobismo». Ora, de certeza que os autores sabem que existe «homofobia».

[Texto 22 480]

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Léxico: «tarifa-base»

A incoerência como critério


      «No que diz respeito aos factores externos, menciona-se a possível volatilidade dos fluxos de financiamento externo, incluindo o investimento estrangeiro directo e as remessas dos emigrantes, além da incerteza nos mercados financeiros internacionais — suscitada, nomeadamente, pelas políticas tarifárias dos Estados Unidos, que ampliou tarifas sobre sectores como aço e alumínio, além da introdução de uma tarifa-base de 10 por cento aplicada à maioria dos países latino-americanos» («Apostar no crescimento económico», Jairo García, Além-Mar, Março de 2026, p. 15). 

      Fico espantado como se pode defender a grafia sem hífen, como vejo em alguns dicionários.

[Texto 22 479]

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Léxico: «broca-do-café | stress hídrico | stress térmico»

Falemos de fungos


      «Somam-se ainda pragas e doenças que “gostam” e prosperam em locais com temperaturas mais elevadas, como a ferrugem do café (uma doença devastadora causada por um fungo da ferrugem, Hemileia vastatrix) e a broca-do-café (causada por um besouro [Hypothenemus hampei] cuja larva se alimenta das sementes do café). São ameaças que também “afectam a qualidade e quantidade das colheitas e tornam a gestão agrícola mais dispendiosa”» («Gosta de café? O stress térmico está a torná-lo pior, mais caro e mais vulnerável», Andrea Cunha Freitas, Público, 19.02.2026, 11h53).

[Texto 22 478]

⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: Estão sempre a aparecer na imprensa, mas os dicionários nada dizem. Assim, proponho ➜ stress hídrico ECOLOGIA, AGRONOMIA desequilíbrio fisiológico de um organismo, sobretudo vegetal, provocado por disponibilidade de água inferior às suas necessidades, manifestando-se pelo fechamento estomático, redução do crescimento e da actividade metabólica e, em casos graves, murchidão e morte. | stress térmico FISIOLOGIA, ECOLOGIA perturbação fisiológica causada por temperatura ambiente acima ou abaixo do intervalo de tolerância do organismo, comprometendo a homeostase e o desempenho fisiológico, com impacto em processos como a termorregulação, a fotossíntese e a fertilidade.

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Léxico: «labradorescência»

Avançando no conhecimento


      «A feldspar mineral from Labrador in Canada is known to show brilliant flashes of blue, green, and gold colours that appear and vanish depending on how you tilt the stone. The flashes are caused by light reflected between thin internal layers. What’s this phenomenon called?» («The natural artists called minerals», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 2.12.2025, p. II). 

      Então, não tem nada que saber, é a ⤷ labradorescência reflexos metálicos de cores vivas (normalmente azul, verde, dourado ou laranja) que aparecem e desaparecem à superfície da labradorite, consoante o ângulo de incidência da luz; este efeito, causado pela difracção da luz em finas lamelas internas, é característico de certos feldspatos provenientes do Canadá e da Finlândia. 

      Quanto à etimologia, vem do francês labradorescence, nome formado de labradorite (mineral identificado na península do Labrador, no Canadá), com o sufixo francês -escence, equivalente ao português -escência.

[Texto 22 477]

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Léxico: «interdigitação»

Dentes, não dedos


      «Além disso, as suas filas de dentes superiores e inferiores encaixavam-se perfeitamente durante a mordedura, o que se designa por interdigitação. “Os seus grandes dentes cónicos sem serrilhas que se interdigitam formam uma ‘armadilha para peixes’ que é muito boa a perfurar e a prender peixes escorregadios nas mandíbulas, impedindo-os de deslizar”, refere um dos co-autores do artigo científico na Science, Daniel Vidal, paleontólogo da Universidade de Chicago e da Universidade Nacional de Educação à Distância, em Madrid (Espanha)» («Nova espécie de dinossauro gigante descoberta no deserto do Sara», Will Dunham (Reuters), Público, 20.02.2026, 6h58). 

      Pois, decerto, acolhes o termo, Porto Editora, mas noutra acepção, pelo que proponho ➔ interdigitação ANATOMIA, ODONTOLOGIA encaixe alternado e recíproco entre as cúspides e os espaços dos dentes superiores e inferiores durante a oclusão, formando um travamento que dificulta o deslizamento.

[Texto 22 476]

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Bristol

Um nome sem geografia


      Havia um Hotel Bristol em Lisboa, na Rua de São Pedro de Alcântara. Havia um Hotel Bristol em Sintra. Havia-os em Paris, Genebra, Berlim ou Varsóvia. Havia... Basta: são mais de duzentos em todo o mundo. O nome parece homenagear a cidade inglesa de Bristol, mas a intenção era outra. No início do século XIX, o nome Bristol evocava Frederick Augustus Hervey, 4.º conde de Bristol e bispo de Derry, aristocrata cosmopolita, célebre pelas viagens e pelo gosto pelo luxo. Associar um hotel ao seu título era sugerir requinte, bom gosto e padrões elevados. Quando o primeiro Hotel Bristol abriu em Paris, em 1816, procurava atrair clientela britânica e, ao mesmo tempo, projectar uma imagem de distinção. O nome funcionava como garantia simbólica de qualidade. O êxito comercial fez o resto: «Bristol» tornou-se rótulo internacional de elegância, independentemente de qualquer ligação à cidade inglesa.

[Texto 22 475]

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Definição: «som»

Ora, ora


      «The real hero behind whatever we hear is something most of us take for granted: air. Sounds are waves – disturbances that move by pushing and pulling air molecules» («On zoos and magnets: the physics behind sounds», Adhip Agarwala [professor auxiliar de Física no Instituto Indiano de Tecnologia de Kanpur], The Hindu, 9.12.2025, p. 37).

      Não é preciso um doutoramento em Física nem cátedra no IIT de Kanpur para saber que o som existe mesmo quando não está ninguém a ouvi-lo. E, no entanto, a Porto Editora define som como a «sensação auditiva produzida por vibrações mecânicas». É certo que depois, noutra acepção, acrescenta «fenómeno vibratório que produz essa sensação», mas o mal está feito, porque a ordem conta, não há hierarquia lógica e a formulação da segunda acepção é vaga. Assim, proponho ➔ som 1. FÍSICA vibração mecânica que se propaga num meio material sob a forma de onda longitudinal e que, no caso da espécie humana, pode ser percepcionada pelo ouvido quando tem frequência compreendida entre cerca de 20 Hz e 20 000 Hz; 2. sensação auditiva produzida pela recepção dessas vibrações no ouvido e pela sua interpretação pelo cérebro.

[Texto 22 474]

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Etimologia: «bisonte»

Não começou com o latim


      «Avec les départs vers les stations de ski, Bison futé reprend du service. Le mot vient du germanique wisund et désigne un bœuf sauvage» («Bison», Étienne de Montety, Le Figaro, 16.02.2026, p. 35). 

      A Porto Editora, contudo, afirma que vem do latim. Tem razão Étienne de Montety, que se refere à origem remota da palavra. Um dicionário tem a obrigação de não cortar a cadeia etimológica demasiado cedo e omitir a origem germânica do vocábulo, que, de facto, se pode reconstruir como wisund ou *wisundaz, que designava precisamente o auroque ou um grande bovino selvagem. Foi este étimo germânico que passou ao latim tardio sob a forma bison, bisontis, e daí às línguas românicas.

[Texto 22 473]

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Léxico: «laje de transição»

Vamos para as obras


      «Para que esta solução seja possível, teve de se garantir a integridade do aterro, que, devido ao elevado débito de água, acabou por ceder após o rebentamento do dique fluvial. Como explicou ao CM, na altura, o especialista Francisco Branco, o débito de água levou a que o aterro cedesse, partindo depois a laje de transição (uma peça de betão colocada entre o topo do aterro e o tabuleiro da autoestrada)» («Obras na A1 terminadas em duas semanas», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 19.02.2026, p. 6). 

      Sendo assim, e porque estou a topar com ela todos os dias, resta-nos dicionarizar ➔ laje de transição ENGENHARIA CIVIL laje de betão armado executada na zona de encontro entre um pavimento ou terrapleno e uma estrutura mais rígida, como uma ponte ou viaduto, destinada a assegurar a passagem gradual de cargas e deformações entre ambos, reduzindo assentamentos diferenciais e descontinuidades no pavimento.

[Texto 22 472]

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Léxico: «antitérmico»

Era nisto que devia ter pensado


      «A médica Michelle Wright alertou ao [sic] website HealthFirst para alguns dos riscos da toma excessiva de paracetamol. “O paracetamol é amplamente utilizado como analgésico e antitérmico. No entanto, existe uma linha entre uma dose terapêutica e uma dose tóxica. Ao contrário de alguns outros medicamentos, a sobredosagem de paracetamol nem sempre causa sintomas imediatos”, começa por dizer» («Desafio do Paracetamol: coloca jovens em risco e leva-os para o hospital», Nascer do Sol, 17.02.2026, 8h44, itálico meu).

      Neste sentido, como sinónimo de «antipirético», «antitérmico» é de uso raríssimo. Não é por acaso que em todos os dicionários é a segunda acepção do termo.

[Texto 22 471]

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Erros de sempre e para sempre

Mudemos de estratégia


      «A sugestão da Brisa passa por colocar o tráfego do lado da autoestrada que não abateu (Norte-Sul), circulando um sentido em cada via de trânsito entre os quilómetros 189 e 191 (percurso onde a circulação foi cortada, entre os nós de Coimbra Norte e Coimbra Sul)» («Obras na A1 terminadas em duas semanas», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 19.02.2026, p. 6). 

      Talvez se nos dirigirmos a cada um deles de forma individualizada aprendam. Caro Rui Miguel Godinho, então não se usa a inicial minúscula nos pontos cardeais nos casos, como este, em que designam direcções? Não, homem, isto nada tem que ver com o Acordo Ortográfico de 1990, já era assim antes, diacho.

[Texto 22 470]

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Léxico: «semitorrencial»

É a oportunidade


      «Devido à precipitação, vários rios tiveram mediáticas grandes inundações, nomeadamente o Mondego, o Tejo e o Sado. O rio Mondego, como exemplo, devido às condições climáticas mediterrânicas e à grande altitude do sector proximal da sua bacia hidrográfica, é um rio semitorrencial com grande irregularidade nos caudais anuais e interanuais. Em tempos históricos, estão documentadas muitas grandes cheias; algumas delas atingiram o limite exterior das planícies de inundação (ex. onde foi construída a Igreja de Santa Cruz)» («Porque aconteceu a rotura do dique do Mondego e colapso da A1?», P. Proença Cunha [professor catedrático de Geologia Sedimentar da Universidade de Coimbra e investigador], Público, 18.02.2026, 12h58). 

      Os rios, quanto a este aspecto, podem ser torrenciais, semitorrenciais ou regulares. Ora, o termo nem sequer está dicionarizado, pelo que proponho ➔ semitorrencial HIDROLOGIA diz-se do rio ou curso de água que apresenta regime irregular, com acentuada diferença entre caudais de estiagem e de cheia, respondendo de forma relativamente rápida e intensa aos episódios de precipitação, mas mantendo escoamento permanente ao longo do ano; intermédio entre o regime regular e o torrencial.

[Texto 22 469]

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Léxico: «barragem-bateria»

Mais água


      «Este ano foi posta à prova uma novidade no sistema hidroelétrico português que foi usada favor do controlo de cheias: o sistema de bombagem do complexo hidroelétrico do Alto Tâmega, a super barragem-bateria da Iberdrola que está em plena operação desde 2024» («A cota mais baixa na Aguieira que salvou Coimbra, a ajuda de Espanha e a bomba que fez voltar a água para trás. Como foram geridas as cheias», Ana Suspiro, Observador, 19.02.2026, 11h31).  (Vamos por ora fingir que aquele «super» pode andar ali à solta qual passarinho num bosque. Nos cursos de Jornalismo não devem ensinar nada isto.) 

      Embora se use mais a designação «barragem com bombagem», de quando em quando aparece, e é bem-vinda, a ➔ barragem-bateria ENGENHARIA HIDRÁULICA barragem (ou conjunto de barragens) com bombagem reversível, que armazena energia elevando água para um reservatório superior e a devolve à produção eléctrica quando necessário, funcionando como «bateria» do sistema eléctrico.

[Texto 22 468]

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Léxico: «forçagem»

Até na agricultura


      «Ainda segundo o GPIAFF [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários], a “quase totalidade” destes casos “resultou de má utilização por parte das pessoas envolvidas, nomeadamente por entrada ou saída indevidas quando já estava ativo o anúncio de fecho de portas ou por forçagem da abertura da porta”» («Idoso arrastado pelo Metro em Gaia. “Mão não tem espessura” para ativar sistema de segurança», Miguel Marques Ribeiro, Rádio Renascença, 19.02.2026, 10h00).

      Está certo, pois claro, mas, nos dicionários, nada, isto quando até na agricultura se fala no chamado regime de ➔ forçagem AGRICULTURA prática cultural que consiste em provocar artificialmente o desenvolvimento ou a frutificação de plantas fora da sua época normal, mediante controlo de factores como temperatura, luz ou humidade; cultivo protegido ou estimulado em estufa, túnel ou abrigo, com o objectivo de antecipar ou prolongar a produção.

[Texto 22 467]

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Etimologia: «pódio»

Que diga alguma coisa


      «Podium vient de pes, qui désigne “le pied”. [...] Dans l’Antiquité, le podium désignait un socle, construit dans une arène, où siégeaient les personnalités» («Podium», Étienne de Montety, Le Figaro, p. 34).

      Exactamente, e por isso devemos tornar a nota etimológica útil, não mera excrescência que nada acrescenta. Assim, proponho pódio ➔ do latim podium, ii, «muro baixo que circundava a arena dos anfiteatros, estrado, base elevada», do grego pódion, diminutivo de poús, podós, «pé»; originalmente «pequeno pé», depois «base, apoio, plataforma elevada».

[Texto 22 466]

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Definição: «pez»

Como nem imaginas


      «À temperatura ambiente, o pez pode parecer sólido, mas é, na verdade, um fluido extremamente viscoso, cerca de 100 mil milhões de vezes mais viscoso do que a água. Essa característica faz com que o seu escoamento seja tão lento que desafia a perceção humana» («A experiência de laboratório mais antiga do mundo tem quase 100 anos», Catarina Solano de Almeida, SIC Notícias, 24.01.2026, 9h00).

      Substância viscosa, Porto Editora? Viscoso é o xarope para a tosse que aqui tenho à minha frente. O pez tem uma viscosidade estimada de 200 mil milhões de pascal-segundo, o que o torna cerca de 100 mil milhões de vezes mais viscoso do que a água e 20 milhões de vezes mais do que o mel. Assim, proponho ➜ pez QUÍMICA substância negra ou muito escura, altamente viscosa, pegajosa e combustível, obtida como resíduo da destilação de alcatrões da hulha, do petróleo ou de certas resinas vegetais, sólida à temperatura ambiente mas fundente ou amolecida com o calor; utilizada como aglomerante, impermeabilizante ou isolante em construção, engenharia e indústria naval; também designada por pez ou piche.

[Texto 22 465]

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Erros de sempre e para sempre

Com dois segredos


      «Envelhecera na companhia da casa – incrível como os lugares que habitamos nos acompanham –, e na presença do Castanheiro-da-Índia que já era adulto quando ele veio ao mundo» («A árvore que teve medo de ‘Kristin’», Luís Osório, Diário de Notícias, 19.02.2026, p. 4). 
      Boa parte dos tradutores fazem o mesmo. Bem, das duas uma: ou puxam pela cabeça ou puxam pelo dicionário. Eu sei que Luís Osório — e todos os que dão estes erros irritantes — sabe que se escreve «alface», «figueira», «laranjeira», «brócolos» (bem, neste caso não sei, que aparece demasiadas vezes mal escrito), «cenoura», «pinheiro», etc. Só que depois vêem ali o que julgam ser um topónimo e todas essas certezas se desmoronam. Então iam agora escrever «Índia» com minúscula!? Isto aprenderem eles bem na escola. Sendo assim, para equilibrar, grafam também o primeiro elemento com maiúscula. Vou contar-lhe um segredo, Luís Osório: aí não é topónimo, é um elemento de uma palavra composta, logo: castanheiro-da-índia. Segundo segredo: aplica-se a todas as palavras da mesma natureza ou composição.
[Texto 22 464]
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Definição: «contrapisa»

Não é bem isso


      Aqui um tradutor usou o termo «contrapisa», e bem, com propriedade. Menos bem está a Porto Editora, que o define assim: «forro na parte inferior dos vestidos». Não sou alfaiate nem costureiro, mas vejo que está mal, já que não se trata de um forro. Assim, proponho ➜ contrapisa debrum de fita de algodão na parte inferior da saia das mulheres para evitar que com o roçar no chão se rompa.

[Texto 22 463]

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Definição: «tinta-da-china»

Vamos lá pintar isto melhor


      E outra, a pergunta 2: «The first half of the name of this classic ink, long used in comics, is linked to the country that traded it with China. It’s a black ink in which carbon particles are suspended in water, sometimes with shellac, so the ink is waterproof once it dries on paper. Name the ink» («What makes the pen mightier?», Vasudevan Mukunth, «Science»/The Hindu, 4.12.2025, p. II). 

      Demasiado simples: tinta-da-china. É mais do que dizem os nossos dicionários e por isso proponho ➔ tinta-da-china tinta preta feita à base de negro de fumo e aglutinantes como goma-arábica ou goma-laca, utilizada em desenho, caligrafia e aguarela, podendo ser solúvel ou resistente à água depois de seca, consoante a composição; por vezes chamada tinta-da-índia ou tinta-de-nanquim, embora o nome reflicta apenas a rota comercial que a trouxe para a Europa.

[Texto 22 462] 

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Léxico: «Criogénico | Neoproterozóico»

Como é que não estão nos dicionários?!


      «In the Cryogenian Period (720-635 million years ago), some scientists believe the earth went through episodes when ice covered even the tropical latitudes, and the world was called ‘snowball earth’. If the oceans were mostly frozen, it was also believed that the usual interactions between the ocean, atmosphere, sunlight, and climate patterns would have been greatly weakened» («Snowball earth: not quite still», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 18.02.2026, p. II). 

      Nos nossos dicionários, nada de nada. Assim, proponho ➔ Criogénico GEOLOGIA período do Neoproterozóico que se iniciou há, aproximadamente, 720 milhões de anos e terminou há, aproximadamente, 635 milhões de anos, caracterizado por intensas glaciações planetárias; Criogénio. 

      Para o que precisamos igualmente de acolher ➔ Neoproterozóico GEOLOGIA era mais recente do éon Proterozóico, que se iniciou há, aproximadamente, 1000 milhões de anos e terminou há, aproximadamente, 541 milhões de anos, subdividida nos períodos Toniano, Criogénico e Ediacarano, antecedendo o Paleozóico.

[Texto 22 461]

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Léxico: «segurabilidade»

Também faz falta


      «Algumas situações são mais difíceis de segurar. Devemos trabalhar cada vez mais com os clientes a componente de prevenção, de consciencialização, para que a possibilidade de segurabilidade seja maior. Tem de pensar muito bem onde é que se compra uma casa, onde é que se constrói uma casa, com que materiais de construção, isso vai ao longo do tempo determinar se se pode fazer um seguro ou não» [diz, em entrevista, José Coutinho, director de subscrição da Zurich]» («“Nos próximos anos, o preço dos seguros irá aumentar para fazer face à probabilidade de catástrofes”», Rosa Soares, Público, 18.02.2026, 7h05).

[Texto 22 460]

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Definição: «borregar»

Devíamos ser nós a fazê-lo


      Entrevistado no Jornal Nacional da TVI, na terça-feira, a propósito do incidente do avião da TAP a caminho do aeroporto de Praga, José Correia Guedes, ex-comandante da TAP, usou a palavra «borregar», que até já pastores e trolhas conhecem, o problema não é esse. Desceram abaixo da altitude de segurança, não se sabe ainda porquê. «Imediatamente», disse José Correia Guedes, «fizeram aquilo que, em gíria aeronáutica, chamamos borregar, ou seja, subiram para uma altitude muito superior.» Então um simples cidadão tem o cuidado de dizer que é da gíria, e até acrescentar o domínio, e os dicionários não o indicam?

[Texto 22 459]

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Definição: «tromba»

Não estamos de trombas, mas


      «A sensibilidade quase sobrenatural das trombas dos elefantes depende, em parte, de um componente inesperado: a presença de uma densa rede de vibrissas ou “bigodes”, muito semelhantes aos que estão presentes em gatos ou ratos, de acordo com uma nova pesquisa. Os cerca de mil “fios de bigode”, analisados por pesquisadores na Alemanha em elefantes-asiáticos (Elephas maximus) bebês e adultos, possuem variações funcionais em sua estrutura dependendo da posição em que se encontram na tromba e também da proximidade em relação ao corpo do animal (na ponta ou na base)» («Supersensível, ‘bigode’ em tromba de elefante funciona como espécie de sensor tátil», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 15.02.2026, p. A32). 

      A Porto Editora consegue a nada elogiável proeza de, ao definir «tromba», não se referir ao elefante. Deve ser dos poucos dicionários que o fazem. Ora, só em relação à tromba do elefante podíamos ter um verbete inteiro. Mas que seja acepção ➔ tromba ANATOMIA, ZOOLOGIA órgão muscular alongado, tubular, extremamente flexível e preênsil que resulta do prolongamento e fusão do nariz com o lábio superior dos elefantes (família Elephantidae), constituído por cerca de 90 mil feixes musculares e ricamente inervado; apresenta numerosas vibrissas (à volta de mil), distribuídas ao longo da superfície, que reforçam a sensibilidade táctil; desempenha funções de respiração, olfacto, tacto fino, manipulação de objectos, sucção e projecção de água, comunicação e expressão comportamental; probóscide.

[Texto 22 458]

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Léxico: «skiathlon»

Eu perguntei primeiro


      Depois do muro-cortina, vamos para Milão-Cortina: «Na prova de skiathlon terminou em 64.º lugar, cruzando a meta... em festa» («Stevenson, o carpinteiro do Haiti que está nos Jogos Olímpicos de Inverno», Diogo Cardoso Oliveira, Público, 10.02.2026, p. 38). 

      Como é que o nome de um desporto não está no dicionário? Pois, mas não está, pelo que proponho ➔ skiathlon DESPORTO (esqui de fundo) prova de esqui de fundo disputada com partida em massa, em que metade do percurso é feita em técnica clássica e a outra metade em técnica livre, com mudança de esquis a meio.

[Texto 22 457]

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Definição: «mandarim»

Porque é bem mais do que afirmas


      Explicaria de uma penada porquê o nome mandarim para a língua e para o alto funcionário, mas isso ficará para outra ocasião. Agora, e com urgência, importa corrigir e enriquecer a definição de «mandarim» no dicionário da Porto Editora. Assim, proponho ➔ mandarim HISTÓRIA designação europeia dos altos funcionários da administração dos antigos Estados da China, do Vietname e da Coreia, pertencentes à classe letrada e recrutados por exames públicos, integrados numa hierarquia burocrática ao serviço do monarca, com funções administrativas, judiciais, fiscais ou, em certos casos, militares.

      Quanto à etimologia, deverá dizer-se que já estava atestado em português desde 1514; do malaio menteri, «ministro, conselheiro», do sânscrito mantri, «conselheiro»; a forma portuguesa terá sido influenciada pelo verbo mandar, difundindo-se depois do português para outras línguas europeias.

[Texto 22 456]

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Como se fala por aí

Prefiro ouvir, mas


      Estive surdo mais de um mês, e senti-me muito mal. Agora, já totalmente recuperado, ouço coisas extraordinárias. No sábado, no Notícias 21, da RTP Notícias, a pivô Carolina Freitas perguntou ao comentador Ricardo Jorge Pinto qual a sua «visão» da semana. A propósito da demissão da ministra da Administração Interna, respondeu ter-se «dificuldade em compreender como é que Luís Montenegro resistiu tanto tempo a permanecê-la no lugar». Ora, este comentador aparece sempre com um fundo virtual a simular uma biblioteca repleta de livros do chão ao tecto. Reais ou virtuais, não há ali, não pode haver, gramáticas.

[Texto 22 455]

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Léxico: «forint | fillér»

Preparemo-nos


      «Péter Magyar, o adversário político de Viktor Orbán, lançou a campanha para as eleições de 12 de abril um dia depois do primeiro-ministro húngaro, com a aposta no combate à corrupção, na saúde e nos transportes, mas sobretudo com uma mensagem pró-europeia, e que inclui preparar o país para adotar o euro em 2030» («Magyar quer Hungria na moeda única em 2030», C. A., Diário de Notícias, 17.02.2026, p. 23). 

      Ainda falta algum tempo, mas parece-me quase inevitável. Entretanto, podemos e devemos melhorar a definição do nome da unidade monetária e enriquecer a etimologia. Assim, proponho ➔ forint ECONOMIA unidade monetária da Hungria, introduzida em 1946, subdividida em 100 fillér, subunidade entretanto retirada de circulação. 

      Quanto à etimologia, vem do húngaro forint, e este do italiano fiorino, «florim», do latim medieval florenus, «(moeda) de Florença». 

      Ora bem, disseram-no a tempo: isso obriga-nos a dicionarizar também ➔ fillér ECONOMIA antiga subunidade monetária da Hungria, correspondente a 1/100 de um forint, retirada de circulação em 1999. Vem do húngaro fillér, e este do alemão Heller, designação de pequena moeda de baixo valor corrente na Europa Central, originalmente ligada à cidade de Hall (na actual Alemanha).

[Texto 22 454]

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Léxico: «zé-prequeté»

Um zé-ninguém ainda mais obscuro


      «Questão melindrosa é averiguar como um zé-prequeté, o apagado Bolsonaro, aparece em arquivos privativos a chefes de Estado, príncipes europeus e magnatas. Plausível é considerar o neofascismo ascendente não como “onda” nebulosa, e sim como estrutura complexa, embora sem bases materiais delineadas. A ela se ajusta o conceito reflexivo de “máquina” como fluxo de energia produtor de realidade» («Bolsonaro nos arquivos de Epstein», Muniz Sodré, Folha de S. Paulo, 15.02.2026, p. A3).

[Texto 22 453]


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Léxico: «esteroidogénese | esteroidogénico»

Não os deixemos escapar


      «Ao monitorizar a atividade neuronal durante o exercício físico, verificaram também que um grupo específico de células nervosas no hipotálamo ventromedial, denominadas neurónios do fator esteroidogénico 1 (SF-1), eram ativadas quando os animais corriam na passadeira» («Quer saber porque se sente tão bem depois de fazer exercício? A ciência explica», Rádio Renascença, 13.02.2026, 16h05).

[Texto 22 452]
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A ver se nos entendemos

O nome certo


      «Era um “media mujahideen” (combatentes da luta armada pela jihad), descreve o Ministério Público que a partir de uma investigação da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ, em dezembro do ano passado, o acusou de quatro crimes de terrorismo: dois incitamentos e duas glorificações» («Filho de testemunhas de Jeová tornou-se terrorista islâmico em cadeia britânica», Tiago Rodrigues Alves, Jornal de Notícias, 14.02.2026, p. 16). 

      Parece-me que é a primeira vez que me deparo com esta tipificação, que não é a da lei. Há legislação especificamente contra o terrorismo, mas o tipo geral do Código Penal, o artigo 298.º, «Apologia pública de um crime», chega e sobra.

[Texto 22 451]

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Definição: «descarregar»

A mais actual


      «Nas Europeias de 2024, o ex-porta-voz da CNE, Fernando Anastácio, confirmou a receção de uma dezena de queixas de eleitores que chegaram às mesas de voto e o seu nome já tinha sido descarregado dos cadernos eleitorais» («Eleitor “incrédulo” após ser impedido de votar nas Caldas», Alexandra Inácio, Jornal de Notícias, 15.02.2026, p. 27).

      Exactamente, e por isso é que a 10.ª acepção de descarregar, Porto Editora, deve dizer isto: «riscar num rol ou assento ou caderno eleitoral». Tanto mais que, desaparecido o rol da roupa suja (exemplo também de Rebelo Gonçalves), já ninguém sabe exactamente o que é isso de rol. Há roupa suja, até mais que nunca, e lavada fora de casa, mas não há róis nem roleiros.

[Texto 22 450]

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Léxico: «subposição»

Usada por quem precisa dela


      «A partir de 1 de Julho de 2026, a taxa será calculada por categoria distinta de produto, identificada segundo as subposições pautais, o que significa, por exemplo, que uma encomenda com uma blusa de seda e duas de lã passe a ser considerada como contendo duas categorias diferentes e implique o pagamento de seis euros de direitos aduaneiros» («UE acaba com isenção aduaneira nas encomendas até 150 euros e cria taxa de três euros», Público, 11.02.2026, 18h13).

[Texto 22 449]

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Léxico: «toxínico»

Eles querem lá saber


      «As cinco nações europeias exigem, por isso, que “a Rússia preste contas pelas suas reiteradas violações da Convenção sobre as Armas Químicas” e, neste caso concreto, pelo incumprimento da Convenção sobre as Armas Biológicas e Toxínicas» («Aliados europeus acusam Rússia de assassinar Alexei Navalny com veneno de rã», Público, 14.02.2026, 14h24).

[Texto 22 448]

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Léxico: «muro-cortina»

Sobrou das cheias


      Acabei de ouvir na SIC Notícias que a reparação do muro-cortina do quebra-mar do Porto de Leixões danificado pela força do mar vai ter um custo de 20 milhões de euros. Faça cada um a sua parte, sendo a nossa esta ➔ muro-cortina 1. CONSTRUÇÃO CIVIL sistema de fachada exterior não portante, formado por painéis leves fixados à estrutura resistente do edifício, que suporta apenas o seu peso e as acções do vento, assegurando vedação e isolamento; 2. ENGENHARIA PORTUÁRIA parede contínua de contenção, em betão armado ou estacas-pranchas, usada na execução de cais, como no Porto de Leixões.

[Texto 22 447]

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Léxico: «abortagem»

Segunda parte


      «Especialistas em aviação explicam, à CNN Portugal, que, numa descolagem, existe um ponto conhecido como “velocidade de decisão” (V1). Depois desse limite, a margem para interromper o procedimento é reduzida, tornando qualquer abortagem mais exigente do ponto de vista técnico» («“Foi um terror”: Avião para Lisboa trava bruscamente no ar já depois de iniciada a descolagem», Nascer do Sol, 16.02.2026, 17h03). 

      Não está nos nossos dicionários, mas encontro-o, por exemplo, no glossário da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) do Brasil. Mas aqui fica a nossa definição ➔ abortagem AERONÁUTICA interrupção deliberada de uma descolagem após o início da corrida na pista, com aplicação de travagem máxima para imobilizar a aeronave ainda no solo.

[Texto 22 446]

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Léxico: «rotação»

Para o nosso brevê


      «Por volta das 19h12, o aparelho iniciou finalmente a corrida para descolagem. Segundo relatos de passageiros e dados divulgados pela plataforma Flightradar24, o avião percorreu a pista, entrou na fase de rotação — quando o nariz é levantado para iniciar subida — e, instantes depois, abortou a manobra, accionando uma travagem intensa» («“Foi um terror”: Avião para Lisboa trava bruscamente no ar já depois de iniciada a descolagem», Nascer do Sol, 16.02.2026, 17h03). 

      Como não a vejo nos dicionários, proponho ➔ rotação AERONÁUTICA fase da descolagem em que o piloto eleva o nariz da aeronave, fazendo-a rodar em torno do eixo transversal para permitir a saída do solo e o início da subida;  ocorre após a corrida na pista e antecede a fase de ascensão estabilizada.

[Texto 22 445]

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Etimologia: «tiramisu»

Acrescenta alguma coisa


      «O tiramisù da Tiramisusi é uma verdadeira homenagem à tradição italiana: caseiro, feito sempre “come lo fa la mamma” (como a mãe faz) e preparado com ingredientes cuidadosamente selecionados, de produtores locais. A palavra significa “puxa-me para cima” ou “eleva-me” – e é exatamente essa sensação depois de provar esta sobremesa que, ao contrário da maioria, não contém álcool» («Difíceis de resistir, fáceis de pedir: dez doces que pode encomendar nas plataformas de entregas», Margarida Vieira dos Santos, Observador, 15.02.2026, 10h21). 

      É tão certo, que vai servir para completar, melhorar, a nota etimológica do verbete «tiramisu». Assim, proponho ➔ do italiano tiramisù, também grafado tirami su, imperativo de tirare, «puxar; elevar», + pronome átono mi, «me», + advérbio su, «para cima», literalmente «puxa-me para cima», em alusão às supostas propriedades energéticas da sobremesa.

[Texto 22 444]

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Ratoeiro, murador

Será como nos aprouver


      Larry the Cat, o gato do n.º 10 de Downing Street, fez agora 19 anos, quinze dos quais a morar na residência oficial, onde já conheceu seis primeiros-ministros. Foi levado para lá para caçar ratos, o que já tem sido visto a fazer, desmentindo assim o provérbio gato farto não é murador. É, por isso, o Chief Mouser of the Cabinet. Gostaríamos de poder dizer que é o ratoeiro-chefe ou ratoeiro-mor, mas os dicionários não deixam. A língua não deixa. Mas parece que existe em galego, e de certeza que eles afirmarão, convictos e gratos, que o receberam do português. Totalmente dentro da ortodoxia, o que podemos é dizer que Larry é o murador-chefe, ou, mais português e até mais eufónico, murador-mor de Downing Street. A quem tiver umas tinturas de latim, logo lhe ocorrerá o mus, muris, mas está enganado.

[Texto 22 443]

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Léxico: «secretário-adjunto»

Para adjuntar aos outros


      «Em 1971, o Papa São Paulo VI chama-o para servir no Vaticano e nomeou-o secretário-adjunto da Congregação para a Evangelização dos Povos» («Bernardin Gantin, humilde, fiel e grande cardeal», África Gonzaléz, Audácia, Fevereiro de 2026, p. 57).

[Texto 22 442]

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Definição: «dique»

Longe até do mínimo


      Li um bom artigo no Diário de Notícias sobre o que é um dique, e o que posso dizer é que arruma as definições dos nossos dicionários a um cantinho. Assim, proponho ➔ dique ENGENHARIA HIDRÁULICA construção longitudinal, geralmente em terra compactada, enrocamento ou betão, erguida ao longo de rios, estuários, zonas costeiras ou áreas baixas, destinada a conter, desviar ou regular o curso das águas, prevenir inundações e proteger terrenos ou povoações contra cheias e marés; por extensão, qualquer estrutura que sirva de barreira à progressão de líquidos.

[Texto 22 441]

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