Léxico: «interorgânico»

Precisava dele


      «“Embarcámos numa missão para compreender esta comunicação interorgânica entre o rim e o coração”, disse Uta Erdbrügger, professora associada de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, co-autora do estudo. “Descobrimos que há moléculas que comunicam entre o rim e o coração”» («Os cientistas poderão finalmente saber porque é que os doentes renais morrem de doença cardíaca», Allyson Chiu, Público, 3.02.2026, 7h05).

[Texto 22 361]

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Léxico: «tempestade de ferrão»

Este ano, ficamos diplomados


      «A depressão Kristin, com especificidades, com precipitação e vento muito intenso, tem a ver com a geração de uma tempestade de ferrão ou sting jet. Segundo Pedro Matos Soares [especialista em clima], estes sting jet são relativamente raros em Portugal, mas já aconteceram em 2009 e depois em 2018, associado ao furacão Leslie» («Mau tempo. Sequências de tempestades são raras e a culpa é do anticiclone dos Açores», Rádio Renascença, 3.02.2026, 8h57, itálicos meus). Se apareceu, temos de acolher ➜ tempestade de ferrão METEOROLOGIA corrente de vento muito intensa e localizada, associada a alguns ciclones extratropicais em rápida intensificação, que desce de camadas médias da troposfera e atinge a superfície com rajadas extremas; o nome provém da forma em ferrão visível nas imagens de satélite, e o fenómeno, raro mas potencialmente destrutivo, é conhecido internacionalmente por sting jet.

[Texto 22 360]

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Definição: «tragédia»

Falta a origem de tudo


      Pelo que vejo, falta uma acepção de «tragédia» no dicionário da Porto Editora. Onde está a tragédia como peça teatral na Antiguidade? Pois, não está, e devia ser a primeira acepção. Assim, proponho ➜ tragédia 1. LITERATURA peça teatral, geralmente em verso, cuja acção se caracteriza por um tom elevado e culmina num desfecho funesto, despertando sentimentos de piedade e terror; surgiu na Grécia Antiga como forma dramática ligada a personagens nobres ou heróicas, com estrutura frequentemente dividida em cinco actos. 

      Pois, cinco actos, a que correspondem fases como a exposição, o desenvolvimento, o clímax, a peripécia e o desenlace. Estrutura que é retomada muito depois, e já não somente no teatro: estou a pensar, por exemplo, na obra A Morte em Veneza, de Thomas Mann.

[Texto 22 359]

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Definição: «onça»

Façamos a nossa parte


      «O preço do ouro atingiu esta segunda-feira um novo recorde acima dos 5.100 dólares por onça, o equivalente a 28,3 gramas» («Ouro, prata e platina batem novos recordes», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 27.01.2026, 00h01). 

      A minha avó tinha razão ao dizer que o que se faz de noite de dia aparece, querendo significar com isso que há certas tarefas que não se devem fazer à noite, em que se devia estar a dormir, não a trabalhar. Caro Ricardo Vieira, a equivalência apresentada — uma onça = 28,3 gramas — refere‑se à onça avoirdupois, não à onça troy, que é a unidade usada no comércio de metais preciosos e que equivale a 31,103 476 8 g. Também é caso para dizer que os dicionários têm alguma culpa disto, já que não distinguem claramente nem ordenam as acepções pela sua relevância e actualidade. Daí a minha proposta ➜ onça 1. medida de peso de metais preciosos, usada em cotação de ouro, prata e platina, equivalente a 31,103 g (onça troy / onça fina); 2. medida inglesa de peso, usada principalmente nos Estados Unidos e, de forma cada vez mais limitada, no Reino Unido, para produtos comuns; equivale a 28,349 g (onça avoirdupois); 3. peso antigo português, usado até ao século XIX, equivalente à décima sexta parte do arrátel, ou seja, 28,6875 g; 4. antiga moeda espanhola de ouro, cunhada entre os reinados de Filipe III e Fernando VII, com peso próximo de uma onça e valor de 329 reales; 5. antiquado pequeno pacote de tabaco em fio, de peso variável; 6. Cabo Verde medida agrária tradicional, equivalente a cerca de 1.089 m²; 7. figurado coisa de pouco valor, pequena, insignificante.

[Texto 22 358]

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Léxico: «sindicalidade»

Vinda de São Tomé


      «No entanto, [os juízes do Tribunal Constitucional são-tomense] referem que a lei “não consagra uma imunidade absoluta dos actos parlamentares”, mas estabelece “critério material de sindicalidade constitucional”» («TC de São Tomé declara inconstitucional destituição da presidente do Parlamento», Público, 3.02.2026, 16h50).

[Texto 22 357]

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Léxico: «pododermatite»

Então está na hora


      «“Os juízes desembargadores confirmaram que o direito de informar os portugueses sobre as condições nos aviários é um pilar da liberdade de expressão que não deve ser cedido a estratégias de marketing. O acórdão refere factos graves validados pela prova produzida, descrevendo aves criadas com excesso de densidade, utilização de antibióticos e animais com queimaduras e pododermatites por estarem muito tempo em cima das suas fezes”, lê-se no comunicado [da Frente Animal]» («Relação do Porto rejeita recurso do Pingo Doce contra denúncia da Frente Animal», Público, 24.01.2026, 12h45).

      Pobres animais... E pobres falantes, que não encontram nos nossos dicionários ➜ pododermatite VETERINÁRIA inflamação ou lesão infecciosa na pele das patas de animais, em especial aves e roedores, causada por contacto prolongado com substratos húmidos ou sujos, pressão excessiva, fricção ou deficiências nutricionais; manifesta-se por vermelhidão, inchaço, ulceração ou necrose nas zonas plantares.

[Texto 22 356]

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Léxico: «telha lusa» e outras

Temos de falar


      «A Câmara de Famalicão vai enviar, na terça-feira, para os distritos de Leiria e Santarém, mais de oito mil telhas para a reconstrução das habitações afetadas na última semana pela tempestade Kristin, foi hoje divulgado. [...] Posto isto, a Câmara avançou para a aquisição do material – 26 paletes de telha lusa F3 – para a doação» («Famalicão oferece 8.000 telhas aos distritos de Leiria e Santarém», Pedro Gonçalo Costa, O Minho, 2.02.2026, 18h13). 

      Os nossos dicionários estão claramente falhos quanto a tipos de telhas. Há mais, mas vamos concentrar-nos em três: telha lusa, telha de canudo e telha marselhesa (neste caso, a sugestão é apenas de melhoria, dado que a Porto Editora já a acolhe). Assim, proponho ➜ telha lusa s. f. constr. telha cerâmica de origem portuguesa, de perfil recto e pouco ondulado, dotada de sistema de encaixe lateral e longitudinal que assegura o encaixe entre peças, garantindo estanquidade e eficaz escoamento da água; peça robusta, com relevos de vedação nas zonas de engate, destina-se a coberturas com inclinação moderada a acentuada, sendo emblemática da construção tradicional portuguesa. | ➜ telha de canudo, telha mourisca ou telha árabe s. f. constr. telha cerâmica tradicional de forma semicilíndrica, composta por peças curvas justapostas em pares alternados, uma com a concavidade voltada para cima (canal) e outra sobreposta com a concavidade para baixo (cobertura), formando linhas de escoamento; usada em coberturas inclinadas de edifícios históricos ou de arquitectura vernacular, sobretudo no Sul de Portugal, requer fixação com argamassa ou sistema equivalente para garantir estanquidade e resistência ao vento. | ➜ telha marselhesa s. f. constr. telha cerâmica plana e rectangular, dotada de sistema de encaixe lateral e superior que permite o travamento sequencial das peças e a sua fixação directa ao ripado; apresenta perfil com reentrâncias e saliências para condução da água e reforço da estanquidade, sendo leve, de aplicação rápida e produzida industrialmente em vários acabamentos; amplamente usada em coberturas modernas ou reabilitadas, adapta-se bem a telhados de inclinação média a acentuada.

[Texto 22 355]

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Extras! Extras! Extras!

Isto está a melhorar


      «Diretiva de 2016 torna horas extras em trabalho escravo na PSP» (João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 3.02.2026, p. 18).

[Texto 22 354]

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Léxico: «ficar mal na fotografia»

Para os estrangeiros e para nós


      Estou para ver quando levam isto para os dicionários: «Nos casos relatados ontem na imprensa britânica, de mortes que ocorreram no final do ano passado, são os hotéis do grupo Riu na ilha do Sal que ficam mal na fotografia» («Famílias de turistas britânicos mortos por infecção em Cabo Verde recorrem à justiça», Ana Brito, Público, 2.02.2026, p. 39). Agora imaginem um estrangeiro só com umas luzes da nossa língua — daqueles que confundem cozinha com cuzinho — a traduzir a expressão. Mas, quem sabe, talvez nos perguntasse. Teríamos de explicar. You may not have done the crime, but you showed up in the frame, and now you’re the face of the scandal.

[Texto 22 353]

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Definição: «prussianismo»

Mais rigor


      Ainda bem que esta prefaciadora usou, e definiu, a palavra «prussianismo». Aproveitemos nós a lição propondo ➜ prussianismo 1. condição ou característica do que é prussiano; 2. doutrina, atitude ou sistema de valores associados à cultura ou mentalidade prussiana, especialmente no que respeita à disciplina rígida, ao autoritarismo, ao militarismo e à valorização do dever, da ordem, da coragem, do zelo e do trabalho árduo; 3. [por extensão] qualquer forma de organização ou ideologia marcada por autoritarismo, militarismo e culto da autoridade.

[Texto 22 352]

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Fases intermédias (ou de transição) da Lua

Depois das crianças, nós  🌖


      Ontem à tarde, ao ver no meu relógio Huawei que estávamos na fase de minguante convexa (não é a nossa nomenclatura), fui ver como estavam as fases intermédias ou de transição no dicionário da Porto Editora. Não estavam. E não terá sido o vento que as levou, nunca lá estiveram. E, contudo, até em programas infantis da RTP e da SIC se fala nestas fases. Assim, proponho ➜ lua crescente côncava ASTRONOMIA fase entre a lua nova e o quarto crescente, com menos de metade do disco lunar visível iluminado; lua crescente gibosa ASTRONOMIA fase entre o quarto crescente e a lua cheia, com mais de metade do disco lunar visível iluminado. | lua minguante gibosa ASTRONOMIA fase entre a lua cheia e o quarto minguante, com mais de metade do disco lunar visível iluminado; lua minguante côncava ASTRONOMIA fase entre o quarto minguante e a lua nova, com menos de metade do disco lunar visível iluminado.

[Texto 22 351]

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Definição: «bug»

Ai sim? Então toma um contra-exemplo


      Acabei de reportar à Apple um erro muito estúpido — um bug — do iOS. Veremos se o corrigem. Nem precisam de me agradecer. De caminho, tratemos de outro caso: a definição de bug no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Como é meu timbre, não vou limitar-me a dizer que está errada, mas propor a correcção. Está assim: «INFORMÁTICA erro ou falha na execução de um programa, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento». Vamos lá ver, um bug não é apenas na execução. Um bug pode estar no código mesmo que nunca seja executado, ou pode manifestar-se apenas em condições específicas (como era o caso daquele que reportei). Assim, proponho ➜ bug INFORMÁTICA defeito ou erro no código de um programa que resulta em comportamento não intencional, incorrecto ou inesperado, independentemente da sua gravidade ou impacto no funcionamento geral do sistema.

[Texto 22 350]

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Definição: «gorila-das-montanhas»

Só que pode estar melhor


      «The mountain gorillas were already restricted to a handful of forest fragments. Hunting alone caused the Virunga gorilla population to drop from 400-500 individuals in 1960 to 260-290 during Amin's regime» («Gorillas are what we want to be, says Gladys Kalema-Zikusoka», M. Nobinraja, The Hindu, 3.02.2026, p. II). 

      Só esta informação, entre outros dados do artigo, já contribuirá para melhorar a definição de ➜ gorila-das-montanhas ZOOLOGIA (Gorilla beringei beringei) subespécie do gorila-do-oriente que habita florestas montanhosas entre 2200 e 3900 metros de altitude, nas regiões de Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo; distingue-se pela pelagem espessa, negra e comprida, e por viver em grupos familiares coesos; é a mais rara das subespécies de gorila, com uma população inferior a mil indivíduos.

[Texto 22 349]

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AOLP90 ainda por assimilar

Oh, Luís, que desilusão


      «Foi no gabinete de José Guerreiro que alguém abriu a boca e propôs o nome que agora é maldito. Parecia inofensivo, era internacional e ninguém se chatearia. Ao presidente do IPMA pareceu-lhe bem. Ligou aos colegas europeus e todos aprovaram que seria menina a tempestade que os meteorologistas do sul da Europa previram que chegaria mais pujante a Portugal do que a qualquer outro lugar. O “K” não é letra do alfabeto que conheçamos, mas é rabisco obrigatório em quase todo o lado e funcionou como álibi, assim ninguém se chatearia por ter o seu nome associado a uma vingança... mesmo que da natureza» («O pai de Kristin é português», Luís Osório, Diário de Notícias, 3.02.2026, p. 4).

      E é logo um adepto desta ortografia avariada que vem dizer isto, que o k (porquê a maiúscula?) não faz parte do nosso alfabeto. Estude lá bem isto. Não por causa da mudança da grafia, mas da imigração, é ver agora a lista de nomes permitidos do Instituto dos Registos e do Notariado começados por k

[Texto 22 348]

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Léxico: «exame de Montreal»

Está a precisar de MoCA 


      «Trump, de 79 anos, insiste ter obtido resultados “perfeitos” num teste cognitivo “exigente”, a última vez em 2025. O republicano nunca refere o teste pelo nome, mas a descrição dos exercícios de identificação e de ordenação de imagens indicia que será o exame de Montreal, uma ferramenta de diagnóstico de Alzheimer» («De Washington a Bruxelas pergunta-se se Donald Trump está bem», Pedro Guerreiro, Público, 2.02.2026, p. 20). 

      É melhor guardá-lo no sítio certo ➜ exame de Montreal MEDICINA nome comum do Montreal Cognitive Assessment (MoCA), instrumento breve de avaliação criado em 1996 para detectar défices cognitivos ligeiros, especialmente em casos de suspeita de Alzheimer; inclui provas de linguagem, memória, orientação, atenção e funções executivas, como a identificação de imagens, cópia de figuras, repetição de palavras e ordenação de elementos.

[Texto 22 347]

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Léxico: «heterogerido»

Este é da economia


      «“Tratando-se de um organismo de investimento colectivo heterogerido, não dispõe de órgãos sociais, cabendo a sua gestão à entidade gestora (a FundBox)”, indica a CMVM. Ou seja, os gestores da Oeno não são gestores do fundo, não é avaliada a sua idoneidade. A supervisão é feita por via da gestora, a FundBox» («Sociedade autorizada pela CMVM para vender fundo de vinho não suspeitou da Oeno», Diogo Cavaleiro, Público, 1.02.2026, 6h00).

[Texto 22 346]

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Léxico: «comboio [de tempestades, problemas, parvoíces...]»

Fico no próximo apeadeiro


      Anda na boca de muitos, sobretudo de meteorologistas, pelo menos na rádio e na televisão: vem aí, avisavam, um comboio de tempestades: Ingrid, Josef, Kristin, Leonardo... E não é que veio mesmo? Estou tão fartinho desta merda de tempo... mas para onde vou eu? Ainda aqui não tinha trazido esta tão peculiar forma de dizer porque eu próprio tenho tido um comboio de problemas. Ainda estou embarcado.

[Texto 22 345]

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Léxico: «motosserrista»

Já aqui os temos de dentes afiados


      «O Exército, conforme fez questão de revelar em comunicado, tem ainda em prontidão três destacamentos de engenharia, oito módulos de energia, capacidade de mil alojamentos distribuída por 10 unidades militares, 17 equipas de limpeza e desobstrução, dois módulos de alojamento (100 pessoas cada), um módulo de alimentação (para 100 pessoas) e nove equipas de motosserristas» («Protecção Civil só pediu ao Exército ajuda de quatro militares no dia a seguir à tempestade», Helena Pereira, Público, 1.02.2026, 7h01).

[Texto 22 344]

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Irritações: véspera e dia anterior

Esta deixa-me doente


      Não sei se já disse isto nos vinte anos de blogue, mas, como todos os dias nascem tradutores, não fará mal, pelo contrário: por favor, não escrevam tantas vezes «no dia anterior». De certeza que conhecem, já ouviram da boca de pais, avós (mas devia ser «avôs), vizinhos, a palavra «véspera». Usem-na.

[Texto 22 343]

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Léxico: «matemático»

Imitemo-los


      «“É um estilo de Papa completamente diferente do Papa Francisco”, afirma, explicando que Bergoglio era um Papa “discursivo”, “emotivo” e “efusivo” – enquanto Prevost, “um Papa americano”, é “muito racional”, com “ideias muito organizadas” e “mais matemático”. Leão XIV é para o Presidente da República “uma pessoa superiormente inteligente”, mas “fala curto” e, por isso mesmo, Marcelo preparou uma intervenção que se compatibilizasse com tal estilo. Foram 25 minutos a sós, na Biblioteca privada papal, situada no segundo piso do Palácio Apostólico» («O Papa americano, “mais matemático”, recebeu convite para Fátima em 2027», João Maldonado, Rádio Renascença, 2.02.2026, 15h08). Curto foi, desta vez, o nosso quase, quase ex-presidente, que não explicou o que pretendia dizer com aquele «matemático». A não ser que a curteza se deva toda, não ao PR, mas ao enviado especial da RR. Seja como for, certo é que há dicionários que atribuem — e bem! — mais acepções a «matemático».

[Texto 22 342]

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Léxico: «vale depressionário»

Temos de aprender


      João Santos, climatologista e investigador da UTAD, foi à televisão falar destas tempestades que têm arrasado o País. Entre outras coisas, falou em ➜ vale depressionário METEOROLOGIA configuração alongada de baixa pressão atmosférica, delimitada por isóbaras que se estendem a partir de uma depressão principal e apresentam um eixo de mínimos relativos de pressão; corresponde tecnicamente ao cavado, sendo a designação comum em contextos de divulgação ou previsão meteorológica.

[Texto 22 341]

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Léxico: «acenar»

Helen nodded


      «A mulher acenou a cabeça, acenou a cabeça, decerto a dizer-me “está bem”» (Estrela Polar, Vergílio Ferreira. Lisboa: Portugália Editora, 1967, p. 172). É simplesmente inacreditável o número de acepções do verbo acenar — sim, como esta do excerto que cito — que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe.

[Texto 22 340]

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Léxico: «treponematose»

Então, aqui to envio


      «Les bactéries de l’espèce Treponema pallidum sont responsables de maladies appelées “tréponématoses”, qui diffèrent selon la sous-espèce à laquelle elles appartiennent. Ainsi, T. pallidum pallidum est responsable de la syphilis, alors qu’endemicum est la cause du bejel et pertenue du pian. La pinta, une maladie tropicale chronique de la peau, rare et négligée, est intégrée dans la catégorie clinique des tréponématoses. Son agent pathogène, T. carateum, ressemble à T. pallidum mais son génome n’a pas encore été déterminé» («La syphilis aux Amériques, une vieille histoire», Aurélie Coulon, Le Temps, 24.01.2026, p. 22). Porque ouvi dizer, Porto Editora, que a procuras ➜ treponematose MEDICINA qualquer de várias infecções crónicas provocadas por bactérias do género Treponema, geralmente transmitidas por contacto directo (sexual ou não), caracterizadas por lesões cutâneas e ósseas, evolução lenta e distribuição geográfica diferenciada; incluem a sífilis, o bejel, a pinta e a framboesia.

[Texto 22 339]

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Pronúncia: «chanceler»

Mas que raio...


      Então, lá vou ter de dizer isto mais uma vez: o que se passa para que muitos dos nossos jornalistas não saibam pronunciar correctamente a palavra «chanceler»? A última vez que sofreu uma sonora silabada foi pela boca da jornalista Sandra Sousa, no Jornal 2, da RTP2, na segunda-feira da semana passada. Mas qual é a dificuldade? E não ouvem os outros falantes?

[Texto 22 338]

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Irritações: o arenito das traduções

Pois, muita areia


      Eu só queria notas de 500 euros (pois, também não posso contentar-me com notas de 10 ou 20) como as vezes que já li, em traduções do inglês americano, referências a casas, degraus ou qualquer outro elemento arquitectónico de arenito. O brownstone transforma-se invariavelmente em «arenito castanho», quando não «arenito amarelo», como se a cor da pedra fosse mais importante do que o edifício inteiro. E, no entanto, nem é castanho nem amarelo: o brownstone original tem uma tonalidade indefinida, entre o avermelhado e o terroso (reddish-brown, como dizem os dicionários) e o que importa, verdadeiramente, não é a cor, mas o tipo de edifício que esse termo designa. Brownstone não é a pedra nem a cor: é o nome dado a um tipo de prédio urbano nova-iorquino, típico do século XIX, com fachadas revestidas de arenito (sempre aparece!) e uma escadaria frontal, o stoop, que conduz ao andar principal, elevado em relação à rua. Traduzir isso por «degraus de arenito castanho» é não perceber nem a arquitectura, nem a língua, nem o efeito pretendido na narrativa. Mas retomo o início e reformulo-o: não era notas que eu queria, mas anos com saúde. Enquanto fui imortal, não pensava assim, mas agora a história é outra.

[Texto 22 337]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Lá te esqueceste, Porto Editora, de dicionarizar «grafémico» e «grafofonémico», que aqui propus no passado dia 29. Só neste blogue andam vai para quinze anos. Já merecem ascender ao Olimpo.


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Definição: «camião-grua»

É claro que não é isso


      «Ao que o JN apurou, o homem estaria a mudar um pneu de um camião-grua quando este rebentou, atingindo-o e projetando-o. A GNR tomou conta da ocorrência» («Homem morre após rebentamento de pneu», M. F., Jornal de Notícias, 30.01.2026, p. 44).

      A Porto Editora está convencida, e di-lo no Dicionário da Língua Portuguesa, de que tal veículo é um «camião que transporta uma grua». Está enganada: eu, e decerto a maioria dos leitores, já vi gruas em cima de camiões, e o conjunto não é um camião-grua. Evidentemente. É isto um ➜ camião-grua camião dotado de uma grua hidráulica incorporada, geralmente articulada, destinado ao içamento e movimentação de cargas pesadas, sendo utilizado em operações de carga e descarga, montagem ou apoio a trabalhos de construção, manutenção e instalação.

[Texto 22 336]

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Confusões: «undercut/uppercut»

Só ao murro


      Claro que os desconchavos se encontram em jornais de outros países e línguas: «Con el cadáver aún caliente de la ciudadana Renee Nicole Good, acribillada a tiros por uno de sus agentes, Bovino irrumpió en las calles de Mineápolis con su corte de pelo uppercut a la moda de los años 30 y esa prenda, de verde oliva, charreteras y doble fila de botones dorados, retrotrae a las fotografías de los militares nazis de las SS llevando su offiziersmantel, de un corte similar pero en cuero negro» («Bovino: el abrigo como símbolo de autoritarismo», Alberto Rojas, El Mundo, 27.01.2026, p. 27).

      A confusão aqui é com undercut, que é um estilo de corte de cabelo associado ao período entreguerras e bastante popular nos anos 1930, até entre os militares (tanto nazis como soviéticos), caracterizado pelos lados rapados e no cimo da cabeça mais comprido. Esta acepção não estar nos dicionários bilingues só contribui para haver mais gente a dizer disparates como este, que já encontrei mais de uma vez. Bastava dizer ➜ undercut corte em que o cabelo é deixado comprido no topo da cabeça, enquanto os lados e a nuca são rapados ou cortados rentes.

[Texto 22 335]

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Etimologia: «classe»

Aprofunde-se mais


      «La SNCF a récemment lancé une classe de TGV où les enfants ne sont pas admis. Le mot vient de classis, qui signifie “appel” (d’une génération pour servir dans l’armée). Il a ensuite désigné une catégorie» («Classe», Étienne de Montety, Le Figaro, 28.01.2026, p. 37). Só isto já é mais do que dizem os nossos dicionários sobre a etimologia do vocábulo «classe», mas podemos aprofundar ainda mais assim ➜ do latim classis, -is, originalmente «chamada (para o serviço militar)», passando a designar cada uma das categorias censitárias em que se dividiam os cidadãos romanos, e por extensão «divisão; categoria; grupo», incluindo também o sentido de «esquadra naval».

[Texto 22 334]

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Léxico: «língua balística»

Tratemos do caso


      «Uma nova espécie de anfíbio do Jurássico foi identificada em Portugal, na Lourinhã, em fósseis com 150 milhões de anos, numa investigação do paleontólogo Alexandre Guillaume. Como o material usado para descrever a nova espécie foi encontrado com a ajuda de um projeto de Ciência Cidadã, no Parque dos Dinossauros de Lourinhã e no museu, os investigadores escolheram o nome de ‘Nabia civiscientrix’. Tinha menos cinco centímetros e um sistema de alimentação com língua balística semelhante ao dos camaleões modernos» («Nova espécie de anfíbio do Jurássico na Lourinhã», Correio da Manhã, 27.01.2026, p. 23).

      Pelos dicionários, o falante não chega à compreensão de ➜ língua balística ZOOLOGIA tipo de língua protráctil que, graças a uma rápida acumulação e libertação de energia elástica, pode ser projectada com grande velocidade e precisão para capturar presas, como ocorre em camaleões e certas espécies de anfíbios.

[Texto 22 333]


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Definição: «vórtice polar»

E eles têm razão

      

      Não posso esconder que estou estupefacto que a Porto Editora continue a definir «vórtice polar» como «ciclone (centro de baixa pressão atmosférica) persistente localizado junto a um dos pólos de um planeta» quando no Meteored, por exemplo, o definem como «uma vasta zona de baixa pressão, cheia de ar frio, que gira no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio em torno do pólo norte, tanto na troposfera (a atmosfera inferior) como na estratosfera (a altitudes mais elevadas, entre 10 e 50 km). Em condições normais, durante o inverno boreal, este vórtice mantém-se compacto e confina o ar frio do Ártico às latitudes polares, favorecendo um clima mais temperado nas latitudes médias, como a Europa». Ainda assim, proponho esta definição ➜ vórtice polar METEOROLOGIA zona ciclónica de grande escala e baixa pressão atmosférica, centrada sobre o Árctico ou a Antárctida, caracterizada por ventos intensos em circulação retrógrada que confinam o ar frio às regiões polares; quando enfraquece, permite a deslocação de massas de ar muito frio para latitudes mais baixas.

[Texto 22 332]

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Léxico: «suavizar-se»

Também pronominal


      «Fácil coisa é dominar a imaginação de uma noviça. Bastam a comovê-la vivamente a poesia e majestade do culto católico; depois a religião suaviza-se-lhe, rodeando-a de poderosos atractivos; uma cândida vaidade, certas porfias piedosas, prefiguram-lhe nas perspectivas do Céu um trono a conquistar» (A Freira no Subterrâneo, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Marujo Editora, 1986, p. 58). O verbo suavizar, Porto Editora, não é apenas transitivo, sabes isso. Sabes? Tens de o dizer.

[Texto 22 331]

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Irritações: «soar»

Porque não é tradutor

      «“You are?” Bob’s voice sounded surprised.» Se não é tradutor, caro leitor, de certeza que não verteu aquele «sounded» por «soou». Parabéns, é menos uma criatura, que me parecem, e são, demasiadas, que me enfurece com essa maneira tolinha de traduzir. Sim, tem razão, há alternativas, e entre elas estão, no contexto, «mostrar-se» ou «parecer».
[Texto 22 330]
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Léxico: «tribunais: singular, colectivo, de júri»

Alguma sistematização


      «Os factos imputados aos polícias poderiam determinar a competência de um tribunal coletivo (três juízes). Contudo, atendendo à ausência de antecedentes criminais dos arguidos e à pena previsível não superior a cinco anos, o Ministério Público requereu que o julgamento seja feito por tribunal singular» («Arguidos julgados por um só juiz», César Castro, Jornal de Notícias, 31.01.2026, p. 20). 

      Não está tudo nos dicionários, nem nos sítios certos. O dicionário da Porto Editora, por exemplo, em «tribunal» só tem «tribunal colectivo»; o singular nunca lá esteve e o de júri mudou-se para o verbete «júri». Ora, todos ganhávamos que houvesse sistematização: se se trata de três tipos de tribunal, parece-me que será o primeiro verbete que ocorre ao falante. Assim, proponho ➜ tribunal singular DIREITO órgão jurisdicional de primeira instância composto por um único juiz, competente para julgar, em regra, processos de menor gravidade penal que não estejam legalmente atribuídos a tribunal colectivo ou tribunal do júri. E depois ➜ tribunal colectivo DIREITO órgão jurisdicional de primeira instância composto por três juízes (um presidente e dois vogais), competente para julgar, em regra, processos penais de maior gravidade legalmente excluídos da competência do tribunal singular. E, por fim, ➜ tribunal de júri DIREITO órgão jurisdicional de primeira instância composto por três juízes de carreira e um júri de cidadãos seleccionados por sorteio, competente para julgar certos crimes graves a pedido do Ministério Público, do assistente ou do arguido, cabendo aos jurados decidir sobre a matéria de facto e aos juízes sobre a qualificação jurídica e a medida da pena.

[Texto 22 329]

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Léxico: «custos de contexto»

Falta o menos óbvio


      Ainda agora, na TSF, no compacto de Contas Que Contam, de Nuno Correia da Silva, estavam a falar em ➜ custos de contexto ECONOMIA encargos suportados por empresas ou agentes económicos devido a factores externos ao seu controlo directo, como burocracia, carga fiscal complexa, ineficiência dos serviços públicos ou instabilidade jurídica, que dificultam a actividade económica e afectam a competitividade e o investimento. 

      Parece-me que carece muito mais de ter lugar nos dicionários do que o auto-explicativo «custo de vida», que está lá há muito.

[Texto 22 328]


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Léxico: «marcador»

Vamos outra vez ao médico


      «What do you mean, markers?» Pois, mas a médica, ou não estava para aí virada, ou achava que não era paga para explicar. Ou teria de cobrar por horas extras. Ora, a Porto Editora também não explica isto. Sendo assim, proponho ➜ marcador MEDICINA cada um dos antigénios de histocompatibilidade (HLA) presentes à superfície das células de um indivíduo, usados para avaliar a compatibilidade imunológica entre dador e receptor em transplantes.

[Texto 22 327]


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Como se escreve por aí

Só para confirmar


      Tudo estranho, neste título, da gralha à escolha de vocabulário: «Porto sediará evento supremacisto branco com figuras da extrema-direita» (Amanda Lima, Diário de Notícias, 30.01.2026, p. 16). Portanto, continua tudo na mesma, mas, como andam muito folgados, vamos passar a andar de novo mais em cima deles.

[Texto 22 326]


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Definição: «credencial»

Vamos ao médico


      Passei metade de vida a ouvir falar em credenciais passadas por este ou aquele médico. Para meu espanto, não é acepção que se encontre nos dicionários. Sendo assim, proponho ➜ credencial documento emitido por médico do Serviço Nacional de Saúde que autoriza um utente a realizar consultas, exames ou tratamentos em prestadores convencionados, servindo de requisição formal no âmbito dos acordos com o SNS.

[Texto 22 325]


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Definição: «hélio»

Actualizemos os usos


      «Helium is famous for making balloons float, voices squeak, and as a critical resource for MRI machines and aerospace engineering. Helium is expensive and scarce, finding leaks quickly is essential, but that’s easier said than done because helium is also chemically inert and sensors, which usually rely on chemical reactors, have a tough time detecting it» («Study detects elusive helium gas leaks with sound waves», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 29.01.2026, p. II). 

      Bem podemos, perante estes exemplos, actualizar e ampliar os usos do hélio. Assim, proponho ➜ hélio QUÍMICA elemento químico gasoso, incolor, inodoro e quimicamente inerte, com o número atómico 2 e o símbolo He, pertencente à família dos gases nobres; usado em criogenia (nomeadamente na refrigeração de ímanes supercondutores), no enchimento de balões e dirigíveis, em aparelhos de respiração para mergulho ou uso médico (como diluente do oxigénio), na detecção de fugas por espectrometria de massa, em processos industriais como a soldadura, na cromatografia de gases, em aplicações aeroespaciais e na investigação científica de fenómenos quânticos a baixíssimas temperaturas.

[Texto 22 324]


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