Selecção vocabular

No talho com o Correio da Manhã


      «Além de receberem gado suíno, caprino e ovino, os dois primos geriam o negócio onde eram abatidos e desmembrados os animais, vendendo depois a carne a particulares e a estabelecimentos» («Gado roubado em matadouro», Miguel Curado, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 22).
      Claro que os sentidos se alargam, mas desmembrar era, inicialmente, apenas privar de seus membros, separar ou cortar os membros de um animal. E esquartejar, um sinónimo que logo nos acode à memória, é, também inicialmente, apenas cortar em quartos. Nunca ouvi nenhum talhante usar outra palavra que não «desmanchar». Consulto o respectivo verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vejo? Que desmanchar é «esquartejar (animais domésticos) para lhes aproveitar a carne». Uma vaca é um animal doméstico?

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Pontuação

Pelo contrário


      Fala-se da ausência do presidente da República nas cerimónias fúnebres de Saramago, e, abruptamente, isto: «O estilo ausente de pontuação, escrita ritmada como se fosse pensamento, nunca me maravilharam» («Todos os nomes menos Cavaco», Marta Rebelo, Diário de Notícias, 29.06.2010, p. 71).
      Eu queria ter boa vontade e ver naquela «pontuação» um sentido restrito, mas nem os dicionários nem o uso mo permitem: pontuação é, e cito a definição do Dicionário Houaiss, «na língua escrita, sistema de sinais gráficos que indicam separação entre unidades significativas para tornar mais claros o texto e a frase, pausas, entonações, etc. (p. ex., ponto, vírgula, ponto e vírgula, ponto de interrogação, etc.)». Em Saramago não falta pontuação, e, descontando a heterodoxia, toda correcta, que dá gosto. Há quem diga, e isso eu vejo também, que é escrita ritmada como se fosse oralidade, não pensamento. E finalmente: só com grandes malabarismos nos arranjamos para justificar a forma verbal «maravilharam».

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Como se escreve nos jornais

Abrir o bico


      Ainda as cinzas de José Saramago não arrefeceram, e já se lêem textos de um mau gosto inaudito, como este publicado ontem no Correio da Manhã: «Resta anunciar a data de inauguração do novo lugar de peregrinação. Espera-se que seja numa altura em que não haja desculpas para ausências pecaminosas. É preciso mostrar ao mundo que esta Pátria pobre, socialista, ridícula e patética é a maior na arte de fazer bicos. De pé ou de joelhos» («Festival de bicos», António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 56).
      Também eu, se é que isso interessa, não simpatizava muito com o escritor, mas escrever desta forma a respeito do monumento que a Câmara Municipal de Lisboa (e é de supor que não tenha sido coagida a isso) pretende erigir em frente da sede da Fundação José Saramago não me parece menos que indigno. Resta-me a, paradoxal, tendo em conta o que venho fazendo aqui desde há cinco anos, satisfação de nem 10 % dos muitos leitores do Correio da Manhã saberem que bicos, na acepção insinuada nas posições, «de pé ou de joelhos», significa o que significa.

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Ortografia: «fait-divers»

Variedades


      «O candidato presidencial Fernando Nobre considerou ontem que a “colagem” da sua candidatura a Mário Soares é apenas um “fait diver” criado por quem não quer “discutir propostas sérias para o País”, recordando que não pediu qualquer apoio» («“Colagem a Mário Soares é fait diver”», Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 36).
      Num tempo de inglesismos, os francesismos vão sendo quase completamente desconhecidos. Quase: resta, numa escrita oralizante, o que o ouvido reteve, por vezes pouco. O hífen foi-se, e só falta afeiçoar o fait: fé. Fé diver.

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Tradução: «balanced meals»

Balanços


      «Em 2005, uma das grandes cruzadas empreendidas pelo célebre chef inglês Jamie Oliver foi justamente a reforma no sistema de alimentação praticado nas escolas britânicas. O objectivo propagado era precisamente o de substituir os alimentos industrializados e a comida fast food por refeições balanceadas, naturais e ricas em verdura e fibras» («A revolução de Jamie Oliver nas escolas da Inglaterra», Nysse Arruda, Diário de Notícias, 28.06.2010, p. 59).
      Nós não dizemos «refeições balanceadas», mas «equilibradas». O nome da jornalista, porém, deu-me a pista. O Dicionário Houaiss regista no verbete «balanceado»: «que tem elementos nutritivos bem equilibrados (diz-se da alimentação ou do alimento). Ex.: ração bAqui, leio que Nysse Arruda é uma «jornalista brasileira radicada em Lisboa». Das duas acepções de «radicado», é claro que foi usada a que significa «domiciliado», porque a que significa «enraizado, arraigado» não era adequada no contexto. É, adaptado, é certo, um anglicismo: balanced; well-balanced. Como em balanced diet, dieta equilibrada. É também um problema de revisão.

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Acordo Ortográfico

Na redacção


      Em conversa, sempre frustrante, com outro revisor, violenta, absurda e ignorantemente contra o novo acordo ortográfico, falou-se do Correio da Manhã e da única coluna que este jornal publica segundo as novas regras ortográficas, a crónica, «Blog», de Francisco José Viegas. «O gajo é muito esperto, muito habilidoso: arranja maneira de nunca usar uma palavra que seja afectada pelas novas regras», afirmou o outro revisor. Tive de concordar que, tanto quanto eu via, mas não conheço bem esses textos, a afirmação não era excessiva, mas já quanto à habilidade tive de dizer que não me parecia tal: com um corrector ortográfico é muito fácil fazer a triagem. Agora estive a ler as últimas seis crónicas de FJV e posso afirmar que, neste conjunto de textos, apenas cinco vocábulos foram convertidos: projeto, otimismo, otimistas, hão de e perspetivas. Pequeno sacrifício, mesmo para quem fosse contra.

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Sobre «ensalmo»

Com que se pretende


      Veja-se a definição de «ensalmo» nuns quantos dicionários. Os habituais. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, ensalmos são «orações e benzeduras com que se pretende curar uma doença». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, são «rezas e benzeduras para curar males ou fazer malefícios». Estão a ver a diferença? «Com que se pretende curar uma doença», diz um; «para curar uma doença», diz o outro. É claro que foi um céptico, ou alguém muito novo, a redigir o verbete do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Já experimentei os efeitos — inexplicáveis, talvez, mas benéficos — de um ensalmo («Jesus, santo nome de Jesus./Credo em cruz./P’ra tudo o apliquei,/Sapo, sapão, cobra, cobralhão,/Bicho de toda a nação.») dito por uma tia de meu pai quando apanhei uma insolação de caixão à cova. Efeitos quase imediatos — sem que a ciência tivesse tempo de se opor.
      A definição mais explicativa é, mais uma vez, a do Dicionário Houaiss. Começa-se por saber que ensalmo é a «reza extraída do Livro dos Salmos e usada para curar». Por derivação, é «a prática de cura por meio de reza(s), feitiço(s) e benzedura(s)».
      O Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) também alinha pela hodierna atitude cientificista, e define ensalmo como «modo supersticioso de curar con oraciones y aplicación empírica de varias medicinas». Oxalá o redactor do verbete nunca apanhe uma insolação.

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Léxico: «palmado»

Semelhante apenas


      Lembram-se da «communauté de castors»? «De facto», disse-me então o editor, «a imagem provida pela expressão “comunidade de autoconstrutores” é mais forte e passível de desencadear mais curiosidade e discussão do que a provavelmente já conhecida “comunidade de castores”. A metáfora não ficaria mal de todo, mas pessoalmente acho mais fascinante remeter o leitor para uma cena de um grupo de índios da Meia Praia do que um facto da vida natural que, mais tarde ou mais cedo, irão ver num programa do National Geographic.»
      Na edição de ontem do Diário de Notícias, foi publicado o artigo «Os grandes construtores de barragens» (p. 68), da jornalista Mariana Correia de Barros. O início do texto é sobre a descoberta, o que eu já tinha lido noutros dois jornais há semanas, de uma represa gigantesca, com 850 metros, numa reserva do Canadá. Represa/dique/barragem (ocorrem os três vocábulos no texto) construída por castores. «Além das barragens, constroem as suas próprias tocas, “autênticas cabanas” e canais que usam para transportar os materiais mais pesados”. “Com os dentes, conseguem derrubar árvores, não só para comerem as raízes, como também para se usar os troncos na construção”» (As citações são de Nuno Leitão, engenheiro florestal.) Mas «as megaconstruções» (a palavra tinha de ser usada) «só são possíveis em países como o Canadá, onde o castor é símbolo nacional». Em Portugal, está extinto desde a Idade Média.
      A infografia, primorosa como sempre, revela dados interessantes sobre o castor. Contudo, sobre os membros, lê-se: «Os castores têm as patas traseiras palmeadas e os dedos unidos por uma membrana.» Mas palmeado, tanto quanto vejo, é o «que se acompanha com palmas». Uma dança, por exemplo. No campo da anatomia zoológica, da porção distal larga e lobada, lembrando a palma da mão aberta e com os dedos estendidos, diz-se que é palmada. Gralha, dir-se-á, mas não, apesar de também se ler que «o castor procede a concertos e amplia a toca continuamente». Não, não: para mim, a jornalista terá tido acesso a informações em língua inglês, na qual «patas palmadas» se diz «webbeb feet». Ao pesquisar, terá encontrado a tradução espanhola: «patas palmeadas». E está certo: nesta língua, palmeado é o que tem a forma de palma; e, mais especificamente, em zoologia diz-se dos dedos de alguns animais, ligados entre si por uma membrana. El castor. Mamífero roedor, de cuerpo grueso, que llega a tener 65 cm de largo, cubierto de pelo castaño muy fino, con patas cortas, pies con cinco dedos palmeados, y cola aplastada, oval y escamosa.

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Léxico: «sobreparto»

Falas bem, pá


      Por vezes, é preciso ler Cervantes para conhecer melhor a nossa língua. Palavra de cunho médico, e sólida, com entrada no português no dealbar do século XVII, puerpério é vocábulo um tudo-nada rebarbativo, e, lançado assim em volta, pode provocar olhares compassivos e repassados de ignorância. Cervantes pôs uma ciganita adolescente a dizer, o que era mais verosímil, «sobreparto». «—¡Plega a Dios que no muera de sobreparto! —dijo Preciosa.» Queira Deus que não venha agora um médico estraga-prazeres (ou um medicastro estraga-albardas) dizer-nos que «puerpério» e «sobreparto» não são a mesma coisa.

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Tradução: «gabacho»

Em que se fala de bócio


      «Dizem que somos como os gibões dos franciús de Belmonte: rotos e sebentos, mas cheios de dobrões», escreveu Cervantes. No nosso Belmonte também há franciús. Pelo menos vêem-se agora no Verão muitas matrículas francesas e, durante todo o ano, as estranhas vivendas que os esperam quando estiverem na «retrete». Mas esqueçamos agora a Cova da Beira.
      «Gabachos de Belmonte», está no original. Na página 94 dos Gentilicos Españoles, de Tomás de la Torre Aparicio (Madrid: Editorial Vision Net, 2007), lê-se que gabacho (e belmonteño e belmontino, mas estes não interessam ao caso) é gentílico de Belmonte, província de Cuenca. Contudo, os gabachos são de Belmonte del Tajo, na província de Madrid. Quando os caldeireiros gabachos, isto é, franceses, passavam por Belmonte de regresso a França, o marquês de Villena obrigava-os a mudar de roupa para chegarem decentemente vestidos à sua pátria. Entre as vestimentas estariam, muitas vezes, gibões, nos quais tinham ocultado, ao longo do seu trajecto por terras de Espanha, o dinheiro que iam ganhando. E o espertalhão do marquês ficava-lhes com o dinheiro. No caso, dobrões, ou seja, moedas que tinham os bustos, um em cada face, dos Reis Católicos. Doblón, dobrão, porque dobrava, duplicava, o valor do ducado.
      Gabacho era um termo pejorativo, sobretudo depois das guerras com França. Deriva do occitano gavach, «papo de ave» (o que é, como seria de esperar, mais do que controverso), referência ao bócio (difuso, no caso) de que sofriam muitos montanheses occitanos. (Sabe-se da enorme prevalência de bócio entre, por exemplo, os Suíços. Já o historiador romano Juvenal, a caminho da Gália, observara que muitos habitantes dos Alpes sofriam de guttur, bócio.)
      Na anterior edição do Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora, de Julio Martinez Almoyna, no verbete respectivo lia-se «francês» e não, como na última edição, coordenada por Álvaro Iriarte Sanromán, «franciú».

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Tradução

De Lançarote, em portunhol


      Maria Flor Pedroso foi a enviada especial da Antena 1 a Lanzarote logo depois de ter sido anunciada a morte de José Saramago. Em Tías, cruzou-se com Xavier Muñoz, que é o responsável da Biblioteca José Saramago. Quer dizer, Xavier é o que escreveu a jornalista, na verdade é Javier. Adiante. «Chegou a Saramago porque é informático. “José precisava de um informático e chamou-me. Assim. Simples... e depois disso, ‘mira’ um montão de anos’. Xavier, uma espécie de homem duplicado para o escritor. Foi por causa do romance, em 2001, que Xavier se encontrou com José, como lhe chama, e que “te posso dizer, como informático, José era muito adiantado no computador. Muito mais do que Pilar. Até ia à net quando tinha dúvidas sobre o acordo ortográfico”» («Don José de Lanzarote parou todos os relógios às quatro da tarde», Maria Flor Pedroso, i, 21.06.2010, p. 17).
      Saramago era adelantado, perdão, «adiantado no computador»? Ou seria «avançado»? E dizemos montón, perdão, «montão de anos» ou «monte de anos»? «Mira», vírgula. Na rádio, isto devia ser muito engraçado.

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Profe/profes

Retrocesso


      «Professores da região de Lisboa, Algarve e Santarém foram aconselhados a não usar havaianas, calções de praia, decotes e sapatos de salto alto durante os exames nacionais» («‘Profs’ aconselhados a não usar chinelos», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 23.06.2010, p. 14).
      No dia 1 de Março deste ano, dei aqui conta da que se pode considerar a melhor grafia desta redução — profe/profes —, e a fonte era o mesmíssimo Diário de Notícias. Entretanto, esqueceram-se. À conta disso, vejam como a grafaram: ‘profs’.
      Nos livros verifica-se o mesmo: «Meteram-me numa cadeira, depois apareceu um prof e Speedicut fez jus ao seu nome, dando às de vila-diogo» (Flashman — A Odisseia de Um Cobarde, George MacDonald Fraser. Tradução de Susana Serrão e revisão de Sofia Dias. Parede: Saída de Emergência, 2010, p. 18).

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Tradução: «discreto»

Na corte


      Tinha de encontrar a melhor tradução para o vocábulo espanhol discreto — conselheiro, confidente de reis, cortesão? Talvez esta seja a mais adequada. Curioso é que nem sequer o Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) regista esta acepção. Regista outra próxima: «En algunas comunidades, persona elegida para asistir al superior como consiliario en el gobierno de la comunidad.» Comunidades religiosas, pois. E na corte? De qualquer modo, importa também realçar que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista uma acepção de «discreto» próxima desta: «Religioso de uma ordem que a representa no capítulo geral.» (Relacionado, regista «discretório».) Nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário Houaiss registam esta acepção.

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Sobre «radiofarol»

Sem luz


      «Não houve nem falsos radiofaróis atraindo enganadoramente para o desastre o avião, nem mísseis prontos a destruí-lo, nem “uma longa mão” dos serviços secretos sul-africanos, ou soviéticos, ou mesmo moçambicanos» («O mistério continua», Luísa Meireles, Actual/Expresso, 15.05.2010, p. 14).
      O Dicionário Houaiss define radiofarol como o «equipamento que emite determinados sinais de rádio para orientação do navegante»; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, como a «estação emissora de ondas radioeléctricas que permite a um navio ou a um avião determinar a sua posição e seguir na rota prevista»; o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como a «estação fixa de rádio, de emissão temporária ou permanente, cujos sinais, captados a bordo de uma aeronave, permitem determinar a sua posição». Esta última definição parece-me dúbia. Quanto à definição do Dicionário Houaiss, creio que seria melhor ter optado pelo termo «navegador» em vez de «navegante». A definição constante do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é (mas gostaria de conhecer a opinião de quem sabe destas questões, como Paulo Araujo) lapidar.

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Tradução e legendagem

A solução fonética


      «A trama policial adensa-se e o detective diz que o criminoso se esconde em casa do Capitão Tibes, que nem faz parte da história. Afinal, o foragido buscou refúgio no sul de França. Em Cap d’Antibes, para ser mais preciso... Conclusão: não sabes traduzir, inventa. Os exemplos da solução fonética do ‘chuta e segue em frente’ são mais que muitos na nossa TV, e há quem diga que, se a dobragem não resolve a questão, pelo menos disfarça-a» («Telecomando», José Alves Mendes, Actual/Expresso, 15.05.2010, p. 34).
      E quem é que quer a questão — a incompetência, deveria ter escrito José Alves Mendes — disfarçada? A legendagem ainda permite, pelo menos a alguns de nós, comprovar e denunciar mais facilmente até que ponto o tradutor é incompetente.

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«Carro eléctrico»

Veremos, se cá estivermos


      Em comunicação pessoal, afirma Fernando Venâncio: «O carro eléctrico (o utilitário) vai tendo a mesma designação que o carro eléctrico (o transporte público). Quanto tempo poderemos (ou deveremos) aguentar essa sobreposição semântica?»
      O que penso, e respondi, é que o meio de propulsão não tem interferido, até hoje, na designação do veículo que continuamos a conhecer como «automóvel». Assim, posso estar enganado, mas nunca nos iremos referir ao automóvel movido a electricidade como «eléctrico», ficando assim a designação reservada para o veículo de transporte urbano de passageiros movido a electricidade, sobre carris de ferro. Afinal, ninguém diz «vou a Sintra no meu gêpêele (GPL)».
      Fernando Venâncio contrapõe: «De momento, lê-se (e, infiro, ouve-se) carro eléctrico, por extenso, para o automóvel. Já nisso há uma sobreposição.»
      Sobreposição semântica parcial será, pois o que eu ouço e leio é «eléctrico» para o transporte público. «Carro eléctrico» para designar este é de rara ocorrência na oralidade, e na escrita somente em casos mais formais, como «Museu do Carro Eléctrico».
      «A Siemens vai produzir sistemas de carregamento para veículos eléctricos a instalar nas habitações, no âmbito do programa de mobilidade eléctrica (MOBI.E) que está a ser desenvolvido pelo Governo, anunciou ontem o presidente do grupo em Portugal» («Carros eléctricos carregados em casa», Diário de Notícias, 15.05.2010, p. 47).
      O que pensam os meus leitores desta questão?

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Sobre «hábito»

Mas nem sempre


      Nunca pensamos na palavra «hábito» como significando, não a indumentária de um religioso (ou religiosa), mas a insígnia, o distintivo de uma ordem religiosa ou militar — ou religiosa militar, como a de Calatrava, por exemplo, a mais antiga em Espanha, cujos cavaleiros tomaram entre nós o nome de freires de Évora, e depois freires de Aviz. E em espanhol também o vocábulo hábito tem esta acepção. O hábito dos cavaleiros de Calatrava era uma cruz régia floreada.

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Sobre «barato»

De interesse público


      Uma das acepções de barato, como substantivo, é a «comissão paga por jogadores de carteado a quem lhes disponibiliza o local e material de jogo» (Dicionário Houaiss) ou o «dinheiro que o dono da tavolagem retira do bolo ou recebe do banqueiro como interesse que lhe é devido» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa) ou a «percentagem paga ao dono de uma casa de jogo, deduzida dos ganhos do jogo» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Parece-me que é castelhanismo — mas isso não é grave, que os temos às centenas, tanto mais que é antigo. Mas esperem... aquele «interesse que lhe é devido» do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não é má tradução do espanhol interés, «juro»? Mas, nesta língua, barato também é a «porción de dinero que daba voluntariamente quien ganaba en el juego» (DRAE).

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Pontuação

De cátedra


      «Para chegar a este modelo [de cátedra ou cadeira pontifícia] foi preciso construir três protótipos e 76 horas de trabalho, na empresa Antarte. Ambas as peças foram feitas com “materiais e soluções do Norte”, garantiu o arquitecto Aldemiro Rocha: combinam madeira com pele, distinguindo-se por terem o logotipo de Bento XVI gravado. Já o biombo, foi desenhado pela designer portuense Luísa Peixoto» («Papa pediu para levar cadeiras», Diário de Notícias, 15.05.2010, p. 5).
      Vamos ignorar a questão protótipos/logotipo, ou começamos mal o dia. Centremo-nos na pontuação da última frase. Uma vírgula a separar o sujeito do verbo na ordem directa e sem orações intercalares? Pura inépcia gramatical. O erro deriva, a meu ver, de se confundir esta com outra construção com o mesmo significado: «Já quanto ao biombo, foi desenhado pela designer portuense Luísa Peixoto.» Neste caso, com vírgula, sim.

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Formas perifrásticas

Se quer saber


      Cara Luísa Pinto: já aqui abordei pelo menos uma vez essa questão. Hoje exemplifico com outra frase errada: «Apesar de fazer parte da colecção Portugal Turístico (o logótipo é um trevo de quatro folhas), o postal foi Made in Italy. É pois aos italianos que assacamos o ultraje. Não é assim tão mau: acabamos por nos habituarmos a morar em Necklaces» («Feito à mão», Miguel Esteves Cardoso, Público, 6.06.2010, p. 33).
      O nosso notável cronista desprezou o que lhe terá ditado a intuição, e a gramática saiu ofendida. Com formas verbais perifrásticas, o infinitivo deve ser impessoal: acabamos por nos habituar.

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Predicativo do complemento directo

Já que perguntam


      Em relação às provas nacionais, este ano só me perguntaram (e foi uma professora) qual a resposta à questão 4.1. do Grupo II da prova de Língua Portuguesa do 9.º ano, sobre a função sintáctica da expressão destacada na frase: «Os ornitólogos consideram a garça-vermelha uma ave sensível.» «Predicativo do complemento directo», respondi. Considerar, a par de outros verbos, como achar, declarar, nomear, ter por (e como), é um verbo triádico ou de três lugares: alguém considera algo alguma coisa. Ou seja, sujeito, complemento directo e predicativo do complemento directo. Neste caso, o predicativo do complemento directo é um substantivo + um adjectivo, mas podia ser só um substantivo ou só um adjectivo. A frase é passível de ser substituída por uma frase subordinada finita: «Os ornitólogos consideram que a garça-vermelha é uma ave sensível.» Tenho sérias dúvidas que a maioria dos jovens professores de Português domine estas questões gramaticais da predicação complexa.

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Sobre «enviesamento»

Pense nisso


      «No entanto, alguns investigadores mostraram-se cépticos e sugeriram que a oferta de comida por parte dos investigadores poderia ter alterado o comportamento dos animais. E a questão ficou em aberto. Até agora. No estudo que desenvolveu nos últimos dez anos nas florestas do Uganda, o grupo de investigadores coordenado pelo primatólogo John Mitani, da Universidade de Michigan, nos EUA, não utilizou comida para se aproximar dos animais, o que elimina essa hipótese de enviesamento» («Chimpanzés matam por território», Filomena Naves, Diário de Notícias, 23.06.2010, p. 23).
      Já aqui falámos deste enviesamento, tradução do inglês bias. Só pergunto uma coisa: assim, secamente, quantos leitores é que a jornalista pensa que compreenderão o termo? Para agravar, nem sequer aparece registado nos dicionários gerais.

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Ortografia: «cubo-americano»

Por mim


      «“Não há solução para o problema de Cuba sem diálogo”, disse na capital cubana ao diário espanhol El País um académico cubo-americano, Carmelo Mesa-Lago, que ali foi para participar na X Semana Social Católica.» Não, não se trata de um sólido limitado por seis faces quadradas e iguais entre si. É a forma reduzida, truncada, do adjectivo «cubano». O último caso que aqui vimos, lembrar-se-ão, foi o do adjectivo «sovieto-moçambicano». «Cubo-americano» aparece poucas vezes, dizem? Adivinhem porquê.

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Sobre «produtividade»

Ai isso é que não


      «Ironicamente, o dicionário define ‘produtividade’ como a “qualidade do produto” — a ironia não explica como é que Portugal tem uma das taxas de produtividade mais baixas da Europa mas faz sucesso nos têxteis, no vestuário, na maquinaria e no calçado — o top das exportações nacionais» («Por que é que produzimos pouco?», M. M. S., Domingo/Correio da Manhã, 9.05.2010, p. 68).
      Ironicamente, nenhum dicionário regista tal, e ninguém na redacção estranhou. «Produtividade» é a qualidade daquilo que é produtivo.

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«Portas antagónicas»

Agora já sabemos


      «O FlexDoors, um sistema composto por portas traseiras antagónicas, que facilita muito o acesso aos bancos posteriores» («Remodelação radical», Jorge Flores, Domingo/Correio da Manhã, 9.05.2010, p. 60).
      Trata-se do novo monovolume Opel Meriva. É mesmo a marca que lhes chama «portas antagónicas».

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Sobre «puericultural»

Vá, agradeçam ao senhor


      «Fui logo buscar uma tesoura, cortei o quadradinho consolador e enviei o resto do jornal para o lixo. Na minha mão, em 2x2 cm de papel impresso, estava a prova de que há no mundo uma outra alma que não só partilha a minha filosofia puericultural (acabei de inventar a palavra) como a professa publicamente. Desculpe começar o texto desta maneira, caro leitor, sem indicar o quem, o quê e o porquê. Mas eu explico» («Eu, os bebés e a Inês Pedrosa», João Miguel Tavares, Domingo/Correio da Manhã, 9.05.2010, p. 18).
      O título de um texto de 1939 assinado por J. Costa Lima na revista Brotéria (vol. 30, fasc. 5, Novembro de 1939, pp. 409-420) é precisamente «Revolução puericultural». Mas não faltam ocorrências do vocábulo na língua portuguesa. Já tivemos sorte em não reivindicar a invenção do termo «puericultura», normalmente atribuído ao suíço Jacques Ballexserd, que o terá cunhado em 1762.

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«Borboleta» ‘vs.’ «mariposa»

Zoologia


      Posso estar enganado, mas creio que em Portugal, com excepção dos zoólogos, se usa o termo «mariposa» quase exclusivamente para designar o estilo de natação. Quanto ao resto, até os dicionários nos querem fazer crer que mariposas são borboletas. A começar pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que na respectiva entrada remete para o verbete «borboleta». E são erros que se perpetuam, porque os dicionários se copiam uns aos outros. E são eles que fazem crer à generalidade dos falantes que, quando alguém usa a palavra «mariposa», está a falar num português espanholado.

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«Rectificar» ‘vs.’ «ratificar»

Sempre os mesmos


      «Até ao século XX eram comuns relatos que davam conta da existência do lobo em Portugal. Mas na década de 70, o mapa mudou: a progressiva humanização do interior do País (mais casas, mais estradas, mais caçadores...), começou a ameaçar seriamente o canis lupus signatus (lobo ibérico). A situação piorou até 1988, quando Portugal rectificou a Convenção de Berna e com ela a protecção — pelo menos oficial — do lobo ibérico» («Ibérico ainda no livro vermelho da extinção», Metro, 23.06.2010, p. 2).
      O jornalista queria escrever Canis lupus signatus. Escrevo eu. «Rectificou» por «ratificou» é um erro, e erro crassíssimo, em todas as latitudes. Finalmente, se na mesma página, e com muito mais destaque, se escreve «lobo-cinzento», não se deveria ter escrito neste texto «lobo-ibérico» (que é subespécie daquele)?

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Léxico: «teremim»

Uma revelação


      A nossa ignorância não tem fim. Só ontem fiquei a saber que existe um instrumento — e singular, único, pois não é preciso ter contacto físico com ele para ser tocado — chamado teremim. Conhecem? Embora o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe o vocábulo, prefiro a definição do Dicionário Houaiss: «Instrumento electromagnético monofónico, inventado na Rússia, em 1920, por Leon Theremin [1896―1993] e executado por movimentos da mão que, sem tocar no instrumento, se aproxima ou se afasta dele, produzindo desse modo sons, respectivamente, agudos ou graves.» À semelhança de muitos outros vocábulos, de nome próprio passou a nome comum. «— Está a ligar-nos por causa do cão? — soprou uma voz trémula, quase com som de teremim» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 125).

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Léxico: «enogastronomia»

Vinho e culinária


      «No mundo anglo-saxão, existe a mais influente imprensa nos domínios da enogastronomia, embora o Reino Unido e os Estados Unidos da América não tenham uma culinária que nos desperte grandes apetites e emoções. O inglês tornou-se no idioma global e a petisqueira foi baptizada, não há muitos anos, como finger food, daí o “na ponta dos dedos”» («Os petiscos “na ponta dos dedos”», David Lopes Ramos, Pública, 30.05.2010, p. 86).
      É tudo inglês, também o vocábulo enogastronomia é tradução do inglês. Talvez nunca venha a estar registado nos dicionários gerais da língua, mas já é objecto de cursos universitários no estrangeiro.

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Iliteracia

Não diga isso


      Entrevistado por João Ramalhinho, repórter da Antena 1, para o programa Portugal em Directo, Nuno Franco, vice-presidente da direcção da associação Renovar a Mouraria, falou da 1.ª edição do Rosa Maria, o jornal da Mouraria publicado por aquela associação. Um dos objectivos, afirmou, é «fazer com que as pessoas sintam cada vez mais auto-estima pelo bairro». «Auto-estima»? Então não é pelo bairro... Prometo, ainda assim, que vou ler o jornal, logo que apanhar um exemplar.

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Acontecimentos históricos

Invencionice


       «O “Domingo Sangrento” que incendiou a Irlanda do Norte foi há 38 anos. Mas, ontem, as emoções foram vividas como se o tempo tivesse parado» («Acções do Exército no “Domingo Sangrento” foram “injustificadas” e “injustificáveis”», Ana Fonseca Pereira, Público, 16.06.2010, p. 24).
      Desde quando é que o nome de acontecimentos históricos é grafado entre aspas? Nunca, é pura invencionice da jornalista e desmazelo dos copidesques.

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Sobre «chofer»

Muito raro já


      Outra palavra que está a cair em desuso é «chofer». Vejam como há uns anos (anos 60?) ainda era grafada nos livros: «— Bem, ainda foi uma grande coisa que o chófer desligasse o motor! — disse Mrs. Ammer, depois de passado muito tempo. — Havia de ter custado bom dinheiro!» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 299). Agora, na escrita, aparece rarissimamente: «As senhoras ricas mandavam o chofer parar o carro, para irem comprar tecidos» («O baile que trouxe a vida à “aldeia das mansardas”», Paulo Moura, Público, 10.06.2010, p. 7).

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Léxico: «sorraia»

Mais uma falha


      «As 23 fêmeas, onze poldros e um macho retomaram a sua refeição e concentraram-se de novo no pasto da Herdade Font’Alva, situada a norte de Elvas, no Alentejo. Juntos, formam a maior população de sorraias no mundo, a raça de cavalos portugueses mais ameaçada, que conta com cerca de 200 indivíduos» («Os cavalos do Sorraia», Nicolau Ferreira, P2/Público, 10.06.2010, p. 9).
      Experimentem agora consultar um dicionário. Pode ser o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não regista o vocábulo «sorraia» — mas regista «alter», também uma raça portuguesa de cavalos, e obtido pelo mesmo processo linguístico. E a propósito de cavalos: este dicionário afiança que o vocábulo «garrano», o cavalo pequeno mas robusto, é de origem obscura. O Dicionário Houaiss, porém, indica como étimo o inglês garron, «a small sturdy workhorse», o que parece muito provável.

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Léxico: «camisola-tipo-vestido»

Mais curto


      «Andreia criou uma página no Facebook e desatou a divulgá-la entre os amigos da rapariga. Carina, a amiga de infância que recuperara havia pouco, vestia umas legging pretas e uma camisola-tipo-vestido preta; calçava uns sapatos de salto, pretos; e trazia o cabelo, castanho, entrançado» («Corpo de Carina foi encontrado com o cinto de segurança posto», Ana Cristina Pereira, Público, 7.06.2010, p. 38).
      Gosto da solução: camisola-tipo-vestido. Claro que desconfiamos logo de que em inglês seja mais curto, mais fácil, mais sugestivo. Porque não «camisola-vestido»? Ou, porque me parece indiferente, «vestido-camisola».

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Conversor ortográfico «Lince»

Depois falamos


      «É um programa informático, grátis, que tem por missão converter todos os ficheiros de texto que lhe sejam submetidos à nova grafia, sem que o utilizador tenha sequer o trabalho de perceber como e porquê. Ou seja, há uma máquina de tirar consoantes da qual o utilizador não tirará prazer nem glória mas que se presume venha substituir a tarefa de entender a utilidade do acordo» («Um lince que não precisa de ser salvo», Público, 7.06.2010, p. 38).
      Quando, um dia, o Público aplicar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, ver-se-á que uma mera «máquina de tirar consoantes», esta ou outra, não impedirá que os seus jornalistas errem todos os dias. Apesar de tudo, o alcance das novas regras é um tudo-nada mais extenso.

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«Quadra», uma acepção em desuso

Menos uma


      Habitualmente, é aos neologismos que estamos atentos e que aqui relatamos, mas também há vocábulos que vão, insensivelmente, deixando se de usar. Um deles é «quadra» na acepção de sala ou compartimento quadrado. Um dia destes, é aspado dos dicionários. «Arriete obedeceu e, em breve, Isabela estava sentada mesmo defronte do lume, com uma fatia generosa de torta, enquanto Mr. Ammer, apesar dos seus protestos, se afastava para o canto mais recuado da quadra» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 280).
      A primeira vez, há muitos anos, que ouvi a palavra foi da boca de uma cigana, e referia-se ao espaço onde o marido acomodava as mulas e os machos. Só que, nesta acepção, é, ao que me parece, um castelhanismo.

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Alta/Baixa de uma cidade

Já que fala nisso


      A leitora Joana B. pretende saber o que acho de se grafar, habitualmente, com maiúscula o vocábulo «baixa» para designar a parte baixa de uma cidade. Acho perfeito: é um topónimo, e estes são grafados com maiúscula inicial. Pena é que ainda não tenha entrado bem na cabeça de quem escreve, e particularmente dos jornalistas e tradutores. E mais: se vai sendo (com muitas, muitas excepções) habitual, vai-se esquecendo que se tem de fazer o mesmo com o antónimo: Alta. Mas vai-se vendo: «E para proteger a imagem simbólica da torre, que domina o topo da colina da Alta de Coimbra, foram colocados painéis gigantes que cobrem as quatro fachadas e que reproduzem, de forma fidedigna, a imagem do monumento» («Coimbra. A torre da Universidade como nunca a vimos antes», André Jegundo, «Cidades»/Público, 16.05.2010, p. 10). «Pocheiras e suas taças, “bucha” de iguarias várias, vinho a retalho, loureiro à porta — eis alguns traços da Rota das Tabernas de Coimbra, desde a zona de Santa Clara e Monte Arroios à Baixa e Alta da cidade, espaços de um passado remoto que, desde ontem, ganham visibilidade mediática e um novo “mapa” turístico» («27 tascas elevadas a destino cultural», Paula Carmo, Diário de Notícias, 27.02.2009, p. 28).
      Há quem pense, não duvido, que só se aplica (!) à cidade de Lisboa; outros sabem que não: «O regresso dos eléctricos à Baixa do Porto acontecerá no âmbito da Semana Europeia da Mobilidade, que se assinala entre os próximos dias 16 e 22, tendo a Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) investido um montante entre os 700 mil e o milhão de euros para instalar os novos carris, seguindo as indicações de um estudo realizado na fase preparatória da Capital Europeia da Cultura» («Carros eléctricos regressam à Baixa do Porto durante a semana da mobilidade», Jorge Marmelo, Público, 10.09.2007, p. 18). «As figuras de Hillary Clinton e Barack Obama, em versão boneco articulado gigante, dão voltas e voltas pela Baixa de Filadélfia, acenando mecanicamente à multidão do banco de trás de um descapotável pintado com esta mensagem: “Que ganhe o melhor homem ou mulher”» («Filadélfia: buzinar por Hillary, telefonar por Obama», Rita Siza, Público, 21.4.2008, p. 16). «O proprietário de uma livraria foi assaltado, ao fim da tarde de sexta-feira, em plena Baixa da cidade de Vila Nova de Santo André, no passeio das Barcas, quando se preparava para depositar numa agência bancária o dinheiro do movimento desse dia, estimado em alguns milhares de euros» («Assalto na Baixa de Vila Nova de Santo André», Público, 21.4.2008, p. 21). «Os milhares de fãs que acorreram à Baixa de Los Angeles levaram a peito o tema de showneral anunciado desde a véspera: vestidos de luto, os que privilegiavam um sóbrio tributo, ou, os que mais investiram na vertente do show, imitando o ídolo, com óculos espelhados e casacos de couro vermelho» («Um showneral para dizer adeus a Jackson», Rita Siza, Público, 8.07.2009, p. 23). «Mais assaltos e vandalismo na Baixa de Setúbal» (Roberto Dores, Diário de Notícias, 23.03.2009, p. 20).
      Quanto aos dicionários: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para «baixa»: «parte baixa de uma cidade que é normalmente o centro administrativo ou comercial»; e para «alta»: «parte mais elevada da cidade». «Que é normalmente zona residencial», poderia acrescentar? O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista para «baixa»: «Parte mais funda duma povoação. (Neste caso com inicial maiúscula.)»; e para «alta»: «Designação vulgar da parte alta de uma povoação e das pessoas da maior categoria.» Ora, neste verbete também deveria acrescentar-se: «(Neste caso com inicial maiúscula.)» E, apesar de histórica e sociologicamente talvez se justificar, eu não misturaria numa mesma acepção os aspectos topográficos com os aspectos sociais.

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Cidra/sidra

Não bebam


      «Glastonbury comemora 40 anos este ano e tem decorrido desde sempre na mesma quinta. O dono, Michael Eavis, ainda fornece todo o leite, cidra, madeira e palha para o festival» («“Ama a quinta, não deixes rasto”», J. C., Metro, 21.06.2010, p. 4).
      A palha para os festivaleiros se deitarem, a madeira para se aquecerem, o leite para se alimentarem e a cidra para curarem a ressaca? A crer no artigo, sim. Mas é uma tradução, e o que se lê no original é: «Yet even then all the milk and the cider and the straw came from the farm.» Cider! Faz lembrar a moxama. Pela etimologia, era de esperar que fosse «cidra», mas é «sidra», um homófono. A cidra é o fruto da cidreira (Citrus medica); a sidra é a bebida alcoólica obtida a partir da fermentação de maçãs. O que é que acham agora que o Sr. Eavis (ou Mr Eavis, como escreveriam muitos tradutores) dá aos frequentadores do Festival de Glastonbury?
      (Tanto o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisam de registar o substantivo «festivaleiro».)

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Léxico: «soalhento»

Apostem neste


      «Subiu para a soalhenta saleta posta à sua disposição, e Buck seguiu-a, silencioso» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 130).
      Agora os dicionários nem sequer registam o adjectivo soalhento, mas o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, ainda o fazia. E onde param soalheirento e soalhoso, também registados naquele dicionário? Extraviaram-se. Deve ser por tão poucos estarem disponíveis que jornalistas e tradutores erram tanto — lançando-se nos braços do nobre «solarengo».

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Elemento de formação «anti-»

Mais um golpe


      «O paradeiro de [Nicola] Schiavone era desconhecido desde que, em Dezembro, a Direcção Anti-Máfia de Nápoles ordenou a sua detenção» («Detido suposto líder dos Casalesi, importante clã da máfia napolitana», Cláudia Sobral, Público, 16.06.2010, p. 21).
      Pode crer que está errado, cara Cláudia Sobral — e sem justificação alguma, pois até em italiano é aglutinado: Direzione Distrettuale Antimafia. Então o elemento de formação anti- não se aglutina com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen? Simples, simples, mas vão errando.

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Léxico: «chino»

Não me convence


      «Os distúrbios registaram-se à hora do almoço, entre presos de nacionalidade brasileira e outros de raça negra. “Dois dos reclusos envolvidos estavam a lutar com um xino [uma faca artesanal]”» («Reclusos à facada», Francisco Pedro, Correio da Manhã, 19.06.2010, p. 25).
      A grafia com x deste termo da gíria prisional não me convence. E vejo que também não convenceu um jornalista do Diário de Notícias: «No início de 2009, no Estabelecimento Prisional de Coimbra, um recluso romeno, a cumprir pena pelo homicídio de um taxista em Lisboa, teve de ser transportado ao hospital por se ter envolvido em conflito com um ou mais reclusos. O romeno sofreu cortes que terão sido desferidos com um canivete de quatro centímetros de lâmina, uma arma branca denominada na gíria prisional como “chino”» («Sindicato diz ser “pouco comum haver agressões entre reclusos”», Diário de Notícias, 6.02.2010).
      (Sobre gíria prisional no Brasil, ver este texto do sítio institucional do Ministério Público da Paraíba.)

[Post 3604]
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«Solicitor», de novo

Agora acertaram


      «Alguns jornais sugeriram que Bird poderia estar em conflito com a família por se sentir lesado no testamento da sua mãe. A polícia confirmou que Kevin J. Commons, advogado da família, foi uma das vítimas mortais» («Ninguém sabe o que levou “Birdy” a matar 12 pessoas», Público, 4.06.2010, p. 19). «The Times newspaper reported that Bird's twin brother David was among his victims, as was the family’s solicitor, Kevin J Commons» (extraído daqui).
      Muito bem: pese embora a diferença, é mesmo «advogado» a tradução de solicitor, como já aqui vimos diversas vezes. Na quinta-feira, porém, vi mais um episódio, Os Abutres, de Poirot na RTP Memória, desta vez traduzido por M. Fernanda Porto, e mais uma vez a tradução de solicitor estava incorrecta.

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Léxico: «motolância»

Criativos


      O leitor Paulo Araujo informa-me de outra amálgama em uso no Brasil: motolância (de moto + ambulância). Escreve aquele leitor: «Quanto a aglutinação, veja esta; na Amazônia, onde não há nem precisa haver estradas, já criaram a ‘ambulancha’, que você já mostrou no blogue; agora, em São Paulo, onde o ‘(in)trânsito’ não deixa ninguém rodar, criaram a ‘motolância’.»
      Em Portugal não somos, infelizmente, muito proclives a estas invenções vocabulares. O legado linguístico ainda nos é um fardo pesado.

[Post 3602]
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Léxico: «baleação»

Algo novo


      Na edição de ontem dos Dias do Futuro, na Antena 1, ouvi um vocábulo novo para mim: baleação. Mas não somente para mim: nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário Houaiss o registam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, indica que é a «pesca da baleia». Descortino dois problemas na definição. Primeiro: é caça e não pesca. Segundo: todas as pesquisas indicam que se trata da caça de baleias e de cachalotes. Mas o último aspecto tem menos importância, porque, afinal, o cachalote (e o termo deriva do gascão cachau, «grandes dentes») é uma espécie de baleia. Mas tem a sua importância, pois nos Açores, como esta era a espécie alvo da baleação, «a designação “baleia” era-lhe exclusivamente aplicada, enquanto outras baleias recebiam outros nomes, normalmente derivados dos nomes aplicados por baleeiros norte-americanos» (ver aqui).

[Post 3601]

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Sol/sol

Minudências gráficas


      «A exposição descuidada ao sol danifica seriamente a pele» («O sol na cidade», Vera Saldanha, Notícias Magazine, 6.06.2010, p. 74). «Contudo, neste dia, tendo em conta que era sábado de manhã e estava um dia de Sol, ele não estava tão bem arranjado» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 66).
      É somente um pormenorzinho da língua, mas como é triste comprovar que, por vezes, se escreve melhor nas publicações periódicas do que nos livros.

[Post 3600]
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Léxico: «cão assilvestrado»

Há muitos


      «Não é de agora que os caçadores, os gestores de zonas de caça e os criadores de gado utilizam venenos para controlo dos predadores das espécies cinegéticas e pecuárias, mas esta prática tem graves impactes sobre os abutres, grifos, Milhafres-reais [sic], cães assilvestrados, lobos ibéricos e mamíferos de pequeno e médio porte.» («Veneno contra os animais», Carla Amaro, Notícias Magazine, 6.06.2010, p. 66).
      Nunca tinha ouvido falar de cães assilvestrados, mas que os há, não há dúvida.

[Post 3599]
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Ascendência/descendência

Esta já é velha


      Susana Salvador entrevistou os Black Eyed Peas para a revista Notícias Magazine (6.06.2010, pp. 40-45). Uma das perguntas, era inevitável, era se «vão torcer por Portugal ou pelos EUA o Mundial». Respondeu Taboo, que na verdade se chama Jamie Gomez e é, ao que todas as fontes asseveram, méxico-americano: «Pelo México, por causa da minha descendência mexicana. O meu padrasto é do México e vai ao Mundial, por isso disse-me que eu tinha de torcer pela equipa.» Jornalistas e tradutores estão todos os dias a cair neste erro infeliz, e só por falta de reflexão. Aqui até era possível, mas, mesmo quando se trata de uma criança, falam da sua «descendência». Quanto a Taboo, coitado, também confunde um pouco as coisas. Mesmo que tenha amor (quase) filial ao padrasto, que é mexicano (nasceu em Morelia, capital do Michoacão), nunca poderá afirmar, sem mentir, que tem ascendência mexicana.

[Post 3598]
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Tradução: «vegetables»

Noutro país


      «— É sobre o Pavel — disse Bruno. — Tu conhece-lo, não conheces? O homem que vem descascar os vegetais e que depois serve à mesa» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 114).
      Às vezes, pergunto-me se vivemos no mesmo país, eu e alguns tradutores e revisores. Desde quando é que dizemos «vegetais» querendo referir-nos à hortaliça, aos legumes, às verduras? É claro que não falamos a mesma língua.

[Post 3597]
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Entre (os) dentes/entredentes

Fico com a do meio


      José Pedro Machado, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, regista «entredentes». O Dicionário Houaiss, por sua vez, regista «entre os dentes». Há, porém, uma terceira variante, provavelmente a mais usada, que fica, em termos de evolução, entre aquelas: «entre dentes». Ou seja, ter-se-á começado por dizer «entre os dentes», depois, «entre dentes» e, finalmente, por analogia com outros vocábulos, «entredentes». O que convém sempre, é claro, é não usar duas ou três formas no mesmo texto: «— Sim, pai — disse Bruno entredentes» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 102). «Bruno disse qualquer coisa entre dentes, tipo “Claro que havia”, mas não muito alto para Shmuel não ouvir» (idem, ibidem, p. 110). Outros exemplos: «Murmurei entredentes alguns lugares-comuns — Oxford, college eminente, enorme privilégio, a honra — mas ele interrompeu-me logo» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 39). «— Vai-te lixar! — dizia-lhe então entredentes e atacava-lhe os tornozelos, decidido a fazer-lhe cócegas até ela se render de cansaço» (O Jardim de Cimento, Ian McEwan. Tradução de Cristina Ferreira de Almeida e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Gradiva, 4.ª ed., 2005, p. 28). «— Adoro “lagartixas”... — murmurou o Chico entredentes» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 22). «— Ah, a aranha santimonial — retorquiu ela, e toda a gente se riu entre dentes, menos eu. Mrs. Woolf olhou-me de alto a baixo. — Vejo que o perturbei. Provavelmente venera-o» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 100). «Pôs o pé no primeiro degrau e resmungou entre dentes: “A quinta que se foda.” Tinha sido a sua mantar quando entrava em acção desde que fugira de casa aos doze anos de idade» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 218).

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Ortografia: «bom senso»

Ainda não é assim


      «— E matar de preocupação o seu pai e a sua mãe? — perguntou Maria. — Menino Bruno, se tiver um pingo de bom-senso, vai ficar quietinho e concentrado no estudo e a fazer o que o seu pai lhe disser. Nós só temos de nos manter a salvo até tudo isto acabar. Pelo menos é isso que eu tenciono fazer. Afinal, que mais podemos nós fazer? Não nos cabe a nós mudar as coisas» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 60).
      Boa parte dos falantes continua a crer, se é que pensam nisso, que se trata de uma unidade lexicalizada. A convicção (se o é) não é recente. «Bem, mas como o rejeitara como apaixonado, talvez decidisse mostrar mais bom-senso como mero amigo!» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 202).
      Entretanto, em jornais e revistas, com muito menos tempo para reflexão e revisão, escreve-se correctamente: «É um documento no qual o bom senso, justiça e progresso — a declaração da liberdade de culto, por exemplo — se cruzam com medidas duras e aparentemente gratuitas como a da proibição de símbolos religiosos no exterior de qualquer edifício, mesmo privado, que não reservado ao culto, e do uso de vestes talares pelos sacerdotes no espaço público» («A religião do reino», Fernanda Câncio, Notícias Magazine, 6.06.2010, p. 16).

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Ortografia: «primeiros socorros»

Nem pensar


      «Bruno observava-o à medida que ele andava pela cozinha, pegava na caixa de primeiros-socorros, enchia uma bacia com água e a experimentava com o dedo para ver se não estava muito fria» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 71).
      Não são poucas as vezes que se vê esta grafia, felizmente não dicionarizada e claramente injustificada.

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Graus dos adjectivos

Isto é estranho


      Como já vi este erro, nos últimos 12 meses, pelo menos uma dúzia de vezes, creio que está na altura de falar dele.
      «— Claro que sei — disse Bruno, com um aceno, porque havia sempre muitas visitas lá em casa — homens com uniformes fantásticos, mulheres com máquinas de escrever, das quais ele tinha de manter as suas mãos sujas afastadas — e elas eram sempre muito bem educadas com o pai e diziam umas às outras que ele era um homem no qual deviam pôr-se os olhos e que o Fúria tinha grandes planos para ele» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 13).
      Acho que quem escreve assim (e são muitos) sabe que no grau normal o adjectivo é uma palavra composta por justaposição, que leva hífen. Muito bem. Mas também julga, e são tradutores e revisores, que no grau superlativo absoluto analítico deixa de ser justaposta para passar a ser uma locução. Três palavrinhas: estão muito enganados. Se é justaposta no grau normal, justaposta será em todos os graus. O que diriam, penso agora, de «bem-educadíssimo»?

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Léxico: «guardaria»

Ignorada


      «Guardaria?» É a 1.ª e a 3.ª pessoas do singular do condicional do verbo guardar. Então leiam: «A segurança geral do museu [Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA)], que dirige há cinco anos, exige atenção diária e muitas vezes horários desencontrados. Todos os dias se reúne com a guardaria, ou pelo menos conferencia por telefone» («Luta contra o tempo», Frederico Carvalho, Tabu, 28.05.2010, p. 7). Em dicionário nenhum encontro o vocábulo, que, contudo, é muito usado no ambiente dos museus. Uma abonação, encontro-a no artigo 11 do Decreto-Lei n.º 55/2001, de 15 de Fevereiro: «São extintos, à medida que vagarem da base para o topo, os lugares correspondentes à carreira de secretário-recepcionista e ao grupo de pessoal de guardaria constantes dos quadros de pessoal dos museus, palácios, monumentos e sítios a que se refere o n.º 2 do artigo 1.º do presente diploma.» A partir de «guarda» facilmente se chega a «guardaria», mas não haverá aqui influência do espanhol guardería?
      Aqui, encontrei uma definição: «Guardaria: A guardaria é constituída pelo conjunto de vigilantes/recepcionistas do museu que têm como função assegurar a integridade das colecções evitando actos de vandalismo e de desrespeito por parte dos visitantes. Os vigilantes/recepcionistas são também responsáveis pelo atendimento ao público na recepção e loja do museu.»

[Post 3592]
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Redução vocabular: «lipo»

Gosto


      Para quem quer fazer uma lipoaspiração, a revista Activa de Abril dava uma dica: «Exija que o procedimento seja feito por um cirurgião experiente na técnica escolhida.» Como é que este conselho se põe em prática, conseguem dizer-me? Bem, mas não é para se rirem como eu me ri que aqui trago o artigo. Trago-o pelo título: «As novas lipos» (Isabel Vidal, Activa, Abril de 2010, p. 100). Acho que só um grande grau de familiaridade com esta realidade pode levar um falante a referir-se assim à lipoaspiração. É mais uma redução vocabular. O vocábulo em si, como já aqui vimos, por vezes também oferece alguma dificuldade.

[Post 3591]
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Acrónimo: Scut

Isto continua


      «CDS propõe solução que viabiliza portagens nas Scuts», lia-se num título da edição de ontem do jornal i. No artigo, de Ana Suspiro e Ana Sá Lopes, está sempre «Scut». No título e destaques está sempre incorrectamente. Ora, como acrónimo que é (auto-estradas sem custos para os utilizadores, conforme as jornalistas também explicam), não tem plural.

[Post 3590]

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Ortografia: «Puntlândia»

Se temos, usemos


      «Actualmente, a Somália está fraccionada “de facto” em três Estados: a Somália propriamente dita, Somalilândia e Puntland», lia-se no texto. Se podia ser, porque não faltam topónimos não aportuguesados, a verdade é que não é. O topónimo, que surge frequentemente na imprensa, e em jornais pouco dados a esses cuidados, como o Público, a propósito dos piratas somalis, é quase sempre usado na sua forma aportuguesada: Puntlândia. Quase toda a imprensa a descreve como uma «região semi-autónoma», mas é claro que só pode ser semiautónoma. (Solução à taxista: com uma semiautomática, eu punha-os todos a escrever «semiautónoma». Esperem lá: nenhum dicionário, nem sequer o Houaiss impresso, regista o substantivo «semiautomática»; apenas como adjectivo.)

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Léxico: «criativo»

Pago para pensar


      Foi uma aposta infeliz e perdida. Ontem, em conversa com um revisor a propósito de publicidade, surgiu a palavra «criativo». Que não existe. Só como adjectivo, dizia-me aquele colega. Ora, os três dicionários que habitualmente aqui refiro — Dicionário Houaiss (uso quase sempre apenas, por facilidade, a versão digital), Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — registam-na, cada um à sua maneira. Talvez a melhor definição seja a deste último: «Em publicidade, pessoa encarregada de ter ideias originais para criar ou lançar um produto.» Neologismo, sim, mas os dicionaristas nem sempre estão a dormitar.
      A propósito de criativos e da aura que, suponho, ainda os envolve — o prazer de criar, etc. —, sugiro a leitura da entrevista que o escritor irlandês Colm Tóibín, vencedor do Costa Book Award para romance, deu ao jornal i. Inquirido sobre porque escrevia, respondeu: «Nem sei, não há nada de divertido no acto da escrita.» E, mesmo que seja pose, afirmou que escrever «só é prazer quando se recebe um cheque».

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Ortografia: «pau-de-chuva»

Outra música


      «Os outros — maracas, pandeireta, pau de chuva — transportados num carrinho, passam de mão em mão, de quarto em quarto, procurando desenvolver potenciais e restaurar funções cognitivas» («Música que cura», Sara Vieira, Visão, 27.05.2010, p. 132).
      Não encontro o vocábulo registado em nenhum dicionário, mas é claro que só pode escrever pau-de-chuva. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Quase todos os pau-de... são designações de espécies botânicas, mormente arbóreas. A primeira excepção, todos se lembrarão, é pau-de-cabeleira. (Actualmente, já não vai havendo acompanhantes senão para adultos mais crescidinhos. Acompanhantes de luxo, uma noite, 1300 euros. Algo mais sério: vai fazer um ano que foi publicada uma lei — foi preciso uma lei, valha-nos Deus! — em que se reconhece e garante a todo o cidadão admitido num serviço de urgência do Serviço Nacional de Saúde (SNS) o direito de acompanhamento por uma pessoa, que deve ter informação adequada e em tempo razoável sobre o paciente. Muitos tiranetes devem ter ficado estomagados.)

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Exames nacionais

Ler, escrever e contar


      Era o essencial para Salazar, lembra a edição de hoje do jornal i, que publicou a prova acima e pede ao leitor que compare com as provas actuais para que remete no sítio da Internet. Ao contrário de muitos outros, gostava de ver, não os alunos de agora a fazerem esta prova, mas os próprios professores. E não a prova toda, mas apenas a parte gramatical. Serviria como prova de Estado, digamos. Se fosse decisiva e não mero faz-de-conta, ia haver muito pranto no final.

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Léxico: «piã»

Na pele


      «Fizemos a sensibilização para a campanha de vacinação do Pian (uma doença contagiosa e muito comum nos pigmeus que provoca chagas em todo o corpo)», escreveu uma pessoa que agora não interessa.
      Segundo Nascentes, o vocábulo piã (pian é a grafia francesa) provém de um termo da língua tupi que significa «pele erguida, tumor». Também é conhecida por framboesia, vocábulo ignorado pelo Dicionário Houaiss, que, em contrapartida, regista o sinónimo bouba. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Em inglês é conhecida por yaws ou frambesia.

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Léxico: «fanagalo»

Não anda longe


      «O português chegou a ser uma língua de resistência dos negros, reprimida pela colonização holandesa e boer. E ainda hoje há resquícios do fanangalou, o dialecto das minas, que tem, entre outras, uma base na língua de Camões, e que serve para que negros trabalhadores de várias etnias se entendam entre si. Por essas e outras, o português é, com o grego e o alemão, uma das três línguas protegidas pela Constituição. Os sete canais do Supersport terão, durante o Mundial, comentários em quatro línguas, três das quais locais, inglês, zulu, sesuto e uma estrangeira... o português» («Festa, liberdade e futebol», Filipe Luís, Visão, 27.05.2010, p. 98).
      Em lado nenhum leio a grafia «fanangalou», mas sim «fanagalo». Não se terá o jornalista fiado demasiado na memória ou apenas numa fonte?

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Casamento homossexual

Melhor e pior da semana


      No última emissão de Hotel Babilónia, Pedro Rolo Duarte, na rubrica «O melhor e o pior da semana», escolheu como melhor o casamento homossexual. «Acho muito bem que os homossexuais casem», afirmou. João Gobern, porém, não quis, mais uma vez, ser politicamente correcto: «A mim só me chateia o uso da palavra “casamento”.» Depois, contudo, não se eximiu de usar a palavra «casal» para se referir às duas pessoas — homem + homem, mulher + mulher — dos cônjuges.
      Já aqui tínhamos visto que os dicionários da Porto Editora já não fazem qualquer referência a homem ou mulher na definição de casamento. E, em coerência com essa opção, também um casal, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «conjunto de duas pessoas casadas ou que mantêm uma relação amorosa ou íntima, vivendo ou não juntas». «Conjunto de duas pessoas», não homem e mulher. João Gobern teria, para ser coerente, de ter usado um vocábulo menos conotado, talvez par. Ele e Pedro Rolo Duarte, por exemplo, são um par. Afinal, par é o que não apresenta diferença em relação a outro. Igual. Semelhante. A par com João Gobern, está o candidato a presidente da República Fernando Nobre, que só se incomoda com a palavra «casamento» para designar a nova (?) realidade.

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«Communauté de castors»

Perde-se sempre algo


      Então os tais «charpentiers, ingénieurs, maçons, conducteurs de travaux, grutiers et couvreurs» construíram, do nada, uma cidade inteira. Tornaram-se construtores. «Ils sont devenus bâtisseurs. Communauté de castors, pionniers d’une terre promise sur laquelle édifier.» Só que em francês tem dois níveis de leitura: comunidade de castores, porque, como é sabido, estes simpáticos mamíferos, para se defenderem dos seus predadores, constroem diques nos rios; mas castors também designa o movimento cooperativo de autoconstrução surgido em França no pós-guerra. Traduzimos (não pode haver notas explicativas) por «comunidade de castores», e vale pela metáfora, ou por «comunidade de autoconstrutores», mais adequado ao contexto e à cultura do leitor da língua de chegada?

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Léxico: «pan-africanismo»

Não compreendo


      Imperdoável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, talvez mais presente nos lares portugueses do que a Bíblia, não regista «pan-africanismo». Regista pan-americanismo, pan-eslavismo, pan-helenismo, pan-islamismo... Espero que tal não signifique que não acreditam na existência da doutrina ou movimento que busca o desenvolvimento da unidade e da solidariedade entre os países da África. Kwame Nkrumah (1909–1972), presidente do Gana (e antes, no ano da independência, em 1957, primeiro-ministro), teve uma visão totalizadora de África, como grande paladino do pan-africanismo. Pertencia à geração dos políticos africanos com uma preparação intelectual muito acima da média. (A maioria dos chefes de Estado dos 17 países africanos que proclamaram a independência em 1960 eram professores, e os restantes eram médicos, ou economistas, ou advogados. E actualmente?) Outros, como Léopold Sédar Senghor (1906–2001) e Modibo Keita (1915–1977), não foram tão longe, mas fomentaram uma federação, se bem que efémera.

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Léxico: «nocionista»

Umas noções


      «O sacerdote», lia-se no artigo, «acrescenta que o regime de Pol Pot ocasionou “uma série de tensões sociais” que impedem ainda hoje, a 35 anos de distância, “a unidade” e que o método de ensino de carácter nocionista “não favorece o nascimento de um espírito crítico”.» Nunca vi tal vocábulo em português, e também não está registado em nenhum dicionário geral da língua. Suponho que provém do inglês notionist, muito usado mas também não registado em muitos dicionários. Pergunto-me se o vocábulo nocional (e a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora parece-me clara: «que expressa um conhecimento superficial ou simples»), registado em todos os dicionários, não significará o mesmo. Aqui, afirma-se que o «enfoque nocionista» é «o das definições já prontas, que não fornecem os instrumentos da experiência».

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