Léxico: «sexador»

Sexador de cloaca


      «Não conhecia a profissão nem o termo», escreve-me o leitor Paulo Araujo, «mas deu ontem no Estadão; consta em Houaiss e em Aurélio; o Aulete tem ‘sexagem’, a atividade.» Eu também não conhecia. E estou fascinado. Lê-se no Dicionário Houaiss: «que ou quem executa a classificação e separação dos pintos por sexo, utilizando os métodos de exame das características da cloaca ou da tonalidade e conformação das asas, para destiná-los à postura ou ao corte». Em Portugal há-de existir também a profissão, mas não o nome. No Brasil, é profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

[Post 3524]
Etiquetas
edit

Tradução

Sobremodo obscuro


      «Os sons de fundo ecoavam na cabeça de Hannibal. O chilreio, o dialéctico Báltico da sombria» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 244).
      Eu explico o contexto para ajudar o leitor. Vladis Grutas, um dos sequestradores de lady Murasaki, telefona a Hannibal Lecter e diz-lhe que a tem e faz-lhe uma proposta. Grutas é dono do Café de L’Est, um restaurante que tem à porta uma gaiola de sombrias (Anthus lutescens), donde telefona. Depois do telefonema, Hannibal senta-se na cama a pensar e o que lhe vem à mente é aquele chilreio, o dialecto báltico da sombria. Agora digam-me: quantos serão os leitores que conseguem ultrapassar a barreira de erros até à compreensão da frase? Já percebemos porque é que «báltico» está indevidamente grafado com maiúscula inicial. O pior, contudo, é que poucos dicionários registam «dialéctico» como sinónimo de «dialectal» — e também percebemos porquê. Como é que uma frase mais que arrevesada como esta não chama a atenção da revisora?

[Post 3523]
Etiquetas
edit

«Sobremaneira»

Sobremodo irritante


      «O Dr. Dumas, cuja alegria constante irritava de sobremaneira Popil, entregou uma opinião entusiástica de Hannibal e explicou que o Centro Médico Johns Hopkins em Baltimore, na América, lhe estava a oferecer um estágio, após examinar as suas ilustrações para o novo manual de anatomia» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 262).
      Também a mim me irrita sobremaneira este erro, só visível, como todos, para quem sabe que o é, de antepor a preposição «de» ao advérbio «sobremaneira». Para quê? A revisora, que não viu nem reviu, achou naturalíssimo.

[Post 3522]
Etiquetas
edit

Léxico: «defensa»

Protegem


      «Na popa, Gassmann tirou as defensas para fora e preparou o cabo» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 253).
      As defensas são almofadas de sola ou de corda de forma cilíndrica, penduradas à altura do verdugo, para protecção do costado de uma embarcação durante as atracações. Nem sempre são tão luxuosas como a da imagem: já todos vimos defensas feitas de pneus velhos.

[Post 3521]
Etiquetas
edit

Género: «mantra»

Má decisão


      «Pôs o pé no primeiro degrau e resmungou entre dentes: “A quinta que se foda.” Tinha sido a sua mantra quando entrava em acção desde que fugira de casa aos doze anos de idade» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 218).
      Não conheço nenhum dicionário que atribua o género feminino à palavra «mantra». Tradutora e revisora deviam ter tido o cuidado de consultar pelo menos um dicionário. Afinal, não é palavra que se use todos os dias.

[Post 3520]
Etiquetas
edit

Topónimos

Den Haag, então


      «— Podia fazê-lo em seu nome de acordo com a Convenção de Hague de 1907, permita-me que lhe explique...
      — Sim, de acordo com o Artigo Quarenta e Seis, já conversámos sobre isso — disse Hannibal, olhando para Lady Murasaki e lambendo os lábios para parecer ávido» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 130).
      É espantoso como a tradutora não atinou com a versão portuguesa do topónimo. Então não é Haia? Nunca ouviu falar das célebres Convenções de Haia? Esta de 1907 chama-se, oficialmente, Convenção sobre a Resolução Pacífica de Controvérsias Internacionais. Hague, Copenhague...

[Post 3519]
Etiquetas
edit

Sobre «foxing»


Castanho-raposa


      «A tela estava manchada num pequeno padrão de pintinhas castanhas no canto superior esquerdo. Quando era pequeno, tinha ouvido os pais dizerem que as manchas eram foxing e tinha passado vários minutos a olhar para elas, tentando descobrir a imagem de uma raposa ou da impressão de uma pata de raposa» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 122).
      Não temos em português uma palavra que traduza, especificamente, foxing. Temos de recorrer à palavra «mancha». A tradutora viu-se obrigada a redigir uma nota de rodapé: «Trocadilho com o significado de fox (raposa) e o significado de foxing (manchas amarelas ou castanhas que se manifestam no papel ou na tela). (N. da T.)» (idem, ibidem, p. 122). Trocadilho, está bem, mas a designação não é inteiramente arbitrária: dá-se este nome às manchas na tela e no papel porque o castanho é semelhante à cor das raposas. E quem percebe mais de raposas do que os Ingleses?

[Post 3518]
Etiquetas
edit

Pronúncia: «nogado»


A escorrer mel


      «O tocador de realejo e o seu macaco, libertados depois do pequeno-almoço das suas instalações frequentes na prisão, arranhavam incansavelmente Sous Les Ponts de Paris até que alguém lhes ofereceu um copo de vinho e um bocado de nogado de amendoim, respectivamente» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 83).
      Não se trata de um erro de tradução — ou, pelo menos, não é isso que me preocupa agora, embora quando um inglês pensa em nougat não veja o mesmo que eu quando penso em nogado. Quando leio ou ouço a palavra, vem-me sempre à mente os nogados, brilhantes da calda de mel em que eram mergulhados, que a minha tia Joana fazia, iguaizinhos aos da imagem (tirada daqui). Todos os dicionários registam «nogado», mas durante quase toda a vida ouvi /nógado/, talvez, considero agora, por influência do espanhol nuégado.

[Post 3517]
Etiquetas
edit

Tradução: «mantelpiece»

Evite-se o eco


      «Um relógio pintado com os signos do Zodíaco e querubins fazia tiquetaque na prateleira da lareira» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 75). Já aqui tínhamos visto qual a melhor tradução do vocábulo inglês mantelpiece. «Prateleira da lareira» tem, é óbvio, um problema: o eco eira/eira. Melhor será, então, lintel da lareira.

[Post 3516]
Etiquetas
edit

Léxico: «oliveiral»


No Brasil


      Ontem à tarde fui à Gare do Oriente despedir-me de um amigo que ia viajar no Sud Express. Num dos elevadores, um brasileiro perguntou-nos em que linha parava o comboio que ia para a Guarda. Depois de lhe termos dado a informação que pretendia, perguntámos-lhe o que fazia. Acabara de vir da Moita com o patrão, localidade onde andara, sobretudo com indianos, na apanha de morangos. Ia agora para Viseu, trabalhar em «oliveirais». Nunca tinha ouvido a palavra «oliveiral», porventura mais usada no Brasil.

[Post 3515]
Etiquetas
edit

Advérbios de interrogação

José Maria Relvas sabia


      Comprei, ontem de manhã, na Feira das Oportunidades, organizada pela Paróquia do Campo Grande, por 50 cêntimos, um exemplar da 29.ª edição da Gramática Portuguesa de José Maria Relvas (Porto: Machado & Ribeiro, Limitada). O revisor antibrasileiro de vez em quando falava (e com que orgulho!) desta gramática, pela qual, dizia, tinha estudado. Na página 167, sobre os advérbios, lá está: «Advérbios de interrogação — como? onde? quando? porque? qual?» Daí o encarniçamento dele quando via por que quando devia estar porque. Nas décadas que se seguiram à publicação desta gramática, pela qual aprenderam várias gerações, a maioria das gramáticas evitou incluir entre os advérbios interrogativos o «porque», lançando um véu de ignorância para cima dos leitores. Ainda recentemente, a tradutora Helena Pitta me pedia, numa mensagem de correio electrónico, que desse o meu contributo para esta questão. A verdade é que nunca evitei esclarecer, neste blogue, na formação que dou e mesmo em publicações, esta (inexplicavelmente) controversa questão.

[Post 3514]
Etiquetas
edit

«Sir», «lady», etc.

Falemos de Krishna Bhanji


      Ao que parece, Ben Kingsley exige que o título sir apareça em tudo o que lhe diga respeito: anúncios, cartazes, créditos dos filmes. A estragar um pouco a festa (e talvez o sonho de infância) está o facto de se chamar, de facto, Krishna Bhanji. Mas estou a desviar-me um pouco... Ao inspeccionar breve mas atentamente a sala da sua casa de campo, Poirot dirige a atenção para o lintel da lareira, onde vê um sobrescrito. Vira-se para a Sra. Sims, que lhe trata da casa, e diz-lhe que não esperava receber correio naquela morada. «Foi a dama Angkatell. Vive lá em cima, na Hollow.» Na realidade, esta «dama» é sempre lady no original. Na tradução, de João Domingos (Crime na Mansão Hollow, RTP Memória, 27.5.2010), ora é «dama», ora «Sra.», ora «Madame». O marido, sir Angkatell, é sempre o «Sr. Angkatell». No caso, porém, não seria a mera forma respeitosa de tratamento, pois Henry Angkatell tinha sido alto-comissário em Bagdade, onde privara com Poirot.

[Post 3513]
Etiquetas
edit

Pronúncia: «cromossoma»

Zoma e segue


      Na emissão de ontem do programa Dias do Avesso, o psicólogo Eduardo Sá usou a palavra «cromossoma», mas pronunciou-a como se tivesse apenas um s: /cromozoma/. «Não, a tristeza não é uma espécie de cromossoma que nós andamos aqui a trabalhar todos, porque, de facto, se calhar, foi enganador foi esta ideia de que nós, enfim, lá nos encantámos com o fado.» Pode ter sido, mas não creio, lapso, mas a verdade é que já por diversas vezes ouvi o mesmo erro.

[Post 3512]
Etiquetas
edit

Sobre «psicodrama»

Mais que duvidoso


      Estamos no início de 1919. Azevedo Neves, director da Morgue de Lisboa desde 1911, está a conversar com Asdrúbal d’Aguiar sobre o homicídio de Sidónio Pais. «— Todo este psicodrama é uma trágica metáfora da justiça. Aconteceu em França com o caso Dreyfuss e, agora, de maneira mais intensa, acontece em Portugal» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 235).
      Só em 21 de Abril de 1921 se realizou a primeira sessão pública de psicodrama, no Komödienhaus, em Viena de Áustria. O criador do psicodrama, e quem cunhou o termo, foi o psiquiatra e psicossociólogo vienense Jacob L. Moreno. Mesmo supondo, e talvez não seja supor mal, pois Azevedo Neves especializara-se com Virchow e Von Hansermann em Berlim no início do século e conheceria provavelmente a língua alemã, que conhecia o trabalho de Jacob L. Moreno, não é muito provável que usasse o termo. De resto, embora envolto numa certa imprecisão, algumas fontes indicam o ano de 1922 como a data em que o termo foi criado. Tudo leva a crer, pois, que é mais um anacronismo neste romance histórico.
      Ah, sim: escreve-se Dreyfus e não Dreyfuss. Os adjectivos derivados do nome Dreyfus são dreyfusista e antidreyfusista.

[Post 3511]
Etiquetas
edit

Uso das aspas

Para rir


      «Alguns dias depois, estava a examinar um dos sinistrados do descarrilamento de um “americano” quando um servente o interrompeu» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 135).
      A regra, para quem usa as aspas nestas circunstâncias, parece ser a de que, a partir da primeira acepção de qualquer vocábulo, se tem de grafar sempre os vocábulos entre aspas. Neste caso, as aspas em «americano» (carro que se desloca sobre carris de ferro, movido por tracção animal ou eléctrica) são como que os pára-choques do veículo. (Mas se estivermos a reproduzir um diálogo de dois bêbados que falam dos pára-choques de uma mulher, já se tem de usar as aspas.) É assim? Não sejam ridículos.

[Post 3510]
Etiquetas
edit

Centavo/cêntimo/centésimo

Era escusado


      «Marcinkus tenta demarcar-se e assegura, em 1975, que “o Vaticano não perdeu um centésimo”» (Vaticano S. A., Gianluigi Nuzzi. Tradução de Ricardo Sequeira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 23).
      Vamos lá: eu sei perfeitamente que o vocábulo italiano centesimo se pode traduzir por «centésimo» (unidade em que se dividem algumas moedas) — mas quem é que o usa para se referir a uma moeda? Tivemos centavos e agora temos cêntimos (e, sobre a questão, ler este texto de Miguel R. M.); centésimo não deixará de causar alguma estranheza.

[Post 3509]
Etiquetas
edit

«Extracto»/«estrato»

Outra vez não


      Uns escrevem «extracto social», outros escrevem «estrato bancário». Há de tudo, neste mundo. «Um interminável arquivo de documentos confidenciais e inéditos (estratos bancários, cartas, relatórios confidenciais, actas do conselho de administração, balanços secretos do IOR [banco do Vaticano], cópias de transferências e referências “codificadas” a contas)» (Vaticano S. A., Gianluigi Nuzzi. Tradução de Ricardo Sequeira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 11). É, já aqui o vimos, extracto bancário que se diz, porque é a informação, o registo extraído dos movimentos de uma conta bancária. Logo na primeira página do ensaio, é um péssimo cartão-de-visita. É, permitam-me dizê-lo — até porque o étimo é o italiano, língua original deste ensaio, bugiardo, «mentiroso, falso» — uma bojarda.

[Post 3508]
Etiquetas
edit

Léxico: «metatexto»

Quem percebe?


      Asdrúbal d’Aguiar lê e relê o ofício do juiz de instrução que ordenava que se realizasse a autópsia ao cadáver de Sidónio Pais. Algo lhe escapava. «Era o que, de facto, estava escrito no metatexto do ofício» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      De dicionários gerais, só o Dicionário Houaiss regista — e com o verbete a precisar de, pelo menos, mais uma acepção — o vocábulo «metatexto». No romance em apreço, o vocábulo apenas se pode referir a um elemento: a data. A chave do ofício encontrou-a Asdrúbal d’Aguiar na data: «Era a data, descobriu de repente: dezassete de Janeiro» (idem, ibidem, p. 136). A generalidade dos leitores vai ter dificuldade em interpretar o vocábulo. O conceito de metatexto foi definido pelo crítico literário e ensaísta francês Gérard Genette (n. 1930), representante da chamada «nova crítica» (nouvelle critique), como um texto, interno, externo ou misto, que fala ou instrui sobre outro texto.
      (Só um reparo: há agora esta mania de, nos romances, ser tudo escrito por extenso: datas, idades, medidas... Os numerais estão ameaçados de extinção. Se se tratasse de um revisor inexperiente, ainda compreendia.)

[Post 3507]
Etiquetas
edit

Léxico: «moxama»

Tira seca do lombo do atum


      Conhece o vocábulo moxama? Se leu a edição de hoje do gratuito Metro, terá visto um semelhante, «muxama»: «O pequeno-almoço na Companhia das Culturas é uma refeição muito especial, um momento de fruição e experimentação gastronómica à base de produtos da casa. Sumos de frutas da época, queijo fresco de cabra, pão cozido em forno de lenha de esteva e azinho, muxama (atum seco), compotas dos frutos da quinta de produção ecológica, iogurte ecológico e, conforme a época, ovos com espargos bravos, tomatada, paté de porco preto e mais não digo» («Em boa companhia», Vanessa Conde, Metro, 26.5.2010, p. 12). Azar o do leitor: era a primeira vez que estava a ler a palavra, e estava mal escrita (o que confirmo no Vocabulário Português de Origem Árabe, de José Pedro Machado. Lisboa: Círculo de Leitores, 1997, p. 108). A etimologia, porém, desculpa a jornalista: o étimo é o árabe muxamma. Talvez devesse escrever-se com u, como em italiano: musciame ou musciamu (embora esta língua também registe mosciamme).

[Post 3506]
Etiquetas
edit

«Tenho certeza»?

Ora essa


      Ontem vi na RTP Memória um episódio de Miss Marple. A metediça «detective amadora» hospeda-se no requintado Hotel Bertram e começa a fazer aquilo que melhor sabe fazer: meter-se na vida dos outros. Não gostei muito, mas isso não interessa para aqui. A tradução, de Accra B. Rockley, causou-me, aqui e ali, alguma estranheza, mas nenhuma como esta: o tradutor omitiu sempre — sempre — o artigo antes do substantivo «certeza». E não foram menos de doze vezes! Nada que não tivesse visto e corrigido muitas vezes, pois há tradutores, com nome mais português do que Accra B. Rockley, que fazem precisamente o mesmo. E porquê? Isso é que não sei, mas aconselho-os: ouçam como falam as pessoas.

[Post 3505]
Etiquetas
edit

Tempos verbais

Ficha Limpa


      O leitor Paulo Araujo chamou-me a atenção para uma polémica que tem todo o interesse para nós, pois centra-se essencialmente numa questão linguística. Um projecto de lei, de iniciativa popular, chamado Ficha Limpa, pretende impedir a candidatura de políticos condenados em segunda instância judicial. Tudo teve origem em 2008, quando a Associação Brasileira de Magistrados (ABM) tornou pública uma lista com os candidatos com «ficha suja». Mais recentemente, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) desencadeou o processo depois de ter obtido a assinatura de mais de 1,5 milhão de cidadãos. O texto-base do projecto já foi aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados. Entretanto, o senador Francisco Dornelles introduziu umas emendas que podem desvirtuar o sentido da lei. A alteração é de tempos verbais e não de verbos: em vez de se estatuir «os que tenham sido condenados», passou a ser «os que forem condenados».
      Não há gramático ou linguista brasileiro que não tenha sido ouvido pelos meios de comunicação a propósito da questão. De um artigo da jornalista Alessandra Duarte (que podem ler na íntegra clicando na imagem acima), na edição de ontem do jornal O Globo, extraio a opinião de Evanildo Bechara, com a qual concordo inteiramente: «Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo Evanildo Bechara afirma que, enquanto o tempo verbal “tenham sido” é mais claro e aponta para uma só categoria — aqueles que já foram condenados no passado —, a expressão “os que forem condenados” dá margem a duas interpretações: — Uma dessas interpretações abrange só os que vierem a ser condenados. A outra, porém, abrange todos aqueles na condição de condenados, o que, portanto, inclui os que já tiveram condenações. Do meu ponto de vista, essa segunda interpretação é a mais próxima do espírito inicial do projeto pensado pela sociedade. E eu escolho o que está mais próximo do espírito do projeto — analisa Bechara.»
      Devo, no entanto, realçar que me parece um pouco contrafeito — e, em qualquer caso, a denotar uma deficiente técnica legislativa — o uso do futuro do conjuntivo no texto da lei, que, por uma interpretação restrita, significará somente os que vierem a ser condenados, diminuindo assim o alcance da norma.
      Resta agora saber se Lula da Silva vai sancionar ou vetar a lei. O caminho mais sensato seria optar pelo veto, dado o perigo real de subversão do espírito da lei.

[Post 3504]
Etiquetas
edit

«Funerais» e «necrópsia»

Barbarismos


      «Ou, dito de outra maneira, se fosse indiferente à regra convencional de não que não se deveriam autopsiar reis, príncipes, presidentes, então teria ordenado a necrópsia quando o cadáver fora embalsamado ou nos dias anteriores aos funerais» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      Pode ser um desses casos em que prevalece a vontade, mesmo antigramatical, do autor. Correcto é necropsia, e, pelo menos neste caso, os dicionários não se desviam da norma. Quanto a «funerais», é imitação do francês funérailles. Nós só temos um funeral. E, quanto a mim, é mais do que suficiente.

[Post 3503]
Etiquetas
edit

«Sherpa»/«xerpa»

Povo do Leste


      «Quem são os guias responsáveis por levar pessoas como o Jordan a seguir os seus sonhos no Evereste? Os xerpas, mais conhecidos por sherpas (shyarpa), são uma etnia da região mais montanhosa do Nepal, nos Himalaias. Na língua xerpa, shyar significa ‘leste’ e pa significa ‘povo’ shyarpa ou xerpa. Tradicionalmente, vivem nas zonas montanhosas situadas na zona oriental do Nepal e ganham a vida não só como guias e carregadores, mas também como comerciantes, fazendeiros e agricultores. A história cultural sherpa tem mais de 500 anos» («Sherpas: senhores do Evereste há 500 anos», Tiago C. Esteves, Metro, 25.5.2010, p. 2).
      «Mais conhecidos por sherpas»! É simplesmente, e mais uma vez, a grafia da língua inglesa a impor-se-nos. Nas traduções, contudo, e já aqui o vimos, o aportuguesamento «xerpa» é há muito usado e está mesmo registado em alguns dicionários, como é o caso do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.  «Um jovem xerpa muito solícito precipitou-se ao nosso encontro e apresentou-se como o nosso sirdar» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 298).

[Post 3502]
Etiquetas
edit

Pronúncia de «desportos»

Fala um locutor


      José Serra pronunciou fâ-shish-tâ e não fâsh-sish-tâ (nem fásh-sish-tâ, que era o que, primeiramente, estava em causa), não articulando, portanto, o grupo sc normativamente. Contudo, agora a minha atenção vai para outra questão: repararam como Mário Meunier, da Emissora Nacional, pronuncia a palavra «desportos»? Pois é, manteve (por lapso?) o timbre fechado do o tónico do singular, quando neste vocábulo se realiza sempre a metafonia, isto é, a alternância ô/ó do singular para o plural. É uma regra crivada de excepções, isso é verdade, e por isso também há muitas trapalhadas. Em relação a coros e acordos, por exemplo, verifica-se que a generalidade dos falantes não está a par da norma. Pior ainda: há quem confunda tudo isto com as pronúncias regionais e a sua legitimidade, e nessa altura a conversa descamba inevitavelmente.

[Post 3501]
Etiquetas
edit

Pronúncia de «fascista»

Fala um comunista


      Na emissão de hoje do programa 27.000 Dias de Rádio, de José Nuno Martins, na Antena 1, recordou-se o primeiro comício do Partido Comunista Português no pós-25 de Abril. Estava-se a 24 de Maio de 1974. No Pavilhão dos Desportos, com cerca de 7000 pessoas a assistirem, um dos oradores foi José Serra (Álvaro Cunhal não estava presente), que usou, o que esperavam?, o vocábulo «fascista». Com a fechado ou aberto? Fechado. É verdade que a blesidade de José Serra não ajuda nada, mas o a é mesmo fechado: «regime fâscista». Ouçam-no aqui.

[Post 3500]
Etiquetas
edit

Ortografia: «magnicídio»

Mataram a ortografia!


       «E se o juiz desrespeitara a tradição de não autopsiar magnocídios, a esta distância temporal só poderia ser por razões bem ponderosas» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      Se se tratasse do homicídio do imperador Carlos Magno (747―814), talvez. Mas não: escreve-se magnicídio e é o «assassínio de pessoa ilustre, eminente», como se pode ler na definição do Dicionário Houaiss. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista nem «magnicida» nem «magnicídio» (então, meus senhores, distraídos?). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, só regista «magnicida». Em espanhol também se escreve magnicidio.
      Claro que escrever «autopsiar magnicídios» é uma forma audaciosamente elíptica, e pode haver leitores que não compreendam.

[Post 3499]
Etiquetas
edit

«Fase de negação»

Mataram a cronologia!


      «— Ainda me lembrei de te desafiar, mas estavas na fase da negação — ironizou Brites. — Além de que a polícia corria connosco ou prendia-nos» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 167).
      Mais um romance histórico, mais um anacronismo. Que é isto de «fase da negação»? A psiquiatra de origem suíça Elisabeth Kübler-Ross (1926–2004) definiu cinco fases pelas quais os indivíduos passam após qualquer perda pessoal, como a aproximação da própria morte, morte de um ente querido ou mesmo divórcio. Uma dessas fases é a fase de negação. Vejam: a psiquiatra estabeleceu esta teoria em 1969 e o diálogo passa-se no início de 1919, um mês e uma semana depois do homicídio do Presidente-Rei (1872―1918). Só sete anos depois do diálogo ficcionado nasceria a autora, e apenas meio século depois estabeleceria a teoria. O nosso Geraldino Brites, chefe do Serviço de Tanatologia da Morgue de Lisboa, podia ser excepcional, mas não era, mesmo atenuado, um Rasputine. No blogue da editora pode ler-se que Moita Flores é «considerado um dos mestres da técnica de diálogo», mas mestria é não pôr diálogos inverosímeis (rebuscadamente inverosímeis, admito) na boca das personagens, e isso não acontece nesta fala.

[Post 3498]
Etiquetas
edit

«Sua Alteza»/«Sua Majestade»

Meia estrela para a crítica


      «— Penso que Sua Majestade deve saber que o seu almirante chegou a acordo com a minha mãe sobre esse assunto, que não me diz respeito. Quanto à Casa da Rainha, que interesse pode ter Sua Alteza em incluir neste rancho, que a mim já me parece verdadeiramente excessivo, senhoras escolhidas pelo rei?» (Catarina de Bragança, Isabel Stilwell. Revisão de Eurico Monchique e Alexandra Pereira. Pesquisa histórica de Joana Troni. Lisboa: A Esfera dos Livros, 5.ª ed., 2008, p. 347).
      Já aqui tínhamos visto este erro noutra obra de Isabel Stilwell. Como na outra, também nesta se repete por todo o texto, com a agravante de aparecer, nesta fala, «Sua Majestade» e «Sua Alteza» referidos à mesma pessoa, o rei Carlos II de Inglaterra. Se alguém tivesse feito o reparo logo na primeira edição, agora os leitores não estavam a ler e a reproduzir estes disparates, que se repetem de obra para obra. Infelizmente, apenas uma em cada mil recensões de livros se debruça sobre a matéria de que as obras são feitas: a língua. Se se trata de tradução, o recenseador limita-se muitas vezes a exalçar a obra original ou a mencionar aspectos laterais, como a biografia do autor. Sobre a tradução em si, os seus méritos e deméritos, pouco ou mesmo nada escreve. Também costuma usar-se metade, ou até mais, do espaço com citações da obra, como se dessa forma o leitor pudesse formar uma ideia aproximada da obra toda.

[Post 3497]
Etiquetas
edit

Bóston e Manchéster

Acentos


      Quem escreve Bóston também tem de escrever Manchéster? Talvez convenha, sim. «— E queira desculpar-me — acrescentou —, estas são as irmãs finlandesas Vera e Mini, que conheciam Molly dos seus tempos de Bóston. Clive Linley» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 18). «Clive ponderou nessas perguntas nos confins de um Boeing 757 imobilizado no nevoeiro gelado do extremo norte do Aeroporto de Manchéster» (idem, ibidem, p. 163).
      E outra coisa, já que a oportunidade se nos oferece: nestes casos, deveremos escrever «aeroporto» com maiúscula ou com minúscula inicial? Se o nome é mesmo «Aeroporto de Manchester», sim. Lê-se no sítio oficial: «In 1975, the airport changed its name to “Manchester International Airport” and in 1986 “Manchester Airport PLC” was incorporated, at which time it changed its name to the present form: “Manchester Airport”.» E será Aeroporto da Portela ou aeroporto da Portela ou Aeroporto de Lisboa ou aeroporto de Lisboa — ou nada disto? Como se escreve na imprensa? Vê-se de tudo, mas talvez predomine o uso da maiúscula. «Rui Costa foi ontem protagonista de um episódio caricato no Aeroporto de Lisboa, quando o Benfica se preparava para viajar até à Alemanha, onde amanhã (20 h, TVI) defronta o Nuremberga, na segunda mão dos 16-avos-de-final da Taça UEFA» («Rui Costa passa por Figo no aeroporto», Metro, 20.2.2008, p. 10). «O objectivo é fornecer, aos futuros arqueólogos, formação específica sobre a verificação e protecção de recursos arqueológicos no âmbito da realização de obras, uma saída profissional em expansão, já que se perspectivam grandes obras públicas, como o Aeroporto de Lisboa e o TGV» («Algarve ensina arqueologia», Global, 28.07.2008, p. 4). «A transportadora aérea TAP admite que a greve dos pilotos prejudicou ontem mais passageiros, depois de cerca de mil terem passado a noite no Aeroporto de Lisboa, sem voo e sem hotel» («Mil dorme no aeroporto», Pedro H. Gonçalves, Correio da Manhã, 26.09.2009, p. 23). «Transportou ontem à tarde dois austríacos de um hotel da cidade até ao terminal de partidas do Aeroporto de Lisboa e, no final da viagem, foi detido por um agente da Brigada de Trânsito da PSP» («Taxista detido no Aeroporto de Lisboa», K. C., Diário de Notícias, 21.11.2008, p. 24).

[Post 3496]
Etiquetas
edit

«Raios X/raios-X»

Não temos


      «Minúsculos germes portadores de vida, pairando em nuvens pelas galáxias, tinham sido tocados por raios especiais de um Sol moribundo e tinham-se transformado num monstro colossal que se alimentava de raios X e que aterrorizava as carreiras de tráfego regular entre a Terra e Marte» (O Jardim de Cimento, Ian McEwan. Tradução de Cristina Ferreira de Almeida e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Gradiva, 4.ª ed., 2005, p. 34).
      Não é raro ver grafado com hífen: raios-X. Mas reparem na distinção que faz Sacconi, autor do novíssimo dicionário já aqui referido: «Existe um inconveniente nesse título [«Visão de raio X»] dado pela ISTOÉ a uma carta de um de seus leitores. É preciso estabelecer a diferença entre raio-X e raios X. Raio-x (obrigatoriamente com hífen) é a fotografia ou o exame feito por meio de raios X. Quem já não precisou tirar um raio-X dos pulmões? Já raios X (sem hífen) é o nome que se dá à radiação eletromagnética não luminosa, capaz de atravessar quase todos os sólidos e radiografá-los internamente. Sendo assim, o título acima deveria ser este, se observada a diferença: Visão de raios X.» Os nossos dicionários não acolhem esta distinção, apenas registam raios X.

[Post 3495]
Etiquetas
edit

Léxico: «peristalse»

Ora aqui têm um exemplo


      «Os sinais de alerta foram uma certa dilatação nos olhos vítreos e um movimento ascendente na garganta, como uma peristalse ao contrário» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 178).
      Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registam o vocábulo peristalse, ao contrário do Dicionário Houaiss. É sinónimo de peristaltismo («conjunto dos fenómenos peristálticos»), que os três dicionários registam.

[Post 3494]
Etiquetas
edit

Definição de «casamento»

Só eles


      «Os dicionários da Porto Editora já não fazem qualquer referência a homem ou mulher na definição de casamento, que descrevem como um “contrato civil celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família em conjunto”. Os dicionários do grupo Leya, nomeadamente os da Texto Editores, “já estarão adaptados na próxima edição”, disse fonte do grupo» («Cada escola decide como vai explicar casamento ‘gay’», Pedro Sousa Tavares e Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 19.5.2010, p. 14).
      Só dicionários de pouca qualidade como o Houaiss continuarão a definir casamento como a «união voluntária de um homem e uma mulher, nas condições sancionadas pelo direito, de modo que se estabeleça uma família legítima», o que relevará inevitavelmente da própria mentalidade retrógrada dos Brasileiros...
      Tanto por onde melhorarem, tantas lacunas e más definições e contradições, mas os dicionários gostam de estar na crista da onda nestes aspectos.

[Post 3493]
Etiquetas
edit

«Torácico»/«toráxico»

Nova anatomia


      «Os outros dois casos eram de rotina: uma broncoscopia de diagnóstico na sequência da inalação de um amendoim e a inserção de um dreno toráxico para eliminar um abcesso» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 103).
      E se os médicos apenas souberem fazer drenos torácicos? O doente morre? Já aqui vimos a questão.

[Post 3492]
Etiquetas
edit

Tradução: «hall»

Prefiro o de saída


      Já aqui falei do meu ódio de estimação pelo anglicismo hall. Felizmente, vimo-lo no mesmo texto, alguns tradutores optam por traduzi-lo por «vestíbulo» ou «átrio». Esqueci-me então de referir algo ainda mais odioso: dizer e escrever «hall de entrada». Apetece perguntar onde está o de saída. Vejam agora esta infeliz sequência: «Vernon, que partia do princípio de que George estava a representar o papel de grande senhor da imprensa a convocar o seu director, absteve-se de pedir desculpa ou sequer de responder e seguiu o seu anfitrião através de um átrio bem iluminado até à sala de estar» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998. p. 60). «Enquanto a água aquecia, atravessou o estreito hall de entrada do apartamento, que dava acesso ao seu escritório, e arrumou a pasta, fazendo uma pausa a fim de deitar mais uma olhadela às suas notas» (idem, ibidem, pp. 103-4). «Lá em baixo, no átrio de entrada, deteve-se junto da porta da rua com a mão na fechadura, preparando-se para a abrir e correr até ao carro» (idem, ibidem, p. 107). «Enquanto atravessava, em passo apressado, o vestíbulo de mármore preto e amarelo-claro, viu Dibben à espera junto do elevador» (idem, ibidem, p. 116). Fosgluten talvez faça bem a isto.
      «Hall: sala de entrada de casa, andar ou edifício, geralmente com portas que comunicam com outras divisões; átrio, vestíbulo» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Post 3491]
Etiquetas
edit

Tradução: «injunction»

Ainda assim


      Vernon, director do jornal The Judge, recebeu uma injunction para não publicar fotografias comprometedoras de um político. «Era precisamente o tipo de história que atraía Clive, mas este não mostrou curiosidade pelas fotografias e pela injunção e parecia não estar a ouvir com muita atenção» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 57).
      Sim, literalmente, injunction pode traduzir-se por «injunção». Em todo o caso — e apesar de só nos últimos tempos se ter tornado uma figura legal conhecida, mormente devido à tentativa de impedir que o semanário Sol publicasse escutas obtidas do processo «Face Oculta» —, o tradutor devia ter optado por «providência cautelar».

[Post 3490]
Etiquetas
edit

«Deixar-se de fitas»

Películas no século XVII


      Quando apareceu a expressão «deixar-se de fitas»? Terá sido ao mesmo tempo de «fazer fitas». Sim, mas quando? Bem, só poderá ter sido depois do advento do cinema, pois «fita» é, em ambos os casos, sinónimo de «filme». «Fita», nesta acepção, regista o Dicionário Houaiss, é uma extensão de sentido e significa «acção ou dito que visa iludir, enganar ou impressionar; manha, fingimento».
      Agora imagine, se o salto não for violento, D. Teodósio de Bragança (1634–1653), filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, dizer à irmã Joana (1635–1653): «— Deixa-te de fitas, Joana. O peixe foi ter com a família dele.» Os meninos estavam a brincar junto de um tanque de pedra no Paço de Vila Viçosa, e o primogénito tinha acabado de lançar para a água um peixinho vermelho que antes apanhara para dar à irmã. A ama das crianças — a séculos de aparecer o Facebook, a moçoila pouco mais tinha com que se entreter — conversava com um moço de cavalariça. É um anacronismo, claro que sim, só estranho é que ninguém tenha pensado no caso. E um anacronismo é grave, mata a obra? Se estamos perante um romance histórico, fere-a. Na ficha técnica (Catarina de Bragança, Isabel Stilwell. Lisboa: A Esfera dos Livros, 5.ª ed., 2008), vejo que a pesquisa histórica esteve a cargo de Joana Troni e a revisão de texto a cargo de Eurico Monchique e Alexandra Pereira.

[Post 3489]
Etiquetas
edit

Pronúncia: «efémero»

No que tange à pronúncia


      Por vezes, escassas vezes, vejo a rubrica Bom Português, na RTP1. A última emissão que vi era sobre o acento da palavra «efémero». A locutora pronunciou sempre a palavra, fenómeno bem analisado por Fernando Venâncio e quase sempre evitado por outros estudiosos, porque a pronúncia é um tema próximo do tabu, com o e inicial átono a soar como e fechado: ê. Êfémero, disse ela sempre. E se isto um dia vai tudo parar à grafia? Não foi assim fenómeno tão raro a adaptação da grafia à pronúncia. Só um exemplo: irmão, que vem do latim, e depois de vários fenómenos fonéticos, germanu, deveria, por respeito à etimologia, escrever-se «ermão», mas a influência da pronúncia do e átono inicial como i foi decisiva. «Um disparate ênorme», diz o leitor? Veja bem o que diz.

[Post 3488]
Etiquetas
edit

Ortografia: «soçobrar»

Soçobrou


      É verdade: o fonema s pode ser representado por várias letras ou combinações de letras (c, ç, s, ss, sc, sç, xc, xs, x). Se não sabemos de cor, temos de usar, não há alternativa, o dicionário. Sobretudo um revisor não pode confiar absolutamente na memória ou na competência do tradutor ou autor. «No que dizia respeito à velha guarda. Os “puristas”, o The Judge iria aguentar-se ou sossobrar pela sua probidade intelectual» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 41). Se se tratasse mesmo da 3.ª edição, era impossível o erro continuar a enodoar o texto. Aliás, numa reedição deveria ser sempre outro revisor a ver a obra.


[Post 3487]
Etiquetas
edit

«Radiador/irradiador»

Ouço bem


      «Antes de despir o casaco, pouso a caixa de livros e a minha mochila na grande mesa de carvalho da cozinha, ligo os candeeiros e depois arrasto o irradiador eléctrico do quarto pelo vestíbulo e ligo-o à tomada, vendo as duas barras de metal corarem debilmente (e, parece-me sempre, apologeticamente)» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, pp. 22-23). «Clive entrou em casa e permaneceu na entrada, absorvendo o calor dos radiadores e o silêncio» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 26).
      Radiador ou irradiador? Muitos falantes têm a mesma dúvida. Em 2008, um consulente fez a pergunta ao Ciberdúvidas. O último parágrafo da resposta do consultor A. Tavares Louro é este: «No uso corrente, usamos a palavra radiador para os dispositivos de arrfecimento [sic] dos motores, e a palavra irradiador para os aparelhos de permitem aquecer o ambiente.»
      Reparo muito bem na forma como as pessoas falam, e não é isto que dizem, não senhor. Usam, isso sim, o termo «radiador» para designar os dois dispositivos. Numa actualização não datada, referem que um engenheiro e professor de Física Termodinâmica, Jorge Martins, enviara a seguinte achega: «Radiador (ou irradiador) refere-se à transferência de calor por radiação, um dos três modos que existem (radiação, convecção e condução). Na verdade, os radiadores dos automóveis deveriam chamar-se “convectores”, pois perdem calor por convecção, tal como os “radiadores” domésticos, embora nestes a transferência de calor por radiação possa ser significativa. Já o termo “pavimento radiante” está correcto, pois neste caso o que se pretende é melhorar o conforto térmico pelo controlo da radiação pessoa-envolvente. Por outro lado, não é habitual usar-se o termo “irradiação”, mas sim radiação, pelo que o vocábulo irradiador não se deveria usar.»
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se regista «irradiador», não deixa de acolher estas duas acepções do vocábulo «radiador»: «dispositivo destinado a provocar o resfriamento de motores» e «aparelho electrodoméstico destinado ao aquecimento do ambiente interno de edifícios».

[Post 3486]
Etiquetas
edit

«Estar no vermelho»

Quem percebe?


      De vez em quando lembro-me do critério (mesmo que tenha sido apenas um piscar de olho ao leitor) de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público: «No seu caso, o provedor, ao redigir um texto, costuma pensar: “Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?” (para esta crónica, se não desistirem a meio, vão seguramente necessitar de recorrer com muita intensidade aos dicionários). Tudo o que pode pois recomendar aos jornalistas do PÚBLICO é que tenham idêntica atitude.» Voltei a lembrar-me deste conselho quando li o seguinte título da edição de hoje: «Proibição dos movimentos especulativos na Alemanha atira bolsas para o vermelho». Terão pais da jornalista Rosa Soares, autora do artigo, percebido o título? É verdade que a expressão «estar no vermelho» se ouve quase todos os dias na rádio, mas ainda assim, o leitor/ouvinte médio apenas pode entreconhecer o sentido, o que é manifestamente pouco. Sim, a primeira frase lança luz sobre o significado, mas de forma indirecta: «A decisão alemã de proibir o naked short-selling sobre acções e obrigações europeias gerou ontem uma queda violenta nas bolsas» (p. 22). Parece-me ser mera tradução da expressão inglesa to be in the red. O Aulete Digital é, pelo que vi, o único que a regista: «Situação deficitária de um país, de uma empresa ou de uma pessoa: Somente agora ele conseguiu sair do vermelho
      De qualquer modo, fica-me sempre a dúvida: a escrita incompreensível é um desiderato ou fruto da inépcia? Quantos leitores terão compreendido estes «envios culturais e políticos»? «Revelada com Laborintus (1956), livro de estreia duramente criticado por Pasolini, a sua poesia, no seu tom céptico e irónico, e no seu deliberado prosaísmo, é uma desconcertante mistura de trivialidades do quotidiano, jogos de palavras e envios culturais e políticos» («Morreu o poeta italiano Edoardo Sanguineti, o autoproclamado “último marxista”», Luís Miguel Queirós, Público, 20.5.2010, p. 19).

[Post 3485]
Etiquetas
edit

Léxico: «frântico»

Língua frenética


       «É uma atitude pertinente numa altura de frânticas exclamações de não sermos a Grécia. O Financial Times e o Economist não são o Reino Unido — são jornais. O que dizem sobre Portugal é escrito por uma ou duas pessoas e lido por poucas mais. Os ditos mercados estariam lixados se dependessem do que lêem nos jornais. Não é só saber que são falíveis. Sabem mais: que, caso seguissem as recomendações que fazem, estariam falidos há muito tempo» («O que dizem de nós», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.5.2010, p. 43).
      Por algum motivo que não descortino, Miguel Esteves Cardoso pensa que por meio do adjectivo «frânticas», aportuguesamento do inglês frantic, exprime melhor a ideia do que com o adjectivo português «frenético». Não sou da mesma opinião, mas, por ter um uso episódico, localizado, numa crónica e não numa notícia, não acho que venha grande mal ao mundo. Contudo, se muitos leitores não sabem o que é blockbuster, e muitos mais desconhecem «frântico», por não conseguirem ver por detrás o inglês frantic, aquele «é todo um» tem ou pode ter consequências muito mais devastadoras para a língua.

[Post 3484]

Etiquetas
edit

Espanholismo

Olé!


      «Todo um blockbuster, com mais entradas do que mostras de grande público como A Evolução de Darwin, que no ano passado se tornou na exposição temporária mais visitada de sempre em Portugal (161 mil visitantes na Gulbenkian). Mais entradas também do que o inesperado sucesso que foi a retrospectiva em 2006-2007, ainda na Gulbenkian, de Amadeo de Souza-Cardoso, que superou as 100 mil visitas» («Joana Vasconcelos é todo um blockbuster de 168 mil visitantes», Clara Campanilho Barradas, Público, 20.05.2010, p. 44).
      Sim, há males maiores, mas um espanholismo assim tão evidente e escusado perturba sempre muito. E ainda mais no título: es todo un. Se não têm tempo de rever tudo (não são, sequer, revisores), espera-se ao menos que façam o que dizem que lhes compete fazer: «os copydesks dedicam especial atenção a títulos, pós-títulos, entradas, legendas, início e fim dos textos; conferem ainda a observância das regras gráficas mais relevantes que caracterizam o PÚBLICO».
      Na conversa de ontem, a copidesque do Público referiu enfática e repetidamente a questão que a deixou de cabelos em pé: chegou um dia ao jornal (os conluios, é da própria definição, são sempre nas nossas costas) e viu que se tinha começado a usar o termo da linguagem desportiva «contra-relogista». «Uma coisa abstrusa, impensável. Como é que pode ser? O que é um “relogista”?»
      Procurei saber quantas palavras temos em português começadas por contra- e acabadas com o sufixo nominal -ista (e o verbete relativo a este sufixo está deficientemente redigido, incompleto, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). São quatro: contrabaixista, contrabandista, contrapontista e contratista. Depressa descobri que não era aqui que estava a resposta (até porque não é o radical que atribui categoria sintáctica à palavra), mas tão-somente em saber a que palavras se acrescenta o sufixo. Junta-se a substantivos, simples (alarmista) ou compostos (água-tintista) e a adjectivos, simples (acacianista) ou compostos (zen-budista). Sendo assim, não vejo qual é o problema com o neologismo «contra-relogista».
      Para terminar: grave é aquele blockbuster, ainda para mais repetido. E parece-me usado com pouca propriedade.

[Post 3483]
Etiquetas
edit

«Boa/boá»

Essa é boa!


      «Espalhafatosamente, como quem enrola uma boa de penas de avestruz ao pescoço, Cavaco Silva promulgou o casamento gay. Feito drama Queen de primeira, anunciou que não queria, mas fazia, por causa da “situação dramática” do país. Porque não queria que os políticos se “desviassem”» («O cu com as calças», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.5.2010, p. 43).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — que vergonha! — não regista a variante, muito mais usada, boá (a reproduzir a pronúncia mais habitual, não a única, do étimo francês). Regista-a o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Regista-a, pois claro, o Dicionário Houaiss: «espécie de estola estreita e comprida, de peles ou de plumas, usada ao pescoço como peça do vestuário feminino». Para este dicionário é do género masculino, mas para os outros dois é do género feminino (lembrem-se do caso, recentemente aqui tratado, do/da pampa).

[Post 3482]
Etiquetas
edit

Ortografia: «jeremiada»

Isso nem foi o pior


      «Tenho um peso na consciência. Na última crónica usei a certa altura a expressão “pessimistas jeremíadas” para me referir às crónicas de Pacheco Pereira, Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares. Peço desculpa. Trata-se de uma redundância: uma jeremíada é, por natureza, pessimista. Ainda tentei corrigir enviando uma emenda de última hora para “amargas jeremíadas”. Felizmente, não fui a tempo: uma jeremíada é sempre amarga; outra redundância. Quais eram as opções corretas? Repetitivas jeremíadas. Preguiçosas jeremíadas. Em última análise, redundantes jeremíadas» («Redundâncias», Rui Tavares, Público, 19.5.2010, p. 44).
      Consultei, num assinalável excesso de zelo, doze dicionários apenas para concluir o que já sabia: só jeremiada existe. Lamente-se, pois, Rui Tavares na próxima crónica pelos erros da penúltima e da última, reflexo, decerto, de uma silabada. O vocábulo chegou-nos da língua francesa, jérémiade, que também tem, como nós, o respectivo verbo, jérémier/jeremiar. Foi forjada a partir do nome do profeta Jeremias.

[Post 3481]

Actualização em 20.5.2010


Esdruxularias

      Vale a pena trazer para aqui a questão que se levantou nos bastidores. Comentou José João Leiria: «O Dicionário de Termos Literários, organizado por Carlos Ceia (que é também o autor desse verbete), regista no entanto “jeremíada”...
      Não se podem mudar os dicionários, desde que passaram a acolher também, por exemplo, “púdico”?
      De resto, se for possível dizê-lo assim, “jeremíada” parece-me mais eufónico (?) do que “jeremiada” — e o facto de vir do francês não ajuda.
      Exemplos (péssimos, provavelmente): qual é mesmo a acentuação francesa para Olympiade, Lusiades, Iliade

      Quanto à eufonia, acho precisamente o contrário. Tanto Carlos Ceia como Rui Tavares erraram, parece-me claro. E a explicação para o erro ter sido divulgado ainda é mais simples: em nenhum dos casos os textos foram revistos. Em relação à crónica de Rui Tavares, não é especulação minha: na conversa de revisores que anunciei aqui, uma copidesque do Público, Manuela Barreto, afirmou que nem todos os textos são revistos, e muito menos as crónicas, até porque alguns cronistas impõem como condição não serem (!) revistos. Gente modesta, decerto. Mas o panorama da revisão no Público ficou aqui traçado. Creio que se chegou àquele erro por uma espécie de condicionamento psicológico: raríssimas vezes ouvimos ou lemos (quantas vezes o leu ou ouviu o João José? Eu só o ouvi uma vez, da boca de um padre, em 1984. Escrito, só em dicionários) o vocábulo e como a associamos, e bem, ao nome Jeremias, é natural que se dê essa silabada, depois transposta para a escrita com a errada esdruxulização. Sabe-se, ao contrário do que o senso comum nos dirá, que os vocábulos com menor índice de frequência são os mais sujeitos a alterações fonéticas e ortográficas. Por outro lado, duvido que tenha sido por opção consciente, reflectida, informada, em suma, baseada no conhecimento de que os dicionários registam «jeremiada» que se chegou a «jeremíada». Quanto, finalmente, aos exemplos que aduz, não me parecem mesmo os melhores, e percebe porquê.

Etiquetas
edit

«Cabilas», «Chauias»

Lá na Argélia


      «O fellah, ou pequeno agricultor, é a alma da nação argelina. A leste de Argel vivem os Cabílios: montanheses berberes, povo antigo de rostos compridos e olhos cor de avelã. […] No Sudoeste do país, no maciço de Aurès, vivem os Chaouías» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 271).
      Mas os dicionários só registam, e bem, Cabilas, ortografia que se lê também nos jornais: «Por seu lado, os cabilas de França pedem a Chirac que “tenha uma palavra” para os “democratas” argelinos, nomeadamente da Cabília, uma província em situação de sublevação quase permanente desde há dois anos» («Argélia e França tentam estabelecer relações “fortes, confiantes e serenas”», Ana Navarro Pedro, Público, 2.3.2003, p. 23). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista no respectivo verbete: «designação de algumas tribos nómadas, especialmente árabes norte-africanas». Esta é a primeira acepção. Como segunda acepção, regista: «tribo ou grupo de famílias que vivem no mesmo lugar». É apenas esta acepção — «tribo ou associação de famílias árabes» — que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolhe. Nesta acepção, é sinónimo de cabilda, que este dicionário também regista. O Dicionário Houaiss regista «cabila», mas apenas na segunda acepção, e «cabilda».
      Quanto a «Chaouías», o tradutor e o revisor deviam ter tido mais cuidado. É óbvio ou não é que o ou é a marca do francês? Não vejo o vocábulo em nenhum dicionário da língua portuguesa. Nem na imprensa portuguesa. Encontrei na imprensa espanhola: «Cerca de tres millones de personas integran la etnia kabilia, descendientes de las antiguas legiones romanas y de los primeros habitantes bereberes, hombres y mujeres de tez blanca y cabellos rubios o pelirrojos, de rasgos fundamentalmente distintos a los de otros grupos bereberes de Argelia, como los tuaregs, los mozabitas y los chauias» («La mujer tiene los mismos derechos que el hombre en la Kabilia argelina», Manuel Ostos, El País, 12.4.1980). Mas podemos ir mais para trás: na hemeroteca do La Vanguardia, numa edição de Setembro de 1907 pode ler-se o vocábulo.
      Em resumo: os dicionários têm muito por onde melhorar, assim como tradutores e revisores.

[Post 3480]
Etiquetas
edit

Ortografia: «lobo-da-alsácia»

Qual lobo


      «Cá em baixo, no pátio, havia umas árvores da papaia enfezadas e um canil alojava um feroz lobo de Alsácia que deu grandes puxões à corrente que o prendia, uivou e arreganhou os dentes quando passei» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 258).
      Mas não é um lobo, é um cão. Logo, lobo-da-alsácia. (O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista lobo-d’alsácia, e nunca devemos desperdiçar uma oportunidade de usar o apóstrofo.) O Dicionário Houaiss não regista o vocábulo, que os Brasileiros não usam. Regista, sim, um outro nome por que é conhecida esta raça canina: pastor-alemão. («Trata-se pois de estórias dum cão pastor-alemão na cidade de Luanda» [O Cão e os Caluandas, Pepetela. Dom Quixote, Lisboa, 5.ª ed., 2006. Revisão de Susana Baeta, p. 9].) Em inglês é German shepherd.

[Post 3479]
Etiquetas
edit

Ortografia: «ascensão»

Sempre a descer


      «A antiga Mesopotâmia e o Egipto tiveram o mesmo problema com estes marginais cujas deslocações imprevisíveis nos desertos e montanhas à volta eram fonte de ansiedade nos tempos de ascenção nacional e de terror nos tempos de crise» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 240).
      Num jornal ainda se compreende, apesar de tudo. Numa obra literária é imperdoável. Lembrem-se de ascensor — com s!

[Post 3478]
Etiquetas
edit

Nomes chineses

Como calha


      «Só ele nos sabe contar que Estaline considerava Robinson Crusoé como o “primeiro romance socialista”, que a mão de Mao Tsé-Tung era “rosada como se tivesse fervido numa panela”, ou que a pele branca e os olhos desvairados de Trotsky lhe davam a aparência de um ídolo sumério de alabastro» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 130). «O romance mais conhecido, La condition humaine (A Condição Humana), relata, numa delirante sucessão de episódios, a última revolta de Xangai contra Chiang Kai-Tchek, em 1927» (idem, ibidem, p. 131). «Nos seus esforços, Wu-ti foi recompensado pela descoberta de um rapaz de dezoito anos, Ho-Ch’u-ping, que se proclamou o flagelo dos Hunos» (idem, ibidem, p. 221). «O imperador enviou o seu embaixador, Chang-ch’ien, à procura deles nas regiões do Extremo Ocidente a fim de os persuadir a regressar às suas antigas pastagens» (idem, ibidem, p. 222). «Os habitantes liquidaram o seu velho e irritável rei e prometeram dar a Li-kuang-li os seus melhores corcéis celestes, se ele levantasse o cerco» (idem, ibidem, p. 225). «Ocorreu-nos, no entanto, que estes garatujos tempestivos não estavam, no final de contas, muito longe do espírito de Tao-te-ching, de Lao-tze» (idem, ibidem, p. 237).
      Gritemos em coro para que o tradutor e o revisor nos possam ouvir: qual o critério? Nenhum, evidentemente! Já aqui abordámos esta questão. (E não vejo «garatujo» registado em lado nenhum.)

[Post 3477]
Etiquetas
edit

Regência do verbo «preferir»

Não pode ser


      «“Prefiro morrer no meio daquelas magníficas montanhas do que sozinho na cama de um hospital sinistro”» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 233). «Os Nakhis são gente apaixonada e, ainda hoje, jovens amantes preferem envenenar-se, afogar-se ou saltar de um abismo, do que sujeitarem-se a um casamento indesejado» (idem, ibidem, p. 235).
      Uma tradução não é o texto adequado para a exibição de semelhantes relativismos linguísticos. A norma culta portuguesa manda usar-se a construção «preferir uma coisa a outra», e o tradutor e o revisor não podem ignorá-la.

[Post 3476]
Etiquetas
edit

Regência do verbo «consistir»

E a decência sintáctica?


      «Além do barrete, o traje das mulheres consiste de um corpete azul, avental branco plissado e uma capa direita acolchoada, presa por cordões entrecruzados» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 229).
      Já aqui vimos uma citação do Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre a regência do verbo consistir. Este estudioso, se se lembram, atribuía esta regência espúria à influência do inglês consisted of. E, no caso, trata-se mesmo de uma tradução do inglês.

[Post 3475]
Etiquetas
edit

Léxico: «cúmis»

Conversa de Revisores


      «O cúmis é uma bebida de leite de égua fermentado, alimento básico dos nómadas da estepe e remédio para todas as doenças» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 192).
      Salvo erro, é a primeira vez que leio este termo assim aportuguesado. De todos os dicionários consultados, apenas o Aulete Digital o regista: «bebida feita com leite de égua fermentado em odres, de que usam certos povos da Rússia e da Ásia Central». Poucas vezes a opção pelo estrangeirismo é mais adequada do que o correspondente termo português. E a justificação de que não se usa um vocábulo aportuguesado ou um termo português alternativo porque ainda não está generalizado é, em si, um contra-senso. É isto mesmo, entre outros aspectos que o desenrolar da conversa propiciar, que amanhã direi na sessão do curso de Formação Avançada em Revisão e Edição de Texto da Universidade Católica (UCP) para que fui convidado.

[Post 3474]
Etiquetas
edit

Uso da maiúscula

Pequeno


      «Depois da guerra, foi sugerido que se deixassem as ruínas de Estalinegrado tal como estavam, como um eterno monumento à derrota do Fascismo» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 208).
      Mas os nomes de movimentos estéticos, filosóficos, políticos, doutrinários grafam-se com minúscula inicial: classicismo, comunismo, fascismo, marxismo, nazismo, romantismo...
      A propósito: como pronunciam os meus leitores a palavra? Com o a fechado (â) ou aberto?

[Post 3473]
Etiquetas
edit

Léxico: «piquenicar»

Delicioso


      «O sol brilhava: gente a piquenicar acenava-nos da margem e lanchas velozes subiam e desciam o rio, a abarrotar de excursionistas» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 205).
      Nenhum dicionário regista o verbo piquenicar. Ainda assim, considero correcto o seu uso, tanto mais que na oralidade é muito usado. (A propósito, é chocante que a cadeia de supermercados Modelo persista na grafia abstrusa *mega pic-nic.)

[Post 3472]
Etiquetas
edit

Ortografia: «gaullista»




      «A carreira de André Malraux [1901–1976] tem espantado, divertido e, por vezes, alarmado os Franceses. Como arqueólogo, autor de romances revolucionários, viajante e conversador inveterado, herói da guerra, esteta e ministro gaulista, é o seu único aventureiro de primeira classe ainda vivo» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 130).
      Mas os termos derivados de nomes estrangeiros não mantêm as características da grafia original? E este não tem dois ll? Apesar do contexto, o leitor é naturalmente levado a pronunciar mal o vocábulo. Assim, pouco falta para se escrever «galista», o criador e treinador de galos de briga.

[Post 3471]
Etiquetas
edit

«Pampa»: masculino ou feminino?

De evitar


      «Andou aos pulos toda a manhã, debaixo de um sol escaldante, passando de uma linha para a outra sem nunca pisar a superfície castanha do pampa» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 116). «Demorámos mais de uma hora a procurar o pampa devido» (idem, ibidem, p. 117).
      Nem tudo o que está certo está bem: lembremo-nos, só a título de exemplo, do caso do topónimo Pompeia, que alguns querem que se escreva Pompeios. No caso de hoje, o Dicionário Houaiss regista, e julgo que é o único (mas o Aulete Digital di-lo unicamente masculino), que o vocábulo «pampa» tem dois géneros, mas optar pelo género masculino vai contra toda a tradição. Ganha-se alguma coisa com essa opção? Nada.

[Post 3470]
Etiquetas
edit

Ortografia: «preênsil»

Agarra-te


      «Um macaco-aranha da Amazónia com uma cauda prênsil enrolada para cima numa espiral» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 110).
      Os revisores têm de apreender esta verdade simples: com palavras raras, só de dicionário na mão. Se ainda por cima não têm sequer umas tinturas de latim e grego, cuidado redobrado. Há duas semanas fui ao Jardim Zoológico e, em frente à jaula de um qualquer símio pendurado pela longa cauda negra, usei essa palavra, tendo articulado bem os dois ee para ser bem percebido.

[Post 3469]

Etiquetas
edit

«Carnaval/carnaval»

É um carnaval


      «Com esta precisa distinção dialéctica, ela equipara a roupa daquele costureiro a trajes de carnaval» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 104).
      No Brasil é que se grafa com inicial minúscula o vocábulo quando se refere à quadra festiva. A propósito desta questão, escreve o Prof. Sacconi no seu blogue: «Sempre com inicial minúscula: carnaval. Não há necessidade nenhuma desta palavra vir com inicial maiúscula. A mídia, no entanto, continua usando-a com inicial maiúscula. Explicar por quê, ninguém sabe.» De facto, o Formulário Ortográfico de 1943 estatui que se deve grafar com inicial minúscula o nome de festas pagãs e populares. Em Portugal, a Base XXXIX do Acordo Ortográfico de 1945 manda grafar com maiúscula inicial o nome de todas as festas públicas tradicionais, e até exemplifica com Carnaval. Com o Acordo Ortográfico de 1990, continua a ser assim, embora, única diferença, já não se exemplifique com o nome desta festa (vide Base XIX, 2.º, e)).

[Post 3468]
Etiquetas
edit

Arquivo do blogue