Advérbios de interrogação

José Maria Relvas sabia


      Comprei, ontem de manhã, na Feira das Oportunidades, organizada pela Paróquia do Campo Grande, por 50 cêntimos, um exemplar da 29.ª edição da Gramática Portuguesa de José Maria Relvas (Porto: Machado & Ribeiro, Limitada). O revisor antibrasileiro de vez em quando falava (e com que orgulho!) desta gramática, pela qual, dizia, tinha estudado. Na página 167, sobre os advérbios, lá está: «Advérbios de interrogação — como? onde? quando? porque? qual?» Daí o encarniçamento dele quando via por que quando devia estar porque. Nas décadas que se seguiram à publicação desta gramática, pela qual aprenderam várias gerações, a maioria das gramáticas evitou incluir entre os advérbios interrogativos o «porque», lançando um véu de ignorância para cima dos leitores. Ainda recentemente, a tradutora Helena Pitta me pedia, numa mensagem de correio electrónico, que desse o meu contributo para esta questão. A verdade é que nunca evitei esclarecer, neste blogue, na formação que dou e mesmo em publicações, esta (inexplicavelmente) controversa questão.

[Post 3514]

Advérbio interrogativo

Porquê?     


      «Foi o gosto de mostrar as suas peças que a fez criar um blogue em 2001. Nessa altura, não tinha a intenção de começar a fazer este tipo de trabalho profissionalmente. “Mostrava as coisas naturalmente na Internet. As pessoas que viam o meu blogue é que começaram a dizer: ‘Ah, tão giro! Porque é que não vendes?’”» («Bonecos que começaram por ser desenhos de um blogue», Sara Picareta, Público, 23.12.2009, p. 20). «O que fica para reflexão é saber como interpretar o bailado mais ou menos caótico protagonizado pelos grandes actores mundiais, que está na base deste relativo fracasso político. Prevaleceu o G20 ou o G2? Por que é que a União Europeia pesou tão pouco?» («Depois de Copenhaga», editorial, Público, 23.12.2009, p. 30). Só acertam quando julgam errar.

[Post 2929]

Advérbio interrogativo de causa

Ora aqui têm

      «Porque, pois, trás da sombra ides correndo,/Homens, que a luz no berço baptizara?» («Pater», Odes Modernas, Antero de Quental, edição fac-símile, Sá da Costa Editora, 2009, p. 71). Muito bom serviço à cultura e à língua portuguesas esta edição fac-símile, que reproduz outra que foi organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio. Ora vejam, caros teimosos, como o advérbio interrogativo está grafado porque. Já tinha prometido a mim próprio não abordar esta questão, mas nem sempre conseguimos cumprir. Sim, é verdade, esta edição da Sá da Costa reproduz a de 1943. Querem ir mais para trás? Vamos! Na 1.ª edição: «Porque, pois, trás da sombra ides correndo,/Homens, que a luz no berço baptizára?» (Odes Modernas, Anthero do Quental. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1865, p. 48). Lapso? Deixem-me rir! Outro exemplo da edição da Sá da Costa: «Porque morreu sem o eco de teus passos,/E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?» («A um crucifixo», p. 141). Querem mais? Leiam a obra. Estudem. Vão dar uma volta.

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