Símbolo de percentagem


A bem da clareza

      Cá está: à semelhança dos próprios números, também os símbolos se não devem elidir. Ainda que ao lermos possamos dizer «Consumo de tabaco baixou entre 10 e 15 %», temos de escrever, como fez o Diário de Notícias, «Consumo de tabaco baixou entre 10 % e 15 %». Se repararem, não é todos os dias, sobretudo na imprensa, que vemos as coisas feitas desta forma.

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Tradução: «technical requirement»

Exigências e pedidos


      Não me perguntem quantas vezes vejo, mas de vez em quando vejo a locução inglesa technical requirement traduzida por «requerimento técnico». Acaso já se deram ao trabalho de consultar um dicionário para verem o que significa «requerimento»? «Acto ou efeito de requerer»; «petição por escrito, segundo certas fórmulas legais», «pedido». Parecido, sim, com a palavra correcta: «requisito».



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Tradução: «senior editor»

Seniores e juniores, hã?


      Obrigado pelas suas palavras, caro António Martins. Sim, este blogue fez ontem três anos, e este é o 1942.º texto que aqui escrevo.
      Vamos agora ao que interessa: tudo o que inclui «sénior» cheira logo a escusada inglesice. Até já pode ter lido e ouvido «editor sénior», mas a designação editor principal (ou editor-chefe) é genuinamente portuguesa e muito usada. Era o que faltava, tantos seniores: senior officers, senior members, senior sisters, etc.

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Pronúncia: «vacina»

Outro surto

      Com a sazonal epidemia de gripe, recomeça outro problema associado: os médicos e demais profissionais da saúde a pronunciarem /vàcina/. Mais benigna só a própria doença. Claro que, ao longo do ano, sempre temos os, inconscientes embora, propugnadores do desemudecimento da língua a dizerem /bàctéria/. Haja saúde para os aturar a todos.


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Tradução: «chief of staff»

O Rahm de Benfica


      Logo de manhãzinha, vejo passar, com o lumeiro do cigarro a anunciá-lo à distância, o sósia de Rahm Emanuel com o seu cão. À noite, vejo-o vir buscar a mulher, num grau variável de bebedice, ao café, onde esteve o dia inteiro. Mas não é deste casal que quero falar, mas sim da tradução de chief of staff. Alguma imprensa e blogues deixam-no assim, dando-o por intraduzível, o que não me parece bem. O Diário de Notícias também vê as coisas de outra maneira: «O jornal Chicago Tribune revelou sábado que o chefe do Gabinete da futura administração, Rahm Emanuel, conversou com o governador do Ilinóis sobre os candidatos ao lugar de Obama no Senado e deu-lhe uma lista de nomes “aceitáveis” aos olhos do Presidente eleito» («Corrupção em Chicago arrasta chefe do Gabinete de Obama», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 15.12.2008). Mas já vi traduzido por — agarrem-se bem! — «chefe do Estado-Maior da Casa Branca».

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«Ecléctico» e etc.

Por alguns anos


      Num programa antigo sobre a solidão, na RTP Memória, vi ontem Belarmino, firme e hirto, dizer «somos capaz» (e não «somos capazes»), e pensei como João de Araújo Correia iria apreciar esta forma correcta de dizer. Por outro lado, aparecia Carlos Paço D’Arcos num programa radiofónico, e em cima da mesa o cartão de pessoa colectiva do movimento que fundou: o MERDA, Movimento Eclético de Reflexão de Dependentes e Agarrados. «Eclético», erro frequentíssimo, lia-se no cartão. Erro de um funcionário pouco letrado do Registo Nacional de Pessoas Colectivas ou dos fundadores? O Acordo Ortográfico de 1990, porém, vem sancionar essa forma de escrever: eclético será.

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Sobre anatomia e analogia

Imagem: http://www.doctor-rabat.net/

Ouvido por aí


     
«Vai ter de levar uma rótula nova.» «Rótula?! É na anca.» «Sim. Então não é o mesmo, rótula?» É o processo de analogia a funcionar: parece (?) uma rótula, é uma rótula. No entanto, trata-se da cabeça do fémur, que encaixa no acetábulo (este, para os Romanos, era apenas um vaso para conter vinagre, em forma de taça), a porção articular côncava da superfície da pélvis. E ainda quanto a parecer uma rótula: rótula vem do latim e significa pequena roda, bem longe da cabeça do fémur, uma «bola».
     
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Tradução: «only begotten»

Temas bíblicos


      Cara Teresa Silva: essas são discussões teológicas, que não têm certamente lugar aqui, pois não sou especialista na matéria. Only begotten traduz-se, isso posso dizer-lhe, por «unigénito», palavra que ocorre na Bíblia a traduzir o grego μονογενής e que o Catecismo ainda refere, significando «único que foi gerado».

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Apóstrofo e apóstrofe


Tradução a Mattelo


      A Mattel Portugal pediu a alguém que traduzisse as instruções do jogo Scrabble. Faltou, desgraçadamente, dinheiro para contratar os serviços de um revisor e o resultado está à vista: confunde-se apóstrofo, o sinal gráfico (’) designativo da elisão de uma ou mais letras numa palavra, com apóstrofe, a figura de estilo que consiste numa interpelação a alguém realizada através da utilização do vocativo e do discurso directo. Já vimos aqui outros jogos com o mesmo tipo de defeito.

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Tradução: «junior officer»

Nem a concordância



      «Oficiais júnior»?! Se se pretende traduzir o inglês junior officers, temos de conhecer (o que podemos fazer aqui) a designação na hierarquia militar do respectivo ramo das Forças Armadas portuguesas. Ver-se-á assim que os junior officers correspondem aos nossos oficiais subalternos.



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Léxico: «esfolhear»


Digam assim



      Desfolhar, não, mas esfolhear: «Bem trinta anos decorridos, já, delida, ou quase, me ia a parda na ideia, até à noite em que, pouco além já de só caçador de imaginação — ainda não pela fraqueira de bofes e pernas, mas pela tirania da cidade —, me dei a esfolhear um livro de caça, Leçons de Chasse à Tir sur le Terrain, dum tal Piaut-Beaurecoir, livro levinho e de cartonagem verde, editado pelas Manufactures de Saint-Etienne» (Tomaz de Figueiredo. Dicionário Falado. Lisboa: Editorial Verbo, 1970, p. 169).

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Tradução do inglês

Literalmente

      Imaginem, se não lhes custa, que o original inglês diz qualquer coisa como o orçamento da defesa ter sido aumentado «from $13.5 billion to $48.2 billion». Na tradução, não podemos admitir que fique «de 13,5 para 48,2 mil milhões de dólares», pois com números não há elipses. Será então «de 13,5 mil milhões para 48,2 mil milhões de dólares».

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Tradução: «think tank»

Imagem: http://www.aecom.yu.edu/

Desculpas



      O leitor Carlos Oliveira pergunta-me como se deve traduzir a expressão inglesa think tank, que, sobretudo nos jornais, vê abundantemente por traduzir e por explicar. Bem, comecemos com o conceito. Segundo alguns dicionários, um think tank é «a group or an institution organized for intensive research and solving of problems, especially in the areas of technology, social or political strategy, or armament» (in Answers.com). Tenho visto traduzido por laboratório ou fábrica ou banco de ideias. E, francamente, parece-me bem. Afirmar que é intraduzível é somente uma desculpa para usarmos palavras de outra língua, numa ilusória tentativa de engrandecer o que escrevemos. Quando, procedendo dessa maneira, é precisamente o contrário que sucede. Aceitam-se outras sugestões.

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Sobre «fronha»


Quando havia povo


      Alguns dicionários ainda registam fronha na acepção popular de «cara, rosto, máscara», que, quando calha, se ouve. Há anos, Tomaz de Figueiredo foi ouvir a senhora Maria da Conceição Gomes, a tia Maria Berrelha, que o escritor inscreveu no rol dos seus mestres de linguagem. E esta senhora, que sabia muito, «só ler é que não, sem que lhe faça e fizesse minga», explicou porquê fronha: «Uma fronha, sim, a máscara de Entrudo que enfiavam pela cabeça os estúrdios aldeões, fronha de croché, alguma de crivo — já luxo de bragal centenário —, e vazada, assim. A moça ou o moço da folia a ver para fora, ninguém a ver-lhe a cara às gradinhas ou aos buraquinhos, atrás daquele reposteiro de intriga e traição. E, lá dos buraquinhos e gradinhas, da trama de algodão ou dos espreitadoiros de linho, a narigar acusas, podres e marmanjarias, amores nada católicos, a crónica secreta dos sítios, o diabo a quatro. Mas também declarações de amores envergonhados, lá isso é verdade, aos ouvidos e em fala natural, meiga…» (Tomaz de Figueiredo. Dicionário Falado. Lisboa: Editorial Verbo, 1970, p. 242).

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Ortografia: «baba-de-camelo»

Imagem: http://oglobo.globo.com/

Väkevä glögi e outras coisas



      Ontem bebi, pela primeira vez, uma caneca de oloroso e quente glögi, a bebida nacional finlandesa. Contudo, como este blogue não é sobre a minha vida, passo já ao que interessa. A leitora Teresa Silveira quer saber se o doce tradicional português se escreve baba de camelo ou baba-de-camelo, e porquê. Isto é, com ou sem hífens. Estamos claramente perante um composto que forma um sentido único ou uma aderência de sentidos, como exige o Acordo Ortográfico de 1945. Logo, baba-de-camelo. Tal como papo-de-anjo, orelha-de-abade, barriga-de-freira e toucinho-do-céu, por exemplo. A baba de camelo propriamente dita é algo, apesar de tudo, diferente: é a própria secreção do simpático mamífero ruminante. Que nunca vi em nenhum restaurante nem quereria degustar.

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Joaquim Figueiredo Magalhães

Só não sabem é português


      Catarina Portas relembra uma conversa com Joaquim Figueiredo Magalhães (1916-2008), fundador da Ulisseia, falecido no passado mês de Novembro: «“Escolhi escritores como tradutores porque eram homens que sabiam português. É que se eu quisesse alguém que soubesse línguas, entregava as traduções ao porteiro do Avenida Palace, que sabia oito idiomas, só não sabia era português. Mas também preferia os escritores porque gostavam do que traduziam, traduziam por gosto.” E pagava bem as traduções, não se esquecendo de, em cada reedição, enviar um cheque, tanto a tradutores como capistas, no valor de um terço dos honorários iniciais» («O último livro da Ulisseia s. f. f.», Catarina Portas, Público/P2, 1.12.2008, p. 9. Texto na íntegra aqui).

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Iliteracia

Para eles, é tudo grego


      Um grupo de insurrectos ordeiros (tomem lá um oxímoro) reuniu-se ontem na Praça da Figueira em solidariedade com o movimento grego, respondendo assim ao apelo da Assembleia de Ocupantes da Universidade Politécnica de Atenas. Empunhavam vários cartazes, e num deles lia-se «inssurectos», prova de que a concentração não foi feita pelos melhores alunos. Contudo, noutro cartaz lia-se «Somos todos gregos», o que desculpa o facto de não dominarem a ortografia da língua portuguesa.
      Meninos rabinos: não existe em português a sequência nss. Sim, a MorDebe e alguns dicionários estão errados. Qual «transsexual», qual carapuça!

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«Cabeça de giz»


Sr. Lei


      Por vezes fala-se dos polícias sinaleiros como coisa do passado. No entanto, os cabeças de giz, como são conhecidos na gíria, ainda existem no País. Em Lisboa há quatro. De chapéu colonial, luvas brancas e apito na mão, ainda orientam o trânsito, se bem que já não de cima de um palanque pintado com riscas brancas e vermelhas.


 
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Pronúncia: «Versalhes»

Sempre pensei que…


      Será, leitora distraída, a Pastelaria Versalhes de Maputo, pois a da lisboeta Avenida da República é Versailles, o que explica a pronúncia que se ouve. «Escreve-se Versalhes, mas vamos lendo Vèrsalhes — não vá alguém julgar que não sabemos francês» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 104).


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Tradução: «hoist»

Fotograma do filme 20 000 Léguas Submarinas

Para cima!



      Ainda o filme 20 000 Léguas Submarinas. O Nautilus é bombardeado por um navio de guerra, o que provoca algumas avarias no submarino, pelo que se torna necessário usar o eixo de emergência. No original ouve-se o capitão Nemo ordenar aos seus homens: «Hands up with the hoist.» Na legenda lê-se: «Levantar o elevador.» Claro que hoist também é «elevador», «ascensor». Temos, no entanto, de adequar a tradução ao contexto. No caso, trata-se de um guincho ou guindaste. De resto, mesmo substituindo «elevador» por «guincho» a tradução é equívoca. «Icem-no com o guincho», «Levantem-no com o guindaste» seriam traduções mais correctas.

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Sobre «X-acto»

Dissecado


      «“Sentia-me bem a fazer desenhos nos braços com um X-acto. Os colegas pensavam que estava a brincar, mas eu sabia que não e quanto mais me diziam para parar, mais fazia”» («Cerca de 60 mil jovens já se automutilaram», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 15.12.2008, p. 11). Eu também conheci um jovem que se automutilava, mas isso — espero que todos tenham percebido ao fim de três anos de blogue — não interessa para aqui, mas sim o destaque dado à palavra «X-acto». Para quê? Não é nem estrangeirismo nem uma marca comercial. Já foi. Deu-se uma evolução, pois quando falamos de um X-acto na verdade estamos a referir-nos quase sempre a uma lâmina do tipo X-acto. Grafar em itálico faz tanto sentido como os Brasileiros grafarem «faca olfa» em itálico. A esta mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria.

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Tradução: «morale» (I)

Fotograma do filme 20 000 Léguas Submarinas

Desmoralizador


      Tive de rever, para um trabalho, o filme 20 000 Léguas Submarinas, realizado por Richard Fleisher, com James Mason, Kirk Douglas e outros. No original ouve-se: «False alarms were common, and they didn’t help our morale.» Nas legendas em português, da responsabilidade de Paula Pereira, lê-se: «Os falsos alarmes eram comuns e só serviam para abater a moral.» Já aqui o escrevi uma vez: o facto de em inglês serem duas palavras diferentes, moral e morale, devia levar os tradutores a reflectir na língua de chegada. Em português, a primeira será traduzível por «a moral» e a segunda por «o moral».

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Ortografia: «catrapus»

Truz-truz!

[In media res]… razão por que sou tão atento às onomatopeias e às interjeições. Em suma, escreva catrapus, escreva catrapós, não escreva catrapuz, como se vê neste exemplo: «— Deus odeia os mentirosos — e bateu três vezes na mesa. Catrapuz! Catrapuz! Catrapuz! Manley baixou a cabeça e começou a soluçar; Sears ajoelhou junto à cadeira dele. — Conta-me como a Betty gritou e suplicou, Ruivo. Conta-me, depois conta a Deus» (James Ellroy. A Dália Negra. Terceira edição. Tradução de Maria Georgina Segurado. Lisboa: Editorial Presença, 2006, p. 138). Talvez por isso esteja em itálico… «— Ele o que precisa é de uma auga de unto — volveu o outro. — Queres tu tomá-la, Miguel? É um stante, enquanto se arranja» (João de Araújo Correia. Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 76). Agora a sério: pode ser confusão com a ortografia de truz.

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Selecção vocabular; possessivos


A potes

Pergunto a mim próprio quantas crianças, de norte a sul do País, conhecem o bacio ou penico por pote. Avalio por mim, que, por uns breves instantes, fiquei perplexo perante o título Ruca Aprende a Usar o Pote, mais um título da infindável colecção referente a esta personagem da série televisiva. Tão perplexo como a personagem quando vê o objecto: «O Ruca pegou no pote e colocou-o na cabeça, para imitar um chapéu.»
A ficha técnica ajuda-nos a perceber tudo: o título original é Caillou — Le pot. A tradução e adaptação é de Sara Costa, a quem mando este recado: segundo certos estudos (Rice e Wexler, 1996, e Restrepo e Kruth, 2000, v. g.), a omissão do pronome possessivo é uma marca clínica de crianças com distúrbio específico da linguagem — mas de crianças falantes do inglês e do francês! Os tradutores portugueses devem desbastar, se querem escrever português de lei, os pronomes possessivos, marca sobretudo do inglês. Os revisores devem acompanhá-los ou substituí-los nesta nobre tarefa.

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«Certamente que», de novo

Certamente que viram

Sirva como exemplo esta frase da noveleta O Terrorista de Berkeley, Califórnia, de Pepetela (2.ª edição. Revisão de Rui Viana Pereira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 22), já aqui citada para outros fins: «Certamente que as estrelas empalideceram quando ela fez a fotografia viajar pelas galáxias.» Retomo assim uma questão já abordada aqui, desta vez aduzindo a análise de Olívia Maria Figueiredo e de Eunice Barbieri de Figueiredo no Dicionário Prático para o Estudo do Português (Porto: Asa Editores, 2003, p. 26): «Quando um advérbio constitui o centro de uma oração, pode ter como complemento uma subordinada: Certamente (tenho a certeza) que ele te ama.»

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Léxico: «retranca»


Agora sim

A partir de agora, ao recontarem um filme de piratas, já não precisam de dizer que o capitão Blood se pendurou do «pau» e se lançou sobre quatro bucaneiros inimigos. Para o interlocutor não ficar na retranca, acrescentem que andam a ler o blogue do Helder Guégués. Assim mesmo. «“O indivíduo estava a manobrar a retranca [vara de madeira na base da vela, perpendicular ao mastro] e terá sido atingido acidentalmente na cabeça por esta estrutura da embarcação”, disse ao DN fonte da Marinha» («Buscas para encontrar tripulante», Luísa Botinas, Diário de Notícias, 1.12.2008, p. 20). Boa prática, já aqui a recomendei, esta de explicar os termos desconhecidos.

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Sobre «Zimbabwe»

Expliquem lá


      É verdade que o Diário de Notícias também opta por grafar Botswana, mas nunca deixa de me fazer espécie que escreva Zimbabwe, quando a esmagadora maioria da imprensa opta pelo nada forçado aportuguesamento Zimbabué. Por outro lado, grafa sempre Missuri, e Havai, e Baamas. Não queria chamar-lhe incoerência — mas é isso que chamo.

Actualização em 17.12.2008

      A Academia Brasileira de Letras recomenda que se escreva «Zimbábue, respeitando-se a pronúncia do termo, acentuado por se tratar de paroxítono terminado em ditongo crescente, como em tênue».

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«Anticrise»

Estímulo ortográfico

      As televisões não deixam de falar no pacote de apoio à economia, o novo filão informativo. O pior é que, sempre desleixadas e fazedoras de semianalfabetos, escrevem «anti-crise». A primeira página do Público de hoje vem lembrar até a certos revisores que afinal a incúria não é completa e há quem se importe.


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Sobre «mawlawi»


Nisto penso

A imagem acima reproduz uma página do Regulamento (CE) n.º 803/2008 da Comissão, de 8 de Agosto, que instituiu certas medidas restritivas específicas contra determinadas pessoas e entidades associadas a Osama Bin Laden, à rede Al-Qaida e aos talibãs. Como se vê, até em documentos oficiais se opta por maulavi em vez de mawlawi. Uma vez que são ambos títulos, e com origem próxima, quem opta por escrever mulá/mulás também deverá escrever, esperamos, maulavi/maulavis. De resto, já o tenho dito, não podemos esperar que todos os vocábulos estejam nos dicionários. Nem comungo da ideia de que a «ânsia de aportuguesar as palavras» seja «uma irritante obsessão». Como toda a gente já saberá a esta hora, isso não me bole com os nervos, antes o contrário.

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Género de «jeans»

Trans

      «Era alto, o que o fazia parecer ainda mais magro, as jeans ficavam-lhe largas nas pernas compridas e tinha as mãos, esguias, elegantes e ossudas apoiadas, de palmas para cima, nos joelhos» (Doris Lessing. O Sonho mais Doce. 2.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Editorial Presença, 2007, p. 23). «Estava bonito, com uma camisa muito fashion, às listras coloridas, jeans rasgadas nos joelhos» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 115).
      Os dicionários, contudo, registam o género masculino. «Punha lacinho e camisa rendada por baixo de um casaco de marca, mas com jeans comprados invariavelmente na loja da Union Square, sendo os outros, segundo ele, falsificações baratas, indignos de um talentoso informático» (Pepetela. O Terrorista de Berkeley, Califórnia. 2.ª edição. Revisão de Rui Viana Pereira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 13).

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Recensão

Quatro estrelas

      Quem é que não aprende com as críticas literárias? Bem, muita gente. Hoje trago um exemplo de crítica (um excerto, na realidade, a crítica na íntegra pode ler-se aqui) que tem utilidade para leitores, tradutores e revisores. Infelizmente, não abundam os exemplos de críticas assim, pois é mais fácil colar meia dúzia de frases da própria obra, duas citações, e já está.
      «Nota: É uma pena que a edição portuguesa do livro de Robert Fisk tenha tantas falhas de tradução e revisão. Dois exemplos graves: confundir a cidade de Hama, na Síria, onde as forças sírias de Hafez al-Assad massacraram mais de 20 mil pessoas em 1982, com o movimento islâmico palestiniano Hamas (p. 213); dizer que a grande diva árabe Umm Kulthoum é “um cantor egípcio” (p. 421) — para quem não sabe que “Umm” significa, em árabe, “mãe de…”, uma busca no Google evitaria isso. Também o primeiro-ministro israelita, em 1990, é Ytzhak Shamir e não Ytzhak Rabin, como está na página 387. Depois, temos “montes Golãs” em vez de Montes Golã, “Cúpula da Rocha” em vez de Cúpula do Rochedo. E porquê escrever “Ramalá” e “Ramallah”? A ânsia de aportuguesar as palavras (chariá, xador, burca...) é uma irritante obsessão. Se optaram por “mulá”, então por que deixaram “mawlawi”, o plural de “mawla”, termo árabe de que deriva o persa “mullah”? E já agora outro esclarecimento: não há “mujahedines” nem “ulemas”, porque “mujahedin” é o plural de “mujahid” (combatente) e “ulema” é plural de “ulama”. A lista é longa, infelizmente» («As guerras de Fisk», Margarida Santos Lopes, recensão da obra A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk. Edições 70, tradução de Victor Silva e Miguel Mata. Público/Ípsilon, 5.12.2008, p. 44).
      Algumas observações. Na verdade, não é montes Golãs nem Montes Golã, mas montes Golã. Mawlawi, a par de mulá, é lamentável. Mujahedines (e mujahidines) foi a grafia corrente durante muito tempo na imprensa portuguesa. Actualmente, vê-se mais mujaidines, aportuguesamento mais coerente. Há muitos anos que se usa ulemá/ulemás na língua portuguesa.

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Locuções adverbiais

Na verdade

Confirmo tudo, cara Luísa Pinto: «com certeza» é assim que se escreve, razão por que pode ser classificada como locução, e adverbial porque equivale, funciona como advérbio — certamente, por exemplo. Mas compreendo a sua perplexidade, quando leio esta definição: «As locuções adverbiais — o núcleo é um advérbio: Ela a cada passo vem visitar-me» (Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo. Dicionário Prático para o Estudo do Português. Porto: Asa Editores, 2003, p. 277). Os autores de prontuários e de gramáticas deviam explicar que os termos desempenham, nas referidas locuções, a função de advérbios — não são advérbios.

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Orações interrogativas indirectas

Podia ser, mas outra coisa seria

«— A Margaret pergunta o que está a fazer?» (O Sonho mais Doce, Doris Lessing. 2.ª ed. Editorial Presença, 2007, p. 250. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues). É com alguma frequência que vejo este erro, que já aqui referi uma vez, nas traduções que revejo. No caso, grave é encontrá-lo numa obra publicada. Dupla falha: da tradutora e do revisor.
As orações subordinadas interrogativas indirectas são introduzidas por um verbo transitivo de sentido interrogativo (na frase em apreço, perguntar) e terminam com um ponto final. Apenas as interrogativas directas, bem como as interrogativas de eco, terminam com um ponto de interrogação. Nos cursos de Tradução aborda-se esta questão, que, de elementar, é esquecida até pelos melhores tradutores.

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«Passatempo»: aglutinada ou justaposta?

E agora?

      Um grupo de alunos escreveu-me para me comunicar que no livro de exercícios Oficina de Gramática, para o 2.º Ciclo, da autoria de Ermelinda S. Silva et al. (3.ª ed., Edições Asa, 2004), o adoptado na escola, na ficha relativa à formação de palavras da página 145 se pede que o aluno encontre, num conjunto de palavras, aquela que não é composta por justaposição. O conjunto inclui: passatempo, arroz-doce, guarda-sol, papa-formigas e fidalgo. Na página 205, as soluções dão «fidalgo» como sendo a única palavra que não é formada por justaposição. Até aqui, tudo bem. O pior é que o manual adoptado, Novo Português em Linha, de Maria do Céu Vieira Lopes e Dulce Neves Rola (5.ª ed., Plátano Editora, 2007), também numa ficha informativa, na página 80, inclui a palavra «passatempo» (a par de outras, como aguardente, malmequer e planalto) entre as que são formadas por aglutinação. Quid juris?
      A primeira dificuldade na análise poderá ser o facto de o vocábulo não ter hífen. Se o tivesse, estaríamos inequivocamente perante um vocábulo formado por justaposição, já que nenhum composto por aglutinação se escreve com hífen. Contudo, «passatempo» não tem hífen, pelo que tanto poderia ser formado por justaposição como por aglutinação. Nos vocábulos formados por aglutinação, verificam-se algumas alterações ortográficas nas palavras unidas e o acento tónico apenas se mantém na última. Nos vocábulos formados por justaposição, os constituintes mantêm a integridade fonológica. Logo, o vocábulo «passatempo» inclui-se entre estes últimos.


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Tradução: «ranchito»

Bem instalados

Agora imaginem que se lia isto no original: «Los ranchitos de los suburbios de Caracas o las favelas de Río eran casas de ricos comparadas con los tugurios de un barrio pobre de Adís Abeba o Nairobi.» Um tradutor inexperiente e desatento traduziria assim: «As quintinhas dos subúrbios de Caracas ou as favelas do Rio eram casas de ricos comparadas com os tugúrios de um bairro pobre de Adis-Abeba ou Nairobi.» Os ranchitos, na realidade, são bairros-de-lata nos arredores de Caracas, na Venezuela. Já vi muito pior do que isto em traduções de livros.

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Interjeição «ó»

Ó rapariga….

Ao entrar numa biblioteca e ver o livro Ruca Tem Medo de Crescer (adaptado e traduzido por Sara Costa e publicado em 2007 pela Asa Editores), a minha filha começou a trautear a música da série televisiva. Pôs-se a folhear o livro. Por curiosidade, acompanhei-a nessa descoberta. Ao contrário do que devia ser, estes livros são muitas vezes escritos com os pés. É o caso. Numa página, lê-se: «Ó, não! Também a Sara a falar de ficar mais velha! E ainda por cima parece estar feliz com isso.» Sintacticamente, a interjeição ó integra sempre um vocativo. Onde está ele na frase citada, ó tradutora? Por outro lado, ó editor, então andamos a poupar na revisão, é?

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Verbo «haver», de novo

Que paciência...

A jornalista Paula Silva, do 24 Horas, foi ler, para nos contar, o que escreveu Santana Lopes de Marcelo Rebelo de Sousa no seu blogue. Já no fim da peça, escreve a jornalista: «Sobre as faltas dos deputados do PSD, na passada sexta-feira, nas votações no Parlamento, Santana pergunta quantas faltas terão havido no tempo de Marcelo» («Santana atira-se a Marcelo», 24 Horas, 9.12.2008, p. 11). Mas não: ainda que Pedro Santana Lopes não escreva em português recomendável, não perguntou com essas precisas palavras, o erro crasso é da plumitiva: tivesse escrito «terá havido» e não estaria eu aqui. Uma jornalista….

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Tripla adjectivação

3-adjectivos-3

Tarde tórrida de Maio. Liceu Nacional de Bissau. Numa turma, vários grupos estão enfronhados na estatística (há muitas maneiras de desviar os alunos do gosto da leitura) da adjectivação tripla num conto de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma, duas, três… trinta. «O nevoeiro da noite ainda não se tinha levantado e tudo estava envolvido numa grande nuvem branca e suspensa.»
Manhã chuvosa de Dezembro. Lisboa. «Oh! A coçada carreirinha dos três adjectivos a rabejarem ou a apilararem o substantivo, anjinhos de procissão a repuxarem o manto da Verónica, ou tocando corneta à frente! Os fatalíssimos três adjectivos, foguetes de três respostas em orago sertanejo! “Soava o sino da ermida, plangente, choroso e triste!”» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 217).

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Acordo Ortográfico

Arthur Conan Doyle. O Atleta Desaparecido.
Lisboa: Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1934

Fahrenheit 451


Se fosse, e outros antes de mim o tivessem sido, catastrofista e tonto, o livro de que reproduzo acima uma página não teria sobrevivido aos acordos ortográficos. Tezouro, vêr, pôço, sêco, êle, fôrça, fôra, hombro não impedem, nem pouco mais ou menos, uma leitura corrente. A propósito: já fui contratado por duas editoras para, já em Janeiro, rever duas obras segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Era como eu aqui facilmente predizia: enquanto os teóricos vão argumentando do bem ou mal fundado das alterações, os revisores são os primeiros a ter de estudar e aplicar as novas regras.

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Plural de «cidadão»

Imagem: http://www.overmundo.com.br/

Podia belamente ser

De vez em quando oiço na rádio, e se fosse precaucioso já aqui teria deixado os nomes dos prevaricadores, alguém dizer «cidadões». Agora leio isto na Procissão dos Defuntos, de Tomaz de Figueiredo: «Andou o processo asinha, e já a 29 de Fevereiro de 1836 era extraído o júri, doze cidadões, consoante o escrivão asneou, ou então eu asneio, com o reparo, se a formação desse plural era ao tempo correcta, o que pode belamente ser» (2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 136).
Em relação aos vocábulos em -ão, temos uma só forma no singular e três formas no plural, o que é sumamente confuso. O ideal seria termos apenas um plural — em -ões, por exemplo, de longe o mais produtivo. Contudo, não foi esta a evolução da língua.

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Talvez + indicativo?

Mas há


      Sim, caro M. L., o advérbio «talvez» impõe o uso de uma forma verbal no modo conjuntivo, mas na literatura encontram-se inúmeros exemplos em que é usado o modo indicativo, e em autores de grande valia, como o deste exemplo que aqui deixo: «Ainda agora ignorava porquê: talvez supunham que abusava de se ver já senhora das suas acções em tão pouca idade» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 42).


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Uso da maiúscula

Inexplicável

      No que diz respeito ao uso da maiúscula inicial, fico sempre espantado quando vejo nas traduções disparates como grafar com minúscula o nome de uma instituição ou associação. Recorrente é, por exemplo, escrever «partido comunista». Lê-se no original, suponhamos: «The CIA had had its hands full fighting off a Communist insurgency in Greece, while in Italy the Communist Party had come within a whisker of electoral triumph.» Sai isto: «A CIA tinha combatido com dificuldade uma insurreição comunista na Grécia, enquanto na Itália o partido comunista estivera a um passo da vitória eleitoral.» Será um caso de primarismo ortográfico ou político?

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Elisões e revisores

Como é?

      A revista Visão (edição n.º 816, 23 a 29.10.2008, pp. 118-24) foi ouvir António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares a conversar. A jornalista, Sara Belo Luís, fez, e ela própria o confessa, figura de corpo presente. Esteve lá, mas apenas para gravar a conversa. Disse Gonçalo M. Tavares: «Os verbos que não estão são os que não fazem falta. Lembro-me de uma discussão com um revisor por causa de uma elisão. Mas para quê? Estar lá era apenas uma forma de mostrar que eu sabia que o correcto era estar. Não acrescentava nada.»
      A observação parece supinamente inteligente — mas sê-lo-á? Vejamos. Desconheço a frase em causa (e nunca discuto com autores), mas se se tratar, suponhamos, de uma frase com elisão do verbo, isso é perfeitamente gramatical: são as chamadas frases nominais. Se se tratar, por outro lado, de evitar a repetição de um verbo, isso também é gramatical, é correcto. Experimentemos com esta frase de João de Araújo Correia: «Não dava esmola nem sequer os bons-dias a ninguém, mas, era capaz de jejuar dias a fio para acender uma vela no altar de Nossa Senhora do Carmo» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 85). Suponhamos agora que um revisor atoleimado, que os há, queria enfiar ali à fina força um verbo. Assim: «Não dava esmola nem sequer dava os bons-dias a ninguém, mas, era capaz de jejuar dias a fio para acender uma vela no altar de Nossa Senhora do Carmo.» Pobre literatura, pobre autor. Adeus, zeugma.

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«Paçal» e «passal»

Elucidados estamos


      Isso de Lousal se grafar assim ou com z tem muito que se lhe diga. Quanto a José Pedro Machado, citado como argumento de autoridade, cuidado. Lembro-me sempre que na página 275 do tomo VIII do Grande Dicionário da Língua Portuguesa se lê paçal: «Terra à margem, anexa ao presbitério, paço ou casa paroquial.» Contudo, na página 453 do mesmo tomo lê-se passal: «Recinto ou terra de horta junto das igrejas paroquiais, que servia para horta, pomar e logradouro dos párocos, curas ou capelães.» Nenhum dos verbetes tem remissões para o outro. Como é então: paçal ou passal? Aqui, falhou como dicionarista e como etimologista. Em nenhum outro dicionário encontro registado «paçal». Mesmo na literatura, só passal, como no conto «O Doutor Hermenegildo», de João de Araújo Correia: «Foram até o largo da igreja. À sombra do templo, aninhava-se uma casinha branca de sobrado e loja. Era o passal» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 35).

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Sobre «salvamento»

Salve

      É curioso que o plano para o BPP (Banco Privado Português) seja de salvamento e não de salvação. Alguém disse, e pegou de raiz. Há, actualmente, uma notória preferência pelas formas curtas. Tanto é assim, que, por vezes, as pessoas até se/me perguntam se determinados substantivos têm a forma em -mento. Na imprensa, vejo «ajustes» e «reajustes», em detrimento de «ajustamentos» e «reajustamentos». De resto, por todo o lado se vêem governos de salvação nacional, não pela salvação da nossa alma, mas pela salvação da Democracia e da Liberdade, bastas vezes mais palavras do que conceitos a que os políticos se agarram como a pessoalíssimas tábuas de salvação. Outras vezes, são juntas de salvação. No Exército de Salvação, muitos encontram autênticas bóias de salvação, e, se tiverem sido marinheiros, coletes de salvação. Na Salvation Army da Tenison Road, Cambridge, tenho eu encontrado bons livros por tuta-e-meia (não por uns pénis, pois não vou por ), salvatério para muitas horas.

 

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Emendas a vermelho

Imagem: De Vinne, T. L. : The invention of printing. London, 1877

A cor que impressiona



      Talvez venha desta prática o uso ainda hoje das emendas a vermelho: «Os primeiros livros impressos continham poucas faltas, graças ao cuidado e à instrução dos tipógrafos, secundados, além disso, pelos filólogos que assinalaram a época do Renascimento. As gralhas eram corrigidas à mão pelo impressor, e semelhante método praticaram [Ulrich] Gering, em Paris, e [William] Caxton, em Inglaterra, que corrigiam à pena e em tinta encarnada as faltas de impressão que haviam cometido» (Manuel Pedro (Pai). Correcção de Provas Tipográficas. Porto, 1973, p. 41). O impressor alemão Gering, com oficina em Paris, foi o prototipógrafo que, juntamente com Martin Crantz e Michael Friburger, introduziu os tipos romanos, embora ainda híbridos, que tiveram em Aldo Manutio o grande divulgador.

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Tradução: «Jap»


Pura coragem

      O que é preciso é coragem. Substantivo e adjectivo, Jap entrou no inglês no final do século XIX, habitualmente com sentido depreciativo, para designar os Japoneses. Em português, porém, não temos um termo correspondente. Temos para chinês, por exemplo. Na tradução de Mere Anarchy, de Woody Allen, Jorge Lima inovou: «O que se passa é que eu desencantei um génio desconhecido que cozinha canções-sucesso como os japos vomitam Toyotas» (Lisboa: Gradiva, 2007, p. 98).

Actualização em 28.12.2008

      «Japonoca», que foi sugerido nos comentários, foi usado no filme Momento da Verdade 3 (The Karate Kid III, no original), com tradução de Ana Cristina Ferreira.

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Pronúncia

Assim, rimo-nos nós


      Se fosse vivo e ouvisse José Hermano Saraiva pronunciar «crònista», João de Araújo Correia fartar-se-ia de rir. «Sustentar, à fina força, na palavra derivada, a pronúncia da palavra primitiva é incomodar a prosódia da língua portuguesa» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959]).

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Abuso de estrangeirismos

Para fugir


      O fascínio pelos estrangeirismos continua a deixar às escuras os leitores da imprensa. Tome-se este excerto de uma notícia («Outro leilão e é oficial: a arte está em crise», Inês Nadais, 8.11.2008, p. 21) do Público: «O mercado da arte moderna e contemporânea voltou a dormir mal, ontem, depois de mais um leilão em underacting na Christie’s de Nova Iorque: a leiloeira vendeu, mas não vendeu tanto como esperava, tendo ficado 100 milhões de dólares (cerca de 77 milhões de euros) abaixo da fasquia, já de si muito defensiva, estipulada em função das obras incluídas no lote.»
      Para os leitores, e são milhares, que não sabem o que significa underacting, e para os quais estar lá underacting ou Unterspielend é rigorosamente igual, é um desrespeito. Estrangeirismos, sim, mas os estritamente necessários, e estes, se não forem muito conhecidos, explicados. Não me parece uma regra difícil de compreender nem de aplicar.
      Mas o fascínio chega a isto: usarem-se palavras estrangeiras que não interessam ao leitor. Ou melhor: que não adiantam nem atrasam. Decorativas. Um exemplo de hoje: «De acordo com o Centro Marree de Veneza (Centro das Marés), as águas subiram mais de metro e meio, alimentadas pelas chuvas e empurradas pelo vento que afectam toda a Itália. Mais de 95% do centro histórico da cidade dos canais ficou inundado na que foi considerada a maior acqua alta (cheia) desde 1986» («Veneza vive piores cheias em 22 anos», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 2.12.2008). Muito bonito, sim senhores. E se a mim, como leitor, me interessar muito mais como se diz barco em italiano, para poder fugir?

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Fazer alto e parar

Mas vendo bem


      Fiquei surpreendido com o número de vezes que Silveira de Mascarenhas, na tradução de A Study in Scarlet, escreve «fazer alto». Escavei na memória e, que me lembre, só em livros que li na passagem da infância para a adolescência li tal locução. Na página 101, por exemplo, lê-se: «Ao chegarem ao sopé do monte escarpado, fizeram alto e entretiveram um breve conselho.» No original, lia-se: «On reaching the base of the bluff they halted, and held a short council among themselves.» Não duvido, contudo, da vernaculidade, pois também li recentemente no conto «Perdão» de João de Araújo Correia: «O director de montaria, chegando a uma clareira, fez alto» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 132). E no romance Procissão dos Defuntos, de Tomaz de Figueiredo (2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 34): «De longe em longe a cavalgada fazia alto, e logo as duas botavam as cabeças aterradas fora da liteira.»

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A propósito de «manif», de novo

E ainda

      Faltou dizer algo importante sobre a redução vocabular «manif», que abordei aqui. Sim, senhores, é palavra plena e não abreviatura, como o Diário de Notícias grafou, mas — e a flexão em número? Não será manif/manifs, claro. (Nem será, caro Fernando, prof/profs.) Vamos lá afeiçoá-las ao português: manife, profe. Agora sim, podemos pluralizá-las correctamente: manifes, profes. É a opção do Expresso. Será a opção de muitas pessoas a partir de hoje.

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Sobre o vocábulo «alerta»

De sobreaviso


      No programa Os Dias do Futuro de sábado passado, na Antena 1, Rosa Duran, astrónoma, professora universitária e fundadora do Núcleo Interactivo de Astronomia (NUCLIO), disse: «O que eu sugiro às pessoas é que fiquem alertas ao nosso site e vejam aquilo que nós vamos promover ao longo do ano e que participem, participem em tudo o que vai ser disponibilizado no Ano Internacional da Astronomia, não só do NUCLIO, mas de todas as associações, todas as instituições que vão celebrar essa festa, não é?» Errado. O vocábulo alerta, nesta frase, é invariável, porque é um advérbio. Fiquem alerta.

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Tradução: «mantelpiece»

Imagem de cornija da lareira: http://karolinescorner.blogspot.com/

Nunca antes



      Ontem acabei por ir ler Um Estudo em Vermelho na íntegra. A edição, já sabem, é a da colecção «9 mm», do Público, e o tradutor Silveira de Mascarenhas. Em diversos trechos da obra se refere a «escarpa da lareira». «Diante da porta havia uma lareira pretensiosa, cuja escarpa imitava o mármore branco», lê-se, por exemplo, na página 39. Também a tradução de Hamílcar de Garcia se refere à «escarpa da lareira». Procurei no original (ler ou ouvir) a palavra que se pretendia traduzir com o termo «escarpa», que, confesso, nunca tinha lido ou ouvido referido a qualquer elemento de uma lareira. «Opposite the door was a showy fireplace, surmounted by a mantelpiece of imitation white marble.» Mantelpice, então. Sempre vi a palavra traduzida por «lintel» ou «cornija», e é essa a designação correcta. Arthur Conan Doyle agradeceria.


Actualização em 23.05.2010


      «Não ia à sala de estar havia mais de uma semana e agora deambulava pelo espaço enorme, examinando quadros e fotografias como que pela primeira vez, passando uma das mãos sobre os móveis e apanhando objectos do lintel da lareira» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, pp. 151-52).


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