Como se escreve nas revistas

«Caso acompanhe a queixa»?

      O empresário António Ferreira, marido da fadista Mariza, apresentou queixa-crime contra um administrador da empresa Plurijogos, da qual é sócio. «Caso o Ministério Público angolano acompanhe a queixa, está prevista uma pena de prisão entre dois a oito anos ou, em alternativa, “degredo temporário”» («Marido de Mariza apresenta queixa por falsificação», Sábado, n.º 402, p. 18).
[Texto 999]

Como falam os políticos

Nem advérbios, nem preposições...

      Guimarães, Capital Europeia da Cultura em 2012. Ontem, antes do stravinskiano O Pássaro de Fogo, Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, afirmou: «A cultura, o conhecimento e a inovação não são meros adjectivos, pelo contrário, são elementos substanciais de qualquer processo de crescimento ou de relançamento económico.»
[Texto 998]

Quase Destouches

Mas bem pensado

      «Ne chassez pas la nature, elle revient au galop.» Assim acaba Vasco Pulido Valente a sua crónica de hoje, toda dedicada a Cavaco Silva, que quer ser um de nós e não é. A frase, porém, está um tudo-nada deturpada. «Chassez le naturel, il revient au galop», escreveu Destouches na peça Le Glorieux, em 1732, inspirado, diz-se, numa frase de Horácio nas epístolas: «Naturam expellas furca, tamen usque recurret.» O que conta é a intenção...
[Texto 997]

Reforma ortográfica de pantufas

Dona Aspulqueta 
e as infidelidades de Oscar

      Oscar Mascarenhas, provedor do Diário de Notícias, parece que não está nem a favor nem contra o Acordo Ortográfico. Parece, porque no meio de tantas palavras fica-se aturdido. «Ou segundo o Acordo ou segundo o desacordo. O DN que escolha. Com a brevidade que o serviço ao leitor exige.»
      «Tenho assistido – sem grande vibração, diga-se – à troca de opiniões, mais ou menos acaloradas, mais ou menos profundas sobre a questão do Acordo Ortográfico. Descaracterização da língua, submissão ao brasilês, com tudo se argumenta, até com o “matriotismo” obstinado do “foi assim que me ensinou a minha santa professora da escola primária”. [...] Pois é, não me venham com fidelidades às nossas professoras porque há muito que as traímos – eu sempre a contragosto – quando aceitámos uma outra reforma ortográfica, que veio de pantufas não sei quando e nos mandou deixar para trás o critério fonético da ortografia, partindo do princípio que “toda gente” sabe pronunciar as palavras, pelo que não é preciso estar com muitos rigores. Essa sim, foi a reforma que desfigurou a nossa ortografia – mas onde estavam os que deviam protestar e me deixaram (ainda hoje) vox clamantis in deserto?» («(Des)Acordo Ortográfico separa os “maquisards” dos vende-pátrias”?», Diário de Notícias, 21.01.2012).
      Afinal, por quantas reformas ortográficas passou Oscar Mascarenhas, que nasceu em 1949?

[Texto 996]

A convidada anfitriã

Vá para bordo

      «Porque da fúria ao humor a distância é curta, já estão à venda em Itália T-shirts com a frase “Capitão, volte para bordo”, usando a frase do oficial da guarda-costeira [sic] que falou com Schettino depois do naufrágio» («Tripulação do navio tentou negar naufrágio», J. A. V., i, 21.01.2012, p. 11).
      Não, não, J. A. V., a frase não é essa. «Já circulam por Itália t-shirts onde se lê a frase “Vada a bordo, cazzo!”, o que, em versão suavizada quer dizer qualquer coisa como “Regresse a bordo, porra!” Ou seja, a cobardia do comandante Francesco Schettino já entrou no anedotário nacional» («Concordia. O comandante cobarde», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 4). «Vá para bordo, caralho!» Veja aqui. O texto tem outros erros. «Ontem, [Domenica] Cemortan, anfitriã do cruzeiro, veio garantir em entrevista a um jornal moldavo que não é amante do capitão como foi sugerido.» Convidada do capitão — é anfitriã. E não é amante como foi sugerido — mas de outra forma, talvez. Enfim, assim se escreve nos nossos jornais. Cazzo.
[Texto 995]

«Megagrupamentos»!

Primeiro estranha-se,
depois detesta-se

      «Ensino profissional e alunos de risco excluídos de megagrupamentos», era o título que se podia ler na página 7 da edição de ontem do i. Verdade seja dita que no artigo, assinado por Kátia Catulo, não aparecia. Deve ter sido o «criativo» da redacção.
[Texto 994]

«Se dúvidas houvessem»!

Em breve numa livraria

      «E se dúvidas houvessem sobre a veracidade da história, o agente da PSP desfez todas e mais algumas» («A teoria do número Primo ou o estranho caso do primo invisível», Sílvia Caneco, i, 21.01.2012, p. 31).
      Quando se escrever a história da língua, dir-se-á que, no início do século XXI, a forma canónica era residual. À cabeça da contestação, estavam os jornalistas. Absolutamente lamentável.
[Texto 993]

«Espiar uma pena»!

Caem em todas

      «O rapaz, agora com 31 anos, espia uma pena de homicídio qualificado no Estabelecimento Prisional do Funchal. O Supremo Tribunal de Justiça acaba de lha baixar de 19 para 17 anos, crendo-o “arrependido”, a viver “em sofrimento”» («O psicólogo que matou a amada», Ana Cristina Pereira, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 8).
      Nas Reflexões sobre a Língua Portuguesa, de Francisco José Freire, lê-se: «Expiar e espiar têm notável diferença, e não se deve confundir a pronunciação do ex com a do es; porque expiar é reparar o desatino de um crime com acções satisfatórias. [...] Pelo contrário espiar é observar clara ou ocultamente o que se passa.» Uns anos antes, Madureira Feijó escrevera pouco mais ou menos o mesmo. Ou seja, é confusão que já vem muito de trás.
      Do Livro de Estilo do Público (que os jornalistas do Público, essa é que é essa, não lêem): «espiar / expiar — Dois verbos a não confundir: à família do primeiro pertencem espião, espia e espionagem; à do segundo, (bode) expiatório.»
[Texto 992]

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