Interditar mais a sul

Ou antes

      O Laboratório Nacional de Engenharia Civil fez uma inspecção à Ponte D. Maria II, em Lagos, e afirma que há perigo iminente de desmoronamento. A ponte foi encerrada ao trânsito. O vice-presidente da Câmara Municipal de Lagos, António Marreiros Gonçalves, estudou profundamente o relatório e pode afirmar: «Apesar de ser um relatório ainda preliminar, diz que nós devemos encerrar, ou devemos interdir, a passagem a viaturas e a peões.» Talvez o relatório estivesse escrito em francês, interdire. Não, não: a explicação há-de estar na analogia com o verbo — mais conhecido de qualquer autarca — «intervir».

[Texto 1099]

Como se fala na rádio

... base, sustentáculo...

      Jornalista Jorge Correia, no noticiário do meio-dia na Antena 1: «Whitney Houston passou os últimos com vários problemas sentimentais, de dinheiro e de carreira. Estava, de resto, prestes a ficar na rua, sem casa, se não fosse o suporte e apoio dos seus amigos mais próximos.»
[Texto 1098]

Léxico: «palude»

Fora dos dicionários

      «Quem visita o Sudão do Sul fica com a impressão de que esta é uma terra de contrastes, a começar pela geografia e pelo clima: as savanas secas alternam-se com as paludes e as florestas tropicais; o calor intenso da estação seca contrasta com a humidade da estação das chuvas.» Nunca tinha visto, fora dos dicionários, a palavra «palude». Directamente do latim, é o mesmo que pântano, paul, lagoa. «Paludismo» tem aqui raiz. Quem usou a palavra só se enganou no género, que é masculino.
[Texto 1097]

Infinitivo pessoal e impessoal

E quem não ficaria?

      «A questão dos infinitivos flexionados continua a dar-me cabo da cabeça, e não encontro solução para ela», escreve-me um leitor habitual do blogue. «Será o gosto pessoal o único critério?» A dor de cabeça foi agravada — e com que razão! — por este parágrafo da crónica de Pacheco Pereira no Público de ontem: «O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os “preguiçosos”), cultivando um egoísmo social assente em pretensos “direitos adquiridos” (“autocentrados”); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma “cultura empresarial”, capazes de correrem riscos (“competitivos”), sem cuidarem de terem “direitos” para subirem “por mérito” na escala social (“descomplexados”). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa» («A nova luta de classes», p. 32).
[Texto 1096]

Sobre «hipster»

Degenerámos

      «Existe o mito de que os espanhóis traduzem tudo: expressões idiomáticas, termos técnicos, nomes de bandas. Não é verdade, apenas são suficientemente confiantes para arriscar em neologismos mais patrióticos. Por isso, frente a alguém que engole tendências de moda com a mesma rapidez com que muda de banda indie favorita, nós, os portugueses[,] dizemos que “é da cena”, escapando ao objectivo de classificar o objecto, ou que é um “hipster”, um estrangeirismo preguiçoso e reconfortante. Um espanhol diz, com todo o orgulho latino, que vai ali um “moderno”. Assim mesmo, a carregar no erre» («Moderna de Pueblo. Com a modernice (não) me enganas», Margarida Videira da Costa, «Liv»/. i, 11.02.2012, p. 8).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora apenas regista neste verbete: «antiquado termo designativo de determinadas pessoas com certas semelhanças com os beatniks e igualmente integradas na Beat Generation». Falta um sentido, por sinal bem moderno. Já sugeri, porque, além de criticar, temos de contribuir activamente para as coisas mudarem.
[Texto 1095]

Debaixo da língua

Muito parecido

      E chamou nomes aos polícias? «“Não tenho precisão de ter dito isso, mas se calhar, tinha sido agredido. Mandaram-me contra a viatura. Não é assim que se interpreta as pessoas.” O que Jorge queria dizer é que não é assim que se aborda, ou se intercepta as pessoas» («Crime do Jorge Povinho. Quando um tipo se armou no Zé e fez um manguito aos agentes de autoridade», Sílvia Caneco, i, 11.02.2012, p. 29). Será, Sílvia Caneco? Há-de ser «interpela».
      «Namorados em lua-de-mel, de vez em quando trocavam lentos beijinhos. E calhou trocarem um desses beijinhos quando passavam perto de um polícia. Ora, o polícia não gostou e interpelou o casal: essas eram maneiras de andar na rua?» (Estórias Contadas, Germano Almeida. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 177).
[Texto 1094]

«Pirete», de novo

Segunda vez

      «Jorge exemplifica com a mão esquerda: um pirete em plena sala de audiências» («Crime do Jorge Povinho. Quando um tipo se armou no Zé e fez um manguito aos agentes de autoridade», Sílvia Caneco, i, 11.02.2012, p. 29). Foi a juíza que pediu. Só não percebo é porque é que a jornalista ora fala de manguito ora de pirete. Estava nervosa, há-de ser isso, e baralharam-se-lhe as palavras e as imagens na mente. Eu é que não podia deixar passar em claro o «pirete», pois é a segunda vez — lembram-se? — que deparo com a palavra.
[Texto 1093]

Dama de Ferro

Sabe-se lá

      «A propósito do lançamento do filme em que Meryl Streep vive a vida da primeira-ministra, um pequeno debate sobre a Dama de Ferro (nome que, ficamos a saber, foi dado por um general russo num artigo do “Pravda”)», lê-se na rubrica «Janela Indiscreta», da autoria de José Couto Nogueira, na edição de hoje do i (p. 43).
      Até que enfim que vejo isto bem escrito. É verdade que por alguém a quem ouvi, há mais de cinco anos, que não há variante brasileira da língua portuguesa, mas língua brasileira. Eu deixei-me rir, mas há-de ser porque nunca fui ao Brasil.
[Texto 1092]

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