Como se fala no Parlamento

Dizem que é poeta

      Deputado Mendes Bota, a ler no Parlamento: «O que nós precisamos é de um PS interessado verdadeiramente no interesse nacional e que não tenha declarações políticas, essas sim verdadeiramente piegas como aquela a que aqui assistimos.»
[Texto 1075]

Como se escreve nos jornais

Mes recommandations face au froid

      «O número de mortos proporcionado pela vaga de frio que assola a Europa fez mais de 450 mortos ao longo da última semana. Muitas das vítimas são sem-abrigo» («Governante francesa aconselha sem-abrigo a “evitarem saídas” por causa do frio», Hugo Torres, Público em linha, 8.02.2012, 15h38).
      É como um espectáculo, lindas emoções nos proporciona o frio. E o texto é sobre o deslize de Nora Berra, a secretária de Estado da Saúde francesa, que aconselhou no seu blogue certos grupos de risco, como agora se diz, a não saírem de casa. Entre eles, os sem-abrigo! Que não saiam de casa, coitados... Agora, depois de toda a chacota, já apagou os sans-abri.
[Texto 1074]

Faculdade de Letras e AOLP90

Não passarão

      «A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) não vai implementar o novo Acordo Ortográfico oficialmente mas também não tomará uma posição contra porque não tem uma política de ortografia. A reitoria diz que o assunto ainda não foi discutido. Há quem seja a favor do acordo e quem seja contra mas a faculdade, por enquanto, não assumirá uma posição» («Faculdade de Letras de Lisboa sem posição sobre o acordo», Cláudia Carvalho e Isabel Coutinho, Público, 8.02.2012, p. 5).
      Implementar, pois... E que «política de ortografia» havia de ter uma faculdade, mesmo de Letras?
«O “site” da Faculdade de Letras de Lisboa está com a grafia antiga, como sempre esteve e não será alterado. “Se alterássemos estaríamos a ter uma posição política de ortografia e por isso vamos mantê-lo”, diz Feijó [director da Faculdade de Letras], alertando que em termos de imperativos legais o acordo não está completamente em vigor. “Eventualmente a faculdade poderá vir a ter que tomar uma decisão, mas eu não antecipo quando será”.»
      Entretanto, na página da internet do CCB ainda vemos visitas guiadas «monumentais, espetaculares» e mesmo, para lá de toda a controvérsia em torno da ortografia, «perfomáticas». É difícil pôr tudo a funcionar bem.
[Texto 1073]

«Jura/juramento»

Bem, mas

      «O primeiro-ministro britânico, David Cameron, elogiou-lhe [a Isabel II] “a dignidade e a autoridade tranquila” e o arcebispo de Cantuária destacou o “serviço generoso” prestado ao país. A monarca, que ontem manteve uma agenda discreta, declarou-se “comovida” com as homenagens. “Consagro-me hoje de novo ao vosso serviço”, anunciou, repetindo uma jura antiga e deixando claro que o trono será seu enquanto for viva» («Reino Unido. Isabel II, a serena, subiu ao trono há 60 anos», A. F. P., Público, 7.02.2012, p. 18).
      O jornalista não deveria ter escrito «juramento»? Sim, são sinónimos — jura e juramento —, mas neste contexto é mais adequado «juramento».
      «Ali estavam “todos os grãdes, titulos & Fidalgos destes Reynos”, com um cerimonial não sumptuoso, embora digno, para o juramento do novo monarca» (História de Portugal: a Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa: Editorial Verbo, 1997, p. 24).
[Texto 1072]

Sobre «desapontamento»

Passo

      «Albert Speer, o arquitecto do Reich, afirmou que Eva Braun “iria provar-se um grande desapontamento para os historiadores”. Um mistério trágico e medíocre» («Nascimento de Eva Braun, a amante de Adolf Hitler», «P2»/Público, 6.02.2012, p. 2).
      Desapontamento é anglicismo desnecessário, como qualquer falante reconhecerá. E há-de ser, digo eu, por Garrett declarar, no prefácio da Lírica de João Mínimo, que tem virtudes expressivas que nem sequer Montexto o enjeita. Por mim, embora saiba perfeitamente que está muito enraizado na nossa língua, detesto-o. «Nunca agradeceremos demasiado», escreveu José Gomes Ferreira, «a Garrett este abençoado anglicismo: desapontamento
[Texto 1071]

Outro colocanço

É uma doença

      «O antigo ministro da Cultura de José Sócrates José António Pinto Ribeiro não conseguiu provar em tribunal que o jornal Expresso deturpou as suas declarações numa entrevista que concedeu ao semanário em 2008. O Ministério Público arquivou a queixa por difamação e Pinto Ribeiro foi colocando recursos até chegar ao Tribunal Constitucional» («Pinto Ribeiro perde processo contra Expresso», Maria Lopes, Público, 6.02.2012, p. 9).
      Que desgosto, Maria Lopes, que desgosto, então agora é assim que escreve? «Colocando recursos»!

[Texto 1070]

Hortaliças e legumes

Chegámos aos canos

      «Aliado a este programa de exercício, está ainda a divulgação do consumo de comida saudável, nomeadamente de legumes e frutas frescas» («Michelle Obama foi ao tapete, mas venceu Ellen», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 3.02.2012, p. 53).
      Legumes, legumes, sempre os legumes... Não fica nada de fora? Acabei de ir a um supermercado Continente e comprei uma embalagem de 250 g de bicarbonato de sódio, onde se lê: «Na cozedura de hortaliças e legumes ajuda a manter a cor e o sabor.» No meu caso, é para desentupir os canos do lava-loiças e do lavatório. Não há melhor. Despeja-se no cano meia chávena de vinagre branco e meia chávena de bicarbonato de sódio. Tapa-se o ralo. Ao fim de 15 minutos, despeja-se nele uma chaleira de água a ferver.
[Texto 1069]

Como se escreve nos jornais

E a propósito de siglas e acrónimos

      «A marca [Bruma] nasceu em 2002, mas a história da empresa recua a 1953, quando o sogro de Baldomero [Talaia] e dois outros sócios abriram uma fábrica em Vila Nova de Famalicão, a Fermacar – o diminutivo e a junção dos três apelidos: Ferreira, Marques e Carneiro» («As torneiras que fazem correr água pelo mundo», Sónia Simões, Diário de Notícias, 3.02.2012, p. 34).
      Cara Sónia Simões, tem a certeza de que sabe o que é um diminutivo? Confira: palavra formada com um sufixo que expressa a ideia de pequenez ou valores afetivos (carinho, intensidade, etc.).

[Texto 1068]

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